Kit anti-homofobia: censurado

Você já ouviu falar sobre a campanha Escola sem Homofobia? Trata-se de um projeto que, no âmbito do Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (PNPCDH-LGBT), reúne um conjunto de diretrizes elaboradas pela Secretaria de Direitos Humanos. O objetivo é promover a cidadania e os direitos humanos da comunidade LGBT. No entanto, a proposta, que conta com o apoio do Ministério da Educação, vem causando polêmica desde o ano passado e, nesta semana, ganhou as manchetes da mídia ao ser vetada pela presidente Dilma Roussef.

Dilma afirma ter assistido a trechos de um dos vídeos que integra o chamado kit anti-homofobia, que estava aguardando a aprovação final do MEC para ser enviado para seis mil escolas públicas de Ensino Médio do país no segundo semestre deste ano.  “O Governo defende a educação e também a luta contra as práticas homofóbicas. No entanto, não vai ser permitido a nenhum órgão do governo fazer propaganda de opções sexuais”.

Produzido pela ONG ECOS – Comunicação em Sexualidade, o kit é composto por um caderno, uma série de seis boletins, cartaz e três audiovisuais e dois DVDs com seus respectivos guias.  Em seu site, a instituição afirma que o kit é formado pelas seguintes obras: DVDs – Medo de quê? e Boneca na Mochilha; e os audiovisuais – Torpedo, Encontrando Bianca e Probabilidade.

Assista aos vídeos e dê a sua opinião:

De acordo com o MEC, os professores é que decidiriam se os vídeos seriam mostrados aos alunos do Ensino Médio – com idades entre 15 e 17 anos. Ao tomar conhecimento da decisão da presidente, o Ministro da Educação, Fernando Haddad, disse que os vídeos poderão ser refeitos. A campanha do MEC contra a homofobia já custou aos cofres públicos R$ 1,8 milhão.

Bolsas para pesquisas com crianças e consumo

O Projeto Criança e Consumo, da ANDI – Comunicação e Direitos e do Instituto Alana, inicia a 7ª edição do Concurso de Bolsas para Trabalhos de Conclusão de Curso do Programa InFormação. Serão oferecidas sete bolsas no valor de R$ 390,00 mensais durante seis meses. Nesta edição, os projetos deverão focar nos seguintes temas: “Criança, Consumo e Mídia” (3 bolsas); “Publicidade de alimentos e interfaces com a obesidade infantil” (2 bolsas), com abordagem das relações entre a publicidade de alimentos com alto teor de sódio, gordura, açúcar e de bebidas de baixo teor nutricional e o crescente problema da obesidade infantil; ou “Desafios para a autorregulamentação da publicidade” (2 bolsas), com discussão sobre a atuação do setor empresarial no campo da regulamentação da publicidade e dos códigos de conduta definidos pelas empresas.
 
Para Laís Fontenelle, coordenadora de Educação do Projeto Criança e Consumo, o programa é uma maneira de incentivar o debate sobre questões fundamentais na sociedade. “Os impactos negativos da publicidade no desenvolvimento infantil têm sido cada vez mais discutidos pela sociedade como um todo. No Congresso, há vários projetos de lei no sentido de regular essa questão. Pais e mães se engajam cada vez mais em movimentos nesse sentido, buscando refletir e driblar os apelos para o consumo que atingem diretamente seus filhos. Esse é um tema de extrema importância e é muito positivo envolver futuros profissionais nessa discussão”, comenta Lais Fontenelle Pereira, coordenadora de Educação e Pesquisa do Projeto Criança e Consumo.
 
O Gerente do núcleo de Qualificação da ANDI, Fabio Senne, complementa: “O oferecimento de bolsas para estudantes de graduação tem contribuído para uma cultura de reflexão sobre os diversos aspectos da relação entre a comunicação e a agenda social nas universidades. Na medida em que as universidades começam a ampliar pesquisas nessa área, a formulação e implementação de políticas públicas acerca do tema também se fortalece.”
 
Os projetos podem ser realizados por estudantes de qualquer universidade brasileira, e devem ser produzidos e defendidos até 31 de janeiro de 2012. As inscrições estarão abertas de 20 de maio a 20 de julho através do site www.informacao.andi.org

Brincadeira com os dias contados

Em tramitação na Câmara dos Deputados desde 2004, o Projeto de Lei 4479/04, do deputado Enio Bacci (PDT-RS), que proíbe a venda de armas de brinquedo, foi aprovado na última semana pela  Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania. (CCJ). A proposta altera o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O texto foi aprovado com emenda da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado que restringe a proibição aos brinquedos que são simulacros ou réplicas de armas de fogo verdadeiras.

A proposta foi aprovada em caráter conclusivo na CCJ. Ela já havia sido aprovada pelas comissões de Seguridade Social e Família; e de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado e, agora, será encaminhada para o Senado. O ECA proíbe a venda, a crianças, de armas de fogo verdadeiras, bebidas alcoólicas, produtos que possam causar dependência física ou psíquica e fogos de artifício, mas não menciona a comercialização de munições e armas de brinquedo.

Torre de Babel

Uma torre de 28 metros de altura, em formato de rampa circular, toda feita de aço e dezenas de milhares de livros, foi construída em Buenos Aires para marcar a gestão da cidade como Capital Mundial do livro de 2011, título designado pela Unesco. A obra, batizada de “Torre de Babel de Livros”, é de autoria da artista plástica argentina Marta Minujín, que reuniu mais de 30 mil exemplares de 54 países, inclusive do Brasil, como informou a assessoria de imprensa do governo de Buenos Aires.

Para reunir tamanha quantidade de livros, a torre contou com edições doadas pelas embaixadas e por moradores de Buenos Aires, que entregaram seus exemplares durante dois meses nas várias livrarias da cidade. “A ideia foi transformar a torre num veículo da cultura, unificando o mundo através dos livros”, afirmou a artista. Ela disse que a realização da obra foi como “um milagre” artístico que “entrará no imaginário coletivo”.

Minujín desenhou a maquete em formato de espiral, e a estrutura foi construída com ferros por operários financiados pela Secretaria de Cultura de Buenos Aires. A “Torre de Babel”, instalada na Praça San Martín, no centro da cidade, pode ser percorrida até o dia de ontem, 27 de maio. “Esta maravilhosa Torre de Babel de Livros ficará na memória de todos os portenhos (os nascidos em Buenos Aires) e marcará como celebramos as palavras e as artes plásticas”, disse a artista.

A coleção de livros reúne romances, contos, poesias, histórias e reportagens, entre outros. Segundo a Embaixada do Brasil, foram doados 200 livros brasileiros. Antes da mostra, o governo da cidade realizou um inventário dos exemplares que compõem a obra e plastificou um por um, para protegê-los durante a exposição. Parte dos livros foi entregue aos visitantes. Os exemplares restantes serão levados para uma biblioteca portenha para compor o acervo da Primeira Biblioteca Multilíngue da Cidade de Buenos Aires.

Professores debatem polêmica sobre livro didático

O livro didático Por Uma Vida Melhor, distribuído pelo MEC, ganhou as páginas da imprensa por dizer que falas populares como “os livro ilustrado mais interessante estão emprestado” ou “nós pega o peixe” não estão erradas e devem ser vistas como variações da Língua Portuguesa. Para discutir o assunto, o site da Universidade de Brasília publicou artigos de dois professores sobre o tema. Marcos Bagno, do Instituto de Letras, diz que as variações fazem parte do uso prático da língua. Já Enilde Faulstich, também do mesmo instituto, argumenta que livros devem ensinar a norma culta.

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Discussão sobre livro didático só revela ignorância da grande imprensa
Marcos Bagno

Para que serve um livro didático de Língua Portuguesa?
Enilde Faulstich

Para que serve um livro didático de Língua Portuguesa?

Por Enilde Faulstich

Resultado de contatos com outras línguas, o Português surgiu como língua na extensão geográfica de Portucale, na Península Ibérica, e formou um patrimônio autônomo de Portugal, de tal sorte que se desgarrou de outras línguas muitas próximas com as quais convivia. Esse intróito serve pra dizer que a língua portuguesa, para chegar à língua de hoje, passou por inúmeras variações no tempo e no espaço e criou variedades, entendidas como normas de uso.

Esses modos normais de falar convergiam para um modelo, que se fazia necessário, como um padrão de língua. Esse padrão enfeixava as diversas variedades e, por conseguinte, as diversas normas, que, do ponto de vista da língua, se fosse ‘adulterado’, ou a variedade voltava a ser entendida como tal, ou era entendida como erro de uso, segundo a consistência da época. O padrão – estrutura abstrata a ser seguida, que nada mais era do que uma norma -, passou a ter papel político forte na criação do estado nacional.

Como era preciso navegar, era preciso também que os fatos, vistos no novo mundo, fossem registrados, escritos; para escrever, era preciso haver minimamente uma unidade. Era o social falando mais alto que o linguístico. E, como se percebe, a língua em si nada tinha a ver com isso.

A unidade se valia do padrão para criar uma forma de escrever, sem que fosse ipsis verbis cópia da fala, pois em nenhum estágio da língua isso se dá. Já desde épocas primitivas é possível constatar que, no decorrer do tempo, a variação era muito acentuada, primordialmente a gráfica, enquanto a estrutura da língua, cada vez mais fiel a uma forma de escrever, servia de modelo para os aprendizes. Dessa cópia de modelos, deriva outra interpretação para os fatos gramaticais registrados nos documentos, que passaram a ser entendidos como uma norma culta da língua. O recado era: culto é aquele que faz igual ao que sabe mais. E as gramáticas modernas e contemporâneas passaram a representar, sob cada regra, um exemplo da ‘boa escrita’, segundo os escritores consagrados. Equívocos à parte, gramáticas e dicionários não são livros didáticos, são obras de consulta, por meio das quais os usuários da língua tomam decisões.

Esses manuais de consulta têm público certo e conteúdo definido, em vista de que oferecem material para discussão em torno de um objeto da linguagem, que ali está cristalizado, mas que é vivo e com cor local, como é a Língua. Por sua vez, o livro didático é uma obra própria para o ensino porque segue os programas escolares. Se o livro didático tem por meta o ensino de um programa escolar, o conteúdo deve estar de acordo com a política escolar estabelecida. Porém, o corpo social reclama quando o desacordo entre conteúdo de língua padrão e política educacional se faz presente. Assim acontece neste momento em que um livro didático leva para a sala de aula o que deve constar de um manual cujas noções servem para a discussão e para a tomada de decisões. O livro didático, como a gramática e o dicionário, cristaliza o conhecimento e passa a ter caráter de verdade plena.

Nesse caso, nem todos os professores – ainda que sejam professores de português – atingem o fundo da questão para discutir, convencer e ser convencido do que é certo ou errado na Língua ou sobre a Língua e, por isso, o que era pra ser aprendido passa a ser igual ao que todos já sabem e a escola perde sua função. O ponto de partida para o acerto e para o erro tem de estar em algum lugar, e esse lugar abstrato é o padrão da língua, que é socialmente aceito. No caso de divergências, a língua portuguesa nada tem a ver com isso, reitero. Quem tem a ver são os que, num espaço social delimitado, têm o português como modo de expressão e, para isso, frequentaram a escola durante anos e adquiriram maior ou menor escolarização. Nesses termos, qualquer preconceito com relação a falar bem, ou falar mal não é linguístico, mas social, logo o argumento de ‘preconceito linguístico’ deixa a desejar.

Se um livro didático, selecionado para o ensino, confunde variação com padrão gera polêmica, porque há uma grande diferença entre falar uma língua e ensinar a falar e a escrever essa língua.  O livro didático de português não é um livro para o ensino da língua oral; o foco é principalmente o português por escrito, objetivo de quem está na escola, no caso, de professores que ensinam e de alunos que aprendem. Como é sabido, ascende socialmente quem sabe escrever – eis o que solicitam os concursos públicos, tão usados como parâmetros de conhecimento no Brasil. Assim sendo, expor num livro didático usos de falta de concordância como ‘adequados’ é inserir num lugar errado o que o social não quer nem ouvir, nem ver por escrito, pois a própria escola, com papel social, político, educacional e pedagógico, reprova o erro. 

Mediante essa constatação, a discussão em torno do livro adotado pelo Ministério da Educação para o EJA deixa à vista que um conteúdo inadequado foi registrado num lugar errado, no livro didático. Ali não é o lugar para dizer que está correto o que provoca estigma – a falta de concordância de número – que é uma das formas mais marcadas como erro diante da norma padrão da Língua Portuguesa.

Discussão sobre livro didático só revela ignorância da grande imprensa

Por Marcos Bagno

Para surpresa de ninguém, a coisa se repetiu. A grande imprensa brasileira mais uma vez exibiu sua ampla e larga ignorância a respeito do que se faz hoje no mundo acadêmico e no universo da educação no campo do ensino de língua. Jornalistas desinformados abrem um livro didático, lêem metade de meia página e saem falando coisas que depõem sempre muito mais contra eles mesmos do que eles mesmos pensam.

Polêmica? Por que polêmica, meus senhores e minhas senhoras? Já faz mais de quinze anos que os livros didáticos de língua portuguesa disponíveis no mercado e avaliados e aprovados pelo Ministério da Educação abordam o tema da variação linguística e do seu tratamento em sala de aula.

A variação linguística é parte constitutiva das línguas humanas. O que significa isso? Significa que nenhuma língua humana, por menor que seja o número de seus falantes, é uma entidade homogênea, compacta, invariável. Na verdade, um dos postulados básicos da sociolinguística (disciplina científica que mais se dedica ao estudo da variação) é “toda língua é um feixe de variedades”.

Nesse sentido, podemos até dizer que a palavra “língua” é um substantivo coletivo: sob esse rótulo se abrigam dezenas e dezenas de modos de falar essa língua que variam segundo diversos fatores — a classe social, o sexo do falante, a idade, o grau de instrução formal, a profissão, a etnia, as redes sociais em que ele circula etc. A norma codificada nas gramáticas é apenas um modelo idealizado de língua, inspirado nos usos de um punhado de escritores do passado. Assim, ela deixa de fora 99% de todos os fenômenos gramaticais que de fato estão em ação na língua viva.

Somente com uma abordagem assim as alunas e os alunos provenientes das chamadas “classes populares” poderão se reconhecer no material didático e não se sentir alvo de zombaria e preconceito. E, é claro, com a chegada ao magistério de docentes provenientes cada vez mais dessas mesmas “classes populares”, esses mesmos profissionais entenderão que seu modo de falar, e o de seus aprendizes, não é feio, nem errado, nem tosco.

Enquanto não se reconhecer a especificidade do português brasileiro dentro do conjunto de línguas derivadas do português quinhentista transplantados para as colônias, enquanto não se reconhecer que o português brasileiro é uma língua em si, com gramática própria, diferente da do português europeu, teremos de conviver com essas situações no mínimo patéticas.

A principal característica dos discursos marcadamente ideologizados (sejam eles da direita ou da esquerda) é a impossibilidade de ver as coisas em perspectiva contínua, em redes complexas de elementos que se cruzam e entrecruzam, em ciclos constantes. Nesses discursos só existe o preto e o branco, o masculino e o feminino, o mocinho e o bandido, o certo e o errado e por aí vai.

Darwin nunca disse em nenhum lugar de seus escritos que “o homem vem do macaco”. Ele disse, sim, que humanos e demais primatas deviam ter se originado de um ancestral comum. Mas essa visão mais sofisticada não interessava ao fundamentalismo religioso que precisava de um lema distorcido como “o homem vem do macaco” para empreender sua campanha obscurantista, que permanece em voga até hoje.

Da mesma forma, nenhum linguista sério, brasileiro ou estrangeiro, jamais disse ou escreveu que os estudantes usuários de variedades linguísticas mais distantes das normas urbanas de prestígio deveriam permanecer ali, fechados em sua comunidade, em sua cultura e em sua língua. O que esses profissionais vêm tentando fazer as pessoas entenderem é que defender uma coisa não significa automaticamente combater a outra.

Defender o respeito à variedade linguística dos estudantes não significa que não cabe à escola introduzi-los ao mundo da cultura letrada e aos discursos que ela aciona. Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem! Parece óbvio, mas é preciso repetir isso a todo momento.

Não é preciso ensinar nenhum brasileiro a dizer “isso é para mim tomar?”, porque essa regra gramatical já faz parte da língua materna de 99% dos nossos compatriotas. O que é preciso ensinar é a forma “isso é para eu tomar?”, porque ela não faz parte da gramática da maioria dos falantes de português brasileiro e pode ainda servir de arame farpado entre os que falam “certo” e os que falam “errado”. É dever da escola apresentar essa outra regra aos alunos, de modo que eles – se julgarem pertinente, adequado e necessário – possam vir a usá-la também.

O problema da ideologia purista é esse também. Seus defensores não conseguem admitir que tanto faz dizer assisti o filme quanto assiti ao filme, que a palavra óculos pode ser usada tanto no singular (o óculos, como dizem 101% dos brasileiros) quanto no plural (os óculos, como dizem dois ou três gatos pingados).

O mais divertido (para mim, pelo menos, talvez por um pouco de masoquismo) é ver os mesmos defensores da suposta “língua certa”, no exato momento em que a defendem, empregar regras linguísticas que a tradição normativa que eles acham que defendem rejeitaria imediatamente. Pois ontem, vendo o Jornal das Dez, da GloboNews, ouvi da boca do sr. Carlos Monforte essa deliciosa pergunta: “Como é que fica então as concordâncias?”. Ora, sr. Monforte, eu lhe devolvo a pergunta: “E as concordâncias, como é que ficam então?”

Os jovens em cena

“Para os jovens, o YouTube é o espaço da visibilidade, da sua busca como sujeito social, significando uma ampliação das redes de amizade”, destaca Nilza Alves.

Por Marcus Tavares

Qual é o impacto do YouTube no dia a dia da vida contemporânea? E na vida dos jovens? O que representa o canal de vídeo mais popular do mundo para os adolescentes do século XXI? Entretenimento, confessionário ou rede social? É em busca destas respostas, que Nilza Alves, mestranda de Educação, da Universidade Federal Fluminense (UFF), vem analisando que tipo de exposição do “eu” está sendo proposto no YouTube.

Em entrevista à revistapontocom, ela afirma: “Estou acompanhando o ‘desabafo’ de dois jovens no YouTube, com seus vídeos classificados entre os mais populares. Acredito que pensar as produções do YouTube sob o prisma da construção das identidades possibilita-nos discutir as representações do ser jovem contemporâneo e os novos modos de ser que surgem com as novas práticas de expressão e comunicação via internet”.

Acompanhe a entrevista:

revistapontocom – Qual é o lugar do YouTube na vida contemporânea?
Nilza Alves – O YouTube desde sua criação, em 2005, tem bastante impacto no mundo hipermidiático. Tanto que, em 2006, foi considerado a “Invenção do Ano” pela revista Time. Para a maior parte dos usuários, é um site que permite o acesso a uma gama nunca antes imaginada de material audiovisual, de forma rápida e gratuita. Em poucos minutos, é possível assistir a comerciais antigos, cenas de seriados de televisão ou filmes clássicos, momentos decisivos em competições esportivas, desenhos animados de diversas partes do mundo, reportagens televisivas, blogs, documentários de viagem, entrevistas, cenas de novela e uma infinidade de material musical como videoclipes e shows. Além de disponibilizar todo esse material audiovisual, o site funciona como uma rede social, um ponto de encontro, de pertencimento, onde se pode ver e ser visto, onde qualquer um pode “transmitir-se”. O seu lema Broadcast yourself (transmita a si mesmo) ratifica a ideia das possibilidades democráticas da rede: fazer do receptor um produtor. Nesse sentido, o usuário é ele mesmo o “canal”, que faz uso de outro meio, o YouTube, e pode transmitir a imagem que produz sobre si mesmo ou o que desejar tornar público. Na verdade, parece que o YouTube surge para dar conta de uma visibilidade impositiva na contemporaneidade. Agora, cabe a cada um administrar sua própria imagem para entrar em cena.

revistapontocom – Qual lugar que o YouTube ocupa na vida dos jovens?
Nilza Alves – Para os jovens – porque são os que mais aceitam a convocação das mídias interativas -, o YouTube é o espaço da visibilidade, da sua busca como sujeito social, significando uma ampliação das redes de amizade. Esse “estar-entre” reforça a autoestima e os coloca na cena pública, exercendo uma identidade reconhecida e desejada no grupo e que põe em relevo potencialidades pessoais. Isso porque ser visto é o que conta nesses novos tempos. O espaço de visibilidade, que era exclusivo às celebridades, foi democratizado e se oferece hoje também para o homem ordinário. E, além desse lugar de compartilhamento e exposição, o YouTube representa ainda a possibilidade de inserção produtiva no mundo do trabalho. Os ganhos com merchandising nos vídeos postados proporcionam a alguns jovens um primeiro momento de independência financeira.

revistapontocom – Neste sentido, o YouTube impacta a questão do público e privado?
Nilza Alves – Sim, muito. A exposição de si em sites como o YouTube evidencia mudanças nas noções do público e do privado, que, na modernidade, não se misturavam. O fenômeno atual da disputa por visibilidade e pelo consumo da privacidade alheia mostra transformações subjetivas que borram as fronteiras entre a intimidade e a privacidade. Assim, a subjetividade se torna cada vez mais exteriorizada e performática. Sobre essa questão, penso no ditado popular “o que os olhos não veem o coração não sente”. Agora, em uma sociedade em que somos moldados pela visibilidade, quando os “olhos veem” cada vez mais e mais, resta saber se “o coração sente” de forma mais/menos intensa, de forma mais clara, de forma a alterar/realçar/ moldar a subjetividade. Resta saber também como essa explosão de visibilidade interfere na elaboração da subjetividade contemporânea.

revistapontocom – Podemos afirmar, então, que o YouTube é um espaço privado e particular e, ao mesmo tempo, um  espaço público?
Nilza Alves – Hoje, a crescente exposição da vida íntima e privada nos diversos meios de comunicação e a forte presença da imagem na relação que os indivíduos estabelecem com o mundo, com o outro e consigo apontam para uma subjetividade radicalmente próxima do olhar do outro e inserida num regime de visibilidade onde as redes sociais têm um papel fundamental. A noção de íntimo passa por uma reconfiguração. O íntimo da contemporaneidade só pode ser chamado assim porque fala do eu. Mas sua relação com o privado perde cada vez mais terreno. A intimidade virou pública, é fato. Mas qual é o grau dessa intimidade que se permite publicizar? É uma intimidade construída. Publico a parcela que desejo que conheçam do mim. E talvez essa parcela não exponha uma intimidade realmente profunda, ou essa parcela que torno pública pode ser apenas parte das minhas múltiplas identidades. Parece que estamos em meio a um processo de embaçamento das dimensões não visíveis do sujeito, para valorizar somente as dimensões visíveis e, inclusive, incentivar a multiplicidade dessas dimensões. Múltiplo, o jovem customiza sua identidade e vai elaborando o “como sou” também através do YouTube. E tenta amplificar o presente via webcams para que confirme no futuro um “valeu a pena”. Mesmo que só apostando em visualizações que o tirem da obscuridade, que confirmem a existência de si. Mesmo que só por um momento YouTube.

revistapontocom – Michael Wesch, professor americano que pesquisa o papel do YouTube nos dias de hoje, diz que as pessoas que fazem uso do canal, têm a chance de serem vistas e mais do que isso: de se verem. O que isto significa?
Nilza Alves – Como nos diários tradicionais, a possibilidade de desabafar, pensar, mas, principalmente, a capacidade de autoconhecimento por meio da linguagem, está presente nos “desabafos” virtuais postados no YouTube. Esses diários na internet significam o colocar-se como sujeito por meio da linguagem e enunciar-se como eu. E, mais interessante, aí se dá o ver e o ser visto. Entra em cena o olhar exotópico . Pelo princípio da exotopia, eu só posso me imaginar, por inteiro, sob o olhar do outro; pelo princípio dialógico, que decorre da exotopia, a minha palavra está impregnada pelo olhar de fora, do outro que lhe dá sentido e acabamento. O espaço para os comentários no site favorece essa dupla visão. No YouTube, o conhecer a si mesmo é acompanhado por um dar-se a ver pelo outro. É a possibilidade de uma outra tradução do eu. É nesse jogo de interação com o outro que tenta atrair a partir da revelação de sua intimidade (real ou fictícia) e da interação com o próprio eu que se dá a construção identitária.

Midiaeducação em debate

“O objetivo da mídia-educação é tornar mais crítica e consciente a relação dos sujeitos e grupos sociais com os meios de comunicação e com a informação”, destaca Marcia Stein.

Por Marcus Tavares

O que é midiaeducação? Um conceito? Uma ideia? A sua grafia escrita junta ou separada traduz algum significado? Existiria outro termo que definiria melhor a interface entre a educação e a mídia? Trata-se de um novo campo de estudo? A revistapontocom dá prosseguimento à publicação da primeira parte do Dossiê midiaeducação, na qual publica entrevistas com professores, estudiosos e pesquisadores sobre o tema. A cada semana, uma nova entrevista. Um novo olhar. Uma nova perspectiva sobre a interface mídia e educação.

Para a OSCIP Planetapontocom, midiaeducação é um conceito que se traduz em um trabalho educativo sobre os meios, com os meios e através dos meios. Sobre os meios, refere-se ao estudo e análise dos conteúdos presentes nos diferentes meios e suas linguagens. Com os meios, trata-se  do uso dos meios e suas linguagens como ferramenta de apoio às atividades didáticas. E através dos meios, diz respeito a produção de conteúdos curriculares para e com os meios, em sala de aula e, também, a educação a distância ou virtual, quando o meio se transforma no ambiente em que os processos de ensino-aprendizagem ocorrem.

Nilda Alves, Rosália Duarte, Eduardo Monteiro, Regina de Assis, Monica Fantin, Guaracira Gouvêia são alguns dos nossos convidados/entrevistados da série. Nesta semana, você confere a entrevista concedida pela jornalista  e professora Marcia Stein.

Consultora em Educação e com diversos trabalhos desenvolvidas na interface midiaeducação, Marcia, em entrevista à revistapontocom, reitera o papel da midiaeducação na construção de uma escola mais antenada com os anseios das crianças e dos adolescentes do mundo de hoje.

Acompanhe a entrevista:

revistapontocom – Como podemos definir o conceito midiaeducação?
Márcia Stein – Tenho uma definição própria para a abordagem midia-educativa. Para mim, trata-se do paradigma segundo o qual os processos educativos são compreendidos do ponto de vista das mediações. Com base nesse pressuposto, propõe-se que as relações de ensino-aprendizagem sejam observadas, na perspectiva da abordagem sociointeracionaista, como relações de comunicação – considerando-se as interações e mediações desses processos e suas relações com as linguagens, ambientes e meios. Propõe-se, sempre com base na abordagem sociointeracionista e com forte ênfase no estudo das interações sujeito-mídia, considerar as relações autoconstitutivas entre desenvolvimento e aprendizagem e entre pensamento e linguagem. Os projetos brasileiros de educação para os meios, relacionados aos projetos internacionais de media literacy – forte tendência atual na área de políticas públicas – representam uma possibilidade de abordagem e campo de atuação da Mídia-Educação.

revistapontocom – De onde surgiu este conceito?
Marcia Stein – São várias linhas de abordagem, vindas de diferentes épocas e lugares, desde os anos 80, com a declaração de Grunwald (Alemanha, 1982), um documento da UNESCO propondo a mobilização de educadores e estudiosos para a questão da educação para a mídia.

revistapontocom – Qual é o objetivo da midiaeducação?
Marcia Stein – Em linhas bem gerais, tornar mais crítica e consciente a relação dos sujeitos e grupos sociais com os meios de comunicação e com a informação, levando-os a perceber, na interação cotidiana com os meios, que a produção da informação não tem neutralidade, é sempre contextualizada e carregada de intencionalidades que quanto mais compreendemos seus códigos mais estamos preparados para lidar criticamente com seu conteúdo.

revistapontocom – Midiaeducação é a forma mais correta de nomear este conceito? Haveria algum nome mais oportuno?
Marcia Stein – Também é uma discussão permanente, são várias linhas e correntes, cada uma com objetivos, recortes e ênfases particulares. Costumo usar mídia-educação, uma tradução literal do termo original em inglês media-education, sem a conjunção aditiva ‘e’. Entendo que esta abordagem é mais ampla, referindo-se de modo geral à discussão sobre as relações entre pensamento e linguagem e entre educação e comunicação, diferentemente das abordagens que se preocupam mais especificamente com a questão da alfabetização midiática.

revistapontocom – Qual é o papel da educação nesta relação?
Marcia Stein – Como já coloquei acima, penso que esta abordagem pressupõe um educador mais sensível às questões da comunicação e da interação e suas influências em processos de aprendizagem, ou seja, menos um transmissor de conteúdo e mais um mediador das interações sujeito-informação.

revistapontocom – Qual é o papel da mídia nesta relação?
Marcia Stein – O mesmo que ela (a mídia) desempenha em nosso contexto sociocultural: o de espaço de representação de nosso universo simbólico, de canal de divulgação de ideias, informações e entretenimento, ferramenta de expressão e espelho do melhor e do pior da cultura humana, do que somos capazes de ser e de produzir.

Projeto de animação abre vagas

O Projeto de Animação Brasil-Cuba, a Secretaria do Audiovisual SAv -MinC, por meio do Centro Técnico Audiovisual (CTAv) e da Cinemateca Brasileira, e a Agência para Relações Internacionais, abrem as inscrições – de 13 a 30 de maio de 2011 – para a master class de ‘Desenvolvimento de projeto e conteúdo em Animação’ e para as oficinas de ‘Toon Boom storyboard PRO, ‘Toon Boom Harmony: animação’ e ‘Bonecos de madeira para stop motion: criação e planejamento’.

As atividades fazem parte da segunda fase de formação do Projeto de Animação Brasil-Cuba. O Projeto da SAv foi criado no âmbito de cooperação entre os governos cubano e brasileiro com o objetivo de promover a qualificação e especialização na produção de animação para crianças e a troca de experiências entre artistas e especialistas de infância dos dois países durante a realização da animação O Caminho das Gaivotas. A segunda fase, prevê a realização de atividades de qualificação e aperfeiçoamento em técnicas e conteúdos de animação para profissionais e novos talentos no Brasil.

O projeto de Animação Brasil-Cuba: formação e aperfeiçoamento conta com a parceria do Serviço Audiovisual da Embaixada da França, Toon Boom Animation Inc., Instituto Confluência e o apoio da Cinear, Bonfilm, Teatro da Maison de France, Cinemaison, Consulado da França no Rio de Janeiro, Festival de Cinema Francês, Embaixada do Brasil em Cuba, Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográficos (ICAIC), Casablanca Rio de Janeiro e  CENTOeQUATRO.

MASTER CLASS E OFICINAS

Master class de ‘Desenvolvimento de projeto e conteúdo em Animação’ , por Alain Gagnol
Palestrante convidada Patricia Alves Dias

Carga horária: 3 horas
Dia 13 de junho
Teatro da Maison de France, Rio de Janeiro
Avenida Presidente Antônio Carlos, 58, Centro
Das 10h30 às 13h30

Público: profissionais e estudantes de cinema de animação, séries, games e mídias afins.

Conteúdo: Apresentação dos processos de criação e desenvolvimento de projetos e conteúdos de animação, desde o surgimento da ideia, passando, pela formatação do argumento, roteiro, story board, criação de personagem, direção de arte, a partir das experiências realizadas pelo artista, diretor e roteirista francês Alain Gagnol. 

Oficinas de ‘Toon Boom storyboard PRO’, por Stacey Eberschlag

Carga horária: 14 horas
Abertura e 2 módulos práticos para 4 turmas: 20 e 21; 20 e 22; 20 e 23; e 20 e 24 de junho
Centro Técnico Audiovisual, CTAv, Rio de Janeiro
Avenida Brasil, 2482, Benfica
A partir das 8 horas

Público: Profissionais, estudantes e novos talentos de story board e direção de filmes e séries de TV de animação.

Conteúdo: Exposição e apresentação de cases de sucesso e conceitos básicos de criação da narrativa de séries e filmes de animação; e a importância e função do story board. Exercícios práticos de criação de story board e animatic com a ferramenta Story Board PRO.

‘Toon Boom Harmony: animação’ por Stacey Eberschlag

Carga horária: 14 horas
4 módulos práticos para 2 turmas: 27 e 28 de junho, 29 e 30 de junho de 2011
Centro Técnico Audiovisual, CTAv, Rio de Janeiro
Avenida Brasil, 2482, Benfica
A partir das 9 horas

Público: Profissionais, estudantes e novos talentos da área de animação, assistência de animação e composição em filmes, série de TV em animação.

Conteúdo: Exercícios e estudos de casos de produção de animação com Toon Boom Harmony. Apresentação de conceitos e exercícios de paperless (sem papel), cut-out (recorte), design de personagem, rigging simples, lip-sync (sincronia labial), efeitos especiais, finalização e composição com a ferramenta Toon Boom Harmony.

Oficina de ‘Bonecos de madeira para stop motion: criação e planejamento’ por Daniel Herthel
Professor convidado Bárbaro Joel Ortiz

Carga horária 16 horas
De 20 a 23 de junho
CENTOeQUATRO, Belo Horizonte
Praça Rui Barbosa,  104, Centro
A partir das 14 horas

Público: Voltado para pessoas com uma prévia noção e interesse no processo de animação em stop-motion e com alguma experiência em trabalhos com madeira.

Conteúdo: Criação e planejamento de personagens de madeira para animação stop motion alinhados ao conteúdo narrativo e estético, são conceitos a serem abordados na oficina. O workshop prevê a criação, planejamento e construção de um personagem ou objeto, em madeira balsa, tendo como meta o entendimento de diferentes processos técnicos e soluções práticas na elaboração de seu movimento.

INSCRIÇÕES
 
As inscrições, gratuitas, poderão ser feitas aqui até o dia 30 de maio de 2011. É obrigatório o envio do portfólio  (coletânea de filmes ou edição de obras mais representativas que você realizou ou participou)  pelos Correios até a data do dia 30 de maio. O material deverá ser enviado para o seguinte endereço: Avenida Brasil 2482, Benfica, Cep 20930-040, Rio de Janeiro. No envelope, deve constar: Inscrição Workshop e Oficinas Projeto Brasil-Cuba/SAv. Os materiais não serão devolvidos. Os mesmos, de acordo com a autorização do interessado, comporão banco de dados de animadores brasileiros que será criado pela SAv.

Cada interessado só poderá se inscrever em uma única atividade (master class ou uma das oficinas). Caso seja feita mais de uma opção, a inscrição será anulada. Os inscritos selecionados serão informados por e-mail.

Tanto a master class quanto as oficinas serão oferecidas gratuitamente. No entanto, a organização não arcará com passagens, hospedagens, alimentação e ou postagens dos portfólios dos candidatos.

Serão conferidos certificados aos selecionados que participarem de todos os módulos da máster class ou oficinas ao qual se inscreveu.


VAGAS E SELEÇÃO

– Master class de ‘Desenvolvimento de projeto e conteúdo em animação’
Oferta – 100 vagas, preenchidas de acordo com a ordem de inscrição

– Oficina de ‘Toon Boom storyboard PRO’
Oferta – 40 vagas
Processo de seleção – análise de portfólio

– Oficina de ‘Toon Boom Harmony: animação’
Oferta – 20 vagas
Processo de seleção – análise de portfólio

– Oficina de ‘Bonecos de madeira para stop motion: criação e planejamento’
Oferta – 10 vagas
Processo de seleção – análise de portfólio


PALESTRANTES E ORIENTADORES

Alain Gagnol (FOLIMAGE) é realizador, roteirista e diretor de arte francês de mais de uma dezena de filmes de animação, como “L’Egoiste”, “Lês Tragédies Miniscules”, “Le Couloir”, premiados em importantes festivais internacionais, como Hiroshima, Espinho, Bresse, Zagreb, entre outros. Realizou com Jean-Loup Felicioli Gagnol, o longa metragem “Une Vie de Chat” (http://www.uneviedechat-lefilm.fr), produzido pela Folimage (http://www.folimage.fr/boutique/index.cfm) e premiado no Festival de Berlin 2011 como Melhor Animação.

– Bárbaro Joel Ortiz (ICAIC), diretor, fotografo, criador e construtor de esqueletos e bonecos para filme de stop motion, cubano, assina a realização do filme “20 Años” (http://www.dailymotion.com/video/xc8nsh_20-anos_creation?start=0), premiado no Festival de Cine de Havana, Cine Pobre de Gibara, Festival Int. De Filmes de Família de Hollywood e Festival Int. De Cine de AVANCA.

Daniel Herthel (Projeto de Animação Brasil-Cuba), diretor, artista plástico, bonequeiro e fotografo de cinema e teatro, mineiro, é formado pela Escola de Artes Visuais da UFMG. Em 2007, foi contemplado com bolsa de residência artística pelo Programa Artists Links, na Inglaterra, realizando seu primeiro filme “Casa de MAquinas” (http://danielherthelvideos.blogspot.com), ao lado de Maria Leite. Foi diretor, criador e construtor de cenários e bonecos, e animador, ao lado de Bárbaro Joel Ortiz, do filme “O Caminho das Gaivotas”, do projeto de animação Brasil-Cuba.

–  Patricia Alves Dias (Projeto de Animação Brasil-Cuba) é produtora e criadora de projetos e conteúdo para infância em animação. Formada em animação pelo Acordo Brasil-Canadá, onde realizou seu primeiro filme “Presepe”, e co-dirigiu “ALEX”, produzidos pela Embrafilme e NFBC e premiados no CINANIMA e Festival de Havana. Foi fundadora e coordenadora dos Estúdios de Animação da MULTIRIO (http://bridgethink.org/blog/2010/03/19/multirio-march-active-org) onde produziu e criou as séries “Carta Animada pela Paz”, “Juro que Vi” e “Cantigas de Roda”, premiadas pelo Japan Prize, Festival de Ottawa, Animamundi, OETI e Unesco. Co-produziu “O Caminho das Gaivotas”.

Stacey Eberschlag (TOON BOOM ANIMATION Inc), diretor, supervisor de animação e criador de personagem, há mais de 14 anos, é formado em animação clássica pelo Sheridan College. Fez parte da equipe de realização da Amberwoord Entertainment, como diretor de inúmeros trabalhos, entre eles “Zeroman”‘ e “Hoze Houndz”. Trabalhou em conhecidas séries como Kick Buttoski, da Disney, e Jimmy Two-Shoes. Faz parte da equipe de instrutores da Toon Boom Animation (http://beta.toonboom.com) desde 2009.

Alunos colecionam notebooks

O acesso a computadores está cada vez mais democratizado e facilitado pelo crédito financeiro. Muitas famílias vêm investindo na compra com o objetivo de entreter e auxiliar seus filhos nos estudos. Dados da empresa IT Data, de fevereiro deste ano, revelam que, pela primeira vez, o número de notebooks vendidos no mercado nacional ultrapassou o de desktops. São mais e mais crianças e adolescentes informatizados e conectados. Realidade que faz parte do cotidiano de alunos do Colégio Estadual José Leite Lopes, Nave, na Tijuca, Rio de Janeiro. Mas com uma grande diferença: os computadores não foram comprados pelas famílias, mas, ganhos pelos próprios alunos.

Desde 2008, os estudantes da Educação Básica do Governo do Estado do Rio de Janeiro são submetidos ao Sistema de Avaliação da Educação Básica da Rede Pública Estadual do Rio (Saerj). Os alunos que alcançam os níveis ‘adequado’ e ‘avançado’ no resultado da prova são premiados com computadores portáteis. A proposta – batizada com o nome Geração Futuro – tem o intuito de fazer com que os jovens se dediquem mais aos estudos. Será?

A equipe da revistapontocom foi até a escola conversar com os alunos que já ganharam os notebooks. E se surpreendeu. Tem estudante que neste ano ganhará o seu terceiro computador. Afinal, o que se faz com três computadores em casa?

O estudante Luis Felipe Martins, de 18 anos, não titubeia. Ele diz que ficaria com um e venderia ou daria para algum amigo os outros. Seu colega, Jean Menezes, de 17 anos, usa um discurso parecido: “Ou usaria um e vendia os outros ou então venderia os três e compraria um aparelho melhor”, afirma. Ideia diferente tem Jean Braga, de 18 anos: “Com três notebooks, montaria uma lan house”.

Embora não tenham destacado a questão do uso do computador auxiliando o estudo, quando perguntados se o notebook é um prêmio que, na verdade, serve para incentivar os alunos a estudar, a resposta foi unânime: “claro que sim”!

Maria Cristina Martins, professora de Física, do Nave, reconhece que o prêmio é, de fato, um incentivo a mais para o aluno estudar. “O aluno precisa dessa motivação. Quando você passa um trabalho, a primeira coisa que lhe perguntam é se vale ponto. Ele sente essa necessidade de ser recompensado pelo seu esforço, então o prêmio é, sim, um grande motivador dos estudos, mas acho que quando o aluno já recebeu o computador, ele deveria ganhar outro equipamento”.

Sua colega de profissão, a professora de Biologia, Daniela Bahia, concorda. Segundo ela, em vez de novos notebooks, os já premiados poderiam ganhar impressoras, câmeras, gravadores, tudo que pode auxiliar nos estudos.

Segundo a diretora adjunta do colégio, Maria Luisa Albuquerque, há alguns alunos que, realmente, têm a necessidade de ter mais um de notebook para eventuais trabalhos que for realizar. Caso não precise, ela acha que os estudantes acabam doando para algum familiar ou amigo.

Foi o que fez Lucas Amorin, de 17 anos: “Um deles, o primeiro, eu dei para meus irmãos gêmeos usarem nos estudos. Eu também o uso para minhas coisas pessoais. Sempre trago, o segundo aparelho, para o colégio, para fazer meus trabalhos. Uso ele apenas para os projetos da escola. Sobre o terceiro, que ainda vou ganhar neste ano, ainda não sei qual destino será dado. Não sei se vou dar para a minha mãe ou para minha namorada. Mas se o terceiro for mais moderno e tiver mais recursos, eu darei o segundo e ficarei com o terceiro para mim. Não penso em vender não.”

Na opinião de Lucas, o equipamento incentiva os alunos nos estudos. “O cara que sabe que pode ganhar um notebook fazendo a prova vai se dedicar com atenção máxima. Já teve casos de amigos que não sabiam do prêmio e fizeram a prova de qualquer jeito. Quando eles descobriram que poderiam ganhar um notebook, estudaram mais e fizeram com bastante atenção”, explica.

Pelas contas, Lucas ainda poderá ganhar o seu 4° notebook. E se depender dele essa conquista já está certa: “Vou fazer a prova com atenção redobrada e levar mais esse para casa”, afirma. Alguém duvida?

Turmas menores

Reduzir o número de alunos nas salas de aula pode melhorar o aprendizado. O que sempre vem sendo debatido e defendido por professores acaba de ganhar um reforço. A pesquisa Caminhos para melhorar o aprendizado, promovida pelo Instituto Ayrton Senna e o movimento Todos Pela Educação, reitera a importância de diminuir a quantidade de estudantes na sala de aula. O estudo mostra que uma redução média de 30% do tamanho da turma pode aumentar até 44% o aprendizado do aluno durante o ano letivo.

Coordenado pelo pesquisador Ricardo Paes de Barros, o trabalho, fruto de uma análise de estudos nacionais e internacionais sobre o tema, destaca que a redução, na prática, necessita de espaço físico e professores qualificados. A mudança beneficia, aparentemente, mais os alunos com maior dificuldade de aprendizado e vindos de famílias mais vulneráveis. Alguns projetos sugerem, inclusive, que essa política deveria focar escolas que atendem jovens mais carentes, pois os impactos nelas tendem a ser maiores.

Confira a pesquisa na integra www.paramelhoraroaprendizado.org.br

 

Da pesquisa para a prática

Como já informado pela revistapontocom, depois de três anos de tramitação, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 597/2007  que limita o número de alunos por professor na Educação Básica. Pela proposta, que agora segue trâmite no Senado, as turmas do Ensino Médio e as dos quatro anos finais do Ensino Fundamental (6º ao 9º ano) terão, no máximo, 35 alunos. O projeto altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) que não estabelece limite de estudantes por sala de aula.

Se for aprovado no Senado, os sistemas de ensino terão o prazo de três anos, a partir da publicação da lei, para se adequarem. Para a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, a limitação de alunos por professor acabaria com a superlotação e garantiria mais qualidade de ensino.

“Se você tiver uma sala de aula lotada com 40, 50 alunos, numa aula de 45 minutos, onde o professor tem que passar o conteúdo da sua matéria, tirar as dúvidas e conferir lições de casa ou qualquer tarefa, certamente uma boa parte dos alunos não vai contar com a atenção do professor”, destaca o deputado Jorginho Maluly, autor da proposta.

Para o professor José Roberto de Souza, da Escola Municipal Cardeal Câmara, em Vigário Geral, no Rio, o ideal seria, realmente, ter 35 alunos no máximo. “Nossas turmas têm, em média, 45, 47 alunos. É inviável. Muitos alunos em sala de aula atrapalham o pleno exercício da profissão”, afirma. Que o diga a professora Marcia Shalfun, da Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, também no Rio. Segundo ela, menos alunos em sala contribui para um maior e melhor interação entre professores e estudantes. Veja como seria o limite de alunos por sala/série, de acordo com o Projeto de Lei:

– Crianças até um ano de idade: máximo de cinco alunos
– Crianças de um a dois anos: máximo de oito alunos
– Crianças de dois a três anos: máximo de treze alunos
– Crianças de três a quatro anos: máximo de quinze alunos
– Crianças de quatro a cinco anos: máximo de vinte alunos
– Nos 5  primeiros anos do Fundamental: máximo de 25 alunos
– Nos anos finais do Fundamental e Médio: máximo de 35 alunos

E você, leitor da revistapontocom, qual é a sua opinião sobre o tema? Comente abaixo.

Prêmio Microsoft

Educador: que tal fazer um projeto inovador, usando a tecnologia a favor do aprendizado dos seus alunos e ainda, de quebra, ser premiado com um notebook e um troféu? Mãos à obra. Estão abertas as inscrições do prêmio Microsoft Educadores Inovadores Brasil. Os interessados têm até o dia 26 de junho para confirmar a participação. Em sua sexta edição, o concurso premia projetos de midiaeducação inovadores, criativos e que contribuam para o bom desempenho dos estudantes.

Há cinco categorias: Inovação em comunidade, aprendizagem além da sala de aula; Inovação em colaboração, aprendizagem colaborativa; Inovação em conteúdo, construção do conhecimento e pensamento crítico; Educador inovador escola técnica; e Educador inovador escola particular. Somente serão aceitos projetos que foram desenvolvidos a partir de janeiro de 2009. As inscrições devem ser feitas no site www.educadoresinovadores.com.br.

Para quem ainda tem dúvidas se deve ou não participar e precisa de um estímulo, a revistapontocom conversou com o professor Guilherme Hartung, do Colégio Estadual Embaixador José Bonifácio, em Petrópolis, Rio de Janeiro, vencedor do prêmio, na categoria colaboração, em 2009. Ao lado do professor Alexandre Becker, Guilherme e seus alunos criaram a Fractal Multimídia, uma empresa fictícia de produção de simuladores de jogos educativos.

Em entrevista, Guilherme explica mais detalhes do projeto vencedor, deixando claro que para conquistar o prêmio basta uma boa ideia, conteúdo e comprometimento de professores e alunos.

Acompanhe:

revistapontocom – O senhor venceu o prêmio com o projeto de uma empresa fictícia de conteúdos educativos. Qual era a proposta?
Guilherme Hartung – Há certo tempo, trabalho com tecnologia e tento fazer projetos que envolvam o interesse do jovem.  Neste sentido, os jogos são atraentes. A maioria gosta de jogar, de se envolver com isso. Nosso projeto era criar e produzir simuladores de jogos educativos. Era um trabalho colaborativo, em equipe. Havia a parte gráfica, a sonora, a área de divulgação, de programação. Os alunos se revezavam pelas áreas. Criamos a empresa Fractal multimídia.

revistapontocom – O projeto foi implementado após o prêmio?
Guilherme Hartung – Desenvolvemos o projeto ainda em 2009. Em 2010, paramos. Mas recomeçamos esse ano de uma forma bem mais interativa e organizada, já que os estudantes receberam notebooks. Os aparelhos foram ganhos em outro concurso, promovido pela HP. Nosso primeiro jogo educativo já está em desenvolvimento. Trata-se de um jogo de caça ao erro com o tema Sustentabilidade. O professor Alexandre Becker, mestre em Meio Ambiente, é o nosso game designer. Em breve lançaremos a versão beta do jogo.

revistapontocom – Como o senhor conseguiu atrair a atenção dos alunos?
Guilherme Hartung – Faço uma palestra, mostro como funciona e convido. Eles aceitam. Mas aviso: tem que ter empenho, boas notas e frequência.  Eles vinham fora do horário escolar. Nem recebiam nota por isso, nada. Eram voluntários. Em 2009, tínhamos 20 alunos. Esse ano já são 30. Acho que eles se sentem atraídos por conta da atratividade dos próprios jogos.

revistapontocom – O que mudou na sua vida depois desse prêmio?
Guilherme Hartung – Trabalho com tecnologia desde 2005. Já ganhei outros prêmios antes. Sou técnico em informática e professor de matemática. Tento integrar todas essas funções. Mas claro que o prêmio influenciou muito. A partir dele, tive mais exposição na mídia, comecei a orientar professores e fazer palestras.

Acompanhe as últimas notícias da Fractal Multimídia

Leia também a entrevista com a professora Marise Brandão, outra ganhadora do prêmio Microsoft Educadores

Midiaeducação em debate

“Na sociedade da informação, a mídia-educação torna-se ou pode tornar-se educação e, nessa perspectiva, a mídia-educação não seria apenas um campo de estudo e intervenção, mas uma postura midia-educativa que seria patrimônio de cada professor e educador”, destaca Monica Fantin.

Por Marcus Tavares

O que é midiaeducação? Um conceito? Uma ideia? A sua grafia escrita junta ou separada traduz algum significado? Existiria outro termo que definiria melhor a interface entre a educação e a mídia? Trata-se de um novo campo de estudo? A revistapontocom dá prosseguimento à publicação da primeira parte do Dossiê midiaeducação, na qual publica entrevistas com professores, estudiosos e pesquisadores sobre o tema. A cada semana, uma nova entrevista. Um novo olhar. Uma nova perspectiva sobre a interface mídia e educação.

Para a OSCIP Planetapontocom, midiaeducação é um conceito que se traduz em um trabalho educativo sobre os meios, com os meios e através dos meios. Sobre os meios, refere-se ao estudo e análise dos conteúdos presentes nos diferentes meios e suas linguagens. Com os meios, trata-se  do uso dos meios e suas linguagens como ferramenta de apoio às atividades didáticas. E através dos meios, diz respeito a produção de conteúdos curriculares para e com os meios, em sala de aula e, também, a educação a distância ou virtual, quando o meio se transforma no ambiente em que os processos de ensino-aprendizagem ocorrem.

Nilda Alves, Rosália Duarte, Eduardo Monteiro, Afonso Albuquerque, Paulo Carrano, Ismar de Oliveira, Regina de Assis, Inês Vitorino, Gilka Girardello, Rita Ribes, Guaracira Gouvêia são alguns dos nossos convidados/entrevistados da série. Nesta semana, você confere a entrevista concedida pela professora Mônica Fantin, coordenadora do Grupo de Pesquisa Núcleo Infância, Comunicação e Arte da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Organizadora do livro Liga, roda, clica: estudos em mídia, cultura e infância (Papirus Editora), Monica entende que o papel da educação configura-se em um instrumento educativo que visa à construção de competências de professores a trabalhar pedagogicamente com as mídias, tecnologias e suas múltiplas linguagens em contextos formais e não formais.

Acompanhe a entrevista:

revistapontocom – Como podemos definir o conceito midiaeducação? 
Monica Fantin – A definição do conceito de mídia-educação vem se construindo ao longo dos anos como uma reflexão metodológica e epistemológica sobre a práxis de educar para, com e através das mídias. Assim, a mídia-educação pode ser entendida basicamente a partir de três dimensões: a) como um campo de conhecimento interdisciplinar na interseção das ciências da educação e comunicação, em construção; b) como disciplina curricular ou eixo transversal;  c) como prática social e cultural em diferentes contextos escolares e extra-escolares que signifiquem um trabalho de educação midiática. Ou seja, mídia-educação pode ser entendida como área de saber e de intervenção em diversos contextos: como práxis educativa com campo metodológico e de intervenção didática, e como instância de reflexão teórica sobre essa práxis. Considerando os desafios do fazer educativo hoje, para alguns estudiosos a mídia-educação pode ser entendida como a própria educação. Na sociedade da informação, a mídia-educação torna-se ou pode tornar-se educação e, nessa perspectiva, a mídia-educação não seria apenas um campo de estudo e intervenção, mas uma postura midia-educativa que seria patrimônio de cada professor e educador.

revistapontocom – De onde surgiu este conceito?
Monica Fantin – Considerando que todo conceito é por natureza múltipla, compreender o conceito é compreender suas articulações e seus movimentos. Assim, diversos países têm trabalhado pedagogicamente com as mídias antes de uma definição única e sistematizada a esse respeito. Tendo surgido como sensibilidade educativa no confronto com as mensagens das mídias (mas não ainda como movimento consciente), a mídia-educação, ou Media Education, nasce e se desenvolve paralelamente à indústria cultural, por volta dos anos 20.  Se nesse início o sentido predominante era o de educar para as mídias, aos poucos vai agregando o sentido de educar com e através das mídias articulando as perspectivas crítica, instrumental e expressivo-produtiva. Neste contexto, a primeira definição oficial do conceito de Media Education foi apresentada na França pelo Conselho Internacional de Cinema e Televisão  (CICT), órgão ligado a UNESCO, em junho de 1973, e referia-se ao estudo e aprendizagem dos modernos meios de comunicação como disciplina autônoma no âmbito da teoria e prática pedagógica, e reconhecia a escola como um lugar especifico da mídia-educação. Em 1979, esse mesmo conselho amplia o campo de intervenção das mídias como processos culturais e sociais, e consequentemente seu conceito, permitindo pensar na especificidade da mídia-educação como prática social e cultural, para além de uma disciplina curricular.

revistapontocom – Qual é o objetivo da midiaeducação?
Monica Fantin – Poderíamos falar em objetivos, no plural: formação de um sujeito crítico e criativo, um usuário ativo e responsável no uso das mídias, tecnologias; democratização de oportunidades educacionais no sentido de interpretação, acesso e produção de saberes na cultura digital; educação para a cidadania instrumental e de pertencimento cultural; e ampliação dos repertórios culturais e desenvolvimento da capacidade comunicativa e expressiva com o uso de múltiplas linguagens.

revistapontocom – Midiaeducação é a forma mais correta de nomear este conceito?
Monica Fantin – Pelo que mencionei acima, a construção de um conceito é algo em movimento e expressa os desafios de cada momento histórico. Hoje, por exemplo, o conceito de mídia-educação deve considerar a centralidade que as novas mídias e tecnologias ocupam na vida contemporânea bem como os novos desafios teórico-metodológicos que têm sido colocados à mídia-educação. Nesse sentido, há quem fale em New Media Education como um novo paradigma no sentido de responder aos desafios colocados a partir da centralidade das mídias, não como mais um aspecto da educação. Para alguns estudiosos a New Media Education necessitaria de uma “nova pedagogia” que poderia se expressar tanto na direção de uma redefinição ou “correção” conceitual da mídia-educação, quanto na mudança do paradigma no âmbito dos estudos da mídia e cultura. Aliado a essa possibilidade de redefinição conceitual podemos retomar a ideia da postura mídia-educativa, onde mídia-educação torna-se postura do professor e do educador (à medida que todos educadores enfrentam tais desafios) e a mídia-educação então, torna-se a própria educação. Nessa perspectiva, a mídia-educação também pode ser entendida como linguagem, ou melhor, como múltiplas linguagens ou multiliteracies. E isso diz respeito a uma concepção ecológica da mídia-educação, que seria o uso de todas as mídias: fotografia, rádio, cinema, televisão, internet, vídeo game, celular, redes sociais, na perspectiva da convergência digital sem esquecer a dimensão da corporeidade, do gesto, do olhar, e do movimento. A meu ver, parece ser uma concepção mais abrangente que inclusive pode envolver o sentido da New Media Education. Quanto à grafia, escrevo Mídia-Educação ou mídia-educação, com hífen, porque quando comecei a estudar a esse respeito era o termo consagrado pelo uso mais corrente da tradução de media education (em inglês), éducation aux médias (em francês), educación en los médios (em espanhol) ou ainda educação para os meios (em português de Portugal). Por ser um termo mais conciso, me parece que o hífen em mídia-educação expressa essa “palavra composta” que une os elementos dos dois campos mediante uma nova “composição” que vai criando neologismos e semânticas novas formadas ao sabor dos usos que fazemos. Afinal, como diz Wittgnestein em sua filosofia da linguagem, o significado das palavras reside no modo como são usadas.

revistapontocom – Qual é o papel da educação nesta relação?
Monica Fantin – Considerando que não existe educação sem comunicação, o papel da educação ou da mídia-educação seria tanto o de propiciar às crianças, aos jovens e aos professores o que se tem denominado alfabetização ou letramento midiático visando não apenas o domínio técnico e instrumental dos códigos dos meios, mas a formação de uma consciência da condição de “estar alfabetizado” nessas linguagens. Isso implica também a possibilidade de um pensamento crítico que permita aos sujeitos avaliar ética e esteticamente os conteúdos midiáticos de forma a construir um pensamento autônomo, mas também colaborativo, que, por sua vez, implica a capacidade de se expressar mídia-educativamente. O papel da educação configura-se como um instrumento educativo que visa à construção de competências de professores a trabalhar pedagogicamente com as mídias, tecnologias e suas múltiplas linguagens em contextos formais e não formais. Dessa forma, o papel da educação relaciona-se aos objetivos da mídia-educação mencionados acima e envolve tanto a presença da mídia-educação nas escolas e na formação inicial do professor como em outros âmbitos e contextos formativos.

revistapontocom – Qual é o papel da mídia nesta relação?
Monica Fantin – Considerando que a atuação dos profissionais da comunicação possui uma dimensão educativa, tendo-se consciência ou não, os comunicadores educam, “formam consciências” e constroem um capital simbólico do público. Dessa forma, a mídia-educação poderia atuar na perspectiva de instrumento cultural e educativo, tanto na formação prática-reflexiva dos profissionais da comunicação como na capacitação de educadores em geral (e professores em particular) oportunizando aos profissionais da mídia refletir sobre as atividades relacionadas a esse campo. Assim, jornalistas e publicitários, por exemplo, poderiam prestar mais atenção à dimensão educativa de seu trabalho quando produzem notícias e propagandas que desrespeitam o direito das crianças. Ou seja, poderiam prestar mais atenção no endereçamento de suas matérias e nos direitos de tal público em relação às mídias. Neste sentido, a formação em mídia-educação destes profissionais ou a presença de um mídia-educador nas empresas de comunicação ou agências de publicidade poderiam fazer a diferença. E essa ação colaborativa entre professores e profissionais da comunicação é uma possibilidade da mídia-educação.

Midiaeducação em debate

“Mídia é um conceito, educação é outro, ambos muito amplos e densos. Já midiaeducação é um conceito mais específico, relativamente novo no Brasil, e sobre o qual há várias definições circulando”, destaca Eduardo Monteiro.

Por Marcus Tavares

O que é midiaeducação? Um conceito? Uma ideia? A sua grafia escrita junta ou separada traduz algum significado? Existiria outro termo que definiria melhor a interface entre a educação e a mídia? Trata-se de um novo campo de estudo? A revistapontocom dá prosseguimento à publicação da primeira parte do Dossiê midiaeducação, na qual publica entrevistas com professores, estudiosos e pesquisadores sobre o tema. A cada semana, uma nova entrevista. Um novo olhar. Uma nova perspectiva sobre a interface mídia e educação.

Para a OSCIP Planetapontocom, midiaeducação é um conceito que se traduz em um trabalho educativo sobre os meios, com os meios e através dos meios. Sobre os meios, refere-se ao estudo e análise dos conteúdos presentes nos diferentes meios e suas linguagens. Com os meios, trata-se  do uso dos meios e suas linguagens como ferramenta de apoio às atividades didáticas. E através dos meios, diz respeito a produção de conteúdos curriculares para e com os meios, em sala de aula e, também, a educação a distância ou virtual, quando o meio se transforma no ambiente em que os processos de ensino-aprendizagem ocorrem.

Afonso Albuquerque, Paulo Carrano, Ismar de Oliveira, Regina de Assis, Inês Vitorino, Mônica Fantini, Gilka Girardello, Rita Ribes, Guaracira Gouvêia são alguns dos nossos convidados/entrevistados da série. Nesta semana, você confere a entrevista concedida pelo professor Eduardo Monteiro, doutorando em comunicação pela USP.

Leia também as opiniões de:
Nilda Alves, professora da Uerj
– Ana Helena, superintendente do Cenpec
Rosália Duarte, professora da PUC-Rio

Para Eduardo, cabe aos educadores, na relação midiaeducação, se engajar na construção de um futuro melhor para as pessoas e comunidades em que estão presentes. “Para isso, é preciso abdicar do poderzinho de dar aula, prova e nota e passar a pensar junto com os que estão na escola ou em outros espaços educativos sobre como seguir adiante como pessoas e sociedades viáveis neste planeta. Usar a criatividade e a comunicação para isso, para formar gente com ideias, autoestima, coragem e, sobretudo, com competência para saber o que fazer com isso”.

Acompanhe:

revistapontocom – Como podemos definir o conceito midiaeducação?
Eduardo Monteiro – Mídia é um conceito, educação é outro, ambos muito amplos e densos. Já midiaeducação é um conceito mais específico, relativamente novo no Brasil, e sobre o qual há várias definições circulando… Mas é um conceito mais específico porque identifica um tipo de abordagem que conecta comunicação e educação em uma direção mais bem definida. Como conceito novo, é dinâmico. E conforme o tempo passa, ele se torna mais definido e elaborado. Atualmente, prefiro entender midiaeducação como uma abordagem que condiciona o desenvolvimento da capacidade de participação das pessoas na sociedade com a apropriação expressiva e técnica dos diferentes meios e linguagens. Sobretudo os audiovisuais e, mais recentemente, os digitais. Mas o ponto forte é que as pessoas que se alinham nesta tendência apostam neste desenvolvimento pela via da ação educacional formal, especialmente na interface escolar. Como outras pessoas, gosto do resumo que define midiaeducação como educação para, pelos e com os meios. Isso sublinha um aspecto que é, talvez, o mais original desta abordagem e só pode surgir numa cultura em que os meios estão socialmente disseminados: o direito das pessoas a terem acesso aos diferentes meios de comunicação e a vinculação do exercício comunicativo às práticas pedagógicas. E é importante chamar a atenção para que a tecnologia é apenas parte disso; o que está em foco deve ser a comunicação humana. Eu considero este um caminho extremamente importante para que mais pessoas tenham condições de disputar em condições mais iguais o jogo social.

revistapontocom – De onde surgiu este conceito?
Eduardo Monteiro – Há diversas versões. Em 1993, eu fazia minha pesquisa de mestrado quando precisei nomear esse negócio que a gente faz. Então eu descobri uma revista inglesa chamada Media Education. Gostei porque, com esse pragmatismo deles para nomear as coisas, era um nome pregnante, fácil de falar e de entender. Eu trabalhava com crianças fazendo jornal, foto, vídeo, e midiaeducação era um nome que repercutia bem entre eles. E logo eles chamavam só de “mídia”, embora isso se embolasse com o conceito de mídia que, no Brasil, é todo complicado: designa desde um suporte físico para informação até a imprensa em geral, passando pelos setores que trabalham com anunciantes nas agências de publicidade… E eu acho que isso faz o termo ser etimologicamente muito difuso para se comportar bem como definição precisa de alguma coisa. Pessoalmente, além dessa minha pesquisa, não tive contato com nada no Brasil em que o termo tivesse sido empregado antes de 199,. Mas depois disso ele surgiu em vários outros lugares, utilizado por pessoas que certamente nunca leram minha pesquisa muito menos ouviram falar de mim… talvez por conta de projetos em cujo nome eu tive alguma influência, sei lá. Mas pode ter sido assim como o arco e flecha: uma coisa meio óbvia que gente em diferentes lugares acabou por inventar. Ou, mais provavelmente, pela mesma razão que eu tinha aportuguesado o termo. E isso para mim tem mais sentido já que o que nomeamos hoje por midiaeducação tem grande similaridade como a media education, originada nos países de língua inglesa nos anos 1970, a partir da preocupação com o conteúdo moral do que era veiculado pela mídia e sua influência sobre o público infanto-juvenil. Em língua espanhola virou educación para los médios, depois pedagogia de la communicación, diferindo em especificidades e ênfases. A partir dos anos 1980, agregou a perspectiva dos estudos sobre a recepção ativa e, finalmente, a partir dos anos 1990, evoluiu para esta visão que temos hoje. Ao longo deste tempo, com este e com outros nomes, a tendência que reunia pessoas em torno dessas preocupações, que faziam e estudava essas coisas, reuniu gente, publicou livros e promoveu eventos ao redor do mundo. E passou a contar com a importante adesão de profissionais da comunicação em diversas áreas, gente de maior poder de influência e preocupada com os padrões de consumo cultural e com a qualidade ética dos conteúdos presentes na mídia em geral e com sua adequação ao contexto cultural e etário das audiências, sobretudo infanto-juvenis. Então a própria mídia encampou o assunto, como tema e como comprometimento estratégico.

revistapontocom – Qual é o objetivo da midiaeducação?
Eduardo Monteiro – Acho que não se pode dizer que há um único objetivo em uma área tão eclética, tão nova e onde se confrontam tantos interesses e perspectivas. Há grandes redes de pessoas envolvidas com isso e eu acho o que existe são interesses em comum que fazem as pessoas e instituições convergirem… Como também existem outros que fazem elas divergirem. Veja: se trata de educação, que é um tema polêmico e, para alguns, questão de crença. E se trata de mídia, comunicação, discurso: coisas que estão sempre em função de intenções, mesmo das melhores do mundo. Mas, vamos lá: se é o caso de a gente identificar objetivos, eu vou ficar com aqueles que considero os mais relevantes e nobres, capazes de reunir pessoas diferentes em torno deles. E aí eu diria, um: disseminar um senso de responsabilidade ética e social sobre as práticas educativas, entendendo que elas são de natureza formativa e, portanto, têm enorme impacto sobre as escolhas e destinos das pessoas. Dois: mobilizar a sociedade no sentido de transformar em direito inalienável das pessoas acesso aos meios e à educação que prepare para um mundo de comunicação complexa e tensionada. E três: ocupar com diversidade de gente e de práticas um enorme latifúndio cercado e murado pela educação escolar, como a conhecemos ainda hoje, que excluiu a comunicação e o seu exercício criativo e formador dos compromissos para com o desenvolvimento das pessoas e, portanto, da sociedade.

revistapontcom – Midiaeducação é a forma mais correta de nomear este conceito? Haveria algum nome mais oportuno?
Eduardo Monteiro – Sinceramente, hoje eu acho que não. Já segurei outras bandeiras, mas agora estou mais confortável do ponto de vista intelectual e profissional adotando a visão de que o grande problema foi o tipo de educação que a sociedade escolheu fazer, voltada para a colonização dos espíritos das pessoas e, para isso, precisou extirpar seu lado expressivo, impor o silêncio de vozes e ideias dissonantes e privilegiar apenas um canal como canal legítimo da verdade, do conhecimento, da moral – o sistema professor-livro-aula. Claro, há muita gente que hoje não quer mais uma educação assim, que briga todo dia contra ela… mas ela está tão encrustada que não é um banho de tecnologia ou de novas experiências que vai fazer este limo largar. E é a sociedade que tem que mudar de rumo, não só alguns educadores. Então, do meu ponto de vista, creio que o melhor nome para o que fazemos é comunicação, só que agora mais genuína, resgatando o que é o seu modo mais complexo e mais singularmente humano: a comunicação como essência da aprendizagem e como atividade voltada desenvolvimento das poderosas capacidades humanas para terem ideias, compartilhá-las e solucionar problemas. Até porque o que não falta à sociedade são problemas.

revistapontocom – Qual é o papel da educação na relação midiaeducação?
Eduardo Monteiro – Se engajar na construção de um futuro melhor para as pessoas e comunidades em que estão presentes. Para isso, abdicar do poderzinho de dar aula, prova e nota e passar a pensar junto com os que estão na escola ou em outros espaços educativos sobre como seguir adiante como pessoas e sociedades viáveis neste planeta. Usar a criatividade e a comunicação para isso, para formar gente com ideias, autoestima, coragem e, sobretudo, com competência para saber o que fazer com isso.

revistapontocom – Qual é o papel da mídia na relação midiaeducação?
Eduardo Monteiro – Idem, só que abdicando do poderzinho de ser celebridade, dos créditos, de buscar freneticamente o paparico das pessoas, de usufruir do glamour da cobertura social em que se plantaram a serviço de seus donos. Abdicar de querer explicar às pessoas os fatos com legendas. Entender e assumir profundamente a responsabilidade que têm por manejar informação, por influir sobre as pessoas, suas ideias e vontades. Entender o alcance de suas pequenas decisões e que os lugares que ocupam não são seus, mas da sociedade. Plantar a árvore da liberdade debaixo de seus próprios pés, regá-la todos os dias, deixá-la crescer e tomar cuidado para não cair de seus galhos quando não der mais para subir de volta.

Midiaeducação em debate

“Os profissionais de educação têm a importante tarefa de atuar como mediadores na relação entre usuários e meios de comunicação, oferecendo oportunidades e instrumentos para que o conteúdo das mídias seja objeto de debates e reflexões”, destaca Rosália Duarte.

Por Marcus Tavares

O que é midiaeducação? Um conceito? Uma ideia? A sua grafia escrita junta ou separada traduz algum significado? Existiria outro termo que definiria melhor a interface entre a educação e a mídia? Trata-se de um novo campo de estudo? A revistapontocom dá prosseguimento à publicação da primeira parte do Dossiê midiaeducação, na qual publica entrevistas com professores, estudiosos e pesquisadores sobre o tema. A cada semana, uma nova entrevista. Um novo olhar. Uma nova perspectiva sobre a interface mídia e educação.

Para a OSCIP Planetapontocom, midiaeducação é um conceito que se traduz em um trabalho educativo sobre os meios, com os meios e através dos meios. Sobre os meios, refere-se ao estudo e análise dos conteúdos presentes nos diferentes meios e suas linguagens. Com os meios, trata-se  do uso dos meios e suas linguagens como ferramenta de apoio às atividades didáticas. E através dos meios, diz respeito a produção de conteúdos curriculares para e com os meios, em sala de aula e, também, a educação a distância ou virtual, quando o meio se transforma no ambiente em que os processos de ensino-aprendizagem ocorrem.

Afonso Albuquerque, Paulo Carrano, Ismar de Oliveira, Regina de Assis, Eduardo Monteiro, Inês Vitorino, Mônica Fantini, Gilka Girardello, Rita Ribes, Nilda Alves, Guaracira Gouvêia são alguns dos nossos convidados/entrevistados da série. Nesta semana, você confere a entrevista concedida pela professora Rosália Duarte, do Departamento de Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Coordenadora do Grupo de Pesquisa em Mídia e Educação (Grupem), Rosália resgata a assinatura da Declaração de Grunwald, de 1982, na Alemanha, como ponto de partida para a discussão sobre midiaeducação.

Acompanhe:

revistapontocom – Como podemos definir o conceito midiaeducação?
Rosália Duarte – A meu ver, temos aqui duas questões diferentes.  Do meu ponto de vista, o conceito é mídia-educação, com hífen. Expressa, principalmente, o estudo e o desenvolvimento de práticas educativas de formação para os meios, ou seja, o estudo e criação de estratégias político-pedagógicas destinadas a ensinar espectadores, ouvintes, usuários, navegadores etc. a lidar com os meios de comunicação de forma mais crítica, mais consciente e mais criativa.

revistapontocom – De onde surgiu este conceito?
Rosália Duarte – É difícil delimitar exatamente de onde, mas um dos marcos fundadores parece ter sido a Declaração de Grunwald, Alemanha, fruto de um encontro promovido pela Unesco, no qual foram discutidos o papel desempenhado pelos meios de comunicação na sociedade, sua influência, especialmente sobre crianças e jovens, o direito de expressão e formas de assegurá-lo. Partiu-se do princípio de que toda pessoa humana tem direito à liberdade de expressão e que a garantia desse direito implica liberdade de acesso à informação de todos os tipos, liberdade e condições de interferir e criticar o modo como a informação é veiculada e também de produzir informações. Nesse contexto, entendeu-se que a Media Education seria uma das formas de assegurar esse direito.

Leia aqui a declaração de Grunwald

revistapontocom – Qual é o objetivo da midiaeducação?
Rosália Duarte – Como disse anteriormente, o conceito é mídia-educação. Objetivos: basicamente, fornecer, aos usuários das diferentes mídias, instrumentos de natureza conceitual, operacional e cognitiva para lidar com o conteúdo das mesmas. Significa contribuir para o desenvolvimento de um olhar mais crítico e criativo frente aos dispositivos e linguagens midiáticas, incluindo aí a possibilidade de expressar pensamentos e ideias fazendo uso dessas linguagens.

revistapontocom – Midiaeducação seria a forma mais correta de nomear este conceito? Haveria algum nome mais oportuno?
Rosália Duarte – Mídia-educação expressa os estudos e práticas que descrevi acima. Pesquisadores da USP, entre os quais destaco Ismar Soares, preferem trabalhar com o conceito de Educomunicação, que tem semelhanças com o conceito de Mídia-educação, mas preserva especificidades teóricas, práticas e políticas daqueles que o formularam.

revistapontocom – Qual  é o papel da educação e de seus profissionais nesta relação?
Rosália Duarte – Os profissionais de educação têm a importante tarefa de atuar como mediadores na relação entre usuários e meios de comunicação, oferecendo oportunidades e instrumentos para que o conteúdo das mídias seja objeto de debates e reflexões nos ambientes educacionais. As instituições de ensino, a meu ver, precisam dispor de infra-estrutura física e tecnológica e estímulo à formação continuada de seus professores para que diferentes mídias estejam presentes no cotidiano escolar, como fonte de conhecimento, como objeto de estudo e, sobretudo, como forma de expressão.

Profissão Repórter

Por Emanuelle Najjar
Publicado pelo Observatório da  Imprensa

Contrariando todas as expectativas a respeito da relação atual entre os jovens e o jornalismo, parece que um programa está se tornando bem popular. O Profissão Repórter, que há pouco tempo voltou à programação em nova temporada, mostrou a que veio em reportagens que nada lembravam os velhos motes do jornalismo do horário nobre. Para quem estava acostumado ao velho ciclo vicioso estilo Globo
Repórter, deve ter sido uma grande surpresa ninguém ter mencionado a importância de se alimentar bem ou as constantes viagens com destino às matas virgens de sei-lá-onde. Cá pra nós, francamente, não sei mais de onde ainda conseguem arrumar mata virgem…

O programa comandado por Caco Barcellos já passou por uma ou outra reformulação em tons sutis. Antes, havia um tom mais professoral, em fazer não apenas o seu time de repórteres mas também os telespectadores entenderem o que era feito ali. Agora atende a algo sutil, talvez uma questão de atender público-alvo mais amplo, porém foram mudanças que vieram para o bem, tornando-os mais próximos à suas histórias, aperfeiçoando o que já parecia impecável.

Sempre gostei do programa. Volta e meia via uma movimentação com hashtags sobre os temas na minha timeline no Twitter, mas nunca foi adequado falar disso como um gosto popular, no amplo sentido da expressão. Um universo particular de gostos e interesses pode ser pequeno demais quando pensamos na amplitude de opiniões que nem sempre concordam com as nossas. Tomar o próprio universo como sendo familiar a todos é um grande risco, porém na última edição, ao falar sobre a relação dos jovens com o álcool, ele teve repercussão suficiente entre os usuários da rede a ponto de ser digno de nota e tal movimento até mesmo ser considerado uma tradição, como foi citado no site Comunique-se.

Esse foi um feito digno dos grandes, considerando que seu horário não seja nada confortável para uma audiência expressiva, como tantos gostam de cobrar, e também não fala de assuntos considerados banais, ou agradáveis. Um programa que se chegou até mesmo a cogitar em grandes portais que pudesse chegar ao fim. A verdade é que ainda há esperanças, seja para a mídia ou para sua audiência.
Apesar de ser uma bobagem querer exigir que a televisão somente eduque e seja exemplo de conduta moral de milhões de brasileiros, gosto de crer que os tais jovens não sejam tão alienados quanto parece conveniente pensar.

Se o Profissão Repórter foi capaz de tal façanha, de falar com esse público sobre temas tão sérios sem aparentar ter grandes pretensões, o que mais não poderia ser feito caso o exemplo fosse seguido? Ah, minha cara amiga televisão… Você ainda consegue me surpreender: para o mal e para o bem.

Lutas na tevê

“Compete aos professores ponderar sobre o mundo à sua volta e refletir sobre as reelaborações e interpretações que têm feito com seus alunos”, destaca Ana Paula Fonseca.

 

Por Marcus Tavares

Em março deste ano, a revista Exame publicou uma matéria informando que o número de assinantes pay-per-view das lutas do Ultimate Fighting Championship (UFC) dobrou no último ano, pulando da casa dos 50 para 100 mil assinantes. O assunto foi tema do programa Ver TV, produzido pela TV Câmara. Entre as entrevistadas estava a pedagoga Ana Paula Fonseca.

Professora da cidade de São Paulo, Ana Paula Fonseca está preocupada com a audiência infanto-juvenil, cada vez mais antenada às lutas. Lutas que “além da violência traz também o glamour, a projeção e a fama dos competidores. Um tipo de luta tratada como um esporte milionário e sem muitas regras”.

Na última semana, a revistapontocom conversou com a professora para aprofundar a temática. Para a professora, é preocupante a banalização da violência e da agressividade pelas vias midiáticas. Segundo ela, é justamente esse processo de naturalização e de internalização, de longa data, que leva as pessoas a considerarem “leves” programas como o UFC.

Acompanhe:

revistapontocom – A senhora participou recentemente do programa Ver TV, da TV Câmara, cujo assunto foi violência na tevê. Foi muito debatido a veiculação de lutas no horário noturno, em especial o Ultime Fighting Championship (UFC), transmitido aos sábados pela Rede TV. Essas lutas vêm, realmente, chamando a atenção de crianças e jovens?
Ana Paula Fonseca – Acredito que esse tipo de programa chame a atenção principalmente dos adultos. O interesse das crianças seria muito mais uma consequência por imitação. Dados publicados pela revista Exame de 16/03/2011, em uma matéria sobre o UFC, revelam que o número de assinantes pay-per-view dobrou no último ano, saltando de 50 para 100 mil assinantes, somente no Brasil. Acredita-se que as crianças aprendam muito mais por imitação. Assim se os adultos se interessam por determinado esporte ou determinada esfera do conhecimento, seja artístico ou científico, assim também a criança o fará. Cito o exemplo de meus alunos – faixa etária de 6 a 9 anos – que ficaram interessadíssimos na cidade de Brasília – sua localização, sua história e construção, suas particularidades, principais atividades etc – depois que compartilhei com eles a minha ida à cidade por ocasião da gravação do programa Ver TV. Assim sendo, consideramos que, se crianças e jovens estão interessadas pelo UFC, muito provavelmente é porque suas famílias também estão. Pode ser que, a posteriori, as crianças tomem gosto e a atividade se torne uma paixão, mas inicialmente, acreditamos que o comportamento se dê por imitação.

revistapontocom – Mas a senhora acredita que esses programas podem de fato influenciar as crianças e os jovens a se tornarem violentos?
Ana Paula Fonseca – A violência e a agressividade são elementos intrínsecos ao humano. Aliás, teriam sido elas as responsáveis pela sobrevivência e pelo desenvolvimento de nossa espécie. Porém, a falta de canalização e de domínio das paixões podem estar estreitamente ligados aos espetáculos de barbárie que assistimos hoje em dia (estejam ou não retratados na mídia). Entendemos que a violência humana é anterior a quaisquer meios de comunicação. Evidentemente, as mídias têm papel fundamental nesse processo ao naturalizar e internalizar toda violência presente no mundo da vida, quase que instantaneamente. O sensacionalismo, a falta de responsabilidade e ética entre produtores certamente potencializam esse circo dos horrores, porém consideramos que as mídias não devam ser consideradas as maiores vilãs. Vale lembrar que são um recorte da sociedade tal como está constituída, ainda que esse recorte não seja isento de intencionalidades múltiplas, permeados por ideologias, por vezes paradoxais.

revistapontocom – A violência em questão não estaria dentro de um contexto? Não se trata de esporte, assim como o judô, o karatê, o boxe?
Ana Paula Fonseca – Os esportes têm regras claras, definidas e respeitadas por seus praticantes. Os esportes, artes marciais ou não, trazem em seu cerne a disciplina e o respeito por si e pelo outro. Talvez a violência do UFC esteja contextualizada, sim, porém pergunto: “vale tudo” para se divertir? A violência diverte e entretém? O que estão buscando as pessoas que se divertem com a violência e a agressividade “sem limites”? Acredito que sejam questões para se debater à exaustão. Na minha opinião, não basta proibir ou limitar o horário (como quem varre a sujeira para debaixo do tapete), a violência está posta e retratada. Assim creio que não caiba, simplesmente, proibi-la ou limitá-la a determinado horário. Antes é premente o debate público aberto e franco em diversas esferas sociais, inclusive e, principalmente, na escola. Acreditamos que este debate deva contemplar os processos de produção, de escolha, de encadeamento dos temas, bem como seus possíveis efeitos e impactos sociais. A esse propósito, vale lembrar que a prefeitura de São Paulo desenvolve o projeto “educom – educação para comunicação”, que apesar das falhas, talvez seja aquele que mais se aproxima do necessário debate das mídias no ambiente escolar, através das próprias produções, os alunos podem refletir e entender produtos midiáticos a partir da óptica interna e não apenas de meros consumidores.

revistapontocom – No caso, o programa é exibido depois das 23:30, veiculando a uma classificação indicativa para maiores. Mesmo assim a audiência de menores é grande?
Ana Paula Fonseca – Temos diversas situações possíveis: crianças mais tuteladas, com regras e horários muito bem definidos, e outras menos tuteladas ou, até mesmo, abandonadas, estão livres para proceder às suas escolhas, nem sempre refletidas ou esclarecidas. Consideramos que exista muita confusão entre autonomia e abandono. E é nessa lacuna que a “babá eletrônica” está livre para agir, formar e deformar onde falta a família e, posteriormente, a escola.

revistapontocom – No mundo em que vivemos, tais programas não seriam vistos como ‘leves’ em relação aos dramas exibidos nos telejornais, a qualquer hora do dia?
Ana Paula Fonseca  – Como eu disse anteriormente, considero preocupante a banalização da violência e da agressividade pelas vias midiáticas. É justamente esse processo de naturalização e de internalização, de longa data, que leva as pessoas a considerarem “leves” programas como o “UFC sem limites”, que além da violência traz também o glamour, a projeção e a fama dos competidores; um tipo de luta tratada como um esporte milionário e sem muitas regras. Assim, tais programas podem parecer um eufemismo se comparados a outros tantos que retratam de forma sensacionalista nossas mazelas sociais.

revistapontococom – Que recomendações a senhora daria para pais e professores?
Ana Paula Fonseca – Sem dúvida, eu não recomendaria esconder ou deixar de lado as múltiplas esferas do mundo que está posto, mas, antes, considero fundamental a participação efetiva dos pais na vida dos filhos, muitos estão preocupadíssimos e até conseguem suprir toda assistência material em detrimento de uma participação efetiva na vida, na educação, na atenção dispensada ao que fazem, ao que jogam, ao que assistem, mas talvez não conversem, nem orientem sobre as veiculações midiáticas. Compete aos professores ponderar sobre o mundo a sua volta e refletir sobre as reelaborações e interpretações que têm feito com seus alunos. Entendemos que a rotina, por vezes, esmaga as práticas reflexivas do docente, mas é preciso que resistam a mais essa deformidade educacional e levem seus alunos a refletir de forma sistematizada sobre o mundo da vida, inclusive na esfera midiática, tão pouco abordada, tão pouco explorada, esquecendo-se que ela se constitui não apenas um rico material pedagógico, mas em uma das facetas da vida.

História da África

Em 1964, a Unesco dava início a uma tarefa sem precedentes: contar a história da África a partir da perspectiva dos próprios africanos. Mostrar ao mundo, por exemplo, que diversas técnicas e tecnologias hoje utilizadas são originárias do continente, bem como provar que a região era constituída por sociedades organizadas, e não por tribos, como se costuma pensar.

Quase 30 anos depois, 350 cientistas coordenados por um comitê formado por 39 especialistas, dois terços deles africanos, completaram o desafio de reconstruir a historiografia africana livre de estereótipos e do olhar estrangeiro. Estavam completas as quase dez mil páginas dos oito volumes da Coleção História Geral da África, editada em inglês, francês e árabe entres as décadas de 1980 e 1990. Além de apresentar uma visão de dentro do continente, a obra cumpria a função de mostrar à sociedade que a história africana não se resume ao tráfico de escravos e à pobreza.

Para socializar os conhecimentos, a Unesco no Brasil, a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (SECAD/MEC) e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) viabilizaram, em dezembro do ano passado, a edição completa em português.

O objetivo da iniciativa é  preencher uma lacuna na formação brasileira a respeito do legado do continente para a própria identidade nacional, bem como comemorar, em 2011, o Ano Internacional dos Afrodescendentes.

Faça aqui o download da coleção.

Filme luso-brasileiro ganha prêmio

Do Jornal da Unicamp

Antes mesmo de ter conquistado o prêmio Best International Format Awards na categoria de melhor formato multiplataforma, o filme luso-brasileiro O Castigo Final já havia sido escolhido como estudo de caso da dissertação de mestrado do pesquisador Edvaldo Acir. Ele analisou a eficácia comunicativa de conteúdos audiovisuais desenvolvidos para dispositivos móveis. O trabalho foi apresentado este ano no Instituto de Artes, da Unicamp.

A produção foi importante para compreender a questão da narrativa da complementaridade dos conteúdos para celular. Os resultados surpreenderam até mesmo Acir, ao mostrarem que um produto com tudo para ser consumido individualmente acabou estimulando o consumo audiovisual em grupo, por meio do compartilhamento em rede de conteúdo e pela interação com o espectador, que é convidado a participar de atividades como “ajude a salvar essas detentas” ou “descubra esse enigma”. “O produto tem um viés de socialização”, diz o pesquisador.

Captar, produzir, contemplar e transmitir imagens. A mudança de comportamento causada pela linguagem audiovisual transmidiática (que reúne várias plataformas) também já é notável. Ao procurar um novo celular, o consumidor não prima somente pela qualidade na microfonia ou cobertura da rede, mas por um conjunto de recursos multimídia que permita navegar, fotografar e compartilhar. A procura por vídeos curtos é trocada pelo prazer em assistir desde programas de TV a filmes pela web. O prêmio conquistado por O
Castigo Final ratifica essa afirmativa. “Os usuários que assistem a vídeos na internet passaram do estágio em que assistiam apenas a vídeos curtos para assistir a programas de televisão ou filmes pela web”, enfatiza.

Clique aqui e leia mais sobre narrativa transmidiática

Na opinião de Acir, cada vez mais os consumidores de produtos audiovisuais se relacionarão com programas, conteúdos e shows individuais do que com os canais ou agregadores que os transmitem. “Os usuários vão descobrir o conteúdo de forma proativa, vão recomendá-lo e assisti-lo em seu próprio tempo e no dispositivo de sua preferência, e não por meio de uma programação predeterminada”, diz Acir. Tal mudança de comportamento levou empresas da área a desenvolver aplicativos que permitam exibir o conteúdo em vídeo na TV ou em dispositivos portáteis.

O sucesso das produções, na opinião de Acir, depende da eficácia comunicativa de conteúdos audiovisuais, desenvolvidos segundo um modelo de produção dirigido aos dispositivos móveis e que atuam conforme uma lógica de complementaridade em face de uma publicação na TV e na web. A aceitação do filme O Castigo Final mostra que a linguagem audiovisual está no caminho certo e, na opinião de Acir, em pleno processo de metamorfose e adaptação diante dos novos meios que possibilitam a reprodução de conteúdo audiovisual.

Diante disso, o estudo teve como principal objetivo repensar as formas e as técnicas com as quais o conteúdo é reproduzido. Para se adequar à nova “oferta” é preciso vencer certos desafios, como a falta de conhecimento do meio e do usuário que a produção atingirá. “Para superar essas barreiras deve se investir em conhecimento tecnológico para a pesquisa de novos formatos comunicacionais no celular, como mídia pessoal e móvel”, ressalta Acir. Quando o aparelho de visualização tem a dimensão reduzida como a do celular, as adaptações se fazem necessárias, acrescenta.

Convergência

Capacidade de convergência midiática e portabilidade estão entre os atrativos dos novos celulares. Por meio desses aparelhos, produtos culturais se transformam em vetores de contato, de testemunho jornalístico e políticos sobre diversas situações cotidianas, de acordo com o autor. O próprio roteiro de O Castigo Final exige a utilização de várias mídias, permitindo ao espectador incidir na evolução do enredo. Os episódios exibidos na televisão apresentavam um documentário editado por uma jornalista, que teve acesso a imagens capturadas por câmeras de segurança com as quais ela montou o documentário como se fosse para contar aquela história. Na narrativa do seriado, a jornalista fazia parte de um grupo de pessoas poderosas que conseguem manipular o sistema judiciário e penal, para reunir as oito mulheres no presídio. A jornalista pegou parte desses vídeos, editou alguns trechos e espalhou na internet. Segundo Acir, é possível o público encontrar as cenas no YouTube, na internet e no celular.

O celular entra como recurso audiovisual no momento em que as mulheres entram no presídio. Cada uma relata seu crime a um psiquiatra e, depois de filmadas, o material é editado com outras imagens do seriado. O objetivo era permitir ao usuário conhecer um pouco mais de cada uma das personagens. No final de cada vídeo, havia um endereço eletrônico para que o usuário pudesse efetivamente saber para onde ir a partir dali. Além disso, o usuário podia baixar ou assistir aos episódios para celular no portal WAP do seriado. Os conteúdos audiovisuais apresentados no celular eram vídeos de 38 segundos, tempo estabelecido pela operadora OI para ter uma maior cobertura de aparelhos.

Os hackers também foram convidados para a produção. O grupo chamado Black Lords, que na verdade era formado por personagens do seriado, uma entidade controlada pela produção denominada puppet master, conduziu boa parte da história. São eles que conseguem hackear a vigilância do presídio e descobrir que morre uma das oito presidiárias por dia. A produtora também fez acordos com blogueiros para divulgar a história. A organização do projeto foi soltando as informações por fases, isso tudo com cronograma criado por antecipação avisando que determinada notícia ia ser publicada.

Segundo Acir, havia também uma escala de envios de SMS com determinadas pistas. “Tudo era estruturado com bastante antecedência para ser enviado para as pessoas ou solto na internet e no celular em um determinado tempo do cronograma. A última notícia falava que o presídio tinha perdido o contato com o mundo exterior”, explica o pesquisador. Havia uma premiação para os usuários que descobrissem, durante o terceiro episódio, a senha que abre a ala onde as presidiárias estão reclusas. Para avançar, os jogadores tinham que resolver enigmas e procurar pistas nas mais diversas mídias, jornal impresso, televisão, rede e ruas.

De acordo com Acir, a dinâmica proposta se baseia em um conceito chamado ARG (Alternate Reality Game), um tipo de jogo eletrônico que combina as situações de jogo com a realidade, recorrendo às mídias do mundo real, de modo a fornecer aos jogadores uma experiência interativa. Neste ARG, o ponto de partida é uma história de mistério, com vários personagens, originada na internet, acrescenta o pesquisador.

De acordo com a dissertação, a primeira experiência do tipo foi realizada em 2001, nos EUA, em um trailer veiculado na internet do filme Inteligência Artificial, de Steven Spielberg. “Um nome que aparecia nos créditos causou estranhamento: Jeanine Salla, terapeuta de máquinas sensitivas”, ressalta.

Em um Alternate Reality Game, a história só pode avançar de acordo com a participação dos jogadores. E foi possível, segundo ele, ver o interesse do público. Ele acrescenta que já existe no Brasil um grupo de jogadores que cria comunidades no Orkut para cuidar de cada ARG que é lançado no mercado brasileiro. Uma das primeiras experiências comerciais realizadas no país foi o jogo “Vivo em Ação”, promovido pela operadora de celular Vivo, que teve uma edição em 2004 e outra em 2005 e, segundo os organizadores, conquistou um público de mais de 1 milhão de pessoas em cada, a maioria dos jogadores entre 15 e 25 anos.

No seriado O Castigo Final, os usuários precisaram procurar por pistas espalhadas em dezenas de sites, perfis em redes sociais como orkut, facebook, blogs, flickr e twitter, além de matérias em sites de notícias, a fim de descobrir a senha necessária para salvar as detentas. O Black Lordes tinha as informações certas para soltar nos momentos certos e ir semeando e respondendo as interações que ocorriam com o público.

Como parte final deste Alternate Reality Game, a OI TV transmitiu em 24 de novembro de 2009, um documentário criado com imagens a partir das câmeras de vigilância do presídio. Neste documentário, o público descobriu o que realmente aconteceu dentro da cadeia.