Dois anos no ar: o que pensam os especialistas?

foto_regina_de_assis2Um dos indicadores mais importantes para se aferir as prioridades a respeito dos direitos dos cidadãos brasileiros – aí incluídas as crianças e adolescentes, cidadãos em processo – é a existência de legislação específica e contemporânea que  garanta seus direitos. O direito de acesso e fruição das linguagens  audiovisuais, digitais e impressas de qualidade é relativamente recente no Brasil, mas está previsto na Constituição Federal de 1988, normatizada pela Portaria 1.220/07 que trata da Classificação Indicativa. Esta normatização da lei maior que rege nosso país foi uma conquista muito importante da e para a sociedade brasileira. O processo para obtê-la foi laborioso, exigente e com frequencia penoso, pela incompreensão de setores importantes da sociedade, como parte da classe artística e dos detentores de concessão pública de canais de televisão e  rádio, bem como produtores de jogos eletrônicos, DVDs e conteúdos acessíveis pelos computadores e celulares. No entanto, um significativo contingente de produtores de mídia, artistas, educadores, jornalistas, legisladores, pais e responsáveis se mobilizaram para garantir a nossas crianças e adolescentes o direito de acesso a mídia de qualidade, que faça jus à sua inteligência, curiosidade, criatividade e dignidade. É importante seguir divulgando o que é e quais são os benefícios da Classificação Indicativa, que convida/apoia os produtores de mídia, famílias e educadores a exercerem seu dever cidadão de prover conteúdos atraentes, inovadores, polêmicos, mas dignos, por meio das várias linguagens de mídia, que alimentam corações e mentes de crianças e adolescentes brasileiros. 

– Regina de Assis
Mestre e Doutora em Educação. Consultora em Educação e Mídia
Membro da The World Summit on Media For Children Foundation

ismar3O tema da “classificação indicativa” encontra-se, hoje, onde governo e empresas de comunicação esperam que permaneça: no esquecimento. Ao ceder às pressões das emissoras, respaldadas pela grande mídia, entregando às próprias televisões a responsabilidade de decidir sobre a adequação de suas produções aos horários de exibição, o Ministério da Justiça optou por não se indispor com os formadores de opinião. Bastava-lhe a imagem criada perante a opinião pública de órgão preocupado com a saúde psicológica e com a educação da infância brasileira. Por outro lado, o distanciamento do sistema educativo em relação ao sistema midiático não permite aos educadores nem mesmo que percebam que o problema das produções inadequadas para o público infanto-juvenil exibidas em horários impróprios para este mesmo púbico seja algo que diga respeito à sua missão de formadores das novas gerações. Trata-se, na verdade, de uma questão político-pedagógica que passa pela questão cultural e paradigmática que a antecede: o entendimento do que seja a relação ideal entre comunicação e educação. Louvável é o trabalho de educação para a mídia, empreendido por uns poucos docentes e por organizações não governamentais voltadas para públicos específicos. Resta saber quem cuidará do direito de 40 milhões de estudantes vinculados ao ensino infantil e fundametnal nas escolas públicas e privadas do país a uma educação que permita uma relação de qualidade com a produção da mídia.

– Ismar de Oliveira
Professor da Universidade de São Paulo (USP)
Vice-presidente da World Council For Media Education

25ddd12e_117460dd374_-8000Após o intenso debate público que culminou na reformulação da política de classificação indicativa no Brasil, são inegáveis os avanços obtidos, no caso da televisão, com a edição pelo Ministério da Justiça (MJ) da portaria 1.220 de 2007. Ao contrário do que argumentavam setores do empresariado da comunicação, a medida não representou agressões à liberdade de expressão e nem se mostrou tecnicamente inviável. Ou seja, se integrou plenamente aos mecanismos democráticos, conforme já ocorre há muitos anos em diversos países. Foi possível, assim, a adequação das faixas horárias aos fusos-horários do país, apesar do atraso com que se deu seu efetivo cumprimento (a partir de abril de 2008). Por outro lado, a fiscalização da sociedade e do próprio MJ por meio de processos administrativos mostrou que a política pública não se encerra com a portaria, e que o acompanhamento da programação deve continuar como uma constante. Por outro lado, a despeito dos avanços, algumas questões permanecem complicando o pleno respeito às noves regras. Um exemplo marcante é o descumprimento da lógica das faixas-horárias durante a vigência do horário de verão, que é estabelecido apenas em parte do território nacional. Após uma autorização pouco transparente do MJ, dada em outubro de 2008, as empresas ficaram desobrigadas a respeitar a classificação durante o período do horário de verão. A medida foi questionada pelo Ministério Público Federal em representação junto ao Superior Tribunal de Justiça, que segue avaliando a questão para os próximos anos.

– Fábio Senne
Coordenador do Núcleo de Qualificação e Relações Acadêmicas da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi) 

marcia1No debate acerca das relações entre educação, cidadania e mídia de qualidade, é comum falar-se da necessidade de dar voz e representatividade à sociedade civil nos processos de estabelecimento de diretrizes e critérios de qualidade na programação veiculada pelos meios de comunicação. Pois o Brasil, ao comemorar os dois anos da publicação da Portaria 1.220, que trata da Classificação Indicativa, deve orgulhar-se de ter dado um passo decisivo na direção deste diálogo democrático entre representantes das empresas de mídia, de um lado, e cidadãos, do outro. Nessa entrevista de 2006, José Elias Romão, então à frente do Departamento de Justiça e Classificação do Ministério da Justiça, resume a importância da portaria recém-publicada: “Diferentemente do que muita gente pensa, a Classificação Indicativa não é censura, mas sim um serviço de análise e de produção de informações objetivas sobre conteúdos audiovisuais previsto na Constituição e regulamentado por duas leis federais: a Lei 8.069/90, Estatuto da Criança e do Adolescente, e a Lei 10.359/01. (…) Esse serviço tem por objetivo imediato indicar aos pais e à família a existência de conteúdo inadequado em programas, filmes, novelas, jogos eletrônicos, dentre outras diversões públicas, para determinadas faixas etárias. E, portanto, tem por objetivo mediato proteger os direitos da criança e do adolescente. (publicado em boletim do Instituto de Estudos e Projetos em Comunicação e Cultura, INDECS, em novembro de 2006). Dois anos depois, os efeitos mais palpáveis da publicação da portaria podem ser vistos nas cartelas de indicação da programação dos canais de TV. Mas, a meu ver, um dos aspectos mais bonitos dessa história não está nos resultados, mas na forma como foi encaminhado o processo de elaboração do Manual da Nova Classificação Indicativa: seu conteúdo incorpora os resultados de um diálogo de mais de três anos, entre a equipe do Ministério da Justiça e representantes da sociedade civil e de emissoras e distribuidoras do mercado audiovisual, que incluiu debates presenciais e outras formas de consultas públicas, inclusive através do site do Ministério da Justiça  Trata-se de um verdadeiro modelo de processo democrático e de incentivo ao pleno exercício da cidadania por parte de todos os segmentos da sociedade brasileira. Portanto, esse é um aniversário a ser comemorado por todos os brasileiros, e que esse exemplo nos ajude a criar o hábito de reivindicar espaços de expressão, manifestação reivindicação e diálogo permanentes pelos nossos direitos, em todos os níveis.

– Marcia Stein
Jornalista e consultora educacional

img_5470_chrisfoto11A Portaria 1.220 é um avanço. Porém, apenas a ponta do ‘iceberg’. Ainda temos um longo caminho a percorrer. É necessário mais investimento em programas e ações nas escolas, para que crianças e adolescentes possam desenvolver e formar um espírito crítico em relação aos conteúdos veiculados nas TV’s públicas e privadas do País. Uma legislação mais rigorosa no que se refere à publicidade dirigida à crianças e adolescentes, ao trabalho exercido por crianças e adolescentes na TV e proteção às crianças e adolescentes que têm suas vidas privadas devassadas em programas veiculados nos meios de comunicação do país.

 

– Christiane Sampaio
 Coordenadora no Brasil do WCPRC – Prêmio das Crianças do Mundo pelos Direitos da Criança

Classificação indicativa: dois anos no ar

  

Por Marcus Tavares

A data passou meio que despercebida, mas para muitos defensores dos direitos das crianças e dos adolescentes ela é emblemática. No último dia 12, completaram-se dois anos da publicação da portaria 1.220 do Ministério da Justiça (MJ). O documento estabelece e regulamenta os procedimentos da classificação indicativa dos programas da TV brasileira. A publicação só foi realizada depois de muitas discussões e embates entre a sociedade, o governo e os interesses das empresas de comunicação.

Entre outras medidas, a portaria estabeleceu a autoclassificação, por parte das emissoras, da programação veiculada. Desde então, os canais têm a liberdade de autoclassificar seus programas de acordo com a vinculação, estabelecida pelo MJ, entre faixa etária e horária. Segundo as normas estabelecidas, a programação intitulada ‘livre’ e ‘inadequada para menores de 10 anos’ podem ser exibidas em qualquer horário do dia. Já os programas ‘inadequados para menores de 12 anos’, a partir das 20 horas. ‘Inadequados para menores de 14 anos’, a partir das 21 horas. ‘Inadequados para menores de 16 anos’, a partir das 22 horas. E ‘inadequados para menores de 18 anos’, a partir das 23 horas.

Dois anos de classificação indicativa
O que pensam os especialistas. Clique aqui

Na prática, as emissoras podem autoclassificar a programação da forma que desejarem. Porém, o Ministério da Justiça utiliza três variáveis/conteúdos apresentados para classificar as obras: cenas de sexo, drogas e violência. A autoclassificação das emissoras é endossada ou não pelo MJ, que tem 60 dias, a partir da estreia da produção, para se pronunciar. Programas jornalísticos e os chamados “ao vivo” não são submetidos à autoclassificação.

A portaria também determinou que a autoclassificação das emissoras deve ser veiculada na forma de texto e na Linguagem Brasileira de Sinais (exceto para programas livres e inadequados para menores de 10 anos), durante cinco segundos. A informação terá que ir ao ar, simultaneamente, no início da abertura de cada programa. Os produtos audiovisuais exibidos a partir das 22 horas terão que informar ainda, se for o caso, que tipo de cenas inadequadas são apresentadas aos telespectadores.

Para publicar a portaria, o Departamento de Justiça, Classificação, Títulos e Qualificação (Dejus), do MJ, criou um grupo de trabalho, formado por diversos representantes da sociedade, realizou audiências públicas nas principais capitais do país e promoveu ainda uma consulta pública.

Durante as discussões, representantes das emissoras de televisão tentaram vincular a publicação da portaria com o retorno da censura no país, numa tentativa de derrubar a iniciativa. Por sua vez, instituições civis, governamentais e ONGs se puseram ao lado do Dejus com o objetivo de fortalecer a causa e conseguir implantá-la.

Passados dois anos, a classificação indicativa já faz parte do dia a dia dos telespectadores e ainda gera polêmica, principalmente, quando uma nova novela ou um reality show estreiam ou quando o horário de verão começa a vigorar no país. Especialistas dizem, inclusive, que a fusão de quatro para três fusos horários brasileiros, aprovada no ano passado pelo Senado e com a sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi fruto da pressão das emissoras de televisão, que são obrigadas, pela portaria, a respeitar os diferentes fusos horários.

Para celebrar a importância da classificação indicativa, a revistapontocom que ouvir a sua opinião. O que você acha da classificação indicativa? Trata-se de um avanço? Publique, abaixo, o seu comentário.

Critérios de qualidade para a televisão infantil – Profesor Súper O

Por Hernán Zajec
Produtor da série infantil colombiana Profesor Súper O

El Profesor Súper O trata de bajar los índices de ignorancia con respecto al mal uso de nuestro idioma y a su vez, educar a la población infantil y adulta para el debido uso del lenguaje. No es un programa infantil netamente, es más un programa familiar.

Nuestra empresa arrancó produciendo una serie animada que se llamaba El Siguiente Programa, algunos de ustedes probablemente la recuerdan, era una cosa supremamente irreverente de dibujos animados que peleaba con todo el mundo. Duramos 3 años al aire pero esta serie se acabó porque obviamente no puedes hablar mal de todo el mundo y esperar que la gente te contrate.

El público nos adoraba, éramos número uno en rating y nos sacaron como si nada. A diferencia de 31 Minutos nuestros focus group la sacaban del estadio todas las veces, hemos tenido unos focus group que son impresionantes.

Terminando el Siguiente Programa, RCN se aventuró con nosotros en hacer la primer serie infantil colombiana real que se llamó Betty Toons, los dibujos animados de Bety la Fea, que alcanzó a verse en 30 países. Se ha visto en Israel, en Malasia, en Thailandia, en Perú, en Argentina, en Chile, en Estados Unidos y otros países.  La compró incluso Cartoon Network.  La cosa es que nosotros estábamos desarrollando Betty Toons cuando llegaron con esta idea loca Toño y Martín, alguien con quien ya había trabajado.

Después de darle mil vueltas llegamos a una conclusión.  Cuál fue la salida? Un batman chocoano.  La primera idea que tuvimos y la idea más simple fue hacer un super héroe idiomático, la idea siguiente fue cómo hacer un superhéroe idiomático en este tema aparentemente denso y difícil de llegarle sobre todo a los niños, cómo hacerlo atractivo y cómo hacerlo llamativo y obviamente lo primero que se nos vino a la cabeza fue alejarnos del cliché y hacer un anti-héroe.

Pensamos en un héroe chocoano que siempre está estigmatizado porque es una de las zonas con mayor índice de analfabetismo.  Martin y yo somos de Cali y tenemos alguna cercanía con la cultura del Pacífico, entonces eso nos daba  entre comillas alguna autoridad para hablar de los personajes porque teníamos esa cercanía.  Y empezamos a desarrollar todo el universo de la serie y finalmente llegamos a la conclusión de que tenía que ser un super-héroe cuya misión era proteger el idioma español y propender por su buen uso.

Pensamos en hacer un superhéroe, pensamos en hacer un antihéroe que fuera superhéroe y mesero.  Y también desde el principio esta serie como lo planteamos en la primera diapositiva no es una serie infantil sino más bien una serie familiar.  Eso lo tuvimos en cuenta desde el comienzo, que fuera una serie que le gustara a los niños y nos gustara a los grandes.

Teníamos que hacerle un guiño satírico a la sociedad para que los grandes se pudieran acercar y por medio de artilugios y naves relacionadas con el Pacífico como el chontaduroptero y toda esa especie de naves raras, pretendiendo acercar a los niños y también a través de las situaciones y  los personajes.

Ni Martin ni yo somos especialistas en el idioma ni el lenguaje ni somos doctorados en eso.  Nos toca hacer un proceso largo de investigación muy riguroso porque si uno está pretendiendo hacer una serie educativa no puede caer en errores.  Y tuvimos claro desde el comienzo también que la serie tenía que ser llamativa a través del humor, tenía que ser en un formato corto porque los niños ahora son muy volátiles como alguien decía aquí, están recibiendo información todo el día, los celulares, los videojuegos, etc.   Le apostamos a personajes sólidos que tuvieran gracia y sobre todo tuvieran arraigo y que cayeran bien en la gente, que no fueran personajes pretenciosos.

La idea empezó hace 4 años con mucho trabajo y con el apoyo de Canal 13 llevamos 150 capítulos.  Tuvimos la fortuna de participar con 30 capítulos a propósito del Bicentenario de la Independencia.  Súper O viaja en el tiempo y da algunas guías de lo que pasó hace 200 años con respecto a la independencia de Colombia y responde a unas preguntas de los niños, como qué pasó hace 200 años, si hace 200 años se aplicaba anestesia cuando se operaba o si hace 200 años había tráfico de drogas, etc.

Cuando tuvimos la obra literaria totalmente escrita fuimos donde Hernán Zajec que es el productor de animación, uno de los más importantes que han existido aquí, y el se aventuró con nosotros.  Al principio fue un poco reacio pero después se convenció.  Hicimos el piloto a riesgo, fuimos a los canales privados RCN y Caracol y la respuesta fue un no rotundo y afortunadamente a la Comisión Nacional de Televisión le gustó la idea, vio que podía ser, que era original, que podía llegar a los niños y que podía tener un impacto social interesante.  Y a partir de ahí a través de la Comisión Nacional de Televisión  y la Gerencia del  Canal 13 comenzó a emitirse en el Canal 13 desde el año 2005 y como decía ya lleva 150 capítulos al aire.  Actualmente se está emitiendo también en los canales regionales Teleantioquia, Telepacífico y en Señal Colombia.

Por último es un poco pretencioso decirlo, pero nos preguntan que cuáles son los factores del éxito de la serie.  Esta no es una serie masiva, pero es una serie que ya tiene cierto reconocimiento y creemos  que parte de esto es que trata la educación a través del humor con un lenguaje amable.

Otro factor es que es un formato corto, un formato de 5 a 7 minutos, que es original, que no se parece a algo que uno haya hecho.  Y también que tiene un valor social, que es que todos debemos hablar mejor y comunicarnos mejor porque el supuesto es que cuando hay mala comunicación hay atraso, y cuando hay atraso hay violencia y eso es lo que nosotros queremos evitar.

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Texto apresentado durante a Mostra Iberoamericana de Televisão Infantil 2009, promovida pela Comissão Nacional de Televisão da Colômbia, realizada nos dias 11 e 12 de junho.

Programa Vídeo Fórum – Mostra Geração 2009

Estão abertas até o dia 14 de agosto as inscrições para o programa Vídeo Fórum – Mostra Geração do Festival do Rio 2009. Voltado para produções de crianças e jovens, o evento deste ano traz algumas novidades. Serão aceitos somente trabalhos realizados a partir de 2007, cujos autores, por ocasião da produção, tinham até 18 anos e estavam comprovadamente matriculados na escola ou participando de algum projeto educativo.

De acordo com o regulamento, os vídeos devem ter duração máxima de 13 minutos, incluindo os créditos. Eles poderão ser produzidos em qualquer formato, porém, a inscrição para seleção deverá ser efetuada mediante o envio de uma cópia em Mini-DV ou DVD (para as escolas, ONGs e projetos que não trabalhem com a outra mídia).

A inscrição dos trabalhos pode ser realizada pela instituição (escola, ONG ou projeto educativo) ou por meio dos próprios realizadores, em caso de trabalho independente. Cada jovem realizador ou grupo produtor poderá inscrever no máximo cinco trabalhos. Para cada um, deverá ser preenchida uma ficha de inscrição. O evento será realizado entre os dias 24 de setembro e 8 de outubro.

Clique aqui e confira o regulamento na íntegra

Celular na sala de aula

Por Marcus Tavares

Coloridos, sonoros e cheios de tecnologia. Desde que entraram no mercado brasileiro, de forma mais efetiva no início da década de 1990 com a privatização do setor de telefonia, os aparelhos de celulares tornaram-se acessórios de crianças e adolescentes. De acordo com pesquisa divulgada pelo Ibope, jovens de 16 a 24 anos representam aproximadamente um quarto dos usuários nas 11 maiores capitais do Brasil. No Japão, sede de várias indústrias, estudo revela que uma em cada quatro crianças tem o seu próprio aparelho.

No mundo globalizado, o celular é, para os pais, símbolo de segurança e controle. Para os filhos, veículo de comunicação e fonte de entretenimento e informação. E para a escola? Oficialmente, sinônimo de proibição. Aqui no Rio de Janeiro, tanto a Câmara dos Vereadores da Cidade do Rio de Janeiro quanto a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) sancionaram leis que proíbem o uso de celulares na sala de aula. A justificativa é que muitos estudantes deixam de prestar atenção na aula, prejudicando, como afirma o texto do projeto da Alerj, “sobremaneira o rendimento no processo de aprendizagem”.

A proibição do uso não impede que novas metodologias de ensino possam vir a surgir com o intuito de melhorar a própria aprendizagem dos estudantes? Mirian Machado, coordenadora sócio-pedagógica da escola audiovisual Cinema Nosso acredita que sim. Segundo ela, trata-se de uma inabilidade. “Proibir acaba sendo a forma mais fácil de lidar com o tema. O que chega a ser inclusive contraditório. Proíbe-se o uso do celular, mas o Governo do Estado do Rio estimula, por exemplo, entre os jovens e seus pais, o uso do aparelho, como via de informação sobre a matrícula e as notas dos estudantes”.

É com o objetivo de pensar com os professores as possibilidades do uso do celular na sala de aula que Mirian organizou o curso Desvendando Filmes em Celular, que será oferecido pelo Cinema Nosso.  Em seis aulas, professores aprenderão a produzir vídeos via celular, mas também discutirão de que forma o aparelho pode se integrar às atividades práticas da sala de aula.

“O Cinema Nosso já vem trabalhando com o celular em alguns projetos. É o caso, por exemplo, de uma das oficinas que realizamos, já há dois anos, no Ciep Waldemar Zarro, em São Gonçalo, aqui no Rio. Trata-se de uma oficina, oferecida aos professores e alunos, que faz parte das atividades da escola, mas que não estabelece, a principio, um diálogo direto com a sala de aula. É este diálogo que queremos promover com o curso”, explica Mirian.

Segundo a professora, a utilização dos meios audiovisuais, seja a tela da TV, do celular ou do computador conectado à internet, é lenta e gradual, mas, o mais importante, possível. “À medida que a gente vai desvelando as possibilidades da mídia, a inserção vai acontecendo. E para isso é preciso conhecimento, debate, segurança no que se quer e vontade”, destaca.

As aulas do Desvendando Filmes em Celular começam no dia 11 de agosto.
O Cinema Nosso fica na Rua do Rezende, 80, Lapa. Telefone (21) 2505-3300.
Informações no site http://www.cinemanosso.org.br

O Enem e a cobertura da mídia

Por Eliane Bardanachvili
Jornalista e mestre em Educação

No dia 19 de julho encerraram-se as inscrições para o Enem 2009 e o Ministério da Educação (MEC) publicou em seu site testes simulados para os 4.500 alunos inscritos se exercitarem no novo perfil do exame a ser realizado em outubro. Esses alunos talvez não saibam, mas ditarão, de acordo com seu desempenho, o perfil das matérias sobre educação que a mídia publicará em 2010, quando forem divulgados os resultados.

A forma como a imprensa se comporta na cobertura do Enem é uma boa oportunidade de se discutir a cobertura de educação de forma geral. Embora o Enem não avalie escolas, mas alunos, os resultados do exame têm sido utilizados para a produção de matérias que põem as instituições de ensino no centro da pauta de forma espetacularizada. Em abril deste ano, quando foram divulgadas as notas da edição 2008 do exame, a imprensa fartou-se de apontar “as piores e melhores escolas” – do estado, da cidade, do bairro, do país… –, a partir de um ranking indevido, fabricado nas redações com as informações enviadas pelo MEC – que não divulga ranking, apenas as notas obtidas pelos alunos e o local onde estudam.

Podemos conferir, por exemplo, no site do jornal O Dia, o Enem tratado como disputa; a matéria usa inclusive o termo bicampeonato para se referir a uma escola que se apresentou no topo da lista das melhores pelo segundo ano consecutivo. As “melhores” e as “piores” estão ali, listadas, julgadas e sentenciadas.

Desafios do novo século

Por mais que estejamos diante dos desafios da imprensa no século 21, em que qualquer pessoa pode ser produtora e divulgadora de informação – mas não jornalista! –, aquilo que os grandes veículos de massa publicam tem peso especial e orienta formas de pensar. Estudiosos do jornalismo nos mostram que a notícia, ao mesmo tempo em que define, também dá forma a um acontecimento, ajudando a constituir a realidade como um fenômeno social compartilhado. Assim, não só o acontecimento cria a notícia, como a notícia cria o acontecimento (Traquina, 1993).

E a serviço de que estão matérias como essas? De reforçar estigmas, limitar olhares, emperrar o compartilhamento de propostas de mudanças. Como não é surpresa que a educação brasileira tem muito a melhorar, as matérias em tom espetacularizado e de denúncia pouco dizem de novo ao leitor.

Não se trata de camuflar a realidade – se os resultados não foram bons, que isso seja noticiado –, mas de enriquecer a forma como se olha para essa realidade. E isso, sim, é um papel que a mídia pode assumir ao se dirigir aos seus leitores/espectadores/ouvintes/internautas. A denúncia pura e simples, embora atraente, é pouco para um jornalismo que pode cumprir importante função social, fornecendo régua e compasso para que seu público trilhe os próprios caminhos na análise dos cenários. As escolas, os professores, os alunos, os cidadãos nem sempre se veem representados nas denúncias que a mídia publica. São muitas vezes, os primeiros a protestar ao verem sua escola no centro de denúncias e problemas.

A mídia produzida de forma aligeirada, pouco convidativa à reflexão, tratando de temas profundos e complexos de forma superficial – e, por vezes, leviana – desperdiça possibilidades. No caso do Enem, por exemplo, a avaliação aparece como algo que julga e condena (as piores escolas…), quando poderia ser mostrada como propiciadora de diagnóstico e de correção de rumos. Não temos no país uma cultura da avaliação como parte de um processo. Para nós, o resultado de uma avaliação é o fim da linha: deu certo ou não deu certo, e ponto final. A forma como se veiculam as matérias sobre o Enem só vem reforçar isso.

Se aumentou a atenção de jornais, revistas e telejornais para a temática da Educação, ainda não se chegou à compreensão do que é necessário para que se garanta uma boa cobertura. Esta carece, ainda, de muitos ajustes por parte da mídia. Algumas de suas características merecem ser lembradas para ajudar na reflexão.

Relevante mas sem editoria

Uma primeira constatação é que Educação não tem status de editoria nas redações – tal como ocorre não só com Cultura, Política, Economia e Esportes, para ficarmos entre as grandes, que integram de forma perene o organograma, mas também com Ciência, Meio Ambiente e Saúde. Todos esses assuntos merecem espaço próprio nas páginas dos jornais. Já a Educação, a despeito de sua relevância, não merece… As matérias de educação disputam espaço com a prisão do traficante, a queda do avião etc. Com isso, prevalece o tom de denúncia no tratamento do tema, para tornar a matéria “interessante” e capaz de se sobressair em meio a outros considerados mais “atraentes” aos olhos do leitor.

Outra constatação importante, que explica um pouco a primeira, é que, geralmente, quem cobre Educação é um jornalista de Cidades ou de Brasil, deslocado para tratar do tema sem qualquer informação prévia, sem preparo, sem conhecimento adequado. Existem poucos setoristas. E menos ainda que se dediquem a uma cobertura qualitativa, analítica. Em televisão, essa lacuna é ainda mais gritante. O repórter que mostra “a pior escola no Enem” é o que acabou de tratar do acidente de trânsito ou da falta de médicos no hospital municipal. E, quando há jornalistas voltados a “cobrir educação”, esses o fazem pelo viés do factual, do oficial, da denúncia ou do serviço (como escolher uma boa escola para o seu filho, como ganhar bolsa para o exterior, como estudar para o vestibular etc.).

Um ponto interessante, ainda, é que, uma vez que Educação não integra as redações de forma estrutural, o perfil dessa cobertura, em geral, condiciona-se aos profissionais que estão ali em determinado momento. É, em geral, em brechas que um editor-chefe mais sensível ao tema cria um caderno ou abre espaço regular para a Educação, designando um profissional específico para a produção de reportagens de fundo, analíticas, contextualizadas. Se vai embora o editor ou o repórter, a cobertura com esse perfil cessa imediatamente.

Falta reflexão nas redações

O fato de a (boa) cobertura de Educação vir rebocada por visões, desejos e empenho de jornalistas que assumem de forma pontual o comando de jornais e/ou de editorias, bem como de repórteres especializados no tema, capazes de enxergar pautas que vão para além da cobertura das mazelas das escolas públicas do país, demonstra a forma como a grande mídia encara “o que é notícia”. Leva-nos, ainda, a perceber o quanto um jornalismo reflexivo, em franca expansão no meio acadêmico – nos cursos de pós-graduação, nos artigos e livros publicados, nos congressos e seminários – não se transporta para o dia a dia das redações. O jornalista consciente de sua função de mediador, como profissional capaz de lidar de forma crítica na relação que faz entre a realidade e o processo de produção jornalística e seus necessários filtros e recortes, ainda está por se constituir.

A forma como esses recortes da realidade se dão, os critérios utilizados para fazer as escolhas de fontes de informação, de temas, de conteúdos, o aprofundamento ou o aligeiramento que podem caracterizar a apresentação de determinado assunto definem o quanto a mídia/o jornal aproxima-se ou se afasta de uma pertinente natureza educativa, ao informar. E é justamente a cobertura de Educação que nos mostra com nitidez o quanto essa mídia ainda está distante de seu potencial de…educar.

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Texto publicado originalmente no site do Observatório da Imprensa

À procura do corpo ideal. Sinônimo de felicidade?

Por Marcus Tavares

No Brasil, sete de cada dez cirurgias plásticas são realizadas em pacientes da cor branca, principalmente do sexo feminino. A faixa etária que mais se submete ao bisturi é a dos 19 aos 35 anos (46%). Jovens dos 13 aos 18 anos respondem por 6% das intervenções. Entre os principais procedimentos, destacam-se o aumento de mama (21%), lipoaspiração (20%) e abdômen (15%). Por ano, cerca de 630 mil cirurgias. Os dados fazem parte da pesquisa Cirurgia Plástica no Brasil, divulgada este ano pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). O levantamento ouviu 3.533 cirurgiões plásticos.

As estatísticas colocam o país entre os primeiros do mundo em realizações cirúrgicas. Segundo especialistas, como o cirurgião plástico Moisés Wolfenson, o fato se deve a qualidade dos profissionais, a vaidade das mulheres brasileiras e ao barateamento dos custos. E a mídia: qual a influência que ela exerce na supervalorização do corpo e no aumento do interesse pelo bisturi?

Para a Associação Americana de Cirurgia Plástica, é inegável o impacto dos meios de comunicação, em especial dos reality shows que invadiram a programação das tevês mundiais, como as séries Doctor 90810 e Extreme Makeover. Este último propõe uma mudança radical na vida de homens e mulheres. Sob a coordenação da Extreme Team, os interessados ganham uma nova aparência graças às intervenções plásticas e uma série imposta de novos estilos de vida. O sucesso pode ser medido pelo número de candidatos: mais de 10 mil pessoas estão na fila do reality show, no ar há sete anos.

A TV fechada brasileira também está recheada destes programas. Mas o tema já chegou à tevê aberta. Há dois anos, por exemplo, o SBT estreou o programa Quem perde ganha, conhecido inicialmente pelo nome O grande perdedor, no qual duas equipes de obesos têm que participar de uma maratona de exercícios físicos e regime para perder peso e ganhar os prêmios do programa. Já na Rede TV é possível conferir, atualmente, todos os domingos, o programa Dr. Holywood, que mostra os bastidores da cirurgia plástica de Los Angeles.

Cultura das sensações

Em seu novo livro O Vestígio e a Aura (Editora Garamond), o psicanalista Jurandir Freire Costa, professor do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), diz que a cultura do corpo é fruto de duas constatações: da cultura das sensações, provocada pela mídia – representada por todos os ícones que deformam a percepção do “eu” e “do estar no mundo”; e da ciência, representada pela medicina moderna, que diz o que é bom e ruim para o corpo. “O corpo dos indivíduos, sobretudo o dos grupos privilegiados do ponto de vista social, econômico e cultural, tornou-se o objeto-alvo do ideal de felicidade sensorial”, destaca o professor.

Para o psicanalista, o corpo, na sociedade do século XXI, começou a tomar o lugar de outras instâncias na constituição da identidade. Ele afirma que a preocupação com o corpo sempre existiu, mas em graus diferentes. No entanto, nos dias atuais, o corpo tornou-se maestro da condução da vida das pessoas.

“O problema então é esse: o corpo a serviço de quê? De si próprio ou de algo que o transcende? Essa é a questão. Quando o corpo começa a ganhar uma autonomia que ele não devia nem podia ter, começam os problemas”, destaca o professor em entrevista a Revista de História da Biblioteca Nacional.

Criança, internet e mundo real

Enquanto os reality shows continuam fazendo sucesso, cresce o número também de jogos na internet que busca incentivar a cultura do corpo, da juventude e da beleza. Na era da web, a tradicional boneca que anda e fala já é coisa do passado. A onda agora é criá-la virtualmente e submetê-la a um concurso de beleza. Para isso, não faltam estratégias, que vão de dietas rigorosas a cirurgias estéticas, para transformá-la na Barbie do século XXI, mais rica, bonita e famosa. A proposta, voltada para crianças e jovens, é do site e do game britânico Miss Bimbo.

Ao adquirirem os bimbo dólares, ganhos todas as vezes que uma mensagem SMS é enviada via celular, os jogadores conseguem fazer as mudanças necessárias para se chegar ao estrelato. O jogo possui 20 níveis. Entre as estratégias, o site sugere aos internautas que façam operações de aumento dos seios e dos lábios, usem pílulas dietéticas, adotem uma série de restrições alimentares, renovem os guarda-roupas e iniciem uma nova relação amorosa. “Você parece um pouco depressiva, vá a um cabeleireiro e mude o seu corte de cabelo”. Esta é uma das metas a serem alcançadas pelo jogador para passar para a fase oito.

A inscrição no site é gratuita. Qualquer um pode se inscrever. No entanto, crianças menores de 13 anos são obrigadas a fornecer um e-mail de contato de seus pais. O site envia para os responsáveis uma mensagem dizendo que a criança se cadastrou e quais são os objetivos do jogo. Se quiserem, os pais podem cancelar o registro dos filhos.

Apesar da medida, várias associações britânicas de pais dizem que o game é  perigoso, pois difunde valores superficiais. Por sua vez, os médicos temem que Miss Bimbo acabe incentivando a anorexia. Em apenas um mês de funcionamento, mais de 260 mil crianças, dos nove aos 16 anos, já se cadastraram. O site registra diariamente 120 mil visitas. Há mais de 700 mil pessoas registradas e jogadores de 243 diferentes países.

O criador do Miss Bimbo, o empresário francês Nicolas Jacquart, contesta as críticas. Em entrevista ao jornal Público, de Portugal, ele disse que a missão e os objetivos do game são moralmente aceitáveis e ensinam as crianças a viver no mundo real.

Retrato de um artista jovem

Por Hernani Heffner
Pesquisador. Curador, pesquisa e documentação da cinemateca do MAM Rio

 
Texto apresentado durante o Seminário Nacional de Educação Popular em Audiovisual – Deseducando o olhar, promovido pelo Fórum de Experiências Populares em Audiovisual e Imaginário Digital, entre os dias 23 e 25 de julho, no Rio de Janeiro.
 
O Brasil conheceu notável expansão do chamado Terceiro Setor de 1990 em diante. Segundo as estatísticas apresentadas no Mapa do Terceiro Setor, entidade que cadastra espontaneamente as organizações da área, quase a metade delas atualmente em funcionamento no país surgiu nos últimos vinte anos . De uma maneira geral, essas organizações se caracterizam como não–governamentais e voltadas para a área social, definindo-se a partir de um trabalho não-lucrativo e quase sempre voluntário. As quatro grandes áreas de atuação do Terceiro Setor são: a cidadania, a saúde, o meio-ambiente e a educação. Uma quinta área que tem despontado de forma significativa nos últimos anos é a cultura, entendida quase sempre em uma dimensão artística e de comunicação.

Restringindo-se esta última à criação audiovisual, no sentido mais propriamente cinematográfico do termo, sem conexões com estratégias telejornalísticas ou mesmo de programação televisiva integrada, verifica-se igualmente um salto significativo nos últimos anos em termos de presença midiática e de programas de governo voltados para a área, como o Mais Cultura. Não há estatísticas, mas a proliferação de escolas de formação, cineclubes, festivais, fóruns, sítios e redes cibernéticas se faz a olhos vistos em todo o país, muitos deles insistindo em um crescimento exponencial de 2004 em diante . Marco decisivo e consagrador desse processo é o documento Carta da Maré, apresentado em 2007.

Constituído sob a égide de formulações como “excluído” e “periferia”, termos a esta altura consagrados junto aos mais diferentes canais de comunicação, mas recusados por alguns dos agentes deste campo, o conjunto dessas entidades vem migrando ao longo dos anos de um viés eminentemente classista e de organização coletiva para um olhar em grande parte pedagógico e identitário.

Ao antigo movimento social dos anos de 1970 e 1980, que incorporou o vídeo analógico como um instrumento de socialização e politização da informação, trabalhando sobretudo com as noções de “trabalhador” e de “comunidade”, vale dizer, com uma inflexão socioeconômica tradicional da sociedade, sobreveio uma nova dimensão que apostava no vídeo digital e em categorias como “minorias”, “oportunidade”, “voz própria” e “formação”. Como pano de fundo de ambas, a ideia de uma contra-hegemonia ou de uma contracultura, cujo propósito seria pelo menos contrabalançar o jogo de forças simbólico da sociedade, quando não apresentasse a “verdade” escamoteada pelo “outro lado”.Representativos do primeiro grupo estariam entidades como a Verbo Filmes, criada em 1979, e o Centro de Criação da Imagem Popular – CECIP, criado em 1984. Marco do segundo seria o projeto Vídeo nas Aldeias, instituído em 1987.

A passagem do “movimento social” à era contemporânea se deu dentro de um contexto histórico que foi caracterizado como falência do Estado. À crise econômica dos anos 1980 somou-se a crise política, ética, de planejamento e, finalmente, administrativa dos anos de 1990 em diante. Foi nesse vácuo que o Terceiro Setor se apresentou como uma alternativa à escassez de recursos públicos e à incapacidade gerencial das instituições governamentais, assumindo tarefas de sustentabilidade da vida social, especialmente nas áreas desassistidas pelo poder público. Frise-se aqui que o modelo histórico de atuação do Terceiro Setor é o da transferência de recursos do universo privado para o público, e não o contrário, como já era a tradição do setor cinematográfico e se tornou a do setor cultural da Lei Rouanet em diante. Com esta inversão no campo agora chamado de audiovisual, surgiu e se consagrou a curiosa estratégia de as grandes linhas de ação (assim como os recursos investidos) na área, serem diagnosticadas e programadas pelo governo para aplicação, em grande parte, pela sociedade civil organizada, como evidencia o projeto dos pontos de cultura, entre outros.

O ponto de inflexão deste processo foram as repetidas colocações da jornalista e professora Bete Jaguaribe, quando de sua passagem pelo Gabinete da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, acerca da falência da escola, um dos pilares da atuação do Estado junto à sociedade. Em seu diagnóstico:
 
“De fato, a escola perdeu a centralidade no processo de educação. Hoje recebe-se muito mais informação fora dessa instituição, que entrou no século XXI longe do debate sobre as grandes mídias eletrônicas e seu impacto no cotidiano das pessoas”.
 
Em que pese a ingenuidade do conceito de escola aqui apresentado, a partir de colocações como essa, abre-se um amplo leque de discussões e de ações travestidas em programas e projetos voltados para a formação do cidadão. Parte-se do pressuposto de que sua existência e ação no mundo estão condicionadas a sua capacidade de reconhecer novos códigos e símbolos de comunicação, particularmente, aqueles associados às chamadas linguagens visual e audiovisual contemporâneas. Mais do que isso, volta-se para o questionamento da unilateralidade dos núcleos de produção, distribuição e exibição de conteúdos, frente à composição necessariamente diferenciada da sociedade.Por fim, põe-se em xeque o valor social desse conteúdo quando ele se apresenta sob forma de entretenimento e não de informação que leva ao autoconhecimento.
 
Estão embutidas nesse processo inúmeras outras questões conceituais, as quais não cabem uma discussão maior aqui neste espaço, como, por exemplo, a da criação artística e sua capacidade de romper paradigmas, para além de um suposto conteúdo óbvio ou comprometido ideologicamente. Por outro lado, atravessam as ações práticas da área inúmeras indagações quanto ao alcance e direcionamento dos conteúdos, pretendendo-se o que Marina Weis chamou certa vez de nova utopia contemporânea, a saber, uma ressocialização e uma tomada de poder pela base, tendo entre outras ferramentas de trabalho o audiovisual.
 
Contraditória e ambiguamente, em grande parte, a atuação das organizações não-governamentais audiovisuais brasileiras se concentra aqui, partindo de um quadro de exclusão e de violência que as leva a funcionar em um primeiro momento como um contraponto ao capitalismo selvagem e à indiferença das elites, e depois como instrumento de mobilidade social via programas de governo. No limite, busca-se uma política de educação audiovisual para o conjunto da população que só poderá se efetivar no espaço tradicional da escola, conforme consenso da área e apoio do setor audiovisual formal, sempre interessado em uma política de formação de plateias (consumidoras) para o filme brasileiro, e que acabará por excluir ao fim a maioria dessas entidades não-governamentais dedicadas a um ou outro tipo de ensino audiovisual.
 
Nesse sentido, à sobrevivência política intrínseca, ditada pelas convicções ideológicas do grupo condutor da ONG, sobrepõe-se uma discussão de rumos quanto a uma política educacional própria. Com o quem já definido pela linha invisível da cidade partida, qualquer que seja sua forma e composição, valendo-se muitas vezes de termos vagos como “pobre” ou “em situação de risco”, resta saber para que se ensina cinema e/ou audiovisual?Uma primeira resposta surgiu com a repercussão de chacinas como as de Vigário Geral e da Candelária. A organização de sessões comunitárias em áreas carentes e/ou violentas visava ocupar o tempo vago, livre, ocioso. A distração ou entretenimento poderia evitar a sedução do mundo das drogas e correlatos, sobretudo junto a crianças e adolescentes. Era também uma primeira forma de aproximação com o grupo visado, angariando-se ainda simpatia da comunidade mais ampla. Esta estratégia tomou a forma de cineclubes informais e sobrevive como um dos piores hábitos da escola pública brasileira, substituindo-se professores faltosos ou inexistentes por um filme em VHS ou DVD (quase sempre estrangeiro e de baixa qualidade).
 
A qualificação de uma oferta continuada de conteúdo audiovisual, seja pela curadoria, seja pelo acompanhamento da sessão por um debate, prelação, palestra ou mesmo aula, constitui a segunda resposta. O objetivo aqui é transformar o filme em fonte de informação, de preferência informação qualificada, tanto em termos formais quanto temáticos. Esta estratégia traz embutidos desdobramentos como a chamada “formação do olhar” e o desenvolvimento do “espírito crítico”.Caracteriza-se particularmente pela indicação das contradições dos discursos considerados oficiais e pela identificação de posturas de resistência à cultura hegemônica. Da exposição do público-alvo a uma seleção continuada de obras de referência, passa-se aos cursos mais longos e específicos, indicando os desdobramentos mais lógicos, como a formação de quadros dirigentes locais e de multiplicadores de conteúdo, surgindo ainda no horizonte a consequência mais lógica e ansiada, a formação de quadros técnicos e artísticos capazes de gerar um discurso audiovisual considerado como próprio.

O terceiro passo ou resposta liga-se assim à formação propriamente dita, surgindo aqui as primeiras dificuldades pedagógicas. Considerando a existência de uma informação qualificada prévia, parte-se do pressuposto de que a formação humanística e técnica (aulas de câmara, edição, som etc.) é um grande desafio no sentido educativo e comunicacional. Quanto à técnica, trata-se de matéria muitas vezes complexa e que demanda tempo de absorção, ao mesmo tempo em que se liga à tradição tecnológica e pedagógica do setor.
 
Neste sentido, muitos núcleos de formação procuraram “propostas alternativas”, enxergando na história do cinema momentos de subversão dos padrões e das limitações técnicas e orçamentárias. A soma de ambas as estratégias – informação + formação – comporia o cidadão capaz de usar o audiovisual como instrumento de documentação e de transformação da sua realidade e mesmo da sociedade como um todo na medida em que constitui um contradiscurso capaz de “curto-circuitar” a unilateralidade e a unanimidade de discursos tomados como “naturais” e evidentes em si mesmos.
 
Dentro deste grupo de entidades de formação surgiu também outra vertente que vai valorizar a formação em si como uma forma de inclusão no mercado e na sociedade,detectando uma brecha ou carência de mão-de-obra qualificada, particularmente nos postos médios da indústria audiovisual. Ao nicho identitário da maior parte das ONGs da área, estreitamente associadas a um espaço social determinado, sobrepõe-se uma estratégia genérica de promoção social, assumindo as novas entidades um caráter escolar ou formador estrito, desvinculando-se progressivamente do universo da “periferia” e da ação política associada.É o caso famoso do Instituto Criar de Cinema e TV, organizado pelo apresentador de televisão Luciano Huck, cuja ênfase é justamente na colocação dos alunos junto ao mercado. O que há de particularmente curioso nesta entidade é o fato de muitos dos alunos serem oriundos de outros cursos ou ações promovidos por ONGs atuantes em áreas mais pobres, sendo alguns também dirigentes destas entidades. A migração de uma estratégia para outra parece se insinuar dentro desse passo, indicando uma perda de vigor do movimento social, um crescimento de demanda de formação profissional e a visualização de um nicho de absorção dessa mão-de-obra devidamente qualificada para as exigências do mercado de trabalho formal.
 
O quarto e último passo tem como evidência mais direta o volume de produção audiovisual crescente marcado por essa condição “periférica” de origem, dado em si bastante problemático, por mascarar diferentes estratégias e diferentes objetivos sociais ou públicos. O que deveria distinguir este grupo é a intenção para com a realização, ou seja, a consideração da realização como um esforço de expressão artística consciente. A predominância de documentários suscita de forma, às vezes, inconsciente, a valorização temática ou jornalística em detrimento da formulação de uma visão própria sobre o universo retratado, fato que se estende também à chave ficcional. Encontra-se aqui a encruzilhada não só educacional como política dessa faixa de formação audiovisual do terceiro setor. Formar para quê? Para inserir ou para transformar? Para dar emprego e sustentabilidade ou para dar consciência do mundo através da arte? Para torná-lo cidadão incluído ou para torná-lo sujeito de suas próprias escolhas?
 
Uma escola de criação artística é sempre uma escola incomum, pois deve estar aberta ao novo, ao inusitado, ao anárquico, à contestação (inclusive de si mesma). Filma-se por muitos motivos, por muitas razões, por muitos interesses, pessoais e/ou coletivos. Adequar tal dinâmica a uma determinada estratégia certamente diminuirá o alcance final. Escolher uma estratégia que pretenda instaurar um suposto equilíbrio no corpo social através da escola ou da educação tradicional, de forma mais ampla, negligencia tanto os aspectos positivos da instrumentação para a vida quanto suas limitações. A informação traz conhecimento e este poder, mas não transformação. Só a reinvenção dos padrões permite a mudança.

Toque de recolher nas cidades


Por Marcus Tavares

Toque de recolher de crianças e jovens. A medida já foi tomada em várias cidades do interior do país com o objetivo de reduzir o envolvimento de meninos e meninas com a criminalidade, violência e o próprio tráfico de drogas. Em linhas gerais, juízes determinam que a garotada, a partir de certa hora, só pode estar na rua na companhia de um responsável. Em algumas regiões, como Fernandópolis, em São Paulo, os resultados são positivos, fato que vem disseminando a prática pelo resto do Brasil.

Por outro lado, também cresce a cada dia o número de juízes e instituições que se coloca contra as orientações. O grupo afirma que as decisões são inconstitucionais, pois ferem o direito de ir e vir, não resolvem o problema da violência, apenas o disfarça, e podem servir, inclusive, de instrumento para criminalizar e perseguir crianças e jovens. As colocações são contundentes. Não há como discordar. Em vez de os órgãos de Estado coibirem energicamente a violência e todas as suas implicações, opta-se por retirar das ruas as crianças e os adolescentes. Uma medida certamente mais fácil.

Você é contra ou a favor?
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Mas o que mais me intriga é de que crianças e adolescentes os dois lados da discussão estão se referindo? Das que pertencem às classes mais favorecidas e que, portanto, vivem, minimamente, protegidas por uma estrutura familiar? Ou daquelas que vivem mendigando e ao relento, presas fáceis da criminalidade? Para cada resposta, acredito que certamente haverá uma opinião diferente da sociedade. O que fazer? Triste é termos chegado nesta situação.

O consumo adolescente

O grupo multinacional Morgan Stanley ganhou as páginas dos principais jornais americanos e ingleses na última semana por ter publicado uma pesquisa sobre o hábito de consumo de um de seus estagiários. Matthew Robson, de 15 anos, foi entrevistado pela companhia sobre os usos que sua faixa etária faz dos meios de comunicação. O tema virou manchete do The New York Times, The Guardian e Financial Times.

De acordo com o artigo publicado, os adolescentes, entre outros hábitos, consomem TV apenas para assistir a programas sazonais, como esportes e reality shows; não têm o costume de ler jornais, apenas os tablóides e os gratuitos; preferem o facebook ao twitter; e frequentam o cinema, não pelo filme, mas pela experiência de sair e estar com os amigos.

Segundo a empresa, Matthew mostra que os adolescentes são ávidos consumidores de novas tecnologias e estão dispostos a transitar entre elas, porém não estão prontos para abrir suas carteiras e pagar por isso.

Clique aqui e leia o documento (em inglês) na íntegra

Participação de avós em educação beneficia crianças

No dia 26 de julho, comemora-se o dia dos avós. Avós que vêm ganhando cada vez mais importância no cotidiano das famílias e mais do que isso: na educação das crianças. Estudo realizado por cientistas da Universidade de Oxford, na Inglaterra, afirma que as crianças crescem mais felizes quando os avós desempenham um papel importante em sua educação. Os pesquisadores acompanharam mais de 1,5 mil crianças e adolescentes, de 11 a 16 anos, cujos avós substituíam os pais na realização de algumas tarefas diárias.

Ann Buchannan, coordenadora do estudo, afirma que a proximidade entre netos e avós é benéfica para as crianças e cada vez mais comum diante da atribulada rotina de trabalho dos pais. “O que foi especialmente interessante foi identificar a ligação entre a presença dos avós e o bem-estar das crianças. E só a proximidade não basta. Apenas os avós que participaram de verdade da educação é que provocaram um impacto positivo em seus netos”, destacou a pesquisadora.

De acordo com o levantamento, além de facilitar a educação, os avós também são importantes à medida que ajudam a superar as dificuldades do dia a dia das crianças, como implicância de colegas da escola e o divórcio dos pais.

“Em épocas de separações dos pais muitos avós desempenharam um papel importante ao trazer conforto aos netos e estabilidade a toda família”, disse Eirini Flouri, do Instituto de Educação de Londres, que participou do estudo. De acordo com o trabalho, quase um terço das avós maternas tomam conta dos netos regularmente na Grã-Bretanha e quatro em cada 10 o fazem esporadicamente.

Fonte BBC

Prix Jeunesse Ibero-americano no Brasil

Está confirmado. O Festival Prix Jeunesse Ibero-americano 2009 será realizado em São Paulo, entre os dias 12 e 15 de outubro, no Sesc Consolação. Pela primeira vez no Brasil, o evento celebra a cultura latino-americana, reunindo produções audiovisuais para o público infanto-juvenil. Ao longo de quatro dias, profissionais de mídia, cultura e educação estarão reunidos para assistir a uma maratona de programas, palestras e workshops com especialistas internacionais, debatendo o que é mídia de qualidade.

Podem se inscrever e participar da mostra competitiva quaisquer programas audiovisuais dirigidos ao público infanto-juvenil produzidos e/ou co-produzidos por emissoras de TV e produtores independentes da América Latina e Península Ibérica. As produções devem ter sido exibidas em TV aberta, por assinatura e/ou na web, entre 1º de julho de 2006 e 31 de julho de 2009. As inscrições estarão abertas até o dia 31 de agosto. Há seis categorias: produções para crianças de até seis anos (ficção e não ficção); produções para crianças dos sete aos 11 anos (ficção e não ficção), produções para crianças/jovens dos 12 aos 15 anos (ficção e não ficção), e conteúdos audiovisuais digitais, postados na web.

Um comitê ibero-americano formado por 11 especialistas em mídia para crianças e adolescentes fará a seleção dos finalistas, em um período anterior ao evento. Os classificados serão divulgados no dia 30 de setembro, no blog do Festival. Durante o encontro, os participantes votarão nos melhores em cada categoria.

São quatro os critérios de avaliação: ideia: originalidade temática, originalidade de abordagem, nível de identificação com o espectador; realização: desenvolvimento da ideia (estilo visual, proposta da direção, edição, trilha sonora, movimentação de câmera); ritmo: adequação do veículo à ideia; roteiro: estrutura narrativa, desenvolvimento dos personagens, coerência temática, coerência narrativa, qualidade dos diálogos; e público-alvo: adequação, relevância cultural e temática.

Regulamento e fichas de inscrição disponíveis em http://prixjeunesseiberoamericano.com.br

Sonhar: aprendizado humano

“Se não sonhamos os nossos sonhos, apenas faremos parte dos sonhos de outras pessoas”

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Por Marcus Tavares

Você já parou para pensar sobre o incrível exercício humano que é o ato de sonhar? Alguém já lhe ensinou como se sonha? De que forma a mídia interfere no seu sonho? Sonhar é um processo socialmente coletivo? Qual a relação entre sonho e memória? As respostas destas e de outras perguntas fazem parte da entrevista desta semana da revistapontocom.

Para o arquiteto do aprendizado e designer de programas de treinamentos comportamentais, Walther Hermann Kerth, o ato de sonhar está ligado à capacidade de fantasiar o futuro. O fato é que, atualmente, o nosso presente é permeado por uma das culturas mais fantasiosas da humanidade. “Somos convidados a compartilhar um sonho coletivo, seja nos apelos de consumo ou nas marés da opinião pública. Toda nossa noção de realidade é instável e sujeita ao grande sonho coletivo do que é certo e do que é errado, sem qualquer relação com aquilo que possamos chamar de verdade”, destaca.

Escritor e mantenedor da comunidade de sites do Instituto do Desenvolvimento do Potencial Humano, Walther acredita que o sonho é muito mais poderoso do que se pensa. O sonho traz consigo a possibilidade de transformar o mundo em algo melhor. “Nesta direção, penso apenas que alguns insumos ainda estejam faltando. É preciso incluir amor, respeito e valores humanistas, além de menos pressa, ambição e egoísmo”.

Acompanhe:

revistapontocom – O que é sonhar?
Walther Hermann Kerth
– Sonhar é um processo de visualização espontâneo que parece ser um subproduto da atividade cerebral durante uma fase do sono fisiológico chamado de sono REM (Rapid Eye Movement). Todas as pessoas sonham, embora nem todas tenham acesso consciente às memórias daquilo que sonharam. Para culturas humanas primitivas, muitas das experiências vividas em sonhos são consideradas tão reais quanto aquelas experimentadas nos estados de vigília. Não tenho informações sobre pesquisas científicas com animais, mas já observei que meus cachorros sonham e também têm pesadelos. Sonhar também se trata da capacidade humana de fantasiar o futuro. De alguma forma estranha, nossa mente é capaz de reunir as memórias e (re) configurá-las, transformando-as em possíveis cenários de nossos futuros desejados. É muito provável que esse processo esteja relacionado com outra fantasia humana: o tempo. O tempo não existe fisicamente, mas é uma abstração humana que nos permite criar modelos físicos de compreensão de nossa realidade, incessantemente mutável a cada segundo.

revistapontocom – Diante disso…
Walther Hermann Kerth
– Diante disso, sonhar, devanear ou planejar o futuro diz respeito a um processo subjetivo de antever nossos possíveis futuros, permitindo-nos simular estratégias e métodos que permitam aproximarmo-nos de tais cenários. Portanto, sonhar, nesse sentido temporal, parece ser um dos processos que mais distinguem a civilização ocidental de outras. Como dizia Joseph Campbell [estudioso norte-americano], vivemos a possibilidade de sermos co-criadores de nossos futuros, o que jamais aconteceu em outra cultura. A rigidez das culturas não permitia que o indivíduo desejasse mudar de status ou de situação. O mundo devia permanecer como tinha sido criado. E os rituais e os sonhos mais se pareciam com métodos de transmissão imutável do conhecimento ancestral. Em nossa época, há uma sombra perigosa de nossos sonhos, digo nossos desejos cristalizados em representações mentais. Em geral, eles são condicionados por experiências anteriores. É quase impossível sonharmos com realidades que ainda não vivemos ou conhecemos. Somos capazes apenas de imaginar futuros pautados em experiências passadas. Levando em conta que os veículos de informação mais acessados são exatamente aqueles que espalham memórias sombrias e trágicas de nosso tempo, passado e presente, corremos o risco de, inconscientemente, construirmos modelos violentos e obscuros de nossos futuros. Assim, por exemplo, são sonhadas as guerras, os conflitos, as agressões e, talvez, o próprio sofrimento e explorações humanas. Outra instância importante dos nossos sonhos é que eles conectam nossos sentimentos e emoções àquilo que vislumbramos. Neste sentido, fica bem mais fácil e atraente assumirmos responsabilidades na busca e procura de materializar os nossos sonhos e desejos em nossas vidas. A pergunta que fica é: somos nós que sonhamos e desejamos novos futuros ou seriam esses sonhos e desejos que nos apropriam? Penso nisso porque em diferentes fases da minha vida tive sonhos que me moveram. Não conseguia vislumbrar sequer algumas semanas no futuro, mesmo desejando transformar minha realidade. Desse ponto de vista, diria que os sonhos se parecem como bússolas interiores que nos dão certas direções ou destinos possíveis para satisfazer nossas expectativas como seres humanos.

revistapontocom – Sonhar exige algum pré-requisito?
Walther Hermann Kerth
– Creio que o processo de sonhar seja também aprendido, baseado em nossas histórias. E mais: são as condutas culturais que determinam nossa competência de sonhar. E a compreensão dos sonhos está condicionada à percepção do fluxo de tempo. Não existe nada tão inconsistente quanto um sonho. É curioso que, quando estamos sonhando, as leis físicas parecem valer da mesma forma que valem no mundo real. Mas nem precisariam valer, afinal estamos apenas sonhando. Poderíamos viver experiências completamente surpreendentes. Porém, no sonho, elas parecem reproduzir as próprias experiências cotidianas. De certo, o mesmo acontece com o sonho desejado. O sonho desejado não poderia ser completamente maluco? E se assim fosse, seria ele impossível? Creio que não. Toda tecnologia que possuímos hoje foi resultado de sonhos malucos de nossos antepassados, alguns deles chegaram a levar seus sonhadores à fogueira. Portanto, sonhar não exige pré-requisito. Embora, sim, acredito que pessoas traumatizadas talvez não estejam suficientemente disponíveis para sonhar. Há também algumas possibilidades de condicionamentos negativos que podem distanciar as pessoas deste exercício. Por exemplo, a atuação de certos professores. Alguns deles ao punirem os alunos por atos incorretos os colocam num cantinho da sala, de costas para a turma, para pensar. Não é preciso muita lógica para concluir que tal método é um ato quase criminoso. Ele condiciona o processo de pensamento/reflexão à punição. Qual será a reação dessa criança, no futuro, quando alguém solicitar que ela pense, reflita, exerça sua criatividade? Inconsciente e automaticamente despertarão as memórias de punição. Se isso fosse feito com o processo de sonhar, inconscientemente estaria sendo reprimida qualquer fantasia espontânea que se referenciasse a um futuro melhor. Creio que, na civilização atual, basta não atrapalhar uma criança para que ela consiga sonhar. Portanto, não há pré-requisitos, embora algumas pessoas tenham que ser lembradas ou estimuladas a esse processo, talvez devido a perda de esperanças. Nesse sentido, sonhar ou desejar tem grande intimidade com o grau de expectativa em relação a algo ou  em relação a quantidade de esperança que uma pessoa ainda cultiva em relação à sua vida, seja ela pessoal ou profissional. Vivemos numa das culturas mais fantasiosas da humanidade. Consumimos fantasias na televisão, no cinema, nos jornais, em todos os lugares. Se pensarmos nos filmes de catástrofes, facilmente concluímos que a realidade tem superado as fantasias, mais cedo ou mais tarde. Somos convidados a compartilhar um sonho coletivo, seja nos apelos de consumo ou nas marés da opinião pública. Toda nossa noção de realidade é instável e sujeita ao grande sonho coletivo do que é certo e do que é errado, sem qualquer relação com aquilo que possamos chamar de verdade.

revistapontocom – Como deveríamos então sonhar?
Walther Hermann Kerth
– Penso que deveríamos sonhar como otimistas e planejar como pessimistas. Os pessimistas têm o dobro de chances de sobreviver em situações trágicas. É fato: em situações de risco, os pessimistas sobrevivem muito mais. Eles estão o tempo todo estressados imaginando planos B, C e D de contingência para situações de risco ou fracasso. Mas, por outro lado, eles vivem bem menos, já que a concentração de hormônios de estresse no sangue reduz a imunidade e a vitalidade. Os pessimistas também desejam muito menos que os otimistas e muitas vezes ficam paralisados pelas suas fantasias sombrias do futuro. Portanto, acho que as pessoas deveriam sonhar e desfrutar como um otimista e planejar e realizar como um pessimista.

revistapontocom – Qual é a importância de sonhar nos dias de hoje?
Walther Hermann Kerth
– Somente conseguiremos mudar algo no nosso futuro sombrio se formos capazes de sonhar um mundo bem melhor para todos. Se imaginarmos que são os nossos sonhos do futuro que vão nos atrair para uma época de prosperidade, que o presente que vivemos constituem os sonhos de nossos antepassados, precisamos sonhar e positivamente. Dessa forma, tal pergunta deve alcançar uma dimensão diferente: não do que é importante ou não, mas de quais decisões pretendemos tomar em relação ao nosso futuro. Gosto muito de uma citação: somos livres para decidir e prisioneiros das consequências.

revistapontocom – De que forma o mundo de hoje impacta os nossos sonhos?
Walther Hermann Kerth
– Minha impressão é que toda essa agitação nos distancia dos sentimentos, o que enfraquece os nossos sonhos e o nosso poder de realização de alguma forma. Penso que a cultura do consumo nos distancia de nossas reais necessidades, de nossa percepção, daquilo que realmente nos satisfaz. O mundo de hoje nos propõe uma triste barganha: substituímos a satisfação pelo prazer. De fato, quando menos satisfeitos estamos em nossas vidas, maior a necessidade de prazer. Quanto mais satisfeitos estamos, menor a necessidade de prazer. Interessante, não? Uma valiosa equação proveniente da psicologia positiva, uma nova doutrina que estuda o sucesso e as soluções, em vez de estudar os problemas.

revistapontocom – As crianças e os jovens de hoje sonham?
Walther Hermann Kerth
– Sim, especialmente os de classes sociais mais baixas. Curiosamente, as crianças, adolescentes e jovens das classes mais altas, talvez, sejam os que têm menos objetivos ou sonhos de longo prazo. Existe uma estatística interessante sobre o trânsito nas classes sociais: apenas 25% das pessoas de grande sucesso provêm das classes sociais mais altas. Essa é uma pesquisa que trata do Quociente de Adversidades, mais comumente conhecido como resiliência. A razão admitida para tão baixo percentual de pessoas bem sucedidas originárias das classes sociais mais altas é que elas não têm problemas suficientes. De fato, a resistência à frustração e ao fracasso é um excelente indicativo do poder de realização das pessoas, poder este que está sendo utilizado atualmente em países do primeiro mundo para selecionar profissionais. Esse índice suplantou o antigo Quociente Emocional (Q.E.) que já havia substituído anteriormente o Quociente de Inteligência (Q.I.) no poder de selecionar profissionais altamente preparados para liderar e empreender. Mas mesmo que os jovens sonhem, isso não é suficiente para garantir sucesso. A fórmula deve conter outras variáveis. A receita de bolo do sucesso contém sonhos (conexão afetiva profunda com sua atividade futura), responsabilidade (a conscientização, a esperança e uma tomada de decisão necessária para que o indivíduo se comprometa com seus sonhos) e obstáculos (problemas, dramas, dificuldades e frustrações que desenvolverão os “músculos emocionais” para o indivíduo não esmorecer diante das dificuldades). Entretanto, conheço muitas pessoas com esses três ingredientes que não têm absolutamente nenhuma ética. Encontro pessoas assim todos os dias, até mesmo entre amigos. Nesta direção, penso apenas que alguns insumos ainda estejam faltando. É preciso incluir amor, respeito e valores humanistas, além de menos pressa, ambição e egoísmo.

revistapontocom – Os sonhos de hoje estão ligados à realização profissional e ao consumo?
Walther Hermann Kerth
–  Excelente pergunta! Sim, em muitos lugares essa parece ser a resposta. Mas observo que aumenta diariamente a quantidade de pessoas cuja consciência está orientada para algo bem mais abrangente. Tenho encontrado, cada vez mais frequentemente, pessoas sinceramente motivadas a dar uma sobrevida para a nossa civilização que abrem mão deliberadamente do luxo, do desperdício e do status para avaliar o impacto ambiental, cultural ou educacional de cada um de seus atos. São pessoas comprometidas com a sustentabilidade e com a gestação de sonhos mais éticos, ecológicos, duradouros e essenciais para a satisfação humana. São pessoas refratárias aos apelos da moda, mas conscientes de seu papel e menos iludidas pela massificação das informações e da propaganda de consumo. À medida que nossos sonhos são condicionados pela nossa história, conforme mencionei no início, pelas nossas experiências passadas, e também pelas fantasias propagadas pela cultura de consumo, imagino que seja importante lembrar que uma parte das pessoas que conheci que alcançaram o sucesso profissional ou um grande poder de consumo, mesmo assim não se sentiram satisfeitas. É claro que, depois de conquistar aquilo que podemos chamar de fantasias de status de nossa civilização e descobrir que isso não alimenta nossa alma, a prosperidade alcançada certamente facilita um redirecionamento de objetivos. Não é tão fácil redirecionar nossos desejos enquanto ainda estamos buscando as condições mínimas de sobrevivência, conforme dizia Abraham Maslow. Porém, aqui nos deparamos com uma das questões mais essenciais do assunto em minha opinião brilhantemente exemplificada por um sábio persa do século XI, Jalaludim Rumi: “O anseio interior se expressa numa centena de desejos que, pensam as pessoas, são suas necessidades reais. Mas a experiência mostra que não são estes seus desejos verdadeiros, pois, ainda que atinjam tais objetivos, o anseio não diminui (“Os Sufis”, Idries Shah, Ed. Pensamento)”. Imagino que são os nossos sonhos e desejos que nos movam pelo mundo, eles incendeiam o combustível de nossas vidas. Entretanto, muito frequentemente, tais sonhos são apenas ilusões que, ao revelarem sua inconsistência já cumpriram seu destino maior de nos proporcionar os aprendizados que precisávamos para que pudéssemos enxergar sonhos ainda mais essenciais e significativos… A cada nova etapa de vida, esse processo parece se repetir, durante o qual vamos amadurecendo e nos tornando mais profundos, a ponto de, gradualmente, nos tornarmos sensíveis para motivações cada vez mais essenciais e, portanto, satisfatórias. Dessa perspectiva, penso que sonhar como sonhamos é muito importante, mesmo que aos olhos de pessoas mais experientes nossos desejos pareçam infantis, egoístas ou materialistas! Esse é o caminho que percorremos para amadurecer. Quando alguém abandona seus sonhos, mais frequentemente está a mercê da correnteza e, em geral, vive a vida de outras pessoas! Se não sonhamos os nossos sonhos, certamente apenas faremos parte dos sonhos de outras   pessoas. Um provérbio hindu propõe ser melhor viver o próprio destino de forma medíocre do que viver o destino de outros de forma brilhante – e eu concordo com isso, pois não acredito que a Providência criaria a diversidade para que ela fosse padronizada! – O conhecimento e a informação são cada vez mais voláteis, baratos e disponíveis. Dessa forma, o papel mais importante da escola não é o de educar, mas, sim, o de oportunizar o processo de sociabilização do indivíduo. Antes de entrar na escola, uma criança ainda está dentro do útero da família, uma segunda gestação, psicológica, durante a qual a criança recebe os recursos essenciais de sobrevivência emocional e psicológica. O nascimento social vem com a iniciação escolar: a chegada ao mundo dos relacionamentos regulares fora da família, durante a qual exercitamos e aprendemos a sobreviver entre as pessoas. O único problema disso, segundo Joseph Campbell, é que não mantivemos os rituais de passagem suficientemente poderosos para demarcar as transições de papéis e identidades, o que produz muitos clientes para terapia em muitos outros momentos de vida em que a escolha ou identificação de nossos sonhos mais íntimos é confusa. Nesse modelo conteudista que temos de nossa escola, muitos professores não estão suficientemente preparados para educar, são somente técnicos bem intencionados em apresentar seus próprios conteúdos. Você não tem ideia da quantidade de professores e educadores que hoje busca terapias. Muitos deles estão extremamente frustrados, amedrontados, ansiosos ou deprimidos. Se você perguntar para qualquer terapeuta quais são as motivações de seus clientes ao buscar terapia, talvez, você  se surpreenda em descobrir que grande parte das vezes essa busca é fruto de memórias de dramas vividos na escola. Se avaliarmos bem, concluiremos, sem esforço algum, que as crianças e os jovens são bastante cruéis com seus colegas, tanto quando seus próprios professores. Talvez grande parte da agressividade do mundo moderno comece a ser gestada ainda dentro escola. Esse modelo nasceu de um processo sistêmico como solução para uma civilização que tinha problemas, limitações, anseios e ideais e, pior, que imagina ser mais evoluída. Não é possível julgar o processo evolutivo, mas é possível sonhar com relações escolares de maior compaixão, cooperação, amor, respeito e inclusão, pois, me parece, além da sobrevivência básica, é exatamente isso o que mais buscamos como seres humanos. Sim, penso que a sociedade de consumo e a violência a que estamos expostos seja apenas um pesadelo do qual desejo acordar o mais breve possível.

revistapontocom – Qual é o papel da escola nos sonhos das crianças e dos jovens?
Walther Hermann Kerth
– O conhecimento e a informação são cada vez mais voláteis, baratos e disponíveis. Dessa forma, o papel mais importante da escola não é a educação, mas, sim, a oportunizar o processo de sociabilização do indivíduo. Antes de entrar na escola, uma criança ainda está dentro do útero da família, uma segunda gestação, psicológica, durante a qual a criança recebe os recursos essenciais de sobrevivência emocional e psicológica. O nascimento social vem com a iniciação escolar: a chegada ao mundo dos relacionamentos regulares fora da família, durante a qual exercitamos e aprendemos a sobreviver entre as pessoas. O único problema disso, segundo Joseph Campbell, é que não mantivemos os rituais de passagem suficientemente poderosos para demarcar as transições de papéis e identidades, o que produz muitos clientes para terapia em muitos outros momentos de vida em que a escolha ou identificação de nossos sonhos mais íntimos é confusa. Nesse modelo conteudista que temos de nossa escola, muitos professores não estão suficientemente preparados para educar, são somente técnicos bem intencionados em apresentar seus próprios conteúdos. Você não tem ideia da quantidade de professores e educadores que hoje busca terapias. Muitos deles extremamente frustrados, amedrontados, ansiosos ou deprimidos. Se você perguntar para qualquer terapeuta quais são as motivações de seus clientes ao buscar terapia, talvez, você  se surpreenda em descobrir que grande parte das vezes essa busca é fruto de memórias de dramas vividos na escola. Se avaliarmos bem, concluiremos, sem esforço algum, que as crianças e os jovens são bastante cruéis com seus colegas, tanto quando seus próprios professores. Talvez grande parte da agressividade do mundo moderno comece a ser gestada ainda dentro escola. Esse modelo nasceu de um processo sistêmico como solução para uma civilização que tinha problemas, limitações, anseios e ideais e, pior, que imagina ser mais evoluída. Não é possível julgar o processo evolutivo, mas é possível sonhar com relações escolares de maior compaixão, cooperação, amor, respeito e inclusão, pois, me parece, além da sobrevivência básica, é exatamente isso o que mais buscamos como seres humanos. Sim, penso que a sociedade de consumo e a violência a que estamos expostos seja apenas um pesadelo do qual desejo acordar o mais breve possível.

Verde que te quero verde

O cartum Trees, do artista iraniano Ali khalaji, foi o grande vencedor da Mostra Competitiva do 26º Salão Internacional de Humor de Piauí, que terminou no último dia 7, reunindo várias pessoas na Praça Pedro II, no Centro de Teresina. Devido à qualidade dos trabalhos, a organização do evento resolveu conceder duas menções honrosas: para Pol Leurs, de Luxemburgo, e Mahmood Nazari, do Irã.

Confira os trabalhos, reproduzidos abaixo pela revistapontocom:

mohammad-ali-khalaji-trees-site        pol-leurs-apathy-site 

mahmood-nazari-sem-titulo-site

Só precisa de uma ideia na cabeça

Imagine-se numa exposição com cenários que foram pensados pelo cineasta Michel Gondry, vencedor do Oscar. Pense agora, na oportunidade de, em grupo, realizar um filme num processo criativo único e totalmente original. Este não é mais um roteiro de Gondry. Trata-se da exposição Rebobine, Por Favor, em cartaz, até o dia 9 de agosto, no Centro Cultural Banco do Brasil. O evento chega ao Rio depois de uma temporada de sucesso em Nova York e São Paulo, no ano passado.

A mostra é composta por 13 cenários customizáveis que podem ser utilizados pelo público para a gravação de vídeos. Para participar, é necessário ingressar em uma oficina que é oferecida em dois horários diários (às 15 e às 17), onde o grupo, de até 10 pessoas, fará o planejamento básico de filmagem. Após participar do workshop, o grupo receberá uma câmera fornecida pela produção da exposição, para gravar seu vídeo. Também será fornecido equipamento de luz e captação de som. Ao final da atividade, o grupo pode assistir ao material em uma televisão montada no local. A exposição é gratuita e os vídeos realizados estarão disponíveis para serem vistos na locadora, um dos cenários expostos, que reconstitui a locadora do filme homônimo dirigido por Gondry e já lançado comercialmente no Brasil.

Proporcionar ao público uma oportunidade única de interagir com o cinema, numa linguagem moderna, democrática e original, é o intuito da exposição. “Trata-se de um conteúdo simples e ao mesmo tempo extremamente criativo, uma junção rara nos dias atuais.
Não tenho dúvidas de que as pessoas que visitarem a exposição se surpreenderão tanto quanto eu me surpreendi quando tive o primeiro contato com ela, em Nova York”, afirma Lia Vissoto, diretora da Cinnamon Label, que também montou a exposição em São Paulo, no Museu da Imagem e do Som, no final do ano passado.

Informações pelo telefone (21) 3808-2020

Fonte – CCBB-RIO

Filme brasileiro ganha prêmio da Unesco

Depois de ter conquistado o prêmio do júri popular no Festival de Curtas de Tóquio no mês passado, o filme brasileiro A Menina Espantalho, de Cássio Pereira dos Santos, acaba de ganhar dois prêmios no Uruguai. O curta participou da mostra competitiva do XVIII Festival Internacional de Cinema para Crianças e Jovens (Divercine 2009), realizado de 29 de junho a 12 de julho, em Montevideo, onde ganhou o Prêmio do Jurado Infantil (melhor curta de ficção) e o Prêmio da Oficina da Unesco.

Conferido ao filme que mais se destacou entre concorrentes da América Latina e Caribe, o prêmio da Unesco consiste em apoio financeiro para que o diretor escreva um novo projeto destinado ao público infantil. Com o apoio da organização, Cássio Pereira iniciará o processo de escrita de um longa-metragem a ser rodado no interior de Minas Gerais.

O filme premiado, de 13 minutos de duração, conta a história de Luzia, uma menina que mora no campo com seu irmão Pedro e seus pais. Quando Pedro começa a frequentar a escola, Luzia manifesta vontade de acompanhar o irmão. O pai autoritário não respeita o desejo da filha e ainda a obriga a espantar os pássaros da plantação de arroz. Mesmo vivendo essa adversidade, Luzia dá a volta por cima e aprende a ler no meio do arrozal.

O curta estreou no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em novembro de 2008, onde recebeu uma menção honrosa, prêmio de melhor roteiro e troféu da Câmara Legislativa do Distrito Federal.

Gibis estimulam aprendizagem de História

Projeto: Gibiteca na Escola
Instituição: Escola Municipal Judith Lintz Guedes Machado
Localização:  Leopoldina, Minas Gerais

As histórias em quadrinhos foram o recurso escolhido por uma professora do município mineiro de Leopoldina, a cerca de 300 km de Belo Horizonte, Minas Gerais, para melhorar o rendimento dos alunos nas aulas de História. Natania Aparecida da Silva Nogueira, da Escola Municipal Judith Lintz Guedes Machado, criou o projeto Gibiteca na Escola, um dos vencedores da terceira edição do prêmio Professores do Brasil, do Ministério da Educação (MEC). 

 “A gibiteca foi uma forma de incentivar mais a leitura, essencial para as aulas de História. Os textos dos livros didáticos, por vezes, são cansativos para os alunos, que chegam ao Ensino Fundamental acostumados a leituras breves. Alunos que leem mais têm mais facilidade em aprender o conteúdo”, acredita Natania, que leciona na instituição desde 1998, como professora concursada do município.

Segundo a professora, a gibiteca se tornou um grande projeto interdisciplinar que atende cerca de 650 alunos, de todas as idades, do Ensino Fundamental e da Educação de Jovens e Adultos (EJA). “A cada ano, o número de leitores tem crescido mais na escola e temos promovido atividades que motivam o trabalho voluntário dos mais velhos. Com isto, a comunidade escolar está dando mais importância à escola, que vem ganhando espaço dentro do município”, conta.

Graduada em História, com especialização em História do Brasil, Natania faz mestrado em Ciências Políticas, mas não pretende deixar as aulas que leciona para o Ensino fundamental. “Acho que aulas para estudantes entre 11 e 15 anos são mais produtivas. Existe uma empatia muito maior entre aluno e professor, o que ajuda o meu trabalho e facilita a aprendizagem dos alunos”, justifica.

Natania mantém dois blogs: Brasil: história e ensino  http://historiadoensino.blogspot.com e Gibiteca
http://gibitecacom.blogspot.com/2007/03/quadrinhos-e-educao-ensino-da-histria.html

Fonte – Portal MEC

Criança e consumo. Uma relação sustentável?

Por Lais Fontenelle Pereira
Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-Rio
Coordenadora de Educação e Pesquisa do Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana

A infância atual está mercantilizada. A criança que nos circunda é precoce, pois foi elevada, pelo mercado, ao status de consumidora antes de estar apta ao exercício pleno de sua cidadania. Vivemos no tempo do hiperconsumo e da descartabilidade quando todos nós somos invadidos e bombardeados, pelos espaços que transitamos, por mensagens publicitárias persuasivas que nos convidam a consumir sem reflexão. Mensagens que nos vendem a idéia da realização de sonhos, de felicidade e de inclusão social através da posse de mercadorias. Nossas crianças não ficam fora dessa lógica. Elas são, desde cedo, incitadas a fazer parte da engrenagem do mercado e a forma como são olhadas e investidas simbolicamente pelos outros passa pela cultura do consumo.

Vitrines lotadas dos mais variados brinquedos, merchandising dentro da programação infantil e até de escolas, produtos licenciados apelativos e embalagens chamativas são apenas algumas técnicas de comunicação mercadológica utilizadas para atingir os pequenos. O grande problema está no fato de que as crianças são seres em desenvolvimento psíquico, afetivo e cognitivo e que a maioria delas, até os doze anos, ainda não tem a capacidade crítica e de abstração de pensamento para compreensão total do discurso persuasivo. Além disso, as crianças menores ainda confundem publicidade com conteúdo da programação e estão numa fase essencial de aprendizagem e formação de hábitos: alimentares, de consumo e sociabilidade. Vale então pensarmos quais hábitos e valores estamos ensinando às crianças contemporâneas? Hábitos consumistas e valores materialistas que priorizam o ter em detrimento do ser. O individual acima do coletivo. A competição ao invés da cooperação.

Atualmente a educação se mostra muitas vezes terceirizada – pais e educadores parecem ter sido desautorizados do seu saber. Uma nova pedagogia se instalou: a das mídias. As crianças brasileiras são as que mais assistem TV no mundo e segundo dados do IBOPE de 2008 passam em média 4 horas e 54 minutos do seu dia em frente às telas. Sendo assim, as mídias funcionam hoje como uma educação informal e têm o poder não só de entreter como o de informar e até educar. Mas, as mídias educam para o consumo e não para a cidadania.

A criança será, obviamente, em função do tempo em que vivemos uma consumidora no futuro, logo, além de protegê-la legalmente da comunicação mercadológica que lhes é dirigida, precisamos prepará-la para que seja uma cidadã e uma consumidora não só consciente como responsável. Isso é feito com Educação. Para tanto, devemos sempre nos lembrar que consumir, assim como educar, é um ato político. Precisamos começar a pensar sobre nossos próprios hábitos de consumo, além de educar nossas crianças para que tenham responsabilidade ao comprar. Crianças aprendem com modelos e por isso nosso discurso deve ser coerente com nossos atos.

Devemos parar e refletir. Antes de consumir temos que pensar nos impactos que o consumo individual gera na vida coletiva. Se vivenciamos hoje grandes catástrofes e problemas ambientais, tais como devastação de florestas, extinção de espécies animais, destruição dos solos, acúmulo de lixo em localidades urbanas e as mudanças climáticas é porque, além de não pensamos nas conseqüências de nossas atitudes, estamos permitindo que nossas crianças sejam educadas para um consumo desenfreado. Consumir pode significar extinguir e destruir, por isso não podemos deixar que nossos atos de consumo contribuam para a destruição do planeta. Os recursos são finitos e a forma como nos relacionamos com eles tem se mostrado insustentável.

A Educação é a principal ferramenta no processo maior de transformação social. Isto posto fica claro que pais e educadores devem cumprir a sua função social junto às crianças, pois têm diariamente a oportunidade de contribuir para a formação de agentes autônomos, criativos e críticos. O ponto central é que devemos trazer para a educação a reflexão a respeito do sentido e da responsabilidade do que consumimos. Essa é a base para uma educação voltada para o consumo responsável.

O problema da mercantilização da infância é urgente e não pode mais ficar restrito à esfera familiar, pois suas consequências têm impactos graves ligados à economia, à sociedade e ao meio ambiente. Crianças e adolescentes são prioridade absoluta em nossa Constituição Federal e devem ser protegidas, em sua fase de desenvolvimento, para que se tornem cidadãs críticas no futuro. Nossas crianças, como bem colocado pelo autor Neil Postman, são as mensagens que enviamos a um tempo que não veremos. Elas são o prefácio de um mundo melhor e têm nas mãos o poder de reinventar as relações de consumo para que essas sejam mais sustentáveis do que têm sido. As crianças de hoje podem salvar o planeta amanhã. Tudo depende da forma como as olhamos e educamos.

A linguagem do videoclipe

Guilherme Bryan, especialista no tema, fala sobre a importância do videoclipe

Guilherme Bryan (foto de Kodiak Bachine) 

Por Marcus Tavares

Com a recente morte de Michael Jackson, vários de seus videoclipes voltaram às paradas de sucesso. Thriller, o mais famoso de todos os tempos, foi resgatado, assim como Black or White, Bad e They Don’t Care About Us. Trabalhos ricos em produção e conteúdo. O astro pop revolucionou a conjugação entre música e cinema. Segundo o jornalista e escritor Guilherme Bryan, o cantor mostrou que valia a pena investir na produção, contratando grandes profissionais da indústria de mídia. A fórmula deu certo.

Sucesso entre jovens, os videoclipes, na verdade, conquistaram o mercado mundial com o surgimento da Music Television, a MTV. “No Brasil, localizo três fases: os videoclipes do programa Fantástico, da TV Globo; os videoclipes do videomakers com suas produtoras; e a fase posterior ao surgimento da MTV Brasil”, conta Bryan, autor do livro Quem tem um sonho não dança – cultura jovem brasileira dos anos 80.

Foi com o objetivo de conhecer um pouco mais sobre os videoclipes, sua história e influência, que a revistapontocom resolveu entrevistar Bryan, especialista no assunto e doutorando em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). O título de sua tese é A autoria no videoclipe brasileiro.

Acompanhe:
 
revistapontocom – Michael Jackson e videoclipe: o que isso tem a ver?
Guilherme Bryan
– O Michael Jackson revolucionou os videoclipes e fez deles algo realmente fundamental não só para a divulgação de uma canção e seu disco, mas também de um estilo, postura e modo de comportamento. Além disso, foi o primeiro artista negro a ser exibido no horário nobre da MTV. Com Thriller, ele demonstrou que valia a pena investir muito e contratar grandes profissionais para realizar videoclipes. Em Black or White, o diretor John Landis consagrou a técnica do morphing, em que rostos se transformam em outros. Em Bad, o diretor Martin Scorsese realizou uma espécie de West Side Story dos anos 80. Isso sem esquecer, é claro, que Spike Lee filmou Michael Jackson no Morro Dona Marta, no Rio, e no Pelourinho, em Salvador, com o Olodum, para o clipe They Don’t Care About Us.

revistapontocom – Como você definiria a estética do videoclipe?
Guilherme Bryan
– Sinceramente, não sei se essa estética realmente existe. Acho que cada videoclipe possui a sua própria estética. De maneira mais ampla, é possível dizer que o videoclipe é um gênero audiovisual relativamente curto – dura, em média, de 2 a 3 minutos – e gira em torno de uma única canção específica. Ou seja, são criadas imagens para ilustrar uma única canção. Geralmente, nos videoclipes, os cortes são secos e muitos. Possui o que se denomina como “edição picotada”, que, posteriormente, viria a influenciar o cinema, a publicidade e outros gêneros televisivos.

revistapontocom – Esse formato ainda é uma característica das produções atuais?
Guilherme Bryan
– O videoclipe mostrou-se, ao longo dos anos, ser o gênero que melhor se adapta aos diferentes espaços de divulgação, seja na televisão, no cinema, no telefone celular e na internet, por ser relativamente curto e encantar em poucos segundos. Ou seja, é possível ver um videoclipe em qualquer lugar sem que isso implique em muita perda de qualidade. Por outro lado, imagine ver um filme de longa-metragem no telefone celular. É praticamente impossível.

revistapontocom – A história do videoclipe pode ser dividida em etapas?
Guilherme Bryan
– A história do videoclipe mundial com certeza se divide em antes e depois do surgimento da MTV, em 1981, pois ela se tornou o espaço por excelência para exibição dele. Outra etapa importante aconteceu no início dos anos 90, com a entrada em cena de diretores que fizeram do videoclipe um excelente espaço para experimentações, radicalizando nessas experiências mais do que os diretores anteriores. Esse é o caso de Michel Gondry, Spike Jonze, David Cunningham e Valerie Faries e Jonathan Dayton. Outra mudança ocorreu na metade dessa década, quando o videoclipe passou a ser realizado com orçamentos menores, destinado à exibição principalmente pela internet. No Brasil, localizo três fases: os videoclipes do programa Fantástico, da TV Globo; os videoclipes do videomakers com suas produtoras; e a fase posterior ao surgimento da MTV Brasil.

revistapontocom – O videoclipe ainda exerce influencia sobre os jovens?
Guilherme Bryan
– O videoclipe sempre influenciou e acredito que continuará influenciando os jovens do mundo todo, pois eles podem se identificar com o estilo de um determinado artista ali, seja pela indumentária utilizada, seja pelos gestuais.

revistapontocom – Qual é a função dos videoclipes?
Guilherme Bryan
– Os videoclipes continuam com a mesma função. Eles possuem, em si, duas vertentes complementares: a vertente promocional, que visa a divulgar uma canção e seu artista para atrair mais compradores para o disco do qual ele faz parte; e a vertente artística, que serve de espaço de experimentação para realizadores de audiovisuais.

revistapontocom – A cultura digital modificou a produção dos videoclipes?
Guilherme Bryan
– A cultura digital revolucionou toda a produção audiovisual e, portanto, também o videoclipe, a partir do momento em que modificou completamente a maneira de se realizar, principalmente na edição, esse tipo de produção.

revistapontocom – Você arriscaria alguma projeção dos videoclipes para daqui a alguns anos?
Guilherme Bryan
– Acredito que cada vez mais os videoclipes serão exibidos na televisão, no celular, na internet etc. Acho que ele continuará influenciando o comportamento dos jovens no mundo todo.

Consumo, pirataria e mercado internacional

Professor Gustavo Lins Ribeiro, da UNB, analisa os comércios populares e suas conexões

foto_por_jesus_martin_barbero 
Professor Gustavo Lins Ribeiro (Foto de Jésus Martin Barbero)

Por Marcus Tavares

Compras no Saara, no Rio de Janeiro, e na Rua 25 de Março, em São Paulo. Sacoleiros no Paraguai, nos EUA e até mesmo na China. O que tudo isto tem em comum? Muita coisa. Para começar, um grande sistema interligado por mercados e fluxos em escala global. Pelo menos, é o que vem apontando pesquisa desenvolvida pelo professor Gustavo Lins Ribeiro, do departamento de Antropologia da Universidade de Brasília (UNB). Há mais de oito anos estudando o tema, Gustavo afirma que os levantamentos destacam a existência de um sistema mundial não-hegemônico e de uma globalização popular que têm impacto no consumo e, consequentemente, na “pirataria”.

“A pesquisa antropológica pode revelar que muitos dos preconceitos envolvendo pessoas que trabalham na globalização popular são indevidos. Há muitos estereótipos identificando aos “sacoleiros” o crime organizado. O problema central é que as economias formais não conseguem gerar pleno emprego, obrigando as pessoas a recorrerem a atividades que são perseguidas pelo Estado, uma vez que violam aquilo que há de básico para sua existência: a capacidade de extrair impostos”, frisa.

Em entrevista à revistapontocom, o professor fala sobre o conceito de pirataria e consumo, refletindo sobre o que é lícito ou não na sociedade contemporânea.

Acompanhe:

revistapontocom – O que significa a pirataria no mundo de hoje? Foi a maneira que a sociedade encontrou de participar do mundo do consumo? Foi a forma que o grande mercado encontrou de ampliar o número de consumidores?
Gustavo Lins Ribeiro
– A chamada pirataria é algo extremamente complexo. Indica a falsificação, produção de cópias e venda de uma enorme quantidade de mercadorias. Levanta, imediatamente, vários tipos de discussões fundamentais para compreender o nosso tempo: sobre o que é lícito e ilícito, sobre o que é cópia e original. Aquelas mercadorias que dependem de formas de (re) produção vinculadas à idade mecânica (roupas, bolsas, tênis, óculos, bebidas, peças de automóveis, por exemplo) muitas vezes colocam em xeque a perfeição de um determinado produto em relação ao original que ele imita. A qualidade da cópia é fundamental tendo em vista um original que funciona como parâmetro absoluto. Aqui, é preciso uma habilidade do produtor para fazer com que a cópia que venda seja a mais parecida possível com o original. Requer, portanto, um produtor com determinadas qualidades e uma articulação dos fatores de produção que replica a lógica industrial, em geral em pequenas fábricas operando clandestinamente. Já aquelas mercadorias que dependem de formas de (re) produção vinculadas à idade eletrônica (vídeos e CDs de músicas, por exemplo), não requerem maiores habilidades dos seus produtores. A diferença entre uma cópia e o original de um CD tende a ser nula e qualquer um pode operar essa reprodução. É interessante que o local onde a produção desse tipo de mercadoria pirata ocorre é chamado de laboratório. De qualquer forma, independentemente do tipo de objeto produzido, a pirataria significa uma ameaça a um dos núcleos duros da reprodução do capitalismo que é a detenção de direitos de propriedade sobre determinadas mercadorias, justamente aquelas mais cobiçadas porque representam, para os consumidores, bens altamente desejados. Não é à toa que os produtos mais copiados são superlogomarcas, frequentemente de luxo. Isso mostra claramente que este tipo de mercado e seu sistema abrem a possibilidade para muitos pretenderem falsear sua identidade social representando, assim, serem membros das camadas de maior status da sociedade. Não há dúvida que a “pirataria” representa uma ampliação das atividades de mercado, mas não dos mercados vinculados ao sistema mundial hegemônico e, sim, dos mercados associados ao que denomino de sistema mundial não-hegemônico.

revistapontocom – Neste sentido, a pirataria no mundo de hoje cumpre que papel social?
Gustavo Lins Ribeiro
– Ela permite o acesso a fluxos de riquezas globais, especialmente para as camadas mais desprivilegiadas de diferentes sociedades. E, como se trata de um sistema interligado internacionalmente – o seu centro está na Ásia, sobretudo na China, na província chinesa de Guangdong –, a “pirataria” também permite a existência do que chamo de “globalização popular”, animada por milhões de “sacoleiros” no mundo inteiro. Além disso, a “pirataria” permite uma manipulação consciente, por parte dos consumidores, dos jogos sociais baseados na distinção que são formas de criar, manter e reproduzir status, o que, em última instância, implica formas de manipular impressões nas interações sociais com fins muito diversos, mas que acabam redundando em uma busca de poder em uma sociedade extremamente individualista e consumista.

revistapontocom – No mundo do “autêntico” e do “pirata” todos somos iguais?
Gustavo Lins Ribeiro
– Sim e não. A igualdade principal é que, hoje, dada a perfeição das cópias e a sua grande disseminação, há consumidores de todas as classes nos mercados dedicados a essas mercadorias, como a Feira do Paraguai, em Brasília, ou o Shopping Oiapoque, em Belo Horizonte. A desigualdade principal é que o mundo do “autêntico” é habitado por atores formais que formam o establishment do mundo econômico e político. Têm relações antigas e estabelecidas com o Estado que os controla, mas não os marginaliza, criminalizando-os. Por isso, eu digo que formam o sistema mundial hegemônico. Na verdade, há uma hiper elite que vive imersa no mundo do autêntico de luxo e acaba detendo o cânone daquilo que é objeto de inveja. Já o mundo da cópia é marginalizado e criminalizado, controlado como um problema de polícia.

revistapontocom – A pirataria seria, portanto, a exacerbação da indústria cultural?
Gustavo Lins Ribeiro
– Sim, se estivermos falando das cópias eletrônicas de filmes, músicas e textos. Na verdade, a possibilidade de copiar foi catapultada com a internet. Não são apenas os interessados em vender cópias pelas ruas que infringem direitos autorais vigentes. São milhões e milhões de pessoas que, no recesso de suas casas, baixam uma gigantesca quantidade de material sem pagar pelo seu uso. A legislação vigente é altamente ineficiente porque, em larga medida, se apóia em uma lógica da produção da idade mecânica e não da idade eletrônica. Acho que, no futuro, será necessária uma mudança radical na concepção de propriedade intelectual de bens culturais. A tendência, de certo modo já instalada, é fornecer esses bens gratuitamente e receber pelo seu uso através da publicidade em sites. A pergunta é se, nesse aspecto, a internet no futuro se parecerá com a televisão aberta que depende exclusivamente de anúncios publicitários? Claro que a questão mais complicada é a da produção de filmes, uma vez que muitos deles custam muitos milhões de dólares. Por outro lado, tudo isso mostra também como esses empresários estão acostumados a ter lucros fabulosos. Para sobreviver terão que abrir mão de muita coisa. A repressão não parece ter êxito, justamente porque a sociedade como um todo não olha para tudo isso como um crime que deva ser punido como outros.

revistapontocom – Do ponto de vista antropológico, a pirataria é um crime?
Gustavo Lins Ribeiro
– A antropologia não define o que é crime ou não na sociedade brasileira. Isso é uma atribuição de quem legisla e dos poderes republicanos engajados na manutenção da ordem. Entretanto, a pesquisa antropológica pode revelar que muitos dos preconceitos envolvendo pessoas que trabalham na globalização popular são indevidos. Há muitos estereótipos identificando aos “sacoleiros” o crime organizado, por exemplo. Para se mostrar que não é assim, é preciso, primeiro,deixar claro que a regulação da atividade econômica por meio do uso da violência não é um atributo dessas práticas comerciais. Depois, é igualmente importante dizer que as pesquisas sobre “sacoleiros” indicam que são grupos domésticos de trabalhadores que se envolvem com estas atividades. O problema central é que as economias formais não conseguem gerar pleno emprego, obrigando as pessoas a recorrerem a atividades que são perseguidas pelo Estado, uma vez que violam aquilo que há de básico para sua existência: a capacidade de extrair impostos. Entretanto, no conjunto desses trabalhadores, há um espírito empresarial enorme. Acho que enquanto o Estado olhar para essa questão apenas da perspectiva da criminalização, não conseguirá amealhar a grande energia criativa e propositiva que existe nestas pessoas. Por último, é importante trazer à baila a noção de (i)lícito, desenvolvida por um cientista social holandês, Willem Schendel. Correndo o risco de simplificar o assunto, direi que a noção de (i)lícito trata de atividades que, do ponto de vista do Estado e de certos grupos interessados, são considerados ilícitas, mas que do ponto de vista da sociedade como um todo, são vistas como lícitas. Esta noção é fundamental para entender toda a ambigüidade que cerca o assunto.

revistapontocom – Qual é a maior contribuição de sua pesquisa para o debate sobre o tema?
Gustavo Lins Ribeiro
– Trata-se de um trabalho que vem contando com a participação, há mais de oito anos, de vários estudantes da Universidade de Brasília. Minha contribuição específica foi, a partir destes trabalhos e de outros, revelar a existência de um sistema mundial não-hegemônico e de uma globalização popular. As implicações teóricas da identificação deste sistema ainda estão por ser exploradas de forma mais ampliada. Por isso, sigo discutindo com colegas de diferentes países até onde podemos chegar com essas idéias e qual o alcance de sua utilidade. De qualquer forma, minha perspectiva sobre essa questão deixa muito claro que quando alguém entra no Saara, no Rio de Janeiro, na Rua 25 de Março, em São Paulo, ou na Feira do Paraguai, em Brasília, está vendo apenas a ponta de um iceberg, de um sistema interligado por muitos mercados e fluxos em escala global.