A falta que faz o ensino da ciência para crianças

Por Ana Lucia Moura, do site da Universidade de Brasília (Unb)

Pelo menos 86 bilhões de neurônios interligados formam o sistema nervoso humano. Mais de 85% dessas conexões neurais formam-se nos primeiros cinco anos de vida. Os neurocientistas sabem disso há mais de uma década. Entendem que as primeiras experiências determinam a capacidade de aprender ao longo da vida. Mas esse conhecimento não trouxe avanços práticos para a educação no Brasil.
 
É o que apontaram pesquisadores reunidos nesta semana em seminário sobre difusão científica como fonte para a educação. No encontro, organizado pelo Instituto de Estudos Avançados do campus da Universidade de São Paulo (USP) na cidade de São Carlos, eles afirmaram que a primeira infância ainda é ignorada no sistema educacional brasileiro.
 
O coordenador de comunicação institucional da UnB, professor Isaac Roitman, lembrou que a capacidade de absorver informações, se não estimulada nessa fase da vida, dificilmente é recuperada mais tarde. “Aqueles que recebem mais estímulos cognitivos na primeira infância chegam à escola em melhores condições de aprender”, explicou. E defendeu a educação científica já na primeira infância.

“A ciência é o melhor caminho para se entender o mundo. Ela desenvolve habilidades, define conceitos, estimula a criança a observar, questionar, investigar e entender de maneira lógica os seres vivos, o meio em que vivem e os eventos do dia a dia”, afirma. “Mostrar a ciência aos pequenos, que já são cientistas por natureza, é garantir o interesse pelas pesquisas no futuro”.
 
Roitman destacou que a educação científica tem recebido alguma atenção nos últimos dez anos e enumerou alguns projetos de ensino de ciências a alunos do ensino fundamental e médio. Um exemplo é o Mão na Massa, que acontece no próprio Centro de Difusão Científica e Cultural de São Carlos, onde ocorreu o encontro. “Mas para os pequenos não há nada. Imaginem quantos talentos não desperdiçamos só aí”, indagou o professor, que apresentou durante o encontro a revista Darcy, da UnB, como exemplo de projeto voltado para estudantes do ensino médio.
 
A professora Ivone Mascarenhas, da USP São Carlos, organizadora do seminário e coordenadora do projeto de divulgação científica Ciência na Web foi além. “Não negligenciamos a ciência somente na primeira infância, quando ela representa um potencial a ser explorado, mas também quando está pronta e acabada. Nossos melhores pesquisadores não ficam aqui. Não há nada para eles. A maioria está fora do Brasil”, afirmou.

A editora-executiva da revista Ciência Hoje, Alicia Ivanissevich, defendeu pesquisas, desenvolvimento e implementação de atividades paradidáticas para meninos e meninas de zero e cinco anos como jogos e brincadeiras que despertem a curiosidade da
criança para a ciência e a estimule a pensar criticamente. “Temos de investir na formação das crianças desde muito cedo. Os países que estão no topo do ranking dos melhores em educação constroem educação científica desde que a criança começa a se relacionar”, disse.
 
Ampliar o ensino infantil e incluir o despertar para a ciência não é o único caminho apontado pelos especialistas para difundir a ciência. Capacitar professores, valorizar a educação enquanto política pública, aproximar cientistas de jornalistas e investir em projetos de divulgação da ciência, principalmente pela internet, são outras ferramentas consideradas importantes. “Tratamos nossos alunos hoje como tratávamos há 50 anos”, criticou Isaac Roitman. “Precisamos de uma escola que seja atrativa, que possa atrair para a ciência e a arte”, defendeu a secretária de Educação do município de São Carlos, Lourdes Moraes.
 
A falta de atratividade das escolas foi, inclusive, apontada pela professora Lúcia Williams do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos e coordenadora do Laboratório de Análise e Prevenção da Violência, como uma das causas das agressões no ambiente escolar. “Há um problema grave de violência nas escolas e ela não ocorre só em consequência das relações estabelecidas entre pais e alunos e entre os próprios alunos, mas entre escola e alunos”, disse.
 
Lúcia detalhou, durante o encontro, o conceito de bullying, descreveu de que maneira ele ocorre e apresentou pesquisas desenvolvidas nas universidades brasileiras e no exterior sobre o tema. “Os dados mostram que o bullying acontece em todos os colégios, mas muitos deles fazem vista grossa, o que contribui ainda mais para essa prática”, comentou.

Ela criticou a maneira como os jornais tratam os fatos relacionados à violência nas escolas e defendeu uma abordagem científica em matérias também de educação. “A mídia nos ajuda, mas se torna um complicador quando trata a violência escolar de maneira sensacionalista, sem responsabilidade, espalhando medo”, afirmou. “É importante que o jornalista se preocupe sempre em falar com base em pesquisas, ver qual o referencial científico. No caso do bullying, é importante mostrar como acontece e os efeitos que o provoca e, fundamentalmente, insistir na prevenção”, argumentou.
 
O jornalista Denis Burgierman, que trabalhou por dez anos na revista Super Interessante e atualmente tem um projeto de divulgação científica pela internet, o Webcitizen, enfatizou que a ciência não é apenas um tema de cobertura jornalística. “A ciência é um método e está em todos os lugares, na economia, na política, na saúde, na educação. É possível divulgar ciência em qualquer área do jornalismo”, explicou. “A ciência está em tudo. Sem a ciência e a tecnologia não teríamos acesso a simples serviços”, completou Alicia Ivanissevich, da Ciência Hoje.
 
Ela destacou as dificuldades de se divulgar ciência no Brasil e defendeu a difusão do conhecimento. “No Brasil temos uma missão redobrada quando falamos em divulgação científica, porque não temos tradição de leitura, faltam professores capacitados, poucos cientistas valorizam a divulgação de seus trabalhos e a mídia não vê a ciência como um tema lucrativo”, explicou. “Se levarmos a ciência para as escolas de ensino infantil, criaríamos um pensamento crítico que dispensaria em série de esforços futuros que hoje estamos discutindo”, concluiu.

A mídia legal da Escola de Gente

“A mídia será 100% legal, no sentido jurídico dos direitos humanos e da paz, quando reconhecer e expressar que pessoas com deficiência são sujeitas de todos os direitos garantidos pela Constituição, e não de apenas alguns direitos”, destaca Claudia Werneck.

Por Marcus Tavares

Escola de Gente. Trata-se de uma OSCIP fundada por jornalistas e publicitários que acreditam que a área da comunicação ainda é muito pouco utilizada em prol da inclusão dos mais diversos grupos, especificamente dos portadores de necessidades especiais. O principal objetivo da instituição é transformar políticas públicas em políticas inclusivas para que todos os cidadãos – com ou sem deficiência – exerçam seus direitos.

Ao longo dos anos, a Escola de Gente (www.escoladegente.org.br) vem promovendo oficinas, encontros e debates, defendendo o que chama de Mídia Legal. Ao mesmo tempo, publica livros e manuais com o intuito de melhor formar e informar os profissionais da área da comunicação sobre políticas de inclusão.

À frente da OSCIP, está a jornalista Claudia Werneck. Autora de nove livros sobre inclusão para crianças e adultos, recomendados pela Unesco e pelo Unicef, Claudia é consultora do Banco Mundial na área da inclusão e também possui o título de Jornalista Amigo da Criança, concedido pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi).

Em entrevista ao site do Centro Internacional de Referência em Mídias para Crianças e Adolescentes (Rio Mídia), em abril de 2008, Claudia fez um balanço sobre a relação entre mídia, infância e sociedade inclusiva.

Acompanhe:

Rio Mídia – Como a senhora avalia a relação entre a mídia e a criança?
Claudia Werneck –
É uma relação cada vez mais intensa, o que reforça a necessidade e a urgência de a mídia assumir sua função educadora a favor de uma sociedade inclusiva. Mídia para a infância não é, pela concepção da Escola de Gente, algo a ser desenvolvido apenas no âmbito do conteúdo, mas também no formato. É preciso, por exemplo, habituar a infância do Brasil com a estética e a ética de uma sociedade inclusiva que prevê a presença do closed caption e da Língua Brasileira de Sinais nas telas. No que se refere à cultura, as crianças e os adolescentes devem crescer percebendo como natural espetáculos teatrais com audio-descrição e programas em braile para pessoas cegas, bem como livros que também sejam falados para quem não enxerga e/ou não é alfabetizado. A Escola de Gente entende que a relação mídia, sociedade inclusiva e infância enfrenta um processo de transformação, lamentavelmente, ainda bem lento.

Rio Mídia – Para a Escola de Gente, o que seria a Mídia legal?
Claudia Werneck
– Uma mídia que não discrimina em função de diversidades e desigualdades. Que não releva as limitações, mas as ratifica e as percebe como a chave que abre possibilidades e modos de construirmos coletivamente uma sociedade inclusiva. É uma mídia que não coloca pessoas com deficiência como vítimas e entende que elas também não são, obrigatoriamente, heroínas. Pessoas com deficiência não precisam provar nada a ninguém. A mídia se torna mais legal quando intui que as grandes pautas sobre deficiência são justamente aquelas nas quais pessoas com deficiência falam dos livros que estão lendo, de uma questão que enfrentaram como consumidoras, de política, de economia, de acesso à cultura, enfim, se posicionam como cidadãos e cidadãs que vivem no mesmo mundo que o jornalista vive. Não fazem parte de um mundo à parte, de seres humanos que representam um “equívoco” da natureza e, por isso, merecem sempre pautas especiais. A mídia será 100% legal, no sentido jurídico dos direitos humanos e da paz, quando reconhecer e expressar que pessoas com deficiência são sujeitas de todos os direitos garantidos pela Constituição, e não de apenas alguns direitos.

Rio Mídia – Enquanto a mídia não é 100% legal o que ocorre?
Claudia Werneck
– A deficiência costuma gerar um tipo de emoção que impede o jornalista de manter a lucidez defendida no exercício diário da profissão. Toda notícia sobre deficiência parece ser entendida como uma superpauta, o que nem sempre é verdade. Além disso tudo, no afã de não discriminar, muitos profissionais da imprensa superestimam as pessoas com deficiência. O tema deficiência deve ser transversal a outras pautas de direitos humanos, educação, cultura, lazer, esporte etc. Perceber pessoas com deficiência como indivíduos que trabalham e atuam em diferentes grupos sociais coloca-os no mesmo patamar.

Rio Mídia – Os encontros, promovidos pela Escola de Gente, têm o objetivo de defender esta Mídia legal?
Claudia Werneck
– Tanto os encontros quanto os Manuais da Mídia Legal foram criados para dar consistência a dois princípios que a Escola de Gente defende desde sua criação: a atuação de uma mídia que assuma seu papel de agente de transformação social e a construção de uma aliança estratégica entre as áreas de comunicação e direito, daí o nome Mídia Legal. A questão é que os profissionais da mídia conhecem muito pouco a legislação brasileira que garante práticas inclusivas e abertas à diversidade e, por essa razão, raramente se beneficiam dessa legislação em suas matérias e investigações. Nossa proposta é disseminar conceitos e levar os profissionais a refletirem sobre formas sutis de discriminação que não são assim facilmente percebidas. E, principalmente, formar uma nova geração de profissionais de comunicação, de direito e de ciências sociais com essa mentalidade. Os assuntos escolhidos para os debates temáticos do Mídia Legal – ligados aos direitos da infância brasileira – já denotam a necessidade de que a visão inclusiva permeie todos os setores sociais. No documento Por um sistema público de comunicação, o Intervozes (Coletivo Brasil de Comunicação Social), parceiro da Escola de Gente no Mídia Legal desde 2005, define como deveria ser pautada a grande mídia. Segundo o Intervozes, a mídia “deve responder à demanda da população por informação plural e diversa e garantir a representação da pluralidade e diversidade cultural brasileiras”.

Rio Mídia – A senhora acredita que a sociedade já percebe a Mídia legal como um direito?
Claudia Werneck
– Em outubro de 2005, a sociedade civil e o Ministério Público Federal se levantaram contra a Rede TV!, uma vez que a emissora, de forma homofóbica, estava violando os direitos humanos no programa “Tarde Quente”, de João Kleber. Fez-se uma ação civil pública pedindo a cassação da emissora, a suspensão do programa, direito de resposta e indenização por dano moral coletivo. Esse foi e continua sendo um dos cases discutidos durante o Mídia Legal. Um exemplo de que a sociedade, pelo menos em parte, entende que os meios de comunicação devem promover o respeito aos direitos humanos e à dignidade do cidadão. E isso, sim, é um direito, e não um favor que foi concedido por parte das emissoras.

Rio Mídia – O que as crianças querem da mídia?
Claudia Werneck
– Acreditamos que as crianças e os jovens busquem nos veículos de comunicação formação, diversão e entretenimento. Mas, garantir o exercício de direitos humanos, principalmente quando estes se referem à infância, exige estudo e conhecimento de princípios por profissionais da mídia que lidam direta e indiretamente com a infância. Só que estes conteúdos devem ser oferecidos com base nos princípios de universalidade, inalienabilidade, indivisibilidade, interdependência e participação, apoiados na convicção do caráter público de todo ser humano desde o primeiro momento de sua existência. Quando falamos de ser humano, falamos de todo e qualquer ser humano, não importa de que forma ande, enxergue ou ouça.

Inclusão e acessibilidade em debate

Durante três dias, 50 jovens de todas as regiões do país estarão reunidos no Rio de Janeiro para o I Encontro Brasileiro de Juventude pela Acessibilidade. O evento acontece entre os dias 31 de agosto e 2 de setembro, no Hotel Novo Mundo, e faz parte do Programa Juventude pela Inclusão (JUV.IN), criado pela OSCIP Escola de Gente com o apoio da Fundação Avina.

Militantes e representantes de diferentes causas, jovens, de 18 a 29 anos, participarão de uma ampla programação que inclui debates, oficinas e dinâmicas de grupo. Há jovens médicos, enfermeiros, biólogos, estudantes do ensino médio, professores, psicólogos, cientistas sociais, artistas, por exemplo, que se reunirão por mais de 48 horas para uma formação em direitos humanos e acessibilidade. Muitos desses jovens atuam diretamente em políticas públicas em conselhos municipais, estaduais e municipais em seus territórios.

O encontro acontece em um momento histórico importante: no dia 7 de julho, foi aprovada no Senado a Proposta de Emenda Constitucional 42/2008, mais conhecida como PEC da Juventude, que insere o termo juventude no capítulo dos Direitos e Garantias Fundamentais da Constituição Federal, mudança que aponta para o avanço das políticas públicas existentes, que passam ao patamar de política de Estado. Com a alteração, o capítulo VII do título VIII da Constituição, passará a se chamar “Da Família, da Criança, do Adolescente, do Jovem e do Idoso”.

Leia a entrevista que Claudia Werneck concedeu ao site do Rio Mídia, por ocasião do 8º aniversário da instituição. Nela, Claudia analisa o papel da mídia e a interface com as crianças e os jovens. 

O objetivo principal do encontro é formar agentes de promoção da acessibilidade entre as lideranças da juventude brasileira. Do total de participantes, 20% possuem algum tipo de deficiência física, intelectual ou sensorial. A meta é que o grupo seja sensibilizado para adotar os conceitos de vídeo, livro, encontros, sites, fóruns e debates acessíveis – geralmente conhecidos apenas pelas lideranças com deficiência – na defesa dos direitos humanos de qualquer causa: gênero, raça ou etnia, indígenas, orientação homossexual, defesa do consumidor no atendimento a pacientes em hospitais públicos, escolas e universidade, por exemplo.

“Não há sustentabilidade, sob qualquer ponto de vista, sem a prática da acessibilidade. Essa é uma das idéias que desejamos disseminar durante o evento. A acessibilidade deve ser percebida como condição indispensável para a garantia dos Direitos Humanos de todos. Sem acessibilidade, não há o exercício do direito à comunicação e, consequentemente, não há liberdade de expressão e intercâmbio de saberes”, destaca a superintendente Geral da Escola de Gente, Claudia Werneck

O I Encontro Brasileiro de Juventude pela Acessibilidade marcará também o lançamento, no Rio de Janeiro, do Manual da Mídia Legal 6 – Comunicadores(as) pelas Políticas de Juventude.  O volume completa uma coleção lançada pela Escola de Gente em 2003 e que tem como principal objetivo não só qualificar a mídia e profissionais de comunicação, como contribuir com qualquer grupo interessado em aprender mais sobre inclusão, direitos humanos e deficiência. A publicação reúne análise de mídia, legislação, reprodução de documentos acerca da construção dos marcos legais sobre Juventude e artigos da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU, tudo relacionado à análise de dez matérias publicadas na mídia brasileira.

Fórum Virtual – Como um dos principais objetivos do Encontro é criar e ampliar espaços para discussões em torno dos temas inclusão e acessibilidade, a iniciativa irá gerar um fórum virtual no site acessível da Escola de Gente (www.escoladegente.org.br). A ideia é que sejam sistematizadas 30 perguntas sobre acessibilidade com as devidas respostas dadas por especialistas. A expectativa da Escola de Gente é que esse fórum virtual, que poderá ser acessado por qualquer pessoa interessada pelo tema, beneficie diretamente 100 pessoas e cerca de 400 indiretamente.

Paz nas escolas

Escolas públicas de Israel terão ensino obrigatório de árabe. O programa que começou como um projeto piloto no início do ano em 170 escolas do norte de Israel será a partir de agora ampliado para escolas públicas de todo o país, da 5a série em diante. As autoridades do setor de educação israelense afirmam que a iniciativa, chamada de Ya Salam, vai transformar o ensino do idioma em uma ponte cultural e promover a tolerância entre judeus e árabes.

De acordo com a repórter da BBC para o Oriente Médio Shahzeb Jillani, até o momento em Israel, nas escolas árabes, as crianças são obrigadas a aprender o hebraico. Por outro lado, as crianças israelenses mais velhas podem optar se querem ou não aprender o idioma árabe – algo que o novo programa pretende mudar.

Segundo o jornal Haaretz, o aumento na demanda de matrículas de estudantes em aulas do idioma árabe levou as autoridades do Ministério da Educação israelense a repensar o currículo nacional.

“Vivemos em um país que tem dois idiomas oficiais”, afirmou Shlomo Alon, chefe do setor de Educação Árabe e Islâmica no Ministério da Educação israelense, ao Haaretz. “Estudar o árabe vai promover tolerância e transmitir uma mensagem de aceitação”, acrescentou.

Alon afirmou ainda que o Ministério está interessado no reconhecimento de todos os cidadãos do Estado e em dar oportunidade para professores de árabe na educação israelense. Existe cerca de mil professores de árabe, a maioria deles judeu. “O Estado quer a igualdade completa de cidadania. Não vamos lidar com conflitos tendo como base a identidade cultural”, disse.

Uma boa notícia para o planeta.

E o cheirinho de livro?!

Por Vanessa Rodrigues, do Portal Educa Rede

Provavelmente já não será mais possível falar de literatura sem discutir os e-books. Abreviação de eletronic books (ou “livros eletrônicos”), os e-books, como o próprio nome diz, são livros em formato digital e não mais impressos em papel, como aqueles tradicionais.

Indo mais além, com o advento do tablet, como o Kindle e o IPad, mais do que livros tradicionais disponibilizados em formato digital, haverá uma produção específica de literatura para esta mídia, aproveitando todos os recursos que ela oferece, como a possibilidade de interação, por exemplo. Seriam os “livros ‘nativos digitais’”, como afirmou Cristiane Costa, doutora em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que vem se especializando em novas estratégias narrativas em mídias digitais.

Cristiane Costa foi a mediadora da mesa “O Livro – capítulo 2”, que contou com a presença de Robert Darton – historiador e diretor da biblioteca de Harvard -, e John Makinson – presidente da Penguin Books, editora especializada na edição e venda de livros de qualidade a preço baixo. O debate aconteceu durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), realizada entre os dias 4 e 8 de agosto.

Já na noite anterior, na mesa “O Livro – capítulo 1”,  com mediação da mesma Cristiane Costa, Darton declarou: “O futuro é digital”, dando o gancho necessário para que a discussão continuasse na manhã seguinte de maneira bem mais aquecida. O historiador ratificou esta afirmação, mas fez questão de frisar que isso não representa a morte do livro. “Vivemos um período de transição e é possível criar novas formas nas quais livros digitais e analógicos se complementam. O livro não morreu”. Declaração que deve ter provocado alívio para aqueles cuja relação com o livro começa pelo olfato.

Depois da mesa, o Portal EducaRede aproveitou para conversar com a mediadora, que comentou especificamente sobre a produção de livros didáticos e a educação na era dos dispositivos digitais. “A indústria do livro está preocupada”, afirmou Cristiane Costa.
Para a estudiosa, o tema dos direitos autorais é outro aspecto que vem aquecendo o debate. “Darnton mesmo levantou que esta discussão vem desde o século XVII, com o Iluminismo: afinal, o conhecimento é um bem individual ou bem comum? Até que ponto podemos privatizar o conhecimento? A produção digital barateia muito o processo e possibilita o compartilhamento quase de graça. A questão é descobrir quem vai pagar a conta.”

Cristiane Costa destaca a experiência da Califórnia, onde o governador Arnold Schwarzenegger teria determinado o uso de e-books para algumas disciplinas, não mais comprando livros didáticos em papel: “Os alunos usam um tablet e, com isso, fazem download de todo o conteúdo que precisam. O processo ficou muito mais barato, porque diminuíram os custos de produção, distribuição e estocagem. Sem falar que os estudantes interagem com o livro, o que deixa o aprendizado muito mais lúdico e divertido.”

Ela aponta o ano de 2010 como um divisor de águas no mercado editorial, por causa do lançamento do iPad, que permite inúmeras possibilidades de interação. No meio de tantas mudanças e revoluções, defende que o papel dos educadores será, cada vez mais, o de mediadores, oferecendo e recebendo ensinamentos e aprendizados.

“A geração dos ‘nativos digitais’ sabe muito mais do que a gente sobre tecnologias. Mas, por serem muito jovens, ainda não têm experiência acumulada para fazer os links entre as informações e o conhecimento. Aí é que a gente entra. Todo mundo vai aprender junto”, diz.

Segundo Cristiane, ao contrário do que diz o senso comum, a Geração Y não é individualista, e, sim, extremamente generosa, porque já nasce sob a perspectiva do compartilhamento. “Eles estão o tempo todo se comunicando e trocando coisas”. Na entrevista, Costa também afirma que o “pulo do gato” para o livro digital didático será o game (jogos eletrônicos). “Tem muita gente estudando game seriamente. Sua capacidade de mobilização é muito grande. Se conseguirmos levar isso para a educação, será genial!”.

Mídia e a vida sexual dos jovens

Um estudo da Universidade Temple, na Filadélfia, concluiu que a mídia não pode ser responsabilizada por despertar a sexualidade nos jovens, que seriam mais influenciados por fatores dentro de suas próprias casas. O psicólogo Laurence Steinberg analisou dados de 2006 que alegavam que adolescentes entre 12 e 14 anos que consumiram uma grande quantidade de mídia com conteúdo sexual, como filmes, TV, música e revistas, tinham mais probabilidade de iniciar a vida sexual aos 16.

Vários aspectos das vidas dos adolescentes foram estudados, como desempenho escolar, religião, relação com os pais e percepções das atitudes de amigos sobre sexo. “Pode parecer que a exposição da mídia leva à atividade sexual, mas esta relação é artificial”, diz Steinberg. “Se uma criança diz ser muito religiosa, terá menos probabilidade de ter relações sexuais cedo, mas também terá menos chances de consumir conteúdo sexual. Em vez de acusar a mídia, é preciso ter em mente que é dentro de casa que estão as influências no comportamento sexual dos jovens”.

Vivianne Pattison, uma das diretoras da organização Mediawatch UK, discorda do resultado do estudo e diz que é preciso analisá-lo com cautela. “Ele tende a ser contraditório. Atualmente, é muito difícil para qualquer um evitar o contato com conteúdo sexual na mídia. No caminho do meu trabalho, hoje pela manhã, por exemplo, passei por um outdoor com uma mulher seminua, mesmo não tendo relação nenhuma com o que estava sendo anunciado”, afirma. “Estar exposto a conteúdo midiático sexualmente explícito quando criança pode levar a uma variedade de problemas, incluindo baixa auto-estima, distúrbios alimentares e doenças sexualmente transmissíveis”.

E você leitor o que você acha?

As imagens que nunca devíamos ter visto

Por Joana Amaral Cardoso
Do Jornal Público PT

Há um vínculo qualquer entre a fotografia da criança que corre, corpo franzino queimado pelo napalm, no Vietnã, de 1972, e a imagem de uma Paris Hilton chorosa a caminho da prisão. Há um vínculo qualquer entre as imagens de um linchamento no final do século XIX nos EUA e os instantâneos digitais de soldados americanos montados em presos iraquianos em Abu Ghraib. Há, decididamente, um vínculo entre as imagens de vigilância dos aviões U2 que desencadearam a crise dos mísseis de Cuba na Baía dos Porcos e o programa de apanhados “Candid Camera”. No primeiro caso, o vínculo é o fotógrafo, Nick Ut. No segundo, o vínculo é o propósito: a imagem, tal como as vítimas do ato, é um troféu, o símbolo de uma conquista. No terceiro, é tudo uma questão de vigilância.

“Exposed – Voyeurism, Surveillance & the Camera” é o nome da exposição que está em cartaz na Tate Modern, em Londres, até 3 de outubro. São 250 imagens que varrem a história da vigilância e do voyeurismo do século XIX ao século XXI.

É uma sequência de imagens voraz, uma experiência que mistura o prazer com o desconforto de ver coisas que nunca deveriam ter sido vistas. Há as imagens de bisbilhotice, as titilação erótica, as de projeto, os murros no estômago. As imagens trespassam. As imagens anestesiam.

Ver “Exposed” é por vezes difícil, pelo menos sem anestesia. Faz-nos pensar, como explica o comissário britânico da exposição, Simon Baker, na moral do espectador, na erosão da privacidade, na inversão do público e do privado na era pós-Habermas e pós-McLuhan, a era do sr. Facebook. Que nos diz que o mundo é melhor se partilharmos tudo: um mundo de paredes transparentes e fotografias para todos.

Ao telefone, Simon Baker admite que sim, que há elementos desconfortáveis na mostra que marca a sua estreia como comissário de fotografia da Tate. Dá como exemplo “The Park”, de Kohei Yoshiyuki, uma série de fotografias noturnas de casais que escolhiam os parques de Tóquio para fazer sexo rodeados, com ou sem o seu conhecimento, de público. “Nos anos 70, no Japão, eram mostradas no escuro. Davam-nos uma lanterna e encontrávamos assim as imagens, de uma forma muito teatral. Há difíceis questões éticas, e mesmo legais, suscitadas por este material”, diz.

Sexo e violência – Mas não é só o sexo, nem é só a violência de um homem esborrachado no chão. É a maneira como as vemos. “Habituamos a ver imagens de violência e sexo, mas acho que não nos habituamos a pensar muito sobre elas”, diz-nos Sandra Phillips, a curadora da exposição. Sobretudo, não nos habituamos a questionar a nossa participação, até sermos confrontados com imagens como as de Susan Meiselas, que fotografa o público de um espetáculo de “striptease” e não as próprias “strippers”. Meiselas, sublinha a curadora, procura ultrapassar “o fetichismo para pensar em quem está a olhar, como está a olhar e o que significa olhar”. “Ela nos faz questionar a nossa participação naquele processo”, enfatiza. “Ou seja, não somos nós no retrato. Mas somos nós como espectadores. “Talvez seja por isso que a exposição faz as pessoas sentirem-se desconfortáveis”.

A cronologia que abre as portas da exposição nos diz que tudo está ligado. O panóptico de Bentham e os “Apanhados” de Joaquim Letria. O YouTube e o Google Earth. Orwell, claro. A presença do olhar voyeurista é uma herança cultural desde a Bíblia. Como sociedade, sempre fomos voyeurs – nos “boudoirs”, nas cavernas, nos primeiros filmes pornográficos criados logo após a invenção da câmara de cinema.

Ao levar o nosso olhar, ao longo de 13 salas, de meados do século XIX aos dias de hoje, “Exposed” nos coloca perante o paradoxo original da fotografia: era inevitável que esta arte servisse para estes fins, certo? “Penso que muita fotografia, talvez até o próprio meio, é na verdade uma zona cinzenta, sem moralidade, apesar de presumirmos que diz a verdade”, aponta Sandra Phillips.

“Desde muito cedo a fotografia foi usada para produzir imagens mais pesadas – controle estatal, pornografia, ciência, tipificação racial. Assim que se tornou barata, foi usada para [partilhar] quantidades maciças de pornografia. Algo que tem este potencial de massas pode facilmente atingir o mínimo denominador comum”, corrobora o comissário da Tate Modern.

Cincos áreas temáticas – As imagens de “Exposed” estão organizadas em cinco áreas: fotografia de rua, imagens sexuais, perseguição de celebridades, fotos de morte e violência, vigilância. Conjugamos o verbo fotografar no contexto “Celebrity & the Public Gaze”: eu disparo; tu encolhes; ele foge; nós espreitamos, vós julgais, eles veem. Nada mais evidente do que numa situação paparazzi: o caçador e a presa. A imagem de Jacqueline Onassis a correr pelo Central Park, perseguida por Ron Galella, paparazzo obcecado que acabou por ser obrigado judicialmente a deixar a viúva de Kennedy em paz.

“A fome humana de ver o proibido não mudou [desde os tempos bíblicos]. As tecnologias que o facilitam sim”, escreve Sandra Phillips. “Olhamos para sexo e morte com a mesma curiosidade bisbilhoteira, sabendo que outrora foram visões privilegiadas. Fizemos toda uma cultura de celebridade [que começa, em termos fotográficos, no início do século XX] evoluir em torno da ambivalência entre o público e o privado.”

O catálogo de “Exposed” acrescenta: “A fotografia inventou a cultura de celebridades moderna”, em que o público e o privado se misturam para construir uma terra de ninguém ambígua em que Angelina Jolie – glamorosa, aborrecidíssima, zangada, feliz, só, acompanhada – está sempre em fuga.  Hoje, toda a gente tira fotografias, mas nem todos são fotógrafos”.

“Os fotógrafos sempre se distinguiram da massa, mesmo desde o século XIX. Não é fácil tirar uma boa fotografia, é fácil tirar uma fotografia. A multiplicação de aparelhos pode aumentar o número de imagens tiradas aleatoriamente, mas não vai expandir a fotografia como prática”, reflete Baker.

O que precisamos ver? – “É uma discussão interessante nesta era das notícias 24 horas – o que precisamos ver? O que é que nos deve ser mostrado? Esta manhã ouvi uma notícia interessante: um dos problemas da mancha de petróleo [no golfo do México] é não haver imagens suficientes do petróleo [risos]. Fugas muito menores geraram um impacto visual muito maior. Certos eventos parecem desaparecer quando não são acompanhados por imagens”, rememora Baker.


– Uma história de vigilância …

1785 – Jeremy Bentham cunha o Panóptico, o dispositivo prisional em que o observado não sabe de onde é visto pelo observador

1942 – É instalado,  na Alemanha, o 1º sistema  de CCTV [closed-circuit television]

1948 – O programa de “apanhados” “Candid  Camera” estreia nos EUA

1949 – George Orwell  publica o romance distópico “1984”

1954 – Estreia “Janela Indiscreta”, de Alfred  Hitchcock

1960 – Federico Fellini  cunha o termo “paparazzi”  em “La Dolce Vita”

1962 – Imagens de  vigilância captadas por aviões U2 desencadeiam a crise  de mísseis de Cuba

1963 – Abraham Zapruder filma  o assassinato de John F. Kennedy

1973 – Um dos primeiros exemplos de “reality tv”,  “An American Family”,  estreia nos EUA


– Uma história de voyeurismo …

1990 – A Guerra do Golfo inaugura o ciclo noticioso  de 24 horas

1995 – Timothy McVeigh, o bombista de Oklahoma,  é identificado graças a imagens de CCTV

1997 – Diana morre num acidente de viação quando era perseguida por paparazzi em Paris

1999 – Estreia na Holanda  o primeiro “Big Brother”

2001 – Na sequência dos atentados de 11 de Setembro, entra em vigor nos EUA o Patriot Act, que reduz as restrições à vigilância dos cidadãos pelas forças de segurança

2004 – Fotos de soldados  de Abu Ghraib tornam-se  os “souvenirs” da guerra  no Iraque

2005 – O YouTube é lançado
2007 – É lançada a opção  Street View no Google  Earth

2008 – É criada a  câmara Thru Vision,  que filma  através de tecidos e paredes

Adolescentes criam robô: destaque da Feira de Software Livre deste ano

 Um grupo de estudantes do Ensino Médio da rede de escolas PUC Marista, do Sul do país, causou surpresa e admiração durante a 11º Fórum Internacional de Software Livre, realizado em julho deste ano, em Porto Alegre. Os adolescentes criaram um pinguim robô que ficou ‘passeando’ entre as mais de cinco mil pessoas que acompanham os debates do evento.

Com carcaça de fibra de vidro, o Pinguim continha peças de computadores descartados, como processador Intel de 1 GHz, memória RAM, placa Wi-FI e webcam.  Alimentado por uma bateria de carro, o pinguim robótico era capaz de locomover-se para qualquer direção em 360 graus, captar e emitir sons. Sua autonomia era de 5 horas.

“A gente desenvolveu no curso de robótica adaptações em cima de soluções livre para construir esse robô. A distribuição que criamos permite ver onde o robô está por meio de uma webcams instalada em sua cabeça e enviar comandos de voz e movimentação”, conta Clean Costa, estudante porto alegrense de 15 anos.

Um sistema de sintetização de voz permite ao robô falar qualquer frase digitada por seus controladores no sistema de comando. “Tira a mão daí, tarado” foi a frase mais falada pelo robô, constantemente tocado por curiosos.

“Com projetos como esse fazemos várias pessoas no colégio se interessar por programação, robótica e software livre. O legal de usar uma solução Ubuntu [sistema operacional baseado em Linux] é a simplicidade do sistema e o fato de podermos modificar o sistema do jeito que queremos”, diz o jovem militante da distribuição Linux.

Curso forma comunicadores em políticas públicas sociais

Estão abertas as inscrições para a oitava edição do Curso Jornalismo de Políticas Públicas Sociais, oferecido pelo Núcleo de Estudos Transdisciplinares de Comunicação e Consciência, da Escola de Comunicação Social, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O tema central é: Comunicação, envolvimento e políticas públicas sociais. A proposta é qualificar a formação do comunicador e da capacidade de comunicar de lideranças, face aos imperativos da sustentabilidade e da democracia.

Gratuito, o módulo contará com a participação de especialistas na área da comunicação, educação, publicidade e sociedade civil. As aulas acontecerão, a partir do dia 30 de agosto, sempre as segundas, das 9h30 às 13 horas, no campus da Praia Vermelha da UFRJ. As inscrições podem ser feitas aqui.

Confira a programação do curso:

Programa:
Semana 1 (30/08)
Abertura do Curso
O aburguesamento das Políticas Públicas Sociais e a urgente revisão psico-social do conceito ‘riqueza’
Prof. Dr. Evandro Vieira Ouriques

Semana 2 (13/9)
Lançamento Nacional do Filme
ViVendo um outro olhar, de Guillermo Planel, com Mesa de Conversa
Fotografia e vídeo popular: a revolução pelo olhar
José Roberto Ripper (Imagens Humanas), Maurício Hora (Favelarte) e Guillermo Planel

Semana 3 (20/9)
Mesa de Conversa
Construções Colaborativas e Usos Livres de Conhecimento e Tecnologia
Alexandre Oliva (Presidente da Fundação Software Livre-América Latina); Pedro Augusto Francisco (Núcleo de Tecnologia e Sociedade-FGV, especialista em Direitos Autorais) e
VJ Pixel (Casa de Cultura Digital)

Semana 4 (27/9)
Dinâmica da Rede JPPS
Consciência nos Corpos e Inovação nos Territórios
Profa. Estelita Oliveira de Amorim Ouriques (NETCCON.ECO.UFRJ)

Semana 5 (4/10)
Mesa de Conversa
O Significado da Infância na construção da Cidadania Sustentável e Democrática
Patrícia Tolmasquim (Organização de Direitos Humanos Bnei Brit-Rio), Maria de Fátima Pereira (Associação Estadual PAMEN-Pastoral da Criança, Central Humana de Educação, Ideias e Formação Alternativa) e Prof. Dr. Evandro Vieira Ouriques

Semana 6 (18/10)
Mesa de Conversa
Saúde e Comunicação: paradigmas não-dualistas e ação no mundo
Dr. Hélio Holperin, (Médicos Solidários do Rio de Janeiro), Francisco Mourão Neto (acupunturista e sacerdote taoísta) e um representante da Secretaria Municipal de Saúde.
e Dinâmica da Rede JPPS
 
Semana 7 (25/10)
Mesa de Conversa
Mobilização de Redes Sociais: casos concretos
Egeu Laus (Secretaria-adjunta de Cultura de Nova Iguaçu), Flávia Ribeiro, Luiz Fernando Sarmento (SESC-Rio/Redes Comunitárias) e Gilberto Fugimoto (SESC-Rio/Redes Comunitárias)

Semana 8 (08/11)
Mesa de Conversa
Do Desenvolvimento ao Envolvimento na América Latina e no Caribe: o Futuro das Políticas Públicas, das Redes e dos Empreendimentos Sustentáveis
Prof. Dr. Evandro Vieira Ouriques e Profa. Dra. Cristina Rego Monteiro da Luz (NETCCON.ECO.UFRJ)

Semana 9 (22/11)
Mesa de Conversa
Perspectivas para o Direito à Comunicação no Novo Governo
Bia Barbosa (INTERVOZES), Prof. Dr. Fernando Paulino (LaPCom-UnB) e João Brant (INTERVOZES)

Semana 10 (29/11)
Mesa de Conversa
Como prevenir a violência na família: o público e o privado em questão
Carlos Zumma (Instituto Noos) e Nádia Rebouças (Rebouças & Associados)

Semana 11 (06/12)
Palestra
Comunicação e diversidade étnico-racial
João Feres Júnior (IUPERJ)

Semana 12 (13/12)
Palestra
Infância & Comunicação: promoção e proteção de direitos e o papel da mídia
Veet Vivarta (ANDI)

Semana 13 (20/12)
Palestra
A Construção do Futuro das Políticas Públicas Sociais como Pauta
Rosa Alegria (Millenniuum Project, Núcleo de Estudos do Futuro da PUC-SP, NETCCON.ECO.UFRJ)

Novidade para gente nova

Por Muniz Sodré
Jornalista, escritor e professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro

 É fato consabido na comunidade dos especialistas em marketing jornalístico que jovem não lê jornal – em papel, entenda-se. Não se leva em consideração, no caso, a leitura fragmentária de pílulas noticiosas na internet. Daí a novidade anunciada por Rupert Murdoch, o grande tycoon da mídia americana, presidente da News Corp, durante a recente reunião para a comunicação dos resultados de sua corporação: “Teremos os jovens lendo os jornais”. Sua estratégia se resume como “uma mudança de jogo na apresentação das notícias”.
Mas que tipo de jovem estaria na cabeça de Murdoch?

Algumas precisões se fazem necessárias. É que, quando se fala genericamente de “jovem”, a referência visa em primeiro lugar ao adolescente e depois à criança. É o estado de passagem, logo em seguida à puberdade, para a vida adulta – uma etapa considerada difícil em todas as sociedades conhecidas. Inscrito numa transição, o jovem investe-se de uma ressocialização emocional em que os padrões analíticos ou conceituais dão lugar a uma compreensão mais emocional do que lógico-argumentativa.

O fundamental aí é a abertura à experiência, à possibilidade da transformação pessoal e, portanto, ao risco de confrontar novas dimensões de si mesmo e do mundo. O descompasso entre essa abertura e o fechamento do mundo adulto costuma ser causa de desencanto dos jovens com a educação formal, com o universo das salas de aula, mas também o conteúdo tradicionalmente oferecido pelos jornais.

Insólitas iniciativas empresariais

Foi a partir dos anos 50 que começaram a surgir no Ocidente as condições públicas para um questionamento emocional coletivo, por parte dos jovens, da estrutura histórica que permitia a geração de fantasias sobre um presumido saber absoluto da parte dos pais e dos professores e dos adultos em geral. Embora o fenômeno deite raízes no passado, a característica da mudança nos anos 50 é que o projeto de independência do adolescente não passa necessariamente pela tradição profissional, mas por atividades ligadas a um saber marginal em face das finalidades da acumulação clássica: o saber da música, o domínio da canção. Conhece-se bem a saga das bandas, dos festivais de música e das “tribos” juvenis. As novas tecnologias da comunicação sempre serviram de espaço potencial para os rearranjos da socialização juvenil.

Trata-se sempre de jogo, embora não com o mesmo sentido atribuído por Murdoch à palavra (“uma mudança de jogo na apresentação de notícias”). O jogo juvenil não é uma estratégia industrial, mas um fenômeno estético que configura personalidade e hábitos de consumo. Mas é verdade que algo desse jogo juvenil tem realizado uma transição para as práticas relacionadas à tecnologia digital.

Primeiro foi a indústria do disco, que passou por grandes transformações em virtude das ações ditas de “pirataria” (downloads ou cópias não pagas de CDs) por parte, principalmente, de adolescentes afeitos à internet. Em seguida, no mercado do digital, onde se produzem e se consomem indistintamente conteúdos online, desaparecem as barreiras físicas para a circulação de textos, o que dá margem a insólitas iniciativas empresariais por parte de jovens instrumentados pelas chamadas “redes sociais”. Devido à fragilidade das barreiras dos direitos autorais em muitos planos, os jovens reeditam no campo do livro digital o fenômeno da cópia gratuita de textos, a exemplo do que antes ocorria com canções gravadas e à venda nos circuitos comerciais.

A “cultura da gratuidade”

O mais importante, porém, é que esses jovens vêm deixando claro que não se leem apenas livros, que a leitura hoje é heterogênea, ou plural. Na sociedade conformada pelas tecnologias da comunicação, o espaço urbano é atravessado por uma diversidade de textos (jornalísticos, publicitários, televisivos, digitais etc.), em que letras, imagens e sons se entrecruzam ou se misturam, com formas distintas de recepção, suscitando novos modos de ler.

A ideia de Murdoch é penetrar nesse universo, valendo-se da tecnologia dos aplicativos digitais (tablets, como o iPad da Apple, e celulares) para produzir um novo jornal de caráter nacional. A novidade, com conteúdo pago, oferecerá a seu público artigos curtos, bem feitos e de fácil assimilação.

Está no horizonte imediato a formação de uma equipe de dezenas de repórteres e editores, o que é altamente auspicioso para o meio profissional cada vez mais inseguro quanto ao futuro do jornal impresso. Basta dizer que, na semana passada, a contratação de 34 repórteres por um tabloide novaiorquino virou manchete de jornal, segundo informa e comenta a correspondente Lucia Guimarães no Estadão: “Foi como se o museu de História Natural tivesse anunciado o sucesso em reproduzir em cativeiro uma espécie ameaçada.”
É bem vinda, pois, a ideia de Murdoch. Resta apenas saber se conteúdo velho em suporte novo conseguirá mesmo mobilizar a geração que vive a “cultura da gratuidade” na internet.

Presidenciáveis não detalham propostas para a educação

A dois meses das eleições, os candidatos à presidência não formularam todas as suas propostas para a educação, de acordo com levantamento feito pelo Observatório da Educação. Foram consultados os programas de governo dos quatro principais concorrentes ao Palácio do Planalto: Dilma Rousseff, do PT, José Serra, do PSDB, Marina Silva, do PV, e Plínio Sampaio, do PSOL.

Dos quatro concorrentes, dois deles, Plínio Sampaio e José Serra, ainda não condensaram as suas propostas em um único documento. Segundo a assessoria do candidato tucano, a coordenação de campanha está coletando propostas por meio da contribuição de eleitores na internet e nas visitas aos estados. A previsão é de que as propostas estejam sistematizadas até o início do horário eleitoral gratuito, previsto para 17 de agosto. Por isso, as únicas propostas para a educação de José Serra estão contidas na proposta de governo disponível no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Já o comitê do candidato Plínio afirmou que as propostas estão em fase de sistematização e que elas serão baseadas no Plano Nacional de Educação (o novo plano, de 2011-2020, ainda não foi enviado ao Congresso). A assessoria de comunicação do candidato apresentou ao Observatório algumas das propostas contidas no futuro plano de governo.

As assessorias das candidaturas de Dilma Rousseff e Marina Silva disseram que haverá novas versões do programa de governo. Veja abaixo as principais propostas para a área de educação.
 
Investimentos

Todos os candidatos consultados reconheceram a necessidade de se aumentar os investimentos para a educação, sem explicitar, no entanto, como nem quanto será destinado à área. Plínio Sampaio definiu uma meta – 10% do PIB – de recursos para serem aplicados imediatamente. Atualmente, são investidos cerca de 5%. Em declarações a veículos de comunicação, Marina Silva se comprometeu a investir 7%, adotando as referências de estudos sobre o Custo Aluno-Qualidade, aprovado na última Conae (Conferência Nacional de Educação).
 
Educação Infantil

Marina Silva afirma que, se eleita, as creches serão ampliadas, garantindo uma “cogestão comunitária”. Ela pretende integrar as políticas de atendimento à primeira infância a outros programas de apoio à família, como as de transferência de renda. Plínio propôs o oferecimento universal de vagas na educação infantil, com investimentos apenas em instituições públicas. Dilma Rousseff e José Serra não fazem, até o momento, propostas nessa área. No entanto, nenhum dos candidatos apresenta propostas de apoio técnico e financeiro da União para garantir o cumprimento da Emenda 59, que determina a obrigatoriedade do ensino dos 4 aos 17 anos (ouça entrevista com o professor Carlos Jamil Cury sobre o assunto, aqui).
 
Educação Básica

Na educação básica, a falta de propostas concretas é a tônica. As duas únicas são: a colocação de dois professores por sala de aula da primeira série do ensino fundamental (José Serra) e a expansão da contratação de professores para garantir o limite de 25 alunos por sala no ensino fundamental e 35 no ensino médio (Plínio Sampaio). Todos reiteraram a importância de aumentar a qualidade do ensino médio.
 
Valorização do profissional da educação

A valorização do profissional da educação foi um dos pontos com maior número de propostas dos candidatos. Dilma defende a produção de material pedagógico digitalizado. Já a candidata Marina afirma que priorizará a formação inicial e continuada, estabelecerá planos de carreira e salários dignos, promoverá o aumento e o cumprimento do piso salarial, além de investir na melhoria das condições de trabalho. Plínio Sampaio propõe a criação de um plano de carreira nacional e implantação do piso salarial aprovado na Conferência Nacional de Educação, realizada no início deste ano. Serra não citou, em sua proposta apresentada ao TSE, propostas para a área.
Ausências

Até o momento, os candidatos não apresentaram propostas específicas para: a implantação do Sistema Nacional de Educação; como garantir recursos – vinculados ao PIB – para atender à demanda de ensino médio e pré-escola; a área de ensino de jovens e adultos e a educação em prisões (a implantação das diretrizes nacionais para a educação nas prisões, aprovadas recentemente pelo Conselho Nacional de Educação).
 
Outras propostas

Dilma e Plínio são a favor das ações afirmativas, como cotas raciais e sociais, para seleção nas instituições públicas de ensino superior. Eles também defendem a expansão das universidades federais. Sobre o Prouni, Plínio propõe o fim do programa e a condução dos seus estudantes para as universidades federais, enquanto que Dilma propõe o aumento da concessão de bolsas estudantis. Marina se comprometeu a incentivar e apoiar as licenciaturas curtas, em especial as voltadas para novas tecnologias e ciências exatas. Ela também ampliaria os recursos para extensão universitária.


Fonte: Observatório da Educação

revistapontocom pergunta: sexo adolescente atrapalha estudo?

Levantamento divulgado pela American Sociological Association afirma que adolescentes que têm vida sexual ativa não necessariamente vão mal nos estudos, como acreditam muitos pais e professores. A questão não é praticar ou não sexo, mas o tipo de relação sexual.

Em relacionamentos sérios, os jovens podem encontrar apoio social e emocional, o que diminui a sua ansiedade e o estresse na vida e na escola, contribuindo assim para o seu bom rendimento. “Isto deve dar algum conforto aos pais que podem estar preocupados com o fato de seu filho ou filha adolescente estar namorando”, disse Peggy Giordano sociólogo da Bowling Green State University. “Sexo adolescente não atrapalha a trajetória educacional”, completou Peggy.

E você, leitor, qual a sua opinião?

Redes sociais: espaço de expressão, socialização e identidade

Foi publicada na última edição da revistapontocom uma informação de que os alunos do estado de Renânia do Norte-Vestfália, na Alemanha, passarão a ter aulas sobre como lidar com as redes sociais. No Brasil, a experiência está longe de ser aplicada, porém especialistas já concordam que as redes sociais vêm possibilitando, entre o público infanto-juvenil, um espaço maior de socialização, de constituição de identidades e, de quebra, de expressão. Pelo menos foi esta a conclusão de educadores presentes no debate “A língua praticada nas redes sociais e a construção da identidade”, que aconteceu no sábado (14/8), na 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

“O fato de escrever mais é importante para percebermos a identidade do jovem, o que está pensando”, disse a jornalista da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), Ciça Lessa, que mediou o debate.

“A língua é parte constitutiva da identidade. Um blog tem características de um diário pessoal, mas não é para ficar na gaveta. Tem um caráter de informação de acordo com quem escreve”, afirmou a especialista em estilística e professora, Guaraciaba Micheletti. “No blog de uma adolescente, toda a subjetividade dela está marcada ali e quem comenta nesse blog também tem o mesmo perfil. Quando são obrigados a fazer seminários na escola, eles se expressam de forma diferente”, completou.

“Ouvimos que o português vai muito mal, que está em decadência, e que o ‘internetês’ é a prova disso. Mas antigamente escrevia-se em um pergaminho de couro. Como era caro, para aproveitar aquele espaço pequeno, eram utilizados vários sinais. Na Internet, o espaço também é pequeno. As abreviações e símbolos voltaram”, analisou o linguista Ataliba Castilho.

Escola x linguagem

De acordo com o professor titular de português da Universidade Federal do Paraná, Carlos Alberto Faraco, a língua se transformar é algo natural. “Os falantes ajustam às necessidades do seu uso. Na Internet, não tem e nem poderia ter as mesmas características de outras linguagens. É preciso abreviar para dizer muito em pouco tempo”, afirma.

Professores e pais se assustam com as novas linguagens, mas, para Faraco, não há dificuldades para operar com vários tipos de escritas. “O chat e o blog têm características da fala, mas não destroem a linguagem culta”.

Os alunos precisam saber que há a norma culta e atuar com ela, de acordo com a professora Guaraciaba, o que não exclui as linguagens utilizadas na Internet. Para Faraco, os educadores devem atuar em constante ‘tensão’, “porque o jovem precisa perceber que pertencemos a múltiplas tribos. Não podemos cair no monogenismo”.

No entanto, a maioria das escolas brasileiras não tem trabalhado com essa diversidade de escritas. “Progressivamente está surgindo um olhar para as redes sociais. Isso, porque os educadores são de diferentes gerações. Aqueles que estão próximos das práticas novas, certamente fazem esforço para aproveitá-las. Agora, quem não está, não faz o mesmo”, analisou Faraco.

Os especialistas concordaram que a escola está diante de uma encruzilhada, porque tem sofrido uma pressão social grande da difusão do conhecimento, da circulação da informação e da prática da escrita. Ao mesmo tempo, o sistema escolar ainda não tem recursos e meios para se adaptar integralmente, respondendo à situação.

Com informações de Desirèe Luíse, do Portal Aprendiz

Cérebro, criança e mídia

“As crianças e jovens de gerações atuais são mais ou menos inteligentes, atentos, capazes de memorizar, do que as de gerações anteriores? Essa é uma boa pergunta para os neurocientistas”,  destaca Leonor Bezerra Guerra.

 

Por Marcus Tavares

Leonor Bezerra Guerra é médica. Mestre e doutora em Ciências e especialista em neuropsicologia. Professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ela coordena o projeto O cérebro vai à escola: um diálogo entre a neurociência e a educação. Trata-se de uma das ações do projeto NeuroEduca, que tem o objetivo de divulgar, informar, orientar e acompanhar profissionais da área de educação sobre conceitos básicos da neurociência relevantes para a compreensão do processo ensino-aprendizagem e das intervenções neste processo.

“Conhecer a organização do cérebro, suas funções, períodos críticos, as habilidades cognitivas e emocionais, as potencialidades e limitações do sistema nervoso pode tornar o trabalho do educador mais significativo e eficiente, contribuindo para o seu entendimento sobre as dificuldades de aprendizagem e para sua orientação em relação às intervenções”, destaca Leonor.

Mas em que medida a mídia impacta o funcionamento do cérebro das crianças e dos jovens, da chamada geração multitarefa, Google, web 2.0? Este foi o foco da entrevista que a revistapontocom realizou com a professora Leonor.

Acompanhe e descubra:

revistapontocom – O que é neuropsicologia?
Leonor Bezerra Guerra –
A neuropsicologia é a ciência que estuda a relação entre o cérebro e o comportamento humano. Tem como objetivo estudar e compreender o comportamento humano considerando o funcionamento das diversas estruturas e áreas do sistema nervoso. Ela estuda as funções corticais superiores, como a atenção, a memória, a linguagem, o raciocínio lógico-matemático, a percepção visual, as funções executivas, entre outras funções cognitivas. A neuropsicologia considera “a participação do cérebro nessas funções mentais como um todo, no qual as áreas são interdependentes e inter-relacionadas, funcionando comparativamente a uma orquestra, que depende da integração de seus componentes para realizar um concerto”. Como área específica de estudo, a neuropsicologia tem um desenvolvimento relativamente recente, embora sua fundamentação científica seja resultante de várias décadas de conhecimento e investigação. Desde a antiguidade já se observava que lesões na cabeça produziam alterações do comportamento. Ao longo da história das neurociências, vários estudiosos contribuíram para a constatação de que o comportamento humano tem como substrato biológico o sistema nervoso. Nos séculos XIX e XX, principalmente a partir das décadas de 40 e 50, esses estudos se desenvolveram bastante. Após os anos 90, da chamada Década do Cérebro, os avanços tecnológicos possibilitaram os estudos de neuroimagem associados ao comportamento, o desenvolvimento de técnicas de reabilitação e a divulgação científica por meio de diversas mídias. Esses fatores, associados ao aumento da formação e capacitação de psicólogos na área, são fatores que promoveram uma maior visibilidade da neuropsicologia como se observa hoje. Embora estudada há vários anos, a neuropsicologia é uma área que tem se beneficiado dos avanços recentes das neurociências, das ciências que estudam o sistema nervoso, em particular, o cérebro.

Saiba mais
Mäder, Maria Joana. Avaliação neuropsicológica: aspectos históricos e situação atual.
Psicologia: ciência e profissão, v.16, n.3, p.12-18, 1996.

revistapontocom – O que a neuropsicologia tem a ver com o dia a dia das crianças, dos jovens e da escola? Que contribuições ela traz para a escola/família?
Leonor Bezerra Guerra –
Conhecendo-se o desenvolvimento e o funcionamento normais do cérebro pode-se compreender alterações cerebrais, como no caso de disfunções cognitivas e do comportamento resultantes de lesões, doenças ou desenvolvimento anormal do cérebro. Dessa forma, a abordagem das dificuldades de aprendizagem pode ter uma contribuição importante da neuropsicologia. Por meio da avaliação neuropsicológica é possível ter uma ideia das habilidades do aprendiz, verificando se seu desempenho em tarefas que dependem de funções como atenção, memória, linguagem, raciocínio lógico-matemático, percepção visual, funções executivas, entre outras, é similar ao da maioria dos indivíduos ou se há uma diferença no seu desempenho. Havendo uma diferença, o profissional irá tanto investigar as possíveis causas do problema, como propor uma intervenção terapêutica. Importante ressaltar que há muitos outros importantes fatores que podem levar às dificuldades para a aprendizagem, como deficiências nutricionais, visuais e/ou auditivas, problemas respiratórios, falta de períodos de sono, ambiente familiar, situação social, adaptação à escola, estratégias pedagógicas inadequadas, etc. Todos eles devem ser investigados. A avaliação neuropsicológica, bem como a neurológica, não são as “respostas definitivas para qualquer dificuldade para aprendizagem”, mas são avaliações muito importantes para exclusão ou confirmação de hipóteses diagnósticas. Sabendo se o cérebro da criança ou jovem está funcionando, ou não, dentro do esperado para sua idade, por meio da avaliação de suas funções cognitivas, a escola, a família e a equipe multidisciplinar que abordam a dificuldade para aprendizagem podem orientar estratégias de encaminhamento ou intervenção terapêutica adequada a cada caso.

 revistapontocom – O que as pesquisas da área vêm revelando sobre a plasticidade dos cérebros das atuais gerações de crianças e jovens?
Leonor Bezerra Guerra –
Neuroplasticidade é a propriedade de “fazer e desfazer” conexões entre neurônios. Ela depende de sinais elétricos desencadeados por estímulos ambientais nas células nervosas e de substâncias químicas produzidas pelos neurônios, e possibilita a reorganização da estrutura do sistema nervoso e do cérebro, constituindo a base biológica da aprendizagem e do esquecimento. Não conheço nenhum estudo que tenha avaliado a relação entre funções cognitivas e exposição a novas tecnologias e que demonstre aumento ou diminuição da plasticidade neural nas novas gerações, expostas a alguns estímulos diferentes de gerações passadas. O que ocorre é que diferentes estímulos levam ao aprimoramento ou à perda de diferentes habilidades. O fato é que preservamos as sinapses e, portanto, redes neurais, relacionadas aos comportamentos importantes para nossa sobrevivência. Aprendemos o que é significativo e necessário para vivermos bem e esquecemos aquilo que não tem mais relevância para o nosso viver.

revistapontocom – A plasticidade do cérebro humano está em transformação? Isto é um fenômeno recente? Isto seria positivo ou negativo?
Leonor Bezerra Guerra –
A plasticidade do cérebro humano é uma propriedade característica das células nervosas que resulta na reorganização das conexões entre os neurônios conforme os estímulos ambientais recebidos. Portanto “não é um fenômeno recente” e sempre existiu no ser humano desde o seu aparecimento na escala evolutiva, bem como em outros animais. Mas só nas últimas décadas é que a ciência descobriu e esclareceu o fenômeno. Não há nenhum dado na literatura científica que demonstre que a propriedade de neuroplasticidade está em transformação. Ela é influenciada pelos estímulos que recebemos do ambiente. Somos expostos a alguns estímulos e privados de outros e, assim, os estímulos vão moldando nosso cérebro. Usualmente se diz que neuroplasticidade é reorganização cerebral e é a base biológica da aprendizagem. Esta reorganização do cérebro, com formação de novas conexões entre neurônios (sinapses) e perda de outras, é que produz novos comportamentos (conhecimentos, habilidades, atitudes). Portanto, neuroplasticidade é um fenômeno positivo. Sem ela o ser humano não aprenderia.

revistapontocom – Mas em que medida o mundo midiático de hoje (televisão, cinema, celulares, games…) impacta o sistema neural das crianças e dos jovens?
Leonor Bezerra Guerra
– As crianças e jovens de gerações atuais são mais ou menos inteligentes, atentos, capazes de memorizar, do que as de gerações anteriores? Essa é uma boa pergunta para os neurocientistas. Não sabemos, ainda. Mas provavelmente elas apresentam diferenças em alguns aspectos de suas funções cognitivas. Há pesquisadores interessados nos resultados da influência do “mundo midiático atual” sobre o comportamento humano, mas ainda não há dados consistentes. É provável que a exposição maior a informações visuais e auditivas em detrimento de informações verbais escritas venha a diminuir as habilidades de linguagem escrita do ser humano e ampliar as habilidades visuais, por exemplo. Pode ser também que a menor interação “corpo a corpo” entre os seres humanos, que agora se comunicam virtualmente, modifique suas habilidades de interação social. Mas não temos, ainda, estudos que comprovem essas mudanças porque esse “mundo midiático de hoje” é relativamente recente. O modo como vivemos, sem dúvida, altera, aos poucos, a estrutura e o funcionamento de nosso cérebro e, portanto o nosso comportamento.

Saiba mais
Vandewater, E. et. al. Digital Childhood: Electronic Media and Technology Use Among Infants, Toddlers, and Preschoolers.
Pediatrics, v.119, n.5, p.e-106-e1015, 2007.

revistapontocom – Podemos afirmar que o impacto do mundo midiático está diretamente associado à área da criatividade das crianças e dos jovens?
Leonor Bezerra Guerra
– Afirmações categóricas em ciências não são muito prudentes. O cérebro não possui uma “área da criatividade”. A criatividade depende de diferentes substâncias químicas (neurotransmissores) e áreas do cérebro: áreas relacionadas às percepções, análises dos contextos e atribuições de significados, áreas que comparam experiências anteriores com estímulos novos, áreas que possibilitam formas diferentes de organizar esquemas mentais já registrados, entre outras. Portanto, a criatividade está relacionada ao desenvolvimento de várias regiões cerebrais e ao funcionamento do cérebro como um todo. As diferentes mídias, teoricamente, devido ao seu potencial de estimulação das vias sensoriais, podem contribuir para as modificações de distintas áreas cerebrais relacionadas às percepções auditivas e visuais e aos mecanismos de atenção e memória, por exemplo. Mas ainda serão necessários estudos que avaliem a influência dos diferentes tipos de mídia sobre as funções cerebrais. As neurociências estão contribuindo para o esclarecimento de várias funções cerebrais. Mas estudos em seres humanos envolvem aspectos éticos e algumas dificuldades relacionadas aos métodos, ou seja, a como investigar criteriosamente o assunto. Por isso não temos, ainda, respostas para várias perguntas que nos inquietam. Mas são exatamente as perguntas, a incerteza, que impulsionam a ciência.

revistapontocom – Por que nos dias de hoje se atribui tanto valor, status e poder ao cérebro humano?
Leonor Bezerra Guerra
– O cérebro sempre foi um órgão muito importante. Ele e outras estruturas do Sistema Nervoso constituem o sistema orgânico que possibilita a interação do ser humano com o meio em que vive. É o Sistema Nervoso que processa os estímulos do ambiente e produz comportamentos que garantem a sobrevivência do indivíduo e a preservação da espécie. Mas a ciência só desenvolveu métodos para estudo mais aprofundado sobre os neurônios, neurotransmissores e o cérebro a partir do início do século XX. A tecnologia digital, os avanços da genética, da biologia molecular, da farmacologia e da eletrofisiologia, entre outras áreas, contribuíram muito para os estudos das neurociências. No entanto, a pesquisa na área tem limitações metodológicas e éticas que dificultam a abordagem de algumas questões, já que há comportamentos do homem que animais de experimentação não apresentam. Portanto, o cérebro sempre teve valor, nós é que não sabíamos explicar o seu funcionamento. Conhecendo, valorizamos. E mesmo com todo o avanço das neurociências, ainda há muito o que se descobrir e esclarecer sobre o cérebro e o comportamento humano.

revistapontocom – Em que consiste o projeto O Cérebro vai à Escola?
Leonor Bezerra Guerra
– O “Cérebro vai à Escola: um diálogo entre a neurociência e a educação” é uma das ações do projeto NeuroEduca. O projeto pretende divulgar, informar, orientar e acompanhar profissionais da área de educação sobre conceitos básicos da neurociência relevantes para a compreensão do processo ensino-aprendizagem e das intervenções neste processo. O projeto é desenvolvido com o apoio da Universidade Federal de Minas Gerais. Buscamos a melhoria da qualificação do profissional da educação em relação à compreensão do processo ensino-aprendizagem e suas intervenções, com contribuição para mudanças na prática do dia-a-dia do professor; melhoria do desempenho e evolução dos alunos. Em nossas palestras, capacitações e curso de atualização (www.fundep.ufmg.br em cursos – educação), abertos a educadores em geral, incluindo pais, abordamos temas como: contribuições das neurociências para a educação; divulgação científica e a neurociência na educação; como o cérebro funciona no processo ensino-aprendizagem; períodos receptivos do desenvolvimento cerebral; sono, atenção, memória, emoção e função executiva no processo ensino-aprendizagem, exame neurológico, afecções neurológicas, avaliação neuropsicológica, transtornos de aprendizagem, transtorno do déficit de atenção e hiperatividade. Consideramos que educar é promover a aquisição de novos comportamentos e que as estratégias pedagógicas utilizadas pelo educador no processo ensino-aprendizagem são estímulos que levam à reorganização do sistema nervoso em desenvolvimento, o que produz as mudanças comportamentais. O educador está cotidianamente atuando nas transformações neurobiológicas que levam à aprendizagem. Conhecer a organização do cérebro, suas funções, períodos críticos, as habilidades cognitivas e emocionais, as potencialidades e limitações do sistema nervoso poderia tornar o trabalho do educador mais significativo e eficiente, contribuindo para o seu entendimento sobre as dificuldades de aprendizagem e para sua orientação em relação às intervenções.

Saiba mais sobre o curso

O curso o Cérebro vai à escola: um diálogo entre a neurociência e a educação propicia aos participantes a oportunidade de conhecer, de forma sintética, alguns aspectos do funcionamento do cérebro durante o processo ensino-aprendizagem e, assim, compreender e discutir questões importantes relacionadas ao trabalho do educador no processo de aprendizagem. Por que o estudante tem dificuldade para se concentrar? Por que os estudantes estão desinteressados? Por que eles esquecem os conteúdos de um ano para outro? Dormir ajuda a aprender? Por que os adolescentes trocam o dia pela noite? Ter aulas é o que nos faz aprender? Lazer ajuda a aprender? Pensar cansa? Por que é verdade que “é de cedo que se torce o pepino”? Quando é melhor aprender uma segunda língua? Quando não aprendemos o problema está sempre no cérebro? Esses, entre outros, serão temas do curso que visa, assim, estabelecer as relações entre a organização morfofuncional do sistema nervoso central e as funções cognitivas envolvidas no processo ensino-aprendizagem.

Ementa
Aspectos estruturais, funcionais e clínicos do sistema nervoso central numa perspectiva neuropsicológica com vistas ao entendimento dos processos de desenvolvimento e aprendizagem.

Programa
. Introdução às dificuldades para aprendizagem;
. Contribuições das neurociências para a educação;
. Divulgação científica e as neurociências na educação;
. Como o cérebro funciona no processo de aprendizagem;
. Organização geral morfofuncional do sistema nervoso central;
. Desenvolvimento do sistema nervoso;
. Córtex cerebral e sistemas funcionais;
. Sono e aprendizagem
. Funções cognitivas: atenção e memória, emoção, função executiva;
. Fundamentos do exame neurológico;
. Fundamentos da avaliação neuropsicológica;
. Transtornos de aprendizagem;
. Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade.

3º Simpósio Hipertexto e Tecnologias da Educação recebe Pierre Lévy

O crescimento da utilização das redes sociais pode mudar nossa maneira de navegar na internet. “Estamos nos sentindo numa espécie de segundo dilúvio, impossibilitados de abraçar o todo e definir o que é essencial. Estamos nadando na inteligência coletiva”, é o que diz Pierre Lévy, pesquisador internacionalmente conhecido por suas reflexões sobre o ciberespaço. É ele o conferencista de abertura do 3º Simpósio de Hipertexto e Tecnologias da Educação. Promovido pelo Núcleo de Estudos em Hipertexto e Tecnologias na Educação da Universidade Federal de Pernambuco (Nehte/UFPE) e pela Associação Brasileira de Estudos de Hipertexto e Tecnologia Educacional (Abehte), o evento vai acontecer nos dias 2 e 3 de dezembro, no Centro de Artes e Comunicação da UFPE.

Além de Pierre Lévy, têm presença confirmada pesquisadores como Antônio Carlos Xavier, coordenador do Nehte/UFPE; Luiz Fernando Gomes (UNISO), presidente da Abehte e; Alex Sandro Gomes (Cin/UFPE), criador da plataforma Amadeus para ensino a distância. Também participará do evento a professora Nelly Carvalho que lançou recentemente o seu primeiro e-book intitulado Crônicas do Cotidiano, obra inicial da Coleção Letras Eletrônicas do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPE.

O simpósio reunirá mais uma vez professores, pesquisadores e alunos de todo o Brasil para discutir a relação entre linguagem, aprendizagem e tecnologia. As atividades serão distribuídas em conferências, mesas-redondas, sessões de comunicação, minicursos e apresentações de pôsteres digitais, estes últimos avaliados e premiados pela comissão científica do evento.

Em 2010, o Simpósio Hipertexto chega a sua terceira edição levando ao público o resultado de pesquisas concluídas e revelando os caminhos percorridos pelos estudos em andamento nas mais variadas áreas que utilizam as tecnologias digitais de informação e comunicação para desenvolvimento de novas formas de aprendizagem.

Os interessados em apresentar trabalhos na área já podem se inscrever.

O prazo termina no dia 30 de setembro.
Informações no site: http://www.ufpe.br/nehte/simposio2010/

Redes sociais é tema de sala de aula, na Alemanha

Alunos de escolas do estado de Renânia do Norte-Vestfália, na Alemanha, passarão a ter aulas sobre como lidar com redes sociais como Facebook e Twitter. A ideia do governo local é conscientizar os estudantes sobre os riscos que eles correm ao revelar informações pessoais na internet.

“Nosso objetivo é mostrar que a internet não apenas oferece chances e oportunidades, mas que também tem riscos que os estudantes precisam entender para exercer autonomia em relação à mídia digital”, disse a secretária de mídia do estado, Angelica Schwall-Düren, em uma entrevista ao jornal WAZ. “Muitos jovens não têm noção sobre a quantidade de detalhes que expõem sobre si mesmos na internet”, disse a secretária.

O sindicato de professores do estado reagiu ao anúncio com um misto de interesse e cautela, afirma o Der Spiegel Online. “O modo como se portar no mundo virtual e como usar as novas mídias já são tópicos em nossas escolas”, afirmou o representante local da entidade Michael Schulte. Ele disse que percebe diferenças culturais entre a geração dele e de seus estudantes com a chegada das novas mídias, por isso teme que professores possam não estar preparados para a nova iniciativa.

Empresas como o Facebook e o Google têm sido alvo de muitas críticas na Alemanha, onde o governo se mostra preocupado em relação ao que as companhias fazem em relação aos dados de usuários. Entre os mais de 2 milhões de usuários do Facebook no país, a maior parte é formada por jovens, diz o Der Spiegel.

Problemas referentes à privacidade são discutidos ao redor de todo o mundo à medida que as redes sociais ganham espaço na internet. Na Alemanha, no entanto, a questão ganha contornos diferentes, em parte por conta de aspectos culturais. “A Alemanha tem uma experiência histórica muito especial de invasão de privacidade, com a dupla ditadura, nazista e depois comunista”, declarou à AFP Falk Lüke, especialista de internet da associação de consumidores VBVZ.

O Google, por exemplo, enfrenta dificuldades para lançar o serviço Street View no país, principalmente depois de admitir que armazenou dados privados de usuários de redes Wi-Fi durante o período de coleta de fotos panorâmicas das ruas da cidade.
Fonte: Exame.com

Entre tapas e beijos

Por José Eduardo Romão
Advogado e pesquisador do grupo o “Direito Achado na Rua” da UnB – Catanduva, SP
 

Desde que o governo encaminhou à Câmara, em meados de julho, o PL 7.672/2010, visando a garantir que crianças sejam educadas e cuidadas sem o uso de “castigos corporais ou de tratamento cruel ou degradante”, tenho pensado em manifestar-me sobre a questão.
Na segunda-feira, dia 26 de julho, fiquei me sentindo bastante obrigado a dizer alguma coisa depois que a Folha de S.Paulo divulgou, de um jeito enviesado, os resultados de uma pesquisa feita pelo Datafolha. A matéria mostrava claramente que apenas “54% dos brasileiros são contrários ao projeto de lei que veda castigos físicos em crianças”, isto é, uma apertada maioria. Mesmo assim, a manchete não hesitou em berrar que: “Maioria já deu, levou e é contra proibir palmadas”, fazendo parecer que a proposta não tem a menor legitimidade.

Mas fiquei incomodado não só com o destaque, dado a uma percentagem tão modesta – não estou nem descontando a margem de erro de três pontos. O que me incomodou mesmo foi a redução do debate à palmada, que é sinônimo de tapinha inofensivo que quase não dói. Como se no Brasil toda “violência educativa” (?) contra a criança estivesse restrita a batidinhas e a beliscões suaves. Antes fosse, ou melhor, antes não houvesse registros frequentes de surras e agressões com socos, pontapés, pauladas, chibatadas, cintadas, ferro em brasa etc.

A pior consequência da surra

Não sei exatamente por que acabei desistindo de me pronunciar. Acho que para não ter que admitir já ter batido nos meus filhos. Um pouco por vergonha, certamente. Contudo, ontem (03/08) mudei de ideia depois que minha esposa e mãe dos meninos me contou toda satisfeita – sem saber o que me preocupava – como o João Pedro, nosso filho de seis anos, havia reagido à ameaça de um amiguinho maior do que ele. Da janela e sem ser vista, a mãe ouviu o seguinte diálogo, enquanto observava quatro crianças brincarem no barro com panelas velhas e hominhos de plástico divididos igualmente entre seus dois filhos e dois amiguinhos.

“João Pedro, me dá seus hominhos senão eu te bato.” Sem hesitar, o João respondeu: “Se você me bater eu vou falar pra minha mãe, aí ela vai ligar pra sua que vai vir te buscar na hora.”

Mal piscou os olhos e os dois já estavam brincando juntos novamente.

Essa reação do João Pedro foi suficiente para que, finalmente, me sentisse desimpedido para falar. É que, no fundo, amargava há tempos uma dúvida em relação às consequências de ter batido nele (como confessei na postagem abaixo): será que ele teria aprendido que é certo apanhar quando alguém aparentemente mais forte afirma que ele errou?

Porque, para mim, a consequência mais perversa de se bater numa criança não é ensinar a ela que os problemas podem ser “resolvidos” (entre aspas, é claro) com violência. Embora a campanha “Não bata, eduque” tenha elegido essa consequência como argumento central (“uma consequência direta do uso do castigo físico é o aprendizado, por parte da criança, de que a violência é uma maneira plausível e aceitável de se solucionar conflitos e diferenças, principalmente quando você está em uma posição de vantagem frente ao outro, principalmente física” – trecho extraído do site), estou convencido de que o menor mal que podemos infligir a uma criança é transformá-la imediatamente em agressora (por ter supostamente assimilado a violência como um padrão para resolver problemas). Digo mais: tem muito pai-machão que não consegue conter a satisfação em saber que seu filho bate nos coleguinhas. Ainda assim, insisto que é preferível que a criança agredida reaja à agressão tentando imitar seu agressor do que permanecer inerte e submissa.

É preciso ser covarde para ser violento

Ou seja, acho muito mais grave e de difícil abordagem aqueles casos em que a criança não apenas sofre a violência como a naturaliza. Isto é, a criança subjugada se reconhece como uma “pessoa inferior”, se acovardando e se resignando diante das injustiças. A meu ver, é a mais violenta consequência da violência porque retiramos da criança a coragem, que é pré-requisito para o exercício da liberdade e da autonomia na vida adulta.

A coragem era considerada por Platão uma das três virtudes da alma. Não à toa, os três companheiros de Dorothy no filme O Mágico de Oz buscam inteligência, bondade e coragem. Como eu continuo achando que o filósofo grego está coberto de razão, vivo criando situações para que meus filhos se sintam inteligentes, corajosos e bondosos, ou melhor, se sintam bem sendo assim. Por isso, se alguém perguntar para o João Pedro e para o Antônio “quais são as três coisas que uma criança tem que ter?” (embora eu costume dizer, “um grande guerreiro”, ao invés de “criança”), verão os dois apontando para a cuca e dizendo “inteligência”, depois apontando para o muque e dizendo “força” e, então, apontando para o peito, responderão “bondade”.

Enfim, tem pai (e também mãe) que ainda não se deu conta de que ao bater em seu filho está no fundo fazendo com que ele aprenda a apanhar. Talvez acabemos por transmitir não um padrão de comportamento, mas dois: pois é preciso ser covarde para ser violento.

Pais que se habituam a bater e se acomodam

E não aceito o velho argumento de que existem crianças que só aprendem apanhando. Na melhor das hipóteses, a única coisa boa que as crianças aprendem quando apanham é que os adultos também perdem o controle e que não se pode confiar absolutamente nem em seus próprios pais.

É óbvio que diferentes crianças exigem, às vezes, formas diferentes de se educar. Mas de modo algum, porrada. Meu cunhado me contou que uma conhecida senhora catanduvense costumava se lamentar aos mais próximos dizendo que “embora tivesse criado seus dois filhos da mesma maneira, um lhe saiu vigário e outro, vigarista” (em tempos de pedofilia no clero, infelizmente, é preciso esclarecer que este último é que não prestava, pelo menos aos olhos da mãe). Não desejo aos meus filhos nenhum dos dois fins, tampouco um destino comum. Quero, sim, que ambos se identifiquem como gente por possuírem os mesmos valores fundamentais, como o respeito ao próximo e o amor à sabedoria, por exemplo. E se cada um aprende de um jeito, simplesmente porque são pessoas distintas. Meu desafio como pai é aplicar métodos e cuidados diferenciados de modo que eles se sintam igualmente amados.

Se pancada desse jeito em alguém, os meninos sairiam da Febem e da Funabem direto para a canonização (em caixões, naturalmente). Desafio quem conheça um só exemplo de uma criança reconhecidamente má que tenha endireitado à custa de castigos físicos, psicológicos e maus tratos. Por outro lado, sei de um monte de histórias de gente que apanhou horrores e que se tornou um agressor ainda pior ou covarde explosivo e imprevisível.

Conheço também inúmeras estórias. Mas vou mencionar apenas duas.

Primeiro, a estória do menino chamado Valtei que faz parte do livro-que-eu-mais-gosto, Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa. Vale a pena ouvir o que Riobaldo diz sobre ele:

“Eu gosto de matar…” – uma ocasião ele pequenino me disse. Abriu em mim um susto; porque: passarinho que se debruça – o voo já está pronto! Pois, o senhor vigie: o pai, Pedro Pindó, modo de corrigir isso, e a mãe, dão nele, de miséria e mastro – botam o menino sem comer, amarram em árvores no terreiro, ele nu nuelo, mesmo em junho frio, lavram o corpinho dele na peia e na taca, depois limpam a pele de sangue, com cuia de salmoura. A gente sabe, espia, fica gasturado. O menino já rebaixou de magreza, os olhos entrando, carinha de ossos, encaveirada, e entisicou, o tempo todo tosse, tossura da que puxa secos peitos. Arre, que agora, visível o Pindó e a mulher se habituaram de nele bater, de pouquinho em pouquim foram criando nisso um prazer feito diversão […]

Taí um risco e uma consequência que nem a campanha “Não bata, eduque” havia suscitado: dos pais que se habituam a bater e se acomodam.

A maldade de Romãozinho

A segunda estória, é Câmara Cascudo quem conta em seu livro Lendas brasileiras (com ilustrações de Poty, que também ilustrou livros de Guimarães Rosa). É a lenda de “Romãozinho”, que não tem nada a ver comigo e muito menos com meus filhos. Juro.
Filho de negro trabalhador, Romãozinho nasceu vadio e malcriado. Tinha todos os dentes, fisionomia fechada, hábitos errantes, nenhuma bondade no coração. Divertimento era maltratar os animais e destruir plantas. Menino absolutamente perverso.

Um meio-dia, a mãe mandou-o levar o almoço ao pai que trabalhava num roçado distante da casa. Romãozinho foi, de má vontade. No meio do caminho, parou, abriu a cesta, comeu a galinha inteira, juntou os ossos, recolocou-os na toalhinha e foi entregar ao pai.
Quando o velho deparou com ossos em vez de comida, perguntou que brincadeira sem graça era aquela. Romãozinho, entendeu vingar-se da mãe, que ficara fiando algodão no alpendre da casinha:

“É o que me deram… Minha mãe comeu a galinha com um homem que aparece lá quando o senhor não está por perto. Pegaram os ossos e disseram que trouxesse. Eu trouxe. É isso aí…

O negro meteu a enxada na terra, largou o serviço e veio correndo. Encontrou o mulher fiando, curvada, absorvida na tarefa. Dando crédito ao que lhe dissera o filho, puxou a faca e matou-a. Morrendo, a velha amaldiçoou o filho que estava rindo:

“Não morrerás nunca. Não conhecerás céu, nem o inferno, nem o descanso enquanto o mundo for mundo… O marido morreu de arrependimento. Romãozinho desapareceu, rindo ainda. Será que Romãozinho poderia ser corrigido com uma boa sova?

Meninos podem ser treinados

Tenho certeza que não. Mas tampouco creio que teria efeito uma bela conversa. E esse me parece, digamos, o defeito do lado oposto. Os que não batem e rechaçam qualquer forma de castigo físico e tratamento degradante parecem nutrir uma crença ingênua e ao mesmo tempo adultizada no poder do diálogo com as crianças. Mais uma vez recorro à campanha a que, apesar de criticar seus argumentos, aderi com empolgação. Especificamente, estou me referindo às dicas disponíveis no site como estratégias de educação positiva.

Em regra, a campanha recomenda aos pais que eduquem seus filhos com diálogo. Seja para repreender e impor limites, ou para estimular e acentuar comportamentos desejados. Até aí, tudo bem, pois “em tese” não há como discordar de uma educação baseada no discurso, nas palavras. O único senão é que nos momentos difíceis e delicados – como uma birra no supermercado, um palavrão dirigido à vovó, um soco no coleguinha, um vaso quebrado depois da décima advertência e por aí vai –, isto é, na “vida real”, dificilmente há clima e espaço para uma conversa de joelhos com os olhos-nos-olhos de seu filho. Eu já tentei e continuo tentando, mas para conter um moleque de três e outro de seis anos em situações limites (são aquelas em que você pensa em bater) é preciso lançar mão de técnicas mais eficazes.

Por exemplo, para interromper uma carreira desabalada em direção à rua movimentada (e evitar o atropelamento do seu filho), é necessário usar em alto e bom som uma única palavra de comando que o faça parar como um cachorro obediente. A comparação não é involuntária porque para atingir esse grau de aderência à voz de comando pode-se treinar os meninos (até os sete anos, mais ou menos) com o auxílio de um adestrador de animais. Só depois que seus filhos estiverem respondendo a comandos vitais do tipo “desce daí”, “pare”, “volte”, “corra” e “durma” – este último eu não consegui incutir no mais velho, embora eu tenha usado aquele famoso manual de adestramento: “Nana nenê” – depois disso é que entra a psicologia (não o psicólogo).

Não é com vara e marmelo que se corrige

É sério; tirando só um pouquinho do excesso. Não dá para corrigir a criança ou educá-la tentando sempre lhe explicar cada ato ou cada pretensão que nos move. Às vezes, quando quero que o João Pedro pare de fazer algo que incomoda (como ficar pedindo sem cessar “papai, deixa eu faltar da aula hoje” a caminho da escola), eu desvio a atenção dele contando uma hestória (meio mentira e meio verdade) instigante sobre algum ponto do percurso que ele possa ver e focar: “João, você sabia que eu conheci um menino (que estudou comigo lá na sua escola) que pulou do alto daquele viaduto gigantesco ali? Foi assim: quando eu tinha a sua idade, teve uma grande enchente aqui na cidade…” Nunca deu errado e olha que eu não sou nenhum Pedro Bandeira.

Também acho que muitas vezes o silêncio é a melhor forma de comunicação, principalmente entre pais e filhos, isto é, entre homens. De vez em quando, estamos os três brincando de playmobil na sala e aí os dois começam a brigar pela espadinha flamejante ou pelo cavalo preto ou por qualquer outra coisinha. Dou um minuto, no máximo, e se eles não se entendem, me levanto dizendo que não quero brincar mais. Saio. Em instantes, estão os dois me pedindo pra voltar porque eles “são parceiros e não vão mais brigar” (agora que o João sabe ver as horas, eles têm resolvido a disputa da seguinte maneira: cada um fica dez minutos com a coisinha disputada).

Melhor do que o silêncio e as hestórias, são os carinhos. Esses, sim, sejam abraços ou afagos, dispensam qualquer palavra.
Bom, acho que era isso que eu tinha pra dizer.

No mais, não sei se é relevante registrar ainda que apanhei quando criança e que não fiquei traumatizado (acho), como quase toda minha geração. No entanto, me parece burrice concluir a partir de exemplos como o meu – com mais de trinta anos – que uma palmadinha não faz mal ou que pode até fazer bem. De 1970 para cá, o mundo mudou bastante. E hoje, sobretudo graças à luta pelos direitos humanos, repudiamos um bocado de coisas que antes nos pareciam “normais”, tais como homem que bate em mulher; político que rouba, mas faz; cristão que sonega em paz; e gente que joga lixo no chão.

Os tempos são outros. Hoje em dia as crianças já nascem sujeitos de direitos, ainda que seus pais não queiram. Antigamente, as crianças eram apenas um objeto relativamente protegido pelo Direito. Os pais colocavam seus filhos no “Jardim da Infância” na expectativa de que essas sementes de gente, regadas com educação escolar, viriam a florescer como adultos capazes. Hoje há casos em que a sementinha já escolhe o jardim. Antes as crianças comiam apenas depois dos adultos; hoje, são servidas antes mesmo da refeição ir à mesa.

Quando a Constituição do Brasil diz que as crianças têm prioridade absoluta, ela tão somente expressa o entendimento que predomina em nossa sociedade. Ou não somos nós mesmos que vivemos afirmando que em primeiro lugar estão os nossos filhos?

Pode até ser que tenhamos exagerado na medida ao atribuir às nossas crianças a condição de super-sujeitos de direitos, sob a guarda da Constituição e do Estatuto da Criança e do Adolescente. Tenho minhas dúvidas, mas pode ser.

Agora, aqui entre nós: não é com vara e marmelo que vamos corrigir isso, né?

ZoaSom: do radinho de pilha à internet em busca dos jovens

“Há dois processos: tanto a geração Google bebe em tendências do passado quanto o próprio rádio se rejuvenesce com as novas tecnologias de comunicação”, João Paulo Malerba.

  

Por Marcus Tavares

Afinal, de que forma o rádio pode se reinventar no mundo digital e conectado pela web e suas redes sociais e, ainda por cima, atrair a atenção dos jovens? Bem, tem gente tentando emplacar novidades no mercado. É o caso, por exemplo, do programa ZoaSom, que acaba de estrear na Rádio MEC AM, no Rio de Janeiro.

Como define o diretor do programa, João Paulo Malerba, o ZoaSom é um programa de rádio feito por jovens e para jovens. E segundo ele, rádio é coisa de jovem, sim, mas tem que ser um rádio plugado nas multiconexões que as novas tecnologias permitem. “O ZoaSom é um programa de auditório que vai além do auditório e um programa de rádio que usa e abusa da internet. Essa é a aposta do projeto”, avisa.

O programa estreou na última quinta-feira, com a presença da cantora Fernanda Abreu. Logo após a estreia, o diretor concedeu uma entrevista a revistapontocom. Saiba como você, jovem, pode participar do programa.

Confira:

revistapontocom – No mundo da geração google, ainda há espaço para programa de rádio para jovem?
João Paulo Malerba –
Há dois processos: tanto a geração Google bebe em tendências do passado quanto o próprio rádio se rejuvenesce com as novas tecnologias de comunicação. O ZoaSom é um programa de auditório que vai além do auditório e um programa de rádio que usa e abusa da internet. A proposta é integrar redes sociais e plateia; SMS e telefone do ouvinte; blog e email; podcast, transmissão analógica e online. Estão prevendo a morte do rádio há, pelo menos, uns 60 anos (co  a chegada da TV), mas o bom e velho rádio continua aí, um hábito de mais de 80% dos brasileiros (Relatório de Pesquisa Quantitativa – Hábitos de informação e formação de opinião da população brasileira encomendada pela Secom à empresa Meta, foi realizada no período de 31 de janeiro a cinco de fevereiro, nas cinco regiões do país em 639 cidades). Rádio é coisa de jovem, mas tem que ser um rádio plugado nas multiconexões que as novas tecnologias permitem. Essa é a aposta do ZoaSom.

revistapontocom – Qual é a proposta do ZoaSom? No que consiste a programação?
João Paulo Malerba
– O ZoaSom é um programa de rádio feito por jovens e para jovens, presença marcada na Rádio MEC AM, das 17 às 18h, sendo realizado ao vivo no histórico auditório da Rádio Nacional. O programa pretende ser um espaço no rádio para jovens discutirem cultura e arte, música e atualidade. Toda semana teremos um tema que será debatido entre os ouvintes do rádio, a plateia, os twitteiros, além de um convidado especial para enriquecer a conversa. Além disso, o ZoaSom quer ser o espaço da música independente. Toda semana teremos a presença de uma banda independente, cantando, tocando e trocando ideias com a gente. Os programas têm quadros especiais para deixar os participantes ligados no que está rolando no mundo jovem: Chá de Bússola (com as principais dicas e oportunidades para quem quer se mexer); dicas culturais da semana; Encontrei no MySpace (sempre com uma dica de banda independente que disponibiliza seu trabalho na rede). E ainda o RadioAtividade: um espaço democrático onde rádios universitárias, comunitárias, livres, centros de produção independentes podem mostrar o seu trabalho.

revistapontocom – A quem se destina? Qual é a expectativa do programa? Quais são as estratégias para atrair a atenção do público?
João Paulo Malerba –
O ZoaSom se destina ao público jovem e adolescente e a nossa expectativa é que essa galera ocupe o ZoaSom, participando online, ao vivo, sugerindo temas, enriquecendo o debate… Para isso abrimos vários canais em diversas redes sociais (Twitter, Orkut, FaceBook, YouTube, Flickr). Todo o material do programa fica disponível do blog do ZoaSom www.zoasom.com, onde os ouvintes/internautas podem baixar o programa, ouvir e assistir online no momento da veiculação do programa, opinar sobre o programa etc.

revistapontocom – Quais são os principais desafios?
João Paulo Malerba –
O principal desafio é fazer do ZoaSom um verdadeiro ponto de encontro de música, cultura e arte jovem e que a galera tome, invada, conquiste esse espaço como seu.

revistapontocom – Quem quiser participar…
João Paulo Malerba
– Para participar tem vários caminhos: ser for uma banda independente, mande uma descrição básica da banda e algum material musical demonstrativo para o zoasom@zoasom.com. Se for uma escola, entre em contato para agendar uma participação coletiva especial, através do zoasom@zoasom.com ou  pelo telefone (21) 25085204. Se quiser participar ao vivo no dia é só chegar meia hora antes no auditório da Rádio Nacional, Praça Mauá, 7, 21º andar, todas as quintas-feiras. Ou ouvir online através do zoasom.com ou ainda através do Twitter @ZoaSom ou SMS (21) 87785366. O blog também está aberto a críticas, sugestões e participações.

Luto como mãe: o drama que a mídia não mostra

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Com uma câmera na mão, mulheres revelam que por trás das belezas naturais do Rio de Janeiro se esconde a dor de quem perdeu seus filhos para aqueles que, por ironia, deveriam proteger a segurança da população. Dar visibilidade para essas mães é a proposta do documentário “Luto como mãe”, do cineasta Luis Carlos Nascimento, que estreia no próximo dia 20 no Rio de Janeiro.

O longa retrata chacinas cometidas por policiais repercutidas em todo o país e nomeadas como as “Mães de Acari”, “Chacina da Candelária”, “Chacina da Baixada” e outras tão importante quanto essas. Durante quatro anos, Luis Carlos Nascimento acompanhou de perto o drama dessas mães, desde a coleta de depoimentos até os desdobramentos dos casos perante a justiça.

Com uma câmera nas mãos, as mães documentaram suas passeatas, mobilizações, comemorações familiares e ainda realizaram entrevistas com maridos e familiares contribuindo para a inovação no processo de construção da narrativa do documentário. “Ignora-se que, para cada marido, cada filho, cada homem morto, existe sempre uma mulher por trás”, destaca o diretor.

A visibilidade dessas mortes é passageira, dura enquanto a notícia durar. Seus rostos aparecem nas capas dos jornais, noticiários de TV sempre com uma lágrima demonstrando toda a sua dor. Mas tudo isso é momentâneo. No dia seguinte, ninguém lembra mais do fato ocorrido. O que essas mães fazem no dia a dia de suas lutas após o momento do luto também é ignorado.  É sobre esse rito de passagem do luto à luta que o documentário traz à tona. “A única coisa que tinha medo era perder meus filhos e agora não tenho mais medo de nada”, relata a mãe Elizabeth Medina Paulino, que esteve no lançamento do documentário, em Portugal.

“Luto como Mãe” participou da 14ª edição do Festival Internacional do Rio (2009) – onde concorreu a três prêmios: melhor direção, melhor documentário e melhor filme do júri popular; no Festival Viña del Mar (Chile/2009); no 12ª Festival de Cinema Brasileiro de Paris (França/2010); no 1ª Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa – FESTin (Portugal/2010); na 3ª Mostra Internacional de Cinema em Língua Portuguesa, entre outros.

O documentário é fruto de uma produção da TV Zero, Jabuti Filmes e Cinema Nosso. O longa foi realizado em parceria com CES- Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (Portugal) e CESEC- Centro de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes. 

Luto como mãe ficará em cartaz nos seguintes cinemas: Ponto Cine (Guadalupe), Estação Botafogo (Botafogo) e Cinema Nosso (Lapa). Mais informações no site www.lutocomomae.com

O ensino da arte nas escolas do século XXI

“Não há clareza por parte de muitos professores, diretores e gestores de como se planeja e operacionaliza o currículo na área de arte”, Rosa Iavelberg.

Por Marcus Tavares

Há dois anos (15 de julho de 2010), o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a lei 12.287, substituindo o parágrafo segundo do artigo 26 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). O novo texto ratificava a obrigatoriedade do ensino de arte nas escolas de Educação Básica (Educação Infantil e Ensino Fundamental e Médio), “especialmente em suas expressões regionais”. O objetivo era promover o desenvolvimento cultural de todos os estudantes.

Mas afinal, o que significa esta nova redação? O que é arte na escola? Arte e mídia têm a ver? A revistapontocom entrevistou, por e-mail, a professora Rosa Iavelberg, professora de arte da graduação e pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo Iavelberg, uma das autoras dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) na área de artes, “não há clareza por parte de muitos professores, diretores e gestores de como se planeja e operacionaliza o currículo na área de arte. Na prática, com exceção feita, infelizmente há poucas experiências, mas que felizmente ocorrem em número crescente”.

Confira as ideias da professora:

revistapontocom – Qual é o impacto da promulgação da nova lei nas escolas?
Rosa Iavelberg –
Foi feita alteração na lei que aperfeiçoa o ensino de arte obrigatório na Educação Básica (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio). No caso, foi proposta pelo presidente Lula alteração na redação do §2º do artigo 26 das Diretrizes e Bases da Educação Nacional que fala da obrigatoriedade do ensino de arte na Lei 9.394 de 1996. A primeira redação trazia o seguinte texto: O ensino da arte constituirá componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos. A nova redação, promulgada pela Lei 12.287, ficou assim: O ensino da arte, especialmente em suas expressões regionais, constituirá componente curricular obrigatório nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos. A ênfase nas expressões regionais é muito importante para que se recuperem as culturas locais como conteúdos a serem sistematizados e aprendidos nas escolas. Mas não é necessário restringir-se às produções regionais no desenho curricular, pode-se associar seu ensino ao dos conteúdos universais, por exemplo: ensinar sobre a arte de diferentes povos, culturas, tempos e lugares.

revistapontocom – Há professores suficientes para esta nova realidade?
Rosa Iavelberg –
Não há professores suficientes para o ensino de arte, assim como acontece com outras disciplinas, entretanto, deve-se promover a formação para dar conta das demandas por uma educação de qualidade.

revistapontocom – Mas, afinal, o que é, na prática, o ensino da arte na escola? O que se pretende alcançar com ele? As escolas têm conhecimento disso?
Rosa Iavelberg
– Não há clareza por parte de muitos professores, diretores e gestores de como se planeja e operacionaliza o currículo na área de arte. Na prática, com exceção feita, infelizmente há poucas experiências, mas que felizmente ocorrem em número crescente. Ainda se nota problemas recorrentes. Entre outros, podemos citar: a ausência de práticas de criação nas escolas em diferentes linguagens da arte: teatro, música, dança ou artes visuais, cada qual tratada disciplinarmente em sua especificidade; a arte a serviço de projetos de meio ambiente, saúde, datas comemorativas do calendário escolar e à aprendizagem de outras disciplinas sem ênfase em seus conteúdos próprios; a desvalorização da área denotada pela ausência de proposta de aquisição de livros pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD); a ausência de avaliação dos projetos desenvolvidos nas escolas como situações de aprendizagem; e a pouca visita cultural e estudo de arte brasileira ou de artistas regionais.

Saiba mais

revistapontocom – Vivemos num mundo digital, tecnológico e midiático. Isto tem algum impacto sobre o ensino da arte na escola?
Rosa Iavelberg
– As tecnologias contemporâneas devem ser estudadas e usadas em sala de aula, assim como a arte contemporânea não pode ser suprimida do desenho curricular, pois isto significa privar o aluno de participar do seu tempo. Podemos dizer que a arte das crianças e jovens, dos dias de hoje, pode usar dos meios tradicionais e também dos novos meios, por ser parte do mundo em que vivem.

revistapontocom – Como atrair crianças e jovens para o ensino tradicional da arte quando a mídia e a possibilidade de produzi-la está ao alcance de crianças e jovens?
Rosa Iavelberg
– A criança e o jovem não deixam de se interessar por desenho, pintura, modelagem, jogo dramático, teatro se estas modalidades forem bem orientadas na escola. Além disso, elas podem se interessar por produzir arte com/a partir da inclusão das novas mídias, tanto na criação como na fruição.

revistapontocom – Podemos dizer que o ensino de arte assume, neste início do século XXI, outro lugar, outra responsabilidade?
Rosa Iavelberg
– Sim. Pode-se compreender como valor a atenção dada ao estudo das produções regionais na Educação Básica, por intermédio da modificação na redação do §2 do artigo 26 da LDB 9394/96. Sabe-se que a lei por si não forma o professor, mas pode fazer a diferença na construção deste caminho e somar-se aos muitos esforços feitos pela melhoria da educação. Quando observamos avanços na lei esperamos práticas que os efetivem. É preciso não atribuir ineficácia ou o fracasso da lei à ausência de professores formados para colocá-la em prática nas escolas. O vão entre lei e ensino, teoria e prática, requer formação de professores, mas também melhoria no reconhecimento da profissão e diminuição nas resistências infundadas e mal justificadas sobre as inovações políticas (a alteração do §2) e as novas didáticas do século XX e XXI – orientação construtivista no ensino e no ensino da arte.