Tecnologia e educação

Entre o simples e o complexo: tecnologia e educação no ensino básico

Por Tel Amiel

Doutor em tecnologia educacional pela University of Georgia (EUA), pesquisador do Núcleo de Informática Aplicada à Educação (Nied) da Unicamp, co-coordenador de projetos de intercâmbio bi-nacionais focados em tecnologia, educação e cultura com enfoque no ensino básico (Capes) e coordenador do grupo de trabalho sobre Recursos Educacionais Abertos, da comunidade Educação Aberta.

A relação entre tecnologia e educação básica é permeada de grandes projetos e grandes decepções. Em nenhuma outra área da educação, passamos da euforia ao desapontamento em tão pouco tempo. Basta que uma reportagem ou programa de governo aponte os potenciais transformadores de um novo dispositivo, para que em alguns poucos anos, novas investigações solicitem prudência e cautela. É um ciclo que se repete há décadas. Desde a década de 1990, acompanhamos a promoção da criação de laboratórios de computadores em escolas públicas. Desde então, colecionamos histórias que relatam que os equipamentos chegam ao seu destino, mas ficam meses em suas caixas, por falta de infraestrutura, falta de apoio técnico, entraves políticos, entre outros fatores. A pergunta que fica, então, é: por que investimos tantos recursos orçamentários em grandes projetos de integração de tecnologia na educação básica se temos alcançado tão poucos resultados sistemáticos? As razões são várias 1, mas ressalto aqui três elementos, a partir da experiência brasileira. Antes, porém, algumas considerações.

Tomando como ponto de partida o tema desta edição da ComCiência e para efeito de argumentação, vou dividir a tecnologia educacional em tecnologia simples e complexa. Denomino de tecnologia simples a tecnologia como dispositivo: são os computadores, celulares, calculadoras e outros equipamentos utilizados por muitas pessoas no cotidiano. A tecnologia complexa, por sua vez, compreende todo o sistema de pessoas e recursos que se reúnem ao longo do tempo para que os dispositivos cheguem às mãos dos usuários, aliados às relações e condições que os sustentam.

Seguindo uma tendência mundial, o governo brasileiro investe crescentemente na integração de tecnologias em escolas públicas. Programas como Proinfo e TV Escola contemplam não somente infraestrutura e equipamentos, mas também formação de professores, gestores e produção de recursos didáticos. Felizmente, não há mais a noção pueril de que a simples entrega de computadores à escola vai transformar a prática escolar. Os investimentos de grande porte na educação básica são feitos na perspectiva de uma tecnologia complexa. Um exemplo mais recente é o programa UCA – Um Computador por Aluno –, que contemplou a compra de seiscentos mil laptops para uso em escolas públicas (Pregão 57/2010). Já temos na linha do horizonte o programa UTA – Um Tablet por Aluno –, pegando carona nos incentivos fiscais a empresas produtoras de tablets no Brasil. Outros projetos de grande porte acontecem por iniciativa de governos estaduais e municipais.

Raramente um projeto de grande escala é promovido com base em iniciativas anteriores bem sucedidas. Na maioria das vezes, a integração de tecnologias na educação é feita somente com base em seu “potencial” educativo e nas análises de impacto de curto prazo que, em geral, focam na relação entre o dispositivo e melhorias escolares ou aprendizado dos alunos. Como exemplo, projetos que fazem uso de laptops na educação tendem a ressaltar o crescente interesse dos alunos pela escola. Como consequência da introdução de laptops na sala de aula, alunos faltam menos e participam mais nas aulas. Essa relação simples e direta entre dispositivo e melhorias educacionais proporciona um elemento confortável para quem analisa, porém os resultados são de pouca utilidade prática. O interesse do aluno, quase sempre, é pelo dispositivo ao qual ele não tem acesso em casa. Mas se não for sustentado por práticas educacionais coerentes, o interesse é efêmero e pouco se relacionará aos objetivos educacionais propostos. Em educação, só existe tecnologia complexa. É aquela que não passa a esmo de entraves que historicamente rondam a relação entre mercado, políticas públicas, políticas educacionais e inovação tecnológica. Ignorar esses fatores é promover uma implementação roleta-russa. Não é surpreendente, portanto, que os problemas enfrentados pelos projetos de larga escala no ensino básico público se repitam: falta envolvimento dos atores escolares no planejamento e execução, existe pouco entendimento da real situação da rede escolar, a implementação raramente segue conforme planejado, e o uso efetivo no espaço educativo raramente segue o cenário imaginado por quem planejou o projeto. Como resultado, observamos um conjunto de problemas históricos recorrentes que testemunhamos nos projetos de grande escala no Brasil (Cysneiros, 2001; Sorj e Lissovsky, 2011).

Em outras palavras, pouco sabemos sobre a relação entre tecnologia e educação, porque apesar de entendermos que os projetos de larga escala se dão no âmbito da tecnologia complexa, sistematicamente promovemos e investigamos a tecnologia simples. Se os professores já sabem disso na prática, a filosofia já nos alertou há muito tempo que a essência da tecnologia não pode ser investigada partindo da tecnologia em si (Heidegger). Ocorre, então, um desalinho entre as nossas expectativas e o que a tecnologia pode proporcionar em seu enlace com a educação. Vamos, então, a três elementos que, julgo, contribuem para esse problema.

Primeiro, a integração de tecnologias na educação está emaranhada em um discurso que destaca o papel da educação como motor do desenvolvimento econômico. Apesar dos méritos inerentes à oferta de uma educação de qualidade para todos, não se pode ignorar que o desenvolvimento econômico depende de uma série de outros fatores (Cuban, 2004). A consequência de um discurso focado na escola é que esta adquire cada vez mais responsabilidades que vão muito além do que sua estrutura e equipe podem fazer com eficácia e coesão. O ciclo é pernicioso. A escola recebe recursos atrelados a demandas crescentes e quando, em curto espaço de tempo, não corresponde às novas expectativas, é considerada falha e faltante. Isolar a educação como um fator preponderante para melhoria econômica é ignorar as múltiplas barreiras à ascensão social, as incongruências da meritocracia que supervaloriza diplomas e credenciais, além da crescente competitividade na sociedade (Husen, 1986). Não surpreende, portanto, que pais cada vez mais busquem cursos de informática para seus filhos desde o ensino infantil, com vistas a um diferencial para o futuro mercado de trabalho. Essas incongruências nascem quando relacionamos o desenvolvimento econômico à educação, sem nos perguntarmos qual educação e qual desenvolvimento queremos. É nesse vácuo que se inserem os projetos de tecnologias educacionais que prometem preparar os alunos para o mercado de trabalho e promovem a ascensão social através de competências instrumentais com a tecnologia.

Segundo, é importante lembrar que a perspectiva de transformação da educação por meio da tecnologia acompanha o nascimento da escola pública (Cuban, 1986). Caminha junto com a ideia de que a escola precisa espelhar a sociedade e a “realidade dos alunos” que, em geral, é pouco compreendida por quem faz as políticas e promove (ou desenvolve) os dispositivos. Tecnologias sempre trouxeram a promessa de inovações educacionais; porém, organizações complexas, como escolas, tendem a incorporá-las de maneira a não modificar substancialmente seu modo de trabalho (Papert, 1997). Quando chegam às escolas, os recursos tecnológicos tendem a ser absorvidos e utilizados de maneira complementar ou suplementar às práticas já existentes. A reflexão de um educador nos anos 1950 já apresenta esse dilema:

“Projetores, televisores, fonógrafos e gravadores estão encontrando seu espaço em escolas e colégios americanos. Recursos audiovisuais podem suplementar ou suplantar palestras, demonstrações, e livros didáticos. Ao fazê-lo, eles podem servir para uma função exercida pelo professor: eles apresentam material ao aluno, e quando obtêm sucesso, o fazem com tanta clareza e de maneira tão interessante que os alunos aprendem. Há uma outra função para a qual eles contribuem pouco ou nada. Isso pode ser melhor evidenciado na troca que acontece entre professores e alunos em pequenos grupos ou tutoria. Muito dessa troca já foi sacrificada na educação americana para que se possa ensinar grupos numerosos de alunos. Há grande perigo de que essa troca seja completamente obscurecida se a prática de usar equipamento feito simplesmente para apresentar material se difundir. O aluno se torna cada vez mais um passivo receptor de instrução”, diz Skinner (1958, p. 969).

As transformações didáticas e melhorias de aprendizado que esperamos em sala de aula são dependentes das reformas que acontecem não só dentro da sala de aula, mas também das práticas regionais e nacionais. O sucesso da implementação de um laboratório de computadores em uma escola é tanto consequência das atitudes de um professor quanto da gestão que organiza o seu uso, e da política de Estado que determina seu financiamento e sustentabilidade. Ignorar esses fatores ou tomá-los como unidades isoladas e esperar resultados sofisticados nas práticas educacionais no prazo de alguns poucos anos é, no mínimo, ingênuo.

Terceiro, há um discurso que promove a necessidade de incluir sempre “novas” tecnologias na educação, partindo da perspectiva da exclusão social, digital, ou tecnológica. Prover acesso à internet atingiu o discurso da universalidade, levando em conta a importância da participação ativa do cidadão através dos canais digitais. É importante, no entanto, desvincular o acesso à internet como ferramenta de inclusão social ao seu necessário papel no processo de ensino e aprendizagem. No passado, tomando o caso dos Estados Unidos, discussões sobre equidade de acesso foram feitas para promover o acesso às calculadoras e à televisão a cabo nas escolas – grandes promessas para melhoria de aprendizado que trouxeram poucos resultados (Light, 2001). A tendência é que a escola esteja sempre em defasagem com relação às tecnologias disponíveis para uso pessoal, e isso não é necessariamente ruim (Amiel, 2006). O debate sobre a inclusão digital por meio da escola ainda preza a equidade de acesso e não a qualidade das atividades. É talvez por causa dessa assimetria entre os objetivos de prover acesso às novas tecnologias em detrimento da qualidade da experiência que não temos o mesmo afinco em promover o cinema 2 na educação e pouco se divulga sobre o seu impacto no aprendizado, apesar de seu enorme potencial educativo.

A inclusão de novas tecnologias na educação continua a seguir a máxima – já desgastada – da tecnologia instrumental que aqui categorizei como simples. É uma preocupação com o instrumento em detrimento do processo e dos fins a serem atingidos. Raramente vemos propostas de projetos que não explicitem claramente o dispositivo a ser utilizado, mesmo que, em princípio, uma gama de dispositivos possa ser utilizada para atingir um mesmo objetivo educacional. Para quem não sabe o que quer, qualquer dispositivo é viável. E para quem tudo quer, não há dispositivo que resolva. A exclusão digital não acontece por limitações de habilidades instrumentais que dependem de um só dispositivo. Aprender a usar o celular pode ser útil, mas é somente um objetivo inicial para quem está envolvido na educação. A tecnologia educacional deve ter como foco o desenvolvimento de uma fluência com o sistema tecnológico em si. Isso significa fazer uso e apreciar o desenvolvimento da digitalização, mídias, conectividade, entre outros temas, com clareza de propósitos e implicações. Ou seja, lucidez sobre toda a complexidade do sistema que o dispositivo carrega e acarreta. É certo que a tecnologia educacional não depende de um dispositivo específico para atingir os seus objetivos.

Não se pode negar que casos de sucesso existem. São vários os professores e escolas que fazem uso produtivo e criativo de tecnologias educacionais no âmbito de um projeto educativo condizente. Talvez os caminhos entre nossas expectativas e o que efetivamente acontece através do desenvolvimento tecnológico nunca se encontrem (Rescher, 1980). Mas podemos fazer com que essas linhas se aproximem, diminuindo nossas expectativas e reconhecendo que, seguindo a lógica dos projetos de larga escala já implementados no Brasil, devemos suspeitar de qualquer promessa de transformação de sistemas educacionais através da implementação de novas tecnologias.

Publicado originalmente no site ComCiência
http://www.comciencia.br/comciencia/

Internet ou escola?

Por Izabela Vasconcelos
Do site Comunique-se

A internet pode ser um importante aliado no crescimento da qualidade de vida, até mais do que a escolaridade, acredita o diretor do Data Popular, Renato Meirelles. O executivo, do instituto de pesquisa especializado nas classes C, D e E, adiantou que no próximo ano irá divulgar os resultados detalhados de uma pesquisa sobre o assunto.

“Vão querer me bater, mas nós chegamos a essa conclusão com uma pesquisa que vamos divulgar no inicio de 2012. Mostra que pessoas que usam a internet conseguem ter acesso a mais conteúdos e oportunidades de crescimento, também amplia o repertório e o networking”, disse o executivo ao participar do Media On, evento realizado nesta quarta-feira (23) em São Paulo.

Meirelles explicou que pessoas com o mesmo nível de escolaridade têm renda superior caso possuam acesso à internet. Além disso, o especialista apresentou dados que mostram que a classe C domina a navegação online no País, representado 56% dos internautas.

Classe C não altera conteúdo

Apesar do grande crescimento da classe C, o conteúdo dos portais de notícias continua basicamente o mesmo. Para atender esse público, o UOL mantém o BOL, mas, da mesma forma, a classe média se mostra interessada pelo conteúdo do primeiro, avalia o diretor de contéudo do UOL, Rodrigo Flores.

“A lista de conteúdos mais acessados no UOL continua a mesma. O UOL não produz conteúdo específico para a classe C. Não segmentamos por classe, mas por potencial de interesse. No caso do BOL, é o mesmo conteúdo do UOL, mas com outra edição, voltada para o entretenimento e jornalismo de serviço”, declarou Flores.

Público é sedento por informação

O diretor-executivo do Brasil e vice-presidente da Com Score para America Latina, Alex Banks, também apontou a importância das notícias para os brasileiros no ambiente digital. De acordo com ele, o Brasil é o segundo país que mais acessa jornais na internet, perdendo apenas para os Estados Unidos.

Cinema e educação

Atenção escolas públicas do Estado do Rio de Janeiro que oferecem Ensino Fundamental: estão abertas até o dia 9 de dezembro as inscrições para o edital da UFRJ que vai selecionar quatro entidades para promover, em seu espaço, o projeto Escolas de Cinema, voltado para os alunos do Ensino Fundamental.  As escolas escolhidas receberão capacitação em Cinema e Educação, doação de DVDs e cessão de equipamentos para produção e exibição audiovisual enquanto o projeto permanecer em atividades.

O edital traz todas as informações e o passo a passo para as escolas participarem da seleção.

Acesse aqui o edital.

Professor e ensino em reality show?

Quadro do Fantástico acompanha o cotidiano de 4 professores.
Assista os vídeos abaixo e comente.

 

Há duas semanas o programa Fantástico, da TV Globo, iniciou uma série de reportagem chamada Conselho de Classe, que tem o objetivo de mostrar a realidade de quatro professores da Escola Municipal República do Peru, da Prefeitura do Rio de Janeiro. Já foram exibidos dois episódios: um de apresentação e o outro, neste último domingo, que mostrou também o dia a dia dos professores dentro e fora da sala de aula.

A revistapontocom leu os comentários que foram postados pelos internautas na página oficial do Fantástico sobre o segundo episódio. Muitos congratulam o programa. Vão além: parabenizam a categoria dos professores pela paciência, dedicação e trabalho. Outros chamam a atenção para a posição meio que vexatória em que os professores foram colocados, para a super exposição dos alunos e para a edição realizada pela produção do programa, que torna o cotidiano escolar numa narrativa de entretenimento.

Leitores da revistapontocom nos enviaram e-mails pedindo que divulgássemos tanto o programa quanto as análises dos internautas. Alguns questionam o porquê da série ser exibida no final do ano, época em que estão previstas as matrículas dos alunos, período em que pais e mães avaliam e revaliam a qualidade do ensino. Outros perguntam se escolas tradicionais da rede privada deixariam que seus alunos e professores fossem expostos de tal maneira.

A revistapontocom entrou em contato com a secretária municipal de Educação do Rio, Claudia Costin,  para obter a avaliação da Secretaria sobre o quadro do programa. Mas até a publicação desta matéria, não obteve nenhum retorno.

Fica aberta à discussão. Participe e comente.

 

Suplemento jovem sai de cena

Depois de 20 anos, Folhateen sai de circulação
Folha de S. Paulo não dá explicações aos leitores


Por Marcus Tavares

No último domingo, a ombudsman da Folha de S. Paulo, a jornalista Suzana Singer, trouxe a notícia: “aos 20 anos, mal saído da adolescência, morreu o suplemento Folhateen. Seu falecimento será anunciado amanhã, numa edição derradeira, que remeterá os leitores para uma página semanal no [caderno] Ilustrada”.

Sim, na segunda-feira, dia 21, lá estava encartada, como anunciado, a última edição, mas sem nenhuma justificativa, informação ou satisfação para os leitores, que há 20 anos liam o suplemento. Exceto um texto de despedida do colunista Jairo Bouer que por, 18 anos, escreveu semanalmente sobre sexo e saúde. Coluna lida e relida por jovens – e tenho certeza por muitos adultos – que, por meio dela, tiravam suas incontáveis dúvidas sobre sexo.

A única menção publicada pelo jornal foi uma matéria, no primeiro caderno, em que a empresa anuncia as reformulações, já antecipadas pela ombudsman, mas repito sem nenhuma justificativa. O texto só informa que o Folhateen, um caderno semanal de cerca de 8 a 10 páginas, vira a partir da próxima semana uma página semanal no caderno Ilustrada, uma espécie de caderno de cultura do impresso.

Em sua coluna de domingo, a ombudsman do jornal diz que a causa mortis, realmente, não foi nem para ela divulgada: “A Secretaria de Redação diz apenas que cadernos jornalísticos têm vida útil”. No texto, Suzana Singer afirma que o fim do caderno sinaliza que a Folha de S. Paulo não acredita mais na fórmula de suplemento para atrair jovens ao meio jornal.

Diz Suzana em sua coluna: “O perfil do leitor deste ano mostrou que apenas 11% dos nossos leitores têm até 22 anos  – no ano 2000, eram 20%. O principal meio dos jovens das classes A, B e C deixou de ser a TV aberta (35%), ultrapassada pela internet (39%), segundo a pesquisa Hábitos da Mídia, feita pelo Datafolha. O impresso aparece em 6%. (….) O perfil do leitor nos mostrou que os interesses do jovem estão mudando”.

As considerações da ombudsman não estão, teoricamente, erradas, mas não justificam. Se fossem colocadas ao pé da letra por que o jornal não liquidou também o Folhinha, suplemento infantil, que circula e continuará circulando aos sábados? Mais do que os jovens, o perfil das crianças das classes A, B e C também mudaram e nem por isso deixaram de ser privadas do caderno. Aliás, o perfil de todos os leitores de jornal mudou. Se esta fosse a questão, a Folha de S. Paulo poderia adotar a mesma medida, tomada é claro por outros motivos, do Jornal do Brasil, do Rio. Hoje, totalmente digital, sem versão impressa.

Acho que a questão que se coloca é outra: é o lugar que crianças e jovens ocupam na hierarquia dos projetos de comunicação e a questão econômica, do lucro, da rentabilidade. É fato: os suplementos infanto-juvenis não rendem, muitas vezes, economicamente. Mas geram, pérolas, leitores, o que é cada vez mais raro. São empresas capitalistas, sim. Não vejo nenhum problema nisso. Mas onde fica a responsabilidade social do jornalismo?

O que surpreende é que jornais em todo mundo vêm buscando alternativas para atrair cada vez mais os leitores jovens. Inclusive este é um dos temas, anualmente, tratado no congresso mundial de jornais, do qual participam os principais jornais brasileiros, inclusive a Folha de S. Paulo.

Evidentemente há outros porquês que infelizmente não saberemos. A empresa poderia ser, pelo menos, mais transparente. Nem nós nem os quatro únicos leitores que enviaram cartas para a redação do jornal, durante esta semana, e tiveram a “voz” publicada. Que outros leitores se juntem a este pequeno, mas justo e consequente, coro.  ´

Mais um detalhe, nem menos importante. Nesta reformulação, a Folha de S. Paulo também liquidou a página semanal Saber, que há dois anos trazia boas reportagens sobre educação. Era outro grande diferencial. Segundo o jornal, o tema fará parte do caderno Cotidiano. Ou seja: disputará com matérias do dia a dia. Já sabemos, a educação estará em pauta, mas quando houver uma boa manchete na visão da grande imprensa, uma greve dos professores, a indisciplina dos alunos, ou os desvios e os cortes de verba do setor. Lamentável, pois o trabalho, tanto da Folhateen quanto do Saber, produzido por jornalistas conceituados, fica no passado.


Veja as cartas publicadas pelos leitores:

– O Folhateen vai acabar e a página da educação, Saber, também? Lamento muito. Parece que a Folha ignora a figura do leitor, embora diga que não. Será que o acompanhamento do jornal, feito ao longo dos anos pela criança e pelo jovem perdeu, perdeu a importância? Tomara que futuramente o jornal ofereça textos ao jovem e não deixe que as análises sobre educação sejam feitas pelos mesmos colunistas.
Doralice Araújo – Curitiba

– Parece que a Folha está desistindo, já há alguns meses, de seus suplementos semanais, o que me preocupa muito, pois a qualidade do jornal pode ser afetada. Nos últimos meses, alguns suplementos reduziram paulatinamente o número de páginas. Afirmar que o fim do Folhateen ocorre porque os jovens não leem jornal impresso me parece uma atitude escapista. Menos cadernos semanais permitem economia ao jornal, pois significam corte de pessoal e de gasto com papel, mas gostaria que o jornal, por mais que isso possa doer, fosse mais transparente e realista com seu público.
Marcelo Avelar de Mello – Belo Horizonte

– Foi com muita tristeza e indignação que soube, ao ler a Folha, que a página semanal Saber deixará de existir. Apesar de
não ter nenhuma ligação com a área de educação, confesso que aguardava ansiosamente as segundas-feiras para fazer a leitura da página. Num país como o nosso, em que a educação chega a ser deplorável, é imprescindível que uma página semanal em um jornal  de peso como a Folha possa existir para alargar e iluminar os nossos horizontes na área de educação.
Jailse de Alvarenga Andrade – São Paulo

– Durante o tempo em que Jairo Bouer colaborou com o Folhateen, seus artigos foram de enorme ajuda no centro de planejamento familiar que trabalho desde 1985. Eles falavam a linguagem do jovem e tratavam de assuntos interessantes, o que nos dava a chance de boas conversas. Parece-me um absurdo que a Folha interrompa o seu trabalho.
Beatriz C. Vocurca e Teixeira – Belo Horizonte

Ley de Medios

 

Por Marcus Tavares

Há exatos dois anos, a Argentina aprovou a Ley de Medios que tem o objetivo de investir contra a concentração dos meios de comunicação. O documento trouxe mudanças no dia a dia da sociedade, bem pelo menos oficializadas e defendidas no papel, o que para muitos especialistas já é um grande avanço. A lei dividiu de forma tripartite as faixas de freqüência destinadas à radiodifusão entre veículos estatais, comunitários e privados e criou órgãos de fiscalização e controle social da mídia. A lei geral ainda definiu limites para a publicidade, institui a classificação indicativa de programas e proibiu o uso de concessões de radiodifusão por políticos em cargos públicos.

De acordo com o portal oficial do governo argentino, “a nova lei substitui a lei 22.284 da Ditadura Militar e busca garantir a democracia, os direitos humanos, o pluralismo, a promoção de emprego e os conteúdos nacionais”. Eles ainda reforçam a idéia de disponibilizar 33% das emissões para o setor comunitário. Boa parte do conteúdo da nova lei foi baseado em propostas organizadas pelos movimentos sociais ligados ao tema das comunicações.

E o que dizer do público infanto-juvenil? Para a socióloga e cineasta argentina Susana Velleggia, especialista em televisão educativa e cultural, há também o que se comemorar. À frente da Asociación Civil Nueva Mirada, responsável há dez anos pelo Festival Internacional de Cinema para a Infância e Juventude, Susana destaca a criação do Conselho Assessor de Comunicação Audiovisual e Infância que tem muito mais do que uma simbologia, tem a chance de intervir na produção de uma TV de qualidade para crianças e adolescentes.

A revistapontocom conversou com Susana Velleggia sobre este e outros temas.

Acompanhe:

revistapontocom – Em que contexto a ‘Ley de Medios’ surgiu?
Susana Velleggia – A lei surgiu de uma conjugação de fatores, com a firme decisão política da presidente Cristina Kirchner e a obsolescência do decreto-lei anterior, promulgado pela ditadura militar, em 1980. Texto que recebeu mais de 170 retoques e remendos implementados por outros decretos do próprio poder executivo nacional, durante a década de 90, no apogeu da doutrina econômica neoliberal. Tudo isso teve o objetivo de facilitar os processos de concentração do poder de comunicação nas mãos de poucos grandes grupos. Empresários privados formaram um oligopólio cartelizado, com capacidade de impor uma agenda à sociedade, controlando preços e práticas do mercado da comunicação e impedindo o surgimento de outras vozes e opiniões.

Outro fator que colaborou para esta mudança foi a luta dos setores acadêmicos das diversas áreas de comunicação, dos sindicatos e dos profissionais progressistas que, há 20 anos, vêm demandando uma nova lei de radiodifusão por meio de suas organizações e de uma formação de uma espécie de movimento cívico em torno de um documento intitulado ’20 pontos para uma radiodifusão democrática’. Este documento foi a base da elaboração da atual lei, embora não tenha considerado vários temas. Sem dúvida, ele foi muito mais além das demandas explícitas da sociedade que passou por processos históricos extremamente frustrantes, como a censura, o terror, a repressão, a ditadura, a impotência do regime democrático e o império absoluto das leis do mercado.

Cabe apontar também que aproximadamente 75 projetos de lei de radiodifusão estiveram em tramitação no parlamento desde a recuperação da democracia, em 1983. Porém nenhum deles pode ser sancionado devido a intensa pressão do lobby das empresas privadas de comunicação, de modo que os deputados e os políticos em geral foram reféns de si mesmos. Na Argentina, há eleições gerais a cada quatro anos e eleições de renovação parcial da câmara dos deputados e dos senadores a cada dois. Isso quer dizer que temos campanhas eleitorais a cada dois anos, em que o papel da mídia é cada vez mais importante. Suas ‘operações’ midiáticas podem ‘fabricar’ um candidato ou destruir a credibilidade de outro.

É fato que todo o processo de elaboração que resultou na sanção desta atual lei foi acompanhado por uma participação inédita da sociedade. O rascunho do projeto foi apresentado pela presidenta Cristina Kirchner em um ato público. A partir daí, a análise foi submetida em fóruns públicos em todas as províncias do país. Durante esse processo, foram recebidas, incluídas e corrigidas muitas propostas, com referência de quem efetivamente propôs cada modificação. Isso exigiu um processo de depuração e nova redação do documento, o que foi feito por um grupo extremamente especializado e capacitado. Esse processo levou cerca de um ano e foi acompanhado por atos, manifestações e movimentos massivos em todo o país, que obviamente as empresas de comunicação hegemônicas omitiram e dissimularam.

revistapontocom – Na prática, o que representa a aprovação da nova lei?
Susana Velleggia – A lei 26.522 implica numa mudança revolucionária no sentido de democratizar as relações e o cenário da comunicação audiovisual na Argentina. Sua sanção e aplicação têm sido acompanhadas pela instrumentalização da TV Digital. Assim ela abrange os canais e rádios em funcionamento quanto aqueles que poderão vir a surgir com a possibilidade que traz consigo a digitalização da televisão, bem como, é lógico, a participação de outros atores da cadeia produtiva.

Frente ao monopólio do discurso audiovisual (rádio e TV) de um ou mais grupos de mídia, a lei abre espaço para que cooperativas, ONGs, municípios, universidades, escolas, grêmios etc possam obter licenças para operar canais na TV aberta. A lei abre espaço para a maior parte das forças representativas de todos os setores da sociedade que antes, sob a vigência do decreto-lei 22.285, com seus decretos reguladores a favor dos poderosos, chamados de decretos ‘desreguladores’, não tinham espaço. Nesta época, tanto os governos da ditadura como os do projeto neoliberal preferiram se entende e negociar com poucos grupos de mídia, com os conglomerados. Era uma questão de ter em seu controle tanto a ideologia quanto os negócios.

revistapontocom – Quais são os pontos positivos e negativos da lei?
Susana Velleggia – Entre os aspectos estruturais que já mencionei está a transformação nas relações de poder cultural, econômico e comunicacional em favor da sociedade e dos atores independentes ou minoritários. Há que ressaltar também o impacto sobre a produção audiovisual nas economias regionais e sobretudo na empregabilidade. As emissoras das províncias [Estados] da Argentina, dependentes dos grupos de mídia, atuam como meras difusoras da programação produzida no âmbito central – cidade de Buenos Aires e Zona Metropolitana. A lei traz a descentralização, o que significa um intenso processo de movimentação e dinamização dos recursos locais, tanto humanos quanto econômicos e culturais. Esta lei, como todas as outras, pode melhorar a partir do fato de valorar seu funcionamento na realidade, sobretudo na realidade de um campo cujo dinamismo é enorme.

Porém, considero um erro a não inclusão, como estava no projeto original, das telecomunicações, que oferecem tanto a telefonia fixa como a móvel e acesso à internet. Hoje, na Argentina, a telefonia fixa e móvel estão concentradas em três grandes grupos/conglomerados multinacionais, destacando-se a Telefônica da Espanha, a Telefônica da França e o Grupo Slim, do México. Trata-se de um setor que encontra-se hoje totalmente desregulamentado. Agora é mais difícil fazer uma lei das telecomunicações já que estes são os atores multinacionais de maior poder econômico e político que temos. Além disso, seus interesses estão fortemente atravessados pelo setor financeiro multinacional, que como estamos vendo na atual crise mundial é um poder praticamente intocável. A presidente Cristina Kirchner ordenou suprimir este capítulo do projeto original devido, particularmente, à pressão dos deputados do partido Proyecto Sur que se recusaram a votar caso fossem mantidos os artigos referentes às telecomunicações. Como os votos deste partido eram imprescindíveis para sancionar a lei, a presidente disse publicamente que suprimiria os artigos em questão. Deste modo, os opositores não tiveram como não aprovar a lei.

Lamento a profunda ignorância dos nossos deputados sobre este tema. Digo ignorância, neste caso, do partido da esquerda, porque todos os outros partidos de centro e centro direita trabalharam para os grupos de mídia e adotaram a estratégia política desenhada por eles para se opor à lei, inclusive mentindo descaradamente para manipular a opinião pública.

Trata-se de um grande embate. A Associação Argentina de TV a Cabo (ATVC), que é controlada pelo grupo de mídia mais importante, o Grupo Clarín, vem pressionado para que as empresas telefônicas não sejam habilitadas a transmitir conteúdos audiovisuais. O pano de fundo desta situação é um conflito de interesse entre as empresas de mídia, que têm participação acionária nas empresas de telefonia fixa, e as próprias empresas de telefonia que lutam por ingressar no mercado de conteúdos audiovisuais por si mesmas, o que já está começando a ser feito diante das possibilidades que a convergência e a digitalização oferecem. O dilema é definir as regras do jogo. Porque do contrário, corremos o risco de mudar a concentração dos meios de comunicação de uma mão para outra, de um grupo para outro.

revistapontocom – Em que medida esta nova lei contribui para a produção de conteúdos voltados para a infância e adolescência?
Susana Velleggia – Com relação às crianças e aos adolescentes, a lei significa um gigantesco passo. Isto porque a lei estabelece uma articulação entre o cinema e a TV tradicional com o entorno audiovisual das múltiplas janelas – os games, a telefonia celular, a internet etc. Estamos diante de um cenário de múltiplas linguagens tecnologicamente moduladas. E é desta forma que as crianças, os adolescentes e jovens se comunicam e expressam. Essa mudança de paradigma se baseia em quatro eixos da política de comunicação que estão presentes na lei. São eles: 1) a desconcentração da atual estrutura de propriedade hiper concentrada nas mãos de poucos grandes conglomerados multimídias privados, que praticamente monopolizam a TV a cabo do país; 2) a descentralização territorial de uma estrutura de produção de rádio e televisão historicamente centralizada na cidade de Buenos Aires; 3) a abertura da diversidade cultural e informativa, mediante o estímulo e incentivo da participação da pluralidade de atores sociais na produção e emissão de discursos audiovisuais e acesso às frequências, restrito até então às empresas comerciais e ao Estado; e 4) o fomento para a produção nacional e local, realizada tanto por canais de TV quanto por produtores independentes, com a fixação de porcentagens mínimas na programação nacional.

A nova lei institui o direito de todos os cidadãos à cultura, com ênfase nas crianças, adolescentes e jovens. Publico para o qual se destinam medidas paradigmáticas expressadas no artigo 17 – que cria o Conselho Assessor para Comunicação Audiovisual e Infância e enumera suas funções – e em alguns incisos dos artigos 68, 70, 71, 81, 107, 121 e 124. Além do artigo 153 que, ao criar um fundo de fomento para a produção de programas de televisão de qualidade para crianças, traz uma atribuição maior ao conselho. Neste momento, uma comissão do Conselho está trabalhando na regulamentação do Fundo de Fomento Competitivo para a Produção de Programas de TV de Qualidade para as Crianças.

Isso outorga ao Conselho atribuições que vão muito além de ser apenas um órgão de assessoramento que produz recomendações e propostas. Pelo contrário, o artigo lhe confere uma atribuição de intervir na produção e no incremento de uma televisão de qualidade. Sabe-se que nenhuma lei em si muda de maneira automática problemas complexos de larga data. É a partir de um marco jurídico transformador que poderão ser revertidos os processos de expropriação de identidade e violência simbólica que orientaram as relações dos meios audiovisuais guiados por objetivos mercadológicos com a infância. A voz e a presença de crianças, adolescentes e jovens, de identidades diversas na televisão argentina, poderão ter lugar somente em condições promovidas por uma autêntica democratização das relações culturais e comunicacionais que reúnam os donos dos meios, os programadores e os adultos em geral. Todos esses atores devem aprender a escutar e a compreender crianças e adolescentes, antes de pretender “informá-los”, “educá-los” ou “entretê-los”. Esse Conselho Assessor para a Comunicação Audiovisual e Infância não deve ser visto somente como uma instância de monitoramento e assessoramento, já que constitui um passo decisório para a transformação ao articular-se com o fundo de fomento para a produção de programas de qualidade para a infância. Os canais de televisão estão começando a dar conta disto. Em alguns casos, com lentidão. Mas a presença e a voz do conselho estão fazendo com que aquela programação agressiva aos direitos de crianças tenha começando a se auto regular.

revistapontocom – A lei está em pleno vigor?
Susana Velleggia – A lei está em vigor, exceto o artigo 161, denominado de ‘desmonopolização’ ou ‘desconcentração’ da propriedade dos meios audiovisuais. Isto porque os grandes grupos que controlam a maior parte do mercado entraram com um recurso na Justiça contra sua aplicação. Estamos diante de um estigma para a Justiça Argentina. A causa está nas mãos de um juiz que, no passado, foi extremamente compreensivo com a ditadura e hoje está visivelmente ligado aos interesses dos grupos de mídia. O prazo para a desconcentração dos meios de comunicação, previsto pelo artigo, é de um ano a partir da sanção da lei, porém o processo está emperrado há mais de um ano por conta deste recurso. Evidentemente este embate é compreensível porque a aplicação do artigo supõe que os maiores grupos de mídia do país teriam que se desfazer de várias frequências/concessões de rádio e de TV. O grupo Clarín, por exemplo, teria que optar por quatro canais de TV a cabo entre os mais de 200 que possui.

revistapontocom – Quais são as perspectivas?
Susana Velleggia – Mais participação social e maior democratização da comunicação no país. Mais canais, atores. Mais produção circulando, maior participação da cultura. Pela primeira vez, o sul do país vai conhecer a produção cultural e audiovisual do norte e vice-versa, o que parece mentira, mas de fato é a realidade. Também esperamos que as grandes mudanças na estrutura do poder político econômico e cultural da comunicação comecem a ser visualizadas nas televisões, não somente em relação a uma maior diversidade cultural de perspectivas, informações e opiniões, mas também em relação a uma maior qualidade de programação, e, consequentemente, de um maior desenvolvimento cultural da sociedade.

Acesse a página da Autoridad Federal de Servicios de Comunicación Audiovisual e leia a lei na íntegra

III Educomunicação

Celebrar a década da educomunicação e apresentar o curso de especialização em educomunicação.  Estes são os dois principais objetivos do III Encontro Brasileiro de Educomunicação, que será realizado, nos dias 2 e 3 de dezembro, na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP). “A década se inicia em 2001, com a difusão das pesquisas do NCE-USP e termina em 2011, com a implantação da Licenciatura e a apresentação da Especialização em Educomunicação”, explica o professor Ismar Soares, diretor do Departamento de Comunicações e Artes da instituição.

Ao longo dos dois dias, gestores, pesquisadores e professores vão apresentar projetos e experiências na área, tanto no Ensino Básico quanto no Superior.O evento contará também com a presença da professora Maria Teresa Quiroz, pesquisadora da Universidade de Lima, Peru, na área dos estudos de recepção, e a jornalista Silvia Bacher,  coordenadora da organização “Las otras Voces” responsável por um dos mais extensos projetos de uso do rádio nos espaços educativos da Argentina.

Confira, aqui, a programação na íntegra e faça sua inscrição

Publicidade nas TVs educativas

A Comissão de Educação e Cultura cancelou a realização da audiência pública, marcada para quinta-feira, dia 17,  a partir das 10 horas, no plenário da Cãmara dos Deputados, sobre a veiculação de publicidade comercial em programação de emissoras de televisão educativa. Justificativa: incompatibilidade da agenda dos convidados.O tema está previsto no Projeto de Lei 1311/11, do deputado Rogério Peninha Mendonça (PMDB- SC).

A proposta autoriza a veiculação de publicidade comercial na programação das emissoras de televisão educativa, limitada a 15% do tempo total destinado à programação. O PL também estabelece que os comerciais sejam veiculados exclusivamente nos intervalos, e veda a utilização de merchandising ou qualquer forma de publicidade fora desses intervalos.

O debate solicitado pelo deputado Rui Costa (PT-BA) contará com a participação dos presidentes da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), Daniel Pimentel Slaviero; e da Associação Brasileira de Radiodifusores (Abra), João Saad.

Rui Costa assinala que, além de mostrar o cunho educativo e cultural das emissoras de televisão educativas, o projeto também expõe as dificuldades por que passam essas emissoras, como restrições orçamentárias e diploma legal bastante defasado, o que inviabiliza a melhoria na qualidade de seus serviços.

Leia , abaixo, a justificativa apresentada pelo deputado:

A televisão educativa foi legalmente criada pelo Decreto-Lei nº 236, de 1967. O texto do diploma legal, apesar de excessivamente restritivo, perdura até hoje, condenando as televisões educativas a padecerem de graves restrições orçamentárias na sua operação. Isso se deve, primordialmente, ao que estabelece o parágrafo único do art. 13 do DL 236/67 – a vedação de transmissão de qualquer propaganda, direta ou indiretamente, bem como o patrocínio dos programas transmitidos.

Cria-se, assim, um impasse de difícil resolução. Por um lado, é missão da televisão educativa oferecer conteúdos que possam ser uma alternativa à programação da televisão comercial, com um enfoque especial em conteúdos de cunho educativo e cultural. Por outro, é quase impossível cumprir essa missão sem que se dote as emissoras educativas de fontes perenes de recursos, que possam financiar a produção de conteúdos e a sua transmissão, com um padrão de qualidade no mesmo patamar das emissoras comerciais.

Com o intuito de eliminar essa disfunção do nosso ordenamento jurídico, propomos o presente projeto, que altera a redação do parágrafo único do art. 13 do Decreto-Lei nº 236, de 28 de fevereiro de 1967, para autorizar a veiculação de publicidade comercial na programação das emissoras de televisão educativa, limitada a 15% do tempo total destinado à programação por essas emissoras. É necessário, contudo, prestar as justas homenagens ao Deputado João Matos, autor do Projeto de Lei nº 7.482, de 2010, atualmente arquivado, que nos serviu de inspiração para a elaboração da proposição que ora apresentamos à sociedade.

Em nossa proposta, buscamos regras que possam permitir às emissoras de televisão educativa veicular publicidade comercial, mas com a imposição de restrições que impeçam que essa possibilidade de financiamento por meio da publicidade venha a desvirtuá-las. Entendemos que a imposição da limitação de no máximo 15% do tempo total da programação para a veiculação de publicidade – consideravelmente menor do que o teto imposto atualmente às emissoras comerciais, que é de 25% -, bem como a proibição de utilização de merchandising e outras formas indiretas de publicidade garantirão às televisões educativas mecanismos para que angariem fundos sem perderem a sua característica primordial: a de veículos de disseminação de educação e cultura.

Realidade aumentada: mais perto de você

A revistapontocom já publicou alguns conteúdos sobre realidade aumentada. A discussão sobre o tema, assim como a sua aplicação, vem sendo cada vez mais intensa. Uma prova disso é o ISMAR, simpósio internacional que se dedica, exclusivamente, ao debate do assunto. O encontro deste ano, realizado, em outubro, em Basileia, na Suiça, reuniu especialistas e pesquisadores da Ásia, Europa e Américas.

Foram apresentados cerca de 40 projetos que se utilizam da realidade aumentada. Entre eles, destacam-se o Ara Indoor-Outdoor, que pretende auxiliar as pesssoas com dificuldades visuais a adquirir uma maior autonomia a partir de um sistema de navegação de alta precisão, utilizando o aúdio; o programa Who’s affraid of bugs?, que faz uso da realidade aumentada, em um livro interativo, para trabalhar as fobias com relação aos insetos; e o  Augmented Video Conferencing, que permite que o público presente numa palestra compartilhe conteúdos.

“De fato, a realidade aumentada não faz parte do dia a dia do grande público”, disse Jordi Janer, pesquisador da Universidade Pompeu Fabra, Barcelona, ao jornal EL País. Segundo ele, um aspecto que vai mudar este cenário é a criação de conteúdo por parte dos usuários/internautas comuns e das comunidades virtuais.

Dias antes do encontro, o site swissinfo.ch entrevistou Vincent Lepetit, pesquisador da Escola Politécnica Federal de Lausanne, Suíça, e responsável pelo encontro internacional. A revistapontocom reproduz o conteúdo, com o objetivo de socializar mais ainda o debate sobre o tema.

Acompanhe:

swissinfo.ch – Vamos começar com uma pergunta óbvia: o que é Realidade Aumentada?
Vincent Lepetit – A Realidade Aumentada (RA) é uma tecnologia que acrescenta elementos virtuais a imagens capturadas por uma câmera. Neste ponto, parece com os efeitos especiais de cinema, onde objetos sintéticos são adicionados à cena filmada pela câmera. A grande diferença é que a RA funciona em tempo real, o que significa que os objetos são adicionados enquanto a câmera capta as imagens, permitindo, assim, uma interação real com o usuário.

swissinfo.ch – Podemos conhecer alguns exemplos específicos desta tecnologia?
Vincent Lepetit – Por exemplo, uma das primeiras aplicações de Realidade Aumentada para “smartphones” consistia de orientações para encontrar as estações de metrô de Londres. Ela funcionava através de painéis virtuais adicionados à imagem da rua feita pela câmera do telefone. Em outra área, cirurgiões, em colaboração com a Universidade Técnica de Munique, começaram a usar RA para a cirurgia do joelho. A RA permite que os usuários visualizem seus instrumentos dentro do joelho do paciente. Jogos, educação, arte e publicidade são outras áreas onde a RA é aplicada regularmente.

swissinfo.ch – Você diria que essa tecnologia está ao nosso redor, mas não temos consciência disso?
Vincent Lepetit – Se você assistir a um jogo de futebol na TV, notará que não é de hoje que a distância de um chute, ou os patrocinadores são adicionados diretamente durante a transmissão. Isto é nada mais e nada menos do que uma aplicação de Realidade Aumentada. Os smartphones permitem cada vez mais que a RA esteja disponível ao público. Por exemplo, um aplicativo que permite que você veja os cumes das montanhas com seus nomes e as alturas.

swissinfo.ch – O que representa o ISMAR 2011?
Vincent Lepetit – O ISMAR é a sigla em inglês que significa Simpósio Internacional sobre Realidade Aumentada e Mista. É uma conferência internacional que reúne os melhores pesquisadores em Realidade Aumentada. O ISMAR começou há 10 anos e só vem crescendo desde então. Os pesquisadores do ISMAR se interessam em diferentes aspectos da RA: a tecnologia em si, mas também o aspecto humano. Como a RA é percebida pelo usuário e como deve ser a interface do usuário de uma aplicação de RA. Além disso, agora também tem artistas participando do ISMAR, que apresentam obras realizadas com RA de forma bem original.

swissinfo.ch – Em que sentido o ISMAR é especial?
Vincent Lepetit – Muitas das principais inovações técnicas foram apresentadas em ISMAR ao longo dos anos e os pesquisadores nos reservam, certamente, grandes surpresas para essa edição. Este ano, temos visto crescer, não só o número de publicações científicas, selecionados por um comitê internacional, mas também as manifestações técnicas e artísticas, selecionadas com igual rigor. Muitas destas novidades são originais e muito impressionantes, mesmo para alguém como eu.

swissinfo.ch – Qual o papel da Suíça neste novo mundo?
Vincent Lepetit – A Suíça já está muito envolvida com a Realidade Aumentada em diferentes níveis. Vários laboratórios das Politécnicas de Zurique e Lausanne desenvolveram técnicas fundamentais usadas em RA e as escolas suíças de design criam conteúdo com RA. Por exemplo, o trabalho de diploma de Camille Scherrer, da ECAL, recebeu amplo reconhecimento internacional graças ao prêmio Pierre Bergé.

swissinfo.ch – Qual é o futuro da Realidade Aumentada?
Vincent Lepetit – O conceito de Realidade Aumentada não é novo, o que é novo é que agora a tecnologia evoluiu o suficiente para permitir o acesso ao público em geral. A tecnologia se desenvolveu bastante, mas também o surgimento e sucesso dos smartphones tem levado muitas empresas a desenvolver novos aplicativos de RA. A Realidade Aumentada agora é acessível a qualquer pessoa, e tudo indica que o fenômeno se desenvolverá muito rapidamente no futuro próximo. Um estudo da ABI Research prevê um mercado de 360 milhões de francos suíços em 2014 [cerca de R$ 800 milhões].

planetapontocom

No último dia 27, o planetapontocom celebrou seu sétimo aniversário. O encontro, realizado no Centro do Rio, no edifício onde fica o escritório da OSCIP, reuniu professores, estudantes, pesquisadores, parceiros, jornalistas, artistas e amigos. Entre eles, Zuenir Ventura, Kledir Ramil, Cleide Ramos, presidente da MultiRio, Regina de Assis, ex-secretária municipal de Educação do Rio e ex-presidente da MultiRio, Rosália Duarte, professora da Pós-Graduação em Educação da PUC-Rio, Heloisa Werneck de Paiva, da subsecretaria de Gestão de Pessoas da SEEDUC,  e professores e alunos do Colégio Estadual José Leite Lopes – NAVE.

Na abertura, Paulo Gontijo, responsável pela área de comunicação do planetapontocom leu mensagem enviada pela presidente do Conselho do planetapontocom, Margarida Ramos. Em seguida, apresentou os trabalhos  que vêm sendo desenvolvidos pela instituição ao longo dos sete anos, com destaque para o curso à distância Por Dentro dos Meios, o curso de Narrativas Digitais, oferecido no NAVE, o site infantil Turma do Planeta, a revistapontocom, que registra uma média de 15 mil acessos por mês, e a parceria com o Discovery Channel Global Education Partnership. Como parte da celebração, foi lançado o novo portal do planetapontocom, com mais interatividade e informações de todos os projetos.

Na ocasião, a presidente do planetapontocom, Silvana Gontijo, também antecipou o lançamento de duas novas frentes de trabalho: uma em parceria com a Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) na área de cursos de formação na área de midiaeducação e outra que consiste na criação e implementação, em parceria com a empresa MC Digital, de um sistema de gestão de informação escolar, o chamado Login.

clique aqui e veja algumas fotos da comemoração

Sob a coordenação do professor Tiago Dardeau, alunos do curso de narrativas digitais do NAVE apresentaram um trabalho digital sobre a Era Vargas, com vídeos, textos e áudios. Um trabalho interdisciplinar que contou com a participação de várias áreas de conhecimento. Durante a cerimônia, o publicitário Lula Vieira e o jornalista Mauricio Menezes reproduziram esquetes do espetáculo de humor Lula contra o mau.

Participe da Rede Brasileira de Mídia Cidadã

Incentivar a construção de uma sociedade mais cidadã por meio da mídia. Estimular a formação cidadã entre as novas gerações. Lutar por políticas de desenvolvimento da cidadania em Comunicação. Essas são algumas das atribuições da Rede Brasileira de Mídia Cidadã, criada em novembro de 2009. No último dia 20, a entidade aprovou o seu estatuto, durante sessão plenária realizada na II Conferência Sul-Americana e VII Conferência Brasileira de Mídia Cidadã, em Belém do Pará.

De acordo com o Estatuto, elaborado ao longo dos últimos meses por membros da Rede Brasileira de Mídia Cidadã, permitirá a filiação de pesquisadores, professores, acadêmicos, profissionais da Comunicação, membros de ONGs e ativistas.
Acesse o site da rede, clicando aqui
Leia, aqui, o estatuto na íntegra

Livros didáticos: novas inscrições

Começa no dia 9 de dezembro o período de pré-inscrição de obras didáticas para os anos finais do Ensino Fundamental que participarão do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) para 2014. A entrega dos exemplares para avaliação está prevista para o período de 7 a 11 de maio de 2012. Os interessados terão até maio do próximo ano para se inscreverem.

Os editores podem apresentar objetos educacionais digitais complementares aos livros impressos. Em caso de aprovação, esse novo material será enviado aos alunos com as obras impressas. “O conteúdo multimídia oferece novas possibilidades de trabalho aos professores e de aprendizado aos alunos”, afirma o diretor de ações educacionais do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), Rafael Torino.

Serão selecionados livros de Língua Portuguesa, Matemática, Ciências, Geografia, História e Língua Estrangeira (inglês ou espanhol) para estudantes do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental. Como estabelece o edital do FNDE, os livros inscritos passarão por uma seleção. As obras aprovadas integrarão o Guia do Livro Didático 2014, que conterá resumo de cada uma para permitir a professores e diretores a indicação daquelas mais adequados ao processo pedagógico. O edital foi publicado no Diário Oficial da União de segunda-feira, 7, seção 3, página 50.

Equilíbrio emocional

Por Marcus Tavares
Editor da revistapontocom

Participei, recentemente, de um debate sobre a seleção de professores para o magistério.  Um dos principais pontos discutidos: os pré-requisitos. Experiência, conteúdo, conhecimento, segurança etc. Enfim, tudo o que se espera de um bom profissional. Mas na lista havia um item que me chamou atenção: equilíbrio emocional.  Ora, para exercer qualquer profissão e, em princípio, para conviver em sociedade, todas as pessoas não têm que ter equilíbrio emocional? Se isto é uma das prerrogativas, por que destacá-la?

Bem das duas uma: ou cresce – o que não é de se espantar – o número de pessoas que estão desequilibradas emocionalmente e não faltam justificativas da ordem social à econômica, ou, então, a profissão está cada vez mais testando a paciência e o controle daqueles que optam pela carreira.

Pensando bem, talvez, as duas explicações se somem. Como não se desequilibrar emocionalmente no dia a dia em que estamos diante de tantas pressões, responsabilidades, compromissos e desafios, seja no trabalho ou em casa? É difícil manter a calma. E o que dizer da sala de aula? Salas lotadas, brigas, plágios, faltas, indisciplinas, indiferenças, enfrentamentos testam a todo o momento o limite emocional dos professores. Não, não é fácil, seja no Ensino Infantil, Fundamental, Médio ou Superior.

Você leitor perguntaria: mas isso tudo não faz parte do universo do trabalho do professor? Sem dúvida, porém o fato é que este cenário ocupa cada vez mais o tempo da sala de aula em vez do ensino propriamente dito, da troca de conhecimento. O ambiente escolar assume mais e mais outros papéis, como a educação de valores. É também seu dever, mas conjugado com o da família, o que pouco se vê na prática. Não é à toa, portanto, que aumenta o número de professores que pede afastamento por motivos de saúde, desencadeados pela agressividade dos alunos.
Não estou criticando a profissão nem lamentando. Dar aula é muito interessante e gratificante. Mas haja equilíbrio emocional.  Nos dias de hoje, pré-requisito sine qua non.

Fonte – Jornal O DIA

Ciência premiada


Por Marcus Tavares

No início de setembro deste ano, o episódio Planeta Molhado da série de TV Detetives da Ciência, produzido pela Empresa Municipal de Multimeios da Prefeitura do Rio (MultiRio) ganhou o Prêmio de Melhor Programa de TV da 10ª edição do Festival Internacional de Cine Nueva Mirada para a Infância e Juventude, que acontece na Argentina. O vídeo aborda a necessidade do uso racional da água, seu ciclo e porque ela está se tornando cada vez mais rara.

O objetivo da série de 10 episódios, que teve consultoria do Instituto Ciência Hoje, é apresentar os temas científicos de forma instigante, com uma linguagem que chama a atenção para a relação entre a ciência e a experimentação cotidiana.
A revistapontocom conversou com Miguel Przewodowski, diretor da série. Afinal, como se produz e dirige uma série de TV, sobre ciências, voltada para jovens, que hoje têm acesso a diversas informações sobre qualquer assunto na web? Como conquistar a audiência? Como atrair e instigar?

Mais informações sobre a série, clique aqui e conheça o portal da MultiRio

Acompanhe:

revistapontocom – Qual é o diferencial da série Detetives da Ciência?
Miguel Przewodowski – A série mostra com leveza e diversão como a ciência esta inserida na vida do planeta e no nosso cotidiano. Usa o humor como recurso para informar e fazer com que os jovens percebam que o conhecimento científico não é algo estático e que, com ele, podemos entender e solucionar de forma prazerosa questões complexas da vida, tornando o nosso dia a dia mais criativo.

revistapontocom – Como foi o processo de criação do programa? Ele é voltado para que público?
Miguel Przewodowski – A série foi desenvolvida por uma equipe multidisciplinar formada por profissionais da área audiovisual, professores e cientistas. Partindo do nome e de argumentos desenvolvidos pela MultiRio, com a consultoria do Instituto Ciência Hoje, sugeri um formato ficcional que tinha como protagonistas a dupla infalível e complementar de jovens extremamente curiosos e inquietos apoiados por seus respectivos núcleos familiares. Foram então convidadas Denise Crispun e Melanie Dimantas, duas roteiristas experientes em roteiros de ficção e particularmente talentosas no diálogo com jovens. A partir de muitos encontros e discussões entre consultores, professores, técnicos e artistas chegamos a dez roteiros que atendiam às nossas expectativas tanto no que dizia respeito ao conteúdo pedagógico e cientifico quanto ao formato propositivo e prazeroso, característico dos programas da MultiRio. A partir daí encontramos, por meio de indicações e testes de elenco, a nossa dupla tão especial de detetives: Sofia Starling e Rheynaldo Ropke Junior. Casal fundamental para o sucesso da série. Série que tem como objetivo principal captar a atenção de jovens e de seus educadores, responsáveis pela utilização da série como uma ferramenta nas salas de aula.

revistapontocom – Como as escolas estão respondendo ao programa?
Miguel Przewodowski – As escolas ainda estão iniciando o uso da série e, por isso, ainda não temos uma avaliação precisa. Antes do lançamento da série na TV, foram feitas exibições dos dois primeiros episódios para turmas de jovens do segundo segmento (do 6º ao 9º anos) e para educadores. A avaliação feita por eles nos entusiasmou bastante principalmente pelo nível das perguntas que suscitaram. Isso nos ajudou a perceber o grau de compreensão e interesse que os programas despertam.

revistapontocom – Como foi o trabalho com a equipe do Ciência Hoje?
Miguel Przewodowski – A parceria com o Instituto Ciência Hoje foi fundamental porque nos respaldou ao longo de todas as etapas da produção da série com uma consultoria qualifica, atualizada e específica de forma ágil e harmônica dos temas específicos tratados em cada episódio.

revistapontocom – O que significa o prêmio do Nueva Mirada?
Miguel Przewodowski – Tanto este prêmio quanto a participação da série em festivais e mostras internacionais significa não só o reconhecimento do trabalho feito pela equipe da MultiRio e do Ciência Hoje, mas também a ampliação do circuito de exibição da série e a sua possível utilização em fronteiras até então inimagináveis. Significa também a possibilidade de encontrar novos parceiros para futuras produções, pois, afinal, entre os que trabalham em prol da educação existem interesses e metas comuns. Eventos como este podem servir para unir forças e viabilizar novos sonhos.

revistapontocom – Qual é o desafio de produzir programas educativos para a televisão?
Miguel Przewodowski – Um programa educativo para ser efetivo não pode subestimar a compreensão e a inteligência de nossos jovens que estão cada vez mais ágeis e sagazes. Ele deve trabalhar para ampliar ainda mais a capacidade de sonhar, refletir, fabular, responder perguntas e solucionar questões próximas ao universo de quem ele pretende educar. Deve respeitar e entender os valores nas diferenças. Isso requer uma compreensão apurada e generosa, um mergulho respeitoso no olhar do outro e na sua forma de ver e viver o mundo. Só assim conseguiremos atingir o público desejado reconhecendo e aproveitando sua potencialidade. Com este comprometimento, é natural que encontremos soluções que tenham como apoio informações fidedignas, que associe ética e estética, que tragam um olhar inquietante e investigativo e que respeitem as diferentes identidades e sejam peças importantes para democratização da informação. Acho que hoje muita gente vem conseguindo produzir levando em consideração estes parâmetros. Na MultiRio, esta é uma condição inicial, uma preocupação constante. Encontrar um formato e um produto final de qualidade a partir de tudo isso requer sempre um trabalho profundo e dedicado de uma equipe afinada e comprometida com os resultados.

revistapontocom – O que um programa educativo nos dias de hoje deve ter para atingir seu público?
Miguel Przewodowski – A capacidade sedutora da mídia deve ser utilizada de forma inteligente e dinâmica considerando a realidade do público alvo. A linguagem deve ser propositiva e entender como tirar proveito da autonomia e da emancipação que o mundo de hoje propõem em termos de informação. Como a ciência, ele deve considerar uma virtude a capacidade de levantar questões sem se preocupar em dar soluções definitivas. Ele deve deixar em cada um uma semente germinada no espírito e na mente, uma possibilidade e um desejo de encontrar na vida – e numa possível futura série – uma continuidade.

Confira os dez episódios:

– Nanomundo
A ciência do ultracompacto possibilita o surgimento de aparelhos cada vez menores e com mais funções. A partir do sedutor aparato tecnológico, podemos desvendar a escala do superpequeno.

– Pequenas e de grande ajuda
O programa explora de que maneira as células-tronco podem ser utilizadas para benefício da saúde, além de falar de conceitos como a origem da vida e o espírito de cooperação.

– Para que me espetar tanto?
Em pauta, as vacinas. Por que é importante tomar vacinas e como elas funcionam nos nossos organismos?

– As formas da natureza
Como medir uma nuvem, a copa de uma árvore ou um órgão humano? Neste programa, vamos ver como a Matemática e a Biologia trabalham juntas nesse sentido.

– Menos fumaça
Pensando no futuro do planeta, os cientistas vêm desenvolvendo combustíveis de origem vegetal (biocombustíveis). Os conceitos de reduzir, reciclar e reutilizar se entrelaçam nessa temática atual.

– Quem mora na gota d’água?
Uma exploração do micromundo da água. Em pauta, como a poluição pode afetar sua qualidade, o passo a passo de seu ciclo e os fatores que fazem com que ela se torne cada vez mais rara.

– Herança genética
O assunto aqui é genética. De maneira lúdica, aprendemos o que a ciência consegue desvendar a partir da análise e manipulação do DNA.

– Alô, alô! Tem alguém aí?
Na pesquisa espacial, o que pode se tornar realidade? Um dia a Lua poderá ser habitada? Existe vida em outros planetas? Perguntas assim são discutidas neste episódio, sobre a Astronomia.

– Que tempo doido!
Mudanças climáticas. Qual a relação dos gases que compõem a atmosfera com a alteração da temperatura em nosso planeta? O que aconteceria na Terra sem os gases de efeito estufa?

– Tudo misturado e em harmonia
Biodiversidade: como as diferentes formas de vida interagem em determinados ecossistemas. O episódio leva à reflexão sobre o impacto que toda uma cadeia sofre com a exclusão de uma espécie.

Quem manda lá em casa? As crianças.

Pesquisa divulgada esta semana pela Viacom International Media Networks, distribuidora do canal Nickelodeon no Brasil, ratifica uma rotina de muitas famílias: na hora das compras, a opinião dos filhos tem caráter decisivo. Os resultados fazem parte do estudo O poder da influência da criança nas decisões de compra da família, realizado em 11 países – Brasil, México, Canadá, Alemanha, Holanda, Reino Unido, Bélgica, Espanha, Polônia, Austrália e Coréia do Sul. Foram ouvidas 15.600 pessoas, crianças de 9 a 14 anos e pais e mães com filhos de 6 a 14 anos.

Segundo a pesquisa, compreender a dinâmica no que diz respeito à tomada de decisão é a chave para desenvolver um orçamento familiar ideal. De acordo com os dados, pais e filhos têm atualmente uma relação mais estreita: 79% dos pais dizem que são mais próximos dos filhos do que seus pais e 83% declararam ser um dos melhores amigos dos seus filhos.

“As famílias mudaram para um modelo menos hierárquico, onde todos têm algo a dizer. No modelo familiar antigo, havia certa ditadura contra as atitudes democráticas familiares. Além disso, os filhos, em sua maioria, estavam sob controle. Os pais tentavam compreender os filhos, enquanto hoje, eles os compreendem genuinamente”, aponta Adriana Pascale, gerente de pesquisa do canal Nickelodeon, da Viacom.

A maioria dos pais e filhos divide muitas atividades em conjunto, como assistir a programas de TV. É o que declararam 99% dos pais e 98% dos filhos. 89% dos filhos e 90% dos pais dizem que navegam com seus filhos na internet, tornando esta a segunda atividade mais compartilhada. Há uma diferença na percepção de pais e filhos quando questionados sobre leitura de revistas. 91% dos pais afirmam ler com os filhos contra 83% dos filhos.

É comum que os filhos se interessem mais por produtos quando os pais estão assistindo TV. Isso é o que aponta 83% dos pais. Eles costumam querer comprar mais quando seus pais estão por perto. Isso pode ter uma  explicação: na maioria das vezes, os pais pedem a opinião dos filhos sobre produtos a serem comprados, principalmente aos filhos mais velhos. 74% dos pais costumam pedir opinião aos filhos mais velhos, enquanto que 53% consultam os filhos menores para os produtos destinados a eles.

A opinião das crianças é seriamente considerada pelos pais mesmo quando o produto não se destina a elas. É o caso da compra de automóveis. 60% das crianças declararam que a sua opinião é levada em consideração por seus pais. A principal razão, de acordo com a pesquisa, para considerar a opinião dos filhos com seriedade é a oportunidade de ensiná-los que a opinião deles é importante. E isso pode ser notado nas categorias abordadas no estudo.

Em regra, as decisões familiares são tomadas de forma colaborativa entre pais e filhos. 51% dos pais declaram que tomam a decisão final, mas sempre ouvindo a opinião dos filhos. 49% afirmam decidir juntos. Os pais também revelam que há uma grande influência dos filhos nas decisões dos lugares onde a família costuma ir. 66% das decisões são feitas de forma colaborativa quando o assunto é cinema para toda a família. 49% dos pais escolhem os restaurantes com os filhos.

Os filhos confiam na internet e na TV para buscar informações sobre produtos e marcas. 82% das crianças declararam a internet como a principal fonte de pesquisa, seguida dos comercias de TV, com 70%.

Festival Internacional de Televisão

Por Marcus Tavares

Há dez anos, o jornalista Nelson Hoineff criou o Instituto de Estudos de Televisão (IETV) com o objetivo de pensar o trabalho de realização e produção da tevê. Em pouco tempo, instituiu o Festival Internacional de Televisão, que chega este ano à 7ª edição. O evento, que será realizado entre os dias 16 e 22 de novembro, no Oi Futuro, Rio de Janeiro, é composto por uma mostra competitiva de programas pilotos inéditos para tevê, por uma mostra do que há de mais interessante sendo produzido no mundo e por um encontro, que funciona como um fórum de debates de caráter acadêmico, abordando questões contemporâneas da área.

visite o site do evento, clique aqui e saiba mais

Em entrevista à revistapontocom, Nelson analisa o papel da televisão no Brasil e no mundo, aponta os desafios da produção e os caminhos do broadcast. “Durante quase 70 anos, a palavra televisão queria dizer a mesma coisa: transmissão de imagens e sons, de um ponto único, para aparelhos receptores fixos que eram consumidos coletivamente. A partir da introdução das plataformas digitais houve uma grande transformação. O lugar da televisão deixou de ser a sala para ser qualquer lugar”.

Acompanhe:

revistapontocom – Como podemos definir, no século XXI, a palavra televisão?
Nelson Hoineff – Durante quase 70 anos, a palavra televisão queria dizer a mesma coisa: transmissão de imagens e sons, de um ponto único, para aparelhos receptores fixos que eram consumidos coletivamente. A partir da introdução das plataformas digitais houve uma grande transformação. O lugar da televisão deixou de ser a sala para ser qualquer lugar. Ao grande receptor fixo foram agregados receptores portáteis, e o consumo da programação passou a ser também individualizado. O modelo de transmissão de sinais também se ampliou e, com a televisão conectada, se amplia muito mais. O desenho de grades vem migrando das emissoras para os usuários e todos os modelos que conhecemos de empacotamento do conteúdo já não são hegemônicos. A ideia de emissoras e redes é bastante ampliada. Televisão, desse modo, é hoje um conjunto de formas de transmissão e recepção de conteúdo audiovisual bastante diferentes entre si.

revistapontocom – A TV, aqui no Brasil, ainda vai continuar por bom tempo ainda sendo o principal meio de informação/entretenimento da maior parte da população?
Nelson Hoineff – Se você me pergunta se as redes abertas vão continuar existindo, a resposta é sim. A questão é que a TV transcende hoje esse modelo. A internet, por exemplo, já se transformou no principal meio de informação da sociedade. Mas a nova televisão abriga muita coisa, entre elas a própria internet. A informação e o entretenimento vão passar sempre pela televisão, porque a televisão se molda ao desenvolvimento tecnológico que multiplica as formas de difusão de um e do outro, não importa se o receptor de televisão esteja ocupando uma parede inteira de uma sala ou esteja na palma da mão; se o conteúdo está sendo gerado de um estúdio próximo ou esteja vindo das nuvens.

revistapontocom – Neste sentido, qual é o impacto da aprovação da Lei 12.485? O que ela significa na prática?
Nelson Hoineff – Significa por um lado a presença das teles no mercado de cabo, o que era esperado há muito tempo e vai popularizar este serviço. Por outro, a presença maior da produção brasileira no mercado de TV por assinatura. No primeiro momento, tende-se a acreditar que isso é bom somente para os produtores. Em pouquíssimo tempo vai ser possível avaliar os benefícios que essa presença maior traz para o assinante e, consequentemente, para os operadores e para as programadoras. O público gosta de conteúdo brasileiro e é necessário que esse conteúdo seja diversificado, não parta apenas de duas ou três cabeças. Encarar o negócio de TV por assinatura como um mero serviço é algo equivocado, no mínimo reducionista. Televisão por assinatura é televisão. Não é natural, então, que o assinante brasileiro de TV por assinatura não tenha acesso a um tipo de conteúdo com o qual ele tanto se identifica. Melhor seria se essa presença não tivesse que ser garantida por lei – mas os empresários que veem a TV por assinatura como um simples serviço não foram sensíveis a isso. Não há condições de se avaliar o desempenho da produção brasileira pelo mercado se ela está fora do mercado. Por isso, a legislação vai agora ajudar a criar essas condições.

revistapontocom – Quais são os atuais desafios de produzir TV no mundo de hoje? O Brasil enfrenta os mesmos desafios dos outros países?
Nelson Hoineff – Há uma competitividade feroz, mas ao mesmo tempo um grande aumento da demanda. A diversificação dos meios de se produzir e consumir TV é a grande responsável por isso. A TV é cada vez menos massificada, mais voltada para nichos, mais parecida com a sociedade. O Brasil está se saindo bem. É um bom gerador de ideas e de soluções. Em pouco tempo, creio que será um importante exportador de conteúdo e modelos de conteúdo para muitas das formas de consumo televisivo que se conhece.
revistapontocom – O caminho da TV é se reiventar na interface com a web?
Nelson Hoineff – A televisão já está fazendo isso, até porque não é mais possível pensar num mundo não conectado. Se você disser a uma criança que um dia o mundo não esteve conectado, ela vai ter dificuldade de entender. A TV já se conectou. E a web passa a ser mais uma de suas ferramentas. Vai ter agora que encontrar as melhores interfaces. É um longo caminho a ser percorrido, mas isso será feito rapidamente.

revistapontocom – O Festival Internacional de Televisão chega à sua 7a edição/10a edição do encontro. O que o público encontrará neste ano?
Nelson Hoineff – Conseguimos dobrar o numero de pilotos exibidos. Este ano serão 70. Eles representam uma boa parcela do que se pensa em televisão em praticamente todas as regiões do país. Aponta também para a diversidade dos mecanismos de produção. Creio que a mostra de pilotos se transformou na mais importante janela do país para a exibição da televisão que o país está pensando. E isso é só o início. Os Encontros, por exemplo, vão reunir especialistas do mundo inteiro em torno justamente do tema da TV conectada, que é nesse momento a bola da vez no campo do mercado e também dos estudos televisivos.

revistapontocom – Qual a contribuição do Festival Internacional de Televisão (FITV) na recolocação e reestudo do mercado?
Nelson Hoineff – O Festival Internacional de Televisão tem sido um foro permanente para a discussão do papel da televisão, em altíssimo nível. Os Encontros, por exemplo, reúnem todos os anos alguns dos maiores pensadores de televisão do mundo e a repercussão disso já é sentida até mesmo fora do país. Temos ousado bastante na questão da experimentação e da análise da linguagem, com resultados muito favoráveis. No tocante à produção local, a Mostra de Pilotos se transformou também na principal mecanismo para que os produtores possam mostrar aos programadores o que estão pensando e para que os programadores tomem conhecimento das soluções que estejam surgindo para as suas necessidades. O FITV tem feito tudo isso de uma maneira horizontal, transparente, agradável para todos. Tem seguido os princípios do IETV de apostar na importância do estudo do veículo para aprimorar a sua qualidade. Acho que temos tido bastante sucesso nisso.

Arte, web e educação: poder ilimitado

Por Marcia Stein

Uma coisa é certa: a interface entre arte, educação e internet é cheia de possibilidades. O limite? Sim, existe. Chama-se criatividade. Que o diga Francisco Carlos de Carvalho Marinho, professor de curso de cinema de animação e artes digitais da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Líder do grupo de pesquisa 1magináriO: poéticas computacionais e pesquisador do Grupo de Alfabetização e Letramento em Ambientes Digitais Multimodais (Aladim), Francisco acredita que a escola do século XXI deve ser integradora. “Deve pensar não mais só em formar cidadãos cultos e educados, mas em se formar e se reformar constantemente de modo a incluir sistematicamente os novos saberes e as novas experiências que crescem exponencialmente”, resume.

Em entrevista à revistapontocom, o professor explica detalhes dos dois projetos e o objetivo de cada um deles. Fala sobre a importância da internet no ensino aprendizagem dos estudantes e o lugar da escola.

“Não há como pensar a escola do futuro em escaninhos e compartimentos estanques. Escola não é feudo. Os gregos nos ensinaram uma lição que pode ser reaproveitada. Eles pensaram o cosmos, o homem, o universo de maneira integrada e pensavam na praça – ágora – como o lugar de discussão e produção de conhecimento e ação política. Evidentemente não se trata de um recuo no tempo. Tempo esse em que a noção de cidadania começava a brotar. Hoje, a praça na qual estamos inseridos é uma aldeia global conectada digitalmente. A praça somos nós e a Escola é mais um lugar dentro dessa praça. É mais um nó na rede”, destaca.

Acompanhe:

revistapontocom  –  Quais são os objetivos e as interfaces dos grupos Alfabetização e Letramento em Ambientes Digitais Multimodais (Aladim) e o 1magináriO: poéticas computacionais?
Francisco Carlos Marinho – O grupo Aladim é coordenado pela professora Carla Viana Coscarelli, da Faculdade de Letras da UFMG. O segundo, o 1magináriO: poéticas computacionais, por mim e pelo Professor Jalver Machado Bethônico, da Escola de Belas Artes da UFMG. O Aladim é um projeto que conta com a participação de uma equipe interdisciplinar composta por professores e alunos dos cursos de Belas Artes, Computação, Matemática Computacional, Letras e Pedagogia. Tem o objetivo de analisar e criar protótipos de jogos digitais para auxiliar a alfabetização e o letramento digital. O projeto também busca desenvolver jogos que empregam interfaces multimodais como mesa multitoque e visão computacional. Já o 1magináriO é um grupo de pesquisa que tem como meta desenvolver linguagens poéticas que usam o computador (software e hardware) como ferramenta de criação, suporte e meio de apreciação de obras de arte computacional. Desenvolvemos obras de arte no computador para serem vistas no próprio meio. Também procuramos desenvolver interfaces que possam explorar novas possibilidades de expressão artística. Essas interfaces vão desde mesas multitoque interativas para vários usuários a equipamentos robóticos, como máquinas/esculturas musicais que tocam ritmos e músicas de acordo com informações colhidas e processadas por essas máquinas. O ponto de convergência entre os dois grupos é o uso do computador como meio e ferramenta, seja para produção e difusão de conhecimento (educação) ou para experiência artística. Em ambos, usamos interfaces multimodais, como modo de promover níveis diferenciados de interatividade e imersão. Interatividade pode ser entendida como atividade, troca de informações, entre homem e computador. Imersão pode ser considerada como uma característica que significa experiência sensorial e emocional profundas por parte do usuário (aluno, jogador ou espectador) ao utilizar o sistema.  Em sistemas imersivos, o usuário se sente dentro dos mundos digitais sem notar quaisquer dispositivos de interface, quer sejam ícones, menus e mesmos os equipamentos físicos envolvidos na troca de informações entre o usuário e a máquina. Dizemos que na experiência imersiva a interface é transparente para quem usa. É como no cinema, ficamos envolvidos totalmente com a história e nos esquecemos de que uma sessão de cinema é uma projeção de luz sobre uma superfície plana.

revistapontocom – Podemos afirmar definitivamente que a internet e os recursos digitais revolucionaram o ensino e a aprendizagem? É um caminho sem volta?
Francisco Carlos Marinho – A internet é um campo aberto de possibilidades, mas também é um enorme campo de resultados já alcançados. A educação já ganhou muito com o aparecimento da internet. Para citar um exemplo simples, informações e textos, antes restritos às bibliotecas, cinematecas e videotecas, de difícil acesso, agora estão disponíveis, em grande parte, ao público geral. Se na atividade de leitura e no acesso à informação houve um aumento tremendo de conteúdos disponíveis, na atividade da escrita e produção de informação houve um aumento relativo maior ainda, pois os usuários, além de simples leitores também passaram a produzir textos dos mais variados tipos e gêneros. A internet também viabilizou a emergência de sistemas, ferramentas e ambientes para desenvolvimento de conteúdo por parte de usuários. Surgiu não só uma massa enorme de produtores de conteúdo como também novas formas de editoração e de publicação de conteúdo. Exemplo pontual são os grupos de pessoas se organizam para produzir enciclopédias como a Wikipedia. Sites, blogs, e redes sociais são outras redes dentro da rede internet que produzem volumes gigantescos de informação. Temos que aproveitar essas informações da maneira mais eficiente possível. É importante dizer que nem todo texto disponível na web é interessante sob o ponto de vista da educação. Isso implica a necessidade de criar mecanismos novos e usar os já existentes para filtrar as informações que sejam adequadas ao processo de produção de conhecimento. As redes se caracterizam por não ter uma hierarquia definida a priori, ao contrário das escolas que estão estruturadas hierarquicamente. Nas escolas, dentro das salas de aula, a dinâmica metodológica mais comum é aquela em que o professor em pé, na frente dos alunos tenta “transmitir” conhecimentos de qualquer natureza. Essa dinâmica concentra um poder enorme nas mãos do professor e deixa os alunos em situação mais passiva, participando quase que exclusivamente como observadores. Se o professor não corresponde aos requisitos necessários, todos os alunos são prejudicados de alguma forma. A relação de aprendizado nesse modelo é centrada no desempenho do professor.  Não queremos dizer com isso que a estrutura tradicional das escolas deva mudar radicalmente. O que enfatizamos é que existem outros processos que as escolas devem incorporar, entre eles os sistemas digitais e a internet. Na internet, o usuário tem um papel mais ativo. Ele busca informação, filtra as melhores que achar, discute com colegas, pergunta aos mais experientes, enfim interage de maneira ampla com um grande número de usuários/colegas. Nesse modelo, a figura do tutor (ou professor) não tem papel tão centralizador. Seu perfil é mais colaborativo e supervisor. O conhecimento é distribuído e sua produção é articulada colaborativa e coletivamente. É preciso incentivar e incorporar esse tipo de atividade nas escolas. Os processos de construção do conhecimento baseados em redes colaborativas na internet, são mais caracterizados como produção de conhecimento do que aquisição/transmissão de informação. Outro fator extremamente importante com relação à internet é que ela se caracteriza como um ambiente plural de comunicação. A informação flui em todos os sentidos e atinge todos os participantes dos processos de produção de conhecimento. Ou seja, os internautas passam a produzir conteúdos em grupos, trocando informações e constituindo um corpo mais interativo de produção de conhecimento. Quando queremos estudar ou nos informar sobre um tópico específico, quase sempre já encontramos usuários que se habilitaram a produzir tutoriais e conteúdos próprios. É interessante notar que, apesar dos conteúdos partirem de fontes às vezes não muito confiáveis, a própria internet cria mecanismos próprios de autorregulação e controle das informações veiculadas. Casos exemplares são os fóruns de discussão onde encontramos participantes levantando questões e apontando incorreções postadas por outros usuários.  Apesar de a internet possibilitar também a difusão de estruturas hierarquizadas de ensino e aprendizagem, podemos constatar que grande parte do conhecimento é gerado, organizado e mantido pela própria comunidade sem necessariamente ter um órgão regulador impositivo. O que queremos enfatizar é que a internet deve ser colocada à disposição de todos participantes no processo de educação.  Ela faz parte do processo de inclusão do cidadão. A educação se abre, então, para processos que caminham da base para o topo, com a inclusão de usuários participativos em processos colaborativos.

revistapontocom – Essa interface positiva da internet com a educação também se aplica, particularmente, ao letramento?
Francisco Carlos Marinho – Com relação ao letramento, podemos dizer que o próprio processo de escrita passa a ser aperfeiçoado graças à ação cotidiana do ato de ler e escrever. A escrita se manifesta na sua dinâmica própria, seja nos termos informais de chats, e-mails ou mesmo em sites específicos nos quais os textos são extremamente formais como em sites e blogs destinados a juristas. A atividade participativa do usuário e o contato com vários registros, gêneros e tipos textuais permitem a ele vivenciar a experiência da escrita no contexto fim. Ou seja, não é um exercício de sala de aula que simula textos de um ou outro tipo, mas é antes de tudo um exercício de produção de textos para o contexto real em que eles são lidos e escritos. Os mundos digitais, além das redes de comunicação, também possibilitam um tipo especial de conhecimento que não poderia ser produzido de outra maneira que não em computadores. Estamos nos referindo ao conhecimento por simulação tais como: pesquisar como uma epidemia pode se propagar, como um vírus se difunde ao redor do mundo, como a bolsa de valores reagiria se houvesse um fenômeno devastador qualquer, como o clima na terra vai mudar e outros tantos quanto se queira imaginar. Esses mundos virtuais de simulação têm potencial pedagógico enorme, principalmente quando a eles se alia o prazer dos jogos de um modo geral e, em particular, os jogos digitais. Jogar e simular uma situação qualquer que pode ser objeto de estudo pode ser uma experiência ativa e estimulante. Alguns jogos já se tornaram ferramentas de estudo em vários campos do conhecimento. O jogo SimCity (simulador/gerenciador de cidades) de Will Wright já foi usado para mostrar aos agentes de políticas públicas como é complexo administrar uma cidade. Nosso grupo tem particular interesse no desenvolvimento de jogos educacionais que tenham uma estrutura própria, que não seja a mera transposição para o meio digital de jogos e conteúdos já conhecidos. O jogo da memória, por exemplo, é algo que invariavelmente vem à mente dos educadores quando se pensa em jogos digitais. Tal jogo é o resultado de um jogo já conhecido aliado a conteúdos diversos. Não que haja algo de errado na proposta de produção de tais jogos, mas o que queremos é desenvolver linguagens em que aprendizado e jogabilidade não sejam coisas distintas, mas que façam parte de uma mesma dinâmica, com uma lógica própria. Para que as novas formas de produção de conhecimento sejam bem aproveitadas e alcancem um número maior de pessoas é necessário tomar algumas atitudes em várias esferas diferentes. As mudanças devem vir desde os órgãos governamentais até a reestruturação dos hábitos e metodologias dos professores e agentes de educação. Com relação às políticas governamentais devemos levar em conta não só a inclusão digital, mas principalmente a formação digital. O Projeto Prouca (Um Computador por Aluno), entre outros, é uma iniciativa muito interessante de incluir digitalmente grande parte das crianças nas escolas públicas. Mas é necessário qualificar essa inclusão com a formação dos professores que não nasceram ou cresceram em meio digital. As Universidades Federais têm que ter papel importante no desenvolvimento de metodologias e propostas de produção de conhecimento que levem em consideração a realidade dos professores que ainda não têm “habilidades digitais” desenvolvidas para alcançar um bom desempenho no processo de ensino/aprendizagem como um todo.

revistapontocom – No mundo digital, os games são um diferencial. Como trazê-los para a escola?
Francisco Carlos Marinho – As novas tecnologias nos permitem combinar, expandir e criar novas possibilidades de jogos envolvendo várias habilidades, físicas ou mentais. Hoje vemos como as tecnologias que conseguem capturar gestos dos usuários e usá-los como forma de interação com mundos digitais. Nosso grupo desenvolve vários ambientes de imersão com conteúdos ligados às temáticas de meio ambiente e sustentabilidade. O exemplo da figura 02 apresenta uma instalação interativa chamada de “Piracema”. O objetivo é educar pela experiência de simulação e jogo. Não se trata de passar conceitos literalmente, de divulgar uma informação, mas de viver uma experiência sensorial e perceptiva que irá subsidiar a construção dos significados dos conceitos correlatos à própria experiência. Os jogos e novas tecnologias se conectam de modo a construir novas possibilidades expressivas em cada uma das modalidades de interesse que descrevemos anteriormente, ampliando suas potencialidades. Tecnologias como reconhecimento de gestos, por exemplo, podem ser extremamente interessantes sob os pontos de vista artístico, pedagógico e científico. Tais tecnologias podem ajudar pessoas portadoras de necessidades especiais, podem criar novas formas de interação homem computador no campo da dança, podem dar luzes a processos ligados à robótica etc. Recentemente e Microsoft lançou um gadget (dispositivo) chamado “Kinect”. É uma câmera que consegue analisar o espaço tridimensionalmente, reconhecer a estrutura de ossos do jogador e “linkar” essa estrutura ao jogador de modo que seu avatar responda no mundo virtual com os mesmos movimentos feitos pelo usuário. O dispositivo pode ainda analisar de onde vem uma fonte de som, reconhecer fala (em inglês) etc. Bem, isso tem várias consequências em termos de aplicações em interface, experiências imersivas e interatividade. Podemos criar interfaces “táteis” com pessoas tocando em elementos virtuais. Mas o que significa isso sob o ponto de vista da educação? Significa que podemos criar ambientes digitais que: favoreçam a imersão (atenção); expandam a experiência sensorial; que possam ampliar nossas formas de (e entendimento sobre) comunicação e expressão de ideias, sentimentos e emoções. As redes sociais são decorrentes de tecnologias computacionais e das tecnologias de inteligência e informação. Redes são formas de organização que não são hierárquicas, não têm centro e são mais capazes de comunicação multidirecional. Coloca em um mesmo nível de interação e participação pessoas com diferentes graus de conhecimento, fazendo com que o conhecimento possa ser compartilhado e construído colaborativamente. Exemplo disso são os softwares livres cujos autores anônimos colaboram para a construção de aplicativos e programas que podem ser usados livremente e gratuitamente por qualquer pessoa que tenha acesso a um computador e à Internet. As redes não são somente uma forma de comunicação, mas uma forma de organização política.  No que toca as ditas redes sociais há muita discussão. Algumas são consideradas supérfluas e limitantes, como Twitter, Orkut etc. Entretanto as limitações impostas pelos sistemas dessas redes sociais particulares favorecem a criatividade por parte de seus participantes na medida em que estes são capazes de construírem, sem nenhuma direção imposta de cima para baixo, capacidades e habilidades comunicativas extremamente eficientes para o meio, a despeito da patrulha ideológica da “norma culta”. Os usuários criam códigos que são eficientes para o meio e o propósito a que se destinam. Falar que essa prática é nociva ao bom desempenho linguístico é, no mínimo, desconhecer que a língua é viva e dinâmica, assim como a rede. Essas são qualidades importantes. Entretanto, há o outro lado da moeda. As tecnologias impõem uma velocidade de aprendizado enorme, na mesma maneira com que torna obsoletos alguns sistemas extremamente interessantes. Por exemplo, programas que “rodavam” em determinados Sistemas Operacionais, dois ou três anos depois não rodam mais no novo sistema operacional. Isso tem implicações várias, desde a manutenção da memória de processos e produtos até a imposição de um tempo rapidíssimo para atualização e conhecimento das novas possibilidades que surgem a cada dia com novos aplicativos, sistemas operacionais e tecnologias de interface. Esse é um problema com o qual a rede deve lidar.Nossos grupos de pesquisa também estão atentos tanto para a produção de novidade quanto para a necessidade de uma memória de processos e produtos, de experiências que não deveriam se perder em função de imposições mercadológicas. Estamos também atentos, e temos pesquisa na área, com relação aos dispositivos móveis (celulares, tablets etc) como ferramentas e meios interessantes para produção de conhecimento e expressão artística. A explosão desses meios e formas de comunicação ainda está longe de alcançar as escolas. Nosso dever é pensar como utilizar esses recursos de forma a produzir conteúdos de qualidade. Na realidade, estamos pensando as formas de comunicação como um todo, uma espécie de grande rede que engloba outras redes, de saberes que englobam outros saberes. Outro fator importante que sempre levamos em consideração é pensar nas novas tecnologias como um modo de aproximar pessoas afetivamente. O meio digital é importante, mas a presença física e a experiência sensorial e corpórea coletiva são fundamentais. As instalações mostrada nas figuras anteriores pressupõem o contato verbal, a comunicação corporal além da imersão digital.

revistapontocom – Quais são os principais problemas e desafios que hoje impedem as escolas de atrair seus alunos e cumprir com eficácia seu papel social?
Francisco Carlos Marinho – As escolas devem estar preparadas para seu tempo. No caso brasileiro, além das dificuldades que incluem a falta de infraestrutura, há a questão da qualificação dos educadores e profissionais de ensino. Quando falamos em inclusão digital notamos o grande descompasso tecnológico e metodológico que existem entre o estado da arte em educação digital e a capacitação dos professores e das escolas. É preciso ressaltar que uma geração de nativos digitais (pessoas que já forma criadas com acesso e uso de computadores) convive com uma geração ainda ligada a estruturas midiáticas diferentes. De um lado, os nativos digitais estão acostumados ao hipertexto, à hipermídia, às redes sociais e a estruturas narrativas não lineares. De outro, agentes de educação que não nasceram e cresceram em meio digital e tem dificuldade de lidar com a não linearidade. Essa geração cresceu vendo filmes e lendo livros. É preciso aproximar as experiências. Aqui vemos dois modelos de comunicação que entram claramente em conflito. De um lado o modelo das TVs com comunicação unidirecional sem a perspectiva da intervenção do usuário no conteúdo produzido. De outro, o modelo da Internet que é multidirecional e propicia a participação ativa dos usuários. Cada qual tem seus limites, potencialidades qualidades e deficiências. Precisamos de modelos que possam integrar esses discursos de natureza diferente. É preciso pensar em troca de experiências em vez de exposição unilateral de vivências e saberes. As gerações podem e devem trocar suas histórias e o modo de contá-las. Atrair alunos é importantíssimo, tanto quanto incentivar e incluir os professores nessas novas metodologias de ensino, aprendizagem e produção de conhecimento. A escola deve ser pensada como um corpo dinâmico que varia com o tempo e com as circunstâncias, pois o conhecimento é assim. O papel social da escola é preparar indivíduos capazes de ler o mundo criticamente para torna-lo melhor. Esse preparo é uma via de várias mãos. Educar hoje significa pensar em comunicação, tecnologia, cidadania etc. Não cabe mais a um ministério o dever de gerir e propor políticas públicas para o setor. É necessário colaboração de vários setores. O mundo está mais conectado e articulado. Presente em praticamente todos os lares do Brasil, a TV aberta apresenta poucos conteúdos de qualidade. O projeto da TV digital interativa ainda engatinha e é totalmente desvinculado da Internet. As escolas estão sendo equipadas aos poucos com computadores e acesso à Internet. O acesso é ainda muito reduzido para as demandas digitais de nossas escolas. Quando as escolas têm acesso a conteúdo digital, elas têm ainda que competir pela atenção dos meninos que tem experiências em lan houses. É fundamental integrar a grande variedade de formas e meios de comunicação de modo a alcançar o maior úmero possível de pessoas. Essa integração não é somente uma integração numérica e de meios, mas antes de conteúdos e da qualidade desses conteúdos. Precisamos nos preparar para esse desafio.

revistapontocom – Neste sentido, para que escola vocês criam e formulam esses projetos?
Francisco Carlos Marinho – As escolas em foco são as escolas públicas de Ensino Fundamental e Médio. Pesquisamos tecnologias e metodologias de ensino e aprendizagem de baixo custo que privilegiam atividades fundamentais como colaboração, pró ativismo, criatividade, responsabilidade social, cultural e ambiental, crítica e reflexão e cidadania. A lista de categorias é grande, mas elas se articulam e se entrelaçam necessariamente. Ser um cidadão do século XXI é ser cidadão da história entendida como um fluxo, uma dinâmica entre passado, presente e futuro. Podemos ver a questão do futuro sob outra perspectiva sem ser a cronológica.  Podemos pensar sob a perspectiva lógica. Se considerarmos alguém que nunca leu Aristóteles, podemos pensar que a experiência da leitura desse autor do passado é ume experiência futura para o leitor. É um futuro metodológico também. É novidade. É criatividade. É inovação. Com relação ao conhecimento científico, ele pode ser cumulativo no sentido em que uma teoria pode vir a substituir a outra. Mas devemos pensar que nem todo conhecimento é um saber científico. A arte e a filosofia, entre outros saberes, são importantes e são sempre relidos e reinventados a partir das fontes. Sob o ponto de vista da escola, devemos pensar principalmente em como conectar conteúdos, tecnologias, metodologias, heurísticas, processos, atividades. Não há como pensar a escola do futuro em escaninhos e compartimentos estanques. Escola não é feudo. Os gregos nos ensinaram uma lição que pode ser reaproveitada. Eles pensaram o cosmos, o homem, o universo de maneira integrada e pensavam na praça (ágora) como o lugar de discussão e produção de conhecimento e ação política. Evidentemente não se trata de um recuo no tempo. Tempo esse em que a noção de cidadania começava a brotar. Hoje a praça na qual estamos inseridos é uma aldeia global conectada digitalmente. A praça somos nós e a Escola é mais um lugar dentro dessa “praça”. É mais um nó na rede. Certamente um nó fundamental através do qual passam vários fios de conexão. Nesse sentido, a Escola deve ser integradora. Deve pensar não mais só em formar cidadãos cultos e educados, mas em se formar e se reformar constantemente de modo a incluir sistematicamente os novos saberes e as novas experiências que crescem exponencialmente. Especificamente, nosso grupo de pesquisa está trabalhando com a educação em rede através de jogos digitais colaborativos e coletivos. Essa escolha se deve também a oportunidade circunstancial de trabalhar junto ao projeto Prouca (Um Computador por Aluno) na cidade de Tiradentes onde a UFMG, através da Fundação Rodrigo Melo Franco de Andrade, tem atuação. Estamos desenvolvendo um projeto em acordo com o BNDES para a produção de conteúdos específicos paradidáticos em forma de jogos digitais. Esses jogos tratam de problemáticas pertinentes ao cotidiano dos cidadãos daquela cidade. O conteúdo proposto, como princípio metodológico nosso, deve brotar da comunidade a que se destina o jogo. Especificamente em Tiradentes estamos propondo o jogo “Quintais” que tem relação com o patrimônio cultural, histórico e de biodiversidade ligado à Serra São José. A ideia é que os conteúdos dos jogos sejam construídos pela equipe de nossos pesquisadores e professores e a comunidade ligada à educação daquela cidade. Há um conjunto de propostas de trabalho que inclui formação de professores da rede pública de ensino para capacitá-los a produzir conteúdos digitais de qualidade. Quando pensamos em competências, capacidades e habilidades, entendemos um todo, no qual participam todos como aprendizes e professores, enfim como colaboradores e coprodutores. Partindo desse pressuposto, entendemos como capacidades e habilidades um conjunto de funções e competências de toda uma comunidade que se pretende ativa, cidadã, criativa, participativa, crítica, reflexiva, inovadora e desafiadora.

revistapontocom –  A parceria entre universidades e escolas é necessária e fundamental?
Francisco Carlos Marinho – As universidades têm um papel fundamental que é o de formação dos professores. As pesquisas na ordem das novas tecnologias e metodologias de produção de conhecimento são fundamentais para o desenvolvimento da educação de uma forma geral. As escolas de Ensino Fundamental e Médio devem estar incluídas necessariamente nesse processo. Quando falamos de escolas envolvidas em processos de pesquisa falamos também de alunos, não como dados de experiência pedagógica, mas como propositores de caminhos e possibilidades que estejam em consonância com suas esperanças, preocupações e dúvidas. O exemplo citado anteriormente sobre o projeto na cidade de Tiradentes exemplifica, de maneira breve e pontual, os agentes que pretendemos articular para a produção de conhecimento de qualidade. Incluímos no projeto de construção dos jogos a qualificação docente como condição de produção do jogo enquanto método e conteúdo. Toda parceria, por princípio filosófico, e interessante. Devemos, entretanto saber como articular tais parcerias para a produção de conhecimento e para a educação de uma forma mais ampla. A internet é o exemplo vivo de como parcerias podem ser interessantes. Um bom “navegador” de Internet é aquele que sabe escolher os portos seguros em que atracar. Sabe escolher os lugares que são pertinentes ou não.  O que devemos fazer é criar as condições para que as parcerias sejam auto-organizadas e não impostas de cima para baixo. Criar condições significa uma buscar conexões que são estruturalmente interessantes, como, por exemplo, articular TVs, internet, redes de dispositivos móveis, produtores independentes, universidades etc, de modo a construir uma rede mais poderosa sob o ponto de vista da formação do homem.  Certamente esperamos também de todos os órgãos competentes (do governo ao estudante) a mesma postura do navegador sábio que procura rotas, caminhos (métodos) que nos levem a novos mundos, cheios de oportunidade e potencialidades.

Quem cuidará das crianças?

Por Isabel Gardenal
Jornal da Unicamp

Alex acaba de nascer, menino forte e saudável. Apesar de muito felizes, os seus pais ainda não sabem o que fazer após a licença-gestante da mãe, já que os dois trabalham fora e não têm parentes próximos para ajudá-los a zelar pela criança. Essa história, embora não sendo real, se parece muito com a de outros bebês. Num mundo exigente e que relega a infância a um segundo plano, novos desafios se impõem para que os pais consigam de fato educar os seus filhos. Parte desses desafios é lembrada pelo pediatra José Martins Filho em sua obra recém-lançada pela Editora Papirus – Quem cuidará das crianças? A difícil tarefa de educar os filhos hoje. “Se continuar desse jeito, e a sociedade seguir com outros interesses que não a preocupação com a infância, o futuro será muito incerto”, constata o autor.

De acordo com Martins Filho, professor emérito e ex-reitor da Unicamp, o livro completa uma trilogia voltada para as relações das famílias com as crianças, da sociedade com a criança e da criança na sociedade. Na primeira, presente no livro A criança terceirizada, já em sua sexta edição, ele tratou da dificuldade das famílias cuidarem dos filhos, tendo que deixá-los sob os cuidados de terceiros. A seguir, o autor percebeu duas grandes necessidades de hoje: que a educação deve vir do lar e que é importante ficar com as crianças. “É preciso dar afeto e carinho, mas também saber educar e colocar limites. A escola informa, a família educa”, expõe o pediatra, o que originou o segundo livro – Cuidado, afeto e limites: uma combinação possível, em sua terceira edição, escrito em parceria com o psicólogo Ivan Capelatto.

Na nova obra, o pediatra amplia a discussão em torno das crianças, expondo a problemática dos desvios de conduta, os vícios, a sexualidade e o consumismo exagerado, entre outros. Discute ainda a questão da violência urbana, a qual acredita que tenha raízes na ausência dos pais na educação dos filhos, ao não apontar os limites necessários a um bom desenvolvimento emocional e cognitivo.

A situação piorou bastante, pontua o médico, com as mudanças da sociedade nas últimas quatro décadas, isso de modo incipiente já a partir da Segunda Guerra mundial, diante das necessidades econômicas e da tarefa que a mulher passou a exercer no mercado de trabalho, o que é justo, opina o pediatra. Mas à medida que a família começou a não poder cuidar da criança e ela começou a ser entregue em instituições precocemente, sofreu as consequências do desmame fora de hora. “É um sinal dos tempos.”

À medida que o tempo corre, verifica-se um distanciamento do cuidar das crianças pela família. E elas, cedo, estão sendo postas à disposição de outros que não as geraram e não fazem parte de suas famílias, sendo que a relação de amor e de afeto marca a personalidade da criança e a cognição, salienta Martins Filho. “Deste modo, é preciso que se tome uma decisão logo no primeiro ano de vida do bebê: dar mais atenção ao filho do que ao próprio trabalho.”

Para o pediatra, as leis brasileiras deveriam dar à mulher o direito de ser livre, de trabalhar e de ser mãe. “Algumas não querem ser mães: então não sejam. Se querem, têm que ter tempo para cuidar do filho e não delegar esse cuidado totalmente a outras pessoas. Depois de muitos anos, essa ausência aparece no relacionamento dos pais com os filhos e na família. E aí pode ser tarde demais. Se você não pegar na mão de seu filho de três, quatro anos, não pense que, quando ele for adolescente, isso será fácil. É preciso pegar desde o começo”, aconselha.

Pais jovens

Uma discussão muito séria na sociedade ainda é que os pais jovens não se dão conta do que é ter um filho. Há quase uma mitificação da maternidade e da paternidade. Em oposição, o bebê exige muito. Ele quer presença, cuidado, acordar de madrugada, ser amamentado. “Criança precisa ser cuidada. E os cuidadores na maior parte do mundo, até pela personalidade, são mulheres, por cuidarem dos bebês prioritariamente”, enfatiza o médico. “Até parece uma figura atávica. Só que não penso que a mulher deva largar tudo para cuidar da casa e da criança tornando-se infeliz.”

Se os pais quiserem filhos, afirma o pediatra, então devem saber que isso poderá mudar a vida deles. “Façam tudo para ter uma licença-gestante mais prolongada: usem o máximo das férias e da licença para ficar com o bebê. E, retornando ao trabalho, que a mulher continue amamentando. Vão à escola ver a criança sempre, liguem para lá, vejam a criança na internet (se existir este recurso) e saiam para passear juntos no fim de semana.”

Vai aí uma advertência do autor do livro: passeio não é em shopping center e em supermercado, o que pode colaborar para um consumismo futuro. Passeio de criança é em jardim, em praia, no campo. Envolve brincar no quintal, ir ao teatro e à livraria, rezar para a criança – se isso fizer parte da crença. “Fiquem com a criança ao máximo, pois ela precisa lembrar essas coisas dos pais para se sentir bem”, garante.

Superação

Nota-se, felizmente, que alguns adultos passaram por problemas na infância e que conseguiram vencer pela sua capacidade de resiliência. Em geral, tiveram os cuidados de uma avó carinhosa ou de uma babá dedicada. Há bons exemplos na história de pessoas célebres que foram crianças sofridas, como o artista Charles Chaplin e a soprano Maria Callas. Não se sabe se eram emocionalmente felizes, porém foram pessoas extraordinárias, relata o médico.

Nos trabalhos científicos, no entanto, verifica-se que, grande parte das crianças que passaram por momentos difíceis, tende a apresentar insegurança, irritabilidade, dificuldades de relacionamento social, depressão e deficit de aprendizagem. Martins Filho sustenta nesse livro que é preciso ter uma sociedade que compreenda o valor da família para o desenvolvimento psicossocial. Quem tem tempo de cuidar dos seus filhos e dar-lhes a devida atenção, vai formar seres humanos que poderão melhorar a sociedade.

Segundo o pediatra, impõe-se hoje uma tomada de consciência a fim de resgatar o hábito de amamentar, lidar com as crianças e procurar conversar com elas diariamente, estar presente em suas dificuldades e educá-las, apresentando-lhes o que é o certo (e o que não é) socialmente, dando-lhes noções de filosofia, crescimento, justiça, além de respeito ao próximo, aos superiores e aos mais velhos.

A nova geração de pais foi criada dentro do “proibido proibir, não diga não, deixa fazer o que quer”, remete o autor. “Foram filhos que tiveram pais rígidos e que não são assim com os seus. Ao contrário. Os filhos atuais são rígidos com os pais, tiranizando-os por não terem sido preparados para uma relação afetiva, e sentem falta dela.”

Ocorre que já foram propostas algumas soluções, assinala Martins Filho, como na Hungria, de enviar crianças para locais em que pai e mãe profissionais são pagos para cuidar delas em ‘casas de carinho’. Essa experiência parece não ter logrado êxito, revela. Entretanto, não se trata de uma experiência necessariamente nova, já que na Revolução Francesa, lembra, as crianças já eram colocadas em carroças e levadas ao interior para as mães vivenciarem a política.

“Vai chegar o momento em que a sociedade irá robotizar a assistência à criança. Em livros americanos já se fala de alarmes que filmam os bebês e, quando se mexem no berço, ouve-se a voz da mãe, gravada especialmente para eles. É um absurdo”, queixa o pediatra, que há 44 anos se dedica à criança e ao adolescente na sua profissão. “E vejam que essas crianças provavelmente chegarão aos 100 anos face ao avanço da medicina e dos cuidados gerais, da melhor nutrição e da melhor vacinação.”

E a novela continua na internet

Por Marcus Tavares
Editor da revistapontocom

É consenso a qualidade e o profissionalismo das telenovelas brasileiras, bem como o impacto que exercem sobre a população.  Aqui no Rio, nem se fala. Afinal, a cidade é sede da produção dos principais folhetins, quando não cenário das histórias. É verdade que a audiência já não é mais a mesma. Cada vez mais, as tramas concorrem com outros interesses dos consumidores, outras programações da própria TV e outros meios de comunicação, como a internet. E é aí que a telenovela vem chamando a atenção.  Você por um acaso já acessou o site oficial de cada novela? Deveria, pelo menos por curiosidade.

Os sites são um completo produto de informação a respeito da história que está sendo contada e de entretenimento. A novela está se reinventando no mundo virtual, trazendo para o telespectador e ou internauta novas formas de interagir com a vida e com a trama dos personagens. Há de tudo.

Atualmente, no site da novela Aquele Beijo é possível visitar a boutique Comprare, uma loja de roupas classe A, comandada por Maruschka, personagem de Marília Pêra. Não apenas visitar, mas se ver na tela do computador provando parte do figurino que é usado pelas atrizes. Se alguma roupa lhe cair bem, você pode tirar uma foto e guardar como recordação.

Já na página da novela Fina Estampa, todos são convidados a seguir os passos do adolescente René Júnior, personagem de David Lucas, filho de Tereza Cristina (Christiane Torloni), que passa horas navegando no site de namoro Tasozinhopqquer.com. Pode acreditar, o site Tasozinhopqquer.com existe, com mais de 30 milhões de internautas cadastrados. Nem o remake da novela o Astro escapa. No site, você pode conferir, se é que tem coragem, o que os astros reservam para o seu futuro nos próximos 50 anos. Para ouvir, ler e ver o oráculo é preciso se concentrar e deixar sua impressão digital.

Brincadeiras à parte, a pergunta é: o que tudo isto significa? Uma nova forma de ver e se relacionar com as novelas diante das tecnologias digitais? Com certeza e diria mais: uma estratégia minuciosamente pensada com o objetivo de tentar conquistar a audiência daqueles que não têm o costume de ver novelas. Para aqueles que já têm, é a maneira de fazer a ponte do capítulo de hoje com o de amanhã. No Japão, novelas seriadas no celular e na internet já fazem sucesso e há algum tempo. Por aqui, parece que ainda vai demorar um pouco, mas o terreno já está sendo preparado.  Quem disse ou pensa que novela é coisa do passado, está enganado.

Fonte – Jornal O DIA