Blogs de estudantes: o megafone do cotidiano da escola

Estudantes do Ensino Médio de Minas Gerais e do Rio de Janeiro criaram blogs para falar sobre suas escolas, questões educacionais e reflexões a cerca do cotidiano. Os jovens blogueiros foram incentivados a se expressarem por meio da internet ao participarem do I Curso dos Jovens Observadores da Escola, promovido pelo site EMdiálogo. A proposta do curso é incentivar os estudantes a se apropriarem das ferramentas de comunicação e fazerem repercutir a sua voz sobre a educação e temas de interesse.

Estudantes do Colégio Estadual José Bonifácio Nogueira criaram o blog Alunos do Boni. O diário virtual traz reportagens dos alunos sobre o próprio curso dos Jovens Observadores da Escola, além de informações sobre o Enem.

O blog da Fundação Ensino de Contagem, batizado de Funec Ressaca, traz notícias e artigos dos jovens, divididos nas seções de tecnologia, o som das baladas, news, moda e beleza. Já o blog Jornal do Centec publica informações ligadas ao cotidiano da escola, como as inscrições para a eleição do grêmio estudantil. Aline e Maíra, duas alunas da escola, também criaram um blog. O Críticas e Diálogo é um espaço voltado para informações úteis sobre política e cultura.

Estudantes da Escola Estadual Maria Andrade Resende criaram o blog do EEMAR, como eles mesmos definem “para mostrar os acontecimentos da escola, como trabalhos de campo e festas”. O jovem observador Igor Michetti também criou o blog Welcome Stranger, que traz a seção Ruídos de Minas.

Jovens Observadores do Rio de Janeiro criaram os blogs Sem Medo de Ser Diferente e Cotidiano em Foco, espaços de reflexão sobre a necessidade de se respeitar a diversidade e sobre o dia a dia da educação.

Fonte – Observatório Jovem

Cartilha reforça a defesa dos direitos humanos

Na semana em que se celebra a importância do Patrimônio Audiovisual, a Unesco no Brasil, em parceria com a Oboré, acaba de lançar a cartilha Direitos Humanos na Mídia Comunitária: a cidadania vivida no nosso dia a dia.

Criada para qualificar as atividades de comunicação dos responsáveis pela difusão de notícias e informações de interesse comunitário, o documento apresenta a íntegra da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Fala sobre a importância de se reconhecer os direitos fundamentais para a promoção da cidadania, da ética, do respeito mútuo e de atitudes de não-violência. Para isso, aborda também os direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais do cidadão.

A cartilha é acompanhada de spots para serem utilizados nas rádios. As produções complementam e ilustram os conteúdos abordados no documento. Elas apresentam informações de utilidade pública.

Confira:
http://www.brasilia.unesco.org/areas/ci/Cartilha-DH-radio-comunitaria-2009l.pdf
http://www.brasilia.unesco.org/areas/ci/spots

Seminário de Classificação Indicativa recebe trabalhos

A Secretaria Nacional da Justiça realiza nos dias 26 e 27 de novembro, em Brasília, o I Seminário Internacional da Classificação Indicativa. O objetivo é discutir e atualizar conhecimentos, identificar tendências, perspectivas e debater as políticas públicas de classificação indicativa no cenário nacional e internacional.

Para conhecer as novidades em pesquisa sobre temas relacionados à produção audiovisual, de internet e jogos, a secretaria convoca pesquisadores, estudiosos e a comunidade acadêmica a participar de um processo seletivo de ensaios, papers ou artigos sobre: “A política pública da Classificação Indicativa no Brasil e o Manual da Classificação Indicativa”; “Identidade de Gênero e Diversidade Sociocultural na TV Brasileira” e “Classificação Indicativa e Novas Mídias”. Os interessados têm até o dia 5 de novembro para enviar os trabalhos.

Confira as normas para o envio dos textos

Texto do marco regulatório da internet recebe críticas e comentários

Cidadãos brasileiros têm cerca de 45 dias para opinarem, via web, sobre texto produzido pelo Ministério da Justiça que prevê determinar de forma clara, e a partir do interesse coletivo, direitos e responsabilidades relativos à utilização dos meios digitais, especialmente da internet. O documento está sendo chamado de Marco Regulatório Civil da Internet. De acordo com os organizadores, o objetivo é estabelecer uma legislação que garanta direitos e não uma norma que restrinja liberdades.

A primeira fase do projeto, que visa reunir as considerações de todos os cidadãos brasileiros interessados no tema, foi lançada nesta semana (dia 29), no Rio de Janeiro, na sede da Fundação Getúlio Vargas (FGV), pela Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça e pela Escola de Direito do Rio de Janeiro da própria FGV, parceira da proposta.

Cada parágrafo do texto está aberto para inserção de comentários que ficarão acessíveis a todos os internautas, permitindo assim um efetivo debate de ideias, tanto nos comentários como nos foros de discussão que serão criados para incentivar o diálogo. Cada participante também poderá votar para ranquear, positiva ou negativamente, as contribuições dos demais. Esses votos não significarão, necessariamente, a inclusão ou exclusão de determinado tópico do debate. Servirão para nortear a equipe de redação do Ministério sobre as preferências, opiniões e interesses dos participantes, contribuindo para a formulação do texto. Ao final da primeira etapa, será elaborada uma proposta de anteprojeto de lei, que levará em consideração os debates realizados. O novo documento será reapresentado para uma nova discussão.

Dentre os temas a serem abordados na discussão, incluem-se regras de responsabilidade civil de provedores e usuários sobre o conteúdo postado na internet e medidas para preservar e regulamentar direitos fundamentais do internauta, como a liberdade de expressão e a privacidade. Também são abordados princípios e diretrizes que visem a garantir algumas das premissas de funcionamento e operacionalidade da rede, como a neutralidade da internet.

Acesse – http://culturadigital.br/marcocivil

Jogo, imagem e tecnologia: possibilidades de ludicidade

Por Lynn Alves
Mestre e doutora em educação e comunicação
Professora da Universidade do Estado da Bahia
 
A presença dos jogos na história da humanidade começou com a própria evolução do homem, antes mesmo de serem estabelecidas normas e regras de convivência. Os rituais da caça e guerra tinham um caráter lúdico, de entretenimento, de força e poder. Segundo o historiador holandês Johan Huizinga, os jogos são uma atividade universal anterior à própria cultura, que mesmo em suas definições menos rigorosas sempre pressupõe a sociedade humana.

Os próprios animais realizam atividades lúdicas. Com o passar do tempo, os jogos passaram a ser entendidos apenas como atividades de entretenimento. Contudo, jogar é mais que distração. Segundo Huizinga, os jogos são um elemento da cultura, um dos pilares da civilização e têm cinco características fundamentais. A primeira, o fato de serem livres, uma escolha dos jogadores – peculiaridade de qualquer atividade lúdica.

A segunda é que não têm nem vida corrente nem vida real. A criança, o adolescente e o adulto, quando se entregam ao jogo, estão certos de que se trata apenas de uma evasão da vida real, um intervalo na vida cotidiana, embora o encarem com seriedade.

A terceira característica está na distinção entre jogo e vida comum, tanto pelo lugar quanto pela duração que ocupa. Há, portanto, um início e um fim para o jogo, assim como uma fronteira espacial deste com a vida real. Como quarta característica, o fato de que o jogo cria ordem e nela se configura, organizando-se através de formas ordenadas compostas de elementos como tensão, equilíbrio, compensação, contraste, variação, solução, união e desunião.

A menor desobediência a esta ordem “estraga o jogo”. Por fim, como quinta característica, a tensão gerada pela imprevisibilidade, incerteza e o acaso pode provocar um engajamento passional que implicará o desenvolvimento de um senso ético na definição dos limites do jogo. São as regras que definem o que é possível ou não. Contrariá-las implica pôr em xeque a existência da comunidade dos
jogadores.

O jogo pode ser considerado um fenômeno cultural na medida em que mesmo depois de ter chegado ao fim permanece, segundo o historiador, como nova criação do espírito, um tesouro a ser conservado pela memória e, ao ser transmitido, torna-se tradição.

Essas reflexões contradizem a visão de pais e professores, que argumentam que crianças e adolescentes estão apenas se divertindo quando jogam. Para muitos, há ali apenas lazer, o que muitas vezes é visto como perda de tempo. Esquecem-se de que brincar preenche as necessidades das crianças2. Para teóricos e especialistas, entretanto, existe uma unanimidade em torno das contribuições cognitivas e sociais, afetivas e culturais potencializadas pelos diferentes jogos.

Brincar é uma atividade que deve ser incentivada e encarada com seriedade pelos adultos, respeitando-se os momentos em que crianças e adolescentes desejam brincar, jogar, construir algo novo, valendo-se da elaboração dos conhecimentos existentes. Os jogos são tecnologias intelectuais, compreendidas, segundo o filósofo Pierre Levy, como elementos que promovem a construção ou a reorganização de funções cognitivas como a memória, a atenção, a criatividade e a imaginação e contribuem para determinar o modo de percepção e intelecção pelo qual o sujeito conhece o objeto.

Na sociedade contemporânea, o brincar vem sendo permeado por elementos tecnológicos que possibilitam a simulação de situações até então impossíveis. A tecnologia high tech invade lojas, telas de tevês e computadores, anunciando brinquedos mais sedutores, que permitem aos consumidores ir além do faz-de-conta da infância das gerações passadas. Nesse processo de busca de novos ícones sedutores, acompanhamos a evolução dos diferentes elementos tecnológicos presentes nas brincadeiras do velho cavalo de madeira aos sofisticados jogos eletrônicos.

Fisgados pelas imagens – As empresas de entretenimento exploram de forma significativa o potencial imagético de seus produtos, seja através de filmes e games, seja através da preocupação com a apresentação dos brinquedos, hoje produzidos e vendidos pela mídia televisiva e telemática. É fundamental fisgar o olhar do consumidor.

Os sujeitos estabelecem diferentes relações de ordem afetiva, social, cognitiva e pedagógica com as histórias que são narradas nos filmes, games, vídeos e na programação da TV, inclusive nas propagandas.

As imagens podem também atuar como espaços de ressignificação de questões pessoais, promovendo momentos de catarse. Assim, através de imagens ficcionais e reais, o sujeito realiza seus desejos e necessidades afetivas, projetando idéias e fantasias. As imagens funcionam como válvula de escape, liberadora de questões intrínsecas que precisam ser resolvidas. Isso promove um efeito catártico, ocupando as horas de prazer e lazer como um mero passatempo, uma evasão da vida real, um intervalo na vida cotidiana.

Contudo, essas possibilidades não implicam a transposição do que é visto nas diferentes telas para o cotidiano dos sujeitos. A repetição desses comportamentos no dia-a-dia pode sinalizar a existência de algum distúrbio psíquico que precisa ser investigado. Assim, é fundamental que os adultos estejam atentos às mensagens subliminares enviadas pelas crianças e adolescentes, exercitando uma escuta mais sensível do que querem dizer.

As atividades lúdicas são inerentes ao ser humano, independentemente do momento histórico que estamos vivendo. O que muda são os artefatos, as tecnologias utilizadas, mas o prazer de brincar é estruturador para o homem. O brincar sempre foi e será uma linguagem utilizada para criar, imaginar, pensar, construir, aprender, enfim, para nos tornar sujeitos desejantes.

Educação para a paz: desafio urgente e necessário

“No momento, estamos em um patamar mínimo de aspiração à paz: não queremos guerra. Esse é o patamar mínimo. Essa é a aspiração de paz do momento”, professora Vera Candau

vera-candauPor Marcus Tavares

 

Ser atingido por uma bala perdida, assaltado, roubado e sair à noite são os quatro maiores temores dos cariocas. É o que revela a Pesquisa de Percepção 2009 Rio Como Vamos, divulgada nesta semana (dia 28) pela ONG Rio Como Vamos. Os dados não surpreendem, apenas refletem o sentimento de insegurança e de guerra, marcas de uma cidade que, a cada instante, nos assusta e amedontra. Os problemas não são de hoje. O cenário pouco mudou.

Há exatamente seis anos, devido ao mesmo sentimento de insegurança, como repórter da Revista Nós da Escola, uma antiga publicação da MultiRio (Empresa Municipal de Multimeios da Prefeitura do Rio de Janeiro), entrevistei a professora Vera Maria Candau, do Departamento de Educação da PUC-Rio. 

Em uma tarde do mês de outubro, conversamos sobre violência e os vários tipos de guerras urbanas que nos acostumamos a conviver. Conversamos também sobre o significado da palavra paz, do que gera não só a guerra urbana, mas as guerras micro e macrossociais, dentro das famílias e das relações sociais como um todo, e do papel da escola neste contexto.

Caros leitores, a revistapontocom republica abaixo, com a devida autorização da professora, a entrevista. Tenho certeza que o conteúdo é atual, que as considerações apresentadas continuam precisas e consequentes e que, infelizmente, o que a professora diz ainda está estampado no nosso dia a dia. 

Acompanhe:

Marcus Tavares – A senhora afirma que falar de paz nos dias de hoje é uma questão complicada e difícil. Por quê?
Vera Candau
– Porque, embora seja uma aspiração profunda de toda a humanidade, a atual sociedade – tal como está configurada – desenvolve em todos nós uma dinâmica de agressividade, de ver o outro como inimigo, como competidor. O diferente é sempre o inimigo e você deve proteger-se dele. Para isso, precisa atacá-lo, discriminá-lo e se valer de atos violentos. A paz questiona esta lógica de olhar o outro como inimigo. Questiona a lógica da sociedade atual, a sua dinâmica cotidiana, onde todas as pessoas estão diariamente guerreando para sobreviver; é a lógica das relações internacionais, centrada no poder bélico e econômico, que passa por cima de todas as regras de convivência e de negociação. A paz questiona tanto as atividades marcadas pela agressividade, pela negação do outro, quanto a lógica que impera nas relações macrossociais e políticas – que teimam em querer resolver os problemas na base do militarismo e do poder econômico. Corremos o risco ou de negar a realidade ou de não reconhecer o sentido profundamente antropológico e político-social do anseio de paz, presente nos indivíduos e nos grupos sociais.

Marcus Tavares – Portanto, estamos cercados por vários tipos de guerras?
Vera Candau
– Exatamente. Vivemos aqui mesmo no Rio de Janeiro uma guerra cotidiana – violenta, forte e nada surda. E não é só isso. Também convivemos, por exemplo, com a guerra contra a fome, contra as doenças infecto-contagiosas, contra a miséria. Além destas, há também as guerras travadas no mundo microssocial de cada comunidade, de cada família, no âmbito das relações interpessoais, fruto de uma sociedade configurada pela lógica do mercado, do consumo, que estimula a competição e a agressividade entre as pessoas. Portanto, hoje, temos uma multiplicidade de guerras e estamos envolvidos em quase todas elas: seja a do Rio de Janeiro ou a vivenciada nas nossas relações familiares e profissionais. Guerras no nível micro e macro que temos que manejar, desvencilhar e trabalhar, continuamente.

Marcus Tavares – Face às guerras, a senhora defende uma paz, mas uma paz que não se traduza em ausência de conflito. Por quê?
Vera Candau
– Se nos colocarmos nesta perspectiva, estaremos idealizando a paz, pois o conflito é inerente à vida humana. Não há crescimento pessoal sem que tenhamos que passar por momentos de crise e de conflito. Também no plano social, o conflito é parte da dinâmica de relações e do confronto de interesses. Em uma sociedade pluralista, o reconhecimento da diferença, em suas diversas configurações, passa por processos de confronto social, sem os quais é impossível que o reconhecimento e a conquista de direitos se dêem. É preciso defender uma paz que enfrente os problemas pela via da negociação, do diálogo, do reconhecimento mútuo, da valorização da diferença. A paz que se deve construir não é aquela que vai negar os conflitos, as tensões, os grandes desafios, mas é a que aposta sempre na negociação. É possível, sim, enfrentar todos os conflitos por outra via, que não seja a da guerra. Não construiremos a paz se não nos desarmarmos das nossas armas materiais, mas também se não desarmarmos nossos espíritos, nossos sentimentos, tudo o que há em nós de negação do outro, de não-reconhecimento, de prepotência, de exclusão dos “diferentes”. É isso que chamo de educar para a paz.

Marcus Tavares – Educar para a paz seria uma nova atribuição da escola?
Vera Candau
– A educação sempre esteve impregnada por valores, mas este trabalho específico e explícito em Direitos Humanos, em especial o voltado para a paz, é recente sim. Começou a ser debatido e defendido amplamente do final dos anos 1980 para cá e, muitas vezes, de forma bastante tímida. Um trabalho necessário, desejável e, reconheço, difícil para as escolas.

Marcus Tavares – Por quê?
Vera Candau
– Primeiro pela problemática da própria realidade no plano internacional e local. E, por outro lado, porque os professores não estão preparados. Os cursos de formação de professores, como já afirmei, têm privilegiado outras dimensões da formação docente, os conteúdos que os professores devem ensinar – Matemática, Língua Portuguesa, Ciências etc. – com as metodologias específicas. O debate em torno da construção de atitudes, comportamentos e valores – orientados para a formação da cidadania e para a promoção de uma cultura da não-violência – em geral não está presente nestes cursos ou é muito frágil. Portanto, quando os professores chegam à sala de aula, mesmo querendo, não conseguem trabalhar com esses conceitos, valores e práticas, não sabem como atuar. Acho que, na verdade, falta uma política clara e forte nesta perspectiva de educar para a paz. Quando existem, são, em geral, atividades extracurriculares que acabam não interagindo com o currículo escolar. É preciso que o currículo escolar esteja continuamente dialogando com a sociedade, com suas inquietudes e problemas. É preciso que o currículo esteja, sim, voltado para a cidadania nas suas diversas dimensões.

Marcus Tavares – Se a educação para a paz deve fazer parte do currículo, a escola não deve esconder ou mascarar a realidade do mundo de hoje para as crianças e jovens. Certo?
Vera Candau
– Isso mesmo. As crianças e os adolescentes são partes desta mesma realidade. A realidade não está lá e eles aqui. Pelo contrário, eles assistem aos noticiários na TV. Muitas vezes são, inclusive, vítimas ou protagonistas de situações traumáticas. Eles não estão fora, estão dentro da problemática. Uma educação para a paz não pode ser um processo que leve, de alguma forma, a velar a realidade, a calar as diferentes vozes, particularmente as dos excluídos, a não enfrentar a desigualdade e a exclusão crescentes na nossa sociedade. A escola tem que olhar a realidade e trazê-la para a sala de aula. Deve ser capaz de analisá-la com os alunos, ser capaz de olhá-la de diferentes ângulos e de gerar um compromisso. Lembro-me do assalto ao ônibus 174, que aconteceu no Jardim Botânico, Zona Sul do Rio de Janeiro. Uma escola que fica perto do local resolveu trabalhar este trágico acontecimento com os alunos. Discutiram, analisaram o tema. Redigiram um manifesto e encaminharam ao Governador. E mais: criaram um curso pré-vestibular comunitário oferecido a pessoas das camadas populares, onde os professores seriam os próprios alunos. Foi o modo que encontraram de não ficarem passivos e de colaborarem na construção da cidadania. A escola não ficou apenas na indignação, nem na análise e no debate do tema. É preciso gerar compromissos. Temos que apostar nisso, por mais que nos sintamos impotentes e como se fôssemos formiguinhas.

Marcus Tavares – A senhora acha que a paz é tangível?
Vera Candau
– A paz é um processo. À medida que você conquista um determinado patamar, você amplia seu horizonte. Você descobre novas aspirações. A sociedade quer Justiça. Quando a sociedade conquista alguns aspectos nessa direção, o seu conceito de Justiça, a sua aspiração de Justiça, se dilata e surgem novas buscas. Com a paz acontece a mesma coisa. No momento, estamos em um patamar mínimo de aspiração à paz: não queremos guerra. Esse é o patamar mínimo. Essa é a aspiração de paz do momento. Aspiração que hoje adquire uma conotação muito concreta. De certa forma, pensávamos que no terceiro milênio, pelo menos no cenário internacional, depois das duas grandes guerras mundiais, a humanidade teria aprendido a lição de que a guerra não resolve os problemas. A gente achava que já tínhamos superado essa fase. A construção da paz tem avanços e retrocessos. Esse grito quase que universal por paz é, na verdade, um grande avanço, que se expressa por manifestações, passeatas de crianças, jovens e adultos. A paz é uma construção que precisa estar continuamente sendo trabalhada, pois dificilmente podemos dizer: “basta de paz”.

Detetives do passado: à procura do bom ensino de História

“O ensino de História vem mudando muito… Mas a forma de ensinar e aprender continua em geral a mesma: professores falando, alunos sentados, ouvindo e anotando. Aborrecidíssimos, em geral”, Keila Grinberg

keila

Por Marcus Tavares

Incomodadas com o ensino de História nas escolas, Keila Grinberg e Anita Almeida, ambas doutoras em História e professoras da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), resolveram inovar: criaram um projeto que alia conteúdo, pesquisa, investigação e internet. A conjugação levou um ano para sair do papel. Mas, hoje, está ao alcance de qualquer aluno, escola e internauta. Batizado de Detetives do Passado, o projeto quer resgatar de forma lúdica e interativa a História do Brasil e, de quebra, o gosto pelo ensino da área de conhecimento.

“O objetivo maior é despertar nos alunos o interesse pela História e pelo uso da internet como fonte de pesquisa. Talvez seja uma forma interessante de começar a aprender. Mais do que uma receita ou uma seleção de atividades, Detetives do Passado é um convite a professores, alunos e interessados em História a conversarem sobre a metodologia do ensino da própria História e a construção do conhecimento histórico”, avisa Keila.

Financiada pela Faperj, Detetives do Passado é uma produção do Núcleo de Documentação, História e Memória (Numen) da UniRio.  As atividades são voltadas para alunos do Ensino Fundamental e Médio, mais especificamente para a faixa etária dos 11 aos 16 anos.

Para conhecer mais sobre o projeto, a revistapontocom conversou com a professora Keila Grinberg.

Acompanhe:

revistapontocom – De onde surgiu a ideia do projeto?
Keila Grinberg –
O projeto acabou de ser lançado, depois de um ano de trabalho, com patrocínio da Faperj. Desenvolver este projeto é uma forma de contribuirmos para o debate sobre a maneira como a História é ensinada, tanto na escola quanto na universidade. O ensino de História vem mudando muito, abarcando novos temas, novas problemáticas e material didático de qualidade. Mas a forma de ensinar e aprender continua em geral a mesma: professores falando, alunos sentados, ouvindo e anotando. Aborrecidíssimos, em geral. Queríamos algo que motivasse os alunos. A ideia de usar a palavra Detetives no projeto vem daí. Queríamos mostrar que o historiador é um detetive, que tem mistérios para resolver, que precisa buscar pistas, documentos e construir interpretações e hipóteses.

revistapontocom – De que forma vocês desenvolveram o projeto na prática?
Keila Grinberg
– O projeto consiste na realização de atividades investigativas que se encontram num site na internet. Todas as atividades têm o mesmo formato: elas partem de um problema que os alunos devem resolver. Para isso, eles têm uma tarefa e um passo a passo, onde são apresentadas as informações e os documentos necessários para a resolução do problema. Esta primeira etapa do projeto, que já está no ar, tem como tema a escravidão no Brasil. Porém, já estamos planejando outras séries sobre outros temas, além de atividades mais dinâmicas, com recursos de som e vídeo. O objetivo maior é despertar nos alunos o interesse pela História e pelo uso da internet como fonte de pesquisa. Achamos que o uso da internet no ensino de História pode ser altamente positivo. E esta talvez seja uma forma interessante de começar a aprender. Claro que não pretendemos revolucionar o ensino de História no país. Somos modestas, mas ambiciosas ao mesmo tempo. Mais do que uma receita ou uma seleção de atividades, Detetives do Passado é um convite a professores, alunos e interessados em História a conversarem sobre a metodologia do ensino de História e a construção do conhecimento histórico. 

revistapontocom – Mas por que vocês optaram pelo tema da escravidão no século XIX?
Keila Grinberg
– Achamos que o estudo da escravidão é fundamental na Educação Básica. Não é a toa que a lei 10.639/2003 tornou obrigatório o ensino de História da África e da Cultura Afro-brasileira nas escolas. Com a escolha deste tema, queremos contribuir com a implementação da lei, produzindo material didático de qualidade. Sem querer reduzir o ensino de História da África à escravidão, temos consciência das dificuldades em abordar, em sala de aula, uma questão difícil como esta. Falar de escravidão é necessariamente falar de violência, de exploração, de injustiça. Mas há que cuidar para não cair em certas armadilhas, como somente das diferenças culturais, da naturalização das hierarquias sociais e da vitimização de africanos escravizados e seus descendentes. É neste sentido que propomos estas atividades que, por princípio, colocam o aluno como protagonista do processo de produção do conhecimento. Ele não produz este conhecimento sozinho, e muito menos sem orientação. Mas a ideia de protagonismo é, aqui, usada em dois sentidos: no próprio processo de ensino/aprendizagem, no qual o estudante ocupa o lugar central, e na maneira como concebemos a história da escravidão no Brasil, principalmente no século XIX. Por esta razão, escolhemos abordar situações que colocassem em evidência a diversidade da experiência de escravos, libertos e seus descendentes no século XIX. Optamos por enfatizar a ação dos indivíduos neste período, demonstrando como suas atitudes e escolhas são importantes para a compreensão do processo histórico como um todo, que é tão diverso e complexo como são as experiências das pessoas que viveram aquele tempo. Desta forma, pretendemos criar situações em que os estudantes possam de alguma maneira se colocar no lugar de pessoas reais que viveram situações reais – no caso, a realidade dos cerca de um milhão e meio de africanos e seus descendentes que viveram no Brasil oitocentista.

revistapontocom – De que forma foi realizada a pesquisa dos conteúdos?
Keila Grinberg
– Nosso campo de pesquisa é escravidão no século XIX. Escolher este tema para a primeira série do projeto foi uma forma de aproveitar as pesquisas que realizamos e, ao mesmo tempo, refletir sobre as pontes de diálogo entre a universidade e a escola. Por isso, resolvemos partir da nossa própria realidade da pesquisa para começar a pensar nas atividades de ensino. Partimos de um critério básico: partimos de um documento que já tivesse sido analisado por algum historiador. A partir do documento, pensamos na questão e na tarefa a ser realizada pelos alunos. Todos os casos que apresentamos aos alunos são reais, são baseados em documentos. A seleção dos casos tem mais a ver com os documentos disponíveis do que propriamente com os temas. Mesmo assim, eles estão dispostos em ordem cronológica. Mas o professor pode usar os casos como quiser, não há uma sequencia pré-estabelecida.

revistapontocom – Os estudantes participaram do processo de construção do projeto?
Keila Grinberg
– Há algum tempo, trabalhamos com atividades investigativas na escola, mesmo fora do ambiente da web. A realização destas atividades resultou em um livro, publicado em 2000, chamado de Oficinas da História (Editora Dimensão). Então há um bom tempo submetemos nossos estudantes a estas atividades. Além disso, nossos alunos da UniRio, onde ensinamos Metodologia do Ensino de História e supervisionamos o Estágio curricular, vêm colocando estas atividades em prática com seus respectivos alunos. Em geral, os estudantes gostam muito das atividades, principalmente aquelas que envolvem mistério. Nosso desafio, como professores, é dar o pulo do interesse pela resolução do caso para o interesse pelo aprendizado da História.

revistapontocom – Como a escola está recebendo o projeto?
Keila Grinberg
– Conversamos muito com professores a respeito do projeto e vários ex-alunos têm colocado estas atividades em prática nas escolas onde trabalham. Além disso, contamos com o apoio de professores que já trabalham com projetos investigativos, mesmo em outras disciplinas. A contribuição da Escola Sá Pereira, neste sentido, foi fundamental para a orientação que o projeto tomou. Mas é só agora, com a colocação do site no ar e com a distribuição de CD-Roms às escolas públicas do Estado do Rio, que temos a expectativa de conhecer mais a opinião de professores e alunos. Criamos um blog, http://detetivesdopassado.blogspot.com, para facilitar o retorno de estudantes e professores. Queremos saber a opinião dos usuários sobre o material e também compartilhar atividades que estejam sendo desenvolvidas nas escolas. A vantagem de o material estar na internet é justamente o fato de podermos mudar, melhorar e receber contribuições com muito mais facilidade do que se estivéssemos publicando as atividades em um livro. Queremos um material em permanente construção, em permanente diálogo com aqueles que o utilizam. 

revistapontocom – Muito se critica a universidade por não se aproximar da realidade das escolas e não compartilhar conhecimentos. Detetives do Passado mostra o quanto isso é importante e possível?
Keila Grinberg
– Se não for muita ousadia, nosso objetivo maior é exatamente este. É fundamental que os resultados das pesquisas e atividades realizadas no âmbito das universidades circulem, não só nas escolas, como na sociedade de uma maneira geral. Temos muito a aprender com nossos colegas que estão nas escolas. Ao mesmo tempo, queremos compartilhar nossa prática, e gostaríamos que os professores das escolas compartilhassem suas experiências conosco também. Aproximar a universidade da escola e vice-versa nada mais é do que realizar, na prática, a união entre pesquisa e ensino que tanto defendemos. Afinal, o conhecimento histórico é um só. Para sermos bons profissionais, na escola ou na universidade, precisamos das mesmas competências: ser, ao mesmo tempo, professores e pesquisadores.

Produção audiovisual: discussões do Prix Jeunesse Ibero-americano

O Brasil sediou, pela primeira vez, o Prix Jeunesse Ibero-americano, evento bianual que tem o objetivo de premiar produtos audiovisuais dirigidos para crianças e adolescentes. Entre os dias 12 e 15 de outubro, produtores, pesquisadores e especialistas na área de produção de mídia para o público infanto-juvenil se reuniram em São Paulo para avaliarem os produtos inscritos nas categorias competitivas.

Além da exibição e premiação dos vídeos (clique aqui e veja a relação dos vencedores), o Prix Jeunesse Ibero-americano contou com a realização de debates e seminários. A coordenação do encontro disponibilizou, no You Tube, vídeos que trazem um pouco das discussões. A revistapontocom selecionou alguns e os disponibiliza, abaixo, a fim de compartilhar as experiências trocadas no evento.

Confira:

– Alisson Pedro (Habbo) e Anna Valenzuela (Migux) falam sobre redes sociais para crianças e adolescentes e dos cuidados de se produzir conteúdos na web para esse tipo de público. Também estavam na mesa Silvia Lovato (PBS kids Go!) e Annick Hellger (Siebestein web)

 – Jan Willen Bult, chefe de programação infanto-juvenil e diretor de criação da TV KRO, Holanda. Premiado quatro vezes pelo Prix Jeunesse internacional, é escritor de histórias e roteiros para o cinema, séries de TV e livros infantis. É membro da União Européia de Radiodifusão (EBU) e supervisor do projeto “Item Exchange” na América Latina

– Adelaida Trujillo. Produtora e diretora fala do seu trabalho como uma das moderadoras do festival. Adelaida co-dirige a Citurna Producciones e a Fundacíon Imaginario. Integra o grupo gestor do Compromisso Nacional por una Televisión de Calidad para la Infancia en Colombia e é membro da Alianza Latino Americana (ALA)

– Entrevista com Annick Hellger, da Siebenstein web 

– Organizadora do encontro fala sobre o objetivo do festival

Problema do século ganha dia na agenda do país

Por Marcus Tavares

O trânsito engarrafado. A musiquinha do serviço de atendimento ao consumidor. O troco de um centavo que nunca é devolvido, simplesmente ignorado. A insegurança das cidades. A correria de um trabalho para o outro. A difícil divisão de tempo entre a família, os filhos, os amigos e o lazer. A exigência de ser um bom pai, um excelente profissional, uma irresistível e atenta esposa/marido e um galã/estrela da novela das oito, com o corpo bonito e saudável. No mundo de hoje, das grandes cidades, não há quem não fique, pelo menos, um minuto estressado com tantos afazeres, imposições, expectativas, suas e dos outros, e contextos adversos. O estresse já ganhou inclusive o adjetivo de mal do século.

Mas calma, relaxe. No último dia 13, a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados aprovou, por unanimidade, a redação final do projeto de lei 3555/2008, que institui o Dia Nacional de Conscientização do Estresse, a ser comemorado, anualmente, no terceiro domingo de novembro. Na ocasião, caberá ao Ministério da Saúde realizar uma campanha nacional para esclarecer, alertar e diagnosticar a doença, as formas de tratamento e suas consequências negativas para o indivíduo e a sociedade. Por essa você, com certeza, não esperava!

Brincadeira à parte, o fato é que o estresse é visto hoje como uma doença séria e perigosa. Segundo o International Stress Management Association, o brasileiro é um dos indivíduos mais estressados do mundo, em paralelo com os norte-americanos, japoneses e alemães.

O estresse positivo, chamado de eustresse, assim como o negativo, chamado de distresse, causam reações fisiológicas similares: as extremidades (mãos e pés) tendem a ficar suados e frios, a aceleração cardíaca e pressão arterial tendem a subir, o nível de tensão muscular tende a aumentar, etc. No nível emocional, no entanto, as reações ao estresse  são bastante diferentes. O eustresse motiva e estimula a pessoa a lidar com a situação. Ao contrário, o distresse acovarda o indivíduo, fazendo com que se intimide e fuja da situação.

Pesquisa divulgada recentemente pela representação brasileira do International Stress Management Association revela que o estresse não é apenas um problema dos adultos. De cada dez crianças, oito já apresentam problemas de saúde por causa das agendas cheias de atividades extras e cobranças de resultados, muitas vezes impostas pelos seus próprios pais. Por causa do excesso de atividades, tontura, vômito, dor de barriga, cefaleia e uma série de outros sintomas são identificados. A pesquisa foi realizada com 220 crianças, dos 7 aos 12 anos, de Porto Alegre e São Paulo. As mudanças comportamentais incluem agressividade, passividade, dificuldade de relacionamento, alterações no apetite, incluindo o aumento no consumo de doces e choro sem motivo.

No site www.ismabrasil.com.br você pode fazer uma auto-avaliação do seu nível de estresse. Aproveite. E fique de olho: o terceiro domingo de novembro pode ser, de fato, reservado para se pensar sobre o assunto. Se a lei for promulgada, lembre-se que a comemoração cairá num domingo. Quem sabe você terá tempo de refletir sobre o tema…

Som baixo

Em breve, os leitores MP3 e os iPods vendidos na Comunidade Europeia vão passar a ter obrigatoriamente um dispositivo de regulação automática do volume para evitar a exposição a elevados níveis sonoros que pode levar a lesões auditivas irreversíveis. As vendas destes aparelhos dispararam nos últimos anos. Nos países europeus, entre 50 e 100 milhões pessoas usam diariamente estes instrumentos. Estima-se que 10 milhões correm o risco de vir a ter, mais tarde, problemas de audição. Mas afinal que nível sonoro se deve considerar excessivo? Tudo depende do tempo de exposição.

Há essencialmente dois problemas com os leitores de música pessoais. Por um lado, as pessoas usam-nos em lugares sujeitos a elevados níveis de ruído, por exemplo, nos transportes públicos e, por isso, têm de aumentar o volume. Em alguns aparelhos, o volume sobe, inclusive, automaticamente.

O outro problema é a utilização prolongada. Se a exposição for mais prolongada, um volume mais baixo pode ser mais nocivo do que ouvir música alta. Na maioria, o volume de som oscila entre 60 e 120 decibéis. Segundo os cientistas, a perda auditiva é menos provável a níveis inferiores a 80 decibéis, o que é mais ou menos equivalente a gritos ou ao ruído do tráfego da rua. Mesmo a um nível de 80 decibéis, não há risco se os usuários ouvirem música até 40 horas por semana. Mas se aumentarem o som, nem que seja pouco, o risco dispara. O máximo recomendado são 80 decibéis, cinco horas por semana.

Além do dispositivo de regulação automática, os leitores de música pessoais deverão estar dotados de um sistema de alerta que avise os usuários que excederam o limite de segurança. Este sistema poderia assumir a forma de rótulos ou de ícones de advertência.

Fonte Comunidade Europeia

Coisa de criança

Por Humberto Avelar
Diretor de animação da MultiRio

Animação é realmente coisa de criança. Criança assim como eu, como você, como nossos filhos, pais e avós. Todos nós nos deslumbramos diante de algo novo e nos fazemos crianças sempre que isso acontece. Por isso, quando me perguntam se animação é coisa de criança, eu penso: por que não?

O cinema de animação, contudo, também cresce e amadurece. Hoje em dia, os filmes animados arrebatam multidões de jovens e adultos, movimentando uma indústria milionária de cinema em todo mundo. As televisões por assinatura abrem cada vez mais suas portas para os canais especializados nesse gênero.

Surpreendentemente, eles são campeões de audiência, disputando essa liderança com os poderosos canais de esportes e filmes. Os videogames surgem gerando uma demanda crescente por novidades e vêm se tornando um dos investimentos mais caros no ramo do entretenimento. Praticamente todos eles são produzidos com animação, portanto, como negócio, ela é definitivamente coisa de adulto.

Por outro lado, quando nos deparamos com  a  inocência dos antigos clássicos da  Disney, estamos entrando em contato com… coisa de criança. Se falamos sobre os violentos desenhos japoneses? Coisa de adulto ou, pelo menos, de adolescente. Como instrumento de  apoio à educação e à cultura: coisa de adulto. Como passatempo aos sábados pela manhã… coisa de criança! Nos festivais de cinema pelo mundo afora: adulto! Promovendo uma boa risada: criança, é claro. Na verdade ela está lá e cá, mudando de forma e intenção, a fim de seduzir um pouco a todos.

Contudo, o item “boa risada” me ajudou muito a equilibrar esse julgamento. Durante o projeto “Juro que vi”, onde reunimos crianças como colaboradores na criação de um filme animado, ele demonstrou sua força em  fases importantes do trabalho. As primeiras risadas foram ouvidas durante o recreio, nos corredores da escola municipal “George Sumner”, na qual realizamos nossos primeiros encontros com as crianças. Em seguida, durante o bate-papo sobre o argumento e os personagens do filme “O Curupira”, o primeiro de nossa série de curtas animados.

Nessa época, estávamos em ritmo acelerado de trabalho e os problemas que cercam a produção de um filme se multiplicavam a nossa volta. Estávamos com uma equipe maior do que a de costume e com um projeto bem mais complexo também. Na posição de diretor, eu me via preocupado e estressado com a produção do material. Havia o compromisso com as crianças, pesquisadores, educadores e artistas parceiros no projeto que contavam com uma finalização à altura de sua dedicação. Atrasos na entrega de algumas animações, equipamento sobrecarregado entre outros problemas que envolvem a produção de um filme me levavam, naquele momento, a acreditar que lidava indubitavelmente com “coisa de adulto”.

Porém, durante a projeção de um trecho do filme ainda não finalizado para nossos pequenos colaboradores, dentro da própria Multirio, explodiu, das crianças, a gargalhada divisora de águas.  No filme, O personagem “Tobias”, um jovem e atrapalhado assistente de caçador, se debatia, assustado com o Curupira. Para minha surpresa, naquele momento, “Tobias” ganhou vida e independência arrancando risadas e expectativa das crianças. Para elas, ele existia além da seqüência de desenhos à vinte quatro quadros por segundo com a qual nos preocupávamos. Ele realmente habitava aquele mundo mágico que pensávamos estar controlando. Nesse momento pensei: “por isso que faço desenho animado. É para estar em contato com essa energia renovadora”. Coisa de criança!

Trabalhar para crianças e com elas nos dá uma grande vantagem em relação ao mercado comercial de cinema e TV do ponto de vista estético e de conteúdo. Nos dá o privilégio de sermos lembrados daquela energia preciosa que nos aciona e movimenta. Mas essa é uma outra história e esse papo já é “coisa de adulto”. Ou não seria? Bem, você decide…

Uma história de muitas mãos

Projeto: O segredo dos amuletos
Instituição: Escola Estadual Professor Sérgio da Costa, em São Paulo
Localização: São Paulo

O segredo dos Amuletos é o nome de uma série de livros escrita em conjunto por estudantes do Ensino Fundamental da Escola Estadual Professor Sérgio da Costa, em São Paulo. O primeiro, de um total de dez volumes, O Começo, foi lançado no setembro deste ano. Criado pela professora Sandra Martins Modesto, o projeto envolve os alunos Luan Cardoso de Carvalho, Thais Mariano de Sousa, Matheus Mendes da Silva e Paulo Giordan Oliveira.“Reunir quatro mentes, pessoas distintas, com ideias e formas de escrever diferentes. Pareceria difícil conseguir uma história única e coerente. No entanto, essa façanha rendeu um livro com 180 páginas”, conta Sandra.
 
Segundo a professora, o processo de confecção do livro envolveu e contou com discussões, desenhos (story board) e encenação. “A partir disso, construíamos uma sequência para a história, antes que ela fosse para o papel. Daí, então, dividimos quem ia escrever o quê. Assim eram produzidos mais de dez capítulos de uma só vez”, explica Sandra, complementando que os alunos escreviam os capítulos a mão ou no computador e, depois, supervisionados por ela, reuniam-se para costurar e revisar a história.

Graduada em Letras, Sandra atua no magistério desde 2005, após ser aprovada em concurso público para a rede pública de ensino do Estado de São Paulo. Desde aquela época, trabalha na mesma instituição, em uma comunidade carente do bairro Sobradinho, na capital. Para ela, o primeiro de todos os resultados obtidos com o projeto é o imediato resgate da auto-estima das crianças. “O aluno deve enxergar objetivo no que faz. Deve perceber que está se desenvolvendo e ver a utilidade no seu ensino”, finaliza.

contato – http://eeprofsergiodacosta.blogspot.com/

A escola e a criança autora: uma nova relação

“O aluno autor é aquele capaz de perceber que a leitura e a escrita [do mundo] são sempre movimentos inacabados”, Flavia Lobão.

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 Por Marcus Tavares

Crianças e escola em três atos: um estudo sobre infância, cidadania e autoria nas séries iniciais do Ensino Fundamental foi o título da dissertação de mestrado de Flavia Lobão, professora da Escola Sá Pereira e do Centro de Educação Superior a Distância – Cederj/Unirio. Seu estudo, realizado em uma escola particular e num projeto de educação popular, traz à tona o entendimento, cada vez maior, de perceber a criança como autora e produtora de conhecimento.

Esse entendimento está ligado a uma concepção de infância, fruto de uma construção sócio-histórica que, segundo Flávia, não pode mais ser reduzida apenas a um tipo específico de grupo de crianças, muito menos a uma etapa de desenvolvimento. “Percebo hegemonicamente e ao longo da História que há uma certa dificuldade de abolirmos o ideário e as práticas de desqualificação que circundam a concepção de infância”, destaca.

Em entrevista à revistapontocom, Flavia fala sobre o entendimento da criança autora e o impacto que isto tem na escola e no dia a dia do magistério.

Acompanhe a entrevista:

revistapontocom – Com que tipo de infância a escola lida hoje?
Flavia Lobão
– Com vários tipos. É só pensar no tamanho do Brasil e na diversidade que temos. Não podemos, portanto, falar de infância no singular, senão de infâncias e muitas delas. Às diferentes condições que as crianças estão submetidas para viver o que chamamos de infância se relacionam, naturalmente, o contexto socioeconômico e cultural na qual estão inseridas. Alguns autores sinalizam uma crise social da infância que não deve ser pensada fora do contexto da exclusão social, que, por sua vez, está diretamente ligado às variáveis de classe, etnia, gênero e cultura. Isto tudo somado, ainda, à presença, cada vez mais marcante, dos meios de comunicação de massa, com suas respectivas ideologias, e o avanço das próprias tecnologias. Todo este conjunto, sem dúvida alguma, colabora para a pluralidade das infâncias que temos no mundo de hoje. Ao mesmo tempo, pensar as infâncias monoliticamente, encasteladas em suas classes e culturas, significa reduzir demais as possibilidades de transposição. A infância, comumente tratada no singular, com tom de adjetivação e, muitas vezes, de desqualificação – infância vista como o lugar da falta e da ausência, da potencialidade ou ainda da pureza e do paraíso – não é mais que uma redução. Significa, na verdade, compreendê-la apenas como uma etapa, uma questão temporal e cronológica e que, por isso mesmo, passa. Percebo hegemonicamente e ao longo da História que há certa dificuldade de abolirmos o ideário e as práticas de desqualificação que circundam a concepção de infância. Isto porque, talvez, pensamos pouco na dimensão de sua alteridade, ideia que até parece contraditória porque temos a impressão de que tudo o que se relaciona à infância já foi pensado pelos mais diferentes especialistas e profissionais de todas as áreas. Acredito que os professores, especialmente no encontro com essas infâncias, podem caminhar em outra direção e com outro sentido se aceitarem, como propõe o filósofo Jorge Larrosa, que “a criança não é nem antiga nem moderna, não está antes nem depois, mas é agora, atual, presente”.

revistapontocom – Podemos pensar que vem daí, portanto, o investimento, cada vez maior, no protagonismo infantil, muitas vezes traduzido na defesa da autoria das crianças?
Flavia Lobão
– Pode ser que esta questão da autoria seja o esforço de alguns educadores em não projetar, a priori, relações e possibilidades comumente pensadas no espaço escolar em termos de competências e ou incompetências. Pode também ser o esforço de não converter a infância aos nossos projetos para o mundo, para o futuro, o que nos faria lançar as crianças à velha condição do vir a ser. Nesta condição, e com alguma sorte, as crianças seriam completadas pelos adultos com o que supostamente lhes faltam. Ou seja, virão a ser, uma coisa ou outra, depositárias e dependentes dos projetos e expectativas dos adultos. O interessante é que quando defendemos que as crianças, sujeitos de pouca idade, são autoras, mexemos com muitas questões e valores. Elas passam a dizer agora, no presente. É algo de hoje, do agora, do atual. Podemos dizer que o aluno autor é aquele que consegue, a partir dos textos de que dispõe (e não apenas os escritos), de sua relação com o que já lhe foi dito, com os sentidos que já lhe foram apresentados, em diferentes situações de contextualização, (re)significar, criar outros sentidos, criativamente e criticamente se expressar, fazer travessura ao escrever, se posicionar, dizer, escrever a sua palavra. O aluno autor é aquele capaz de perceber que a leitura e a escrita [do mundo] são sempre movimentos inacabados.

revistapontocom – O que muda na escola quando este entendimento se faz presente? O que isto muda no dia a dia do trabalho do professor?
Flavia Lobão
– Muitas coisas. O que muda é que, (re)pensando o(s) lugar(s) que as crianças ocupam, passamos a pensá-las e vê-las para além de uma etapa de desenvolvimento humano. Passamos a ouvir suas vozes. Este novo entendimento requer também um novo pensar do lugar da experiência, da imaginação e do lúdico, e uma disponibilidade, uma abertura, para a invenção, para a transgressão, para a subversão e criticidade da ordem das coisas. A escola é, potencialmente, o primeiro espaço político e público – coletivo – para as crianças experimentarem a vida democrática ou a Educação como política da vida. Isso pode ser uma utopia, mas, talvez, conseguir fazer da escola uma organização “aprendente” pode ser um primeiro passo.

revistapontocom – Mas essa ainda não é uma realidade?
Flavia Lobão
– As práticas escolares, em geral, negam às crianças sua condição de atores e autores de suas narrativas, com a concepção, também hegemônica, da tal infância de vir a ser. Assim é que, historicamente, as crianças vão se preparando, por exemplo, com “gotas homeopáticas” de leitura e escrita, para, quem sabe, serem no futuro, usuárias competentes de sua Língua. Na maioria das escolas, essa relação, de trabalhar a Língua, é cerimoniosa e, em grande parte, visa a uma higienização da oralidade e da escrita não padrão que as crianças já trazem.

revistapontocom – A sua dissertação de mestrado teve exatamente o objetivo de evidenciar, por meio da escrita, a autoria das crianças, não foi isso?
Flavia Lobão
– A dissertação problematizou a infância, discutindo as condições e as formas sob as quais um autor/criança pode acontecer na escola. Trouxe à tona muitos textos das crianças. O meu interesse era saber até que ponto a prática da autoria poderia ser catalisadora do aprendizado da Língua Portuguesa e do exercício de vivência cidadã. As produções escritas das crianças são recheadas de marcas sociais e históricas, que poderão ser marcas de autoria se forem capazes de se inscrever num processo de discursividade: movimento de reconhecer a palavra do outro e reconhecer a sua. O trabalho também teve o objetivo de refletir como o espaço escolar constrói/constitui ou destrói essa discursividade. Não será nessa experiência de dizer/escrever a palavra, onde flagramos as suas cosmovisões, a sua autoria?

Inscrições abertas para o V Seminário Jogos Eletrônicos, Educação e Comunicação

Acredita-se que a inclusão dos jogos digitais no Projeto Político Pedagógico da escola pode contribuir para o desempenho de alunos e professores. Pelo menos, essa é a tese que o professor Geber Ramalho, da Universidade Federal de Pernambuco, vai defender na abertura do V Seminário Jogos Eletrônicos, Educação e Comunicação, que será realizado entre os dias 13 e 15 de novembro, na Universidade Federal de Alagoas, em Maceió.

O evento tem o objetivo de fomentar o debate dos games no espaço acadêmico, reunindo pesquisadores e desenvolvedores de jogos eletrônicos. Além disso, a proposta é socializar pesquisas brasileiras na área, contribuindo assim para a implantação da cultura dos games na sociedade, desmistificando o tema.

A quinta edição é composta de palestras, mesa redondas, minicursos e mostra de jogos. As inscrições já estão abertas. Os interessados em submeter trabalhos devem obter informações no site do evento. Há quatro áreas de estudo: jogos digitais e desenvolvimento; jogos digitais e narrativas; jogos eletrônicos e educação; e jogos eletrônicos, arte e design.

Confira a programação completa no endereço http://www.sejec-al.com.br/

Operação Cosmos: melhor game educativo do NAVE

Por Marcus Tavares

Uma aventura interplanetária, centrada na exploração do espaço, no ano de 2250, e voltada para estudantes do Ensino Fundamental, dos 10 aos 14 anos. Este é o cenário e a proposta do game Operação Cosmos: a ameaça da gigante vermelha, vencedor do Prêmio Nave de melhor jogo eletrônico na categoria Educação, instituído pelo OI Futuro. A premiação aconteceu no dia 9 de outubro, durante a realização da edição do SBGames, no Rio de Janeiro. Baseado em uma das obras do físico Marcelo Gleiser, consultor científico do projeto, o game tem o objetivo de promover e facilitar o aprendizado dos alunos nas áreas de Geografia, Ciências, Astronomia, Física e Matemática.

Mas será que o jogo eletrônico que reúne entretenimento e educação consegue despertar a curiosidade dos jovens? O físico Marcelo Gleiser garante que sim. Segundo ele, o jogo mistura os dois elementos na dose exata. “Um game que mistura tecnologias avançadas e ciência de ponta, capazes de manter o interesse de qualquer estudante do planeta. Um game que usa gráficos modernos e técnicas de mensuração de resultados para introduzir os conteúdos de Física e Astronomia do sistema solar e muito mais”, destaca Gleiser.

Em Operação Cosmos, produzido pela empresa Redalgo, o estudante controla o protagonista de uma aventura ambientada em planetas e luas do sistema solar. Para avançar na história, o jogador enfrenta problemas de estratégia e de cálculo, fazendo links com vários conteúdos ligados à Matemática, Física, Astronomia e Ciências. A interface desses desafios se assemelha a um laboratório virtual. Caso o aluno não consiga resolver os problemas, ele terá que se esforçar para buscar o conhecimento por motivação própria.

Tiros e estímulos à violência são substituídos por disparos de conhecimento. Para evoluir nas fases do jogo, o usuário enfrenta uma série de eduk moments, desafios educativos incorporados à história. Em Operação Cosmos, aprender a decolar uma nave, calcular a velocidade correta para conseguir uma janela orbital e alinhar corretamente os planetas do sistema solar são exercícios que o jogador tem de resolver para avançar no jogo.

O jogo já foi testado na Escola Estadual Emygidio de Barros, no bairro do Butantã, em São Paulo, com enorme sucesso. Para avaliar o desempenho dos alunos, o sistema conta com um aplicativo capaz de mensurar o desempenho dos jogadores e os conhecimentos efetivamente adquiridos. A ferramenta de mensuração permite que uma Secretaria de Educação compare o desempenho dos alunos entre salas de aula, escolas e regiões do país. Com os resultados, a coordenação pedagógica pode redefinir estratégias de ensino e solidificá-las onde houver deficiência.

Confira o jogo em http://www.operacaocosmos.com.br/

O que é ser criativo no mundo de hoje?

Por Marcus Tavares

Um grande cavalo de madeira como presente. Em seu interior, um exército pronto para invadir e dominar a cidade. Pirâmides: estruturas monumentais construídas com mais de dois milhões de blocos de pedra e estrategicamente posicionados. Em solo marciano, robô humano canta samba brasileiro para dar boas-vindas. A história confirma: a criatividade humana não tem limites. Em qualquer povo, tempo e espaço não faltam exemplos de como homens e mulheres foram capazes de criar para se proteger, defender, vencer, descobrir e curar. Criar para libertar, degustar, extravasar, superar. Criar para viver.

Quem estuda o assunto diz que a produção criativa não pode ser atribuída exclusivamente a um conjunto de habilidades e traços da personalidade do criador. É preciso levar em conta o contexto social, histórico e cultural que influencia a capacidade inventiva. Para Mihaly Csikszentmihalyi, professor de Psicologia e Educação da Universidade de Chicago, é mais fácil desenvolver a criatividade das pessoas mudando as condições do ambiente, do que tentando fazê-las pensar de modo criativo.

Membro da Academia Nacional de Educação e da Academia Nacional de Ciências do Lazer dos EUA, Csikszentmihalyi diz que a criatividade não está dentro dos indivíduos, mas é resultado da interação entre os pensamentos do sujeito e o contexto sociocultural. Ele afirma que a criatividade deve ser compreendida não como um fenômeno individual, mas como um processo sistêmico. Na sua avaliação, é um processo que resulta da interseção de três fatores: o indivíduo, que traz uma bagagem genética e experiências pessoais; o domínio da cultura ou de parte dela, que se traduz num conjunto de regras e procedimentos simbólicos estabelecidos entre os pares de uma comunidade; e o campo, ou seja, a sociedade, que tem a função de decidir se uma nova ideia ou produto é ou não criativo.

A concepção encontra eco na Psicologia do educador Lev Vygotsky. Para o teórico russo, o processo de constituição do sujeito é, inexoravelmente, social. Neste sentido, a atividade criadora é mediada pelo entorno histórico, social e cultural. O indivíduo é capaz de criar a partir dos/nos encontros que estabelece com outros sujeitos, encontros mediatizados pelas possibilidades e limites das relações sociais em cada momento histórico.

De acordo com Vygotsky, a atividade envolve diversos processos psicológicos, entre os quais se destacam: a percepção de determinados aspectos da realidade e a acumulação, pela memória, dos elementos mais significativos; a reelaboração desses elementos por meio da fantasia, processo no qual estão presentes tanto a cognição quanto a vontade e o afeto; e a objetivação do produto da imaginação, que, ao materializar-se na realidade, traz consigo uma nova força, que se distingue por seu poder transformador frente à realidade da qual partiu.

Para o sociólogo italiano Domenico De Masi, hoje mais do que nunca, o ser humano tem mais tempo para desenvolver sua criatividade, já que dispõe de uma infinidade de tecnologias que substituem o trabalho. “Em Atenas, na era de Péricles, havia 40 mil homens livres, 20 mil estrangeiros naturalizados e 350 mil escravos. Cada homem livre tinha, entre escravos, esposas e donas de casa, oito ou nove pessoas à sua disposição. Atualmente, para fazer o que essa gente toda fazia, temos lava-louças, máquinas de lavar, elevadores, telefones…”, afirma.

É neste mundo globalizado e mediado pelas tecnologias que a criatividade dos indivíduos vem cada vez mais sendo requisitada. Seja em casa ou no trabalho, se busca de todas as maneiras novas formas de agir, de pensar e de atuar. Ser criativo é pré-requisito no amor, no trabalho, na criação dos filhos, na escola, na relação interpessoal, na vida. Às vezes, é a chave para conseguir sobreviver num mundo caótico e de poucas oportunidades. Não é à toa que as livrarias oferecem livros de auto-ajuda que ensinam o caminho para potencializar a criatividade. Sim, há dicas – e várias – de como o indivíduo pode maximizar o seu poder de criação.

Há quem diga que num mundo saturado de imagens, textos e sons, a criatividade vem da desinformação e da deformação. Outros questionam se a originalidade é necessária. É possível ser criativo a partir do que já aconteceu ou existiu? Carlos Drummond de Andrade ensinava, ironicamente, que o desenvolvimento da originalidade possui algumas etapas, a primeira das quais é imitar os modelos clássicos, e a última: imitar-se a si mesmo até a morte!

No campo da produção artística, o debate é polêmico. Ainda mais quando envolve a questão da propriedade intelectual. Na sociedade contemporânea, na qual, em principio, todos os indivíduos têm a oportunidade de produzir, reconstruindo e reinterpretando as narrativas, e onde se convive com a sensação de que tudo já foi criado, como ser criativo? Quem é o autor? De onde vem a criatividade?
A criação se torna mais fácil? Mais desafiante? Para estas questões, sem dúvida alguma, há respostas que levam a outras indagações. O debate é instigante e provocativo.

E para você: o que é ser criativo?

Qual é a sua avaliação?

O papel do professor na Educação Inclusiva

Por Cláudia Linhares Lucas Ferreira
Professora da Escola Municipal Tagore, Rio de Janeiro

Comete grande equívoco quem pensa que o ato de incluir-se, o esforço de socializar-se, está restrito aos portadores de necessidades especiais. Avaliando todo o nosso processo de vida, desde o ventre materno à velhice, todos nós estamos em constante movimento de inclusão.

Quando rompemos a vida intra-uterina e despertamos no nascimento, passamos imediatamente a ser incluídos. No primeiro momento, em nosso núcleo familiar. Aos poucos, todos ao redor terão que se adaptar à chegada de mais um, que, diga-se de passagem, muda toda uma rotina. Depois, temos que lutar para que sejamos incluídos nos grupos com os quais desejamos interagir.

Lutar para nos incluir numa escola, num curso, na turma do clube, no time de futebol, nos grupos religiosos… Mais tarde, nas turmas do cursinho, na turma dos programas de fim de semana… Temos que nos incluir, também, na turma do computador e logo logo teremos que nos incluir na vida profissional, ensinar por nosso esforço e dedicação que somos capazes, que a sociedade pode nos confiar a tarefa e execução da proposta profissional. Temos assim que nos incluir no mundo, para que vivamos, nos socializemos e cresçamos a partir dessa convivência.

Ainda existem as inclusões relativas a cada indivíduo, aquelas que vão acontecendo paralelamente a todas as já citadas. Incluir-nos no paradigma de beleza construído pala sociedade, nos padrões da moda de cada estação… É o “feio” que precisa ser incluído no universo dos “bonitos”, o idoso que precisa incluir-se numa sociedade que demonstra que, cada vez mais, não está preparada para abraçar seus “velhos”, o analfabeto que precisa incluir-se numa sociedade de signos, nem sempre fáceis de serem decifrados…

Inclusão, inclusão, inclusão…

É de inclusão que se vive a vida. Para Paulo Freire, é assim que os homens aprendem, em comunhão. “O homem se define pela capacidade e qualidade das trocas que estabelece” e isso não seria diferente com os portadores de necessidades especiais.
Inseridos numa sociedade que exige saber conviver para sobreviver, necessitamos cada vez mais nos esforçar para garantir a inclusão deles, desde os primeiros anos de idade, em todos os espaços sociais, e a escola não está à parte desse espaço.

É fato que ao longo da vida, em nossas tantas lutas adaptativas, encontramos pessoas que nos facultam apoio e formação, seja de caráter ou de conhecimento teórico, para seguirmos nosso caminho. Não poderia ser diferente na educação formal. Assim, é que no âmbito escolar – em sala de aula, no pátio, no refeitório, enfim,  em cada parte -, o professor tem papel decisivo e de imensa responsabilidade nesse processo.

Não basta que haja numa escola a proposta de inclusão, não basta que a arquitetura esteja adequada. É claro que estes são fatores favoráveis, mas não fundamentais. É preciso que o coração esteja aberto para socializar-se e permitir-se interagir. E, como quem semeia com o tesouro do conhecimento, que refaz e constrói, é o professor que alavancará  os recursos insubstituíveis para uma educação inclusiva de qualidade.

Para isso, portanto, seu coração também precisa estar aberto. Ele igualmente terá que acreditar e se ver em processo de inclusão permanente, terá que criar e recriar oportunidades de convivência, provocar desafios de interação e aproximação, estabelecer contatos com os diversos e distintos saberes, planejando de forma flexível, mas objetiva, entendendo que a comunhão, a busca do semelhante e o reconhecimento de que ninguém detém um saber, favorecem a troca, a parceria e a segurança de uma inclusão com qualidade.

Se o professor acreditar que incluir é destruir barreiras e que ultrapassar as fronteiras é viabilizar a troca no processo de construção do saber e do sentir, ele exercerá seu papel, fundamental, para assegurar a educação inclusiva que todos nós desejamos, semeando assim um futuro que sugerirá menos discriminação e mais comunhão de esforços na proposta de integrar e incluir.

Artigo publicado na Revista Nós da Escola, da MultiRio

Ao mestre com carinho

Como homenagear os professores em seu dia? Com palavras, imagens e emoções. Confira, abaixo, alguns vídeos produzidos por alunos para os seus mestres queridos, bem como peças relativas à data. As produções foram postadas no YouTube – uma forma que os estudantes encontram para dizer ao mundo o quanto amam seus professores.

Os filmes são simples, mas instigantes. E, acima de tudo, ratificam o quanto a profissão, longe de estereótipos, é marcada pelo compromisso e pela paixão de compartilhar conhecimentos e experiências. A revistapontocom faz dos conteúdos dos vídeos suas palavras e deseja um feliz Dia dos Professores para cada educador deste país.

Assista:

A escola pelo olhar do professor

“Suspeito que a escola venha apontando caminhos progressistas a partir de uma visão ainda tradicional e tecnológica”, Cláudia Reis dos Santos

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Por Marcus Tavares

Cláudia Reis dos Santos é uma típica professora brasileira. Com o curso normal, ingressou na rede municipal de educação do Rio de Janeiro no final da década de 80. Como professora das séries iniciais, foi acumulando experiências, casos e observando o quanto era importante aprender mais, se aperfeiçoar na profissão.

Em 2006, terminou sua graduação em Pedagogia, na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio). E, em seguida, sem titubear, ingressou no curso de Mestrado em Educação, da mesma instituição.

Cláudia acabou de defender sua dissertação. O tema? Nem um pouco fácil: Afinal, pra que serve a escola? Reflexões acerca da função social da escola do século XXI na cidade do Rio de Janeiro, no qual faz uma avaliação histórica do papel escolar ao longo dos séculos.

Para celebrar o Dia do Professor, a revistapontocom entrevistou Cláudia sobre o papel da escola neste início do século. Trata-se de uma homenagem a todos os professores que acreditam e apostam na educação.

Acompanhe as ideias da Mestre Cláudia Reis dos Santos:

revistapontocom – Qual é a função social da escola?
Cláudia Reis dos Santos
– Resumidamente, podemos refletir que, por muito tempo, a função social da escola esteve em consonância com a necessidade lógica do mercado. Ao longo dos anos, a escola foi uma grande subsidiária da manutenção de uma dada ordem econômica vigente. Sua linha de atuação apresentava um caráter exógeno claro. Metodologias, estruturas e filosofias aplicadas na escola pareciam estar sempre voltadas para algo fora delas. Entretanto, não podemos considerar que a relação da escola com o capital se manteve de acordo com os mesmo protocolos a partir do que chamamos de modernidade. Há de se admitir que essa relação mudou e que ela vem acontecendo em um palco de tensões extremamente dinâmico: o currículo escolar, que nada mais é do que o chão da escola. Apesar dessa dinâmica constante, o cerne dos objetivos da instituição escolar, o que poderíamos chamar de “seu núcleo duro”, ainda parece estar atrás de seus muros, lá fora, na sociedade. É evidente que essa escola e os atores que nela transitam são parte integrante dessa mesma sociedade. Entretanto, muitos de seus anseios e desejos são silenciados. Quando nos propomos a compreender todas as facetas de um currículo, considerando-o como um currículo dinamizado, não podemos esquecer que muito do que não se dinamiza no cotidiano escolar precisa ser visto e interpretado como uma perda relevante na formação dos sujeitos.

revistapontocom – O quadro atual ainda é este?
Cláudia Reis dos Santos –
Suspeito que a escola venha apontando caminhos progressistas a partir de uma visão ainda tradicional e tecnológica. Professores, coordenadores pedagógicos, diretores, supervisores, enfim toda equipe pedagógica de uma escola, têm em mente, em geral em seu Projeto Político Pedagógico, um claro objetivo de formar cidadãos críticos e transformadores. Mas, ao mesmo tempo, são estes profissionais que impedem, por exemplo, o acesso dos alunos aos laboratórios de informática – reconhecidamente hoje como um grande instrumento de acesso ao conhecimento. Essa relação dicotômica entre a teoria e a prática gera poucos frutos na transformação do fazer pedagógico. A escola é um espaço privilegiado para estimular os processos de transformação social. Afinal é lá que mudamos comportamentos por meio da aprendizagem. Embora a escola esteja mergulhada em uma dada cultura e se inter relacione com ela, a instituição não precisa necessariamente se encarcerar em suas possibilidades. Criar uma escola totalmente autônoma da sociedade seria construir um modelo esquizofrênico. Porém, limitar essa construção aos limites impostos pela sociedade, que já está estruturada, seria reduzir substancialmente o seu papel.

revistapontocom – Qual seria o caminho?
Cláudia Reis dos Santos
– Desafiar a escola e seus atores a pensar de modo diferente as relações socioeconômicas que são dadas parece um caminho, embora ousado, bastante promissor para o emergente século XXI. Uma vez que o sistema capitalista enfrenta uma grave crise estrutural, entendo que esse momento pode favorecer o desenvolvimento de uma nova organização institucional da escola. Sendo assim, acredito que a função social da escola, de hoje, embora seja clara para os grupos hegemônicos, traz em si, dialeticamente, os pressupostos para sua transformação, cabendo aos atores sociais envolvidos o despertar para essa possibilidade.

revistapontocom – Soma-se a este cenário a mídia, não?
Cláudia Reis dos Santos
– Sem dúvida. Há 30, 40 anos, a escola guardava a função de “templo do saber”, onde o sujeito para se integrar ao conhecimento era impelido à escola. Hoje, diante da diversidade de oportunidades que a mídia em geral oferece, a escola perde essa hegemonia e, muitas vezes, recebe questionamentos sobre o que veicula como saber absoluto. Essa dinâmica ventila as relações entre alunos, família e escola, criando uma possibilidade maior de avanço do conhecimento. Entretanto, a construção desses saberes necessita de uma mediação consciente, uma vez que a administração do que é veiculado na mídia não possibilita um controle da veracidade das informações, assim como do aspecto ético que as circunda. Mídia e Educação são categorias complementares na constituição do conhecimento hoje. Arrisco a dizer que ainda não compreendemos a dimensão total que essa relação atinge. A escola pública absorve uma responsabilidade especial na formação dos cidadãos e cabe a ela oferecer, estimular e estreitar essa relação. Entendo que as políticas públicas voltadas para a educação não devem desconsiderar esse contexto da mídia e da educação. E precisam pautar o planejamento de curto, médio e longo prazo com o viés do acesso crítico à informatização e à utilização de seus instrumentos. A escola pública tem hoje um papel preponderante na democratização do conhecimento historicamente adquirido, uma vez que universalizou seu acesso. Nesse ponto, há uma convergência com a mídia atual, que, em suas diversas manifestações, difunde informações e possibilita acesso a diversas formas de conhecimento.

revistapontocom – Neste sentido, qual é a função do professor?
Cláudia Reis dos Santos
– Como a escola não é mais a detentora exclusiva do saber, o papel privilegiadíssimo de seus professores na guarda e transmissão do conhecimento também se desgasta. Ao se deparar em sala de aula com alunos que manipulam as tecnologias com enorme desenvoltura, alguns professores chegam a questionar a validade de sua posição social. Mas é justamente nesse momento de abundância de informações não sistematizadas que o professor se torna primordial. Saber selecionar, criticar, reordenar e utilizar as informações disponíveis é fundamental nos dias de hoje e esse conhecimento se dá nas relações de aprendizagem mediada. Relações que se estabelecem primordialmente no âmbito escolar. Sendo assim, o professor do emergente século XXI, além de se atualizar constantemente, sobretudo nas diversas linguagens, tem a função desafiadora de auxiliar na instrumentalização de seus alunos, visando a subsidiar a construção do conhecimento, além de desenvolver seus aspectos formativos.

Brinquedo: muito mais do que um simples presente para as crianças

“A criança brinca independentemente de ter ou não brinquedos”, Edda Bomtempo

Professora Edda Bomtempo

Por Marcus Tavares

Vem aí o Dia da Criança e com ele uma grande preocupação dos pais: qual presente comprar para os filhos? Na sociedade do consumo, a data não pode passar em branco sem algum embrulho bonito e aguardado pelas crianças. Conselheira da Associação Brasileira de Fabricantes de Brinquedo (Abrinq) e professora do Instituto de Psicologia da USP, Edda Bomtempo tem vários trabalhos publicados sobre o tema, a maioria na área de psicologia dos brinquedos.

Estudiosa do assunto há mais de 30 anos, a professora afirma que os pais, em sua grande maioria, não sabem presentear seus filhos por uma simples razão: não escutam o que eles querem. E mais: além de saberem ouvir a criança na hora de comprar o brinquedo, a professora recomenda aos pais que brinquem com seus filhos. “Na brincadeira, a criança relaxa e se solta. Muitas vezes descobrimos o que ela tem para contar. É uma oportunidade de conhecer a criança, seus medos, anseios e valores”, destaca.

Para Edda, os brinquedos devem fazer parte, principalmente, do cotidiano das escolas. “Se o processo de aprendizagem for desenvolvido por meio da brincadeira, ele será facilitado. Veja, por exemplo, como as crianças – muitas ainda recém alfabetizadas – já sabem de cor todos os nomes dos personagens do desenho animado Power Rangers. Nomes, muitas vezes, complexos. Ficamos bobos de ver como eles sabem. Isso prova que, por meio da ludicidade, é possível aprender conhecimentos”, destaca.

Acompanhe a entrevista publicada pelo Centro Internacional de Referência em Mídias para Crianças e Adolescentes (Rio Mídia):

Qual é a função do brinquedo no crescimento da criança?
Edda Bomtempo –
 O brinquedo é um objeto que serve como suporte para a brincadeira. Ele tem diversas funções. Entre elas, destaco a função terapêutica, a socializadora e a cognitiva. Um bom brinquedo é aquele que é desafiador para a criança. Ele precisa instigar a curiosidade da garotada. Um brinquedo que não estimula a criança, que não cria desafios, acaba não sendo atrativo. Digo sempre que o brinquedo tem que trazer elementos novos. Mas é preciso destacar que a criança brinca independentemente de ter ou não brinquedos. Ela por contra própria transforma objetos em brinquedos. Deixe a criança, por exemplo, na cozinha. As panelas ganharão um novo significado. Serão transformadas em brinquedos e a criança vai se divertir da mesma forma.

É possível classificar uma geração de crianças por meio dos brinquedos que fazem parte do seu cotidiano?
Edda Bomtempo –
Oficialmente não existe esta classificação, mas se olharmos para as crianças de hoje e para o tipo de brinquedos que usam poderíamos chamá-las de Geração das Tecnologias ou Geração das Máquinas. Afinal, estamos diante de crianças que utilizam, principalmente, os suportes eletrônicos como brinquedos. Veja o sucesso dos jogos eletrônicos e dos videogames. As crianças, e em especial os meninos, são vidradas neste tipo de entretenimento. Esta atração (a dos jogos eletrônicos) está muito ligada ao fato de que o computador é um brinquedo altamente desafiador e instigante. Não é à toa que as crianças vivem grudadas nele. Sem dúvida nenhuma, ao contrário das anteriores, é uma geração voltada para os brinquedos eletrônicos e digitais. Antigamente, as meninas e os meninos brincavam fora de casa, tinham outros costumes. Hoje em dia quase não há mais espaços livres. Mas faça uma experiência: viabilize o contato deles com outros tipos de brinquedos e brincadeiras. Você verá que eles vão gostar bastante. Brincar desenvolve o repertório verbal, a criatividade, a formação de conceitos, conhecimentos em geral, etc.

A indústria de brinquedos está atenta a estes detalhes?
Edda Bomtempo –
Diria que muito mais do que antes. No entanto, em sua grande maioria, os fabricantes fazem pesquisas apenas mercadológicas querendo saber o que vende. O problema é que nem sempre o que vende é o melhor. Poucas indústrias desenvolvem pesquisas e estudos com o objetivo de entender a fundo a relação entre as crianças e os brinquedos. Trata-se de um processo que requer tempo e investimento. É muito importante saber o que as crianças gostam, porque gostam de determinados brinquedos e de que forma esses brinquedos podem ser cada vez mais atrativos.

Os pais sabem comprar brinquedos para seus filhos?
Edda Bomtempo –
Em geral não sabem. E digo que não sabem por uma simples questão: eles não escutam seus filhos. Muitas vezes, os pais ou responsáveis compram determinado brinquedo achando que seus filhos vão gostar ou que vai ser útil do ponto de vista da aprendizagem. Muitas vezes se enganam. É preciso escutar o que as crianças têm a dizer. Estou do lado delas. Durante estes 30 anos de estudo, constato que as crianças sabem o que querem e geralmente estão cheias de razão. Não estou querendo dizer com isto que os pais ou responsáveis não devam lançar mão de novos brinquedos que às vezes as crianças desconhecem. Isto também é importante. Mas é fundamental escutá-las. Não podemos esquecer que as crianças também são bombardeadas pela publicidade a todo o instante. É o papel da propaganda. Cabe aos pais filtrar estas informações.

Que brinquedos vêm sendo usados de geração em geração?
Edda Bomtempo –
Há brincadeiras e brinquedos que vêm se perpetuando de geração em geração. Entre eles podemos citar a bola, o pião, a bola de gude, o dominó, a dama, o xadrez, a trilha (jogos de tabuleiro); os jogos de memória; os de conhecimento; e os de construção. Estudos mostram que há um resgate deste tipo de brincadeira. O Banco Imobiliário, o War e o Detetive também são jogos que vêm sendo utilizados por várias décadas. Isso sem falar nas bonecas, é claro. Sua origem provavelmente ocorreu no Egito, há cinco mil anos.

Brincar rima com escola?
Edda Bomtempo –
Deveria. A presença do brinquedo na sala de aula é muito importante. Se o processo de aprendizagem for desenvolvido por meio da brincadeira, ele será facilitado. Veja por exemplo como as crianças – muitas ainda recém alfabetizadas – já sabem de cor todos os nomes dos personagens do desenho animado Power Rangers. Nomes, muitas vezes, complexos. Ficamos bobos de ver como eles sabem. Isso prova que, por meio da ludicidade, é possível aprender conhecimentos. A brincadeira e o brinquedo não devem estar na sala de aula como mais uma tarefa, mas como uma proposta lúdica. Aquilo o que as crianças aprendem com e por meio dos brinquedos fica gravado. Muitas vezes, brincar só é permitido na Educação Infantil. Quando as crianças chegam à 1ª série, os professores logo dizem: acabou a brincadeira. O que é reforçado pelos pais. Eles acham que seus filhos não podem ir para a escola para brincar, mas para estudar.

No Dia das Crianças que presente os pais poderiam dar a seus filhos?
Edda Bomtempo –
Eles deveriam procurar observar os brinquedos que seus filhos gostam. Deveriam dialogar com eles e, principalmente, brincar com eles. Quando você brinca com a criança, você passa a conhecê-la melhor. Na brincadeira, a criança relaxa e se solta. Muitas vezes descobrimos o que ela tem para contar. É uma oportunidade de conhecer a criança, seus medos, anseios e valores.