A vez do jornalismo cidadão

Mario Lima Cavalcanti fala sobre o surgimento do jornalismo participativo 

mario-cavalcanti.jpg

Por Priscilla Leite 

Eu, mídia – a era cidadã e o impacto da publicação pessoal no jornalismo é o nome do livro que o jornalista Mario Lima Cavalcanti acaba de organizar e publicar. Diretor executivo do site Jornalistas da web e professor de marketing móvel no curso de pós-graduação em gestão de marketing digital da FACHA, Mario pretende fazer com que os leitores reflitam sobre a nova ordem dos processos comunicacionais, com foco no jornalismo cidadão.

Segundo Mario, o jornalismo cidadão ou participativo está diretamente ligado à nova ordem dos processos comunicacionais, onde o receptor passar a ter o papel de emissor. “Estamos presenciando diversas mudanças culturais, que não propositadamente vieram para acabar com tradições”, analisa.

Para o jornalista e professor, neste novo cenário, os jornalistas e os cidadãos se complementam, coexistem a fim de um bem comum. “O conteúdo cidadão, mesmo aquele vídeo mais banal postado no YouTube, é a coisa mais bonita que já surgiu nos últimos anos”, comemora.

Acompanhe:

revistapontocom – Como podemos definir jornalismo participativo? Como ele surgiu e por quê? Ele está diretamente ligado ao acesso e à democratização das novas tecnologias, especialmente a internet?
Mario Lima Cavalcanti
– O jornalismo participativo ou jornalismo cidadão pode ser didaticamente definido como um estilo de jornalismo onde o cidadão participa, integralmente ou parcialmente, do processo de produção de notícias. É certo que o jornalismo participativo ganhou força com as potencialidades das novas mídias e com a popularização da internet e de recursos de captura e reprodução audiovisual, como telefones celulares, tocadores de MP3, gravadores portáteis e câmeras digitais.
 
revistapontocom – Podemos dizer que o jornalismo cidadão é fruto de uma nova relação que se estabelece, hoje, entre a sociedade e a informação?
Mario Lima Cavalcanti
– Sem dúvida. O jornalismo participativo está diretamente ligado à nova ordem dos processos comunicacionais, onde o receptor passar a ter o papel de emissor. Estamos presenciando diversas mudanças culturais, que não propositadamente vieram para acabar com tradições. Aquela cultura de anos atrás, de a família parar tudo no horário nobre para todos sentarem no sofá e assistirem juntos à televisão, é algo que não vemos mais com tanta força. E isto ocorre por diversos motivos. A velocidade do cotidiano mudou; as ofertas de informação são maiores; e muitas pessoas preferem buscar e interagir com o conteúdo em vez de simplesmente recebê-lo.
 
revistapontocom – Vivemos um novo tipo de jornalismo? O jornalismo tradicional de décadas atrás está acabando?
Mario Lima Cavalcanti
– Prefiro dizer que presenciamos novos ingredientes, novos canais e novos recursos na prática do jornalismo. Tanto os cidadãos quanto os jornalistas, mesmo os das redações de jornais mais arcaicas, se beneficiam hoje de recursos que, quase que imperceptível, se infiltraram em nossas vidas. Sistemas de busca, comunicadores instantâneos, sites de redes sociais, telefonia via internet, mini dispositivos de armazenamento de informação (cartões de memória, pen drives etc.) e os já mencionados aparelhos pessoais de captura e reprodução audiovisual são diariamente úteis no processo de construção de notícias, que serão publicadas por jornalistas ou por pessoas comuns.

revistapontocom – Neste sentido, todos os cidadãos podem ser jornalistas? Qual é o lugar do profissional da área?
Mario Lima Cavalcanti
– Todos os cidadãos são potencialmente produtores de informação e de conteúdo. Não podemos esquecer que um jornalista profissional que aprendeu técnicas próprias do ofício, que envolvem apuração, confirmação de fonte, checagem de informação, revisão, redação e por aí vai. Isso, obviamente, na teoria. Os jornalistas e os veículos de comunicação, com toda a certeza, não são donos da verdade. E, assim como em todos os ofícios, existem indivíduos profissionalmente incapacitados. Em contrapartida, vejo algumas pessoas que não são jornalistas, mas que possuem, digamos, um senso de apuração, um senso jornalístico magnífico. Quanto ao lugar do profissional da área, vale lembrar que uma das principais funções do jornalista é fazer a informação chegar sem ruído até o receptor. Um novo papel do jornalista profissional, nesse contexto de jornalismo cidadão, é o de mediador. Ele vai continuar produzindo informação, mas ele, trabalhando em um veículo cidadão ou que cede um certo espaço exclusivamente para o público, ganha a importante função de classificar e de organizar o que é apresentado pelo público. No fim das contas, continuará fazendo o que sempre fez, mas agora tendo os cidadãos como novas fontes. Quando falamos em jornalismo cidadão, é importante refletirmos que um não anula o outro. Os jornalistas e os cidadãos se complementam. Estão aí para coexistirem a fim de um bem comum. Na maioria das vezes, os cidadãos são excelentes capturadores de informação, algo a ser fortemente aproveitável, e os jornalistas são excelentes organizadores dessas informações.

revistapontocom – Quem ganha com a implantação do jornalismo participativo?
Mario Lima Cavalcanti
– Os jornalistas, os cidadãos, toda a sociedade. Os veículos podem chegar aonde não chegavam antes. O mundo todo passa a ter acesso a informações que não tinham antes. Novamente, é bom termos em mente que os cidadãos, como produtores de informação em grande escala, chegaram para coexistirem com os profissionais de jornalismo. As notícias, antes publicadas nos jornais e vendidas como se fossem a janela do que acontece no mundo, passam a ser veiculadas ao lado de outras. O conceito de janela do mundo vai por água abaixo, mas por um bom motivo, que interessa a todos.

revistapontocom – O jornal O Globo vem investindo pesado neste jornalismo colaborativo e participativo? Espalhou outdoors e anúncios convidando a população a participar, fotografando e opinando. O que isto significa?
Mario Lima Cavalcanti
– O Globo está, sem dúvida, estimulando e convidando a população para contribuir com aquela informação que muitas vezes só ela tem acesso: flagras, denúncias e notícias de uma comunidade distante ou prejudicada. É um bom trabalho em prol do jornalismo participativo. A campanha “mais que um jornal de papel”, forte na cidade do Rio de Janeiro, utilizou praticamente todos os tipos de espaços publicitários convencionais e alternativos: outdoors, jornais, revistas, televisão, mobiliários urbanos, painéis digitais em shoppings e aeroportos etc. Isso foi muito lúcido. Quando um veículo faz uma manobra como essa, ele está reconhecendo a importância da sociedade como produtora de informação. Ele sabe que tem muito a ganhar com o que é registrado pelas pessoas, sem contar que isso amplia o seu papel de responsabilidade social. Existe também um lado comercial, empreendedor, astuto em toda essa história. Pessoas fazendo registros em grande escala já é um cenário comum em todo o mundo. Está acontecendo. E os veículos não iriam ficar fora dessa.

revistapontocom – O jornalismo participativo é um caminho sem volta? O que virá depois disso?
Mario Lima Cavalcanti
– Se voltássemos, voltaríamos para onde? O jornalismo participativo não é um hype. Ele veio para acrescentar muito na vida de todos. Entretanto, como em grande parte de todo novo cenário de expressão massiva, a poeira tende a baixar e aos poucos se configurará em um processo de seleção natural dentro desse novo universo de informação, o do conteúdo cidadão, que já veio na cola do também gigantesco universo da informação online. É preciso, como já dito, organização, apuração, ética, respeito, todos esses atributos pregados pela boa prática do jornalismo. O conteúdo cidadão, mesmo aquele vídeo mais banal postado no YouTube, é a coisa mais bonita que já surgiu nos últimos anos.

revistapontocom – O que os leitores encontrarão no seu recente livro Eu, Mídia, organizado pelo senhor?
Mario Lima Cavalcanti –
O livro Eu, Mídia busca fazer com que as pessoas reflitam justamente sobre essa nova ordem dos processos comunicacionais. O subtítulo A era cidadã e o impacto da publicação pessoal no jornalismo coloca em primeiro plano o papel dos cidadãos como produtores de informação. É uma obra que mostra, com muitas referências e exemplos, a importância do jornalismo cidadão, mas sem protecionismo ou romantismo. Cada capítulo foi escrito por um jornalista com perfil de pesquisador e que de alguma forma está envolvido com projetos de conteúdo cidadão. Temos no livro nomes de peso no jornalismo online brasileiro, como Pollyana Ferrari, Raphael Perret e Raquel Recuero. Cada capítulo busca tratar o jornalismo cidadão de um ângulo diferente: um fala sobre a relação do jornalismo cidadão com os telefones celulares; outro aborda o conteúdo cidadão nas redes sociais; já outro fala sobre o poder dos blogs como proliferadores de informação; e por aí vai.

Fórum Livre de Direito Autoral

A Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro promoverá, nos dias 15, 16 e 17 de dezembro, o Fórum Livre de Direito Autoral – o domínio do comum, em parceria com o Ministério da Cultura (MinC) e Rede Universidade Nômade.

O Fórum se propõe a ampliar as discussões sobre os impasses da atual legislação sobre propriedade intelectual, buscando compatibilizar a proteção legal dos direitos com o acesso à cultura, num cenário de mudanças sociais e tecnológicas que subverte as relações tradicionais com o direito autoral.

A cultura do compartilhamento e da cópia, o uso educacional e não-comercial de filmes, livros e música, o direito de acesso aos bens culturais, a criminalização dos consumidores, as novas formas de licenciamento e de remuneração do autor e os impasses e desafios para criadores e produtores serão debatidos por teóricos, professores universitários, advogados, líderes de movimentos sociais, empresários e estudantes.

Participarão do Fórum alguns dos maiores especialistas em capitalismo contemporâneo, como o italiano Antonio Negri e o norte-americano Michael Hardt, autores de Império e Multidão

Clique aqui e veja a programação completa

Sorria, você está sendo filmado!

Você já parou para pensar o quanto a sua vida diária está sendo monitorada? Monitoramento ininterrupto em todos os espaços. revistapontocom traz curiosidades, informações e dicas para saber mais.

    

     Elas estão por toda parte…                                 Será uma utilidade pública necessária?
        As câmeras estão por toda parte.                          Será uma utilidade pública necessária?

        Inglaterra: pesquisa indica que é o país mais vigiado do mundo.                              Indústria gerou 13,5 bilhões em 2006. Previsão para 2013 é de 46 bilhões.
        Inglaterra: país mais vigiado do mundo.                 Indústria: 13,5 bilhões em 2006.

       Há monitoramento móvel.                              Inclusive feito por robôs.
        Há monitoramento móvel.                                      E inclusive feito por robôs.

         Cultura da vigilância já chegou aos brinquedos.                            Pais inclusive pagam para vigiar seus filhos na escola.
         Cultura já chegou aos brinquedos.                        Pais vigiam seus filhos na escola.

                Pesquisadora Marta Mourão Kaschaniro aponta três estágios de vídeo-vigilância.  Pesquisadora Marta Mourão Kanashiro, da
                                                                   Unicamp, aponta três estágios de vídeo-vigilância.

                1982-1995: “Cameras as a suggestion”. Destinadas a segurança privada. 1982-1995: “Cameras as a suggestion”.
                                                                    Destinadas à segurança privada.

                1995-2003: “Cameras as an obligation”. Expansão da indústria. Uso passa a ser justificado pelos índices de criminalidade. 1995-2003: “Cameras as an obligation”.
                                                                   Expansão da indústria. Uso passa a ser 
                                                                   justificado pelos índices de criminalidade. 
                                                                   Demanda por obrigatoriedade.

                2003-2005: “Cameras for survival and for international commerce”. Uso se estende ao comércio internacional, à segurança pessoal e à sobrevivência. Estados investem em políticas de segurança. 2003-2005: “Cameras for survival and for
                                                                    international commerce
”. Uso se estende
                                                                    ao comércio internacional, à segurança pessoal
                                                                    e à sobrevivência. Estados começam a investir
                                                                    em políticas de segurança.

              Show de Truman: ficção ou realidade? Show de Truman: ficção ou realidade?

              Visibilidade, vigilância e subjetividade nas novas tecnologias de informação e de comunicação. Saiba mais no blog da pesquisadora Fernanda Bruno, da UFRJ.Saiba mais. Visibilidade, vigilância e subjetividade
                                                                 nas novas tecnologias de informação e de
                                                                 comunicação é o tema do blog da pesquisadora
                                                                 Fernanda Bruno, da UFRJ.


Texto Marcus Tavares
Fotos – Reprodução/Divulgação e Priscilla Leite 

(Re)lendo o mundo

Projeto: (Re)lendo o mundo pelas histórias de vida: o memorial do assentamento 30 de maio
Instituição: Escola Municipal de Ensino Fundamental Pio XII
Localização: Charqueadas, Rio Grande do Sul

A Escola Municipal de Ensino Fundamental Pio XII, localizada em Charqueadas, Rio Grande do Sul, foi uma das vencedoras do 1º Prêmio Nacional Educação em Direitos Humanos, promovido pela Organização dos Estados Ibero-Americanos para Educação, Ciência e Cultura (OEI), em parceria com o Ministério da Educação, a Secretaria Especial dos Direitos Humanos e a Fundação SM. Com o trabalho (Re)lendo o mundo pelas histórias de vida: o memorial do assentamento 30 de maio, a instituição tirou o primeiro lugar na categoria Educação em direitos humanos na escola pública.

Em 2006, 22 agricultores do assentamento 30 de maio decidiram voltar aos estudos depois de longos anos afastados da vida escolar. Entre as várias atividades que realizaram, uma delas foi o registro de suas histórias de vida, por meio do qual puderam compreender melhor trajetórias marcadas por lutas e conflitos pela posse da terra e, assim, as múltiplas realidades que cercam o aluno assentado. Assim nasceu o Memorial do Assentamento 30 de maio, com fotos e objetos que contam a história de vida das 48 famílias que hoje constituem o assentamento.

O projeto teve o objetivo de refletir e recuperar a historia de vida de cada aluno assentado, procurando sistematizar essas experiências em sala de aula; de conhecer e respeitar diferentes modos de vida, em diversos tempos e espaços, em suas mais diversas manifestações; de oferecer instrumentos que possibilitassem ao aluno questionar a sua realidade, identificando problemas sociais e refletindo a respeito de algumas de suas possíveis soluções; e de sistematizar as histórias de vida dos alunos a partir de sua inserção no Movimento dos Sem Terra (MST).

Clique aqui e conheça as outras escolas vencedoras.

Contato
Escola Municipal de Ensino Fundamental Pio XII
Rua Pará, 187, Charqueadas, Rio Grande do Sul
Telefone (51) 3958-8494

Escola do século XXI

Quando a tecnologia digital vai chegar, de fato, às escolas? Evento realizado no Núcleo Avançado em Educação (NAVE), no Rio de Janeiro, debateu esta e outras questões

O uso do celular é proibido na sala de aula, não entra de jeito nenhum. Computadores só podem ser utilizados nos laboratórios de informática. Na internet, o acesso às redes sociais, como o orkut, é negado. Televisão? Nem pensar. Jornais, histórias em quadrinhos, ipods idem. Para muitos professores, atitudes que fazem todo sentido. Para outros, um obstáculo à interação entre alunos e educadores.

Luli Radfahrer, Ph.D. em comunicação digital pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), foi um dos palestrantes do evento Tecnologia e educação: uma nova escola para um novo aluno, realizado no mês passado, no Núcleo Avançado em Educação (NAVE), no Rio de Janeiro.

O professor falou sobre a importância da revolução digital na vida do estudante. Para ele, o uso das tecnologias digitais nas escolas ainda é praticamente inexistente. E, para piorar, muitos professores teimam em ignorar ou proibir o uso das tecnologias de comunicação interativa.

“É aquela velha história de se temer o que se desconhece. Essa resistência pode até livrar a cara de um ou outro por enquanto, mas no médio prazo é demolidora. Qualquer aluno que use o computador em casa, na lan house ou com os amigos sabe de sua importância nas relações sociais e provavelmente suspeita de sua importância nas relações profissionais. Ao ver seu professor rejeitar a tecnologia, o estudante entra em conflito”, afirma Luli.

Para ele, é um erro dos professores e das escolas lutar contra as linguagens da mídia que a cada dia tornam-se mais populares e acessíveis. “Se os professores não entenderem que os tempos mudaram, o sistema atual vai à falência. A escola de hoje deve reconhecer o ambiente digital e permitir que os alunos o utilizem de forma construtiva. Se o aluno não vê valor no que está sendo ensinado, ele não aprende. Mas se a escola mostrar que existem coisas legais, o próprio aluno irá em busca da aprendizagem”, destaca.

Fazendo coro às afirmações de Luli, o estudante Cauã Alves Campos de Figueiredo, aluno do 1º ano do NAVE, complementa: “Casa, escola, livro, computador… Hoje, não temos mais diferentes mundos, vivemos num equilíbrio, no qual aprendemos a gostar dos livros e a controlar o uso da internet. Acho que a escola do século XXI pode e deve buscar exatamente este equilíbrio”.

Realizado pelo Oi Futuro em parceria com a Secretaria de Estado de Cultura, o encontro também contou com a participação do jornalista e blogueiro Beto Largman; do professor em Stanford na área de novas tecnologias para educação, Paulo Blikstein; e da diretora pedagógica da Escola Parque no Rio de Janeiro, Patrícia Konder Lins e Silva. O grupo Lens Kraftone, que entre outras novidades utiliza o controlador do jogo Wii como instrumento musical, fez uma apresentação multimídia.

Maluco por tecnologia

Se você é maluco por tecnologia, não perca esta oportunidade: a Faculdade de Informática e Administração Paulista (Fiap) está recebendo, até o dia 31 de dezembro, inscrições de vídeos para o concurso Malucos por tecnologia.

Qualquer pessoa pode participar. Basta preencher a ficha de inscrição no site da instituição e fazer um vídeo com, no máximo, dois minutos de duração, mostrando o quanto você adora informática e tecnologia. O curta deve ser postado no YouTube, com o título “Sou maluco por tecnologia”. O edital traz todo o passo a passo.

Os 30 vídeos mais assistidos serão avaliados por um júri. O melhor ganhará um computador portátil.

Informações e inscrições no site
http://www.fiap.com.br/portal/index

Vamos aprender com a MPB?

Projeto: Vamos aprender com a MPB?
Responsável: Adriana Rodrigues
Instituição: Centro Municipal de Educação Infantil Vovô Zezinho
Localização: Salvador, Bahia

A música popular brasileira resgata o interesse pela cultura em crianças de uma escola da periferia de Salvador. Meninas e meninos de cinco e seis anos cursam a educação infantil, mas já sabem de cor canções de Guilherme Arantes, Marisa Monte e Ivan Lins. Conseqüência do projeto da professora Adriana Rodrigues, uma das ganhadoras da edição deste ano do prêmio Professores do Brasil, instituído pelo Ministério da Educação.

A professora de Salvador conta que a idéia do projeto Vamos Aprender com a MPB? surgiu há muito tempo, bem antes de ela lecionar no Centro Municipal de Educação Infantil Vovô Zezinho. “Dei aulas em escola particular por 10 anos e percebi que as crianças tinham bastante contato com assuntos culturais. Quando vim para a rede pública, há três anos, vi uma realidade diferente. Nem cantigas de roda elas sabiam”, lembra.

A partir daí, Adriana começou a pensar em uma maneira de aliar a arte à educação para despertar o interesse das crianças do bairro Arenoso, onde fica a escola. A professora fez uma seleção de músicas e, primeiro, trabalhou a sensibilização dos alunos. Ou seja, tocava a música em sala e ficava atenta às reações. “Achei que não fossem gostar tanto, mas me surpreendi. Todos começavam a dançar, pediam para tocar de novo”, diz.

Adriana passou, então, a ensinar as letras das músicas, por meio de textos. “Embora a turma fosse anterior à alfabetização, os textinhos ajudavam na aquisição da leitura e da escrita. Hoje, alguns alunos já praticamente conseguem ler sozinhos”, conta.

Tarde em Itapoã, de Toquinho e Vinícius de Moraes, foi a canção que as crianças mais gostaram, de acordo com Adriana. “Mesmo em outras atividades, nas brincadeiras ou em passeios da escola, eles ficavam cantando a música. Um dia, cantaram no ônibus durante um passeio e até o motorista se surpreendeu.”

Não só em leitura e escrita, mas em matemática, natureza e sociedade, a professora usa a música para ensinar. O projeto culminou com uma visita ao Teatro Castro Alves. Lá, os alunos conheceram a orquestra sinfônica. “O mais importante desse projeto é mostrar que na escola pública também podemos fazer um trabalho diferente. Todos podem e devem ter acesso à cultura”, destaca Adriana.

Contato
Centro Municipal de Educação Infantil Creche Vovô Zezinho
Rua do Comércio, s/n, Salvador, Bahia
Telefone (71) 3611-7353

Fonte – Portal do MEC

Mídia e educação na sala de aula

Escola de Recife mostra talento e bons resultados no uso da mídia. Alunos participam há três anos de oficinas de rádio, vídeo e jornal  

Quem pensa que o uso de mídia na sala de aula é uma realidade apenas de escolas particulares ou de grandes centros urbanos do país, como o eixo Rio-São Paulo, precisa ficar mais atento. A cada dia que passa, cresce o número de experiências exitosas em todo o país e em instituições públicas, mostrando o quanto é possível e produtivo trabalhar na interface mídia e educação.

Um dos destaques da atual safra de bons projetos vem de Recife, Pernambuco. Há três anos, os alunos da Escola de Referência do Ensino Médio Cícero Dias, localizada em Boa Viagem, participam das oficinas do Espaço Mídia Educação, nas quais atuam como protagonistas e produtores de conteúdo em três áreas: rádio, vídeo e jornal.  Os alunos já colhem bons resultados dentro e fora da escola. Um dos trabalhos – o curta Carbono 14 – participou este ano do Programa Vídeo Fórum da Mostra Geração, segmento infanto-juvenil do Festival do Rio. Alunos e professores estiveram no evento, exibindo a obra e trocando informações.

“Foi muito legal participar do Festival do Rio. O curta mostra como os pesquisadores utilizam o Carbono 14 para datar as idades dos fósseis. A idéia surgiu a partir de um trabalho proposto pelo professor de Química. A turma resolveu fazer uma animação e nos procurou. Estávamos desenvolvendo atividades no Espaço Mídia Educação da escola. Foi um trabalho de equipe que reuniu a turma do professor de Química e nós do Espaço. Fizemos tudo, do roteiro à edição final”, explicam Sheyla Maria, 18 anos, e Tatiana Martorelli, 17 anos, alunas das oficinas de vídeo da escola.

Para o coordenador do Espaço Mídia-Educação, professor Júlio Horta, a riqueza de todo o trabalho está exatamente no processo de produção, no qual um dos objetivos é transformar o olhar dos jovens. “Queremos tirá-los da posição de simples consumidores de mídias. A idéia é transformá-los em consumidores críticos e, mais do que isso, em produtores. Se o aluno desenvolve o olhar critico, ele pode intervir socialmente”, avalia.

De acordo com Júlio, o uso da mídia na sala de aula possibilita uma maior e mais consistente aproximação entre a escola e os alunos e, principalmente, entre os professores e os estudantes. Segundo ele, os projetos do Espaço Mídia Educação são desenvolvidos em paralelo com a rotina da sala de aula. “Não temos um modelo pronto, acabado. Ele é livre e conectado com as diversas áreas do conhecimento. A comunicação entre os professores de sala de aula e o do núcleo de mídia é essencial, como foi o caso do Carbono 14. Utilizamos a mídia para educar, o que torna o aprendizado mais contextualizado, lúdico e prazeroso. O estudante, que antes era apático e desinteressado, está, agora, trabalhando e produzindo. E o professor gerando interesse”, resume.

Que o digam as estudantes Sheyla Maria e Tatiana Martorelli. Segundo elas, ir para a escola não é mais uma obrigação, mas um compromisso que envolve prazer, estudo e aprendizado. “O ensino ficou muito mais interessante. Ao chegar em casa todos os dias, conto para a minha mãe e meu irmão o que aprendi. Até eles ficam felizes. Acho que isso é geral, acontece com todos os alunos”, destaca Tatiana.

Para Sheyla, mexer com câmeras, entrevistar, gravar e editar é instigante. Mas, para que tudo dê certo é preciso estudar também. “Recentemente, propomos à professora de Biologia a realização de um vídeo para falar sobre o metabolismo energético das células. A professora deu sinal verde. Fizemos um telejornal. Pesquisamos, estudamos e dividimos os assuntos ao longo do programa. Na hora de escrever o roteiro, tivemos que nos fazer entender. Para isso, foi preciso conhecer bastante o assunto”, explica.

Na avaliação do professor Júlio Horta, todo trabalho produzido revela o quanto as linguagens da mídia estão alavancando a aprendizagem e a interação entre alunos e professores. “Contamos com a parceria do Instituto Oi Futuro no desenvolvimento desta proposta. Mas acho que qualquer escola, com ou sem parceria, pode e deve desenvolvê-la. É uma idéia que chegou mesmo, que faz todo sentido e que é totalmente relevante para o sucesso da escola e dos alunos”, finaliza.

A interatividade da TV Digital

Luiz Fernando Soares, da PUC-Rio, fala sobre o impacto da TV Digital  

 ginga.bmp

Por Priscilla Leite

Muito se fala sobre a interatividade que a TV Digital vai trazer para o dia-a-dia dos telespectadores. Acessar conteúdos específicos, parar a programação, obter detalhes sobre a cidade em que se passa a novela, fazer compras ou ainda optar por qual ângulo deseja assistir à partida de futebol são apenas algumas das aplicações de interatividade que deverão chegar aos domicílios brasileiros no primeiro semestre de 2009.

O responsável por isso é o Ginga: um software que faz a ponte entre o sistema operacional do receptor da televisão às aplicações de interatividade criadas e disponibilizadas aos telespectadores. Nas palavras dos especialistas, Ginga é o middleware. É a plataforma da interatividade da TV Digital brasileira, 100% nacional, produzida aqui no Rio de Janeiro, por alunos e professores da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio).

Para saber mais sobre o middleware e o seu impacto na rotina dos brasileiros, a revistapontocom conversou com Luiz Fernando Gomes Soares. Considerado o “pai do Ginga”, Luiz é professor titular da PUC-Rio, membro da World Wide Web Consortium, do Conselho de Administração do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto Br, e do Fórum Brasileiro de TV Digital.

Acompanhe:

revistapontocom – Afinal, o que é o Ginga?
Luiz Fernando Soares
– O Ginga é um middleware. É um software que é acoplado aos receptores de TV para dar suporte ao desenvolvimento de aplicações interativas. Ele permite que as aplicações desenvolvidas funcionem em qualquer aparelho de tevê. Além disso, o Ginga também oferece suporte para o desenvolvimento de diferentes interatividades. 

revistapontocom – Quais são essas aplicações/interatividades?
Luiz Fernando Soares
– Cada programa de TV disponibilizará para o telespectador uma série de aplicações interativas de acordo com o seu perfil e objetivo. As opções estarão disponíveis na tela da tevê, que serão ou não acessadas pelo usuário por meio do controle remoto. O telespectador poderá, por exemplo, escolher a música que tocará durante um programa, o cenário, bem como a roupa que o ator estará usando. O Departamento de Artes da PUC-Rio já desenvolveu um programa no qual o ator, digamos, pode fazer ginástica no Jardim Botânico, no Centro ou até mesmo na água e com várias roupas diferentes. Haverá também o aplicativo de câmeras que permitirá que o usuário decida por qual ângulo ele vai assistir a um programa. Em uma apresentação de orquestra, o telespectador poderá escolher entre a câmera que foca o maestro, os instrumentos de corda ou a que enquadra todos os músicos. Ou ainda aquela opção que traz mais de uma imagem na mesma tela. Além disso, os telespectadores também terão acesso a informações adicionais sobre tudo o que estiver sendo exibido pelo programa. No caso da orquestra, ele teria dados de quando a orquestra foi formada, o que ela toca e quem são os músicos.

revistapontocom – O Ginga também permitirá novos formatos de propaganda?
Luiz Fernando Soares
– Sim e durante a programação. Por exemplo, o ator de Matrix, na história do filme, faz uso de uma pilha. Exatamente nesse momento aparecerá no canto do televisor a propaganda de uma empresa que produz aquela pilha. Outro exemplo: esse mesmo artista usa, em uma das cenas, óculos escuros. O telespectador poderá apertar o botão no controle remoto, de cor correspondente ao ícone que aparecerá no produto, e comprá-lo imediatamente. Em um programa de variedade, o telespectador poderá fazer o mesmo que o ator em cena. Exemplo: se o artista, em algum quadro do programa, tiver de escolher entre quatro pratos de comida, o telespectador, de casa, também poderá optar e, quem sabe, pedir para ser entregue em sua residência. Informações nutricionais sobre o prato poderão ser obtidas ao mesmo tempo. O Ginga também vai oferecer um acervo de jogos que terá o objetivo de promover a conscientização do bom uso das mídias. Todas as aplicações também estarão disponíveis no celular e no computador, utilizando a interatividade da mesma forma. Com o Ginga, os programas de TV terão maior oportunidade de utilizar a tecnologia sob uma perspectiva social, educando, informando e dando dicas, inclusive, de cultura e saúde.

revistapontocom – Estamos diante então de uma nova relação entre usuário e tevê?
Luiz Fernando Soares
– O usuário terá acesso a uma programação mais rica e poderá interagir com ela. Ele verá o que quiser e como quiser. Não será mais um telespectador passivo, mas, sim, ativo. Hoje, o máximo que podemos fazer é mudar o canal que estamos assistindo. Com o Ginga, iremos interagir com o conteúdo, alterar a programação, escolher a câmera, o som, o cenário etc. Vamos tomar decisões.

revistapontocom – Neste sentido, toda engenharia de produção da TV terá de ser repensada?
Luiz Fernando Soares
– O produtor de conteúdo terá a oportunidade de criar um programa inovador, completamente diferente do que ele cria hoje. Além disso, ele terá que oferecer ao telespectador a possibilidade de transformar e interagir com o programa. Cada programa será único, no entanto, o usuário, de acordo com as aplicações disponíveis, poderá escolher entre músicas, roupas e informações. Isso, com certeza, exigirá dos criadores e produtores de tevê maior criatividade e trabalho. Um grande desafio. O Ginga revoluciona tudo: a produção, o marketing, o trabalho dos lojistas e até mesmo dos fabricantes. Para dar conta da demanda, a PUC-Rio criou, inclusive, o Instituto de Mídias Digitais, que capacitará alunos de vários departamentos para trabalhar na área.

revistapontocom – O Ginga é um software 100% nacional. O que isto significa para o país?
Luiz Fernando Soares
– Além de significar uma grande economia para o Brasil, o software é um exemplo de trabalho para outros países. A criação mostra que somos capazes de desenvolver inovações. Hoje, o Ginga é o melhor middleware que existe no mundo, o mais completo no oferecimento e desenvolvimento dos aplicativos interativos.

revistapontocom – Quando, de fato, toda essa interatividade chegará às casas dos brasileiros?
Luiz Fernando Soares
– Como produto comercial, acredito que no primeiro semestre de 2009. Ele poderá ser acoplado em qualquer modelo, ano ou marca de aparelho de tevê. A televisão que for adquirida após a comercialização do produto já virá com o software embutido. O mesmo acontecerá com o celular e com o computador. O set-top box [nome que se dá ao conversor que trará o software embutido] deve custar em torno de R$ 400,00, o que deverá baratear com o tempo. Atualmente, o Ginga está sendo utilizado experimentalmente, no Rio de Janeiro, pelas emissoras de TV.