Você é mestre quando aprende

Por Ana Lagôa e Juliana Cirne

Ouvir o professor Antonio Carlos Gomes da Costa falar sobre educação é ao mesmo tempo deleite e desconforto. Deleite porque suas palavras se sustentam em erudição da melhor qualidade e uma vida dedicada à luta pela melhoria das condições do nosso ensino. Desconforto porque ele nos coloca questões prementes deste que é talvez o grande desafio do século XXI – educar para a nova sociedade dando forma e sentido humano a essa mesma sociedade. Consultor de projetos educativos da Oi Futuro, ele falou para a Revista do Planeta sobre esse desafio. Pedagogo. Mineiro. Trabalhou na Febem, em Minas Gerais, e na Organização Internacional do Trabalho (OIT), em Genebra, Suiça. Fez parte da equipe de peritos do Comitê dos Direitos da Criança, da Organização das Nações Unidas (ONU) e da equipe que criou o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

revistapontocom – O que é afinal a educação interdimensional?
Antonio Carlos Gomes da Costa – A UNESCO criou uma comissão Internacional sobre Educação para o século XXI com o propósito de fechar o debate pedagógico do século XX (fazer um balanço) e visualizar as trilhas e expectativas para o século XXI. Este trabalho conjunto foi coordenado por Jacques Delors, então, Ministro da Cultura da França. A respeito dos fins da educação, o relatório afirma: A educação deve contribuir para o desenvolvimento total da pessoa – espírito e corpo, inteligência, sensibilidade, sentido estético, responsabilidade social, espiritualidade. Todo ser humano deve ser preparado especialmente graças à educação que recebe na juventude, para elaborar pensamentos autônomos e críticos e para formular seus próprios juízos de valor, de modo a poder decidir por si mesmo nas diferentes circunstâncias da vida. A educação interdimensional é a proposta pedagógica que procura articular os fins e os meios da ação educativa, visando tornar real esta expectativa com base numa visão do homem, do mundo e do conhecimento consistente com as exigências dos novos tempos. O relatório nos fala da necessidade de uma educação pluridimensional e assim fundamenta sua necessidade: Contesta-se a pertinência dos sistemas educativos criados ao longo dos anos – tanto formais como informais – e a sua capacidade de adaptação é posta em causa. Estes sistemas, apesar do extraordinário desenvolvimento da escolarização mostraram-se, por natureza, pouco flexíveis e estão à mercê do erro de antecipação, sobretudo quando se trata de preparar competências para o futuro.

revistapontocom – Em que princípios teóricos o senhor se baseou para compor esse quadro teórico?
Antonio Carlos Gomes da Costa – Eu me baseei nos quatro pilares da educação do Relatório Delors: no ideal antropológico da educação brasileira artigo segundo da Lei 9394/96 formulado por Anísio Teixeira; e na concepção do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). Os quatro pilares da educação são as quatro grandes aprendizagens: aprender a ser, aprender a conviver, aprender a fazer e aprender a conhecer. Com base neles, eu defini quatro competências básicas: competências pessoais, competências relacionais, competências produtivas e competências cognitivas. Para cada grupo de competências foi definido um conjunto de habilidades a serem dominadas pelos educandos.

revistapontocom – Em que medida pensadores da educação como Freinet, Dewey, Anísio Teixeira estão presentes no seu pensamento e na sua pedagogia?
Antonio Carlos Gomes da Costa – Estes educadores têm algo em comum. Todos eles se inscrevem na grande escola de pensamento da educação ativa, que é a base metodológica da educação interdimensional. Eles vêem o educando, não como recipiente passivo de conhecimentos, habilidades e atitudes, mas, como fonte de iniciativa (ação), liberdade (opção) e compromisso (responsabilidade).

revistapontocom – No que a educação interdimensional difere das correntes mais em moda na educação?
Antonio Carlos Gomes da Costa – Em vez de privilegiar apenas a dimensão do logos (racionalidade), a educação interdimensional valoriza o eros (corporeidade), o pathos (sentimentalidade), e o mytho (espiritualidade).

revistapontocom – Em que medida a educação interdimensional muda o modo de trabalhar do nosso professor?
Antonio Carlos Gomes da Costa – A educação interdimensional implica para o professor mudanças profundas de conteúdo, método e gestão. Mudanças de conteúdo (o que ensinar), mudanças de método (como ensinar) e mudanças de gestão (como conduzir o processo aprendizagem-ensino).

revistapontocom – O que a educação interdimensional traz de valores para nosso estudante?
Antonio Carlos Gomes da Costa – Uma nova postura diante de si mesmo e de sua circunstância baseada no que Erich Fromm chama de ética biofílica. Uma ética de amor, zelo e respeito pela vida em todas as sua manifestações, que se traduz em quatro cuidados básicos. Autocuidado (cuidar de si mesmo), altercuidado (cuidar do outro), ecocuidado (cuidar do ambiente em que vive) e transcuidado (cuidar dos significados, sentidos e valores que presidem a sua existência). A educação interdimensional é, por isso mesmo, uma educação para valores.

revistapontocom – Por que a educação interdimensional anda de mãos dadas com a tecnologia?
Antonio Carlos Gomes da Costa – Estamos vivendo dinamismos que tendem a transformar aceleradamente o processo civilizatório como a globalização, o fim da Guerra Fria, a desmaterialização do trabalho, a era pós-industrial, a revolução do conhecimento. Neste novo cenário o acesso às tecnologias da comunicação e da informação tornaram-se uma necessidade básica do ser humano.

revistapontocom – O que o senhor aconselha ao professor que está diante deste mundo novo da informação e da comunicação e muitas vezes se vê pressionado ou alijado?
Antonio Carlos Gomes da Costa – Aconselho aos professores serem educadores e, ao mesmo tempo, educandos. Mestre – ensina Guimarães Rosa – é quem, de repente, aprende. Temos de aprender todos os dias, inclusive, com nossos educandos.

Educadores e comunicadores se unem para atrair os estudantes

I Seminário Oi Futuro

Numa cinzenta segunda-feira, em pleno feriado, Dia do Professor, o planetapontocom e o Oi Futuro conseguiram mobilizar comunicadores e educadores, que lotaram os 84 lugares do teatro da rua Dois de Dezembro, no Flamengo (RJ), sede da área cultural da OI, para discutir e tentar entender como lecionar para os jovens desta geração ‘tudo-ao-mesmo-tempo-aqui-e-agora’.

Como inovar a educação brasileira a partir da valorização da comunicação e do uso da tecnologia e, enfim, tirar a escola da crise de audiência que vive: essa foi a tônica dos debates que reuniram especialistas de universidades, da iniciativa privada, da mídia e de projetos sociais no ‘I Seminário Oi Futuro – Educação e Tecnologia’. Veja as fotos do evento.

O primeiro tema em debate – ‘A educação brasileira hoje’ – contou com a apresentação de Nelson Maculan, secretário de Educação do Estado do Rio de Janeiro, Samara Werner, diretora de Educação do Oi Futuro, com mediação de Fernando Rossetti, Secretário-geral do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE).

O jornalista Zuenir Ventura foi mediador da discussão sobre o uso da mídia e da comunicação em sala de aula – a mídia-educação como instrumento de revitalização da escola brasileira – com apresentações de Rosália Duarte, professora do Departamento de Educação da PUC-Rio, Ismar Soares, coordenador do Núcleo de Comunicação da ECA/USP e Silvana Gontijo, presidente do planetapontocom.

As experiências bem-sucedidas de fundações, empresas públicas e escolas brasileiras foram representadas pelos projetos: Rede CEP – Alexandre Aydar (SP); Multirio – Empresa Municipal de Multimeios (RJ) – Regina de Assis; Centro de Ensino Experimental Cícero Dias (PE) – Mariana Várzea; Ciep Dr. Adão Pereira Nunes (RJ) – Gisela Cordeiro e Tonomundo (RJ) – André Couto, com mediação de Jacinta Rodrigues, coordenadora de jornalismo do Canal Futura.

O painel de encerramento reuniu os jornalistas Jacinta Rodrigues, Zuenir Ventura e Fernando Rossetti, que, questionados por Samara Werner (Oi Futuro) e Ana Lagôa (planetapontocom/Nece/Univercidade), falaram sobre as perspectivas da educação no Brasil, a partir dos projetos trazidos para o encontro, reforçando a necessidade de unir esforços e talentos para trazer a escola para perto de seu público.

Jornalistas na berlinda Matita Pereira Matita Pereira Rosália Silvana Gontijo Silvana Gontijo Rosália e Ismar Samara Werner Debate Nelson Maculan Nelson Maculan Ismar Soares e Alexandre Aydar Samara, Fernando e Nelson