Livro infantil: a importância e o lugar da imagem

Por Marcus Tavares

Escritor, ilustrador, designer gráfico e professor. São muitas as atribuições de Guto Lins. Professor do Departamento de Artes e Design da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio), ele vem assinando vários projetos gráficos para livros infantis. Começou ilustrando, depois tomou gosto e resolveu também se aventurar a escrevê-los. Hoje, no processo de produção de uma obra literária infantil, ele é capaz acumular qualquer um dos papéis. Seja escritor, ilustrador ou designer, ele cria e recria.

Há dois anos, lançou um livro específico para os universitários que estudam o assunto: “Livro infantil?: projeto gráfico, metodologia, subjetividade” (Editora Rosari). A obra mostra a importância da imagem na literatura infanto-juvenil e apresenta um panorama de sua produção pela ótica do design. “Tento dar um panorama do livro infantil e juvenil como produto de design, mostrando a sua estrutura e dando dicas básicas para a tarefa de projetá-lo graficamente”, explica.

Em seu escritório em Botafogo, no Rio, Guto concedeu uma entrevista ao site do RIO MÍDIA (Centro Internacional de Referência em Mídias para Crianças e Adolescentes) , em abril de 2006, sobre o conteúdo do livro. Ele fala sobre o mercado editorial e o lugar da obra infanto-juvenil.

Acompanhe a entrevista.

Rio Mídia – Qual a importância e o lugar da imagem no livro infantil?
Guto Lins –
O livro infantil é permeado por imagem, seja ela uma ilustração, desenho, grafismo ou a própria forma de você colocar o texto, uma letra maior ou menor. A imagem faz parte da história e ajuda a contar essa mesma história. A linguagem visual é anterior à linguagem falada e escrita. A imagem, portanto, não é uma mera figuração. Ela não está lá para o livro ficar bonitinho. É também uma linguagem. Por meio dela, por meio da interpretação do ilustrador, a criança tem a oportunidade conhecer outras visões da história. O texto escrito conta uma história recheada de imagens nas linhas e nas entrelinhas. A imagem complementa e enriquece esta história, a ponto de cada parte de uma imagem poder gerar diversas histórias. O texto e a imagem juntos dão ao leitor o poder de criar na sua cabeça a única história que realmente interessa. A história dele.  Além disso, a carga escrita de um livro infantil é pequena se comparada com a que se veicula em outros títulos. Desta forma, a imagem também tem a função de dar corpo ao livro, de dar mais consistência física à obra, possibilitando uma melhor formatação e venda do produto final.

Rio Mídia – A imagem sempre teve esta importância?
Guto Lins
– Não. Esta importância veio sendo construída ao longo das últimas décadas com a evolução gráfica do setor. Se pegarmos os livros antigos, vamos observar que muitos deles traziam 10 ou 15 ilustrações numa obra com cerca de 200 páginas. Hoje, totalmente inconcebível. O lugar de destaque que a imagem ocupa atualmente nas publicações infanto-juvenis é fruto de uma série de questões. Primeiro, não podemos nos esquecer que vivemos hoje numa sociedade que possui um outro tempo e ritmo, uma outra linguagem estética. Quando eu era criança, a TV era preto e branco. Hoje, as crianças têm à disposição canais coloridos e exclusivos, 24 horas por dia. A ilustração extremamente literal ou puramente ornamental e decorativa não representa mais a diversidade, a pluralidade e a riqueza de informações visuais a que as crianças de hoje têm acesso. Além disso, a evolução, sem dúvida nenhuma, do parque gráfico e o surgimento do computador também contribuíram para essas mudanças. Uma imagem colorida impressa em um livro dos anos 50 ou 60 era muito cara e, às vezes, inviável. A globalização também é um outro ponto. Ela permitiu um maior intercâmbio de títulos, recursos e serviços e a uma maior profissionalização do setor. O ilustrador amador que ilustrava os livros como hobby, ou nas horas vagas, deu lugar a um profissional com formação acadêmica, criterioso e encarregado de dar qualidade estética, funcional e lúdica ao produto.

Rio Mídia – Neste sentido, qual é o profissional encarregado pela definição do projeto gráfico de um livro infantil?
Guto Lins
– No Brasil, o projeto gráfico de livros infanto-juvenis, na maioria das vezes, é executado pelo próprio ilustrador. Atualmente, as grandes editoras brasileiras contam com um setor próprio de designer gráfico, que planeja toda a concepção da obra, convidando então um ilustrador profissional para participar da elaboração do projeto. Até a alguns anos atrás, o projeto gráfico dos livros era colocado em segundo plano. O ilustrador brasileiro era contratado apenas para executar as ilustrações e a sua participação na produção do livro era mínima e até evitada tanto pelas editoras quanto pelos próprios artistas. Isso hoje não acontece. O projeto gráfico precisa ser dinâmico, estruturado e conversado bastante com o ilustrador. O bate-papo é fundamental em todo o processo, caso contrário você engessa o ilustrador e inviabiliza o próprio projeto.

Rio Mídia – Podemos afirmar então que o livro infantil, nos últimos tempos, se industrializou? E neste sentido, qual é o seu desempenho no mercado?
Guto Lins
– Embora ele tenha toda a nobreza, não só por estar ligado à literatura, mas porque também está ligado à criança e à escola, o livro é um produto industrial como o sabão em pó. E como tal tem que vender. O fato é que o mercado editorial brasileiro vive um cotidiano complicado. Como se lê pouco, as editoras produzem pouco. O preço então encarece. Sendo caro, o leitor não compra e acaba, portanto, lendo muito pouco. Entramos num círculo vicioso. A tiragem de um livro infantil no Brasil fica em torno de três a cinco mil exemplares. Mesmo assim, a publicação, às vezes, fica nas prateleiras das livrarias mais de dois anos por conta de todo esse processo que falei. Do valor cobrado por um livro, 10% é do autor, mesmo que ele divida os direitos autorais com o ilustrador. Na verdade, varia de 8 a 12%, mas em média pagam 10%. A editora também embolsa uma taxa entre 10 e 15%. A maior fatia do bolo fica com a distribuição. Cerca de 50 a 55% do preço do livro são destinados para os distribuidores. Existe uma brincadeira no mercado que diz que quem ganha mais dinheiro com os livros é o dono da Kombi. Num país como o nosso, de dimensões continentais, a logística é a chave e o grande negócio. Os 20% restantes são destinados para o pagamento do custo de produção do livro. Para estimular a venda, as editoras têm como foco as escolas e não o varejo. Muitos livros que você pensa em comprar não estão nas livrarias. É muito mais interessante para as editoras vender os seus livros nas escolas do que espalhar pelas livrarias do país. Não compensa. Neste sentido, somente as grandes redes de livrarias recebem parte da produção das editoras. Todo o resto é voltado para as escolas.

Rio Mídia – Isso é bom ou ruim?
Guto Lins
– É a realidade. O problema é que, ao trabalhar desta forma, a maioria das editoras editam livros que agradam aos professores e às escolas. Acaba-se didatizando a literatura. Quando ela foca a venda na escola, que tipo de escola ela tem em mente: a da Zona Sul do Rio de Janeiro ou a escola rural do Pará? O risco de didatizar e de nivelar por baixo é muito grande. Pelo que tenho visto, o Brasil, por exemplo, é o único lugar do mundo em que o livro vem com uma bula. Ele é acompanhado por uma cartilha de instruções que traz dicas para o professor trabalhar o livro em sala de aula. Aqui no Brasil também pouco se vê o livro infantil sem texto. Num livro sem texto quem constrói a interpretação é o leitor. Em uma sala de aula, um livro sem texto vai produzir diferentes interpretações. Como o professor vai trabalhar com todas estas interpretações num tempo de aula? Dá muito trabalho e muitas vezes os professores não estão preparados e nem tem tempo para isso. O que é uma pena. O professor trabalha muito e ganha pouco. É quase um sacerdócio.

Rio Mídia – O mercado de literatura infanto-juvenil é promissor?
Guto Lins
– Sem dúvida nenhuma. É um mercado que tem uma demanda muito reprimida. São milhões de leitores potenciais. A tendência é crescer sim, mas como qualquer mercado precisa de investimentos. As editoras sabem que se não fizerem novos leitores, a médio e a longo prazo, elas não terão compradores, consumidores. Não adiantará fazer o melhor livro do mundo pois não haverá comprador. Não tem escapatória. As editoras têm que criar leitores para conseguir vender livros, para conseguir abaixar os custos, para conseguir competir no mercado, caso contrário elas vão quebrar.

Pesquisadores constatam relação entre vício na web e depressão

Internet e depressão. Ainda não se sabe se uma é a causa da outra, mas estudo realizado pela Universidade de Leeds, na Inglaterra, afirma que há uma forte ligação entre a navegação excessiva e o estado emocional do internauta. Pessoas viciadas em internet eram cinco vezes mais deprimidas do que os internautas não viciados. Foram entrevistaods 1.319 usuários da web.

“Nossa pesquisa indicou que o uso excessivo da internet está associado à depressão, mas o que não sabemos é o que vem primeiro. Se as pessoas deprimidas são atraídas para a internet ou se a internet causa depressão. Agora, precisamos investigar a natureza desta relação e avaliar a questão da causa”, afirmou uma das autoras da pesquisa, Catriona Morrison.

O recrutamento dos 1.319 voluntários que participaram da pesquisa ocorreu por meio de sites de relacionamento. Os pesquisados tinham que responder a um questionário online no qual eram questionados a respeito de quanto usavam a internet e quais eram os motivos. As perguntas também foram usadas para avaliar se os voluntários sofriam de depressão. Os pesquisados tinham entre 16 e 51 anos, com a média de idade em torno dos 21 anos.

Os autores da pesquisa descobriram que um pequeno número de internautas desenvolveu um hábito compulsivo de uso de internet, substituindo a interação social na vida real por salas de bate-papo e sites de relacionamento. Os psicólogos classificaram esses 18 voluntários, 1,2% do total, como viciados em internet. Este grupo passou, proporcionalmente, mais tempo em páginas sobre sexo, jogos de azar e comunidades online.

“A internet tem muita importância na vida moderna, mas seus benefícios são acompanhados por um lado mais sombrio. Enquanto muitos de nós usamos a internet para pagar contas, fazer compras e enviar emails, existe uma pequena parte da população que acha difícil controlar o tempo que passa online, até o ponto em que isto interfere com suas atividades diárias”, destaca Catriona Morrison.

Os críticos da pesquisa afirmam que o vício em internet não pode ser diagnosticado de forma confiável com os métodos usados e a forma de recrutamento de pesquisados também pode ter resultado em uma amostra tendenciosa.

Vaughan Bell, do Instituto de Psiquiatria do King’s College de Londres, afirmou que os que foram identificados como “viciados em internet” são pessoas com problemas emocionais e que as conclusões do estudo “não são uma grande surpresa”.

“Existem, verdadeiramente, pessoas deprimidas ou ansiosas para quem a internet se sobrepõe ao resto de suas vidas, mas existem pessoas com casos parecidos que assistem muita televisão, se enterram nos livros ou compram em excesso. Não há provas de que a internet seja o problema”, afirmou.

Fonte – BBC

Barbie em mais duas edições

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Ela continua a mesma, mas com uma nova roupagem, digamos, mais conectada ao século XXI. Chega às lojas deste ano, mas precisamente no Natal, a boneca Barbie Engenheira de Computação – a 126ª da coleção. A Computer Engineer Barbie foi uma das duas profissões selecionadas por um concurso promovido pela empresa Mattel, via internet. Em segundo lugar, os votantes elegeram a Barbie âncora de noticiário.

Com o lançamento da Barbie Engenheira de Computação, a empresa espera “inspirar uma nova geração de meninas a explorar esta importante indústria high-tech, que continua a crescer e precisa de futuras líderes femininas”.

Para criar o guarda-roupa da nova Barbie, a fabricante disse ter tido a ajuda da Sociedade de Mulheres Engenheiras dos EUA e da Academia Nacional de Engenharia. A Barbie engenheira virá com smartphone, fone Bluetooth e laptop com maleta, além de um suéter com zeros e uns, em referência à linguagem binária dos computadores.

Saiba mais:
Barbie: 50 anos ditando a moda das meninas
Conheça a pesquisa da professora Fernanda Theodoro Roveri

Falando pra caramba… em Portugal

O jornalista Zuenir Ventura participa, esta semana, da Correntes d’Escritas – Encontro de Escritores de Expressão Ibérica, que acontece em Póvoa do Varzim, em Portugal. Zuenir vai relançar o seu livro Inveja – um mal secreto. Silvana Gontijo, presidente do planetapontocom, a convite do próprio Zuenir, apresentará ao público o seu mais recente livro infantil: Falando pra caramba (e ouvindo também), que busca trabalhar com a oralidade e a criatividade de meninos e meninas.

O encontro reunirá 66 escritores provenientes do Brasil, Moçambique, Cabo Verde, México, Colômbia, França, Espanha, Angola, Uruguai, Argentina e Portugal. A abertura ficará por conta da ministra da Educação de Portugal, Isabel Alçada, que fará a conferência Leitura, Escrita e Educação. Constam ainda da programação: feira de livro, mesas-redondas, lançamentos de livros e oficinas para escolas.

Confira o site oficial

Falando pra caramba (e ouvindo também)
O objetivo do livro é trabalhar os fenômenos da oralidade, por meio da escrita e da leitura. Ao mesmo tempo, a meta é disponibilizar para as crianças um espaço interativo e dialógico entre o texto escrito e o digital. O livro apresenta os personagens da Turma do Planeta, que tem o seu espaço também na web. A publicação e o site podem ser bem úteis no trabalho do professor na sala de aula, especialmente na constituição de significados para a leitura e a escrita.

Saiba mais
Professora da Prefeitura do Rio utiliza livro em sala de aula

Ilustração para a infância: conheça os vencedores da bienal

Foram 1.400 ilustradores de 61 países que enviaram suas obras para a Ilustrarte 2009 – 4ª Bienal Internacional de Ilustração para a Infância, evento que tem o objetivo de criar um espaço de encontro e de discussão sobre a ilustração para a infância. Do total de inscritos, 150 foram selecionados e 50 premiados. As imagens vencedoras em primeiro lugar são da alemã Isabelle Wandenabele. Elas ilustram um conto baseado no quadro “Prólogo de um amor partido”, do pintor belga Edgar Tutgar.

Todas as obras estão em exposição no Museu de Eletricidade, em Lisboa, Portugal, até o dia 4 de abril. Dica da revistapontocom: é possível conferir algumas das ilustrações vencedoras no hotsite que o jornal Público PT, de Portugal, elaborou.

Saiba mais:
A importância e o lugar da imagem no livro infantil
Entrevista com Guto Lins concedida ao jornalista Marcus Tavares. Fonte – Rio Mídia

Exaltação ao corpo fora do horário infantil

No que depender do parlamento espanhol, comerciais que exaltem o culto ao corpo estão com os dias contados na TV. Os congressistas aprovaram recentemente lei que proíbe as emissoras de veicularem os anúncios das 6 às 22 horas – faixa de proteção à infância. De acordo com os parlamentares, comerciais de produtos de emagrecimento, tratamentos de beleza e cirurgias estéticas devem retirados do ar porque associam a imagem de sucesso à padrões físicos e trazem influências negativas para crianças e jovens.

A nova medida – que ainda precisa ser aprovada pelo Senado – livra apenas os alimentos descritos como “baixos em calorias” ou ” light” . Apesar do apoio popular e da adesão de instituições, como a Associação de Usuários de Comunicação (AUC) e a Confederação Espanhola de Pais e Mães de Alunos (Ceapa), a lei já provocou protestos de associações de anunciantes, que ameaçam recorrer a tribunais internacionais.

“Essa lei merece repulsa porque o governo abusa do direito de legislar e prejudica a todos, do consumidor à indústria. É excessiva e arbitrária, e vamos apelar à Comissão Européia de Informação” , afirmou a presidente da Associação Espanhola de Anunciantes, Patrícia Abril, em entrevista à BBC Brasil.

A repulsa não é à-toa, de acordo com a lista de investimento publicitários realizados em 2008, anúncios relacionados a beleza e higiene movimentam mais de 500 milhões de euros e ocupam a terceira posição em termos de negócios.

Os defensores da medida argumentam que a lei ajudará a combater a propagação de transtornos como a anorexia e a bulimia, pois alguns anúncios podem “prejudicar o desenvolvimento físico, mental e/ou moral”. Na Espanha, 27,6% das crianças têm problemas com o peso e 4% dos adolescentes sofrem transtornos alimentares.

Para Esperanza Rodríguez, presidente da AUC, a lei também tem o mérito de acabar com a impunidade das emissoras de TV. “As televisões sempre fizeram escolhas baseadas em seus interesses sem que ninguém questionasse estas atuações. Já era hora de regulamentar o setor em benefício público”, afirma.

Fonte – El País

O que os olhos não veem

Por Washington Araújo
Jornalista e escritor, mestre em Comunicação pela UnB e escritor

Não há nada melhor que viver a vida neste meu Brasil brasileiro onde o coqueiro dá coco. Ao menos na teoria, viver a vida é bom. Ora, ninguém pode afirmar que o bom é viver a morte, e se existe vida há que se viver. Nada mais óbvio. Marca do novelista global Manoel Carlos, a obra em andamento conta também com histórias reais de superação e tudo contado na eternidade dos 60 segundos logo após o último bloco do capítulo diário de Viver a vida, a novela.

Em breve a novela seguirá para seu fim e até o momento quase nada tem sido escrito por especialistas da mídia sobre as aberrações que o folhetim apresenta. Mau-caratismo, traição, adultério, ciúme, inveja, alcoolismo e uso de drogas se apresentam no horário nobre toda santa noite como aperitivo antes do desbunde geral em que se transformou o que já não era bom, o famigerado Big Brother Brasil.

As “vinhetas de superação” trazendo ao horário nobre gente sofrida, abandonada, envolvida nas drogas ou no crime, pessoas portadoras de necessidades especiais e vítimas de todo tipo de violência, testemunham como foi bom ter dado a volta por cima. Porque nesse horário somente essas pessoas sabem como é viver a vida, enfrentar os desafios, superar as debilidades. Na novela tudo é caricato, tosco e apelativo. Personagens quando choram parecem estar gargalhando por dentro, e quando falam de amor optam pelo desamor, focam as desilusões e nossas pequenas tragédias humanas.

A realidade no folhetim é absolutamente virtual. Basta ver a favela de Viver a vida. Tem até jantar à luz de velas. Balas perdidas? Existe isso? Onde? Quem? O hospital do Dr. Moretti é imenso pátio de diversões onde os médicos estão sempre na lanchonete, colocando em dia seus problemas amorosos e nunca incomodados por pacientes alquebrados, gente entre a vida e a morte como é tão comum e mesmo rotineiro em hospitais. A pousada de Búzios tem clima de Copacabana Palace. Tudo na pousada é muito limpo, decoração de primeira, natureza exuberante, ninguém parece trabalhar mas tudo está sempre nos trinques e hospedes que é bom, se existem, não dão as caras. Faltou a Manoel Carlos a vivência de um feriadão em pousada de Salvador, Porto Seguro, Natal ou Florianópolis.

Trabalho infantil

Viver a vida é um vale de lágrimas do início ao fim. As pessoas choram sem parcimônia. E com gosto. Há aquela que chora porque não consegue parar de beber. Há aquela outra que chora porque está tetraplégica. Outra chora porque não consegue consumar o adultério. Há quem chore porque é abandonada pelo noivo há poucas horas do casamento. Outra chora porque o marido não aceita conviver em harmonia com os enteados, filhos do primeiro casamento. Tem quem chore porque a irmã tetraplégica recebe mais atenção da mãe e das irmãs. Há quem chore porque os filhos gêmeos estão apaixonados pela mesma pessoa. Tem quem chore por acreditar que uma pessoa tetraplégica não pode fazer ninguém feliz. É o folhetim dos vilões-fashion, gente descolada, rica e que prefere viver a vida na base de quanto mais fútil for a vida, melhor.

Até aqui nada de muito novo. O que não entendo é as autoridades responsáveis pela proteção da infância e da adolescência deixarem uma graciosa menina de apenas oito anos de idade interpretar uma vilã. É o que acontece com a Rafaela interpretada pela espertíssima Klara Castanho. Vemos todas as noites sua infância sendo roubada. Assistimos impassíveis ao seqüestro de uma inocência que deveria ser preservada, inicialmente por seus pais, depois por esse veículo de comunicação que é uma concessão pública chamada televisão e depois pelo pessoal do judiciário, das tais varas da Criança e do Adolescente.

Rafaela se pinta com as cores da vida adulta, se veste insinuante como é comum aos jovens, é a cara do consumo-mirim sempre instigando sua mãe a comprar isso e aquilo mesmo que não tenha rendimento para tal. O pior nem é isso. O pior é o retrato de criança manipuladora e sensual, chantagista e dona de opinião sobre assuntos bem complexos para mente em formação como é o caso de aborto, mãe esperando segundo filho, vida de mãe solteira e testemunha de tórrida cena de adultério.

Será que ninguém observa nada disso? Será que ninguém vai trazer à mesa a discussão sobre trabalho infantil em programas para público adulto como é uma novela das oito? Será que toda e qualquer manifestação artística é passível de ser exercida por crianças e adolescentes? Pelo andar da carruagem não me causará espanto se em capítulo futuro a pequena Rafaela se transformar em psicopata-mirim.
Mercado e audiência

É que ninguém está nem aí para colocar em prática dispositivos como o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069, de 13/7/1990), calhamaço que conta com impressionantes 267 artigos. Destes faço questão de enunciar apenas seu Artigo 3º:

“A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.”

A caracterização dada à personagem Rafaela faculta à atriz-mirim Klara Castanho seu desenvolvimento “mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade”? A meu ver, se dá exatamente o contrário. Rafaela é tratada como coisa a ser transportada na vida cheia de peripécias de sua mãe Dora; interpõe-se com protagonismo principal na relação de sua mãe com quem poderia ser seu bisavô, o romântico Maradona, dono da pousada; os diálogos de Dora com Rafaela se sustentam em mentiras escancaradas e em meias verdades; os olhares de “brinquedo assassino” de Rafaela ao iniciar sua precoce carreira de chantagista mirim com a principal protagonista do folhetim, Helena, não deixam dúvidas que coisa muito mais escabrosa vem pela frente.

Enquanto a trama se desenrola, Rafaela passa a freqüentar com maior insistência o imaginário de milhões de crianças da mesma idade vindo a se tornar um modelo infantil a ser seguido com toda sua carga de manipulação e astúcia poucas vezes vista em personagens adultas. E não encontramos contraponto. Isso acontece porque levantar qualquer bandeira que vise proteger a integridade moral e a dignidade de uma criança explorada por um folhetim global é quase cometer crime de lesa-pátria. E não faltarão pessoas a torcerem o nariz para esse meu texto sob o pretexto de que seria incitação à censura. Nada mais ridículo que isso.

O ponto é que enquanto o Deus-Audiência estiver em seu trono nada poderá mudar. Nem que preceitos constitucionais sejam violados e que sejam arquivadas no baú das coisas imprestáveis imagens de crianças inocentes, bondosas, cheias de compaixão, educadas, inteligentes, respeitadoras dos mais velhos… e tantos outros predicados do tempo em que andar a pé era novidade.
Fonte – Observatório da Imprensa

Depois do Carnaval

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Por Cecília Meireles

Terminado o Carnaval, eis que nos encontramos com os seus melancólicos despojos: pelas ruas desertas, os pavilhões, arquibancadas e passarelas são uns tristes esqueletos de madeira; oscilam no ar farrapos de ornamentos sem sentido, magros, amarelos e encarnados, batidos pelo vento, enrodilhados em suas cordas; torres coloridas, como desmesurados brinquedos, sustentam-se de pé, intrusas, anômalas, entre as árvores e os postes. Acabou-se o artifício, desmanchou-se a mágica, volta-se à realidade.

À chamada realidade. Pois, por detrás disto que aparentamos ser, leva cada um de nós a preocupação de um desejo oculto, de uma vocação ou de um capricho que apenas o Carnaval permite que se manifestem com toda a sua força, por um ano inteiro contida.

Somos um povo muito variado e mesmo contraditório: o que para alguns parecerá defeito é, para outros, encanto. Quem diria que tantas pessoas bem comportadas, e aparentemente elegantes e finas, alimentam, durante trezentos dias do ano, o modesto sonho de serem ursos, macacos, onças, gatos e outros bichos? Quem diria que há tantas vocações para índios e escravas gregas, neste país de letrados e de liberdade?

Por outro lado, neste chamado país subdesenvolvido, quem poderia imaginar que há tantos reis e imperadores, princesas das Mil e Uma Noites, soberanos fantásticos, banhados em esplendores que, se não são propriamente das minas de Golconda, resultam, afinal, mais caros: pois se as gemas verdadeiras têm valor por toda a vida, estas, de preço não desprezível, se destinam a durar somente algumas horas.

Neste país tão avançado e liberal — segundo dizem — há milhares de corações imperiais, milhares de sonhos profundamente comprimidos mas que explodem, no Carnaval, com suas anquinhas e casacas, cartolas e coroas, mantos roçagantes (espanejemos o adjetivo), cetros, luvas e outros acessórios.

Aliás, em matéria de reinados, vamos do Rei do Chumbo ao da Voz, passando pelo dos Cabritos e dos Parafusos: como se pode ver no catálogo telefônico. Temos impérios vários, príncipes, imperatrizes, princesas, em etiquetas de roupa e em rótulos de bebidas. É o nosso sonho de grandeza, a nossa compensação, a valorização que damos aos nossos próprios méritos…

Mas, agora que o Carnaval passou, que vamos fazer de tantos quilos de miçangas, de tantos olhos faraônicos, de tantas coroas superpostas, de tantas plumas, leques, sombrinhas…?

“Ved de quán poco valor
Son las cosas tras que andamos
Y corremos…”

dizia Jorge Manrique. E no século XV! E falando de coisas de verdade!

Mas os homens gostam da ilusão. E já vão preparar o próximo Carnaval…

 

Texto extraído do livro “Quatro Vozes”
Editora Record – Rio de Janeiro, 1998, pág. 93.

Folia segura para as crianças

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Com a chegada do carnaval, a campanha Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes é Crime. Denuncie! Procure o Conselho Tutelar de sua cidade ou disque 100 chega às ruas de 14 cidades brasileiras. A Childhood Brasil, organização que trabalha há 10 anos pela proteção da infância contra o abuso e a exploração sexual, é uma das incentivadoras da campanha, que entra em sua quinta edição neste ano.

As cidades escolhidas para abrigar a mobilização receberão bonés, camisetas, abanadores, bandanas, fitas de pulso, tatuagens temporárias, além de peças em inglês e espanhol para uso da Polícia Federal junto a turistas estrangeiros e outras peças de divulgação como outdoors, cartazes, adesivos e spots para rádio. A escolha das cidades levou em conta a amplitude dos eventos carnavalescos locais, o número de denúncias registradas no Disque Denúncia Nacional – o Disque 100, e a sua abrangência dentro da Agenda Social Criança e Adolescente do Governo Federal.

Como no ano passado, a Campanha do Carnaval destaca a importância da denúncia de crimes contra crianças e adolescentes também aos Conselhos Tutelares, como uma forma de fortalecer as instituições locais que também recebem denúncias. Para este ano, a imagem escolhida para divulgação foi a de uma moça representando uma adolescente fantasiada de pierrot, com uma lágrima, simbolizando o sofrimento de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual.

A Campanha do Carnaval é coordenada pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. Neste ano, abrigam a campanha: Rio de Janeiro (RJ), Corumbá (MS), Fortaleza (CE), Vitória (ES), Belém (PA), Recife (PE), Manaus (AM), Salvador (BA), Belo Horizonte (MG), Porto Alegre (RS), São Paulo (SP), Brasília (DF), Florianópolis (SC) e Porto Velho (RO).

Saiba mais sobre a campanha

Muito mais do que samba

Por Marcus Tavares

Paulo Freire dizia que a cultura de um povo deve ser entendida como o acréscimo que o homem faz ao mundo que ele não criou. A cultura, na visão do educador, é resultado, portanto, do trabalho e do esforço criador e recriador do ser humano. Neste sentido, o que dizer então do carnaval? Mais precisamente do carnaval das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro?

Não há dúvida: trata-se de uma cultura viva, envolvente, contagiante e mais do que isso: educadora. Por detrás das rainhas da bateria, das celebridades fantasiadas e da disputa pelo título, está um trabalho minucioso de pesquisa de conteúdo que dá a base para a criação do samba-enredo. Samba-enredo que rima com ensino lúdico e prazeroso. Podemos dizer que cada desfile  é uma aula de história e de como contar uma bela história.

Na tese de doutorado O maior espetáculo da terra: o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro como cena contemporânea na Sapucaí, o pesquisador Miguel Santa Brígida buscou compreender como se organizam três conceitos fundamentais para seu estudo: a dramaturgia, a coreografia e a performance.

Segundo ele, o carnaval incorpora todas as questões trabalhadas na linguagem do teatro, “a questão da dramaturgia, os processos criativos da dança contemporânea e a relação da performance enquanto linguagem híbrida, que conversa com todas as linguagens e anuncia novas linguagens”.

Que o digam os compositores e os carnavalescos que trazem, a cada novo ano, novidades, traduzindo temas, histórias e personagens numa narrativa visual e sonora que, no mundo de bits e bites, ainda chama a atenção e atrai a curiosidade de crianças, jovens e adultos.

No desfile deste ano, não faltam bons conteúdos. Vila Isabel, por exemplo, traz a história do compositor Noel Rosa, celebrando 100 anos de seu nascimento. Portela, conectada ao século XXI, mostra que um mundo de paz é possível em função do rápido avanço da ciência e das tecnologias da informação. Porto da Pedra faz uma viagem interessante, contando a história da humanidade por meio do vestuário.

Beija-flor fala sobre a capital federal que completa 50 anos, revisitando a história recente do país.  Salgueiro conta histórias de invenções, de descobertas, de vida. Viradouro nos leva aos mistérios do México. Unidos da Tijuca discute o que é segredo – um ótimo tema para a falta de privacidade dos dias de hoje. O sincretismo vem com o samba da Imperatriz Leopoldinense. E a vida de Dom Quixote, na União da Ilha.

Prato cheio para a gente aprender mais.

Prato cheio para a escola!

A revistapontocom publica, abaixo, os links de alguns sambas-enredos deste ano.

Confira:

– Beija- flor 
Brasília 50 anos. Brilhante ao sol do novo mundo, Brasília do sonho à realidade, a capital da esperança
Saiba mais

– Imperatriz Leopoldinense
Brasil de todos os deuses
Saiba mais

– Portela
Derrubando fronteiras, conquistando a liberdade… Um Rio de paz, em estado de graça!
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– Porto da Pedra
Com que roupa…eu vou?
Saiba mais

– Salgueiro
Histórias sem fim
Saiba mais

– União da Ilha
Dom Quixote de La Mancha
Saiba mais

– Unidos da Tijuca
É segredo!
Saiba mais

– Vila Isabel
Noel, a presença do poeta da Vila
Saiba mais

– Viradouro
México, o paraíso das cores, sob o signo do sol
Saiba mais

Da sala de aula à arte: alunos em ritmo de carnaval

Noventa alunos da rede estadual de ensino, com idades entre 14 e 22 anos, foram os cenógrafos do Concurso de Marchinhas 2010, que acontece neste domingo, dia 7 de fevereiro, na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro. O material confeccionado pelos estudantes no projeto Lapa, Educação e Carnaval – Curso Prático em Cenografia  enfeitou a casa de shows para a disputa final. A produção também será aproveitada em blocos de rua. São fantasias, estandartes, máscaras e até bonecões de 4 metros de altura, feitos com isopor, bambu e papel marchê. O projeto é fruto de uma parceria entre a Secretaria de Estado de Educação, a ONG Viva Brasil e a Fundição Progresso.

Mas o curso não termina com o Carnaval. Os alunos vão aprender as técnicas pelos próximos dois meses, em seis oficinas teóricas e práticas com 15 horas de duração semanal. As aulas acontecem na Fundição Progresso, com coordenação pedagógica de Débora Lembi e coordenação artística de João Bird. Lá, os alunos aprendem as disciplinas de Montagem e Cenografia; Bonecos Gigantes; Figurinos; Adereços; Escultura e Pintura/Grafiti. Após a conclusão, cada estudante receberá um certificado de participação e um documento de avaliação. 

As oficinas têm como objetivos iniciar a formação técnica em artes e cenografia; incentivar a aprendizagem prática e profissional; apresentar o mercado cultural como gerador de renda e formação; fortalecer a cultura popular local; estimular a formação crítica, o desenvolvimento individual e interpessoal; além de facilitar o trabalho e a cooperação em grupo.

“Estamos muito satisfeitos com o andamento das aulas. No primeiro dia, apresentamos um vídeo sobre os bonecões de Olinda, para que eles tivessem uma referência sobre essa arte. Depois escolhemos homenagear Carmen Miranda e Lamartine Babo, que são nossos bonecões este ano. É um trabalho bem divertido”, contou a professora da oficina de bonecos gigantes, Joana Lyra.

Alunas do Colégio Estadual Souza Aguiar, no Centro, Rafaela Rocha, de 18 anos, e Fernanda Gusmão, 17, contaram que não poderiam ter achado ocupação melhor para as férias. “Estamos participando porque adoramos Carnaval. É muito bom ocupar o tempo com essas atividades. Hoje estamos ainda mais empolgadas porque fizemos este estandarte sozinhas”, comemorou Rafaela.

Aluna do 3 º ano do C.E José Leite Lopes, o NAVE, na Tijuca, Fernanda Emerick, 17 anos, já elegeu uma oficina preferida: a de cenografia. “No início, eu estava levando uma surra. Agora, estou levando o maior jeito”, brincou.

Fonte – Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro

Concurso premia professores em desenvolvimento sustentável

O concurso Ensinar e Aprender Tecnologia Social vai premiar cinco professores da rede pública de ensino, um de cada região do país, com uma viagem ao Fórum Social Mundial 2011, que se realizará em Dacar, Senegal. As inscrições podem ser realizadas até o dia 24 de maio. O concurso, iniciativa da Fundação Banco do Brasil e revista Fórum, visa identificar ações de professores com foco no debate sobre desenvolvimento social sustentável dentro das escolas.

Ao preencher os dados no site da revista, o professor garante uma assinatura da publicação até outubro de 2010 e um exemplar do segundo livro ‘Geração de Trabalho e Renda’. Também recebe material explicativo sobre Tecnologia Social e onde buscar informações. Por e-mail, será enviada uma confirmação com seu número de inscrição e um link para continuar sua participação.

A partir daí, é criar uma proposta de atividade na escola, que envolva os estudantes e a comunidade para difundir os conceitos ou experiências de transformação. Você relata a sua idéia ao responder às perguntas: “Qual é o melhor caminho para apresentar o conceito de Tecnologia Social na sua escola? Por quê?” e “O que você propõe para envolver a comunidade escolar e a localidade onde atua no tema da Tecnologia Social?”.

Um comitê vai avaliar as propostas e selecionar dez educadores por região do país. Eles participarão de um seminário em Brasília sobre o assunto no mês de julho e depois poderão elaborar um projeto detalhado da atividade. A comissão voltará a analisar as respostas para definir os cinco vencedores, um de cada região.

Saiba mais

3º Fórum Internacional Criança e Consumo

Já estão abertas as inscrições para o 3º Fórum Internacional Criança e Consumo pelo site www.forumcec.org.br. Com vagas limitadas, o evento é gratuito e será realizado de 16 a 18 de março, no Itaú Cultural, em São Paulo. O 3º Fórum vai além da discussão do consumismo na infância para debater a sustentabilidade das relações econômicas, sociais e ambientais.

O evento será dividido em três mesas de debate – Honrar a Infância, Refletir o Consumo e Brincar – e já tem a presença confirmada dos convidados internacionais Benjamin Barber, autor do “Consumido – como o mercado corrompe crianças, infantiliza os adultos e engole cidadãos” (Record), e Susan Linn, autora do livro “Crianças do consumo, a infância roubada” (Instituto Alana).

Os palestrantes nacionais também estão confirmados. No primeiro dia, falam a historiadora Mary Del Priore e Guilherme Canela, coordenador de comunicação e informação da representação da Unesco no Brasil. No segundo dia, a professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e autora do livro “O nome da marca” Isleide Fontenelle media a mesa do cientista político Benjamin Barber com o escritor Frei Betto e o diretor executivo do Greenpeace Brasil, Marcelo Furtado.No último dia, compõem a mesa a educadora Maria Amélia Pereira e Maria de Salete Silva, oficial de Projetos de Educação da Unicef, ao lado de Susan Linn, com a mediação de Wellington Nogueira, fundador do Doutores da Alegria.

Estrutura das ficções interativas

Por Janos Biro
Bacharel em Filosofia, pós-graduando em Teologia e desenvolvedor independente de jogos

 

Ficções interativas são obras literárias onde o leitor pode interagir com a narrativa enquanto ela está acontecendo, o que faz com que o leitor também faça parte do processo de criação da ficção. Há basicamente duas formas de tornar interativa uma narrativa. A mais tradicional é a narração oral interativa, onde o ouvinte interfere na estória enquanto a ouve, e o narrador é suscetível a alterar a narrativa em resposta à interferência do ouvinte. A outra é a obra eletrônica, chamada de ‘jogo de texto’, que é um programa de computador onde o texto da narrativa será exibido, e ao mesmo tempo o leitor é convidado a digitar ‘comandos’ que interferem na narrativa, representando as ações da personagem principal. Por isso, a ficção interativa é geralmente narrada na segunda pessoa. O texto dirá algo como ‘Você está diante de uma bifurcação. Para que lado você quer ir?’, e o leitor poderá digitar ‘esquerda’ ou ‘direita’. O programa processa o comando e responde com o texto apropriado, de acordo com a programação prévia do autor.


Uma ficção interativa tem diferenças estruturais em relação à ficção tradicional. A mais importante das diferenças estruturais é que as partes da ficção interativa não estão arranjadas em ordem linear, mas sim num padrão de rede, e o que define a conexão das partes são as escolhas do leitor.

Uma ficção interativa não pode ser reduzida a um simples encadeamento de dados, como um disco ou um livro. A ficção interativa tem duas ‘formas’: uma é inerte e a outra é ativa. A forma inerte é o código que contém sua programação. Esta é a forma com que é escrita pelo autor. A forma ativa é a forma como ela é lida. Esta é totalmente diferente da forma inerte, pois grande parte de seu próprio conteúdo jamais aparece ao leitor. As regras que vão organizar o funcionamento da parte expressiva da obra permanecem ocultas na forma inerte, assim como o código de um software permanece oculto do usuário final.

O autor deve usar um raciocínio relacional ao escrever uma ficção interativa, pois cada elemento adicionado na forma ativa afeta o resultado final. O leitor que lê a forma inerte da obra não experimenta a obra, ele apenas conhece os elementos e as regras de funcionamento. A leitura da parte inerte não é interativa, ou seja, o que o autor escreve diretamente não é a obra em si, mas as condições de possibilidade de uma obra, que só pode existir enquanto estiver sendo narrada ao leitor. Na verdade ele escreve uma base geradora de obras, e esta só fica realmente pronta quando o leitor interage com a forma ativa e completa a narrativa.

A forma ativa da estória pode ter tantas possibilidades que se torna impossível conhecer todas elas, mesmo para o autor. O leitor aprecia uma faceta da história. Uma faceta que, por ser direcionada por suas escolhas, não permite que ele fique passivo. O leitor adquire parte da responsabilidade pelos rumos que a estória toma, e por isso se confunde o autor. A obra lida interativamente não pode ser reduzida a uma ordem linear de proposições, mas mesmo as proposições que estão sendo expressas pela forma ativa não podem ser interpretadas de maneira linear pelo leitor. Elas propõem desafios que exigem um raciocínio lateral por parte dele. O raciocínio do leitor, provocado pelo conflito da narrativa, é uma parte da ficção interativa.

O modo com que o leitor interage com a obra afeta a narrativa decisivamente, ao invés de apenas interpretativamente. Em uma ficção tradicional, o autor pode nos esconder informações que fazem parte da estória como ele a pensou, mas esta permanece uma realidade imutável. O autor pode até mesmo adicionar efeitos de neutralidade ao relato de um evento para que cada leitor faça seu próprio julgamento, mas este julgamento não afeta o curso da narrativa. Numa ficção interativa, a maneira com que se desvela um mistério é muito mais dependente da intersubjetividade entre leitor e autor do que da mera interpretação do que o autor escreveu.

Por exemplo, num conto interativo ambientado num quarto é possível que o autor tenha determinado que existe uma bola embaixo da cama. O texto inicial poderá não dar indicação alguma disso, descrevendo apenas um quarto com uma cama. O leitor só descobre a bola quando, ao imaginar que algo possa haver algo embaixo da cama, entra o comando ‘olhar embaixo da cama’ na linha de ‘input’ do programa. Se ele não pensou em entrar este comando, significa que a personagem não olhou embaixo da cama, e logo não viu a bola, assim a bola não existe nessa estória como ela é contada para esse leitor, embora sempre estivesse lá ‘em potência’. Quando alguém resolve olhar embaixo de uma cama numa ficação interativa, esta ação é motivada pela mesma curiosidade que levaria alguém a fazer esta mesma ação no mundo real. O significado daquela ação será diferente para cada leitor, na medida em que seus motivos para escolher esta ação em particular são subjetivos. Isso adiciona complexidade à obra interativa, criando uma sensação de envolvimento maior entre leitor e obra. Não apenas é uma narrativa ramificada, é o que chamaríamos de uma experiência de atividade, que é tão única quanto uma experiência real.

Numa ficção interativa o leitor precisa necessariamente estar envolvido na narrativa para que ela possa se desdobrar, pois ela não pode lida passivamente, sem que escolhas sejam feitas por parte do leitor. Quando há um desafio, o leitor precisa imaginar a situação descrita com o máximo de detalhes possível, e construir uma solução viável. A narrativa, nesse sentido, não é dada ao leitor, ele deve procurá-la por tentativa e erro. Algumas escolhas podem levar a conseqüências indesejáveis, levando ao fim prematuro da narrativa, ou exigindo correção. Certos desafios podem exigir que o leitor resolva ‘puzzles’ de lógica e memória.

Embora a liberdade de se aprofundar na estória seja a mesma de uma ficção tradicional, a ficção interativa pode ser direcionada pelo autor. Isto ocorre porque a interação permite um diálogo com a obra. A interação depende da recepção, e provoca uma resposta da própria ficção. O autor pode então verificar a compreensão do leitor antes de passar para outra parte da estória, por meio de desafios que exigem uma resposta correta do leitor.

Dessa forma, o autor não apenas espera que o leitor experimente diferentes leituras, mas que desempenhe também o papel de co-autor da narração. Ele presta mais atenção, tanto aos detalhes quanto ao sentido da obra, quando participa ativamente da narração. Isso também garante à ficção interativa qualidades pedagógicas, que já são aplicadas em maior ou menor grau em livros didáticos e jogos educativos.

Outra característica da ficção interativa é a identificação com a personagem principal. Sem identificação o leitor não se sente inclinado a fazer uma escolha relevante, e sem sua escolha o processo de leitura se interrompe. Alguns leitores preferem escolher as ações da personagem com base no que eles fariam se estivessem no seu lugar. Outros preferem não pensar como eles mesmos e interpretam a personagem seguindo sua descrição ou a imagem que eles criaram dela. A ficção interativa precisa da subjetividade do leitor para se fazer completa e adquirir sentido, e isso se torna mais evidente na criação da personagem. Independentemente de como o leitor prefere encarar suas escolhas numa ficção interativa, ele precisa se identificar com a questão que está tentando solucionar. Numa ficção tradicional o raciocínio do leitor não é decisivo para o personagem, por isso a leitura não exige necessariamente esforço cognitivo. Por essa característica a psicologia tem usado de formas de ficção interativa, ou dramatização, para envolver indivíduos em situações imaginadas e analisar suas escolhas.

As características próprias das ficções interativas, além de trazerem uma nova e interessante categoria literária para ser explorada, podem ser usadas como ferramentas educacionais. O conceito já é conhecido e aplicado, embora não extensivamente. A ficção interativa adiciona um grau mais intenso de intersubjetividade à literatura e à comunicação textual, relacionando-se com a teoria da realidade virtual e do hipertexto. Espera-se que ela seja usada como uma forma mais ampla de transmitir idéias de forma não ostensiva.


Texto apresentado no III Colóquio de ficção e filosofia da UNB, em 2007
 

O que o Ministério das Comunicações se nega a ver

Por Vânia Lúcia Quintão Carneiro
Professora da UNB

O Ministério das Comunicações (Minicom) encerrou 2009 sua investigação sobre a denúncia de infração aos direitos da criança ocorrida em dois programas (10 e 17 maio 2009) do apresentador de televisão Sílvio Santos, envolvendo a menina Maisa, apresentadora-mirim de seis anos. Alegou o Ministério em seu parecer que “o estresse físico e emocional apontado pelo Ministério Público Federal foi involuntário e a desenvoltura da menina no palco ao longo do programa demonstrou que ela não se sentiu ofendida nos diálogos com Sílvio Santos” [jornal O Dia, 06/10/2009; disponível aqui, acesso em 10 jun. 2009].

Contrapondo-se a essa afirmação do Ministério das Comunicações, apresento parte de outra versão [CARNEIRO, Vânia L Quintão. “Fazer rir … a que preço? Desrespeito e comercialização da liberdade infantil”. XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Curitiba, 2009], em que analiso como a produção do riso pode ocultar os constrangimentos a que a que menina Maisa foi exposta ao vivo, no programa dominical Sílvio Santos, voltado à diversão de adultos, durante o período em que o quadro “Pergunte a Maisa” esteve no ar (ago. 2008 a maio 2009).

Comédia grotesca

Vale ressaltar que esse quadro com a exposição da menina foi retirado do ar por violar os direitos da criança e o seu apresentador Sílvio Santos foi acusado pelos órgãos públicos – Ministério da Justiça, Ministério Público Federal, Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente e Juizado da Infância e da Juventude de Osasco – de exploração do trabalho infantil e de submeter a criança aos graves constrangimentos morais e públicos, como os ocorridos nos dias 10 e 17 de maio de 2009 que justificaram a abertura de Inquérito Civil Público pelo Ministério Púbico Federal [Portaria nº 72 de 19 maio 2009, instauração de Inquérito Civil Público (1.34.001.004212/2009-69), Ministério Público Federal, Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão, disponível aqui, acesso em 10/06/2009].

Este artigo objetiva responder às indagações: por que estas situações constrangedoras e dolorosas para a criança conseguiram até mesmo provocar o riso? Como foram produzidas? Para responder a estas questões, analisei seis vídeos do programa, que circularam no YouTube durante a existência do quadro, incluindo tanto os que pareciam repercutir a imagem de uma menina inteligente que faz rir quanto esses dois últimos programas da menina que chora. Constatei, portanto, que os dois últimos programas simplesmente deram visibilidade à exploração da sua condição e liberdade infantil, ao tratamento de desrespeito aos seus direitos de criança, o que, de certo modo, já acontecera em programas anteriores.

Minha análise evidenciou que o mecanismo de produção do riso do qual a criança participava evocava brincadeiras infantis com bonecos de molas e de cordas sob a aparência das quais o apresentador Sílvio Santos habilmente transformava em “comédia/grotesco” qualquer situação real que a criança vivesse por mais dolorida que fosse. A seguir, apresento essa descrição analítica com relação a três vídeos dos dois últimos programas veiculados pela emissora SBT e pela internet.

“Sílvio Santos tranca Maisa dentro da mala” (10/maio/2009)

No programa do dia 10 de maio/2009, assim que três crianças bailarinas terminam a dança, Maisa se aproxima de uma mala que está aberta no meio do palco. Fica em pé dentro da mala, sem acreditar que a menina Pitu coubera nessa mala. Sílvio lhe pergunta se ela acha que alguém cabe na mala? Ela tenta deitar dentro da mala, estimulada pelo Sílvio que se aproxima e a desafia: “Quero ver você ai toda dentro da mala?” Receosa, Maisa pergunta: “Fechada?” E ele aproxima-se mais e ordena: “Entra na mala. Eu quero ver se vai conseguir”. Maisa, esperta, sai da mala e pede a uma das bailarinas para entrar. Sílvio Santos não deixa que a bailarina entre, e insiste com Maisa para que ela entre na mala como se fosse viajar com o pai e a mãe. Aproxima mais para ajudá-la a ficar completamente dentro da mala, e, de repente, sem aviso, tenta fechar a mala. Maisa se mexe incomodada e grita. Sílvio Santos, se divertindo como se tratasse de uma boneca de mola, aperta a parte superior da mala comprimindo-a para a menina não saltar, enquanto puxa o fecho para trancá-la. Irônico, comemora a “vitória” sobre a “boneca”: “Deixa ela aí que eu me livro dela, e nunca mais”. Maisa grita por socorro e

Sílvio Santos ignora seus gritos. Sorrindo, o dono do baú, investido do papel de dono também da “boneca”, vai empurrando a mala e a entrega para as meninas ordenando a estas que a despachem como uma mercadoria qualquer: “Pode levar, leva embora sua mala e ela também”.

Esta cena apavorante para a criança Maisa pode produzir o riso ao evocar o mecanismo da brincadeira conhecida por “caixa de surpresas”, que abriga um boneco de mola. Uma pessoa tenta tampar a caixa, mas o boneco teima, insiste em saltar fora. Quanto mais se aperta o boneco, mais alto ele pula. Essa sequencia da mala pode ser visto, segundo Bérgson [BERGSON, Henri.( 2007) O riso: ensaio sobre a significação da comicidade. São Paulo, Martins Fontes] como o “conflito entre duas obstinações, das quais uma puramente mecânica, acaba ordinariamente por ceder à outra (humana), que com isso se diverte”. No caso, a obstinação humana que vencia e se divertia era a do apresentador Sílvio Santos, mas o grave é que a outra não era a mecânica de uma boneca, não era material, nem um personagem representado por uma atriz-mirim. Era a própria menina Maisa ao vivo.

Neste mesmo programa, após haver passado pela “experiência” de ser trancafiada dentro de uma mala, ter chorado no ar pela primeira vez e de pavor, Maisa aparece no palco apreensiva e chama Sílvio Santos a um canto, para lhe confidenciar um medo e pedir-lhe que o menino de máscara não seja chamado. Sílvio Santos dissimula: “Você está com medo?”; “Alguém te bateu?” Insegura e desconfiada, Maisa começa a chorar. Silvio Santos, desrespeitando a confiança que a criança acabara de lhe depositar e ignorando o seu pedido, chama um menino que está com figurino e uma maquiagem de “monstro”. Ao ver o menino mascarado, Maisa sai chorando, apavorada.

O dono do baú, para provocar em sua audiência, o riso deste drama pessoal da menina por ele causado, sentencia que é tudo diversão/encenação e convoca todos ao riso: “Ela é muito engraçada!”; “Cadê a Maisa?” “Ela fugiu”. “Essa Maisa não tem mais jeito”. Enquanto isso, Maisa gritando “Não quero!” revela-se ser ela própria, uma criança que tem medo de máscara e pavor do menino-monstro.

“Sílvio Santos faz Maisa chorar de novo” (17/maio/2009)

Conseguido o choro no dia 10, que certamente significou elevação de índices de audiência, o que se traduz em faturamento, importava a Sílvio Santos prolongar essa emoção no domingo seguinte. Assim, a situação foi de constrangimento, crueldade, submissão e humilhação. Sílvio diz não querer conversar com a garota “Porque na semana passada você deu vexame, ficou chorando no palco como se fosse uma criancinha de um mês de idade”. “Você me magoou”, argumenta Maisa, chorando e ressentida.

Mas Sílvio ironicamente desprezou o sentimento e o argumento da criança de que fora magoada e insistiu em reduzir o que ela vivenciara a um comportamento inconveniente, inadequado, um vexame. Comparou seu choro ao de um recém-nascido. Maisa lhe pediu para que não falasse mais do choro. Ele cinicamente negou que estivesse falando do seu choro, para afirmar novamente, que ela ficou chorando. E apesar de ela dizer novamente que não gostava da temática, ele insistiu autoritária e insensivelmente, culpando-a e atribuindo o seu choro a um caráter de choro mecânico, de atriz petulante: “Você não gosta de chorar? Mas chora à-toa. Você parece atriz de cinema. Você parece atriz de televisão, qualquer coisinha você chora.”

Em programas anteriores Maisa havia revelado não ter competência artística de fingir chorar. Determinado a continuar autoritariamente falando do tema para fazê-la chorar, Sílvio Santos, astutamente dissimula, menciona novamente o choro, e passa a incitar o público, com o a pedir sua adesão: “Eu estou falando alguma coisa para ela chorar?” A menina explica que ficara magoada por ele dizer que ela chorara e, chorando inconsolavelmente, sai correndo em busca do colo da mãe (que está no camarim), mas ao passar pelas câmeras bate a cabeça em uma delas e a dor física amplifica seu choro. Sílvio Santos externa um “coitada, ela machucou a cabeça” para em seguida voltar a falar do choro, mais uma vez, culpabilizando Maisa de comportamento inadequado ao atribuir seu choro a uma questão de “banca de artista”: “Mas que artista cheia de banca! Não se pode nem tocar no choro dela!” E agora, covardemente incita o público a chamá-la de “medrosa”.

“Que mulher encrenqueira!”

Na primeira volta ao palco, ainda ao som da adjetivação de “medrosa” entoada pelo auditório, ela retoma ao palco, reclamando da dor e se dirige ao seu patrão para lhe pedir a permissão de sair do palco: “Posso ir lá para minha mãe?”. Ele tenta detê-la, sob uma ambígua permissão. Em um curto diálogo ele diz seis vezes a expressão “vem cá”. Tudo isso, depois de perguntar se ela voltaria. Por sua vez, ela também demonstra sua obstinação em sair, insistindo que quer a mãe. Não sem antes declarar: “Eu amo você”, mas usando o argumento da doença e o nome de Deus: “Ó Sílvio, pelo amor de Deus, está doendo muito a minha cabeça”.

Na segunda volta, mais uma vez Maisa retoma (pressionada pela mãe) para justificar-se perante o “seu patrão”: “Ô Silvio, deixa eu esperar sarar depois eu volto”. E sai outra vez para os bastidores. Em sua ausência, mais uma vez Sílvio Santos minimiza a complexidade do que vivenciava a menina para atribuir a situação a uma mera encrenca, causada por uma “mulher encrenqueira”, escamoteando a condição de criança de Maisa, o que lhe retira a responsabilidade sobre o acontecido e a transfere à criança sob o disfarce de adulta: “Só briga, só briga. Que mulher encrenqueira!” Na terceira volta ao seu patrão, Maisa ainda se ouvia a voz dele ao fundo apregoando impossibilidade de convivência matrimonial: “Que mulher encrenqueira! Quem vai querer casar com esta mulher?”, fala que na saída definitiva da menina o apresentador viria a repetir.

Nesta terceira e última volta ela novamente se justificara e se comprometera em cumprir uma responsabilidade que legalmente uma criança livre não poderia ter: “Sílvio, meu Deus, ta doendo muito. Semana que vem eu gravo dois programas, este e o outro.”
Apesar da crueldade desta situação de dominação e de sujeição a que era submetida a criança, ainda assim, os jogos de simulações e artimanhas do astuto apresentador, conseguiam provocar em seu auditório o riso diante do sofrimento da criança. Qualquer cena dramática pode transformar-se em comédia, se imaginarmos que a liberdade é aparente e disfarça uma “trama de cordões”. Bastava pensar nas idas e vindas da menina, neste último episódio, como movimento mecânico do ir e vir determinado pelos puxões dos cordões de uma boneca pelo seu dono: “Vem cá Maisa!” “Que menina engraçada!” “Que mulher encrenqueira!”

Apenas uma “brincadeira”

Conclui-se que o funcionamento do mecanismo que fazia rir era, na verdade, não o mecânico de uma boneca de mola, ou de cordas, nem tampouco a representação artística dessa boneca por uma atriz-mirim. Tratava-se do tolher, do comprimir liberdade da criança de ser ela própria de carne e osso, alegre, esperta, que sofre, que chora, que tem medo de careta.

O grave é que a criança não estava representando um personagem de uma comédia. Era ela mesma, sem ter consciência do papel que desempenhava ali e das interpretações adultas de suas falas espontâneas. Afinal, ela tinha seis anos de idade, o que significa ter poucas
experiências de vida e que estava nas mãos de um inescrupuloso apresentador de programa de televisão em busca de audiência.

O apresentador, dono do baú, manipulava o sentimento real, ora comprimindo-a como se ela fosse uma boneca de mola, bem ao gosto de um “Sílvio Santos prende Maisa na Mala”, ora puxando-a por uma corda, como se ela fosse uma marionete. “Vem cá Maisa”. O apresentador como dono da mala de surpresa e da boneca divertia-se com a idéia de vê-la obstinada, sucumbindo, submissa ao final, como se se tratasse de uma simples mecânica, de uma mera representação.

Portanto, além de revelar toda a sua habilidade como autor e diretor de teatro grotesco, Sílvio Santos também se revelava um hábil ator que conseguia disfarçar a manipulação real dos sentimentos da menina utilizando, desde expressões que poderiam sugerir tratar-se de uma personagem cômica “Como é engraçada, esta Maisa!”, passando pelo recurso de ter em mãos um papel que dizia ser o roteiro até o tratamento da criança como adulto. O que levava telespectadores incautos a poder rir sem culpas e sem acusá-lo de desrespeito à menina. Afinal, ela parecia não uma apresentadora-criança, mas uma atriz-adulta.

E tudo isto não passa de uma “encenação”, de uma “brincadeira”, também para representantes do Ministério das Comunicações, órgão responsável pela concessão de rádios e televisão no Brasil.

PraticaMente auxilia no aprendizado

Projeto – PraticaMente
Instituição – Escola Municipal Dr. Mário Augusto de Freitas
Localização – Rio de Janeiro

Os especialistas afirmam: atividades extracurriculares podem despertar, nos alunos, o interesse pelos estudos. O desempenho abaixo da média de alguns estudantes levou o a Escola Municipal Dr. Mário Augusto de Freitas, em Engenho Novo (RJ), a criar uma atividade extracurricular para ajudar quem estava com dificuldades nas disciplinas. A professora de educação física, Márcia Bandeira de Mello, conta que o trabalho chamado  PraticaMente consiste na produção de jogos com material reciclável para despertar o interesse dos estudantes. “Os alunos que têm algum tipo de dificuldade no aprendizado vêm ao colégio duas vezes por semana, fora do horário de aula, para criar jogos e aprender com eles”, diz.

As atividades são feitas com alunos do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental. São eles mesmos quem criam os jogos e suas regras. As “brincadeiras” são trabalhadas de acordo com a dificuldade dos estudantes em cada disciplina. As turmas têm no máximo 12 crianças para que tenham toda a atenção possível. Segundo Márcia, os trabalhos são focados na memória e na atenção das crianças. “É mostrar que a matéria que está difícil de aprender em sala de aula pode ser prazerosa, e divertida se estimulada da maneira correta”, ressalta.

As oficinas do PraticaMente foram criadas no início do ano passado. Nelas, os alunos aprendem especialmente matemática e língua portuguesa, de forma lúdica. “Essas são as disciplinas onde eles encontrar mais dificuldade. Se os professores identificam baixo desempenho em alguma outra, também desenvolvemos jogos para ela”, explica. O aprendizado vai desde a construção de um dado de papelão, até jogos mais complexos que envolvem lógica, com tabuleiros de madeira e garrafa pet, ou desafios silábicos.

Márcia afirma que a avaliação dos professores é a melhor. Eles comentam que as atividades facilitam seu trabalho e ajudam os alunos a ter um desempenho positivo em sala. “Tanto que já chegamos a reduzir o número de estudantes nas turmas, pois eles conseguiram aprender e ter notas acima da média”, garante.

Entretanto, segundo a professora, os alunos sentem falta das atividades quando deixam a turma extra. Eles gostam tanto que querem voltar, mesmo com notas melhores. Já vimos que eles levam o que aprendem na escola para casa e praticam os jogos aprendidos com a família e os amigos. É gratificante ver esse resultado”, destaca.

Fonte – MEC

Em defesa do midiaeducador

“Não se trata de um técnico da área, um especialista, mas de uma pessoa que conhece os meandros das duas áreas  e que sabe dialogar com todos os profissionais envolvidos em um processo de produção de mídia – agindo como um coordenador”, Pier Cesare Rivoltella.

rivoltella 

Por Marcus Tavares

Professor da Universidade Católica de Milão e vice-presidente da Associazione Italiana per l’educazione ai media e alla comunicazione (MED), Pier Cesare Rivoltella, esteve esta semana no Rio de Janeiro, participando de uma palestra no Departamento de Educação da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio). Estudioso da relação entre mídia e educação, Rivoltella defende a formação de um novo profissional: o midiaeducador, que, além de atuar como educador para e com os meios, poderia atuar junto a empresas de produção e exibição em favor da qualidade das produções de mídia dirigidas para crianças e adolescentes.

É curioso como o debate da mídia nas escolas avança, mas de forma lenta em todo o mundo. Em 2007, conversei com o professor sobre a importância do novo profissional. Relendo a entrevista hoje, considero o tema ainda mais pertinente. Os desafios são os mesmos, assim como as resistências.

Confira:

Como o senhor definiria midiaeducação?
Pier Cesare Rivoltella
– É um campo de pesquisa e intervenção relativamente novo e bastante abrangente. Tem o objetivo de promover uma educação com a mídia, por meio dela e sobre ela, levando em conta as implicações deste processo no dia a dia da sociedade e como esta própria sociedade interpreta esta influência. Antigamente, o binômio mídia educação era entendido apenas como um movimento que incentivava o uso dos aparatos tecnológicos (da mídia) no cotidiano escolar. Hoje, o conceito é outro, evoluiu. Midiaeducação é muito mais do que isso: é um campo de pesquisa e de ação que ultrapassa os muros da escola e que, portanto, merece estudo e atenção. Na Itália, estas duas áreas (comunicação e educação), infelizmente, não dialogam entre si. Os educadores não estabelecem nenhuma ligação com a mídia. Já os comunicadores acreditam que as questões educacionais não lhes dizem respeito – são problemas dos educadores. É muito difícil convencer os educadores de que a mídia é parte do processo de suas ações. Eles entendem a mídia apenas como ferramentas opcionais do seu trabalho diário na escola.

Qual seria a formação deste novo profissional?
Pier Cesare Rivoltella
– O midiaeducador deve saber trabalhar com a comunicação e deve ter também conhecimentos da área educacional. Não se trata de um técnico da área, um especialista, mas de uma pessoa que conhece os meandros das duas áreas (comunicação e educação) e que sabe dialogar com todos os profissionais envolvidos em um processo de produção de mídia – agindo como um coordenador. Além das escolas, o mercado de trabalho carece deste profissional, seja nas empresas de comunicação, nas produtoras, nas agências de publicidade ou nos sets de filmagens. Atualmente, as empresas de mídia têm apenas uma visão mercadológica e comercial de seus produtos. Não apresentam nenhuma preocupação com as implicações e influências que seus produtos possam causar na sociedade, em especial nas crianças e adolescentes. Estamos pressionando as instituições italianas a aceitarem este novo profissional em seus quadros. O trabalho é lento, mas necessário.

Mas, na prática, qual a importância deste profissional para a sociedade?
Pier Cesare Rivoltella
– O midiaeducador surge como uma resposta da própria sociedade ao mundo globalizado, comercial e midiático em que vivemos. É uma resposta de todos nós à Sociedade de Consumo do mundo ocidental. Este profissional representa a figura de um interlocutor entre a sociedade e as empresas de comunicação, entre a sociedade e o poderio da mídia. Portanto, é este profissional que garantirá, por exemplo, a qualidade da programação e o exercício dos direitos das crianças e dos adolescentes, bem como a formação de uma audiência crítica e reflexiva. Na Itália, vivemos uma situação peculiar. Nosso primeiro ministro exerce controle sobre as três redes de TV nacional e também é sócio do maior grupo editorial e televisivo italiano.

A Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo defende a formação do educomunicador, profissional ligado às áreas da comunicação e da educação que tem o objetivo de trabalhar estas questões dentro da escola. Midiaeducador e educomunicador seriam a mesma pessoa?
Pier Cesare Rivoltella
– O chamado Educomunicador, difundido aqui no Brasil pela Universidade de São Paulo, por meio do professor Ismar de Oliveira, é o resultado do desenvolvimento do educador. É a nova fronteira do professor. Educomunicador é aquele que trabalha com a mídia na educação, na escola. Hoje, todos os educadores precisam ser educomunicadores, afinal é praticamente impossível trabalhar na escola sem articulá-la com a mídia. O midiaeducador é mais amplo. Ele não é um profissional que trabalha, prioritariamente, na escola. Ele é um profissional que está apto a trabalhar nas empresas de comunicação, gerenciando e supervisionando as produções de acordo com os interesses da sociedade e os direitos das crianças e dos adolescentes. São duas figuras muito importantes que se complementam, mas diferentes. Neste campo, podemos ainda identificar um terceiro profissional: o chamado educador de multimeios, que tem o objetivo apenas de alfabetizar a criança ou o adolescente no mundo eletrônico.

Neste sentido, como se dá a articulação entre a mídia e a educação nas escolas italianas? Os professores estão avançados neste processo, reconhecem a importância desta interface?
Pier Cesare Rivoltella –
Os professores não estão preparados. Os cursos de formação não abrem espaço para esta discussão e consequentemente não preparam os profissionais para esta realidade. Muitos professores ainda acreditam que midiaeducação se resume apenas na utilização dos aparelhos na sala de aula. É difícil convencê-los de que a mídia deve ser parte do processo, deve estar articulada com o cotidiano dos alunos e que deve ser, inclusive, objeto de estudo. Para mudar este cenário, as universidades vêm desenvolvendo projetos e oferecendo cursos de atualização para os professores. Criamos também na Itália a Associazione Italiana per l’educazione ai media e alla comunicazione (MED), que tem o objetivo de intercambiar experiências entre os professores e divulgar projetos bem sucedidos para a sociedade. Avançamos, mas é preciso muito mais. É necessário que haja um comprometimento político para que efetivamente este campo de trabalho tenha êxito. Nos anos 90, não tínhamos praticamente nenhum curso sobre mídia e educação nas universidades. Hoje, 15 anos depois, pelo menos, 12 instituições já oferecem algum módulo nesta área.

E como as empresas de comunicação veem a importância deste novo profissional?
Pier Cesare Rivoltella
– Com certa resistência. O midiaeducador está muito pouco presente. Os obstáculos ainda são muitos. A Itália carece, por exemplo, de uma regulamentação mais enérgica sobre a programação televisiva. A lei estabelece uma faixa horária especial reservada para o público infantil, que vai das 10 às 20 horas. No entanto, devido ao ritmo de vida cada vez mais acelerado, as crianças assistem, em sua grande maioria, à TV após as 20 horas. Em uma recente pesquisa, a MED entrevistou crianças e adultos sobre a qualidade da programação da TV. As crianças se mostraram mais críticas do que os adultos. Elas reivindicaram um conteúdo mais educativo e uma linguagem mais próxima de sua realidade. O fato é que o espaço para a TV Educativa na Itália é muito pequeno. Por outro lado, as TVs comerciais também não estão interessadas em investir recursos em novos formatos. Grande parte da programação televisiva italiana é importada.

Texto publicado inicialmente no site do Rio Midia