Entrevistas

Confira, abaixo, algumas das entrevistas publicadas pela revistapontocom ao longo de 2011. Leia, comente e divulge. Acesse clicando nos links.

– Cinema e educação para além do arco-íris
Entrevista com a professora Monica Fantin, da UFSC

– Um novo caminho para animação

Entrevista com a diretora Patricia Alves Dias

– Cineclube nas escolas do Rio

Entrevista com a coordenadora Adelaíde Léo

– Lutas na tevê
Entrevista com a professora Ana Paula Fonseca

– A escrita dos nativos digitais
Entrevista com Ilana Eleá

– Biblioteca: seja bem-vindo
Entrevista com Marília Dias

– Os jovens em cena – You Tube

Entrevista com Nilza Alves

– Mídia e teatro infantil
Entrevista com Luana Piovani

– Homofobia: folhetim polêmico
Entrevista com o professor José Guilherme Freitas

– TICs na educação
Entrevista com o professor Luiz Fernando Gomes

– Pelo direito à cidade
Entrevista com Jailson de Souza

– Em busca de um novo indivíduo
Entrevista com Mukara Meredith

– Oficinas de mídias acessíveis
Entrevista com Claudia Werneck

– Professores na TV
Entrevista com Jô Levy

Cotas de conteúdo nacional

DEM e SKY TV entram na Justiça contra a nova Lei de TV por assinatura
Entidades questionam a constitucionalidade das cotas

Por Marcus Tavares

Fruto de uma reivindicação histórica de produtores independente e de instituições da sociedade civil organizada, que lutam por uma mídia mais democrática no Brasil e com foco na produção brasileira, as cotas estabelecidas pela nova Lei de TV por assinatura – 12.485/2011 – ainda nem saíram do papel e já estão sendo questionadas na Justiça. Nesta semana, o partido dos Democratas e a operadora de TV por assinatura SKY TV moveram ações contra a lei. A pergunta é: por quê? Por que criticam as cotas?

Talvez, a única razão esteja ligada a interesses econômicos e ou políticos daqueles que são contrários e que podem estar ligados aos grandes conglomerados de mídia do país, pois se pensarmos na população brasileira, na historiografia do controle dos meios de comunicação que estabelecem há décadas, segundo seus próprios interesses, a cadeia produtiva  do setor – a criação, produção e distribuição do conteúdo audiovisual, sem ao menos respeitar os preceitos constitucionais do artigo 221 -, as cotas é um marco democrático no país, um avanço. Mesmo no pequeno percentual e universo da TV por assinatura.

Art. 221. A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios: I – preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas; II – promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação; III – regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei; IV – respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.

Não digo que as cotas é a solução, mas, seguramente, um primeiro passo para romper com a cadeia produtiva de conteúdo audiovisual no Brasil. É verdade que a produção de conteúdo nacional pelas emissoras de TV por assinatura e TV aberta investem na produção brasileira, trazendo histórias e narrativas do nosso povo. Mas é pouco. Ao estabelecer as cotas, a lei traz um novo horizonte de uma produção diversificada com conteúdo e olhar nacional criado, produzido e realizado por produtoras independentes. São outros olhares, propostas, visões, entendimentos, linguagens.

Pela lei, daqui a três anos, os canais – por exemplo o de documentário, de animação e de filmes – terão que exibir, em horário nobre, 3h30, por semana, de conteúdo nacional do mesmo gênero. Além disso, de cada três canais oferecidos, pelos pacotes da TV por assinatura, um tem que ser nacional. Como ser contra isso?

Reserva de mercado? Se for uma reserva de mercado para uma produção de qualidade nacional, que seja. E será bem-vinda, sem dúvida. Essa mínima proteção ao mercado nacional audiovisual, que deveria ser inclusive cumprido na TV aberta, não é nenhum absurdo, pelo contrário, é estratégia, é formação, é educação. O que já é feito em muitos países e há algum tempo.

Na perspectiva de crianças e adolescentes, as cotas vão ao encontro de um desejo de vários especialistas e defensores da causa. O que de conteúdo nacional audiovisual efetivamente temos para nossas crianças e jovens que vem sendo produzido pelos canais, sejam eles da TV aberta e ou da TV por assinatura? Pense em relação, por exemplo, à animação, aos desenhos animados? Aos programas?

Por trás da discussão, está a questão da entrada das companhias de telefonia móvel no mercado de TV por assinatura, concentrado nas mãos de poucas empresas, como a NET e a própria SKY. Talvez, esse seja o principal problema para aqueles que estão contrários à lei, que passou nada menos do que quatro anos em tramitação no Congresso, numa ida e vinda de negociação e lobby de todos os setores.

O que chama atenção no texto do recurso impetrado pelo DEM é que o partido, ao questionar a constitucionalidade do artigo sobre as cotas, fala em nome da liberdade do consumidor. A cota, diz o texto, “fere a liberdade do consumidor, que adquire programação específica que bem lhe agrade. Viola-se o direito à livre iniciativa e a liberdade de expressão, além de restringir o direito de liberdade da comunicação social. A prevalecer os comandos normativos da Lei nº. 12.485/2011, os consumidores terão de comprar programas de produtoras brasileiras, queiram ou não, sob imposição do Estado. Isso implica em reserva de mercado em favor desses grupos, que sequer terão que se preocupar com a qualidade dos programas ou com o interesse do consumidor final”.

Pergunto: quando qualquer cidadão compra, hoje, um pacote de TV por assinatura, ele pode escolher quais canais deseja assistir? Ele pode escolher a grade da programação dos canais que está sendo oferecida? Na TV aberta, isto é diferente? Sim, não pagamos nenhuma taxa ou imposto para assistir à programação da TV aberta, mas trata-se de concessão pública. Quem defende a população da programação da TV aberta? E da TV por assinatura? O DEM fala em nome da população brasileira? Creio que não. Pelo menos, não conheço e não ouvi nenhum setor da sociedade civil se posicionar contra o estabelecimento de cotas. Provavelmente, boa parte da população até desconhece o assunto. Afinal, discussões sobre a regulação, democratização e responsabilidade da comunicação no país quase nunca são publicizadas pela mídia, pelos principais jornais e telejornais. Quando chegam, geralmente é carregado da palavra censura.

Outro questionamento do DEM é que a lei confere poderes à Ancine de regular e fiscalizar e regular os artigos. O partido é contrário, alega que a Constituição Federal veda esta atribuição. Mas cabe lembrar que o projeto, sancionado pela presidente Dilma Rousseff, foi aprovado pelos parlamentares. Foram eles que, representando o povo, aprovaram a redação da lei. Agora, em nome do povo, entram com ação contra o projeto. Daqui a pouco vão trazer à tona, como disse, a questão da censura. Que o Estado brasileiro está ou quer promover a censura, coibir o direito à liberdade de expressão. Creio que este tema já está bastante ultrapassado. O que está em jogo, de um lado, são os direitos a uma mídia plural e uma regulação e fiscalização para que a lei se cumpra. De outro, parece, interesses políticos e ou conjugados com econômicos.

Em troca de e-mail com a revistapontocom, Cesar Maia, filiado ao DEM, que já ocupou o cargo de senador, deputado federal e prefeito da Cidade do Rio de Janeiro, explica que “em essência, os Democratas questionam os poderes que foram atribuídos pelo novo marco legal à Ancine; segundo a inicial, “poderes irrestritos para regular o setor audiovisual de acesso condicionado, transformando o órgão em regulador absoluto de atividades de produção, programação e empacotamento relacionadas à distribuição do serviço de televisão por assinatura, com poderes para editar normas, expedir licenças e aplicar sanções”. Segundo o DEM, a Constituição “veda que uma lei estabeleça princípios de atividades de comunicação e, em seguida, delegue a uma agência reguladora a implementação destes princípios”.

Quanto às cotas, Cesar Maia afirma: “não fui informado. Não sabia e não vejo razões. Estarei em Brasília e vou questionar isso”.

A escola pública no show da vida

Por Rodolpho Motta Lima
Advogado e professor de Língua Portuguesa.

Instigado por comentários que li/ouvi, resolvi assistir, no último dia 27, ao programa “Fantástico”. Fiz essa grande exceção  a um comportamento de muitos anos,  mantido para o bem dos meus fins de domingo, porque queria ver o quadro  “Conselho de Classe”, em que a Globo vem expondo o que resolveu editar depois de muitas dezenas de horas de gravação no colégio República do Peru, escola pública do Rio de Janeiro. A justificativa: enfocar como é o dia a dia de quatro professores da 6ª. série do Ensino Fundamental daquele estabelecimento. Visto o programa – a terceira apresentação de uma série de cinco, tendo, em média, 12 minutos de duração cada uma -, resolvi acrescentar minha opinião a umas tantas outras, tendo antes o cuidado de procurar conhecer, na internet, o teor das duas primeiras  abordagens.

Lamentei muito do que vi e ouvi. Não se deve, seja em nome do que for, submeter um assunto sério como a educação pública a uma exposição do tipo “reality show”, em que professores, ingênuos talvez, expõem a si próprios e aos seus alunos em atitudes que mais parecem buscar os tão falados 15 minutos (no caso, seriam 12) de fama…

Julgo que, aos mestres em questão – cuja qualidade e intenções não coloco em discussão, até porque seria leviandade, já que não os conheço – talvez tenha faltado malícia para reconhecer que não seria deixando-se apresentar sob rótulos  como “exigente”, “linha dura”, “ mãezona” e outros, que estariam exemplificando o bom educador. Creio não ter havido sensibilidade nos momentos em que, na menção aos alunos, deixaram transparecer a visão (que espero que não tenham) de que o problema do ensino é o estudante, com seu “rebolation” em sala de aula, suas bolas arremessadas para o ar, sua preocupação com maquiagem, sua indisciplina  e sua desmotivação. A meu juízo, faltou-lhes, ao menos nesses três primeiros “blocos”, uma atitude crítica quanto às condições do ensino no país – não apenas o ensino público, mas a educação vista como um todo, em uma sociedade repleta de mazelas.  E então, em meio aos  novelescos perfis traçados para eles, perderam uma excelente oportunidade de não se deixarem levar pelo estrelismo, um dos perigos da minha profissão.  A quem serve uma negativa exposição dos alunos e do ambiente de uma escola pública? Serve a quem esse consentido clima “Big Brother Brasil”, com microfones e câmeras “escondidas” em busca de  “espontaneidade”?

A “chamada” para o quarto bloco – que estará indo ao ar quando este texto já estiver circulando no DR – fala de uma festa dos professores, gente “que vai dançar até o amanhecer”. Nada contra as festas de congraçamento, nada contra a alegria e descontração. Mas tudo a favor, também, da sensibilidade para ao menos tentar imaginar hipotéticos objetivos e preservar-se.

Terão sido os “atores” previamente consultados quanto à versão final dos programas? Acredito – ou quero acreditar – que não. Penso que talvez percebessem, então, que em nada ajudaria os propósitos da educação uma frase dita sem pensar de professor confessando ter relação “de amor e ódio” com os alunos; que a autopromoção embutida em alguns depoimentos não é uma contribuição positiva; que o tom “tropa de elite” dos comandos de alguns  mestres, aí incluída a contagem de 72 “Senta!” proferidos por um único professor, não é pedagogicamente adequado; que, enfim, a edição deixou mal a eles e a nós, que defendemos a qualquer preço o democrático ensino público.

Resta questionar, também, a Secretaria Municipal de Educação. Será que não se preocupou em analisar o que iria ao ar como resultado de tanto tempo de gravações? Será que considerou satisfatória a edição? Terão sido ingênuas as autoridades educacionais ou também elas terão aderido ao desejo da exposição , mesmo que do tipo “falem mal , mas falem de mim”?  Em alguns depoimentos na internet, que até defendem a edição, apontam-se aspectos positivos apresentados: as salas não estão infladas de alunos, a escola é de regime integral (7 horas), apresentam-se em alguns poucos momentos modernos recursos pedagógicos. Concordo. Mas esses aspectos aparecem no detalhe, não se aprofundam, e o que predomina mesmo, ao menos para mim,  é uma visão meio anárquica, até caótica, do ambiente.

Se falhou a Secretaria de Educação, não falharam os jornalistas do “Fantástico” no seu intento de transformar tudo em um “ show da vida”. Muitas das situações, claro, são do dia a dia de um colégio, seja ele público ou particular. Mas o que a edição acabou por mostrar – de forma subliminar – foi uma escola pública pouco confiável. Um tipo de escola que talvez preocupe  os pais  da emergente classe média carioca e que, nesta providencial época de renovação de matrículas, podem (quem sabe?) ser tentados a buscar a solução para as suas preocupações nos braços receptivos e onerosos – mas nem sempre eficientes – das escolas da iniciativa particular.

Saci comemora 60 anos

Você sabe qual foi o primeiro filme nacional infantil produzido? E quando? Já se vão 60 anos. Isso mesmo. O primeiro filme nacional infantil é de 1951 e chama-se O Saci, a primeira adaptação cinematográfica da obra de Monteiro Lobato. Dirigido por Rodolfo Nani, a obra teve como assistente de direção Nelson Pereira dos Santos.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, Nani explica que parte do dinheiro da produção foi levantada com seu irmão, que vendeu os ‘títulos’ do longa para amigos. O filme foi rodado na cidade de Ribeirão Bonito. Para escolher o elenco, Nani e Santos colocaram um anúncio nos jornais locais. O papel da Tia Anastácia coube à cozinheira de Monteiro Lobato, o da Cuca, ao bêbado narigudo da cidade.

Para criar os efeitos especiais que a história pedia, inventaram geringonças mil, como o tuo de hidrogênio emprestado por um hospita, que criou um redemoinho, ou a meia calça que cobria as pernas do Saci.

Rodado em 1951, o filme só foi lançado em 1954, durante as comemorações do 4o Centenário da Cidade de São Paulo. A obra fez grande sucesso, sendo, inclusive adquirido pelo governo francês. Foi também exibido no Festival de Veneza, de 1954, “O Saci” conquistou os prêmios Saci, Governador do Estado e o Prêmio O Índio, em 1953. Na semana passada, a Cinemateca de São Paulo exibiu o filme para o público em comemoração aos 60 anos

Sinopse
O Saci
(São Paulo, 1953, 65´. Dir.: Rodolfo Nanni. Livre).
Pedrinho, Narizinho e a boneca de pano Emília vivem no sítio do Pica Pau Amarelo, com avó Dona Benta e Tia Anastácia. Pedrinho costuma ir à casa de Tio Barnabé para ouvir histórias do Saci, um negrinho endiabrado de uma perna só, que vive na floresta. Ao sair em busca do Saci, Pedrinho consegue apriosioná-lo numa garrafa, enquanto Narizinho, que passeia pela floresta, é transformada numa pedra por uma feiticeira. Pedrinho liberta o Saci da garrafa e, juntos, tentam tirar Narizinho das garras da malvada bruxa.

Tudo liberado na televisão?

STF julga ação de inconstitucionalidade da classificação indicativa.
Quatro ministros são a favor.
Debate foi suspenso para vista de processo. O que você acha? 

Por Marcus Tavares

Depois de um intenso e polêmico processo de discussão nacional sobre o papel do Estado, dos pais e dos canais de televisão sobre a classificação indicativa dos programas de TV, culminado com a aprovação da portaria 1.220, em 2007, a medida que tem o objetivo de proteger a infância e adolescência está mais uma vez ameaçada. Ontem, dia 30, o Supremo Tribunal Federal (STF) só não julgou a inconstitucionalidade da veiculação dos programas de acordo com a faixa horária e etária, proposta pela portaria da classificação indicativa, porque houve pedido de vista do processo pelo ministro Joaquim Barbosa. Na prática, se a ação for aprovada, as emissoras poderão exibir qualquer programa em qualquer horário e em qualquer território nacional, que possui hoje três fusos horários.

Quatro ministros – Dias Toffoli, Luiz Fux, Cármen Lúcia Antunes Rocha e Ayres Britto – já tinham dado parecer favorável à Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 2404) ajuizada pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), em 2001, muito antes de toda a discussão nacional sobre o tema, contra o dispositivo do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), especificamente o artigo 254, que classifica como infração administrativa a transmissão de programa de rádio ou televisão em horário diverso do autorizado pelo Governo Federal. Este artigo é um dos fundamentos da regulação da classificação indicativa.

Leia aqui depoimentos de especialistas sobre a portaria de classificação indicativa. Os depoimentos foram concedidos ao site do Rio Mídia – Centro Internacional de Referência em Mídias para Crianças e Adolescentes, em 2007, logo após a publicação da portaria 1.220.

Embora a ação tenha sido impetrada em 2001, em maio deste ano, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) protocolou uma petição para acelerar o andamento do julgamento da ação. Organizações da sociedade civil – como Agência Nacional dos Direitos da Infância, Conectas Direitos Humanos, Instituto Alana e Intervozes – também entraram com outra petição, defendendo a constitucionalidade do artigo 254 do ECA. No documento, as instituições alegam que a classificação indicativa, além de já ter sido incorporada como prática pelas emissoras de radiodifusão, obedece aos princípios da comunicação social previstos no artigo 221 da Constituição, que estabelece que a programação das emissoras de rádio e televisão deve dar preferência a finalidades “educativas, artísticas, culturais e informativas […] e respeitar valores éticos e sociais da pessoa e da família.”

Avaliação que vai de encontro com os pareceres, de ontem, dos quatro ministros que já julgaram a ação. Eles afirmam que a veiculação da programação da TV de acordo com a faixa etária e horária caracteriza um exercício de censura prévia. De acordo com o site do STF, os ministros que aprovaram o processo “foram unânimes ao afirmar que não cabe ao Estado interferir na liberdade da família de decidir a que programas ela ou seus integrantes devem assistir, papel que cabe aos pais. Em caso extremo, conforme assinalaram, basta que eles desliguem o televisor.

“O caráter indicativo impede o Estado de interferir e proibir a exibição fora de determinados horários”, observou o ministro Luiz Fux. Segundo ele, a classificação dos programas atribuída ao Estado tem como finalidade única a de “sugerir, aconselhar, e não o de exercer o papel de oráculo da moral”.

Para o ministro Dias Toffoli, “são as próprias emissoras que devem proceder ao enquadramento do horário de sua programação, e não o Estado. As próprias emissoras se autocontrolam”, disse. Ele acrescentou que o abuso deve ser “decidido por quem de direito. (…) A autorregulação é o meio mais apropriado para detalhar a matéria”. De acordo com Toffoli, as emissoras devem canalizar as aspirações sociais e disseminá-las

Na avaliação do ministro Ayres Brito, cabe ao Poder Público apenas manifestar-se sobre o inadequado, mas não direcionar o comportamento das emissoras. Ele afirmou que o que vale é o que está expresso no artigo 5º da Constituição que, em seu inciso IX, assegura a liberdade de expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação independentemente de censura ou licença. O ministro ainda questionou se cabe ao Estado proteger a família: “O Estado não está autorizado a tutelar ninguém, sobretudo no plano ético. A família é quem decide sobre a que programa de rádio ou TV assistir”.

O que diz a Portaria?

Entre outras medidas, a portaria estabeleceu a autoclassificação, por parte das emissoras, da programação veiculada. Desde então, os canais têm a liberdade de autoclassificar seus programas de acordo com a vinculação, estabelecida pelo Ministério da Justiça, entre faixa etária e horária. Segundo as normas acordadas, a programação intitulada ‘livre’ e ‘inadequada para menores de 10 anos’ podem ser exibidas em qualquer horário do dia.

Já os programas ‘inadequados para menores de 12 anos’, a partir das 20 horas. ‘Inadequados para menores de 14 anos’, a partir das 21 horas. ‘Inadequados para menores de 16 anos’, a partir das 22 horas. E ‘inadequados para menores de 18 anos’, a partir das 23 horas.

Na prática, as emissoras podem autoclassificar a programação da forma que desejarem. Porém, o Ministério da Justiça utiliza três variáveis/conteúdos para classificar as obras: cenas de sexo, drogas e violência. A autoclassificação das emissoras é endossada ou não pelo Ministério da Justiça, que tem 60 dias, a partir da estreia da produção, para se pronunciar. Programas jornalísticos e os chamados “ao vivo” não são submetidos à autoclassificação. A portaria também determinou que a autoclassificação das emissoras deve ser veiculada na forma de texto e na Linguagem Brasileira de Sinais (exceto para programas livres e inadequados para menores de 10 anos), durante cinco segundos. A informação terá que ir ao ar, simultaneamente, no início da abertura de cada programa. Os produtos audiovisuais exibidos a partir das 22 horas terão que informar ainda, se for o caso, que tipo de cenas inadequadas são apresentadas aos telespectadores.

Para publicar a portaria, o Departamento de Justiça, Classificação, Títulos e Qualificação (Dejus), do Ministério da Justiça, criou um grupo de trabalho, formado por diversos representantes da sociedade, realizou audiências públicas nas principais capitais do país e promoveu ainda uma consulta pública. Durante as discussões, representantes das emissoras de televisão tentaram vincular a publicação da portaria com o retorno da censura no país, numa tentativa de derrubar a iniciativa.

Por sua vez, instituições civis, governamentais e ONGs se puseram ao lado do Dejus com o objetivo de fortalecer a causa e conseguir implantá-la. Passados quatro anos, a classificação indicativa já faz parte do dia a dia dos telespectadores e ainda gera polêmica, principalmente, quando uma nova novela ou um reality show estreiam ou quando o horário de verão começa a vigorar no país. Especialistas dizem, inclusive, que a fusão de quatro para três fusos horários brasileiros, aprovada em 2008, pelo Senado e com a sanção do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi fruto da pressão das emissoras de televisão, que são obrigadas, pela portaria, a respeitar os diferentes fusos horários. Com a aprovação do STF, o respeito ao fuso horário será desconsiderado.

Educomunicação: 10 anos

Realizado nos dias 2 e 3 de dezembro, na Universidade de São Paulo (USP), o III Encontro Brasileiro de Educomunicação marcou os dez anos do investimento e trabalho, do Núcleo de Educação e Comunicação (NCE) da USP, de integrar o ensino, as salas de aula, às mídias.Em uma década, iniciada em 2001, o NCE aprofundou os estudos acadêmicos na interface entre educação e comunicação e, ao mesmo tempo, implantou no município de São Paulo o projeto Educom, no qual alunos e professores das escolas vivenciam, até hoje, na prática, a produção de rádio. Durante o percurso, outras iniciativas e parcerias – no âmbito dos governos e da sociedade civil – foram surgindo e se apoiando nos estudos da então Educomunicação. No ano passado, a própria USP lançou a primeira licenciatura do país na área.

Sob a coordenação do chefe do Departamento de Comunicações e Artes, professor Ismar de Oliveira, o evento lançou também um novo curso da instituição: uma especialização em Educomunicação. Com duração de três semestres, a primeira turma começará em março do próximo ano, com aulas à noite, nas segundas e quartas-feiras. Uma segunda turma, nos dias de sábado, será possivelmente aberta no segundo semestre de 2012. Clique aqui e veja o programa do curso.

O III Encontro também foi marcado pela criação da Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais de Educomunicação – ABP Educom, que visa a reunir pesquisadores, profissionais e estudantes que têm a Educomunicação como objeto de interesse acadêmico e/ou de prática laboral. Uma de suas missões é incentivar intercâmbios com entidades nacionais e estrangeiras dedicadas ao mesmo campo de conhecimento. A instituição já reúne 70 associados

Primeiro dia do evento

Carlos Mendes Lima, da Secretaria de Educação do Município de São Paulo, falou sobre o projeto Educom nas escolas, de sua importância. Em três diferentes gestões, o projeto obteve continuidade, prova de sua qualidade. Alexandre Sayad, secretário executivo da Rede de Experiências em Comunicação, Educação e Participação (Rede Cep), explicou o papel do programa que tem o objetivo de estabelecer parcerias entre instituições que trabalham no setor. “Andamos 5% do caminho. Ainda é preciso muito mais”, destacou. Lilian Romão, da revista Viração Educomunicação, uma publicação mensal feita e dirigida aos jovens, contou os bastidores do processo de produção da obra, que envolve a participação de dezenas de adolescentes espalhados pelo Brasil. Paulo Nassar, da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial, destacou que a informação e a educação são pontos chave para o mundo empresarial dos dias de hoje. O novo quarto poder. Maria Cristina Costa Castilho, coordenadora do curso de especialização em Educomunicação, explicou os detalhes da criação do novo módulo de ensino. Uma ideia bastante antiga que só agora saí de fato do papel. Adilson Citelli, professor da ECA e editor da Revista Comunicação & Educação, da ECA, contou a história de construção da revista. Os objetivos da publicação e de que forma os artigos são minuciosamente selecionados.

Segundo dia do evento

Foram realizados seis painéis, com a participação, inclusive, da jornalista argentina Silvia Bacher, do projeto Otras Voces; e da professora da Universidade de Peru, Maria Teresa Quiroz. Ambas falaram do novo tempo da comunicação no mundo globalizado. Destacaram a importância da aproximação entre educação e comunicação como estratégia de sucesso para escola e aluno.

Silvana Gontijo, presidente do planetapontocom, também participou. Ela foi convidada para apresentar os projetos do planetapontocom. Falou sobre as ações desenvolvidas, particularmente sobre o curso de formação de professores, chamado de Por Dentro dos Meios. Marcus Tavares, editor da revistapontocom, esteve presente em outra mesa. Contou os objetivos da revista eletrônica, mostrando o novo site e os números de acesso.

Inovação e tecnologias

Por Marcus Tavares

Foram 22 apresentações de 13 minutos cada. O objetivo? Mostrar ao público – formado principalmente por professores – ações, projetos, estudos e experiências, espalhados pelo mundo, que usam e defendem o uso das mídias. Promovido pelo Ministério da Educação (MEC), o encontro foi realizado na última terça-feira, no Rio de Janeiro. A revistapontocom compareceu ao evento, chamado de Edutec – Educação e novos paradigmas. Abaixo, você confere um resumo das ideias apresentadas pelos principais especialistas convidados. Confira:

– Ali Carr-Chellman
Os argumentos contra os videogames – violência, individualismo e competição – devem ser repensados, avisou Alison Car-Chellman, pesquisadora norte-americana, da Universidade de Pensilvânia. De acordo com Car-Chellman, os garotos têm uma afinidade natural com a escrita, livros e videogames – especialmente os mais violentos. Ela afirma que professores, diretores e pais precisam ter mais consciência e entendimento do valor dos games para os meninos. Para que os games sejam efetivamente educativos, é necessário mais investimento para jogos com enredos e roteiros que facilitem o ensino. Os estudos de Car-Chellman focam o impacto da tecnologia e inovação nos sistemas de educação e aprendizado online, incluindo a importância da participação da comunidade na mudança dos sistemas de ensino. No momento, ela pesquisa o biofeedback do uso de videogames para atrair a atenção e motivar a aprendizagem de meninos.
Mais informações – http://www.ed.psu.edu/educ/in-sys/research/ali-carr-chellman

– Jader Gama
A economia do Baixo Amazonas, região brasileira que envolve Santarém, do Pará, dedica-se à extração da madeira, aos garimpos, mineradoras e plantação de soja. Como mudar este quadro pouco sustentável? Jader Gama e Tarcísio Ferreira tiveram a ideia de ministrar oficinas de informática para jovens em condições de risco da periferia de Santarém, com a meta de trazer e implantar novos valores. Com a chegada das mídias sociais e o barateamento dos recursos, o projeto promoveu a criação de rádios e livros, bem como oficinas livres de produção gráfica, produção em áudio, vídeo, Linus, blog. Criava-se assim o Estúdio Livre do Coletivo Puraqué. O projeto ganhou recentemente o Prêmio de Tecnologia Social da Fundação Banco do Brasil, por desenvolver a moeda social Muiraquitã. Com a moeda que pode ser adquirida a partir da coleta seletiva de resíduos sólidos, jovens dos municípios de Santarenzinho e Maracanã adquirem produtos e serviços que vão desde oficinas até computadores metareciclados. Para Gama, daqui a 10 anos, a região de Santarém será o pólo de desenvolvimento de software livre do país.
Mais informações – http://puraque.org.br/blog

– Mabuse
Como atrair a atenção dos estudantes na sala de aula? A receita é simples: estabelecer ações que envolvam a ludicidade, a interação, a narrativa, desafios e esforço, que integra disciplina, repetição, controle e rigor. De acordo com Mabuse, do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife – C.E.S.A.R -, os games reúnem todas esses requisitos. Não é à toa que as Olimpíadas de Jogos Digitais e Educação, projeto também apoiado pelo C.E.S.A.R., já se encontra em sua terceira edição. As olimpíadas estão sendo realizada no Estado do Acre.
Mais informações – www.cesar.org.br

– Felipe Sanches
À primeira vista, é apenas um clube no porão. Só que o Garoa Hacker Club é muito mais que isso. Sob o comando de Felipe Sanches, a associação é um espaço aberto e colaborativo para que entusiastas do uso de tecnologia realizem projetos. E estas ideias podem surgir em diversas áreas, como segurança digital, hardware, eletrônica, robótica, espaço modelismo, software, biologia, música, artes plásticas, e o que mais a imaginação dos sócios permitir. Assim como diversos outros hackerspaces ao redor do mundo, o Garoa Hacker Club surge como alternativa para jovens autodidatas se reunirem para dar asas à pesquisa e ao desenvolvimento de novos produtos.
Mais informações – http://gaovaroa.net.br/wiki/P%C3%A1gina_principal

– Marion Wilson
A partir de um ônibus velho, Marion Wilson e os estudantes de arte da Syracuse University, de Nova Iorque, criaram um espaço multifuncional para artes, educação e novas ideias. O MLAB – Mobile Literacy Arts Bus (Ônibus Móvel de Alfabetização e Artes) percorre as comunidades próximas à universidade e se torna o espaço para que os jovens das escolas públicas tenham a oportunidade de expor fotografias, poesias, músicas, pinturas e todas as suas ideias. Mais do que um veículo, o MLAB é uma sala de aula, laboratório de fotos, estúdio de gravação, galeria e centro comunitário.
Mais informações – www.marionwilson.com

– Nelson Pretto
Os meios de comunicação não devem ser vistos como ferramentas. São linguagens que possibilitam outras formas de ensinar e aprender.  Assim o professor Nelson Pretto abriu sua fala. Ele afirmou que a educação, ao longo do tempo, sempre procurou pedagogizar a mídia, o que não deu certo. É preciso ter um olhar novo para os meios de comunicação. Pois, ele destaca, se a escola não mudar sua lógica de reprodução, a sociedade não vai avançar. Segundo Pretto, daqui a 50 anos, 95% do conhecimento humano serão novos. Se a escola não se transformar, ela ficará apenas ensinando os 5% restantes. Para o professor, o grande conflito dos dias de hoje é: criamos ou reproduzimos? Ele aposta no primeiro, quando então os professores se tornarão, de fato e de direito, não atores, mas autores.  Ele defende o professor com o jeito hacker de ser. Ou seja, o professor colaborador que compartilha.
Mais informações – www.faced.ufba.br

– Rogério Costa
Integrante do Laboratório de Inteligência Coletiva – LinC, o professor disse que não é mais possível ter uma ideia sem uma ‘carga de tonalidade afetiva’. Segundo ele, a questão da afetividade está ligada cada vez mais ao mundo do trabalho, cuja principal riqueza – a material – se transformou para a chamada ‘ideia colaborativa’. De acordo com o professor, os processos de colaboração estão presentes por toda a parte. Fazer redes tornou-se um refrão ecoado por todo o mundo empresarial, nas esferas dos governos e também no Terceiro Setor. Neste sentido, há mais de uma década o conceito de inteligência coletiva passou a ser sinônimo dessa noção de colaboração, de fazer redes, tanto na comunicação quanto no campo do trabalho. A rede se tornou uma dimensão, indissociavelmente, ontológica e prática, de modelização do mundo e da subjetividade.
Mais informações – www.linc.org.br

– Robert Knezevic
Diretor regional de parcerias internacionais da Sesame Workshop, Robert Knezevic apresentou o projeto que, desde 1968, vem aliando programa de TV e educação, por meio da Vila Sésamo, hoje exibida, no Brasil, por meio da TV Cultura. Segundo Robert, Vila Sésamo está presente em 29 países. Destacou o trabalho que vem sendo realizado na Nigéria e Àfrica do Sul, por meio do boneco Kami, menina soropositiva que chama a atenção de toda a população e vem diminuindo o preconceito.
Mais informações – www.sesameworkshop.org

Índios: ignorados pelo país

Por Marcus Tavares

Ao participar do V Encontro Internacional de Cinema e Educação da UFRJ, realizado no Museu de Arte Moderna do Rio, no fim de novembro, o coordenador do projeto Vídeo nas Aldeias, o cineasta Vincent Carelli, afirmou que o Brasil ignora a realidade dos indígenas. Disse que não se ensina nada nas escolas. E que os jornalistas, quando abordam o tema, falam de forma equivocada e cheia de clichês.

Vincent Carelli sabe do que está falando. O projeto Vídeo nas Aldeias surgiu em 1987, com o objetivo de apoiar as lutas dos povos indígenas para fortalecer suas identidades e patrimônios territoriais e culturais, por meio de recursos audiovisuais e de uma produção compartilhada com os próprios povos. De lá para cá, o programa cresceu e hoje conta com um acervo de aproximadamente 70 filmes produzidos pelos índios, por meio de oficinas oferecidas pelo projeto nas 30 aldeias em que trabalha.

Nas oficinas, os integrantes das aldeias têm aulas de utilização da câmera. A ideia é capacitar os participantes para que eles gravem suas imagens, construam seus filmes. Segundo Vincent, as obras não seguem um roteiro pré-estabelecido. “Não há uma temática central. Orientamos os alunos a escolherem um personagem de sua aldeia para mostrar o dia a dia dele. Valorizamos o espontâneo, o que não está pronto. Os imprevistos são ótimos. Não partimos de uma proposta pré-concebida da qual vamos extrair o conteúdo. Não há uma pressão para que os filmes sejam produzidos. Se eles acontecerem, aconteceram. A criação da história começa no momento da filmagem, mas ganha forma com a edição. Hoje, com o avanço da tecnologia, conseguimos editar na própria aldeia, o que nos permite voltar e gravar mais alguma cena”, destaca.

No dia a dia da filmagem, verifica-se que o projeto auxilia a aproximação das gerações. Muitas vezes, o cineasta indígena acaba conversando com uma pessoa mais idosa da aldeia, que lhe conta histórias do passado, da cultura e do povo. “O que é bem enriquecedor, pois grande parte dos alunos é professor de escolas indígenas. Os cineastas acabam se tornando pesquisadores. É um diálogo de auto-conhecimento de seu próprio povo”, afirma Vincent.

Com relação às técnicas, eles aprendem durante as aulas e a edição, que acompanham. Na prática, eles exercitam uma experiência de cinema, embora não tenham referência cinematográfica. Têm, sim, de televisão. Cerca de 99% das aldeias têm tevê. Vincent avisa: “eles são apaixonados por futebol e adoram filme de ação. Um dos grandes ídolos é Bruce Lee”.

Os índios não só produzem o material, mas também consomem. Os diferentes povos se interessam em ver a cultura de outra aldeia e a partir daí ficam, inclusive, incentivados a mostrar a sua. E ficam, extremamente, contentes quando são vistos pelo Brasil. “Quando era exibida a série de TV A’UWE  [programa de tevê apresentado pelo ator Marcos Palmeira, que trazia a produção dos índios], pela primeira vez, os índios tiveram a sensação de que o Brasil, do qual pertencem, estava olhando para eles”.

Para Vincent, o índio, no senso comum, ainda é visto e entendido pela sociedade como parte do mito da origem do Brasil. “O índio é uma ficção criada pelos intelectuais europeus, é o bom selvagem. Essa ficção se cristalizou tanto que há, até hoje, uma crítica da sociedade para o índio que não se veste e vive como índio. Índio que é índio tem que andar pelado e viver como tal. É preciso desconstruir essa imagem equivocada. Desfazer a imagem do bom selvagem”.

Para atender à demanda por materiais didáticos necessários para a implementação das leis 11.645 e 10.639, que incluem no currículo oficial escolar a obrigatoriedade do estudo das Histórias e Culturas Indígenas, o Projeto Vídeo das Aldeias criou a coleção Cineastas Indígenas: outro olhar, que reúne 20 documentários em DVD sobre cinco etnias brasileiras: Kuikuro, Huni Kui, Panará, Xavante e Ashaninka.

Os filmes foram concebidos e realizados pelos próprios índios. No portal do projeto (www.videonasaldeias.org.br), há ainda o Guia para professores e alunos, com sugestões de usos em sala de aula e um farto material de referência sobre os povos retratados. Os filmes, fruto de oficinas produzidas pela instituição nas aldeias do Mato Grosso e Acre, oferecem uma variedade de abordagens da temática indígena, que pode ser tratada nas aulas de História, Geografia, Meio-Ambiente, Cidadania, Ciências-Sociais, Filosofia e Artes. Confira, aqui, o material.

Game sobre sustentabilidade

O Centro Multidisciplinar para o Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos (CMDMC) – um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) – e o Instituto Nacional de Ciências dos Materiais em Nanotecnologia lançaram na internet, em parceria com a empresa Aptor Games, um jogo educativo sobre sustentabilidade. Batizado de Half na Floresta, o jogo foi criado pela mesma equipe que desenvolveu o Ludo Educativo – um game on-line que auxilia estudantes do ensino médio no aprendizado de ciências – e o Jogo da Dengue.

No novo desafio, desta vez voltado para alunos do Ensino Fundamental, o personagem Half percorre uma floresta a fim de cumprir objetivos que giram em torno de ações para a preservação do meio ambiente.
Cada uma das jogadas aborda uma questão diferente sobre conservação ambiental.

Na primeira fase, o personagem deve ajudar a libertar os animais em extinção que foram capturados ilegalmente, como araras e macacos, sempre atento para escapar das investidas dos animais perigosos que perambulam pela floresta. Já na segunda fase, o personagem necessita plantar árvores e superar a ação de lenhadores encontrados pelo caminho.

Segundo Élson Longo, coordenador do trabalho de criação do jogo, a temática de Half na Floresta foi escolhida para enfatizar a importância e a necessidade de conservar a natureza. Confira, aqui, o jogo.

McLanche Feliz

Por Marcus Tavares

Estreou na última sexta-feira em todo o país o filme O gato de botas, mais uma produção da Dreamworks. Muito já se falou sobre o filme, mas pouco sobre um tema que interessa aos pais: o lanche depois do cinema. Os responsáveis que podem levar seus filhos para o tradicional lanche sabem do que se trata. Os brinquedos do clássico McLanche Feliz, a partir de agora, também estão sendo vendidos em separado do lanche, se assim desejar o consumidor. Pelo menos, é o que informa – naquelas letrinhas bem pequenas -, os comerciais da empresa que circulam no You Tube.

Por quê? Talvez, tenha sido pelos inúmeros questionamentos de pais e entidades de defesa do consumidor e infância que há anos reclamam da venda casada: lanche e brinquedos. Além disso, a Fundação Procon de são Paulo acabou de aplicar uma multa no valor de R$ 3.192.300,00 ao McDonald’s por conta das promoções do McLanche Feliz, que associam exatamente a venda de alimentos com os brinquedos. A decisão foi publicada no Diário Oficial, mas a empresa ainda pode recorrer.

O caso foi denunciado pelo Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana, em 2010. Segundo a denúncia, com essas práticas, “o McDonald’s cria uma lógica de consumo prejudicial e incentiva a formação de valores distorcidos, bem como a formação de hábitos alimentares prejudiciais à saúde”. De 2010 até hoje, já foram produzidas 18 campanhas casadas.

“A criança assiste à publicidade do McDonald’s com os personagens do filme nas tevês e depois nos trailers. Quando sai do cinema, não raras vezes, já esbarra numa loja da rede. É uma ação de marketing muito agressiva, que se aproveita da vulnerabilidade infantil para vender. É antiético”, comenta Ekaterine Karageorgiadis, advogada do Projeto Criança e Consumo.

Ela lembra que a discussão em torno desse tipo de promoção não é de hoje. Em abril de 2010, o Criança e Consumo também denunciou a publicidade do McDonald’s com brindes do filme “Rio” para o Conselho de Autorregulamentação Publicitária (Conar). A entidade publicou um parecer em que chamava o Alana de “Bruxa Alana, que odeia criancinhas”. Além de ofensivo, o texto minimizava o problema da obesidade infantil no Brasil, que já atinge 15% das crianças. O caso teve grande repercussão e colocou em xeque a capacidade do Conar em tratar de assuntos de interesse público.

Pontos para a web

Por Rovênia Amorim

A decisão da diretora da Escola Estadual Presidente Costa e Silva de descobrir o motivo das faltas frequentes dos alunos resultou na criação do projeto pedagógico do bônus lan house monitorada. Os alunos que durante o mês todo obtiverem carimbos positivos na agenda, por boa disciplina e cumprimento das tarefas escolares, ganham pontos. E esses pontos podem ser trocados por tempo livre de acesso à internet nos laptops da escola, no contraturno das aulas.

A solução criativa reduziu o número de faltas e fez com que a escola pública de Gurupi, em Tocantins, fosse escolhida a Escola Referência Brasil do Prêmio Nacional de Referência em Gestão Escolar – ano-base 2010, promovido pelo Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed). Como premiação pela boa experiência em gestão escolar, a diretora da escola, Adriana da Costa Pereira Aguiar, viajou para os Estados Unidos, onde conheceu algumas experiências desenvolvidas em escolas públicas.

“Fiquei surpresa ao ver, em duas escolas de lá, projetos parecidos com o nosso, só que num espaço que chamam de cyber café”, conta a diretora. Agora ela resolveu fazer uma enquete virtual para que os alunos da Presidente Costa e Silva escolham um nome para o espaço que será criado na escola. “Envolver os alunos na criação desses espaços e nos debates faz com eles se sintam bem”, avalia.

Tudo começou com a descoberta de que muitos alunos da instituição estavam frequentando lan houses, sem o conhecimento dos pais, para ter acesso às redes sociais. É que o acesso à internet na escola, oferecido aos 300 alunos do 6º ao 9º ano, era restrito apenas a pesquisas e trabalhos escolares, no horário das aulas. Para dar um fim à mania que começava a crescer entre os estudantes, a direção da escola decidiu contabilizar o número de registros positivos nas agendas individuais. Quanto mais carimbos positivos, mais bônus para tempo livre na internet. “Mas é um acesso controlado, porque os acessos a sites proibidos ficam registrados no computador. Se isso acontecer, eles perdem os bônus”, explica a diretora.

O aluno Edy David Feitoza Lima, de 14 anos, é um dos que costumava trocar as aulas pela lan house, uma vez por semana. “Ficava lá jogando”, conta ele. A mãe ficou surpresa ao ser avisada pela escola das faltas frequentes do aluno. “Eu estava trabalhando muito e fiquei chocada ao saber que meu filho não estava indo à escola”, revela Luzineide Feitoza de Vasconcelos. “Agora, passei a trabalhar menos e vou sempre à escola”, diz a mãe.

O projeto da lan house monitorada não foi a única ação que fez a escola merecer o prêmio de gestão escolar de sucesso. A própria dinâmica diária dos alunos é bem diferente do modelo tradicional das escolas brasileiras. São os alunos, e não os professores, por exemplo, que mudam de sala, onde encontram um ambiente planejado, com recursos específicos para as disciplinas. “São seis salas ambientes diferentes, mas em todas há um armário com 35 laptops à disposição dos alunos”, explica a coordenadora pedagógica Dalília Arantes.

A escola participa do projeto do governo federal, Um Computador por Aluno (UCA). A tecnologia acessível em toda parte, inclusive na sala de reforço e na biblioteca, motiva os alunos. “Damos asas à imaginação mesmo. Os laptops servem desde à pesquisa sobre um novo vírus até para que preencham uma ficha literária virtual após a leitura de um livro, que será avaliada pelo professor”, conta Dalília. Para que os pais saibam diariamente como foi o dia do filho no colégio, cada aluno tem uma agenda, que vai na mochila todos os dias. Cada professor tem seis carimbos para avaliar o comportamento do aluno. Incluem desde um “Seu filho não trouxe a tarefa” até um carimbo de elogio como “Parabéns, hoje seu filho apresentou as atividades completas e satisfatórias e isso demonstra que sua família tem caminhado junto com a escola na formação de um cidadão para o mundo.”

Outro diferencial é o caderno de ocorrência da turma, em que constam a foto e o nome do aluno e os contatos da família. Nessa espécie de diário da turma, o professor anota tudo que é relativo ao aluno: se está fazendo os deveres, se está com problemas de disciplina. E a escola reserva um horário, todas as quartas-feiras à noite, para que os pais possam conversar com os professores sobre o andamento escolar de seus filhos.

Graças a essas soluções criativas, a escola tem apresentado boa evolução no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que saltou de 3,7 em 2007, para 5,1 em 2009. E a evasão escolar, que chegou a alcançar o índice de 22%, há três anos se mantém zerada com a frequência monitorada. Se o aluno falta, a orientadora liga para sua casa ou um professor conselheiro procura a família para saber o motivo. Foi assim que se descobriu que os alunos estavam trocando a escola pela lan house.

Fonte Jornal do MEC

A decadência da civilidade

Por Washington Araújo
Mestre em Comunicação pela UnB e escritor. Criou o blog Cidadão do Mundo

O programa de maior audiência da televisão brasileira é uma novela. E não uma novela qualquer, mas aquela novela que ocupa o horário nobre da noite, a novela das 8, que mesmo sendo referida por gerações de brasileiros como a novela das 8, na realidade vai ao ar às 9 da noite, pegando logo de início significativa audiência deixada pelo telejornal mais longevo e mais assistido do Brasil, o Jornal Nacional.

Não por acaso, o folhetim, entra ano sai ano, é produzido e transmitido pela Rede Globo de Televisão. O gênero há muito se firmou como produto televisivo tipicamente brasileiro e seus personagens, além de falarem português, são assistidos por milhões de espectadores mundo afora, como a Escrava Isaura, dublada em Pequim em mandarim, ou qualquer personagem vivido por Toni Ramos sendo entendido por audiências finlandesas, mexicanas ou italianas.

É um programa superlativo. As inserções publicitárias mais caras da televisão aberta estão encaixadas entre uma e outra parte da novela. O elenco conta sempre com a participação dos mais importantes artistas brasileiros – de Fernanda Montenegro a Ari Fontoura, de Marília Pêra a Wagner Moura, de Camila Pitanga a Regina Duarte, de José Wilker a Nathalia Timberg. E consegue reunir tamanha carga de talento porque usa e abusa de um certo tipo de cartelização de recursos humanos: os melhores artistas estão em sua folha mensal de pagamento, esteja ou não atuando em alguma produção da emissora.

E com isso mantém invejável reserva de mercado, privando as concorrentes de gente muito talentosa, muito experiente, muito apta a manter os olhos como que hipnotizados pela telinha mágica. A verdade é que as novelas concorrentes não chegam a ser páreo para suas congêneres produzidas pela Central Globo de Produção no Projac, em Jacarepaguá: os grandes autores de novelas também integram essa escancarada reserva de mercado.

A mesquinhez da natureza humana

Apesar de tantos bons números e de tão longa tradição no terreno das novelas, a verdade é que a TV Globo não ocupa (ainda) o primeiro lugar no volume de novelas produzido. É a segunda emissora brasileira que mais produziu novelas desde o surgimento da televisão no Brasil nos anos de 1950. Entre os horários das 18, 19, 20 e 22 horas, até este final de 2011, a emissora da família Marinho produziu e exibiu mais de 240 novelas. Ainda assim está longe de alcançar a marca da extinta TV Tupi que, sendo a primeira emissora de televisão brasileira, produziu cerca de 350 novelas.

O poder de seduzir vastas audiências explica muito do êxito comercial da TV Globo. Em 1985, com a exibição de Roque Santeiro, alcançou formidáveis 67 pontos de Ibope; e embora os tempos tenham mudado bastante, sua novela de maior audiência na atualidade é Fina Estampa, que já conseguiu, em novembro de 2011, cravar 43 pontos no Ibope. Comparando com Roque Santeiro, a queda na audiência é muito expressiva, mas se compararmos com as novelas das emissoras concorrentes, que nunca ultrapassam os 9 ou 2 pontos de Ibope, é um produto imbatível no gosto popular. E ocupa lugar proeminente dentro da grade da própria emissora, superando o Jornal Nacional, que oscila entre 35 e 38 pontos. Supera também os dominicais: Domingão do Faustão alcança 14 pontos e o sempiterno Fantástico consegue sua melhor marca com 20 pontos.

Se em décadas passadas o enredo privilegiava histórias de amor, sofridos, envolvendo traições e adultérios, paternidade oculta e os revezes que somente a roda da fortuna pode oferecer, situações em que personagens pobres enriquecem e os muito ricos empobrecem e têm de encarar situação de penúria extrema, os últimos anos foram pródigos em jogar luz sobre a mesquinhez que se encastela na natureza humana: são histórias de cafajestagem, mau-caratismo, corrupção moral e social, violência (quase sempre gratuita e despudorada) contra menores e idosos, escárnio com pessoas pobres ou com pouca cultura formal.

“Minimamente normais”

É nesse contexto que o carro-chefe da principal emissora de TV brasileira passa a espelhar a decadência da civilidade e dos bons costumes, a falência ostensiva de valores éticos e morais, a resistência a tudo o que um dia foi considerado politicamente correto. O público parece ter deixado de lado qualquer interesse por histórias fantasiosas como a trama de Roque Santeiro, com suas crendices e superstições, e parece disposto a ter como entretenimento o mundo-cão tal como ele é, sem máscaras e sem falsas aparências. É o ocaso da normalidade. E o triunfo da mediocridade.

É interessante tecer alguns comentários sobre a atual novela da 9, Fina Estampa. Como de costume, é a que arrebanha uma multidão de telespectadores, das classes D e E às classes A e B. São brasileiros de qualquer cidade, de qualquer região, de qualquer estado e também de qualquer faixa etária.

A novela brasileira de maior audiência nos dias que correm tem como principal personagem, vivida com todos os excessos a que tem direito, a experiente atriz Cristiane Torloni. Sua personagem é mau-caráter de carteirinha. E além de assassina, encomenda também a morte de desafetos. A lista de deformidades de caráter e de conduta incluem seu ódio por pessoas pobres. Despreza, ridiculariza e pisoteia homossexuais e também pessoas de pele escura. Não deixa de lançar farpas e menosprezo às pessoas que não podem ter filhos.

Não fica por aí. A Teresa Cristina de Cristiane Torloni submete a regime de semiescravidão a criadagem da casa, da cozinheira ao motorista. Como pano de fundo, é um ser humano afogado em futilidades, levando uma vidinha vazia e sem qualquer densidade humana. Como contraponto, temos Lília Cabral esbanjando talento como Pereirão, “seu marido de aluguel”. A diferença é que Pereirão é tão bondosa e decente que chega a ser inverossímil. Pareceinvenção despropositada de autor querendo fazer as pazes com o lado razoável da natureza humana.

As tramas paralelas privilegiam a bandidagem: gerente de loja de motos que ilude clientes, trocando peças originais das máquinas por peças recondicionadas; a “periguete” que deseja a morte do marido para receber o prêmio de seguro de vida; a jornalista absolutamente sem escrúpulos e sempre disposta a mentir e a chantagear para conseguir com sua atividade alguns trocados a mais; o marido que espanca a mulher; os desocupados que passam a vida em eterno jogo de vôlei de praia e sempre a postos a discriminar homossexuais; adolescentes chegados a falcatruas; mulher idosa e bastante experiente nas artes da chantagem e, finalmente, a exceção de mais dois ou três personagens “minimamente normais”.

Horário ideal

Fina Estampa assegura à audiência interminável desfile de tipos humanos repulsivos, tipos que nos fazem descrer, por completo, no gênero humano. E anuncia o que pode estar sendo gerado para suas sucedâneas: cenas explícitas de pedofilia, incesto e infanticídio, desenvolvimento de personagens com características de serial killers, apedrejamento de fieis dentro de templos evangélicos (por que será?), espancamento de mulheres que se submetem como se fossem escravas sexuais e outros tipos de pessoas com aberrações ainda pouco difundidas.

Mas não por muito tempo. Afinal, se alguém desejasse difundir uma moda, um comportamento humano específico ou um estilo de vida, será que existiria produto mais adequado que uma novela da Globo… e na faixa das 9 da noite?

Dicas para sala de aula

Jornalista lança livro para os desafios da escola do século XXI

Por Marcus Tavares

Ensinar e aprender no século XXI é o nome do livro que a professora e jornalista Márcia Stein vai lançar no próximo dia 12, a partir das 19 horas, na Casa de Cultura Laura Alvim, no Rio. Jornalista Amigo da Criança, Stein há mais de 20 anos está envolvida com a formação de professores na interface entre mídia e educação. Na bagagem: muitas histórias, experiências e boas práticas que ela resolveu, agora, compartilhar.

Na visão da autora, que já integrou equipes da TV Cultura, MultiRio, antiga TVE-Rio, ensinar e aprender no século XXI devem ser um processo dinâmico, não-linear, colaborativo, compartilhado, multimídia e interativo. “Apesar de muitos pensarem que o cenário atual ameaça o lugar da escola e o do professor, nunca foi tão importante dispor de um espaço – a escola – onde as relações de ensino e aprendizagem estão em constante organização e sistematização”, destaca.

Acompanhe:

revistapontocom – Qual é o objetivo do livro?
Marcia Stein – São vários objetivos e a origem do projeto se confunde com eles. Acho que o principal é registrar e compartilhar com o maior número possível de colegas educadores minha experiência. São mais de 20 anos formando professores e desenvolvendo projetos educacionais dentro de uma perspectiva mídia-educativa e comprometida com o tempo em que vivemos. A ideia também é expressar o que penso sobre o lugar atual da escola e do professor, contribuindo para a atualização de paradigmas, abordagens e metodologias educacionais. Escrevi o livro para educadores de todos os segmentos e campos de atuação, até porque, de certa forma, o debate atravessa questões abrangentes da vida atual e tem a ver com a construção da cidadania, das identidades. Por ser uma publicação da editora SENAC, o conteúdo foi adequado ao público-alvo preferencial da instituição: o professor que atua no campo da formação técnico-profissional. Mas em sua origem, as discussões e atividades que estão ali já foram trabalhadas com professores da Educação Infantil ao Ensino Superior. Há trechos do livro em que eu digo coisas que servem inclusive para os pais. E ficaria muito feliz se eles também se interessassem pela obra. Quero dialogar com todo mundo que lida com a educação.

revistapontocom – O livro reúne uma série de propostas de atividades de midiaeducação para ser trabalhada na sala de aula. Todas as atividades já foram aplicadas?
Marcia Stein – Sim. Durante todos esses anos, em cursos, aulas e oficinas, venho trabalhando com estas atividades e com resultados bem interessantes. Muitas vezes, meus alunos me contam que já tiveram oportunidade de replicá-las com sucesso. É importante registrar que a maioria das atividades que está no livro nasceu em sala de aula. Foram estratégias que usei com crianças, jovens e com os próprios professores que ajudei a formar. O objetivo era atender suas demandas por meio de atividades instigantes que ajudassem a trazer jogos e programas de TV para sala de aula.

revistapontocom – Há pouca literatura nesta área?
Marcia Stein – Sim. A literatura na área educacional situa-se em dois extremos de certa forma limitadores. Por um lado, temos o segmento que ainda mantém um forte ‘sotaque’ universitário’. Ou seja: é aquela teorização hermética, que dialoga muito pouco com a prática do professor e com a realidade dos estudantes e mostra-se em geral muito crítica ao conteúdo da TV. De outro lado, há a literatura mais pragmática, voltada para dicas e orientações práticas. Na maioria com qualidade questionável. São uma espécie de livros de autoajuda. Mas há uma contracorrente bem bacana de novos autores que vêm pondo em cena uma abordagem mais atual e interdisciplinar das questões educacionais. Infelizmente, são na maioria estrangeiros ou não exatamente educadores, como Lévy, Jenkins, Marc Prenski, Clay Shirkis, Canclini, Martín-Barbero e Rivoltella. Aqui no Brasil temos Mônica Fantin, Rosália Duarte, Maria Rita Kehl, Regina de Assis, Ana Mae Barbosa. Não que não haja outros autores discutindo educação em perspectivas mais contemporâneas, mas este é o time com o qual mais me identifico. E não posso deixar de fazer referências a Vigotski, em cujos livros, escritos há cerca de cem anos, encontramos ideias com vigor e atualidade sempre impressionantes.

revistapontocom – Como você então definiria o seu livro?
Marcia Stein – Prefiro definir o livro como uma ferramenta que, como tal, pode ser uma resposta ao que cada um se propuser a extrair dele. O verdadeiro poder está na recepção, ou seja, na utilização da obra. Como defendo no livro várias vezes, “a utilização do professor é parte fundamental de qualquer proposta teórica ou metodológica”. É ela que vai consolidar e potencializar este ou aquele aspecto do que se está sendo proposto. É ela que vai dar vida à obra, tornando-a melhor ou mais adequada à prática e às reais demandas dos alunos.

revistapontocom  – Por que há toda esta corrente de querer integrar/aliar as mídias às salas de aula?
Marcia Stein – Afinal, não é na sala de aula que, em primeira instância, devem chegar as discussões e possibilidades de apropriação das técnicas? Não é na sala de aula que devem ser discutidos os dispositivos e linguagens utilizados pela sociedade, em cada época, para se comunicar, produzir e criar? Penso que sim. A escola é o lugar de aprender não somente os conteúdos curriculares, mas a forma de utilizá-los e de lhes dar sentido na vida cotidiana. E, hoje, o cotidiano inclui, de modo estruturante, a mídia e todas as formas de tecnologia de informação e comunicação.

revistapontocom – Que grupo ainda tem de ser convencido da importância da interface entre a mídia e a educação?
Marcia Stein – Todos aqueles que ainda acham que escola é uma coisa e a vida, outra. Em geral, são os mesmos que ainda acham que a tecnologia é uma ameaça para a escola e para o professor. Infelizmente, ainda são muitos.

revistapontocom  – O que é ensinar e aprender no séc. XXI?
Marcia Stein – Os processos educativos devem ser compreendidos do ponto de vista das interações e mediações. Com base nesse pressuposto, as relações de ensino-aprendizagem devem ser observadas como relações de comunicação. Devemos planejar currículos e práticas considerando os universos de desafios das interações sociais em cada contexto, época e lugar. Considerando ainda os interesses dos estudantes e suas relações com as linguagens, com os ambientes e com os meios. Na abordagem sociointeracionista, os processos educativos devem ser compreendidos do ponto de vista das interações sociais. Precisamos compreender a centralidade dos papéis da linguagem e das mediações no processo de desenvolvimento humano. Tal concepção de educação é fundamentada na perspectiva histórico-cultural de Vygostsky e interlocutores como Luria, Leontiev e Wallon, que estudam as relações entre cultura, pensamento, linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. Estudos que dimensionam as práticas de ensino-aprendizagem como interações mediadas pelos ambientes de aprendizagem, meios, recursos e ferramentas com seus códigos próprios.  Fundamentada, principalmente, nestes teóricos, considero que é assim que devemos entender a aprendizagem, em qualquer tempo, inclusive no século XXI.

revistapontocom  – E o que deve ser ensinado e aprendido no séc. XXI?
Marcia Stein – Na escola devem ser desenvolvidos conhecimentos, valores e habilidades fundamentais para viver e conviver. Alguns destes itens são eternos e outros novos: cidadania, ética, sensibilidade estética, pensamento autônomo, habilidades de afirmar a própria singularidade, de aprender continuamente e de lidar com a mudança e com a produção em rede (trabalho colaborativo e autoria compartilhada). Cabem ainda: a valorização da identidade e do patrimônio nos níveis individual, familiar e comunitário, a preservação da memória, a habilidade de ler significativa e criticamente as informações e de criar novos universos simbólicos e campos semânticos e, por fim, a habilidade de se expressar criativamente por meio de diferentes códigos e linguagens. Isso tudo além de ler, escrever e falar de modo claro e correto na língua pátria, calcular, categorizar, abstrair, representar, conhecer o planeta e o patrimônio científico e cultural da humanidade. É muito coisa, não é? Por isso, temos que ter a vida toda para aprender.

revistapontocom – O que você espera com a publicação do livro?
Marcia Stein – Espero contribuir para a atualização de paradigmas e práticas educacionais. E lembrar a importância de pensarmos a educação em diálogo com conhecimentos de outros campos. Os professores, independentemente da disciplina que lecionam, têm que ampliar seus horizontes técnicos, científicos e culturais, pensando e se interessando pelo que se faz de melhor em seu tempo, nos campos da pesquisa científica e das artes, como cinema, quadrinhos, literatura, música, dança, artes visuais, teatro, filosofia etc. Claro que, para poder fazer isso, além de desejar, ele precisa ter condições materiais de acesso a todo um universo de informações que nem sempre tem. É a dimensão política do desafio educacional contemporâneo: sem professores devidamente revalorizados, bem formados, bem pagos, qualificados e em constante processo de atualização, vamos continuar condenados ao elo perdido entre escola e o mundo. E os jovens estudantes continuarão procurando na TV, na internet e nos games alternativas mais interessantes e atuais de aprender.

História e Geografia

No início do século XXI, quando o atual modelo de ensino é cada vez mais questionado, o que ensinar? Como ensinar? O que deve ser prioridade no ensino das áreas de conhecimento da Educação Básica? A revistapontocom inicia esta semana uma série que pretende ouvir professores de cada área de conhecimento, com o objetivo de refletir sobre o tema e fazer com que você, leitor, também participe, enviando seu comentário e opinião.

Nesta primeira semana, o debate é sobre História e Geografia. Trazemos o olhar de Keila Gringber, professora doutora em História da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio) e do professor de Geografia, Marcos Ozório, da rede municipal, estadual e particular do Rio.

Confira e participe:

 – Keila Gringber (clique aqui)

 

 – Marcos Ozório (clique aqui)

O ensino de Geografia no século XXI

revistapontocom – O que hoje não se pode deixar de ensinar, na área de Geografia do Brasil, na Educação Básica?
Marcos Ozório – Na Educação Básica é indispensável para a constituição de conceitos geográficos a exposição intensa dos alunos aos diferentes mapas. O pensamento espacial exige muita abstração e os mapas são os melhores aliados que podemos ter para seu desenvolvimento pois nos auxiliam na compreensão dos diferentes arranjos espaciais. Diria que o “indispensável” em termos de conhecimentos sobre a Geografia do Brasil seria o conhecimento crítico da relação entre a realidade econômica versus a realidade social. Por exemplo: o sétimo país mais rico do mundo versus a 88 posição que ocupa em Educação versus que 50% dos domicílios brasileiros não têm saneamento básico. Como e por que esses paradoxos estão presentes?. É importante também destacar o conhecimento da diversidade natural do país e do melhor aproveitamento de toda essa riqueza que o território nos oferece.

revistapontocom – O que é preciso ser aprendido, na área de Geografia do Brasil, pelos alunos na Educação Básica?
Marcos Ozório – O ensino de geografia desenvolve habilidades cognitivas muito importantes: além da compreensão de mundo, dos diferentes arranjos espaciais, percebo que o desenvolvimento de MAPAS mentais (permitem que nos orientemos, localizemos etc) é uma das mais louváveis habilidades legadas pela Geografia.

revistapontocom – Qual é o principal desafio de se ensinar Geografia do Brasil, nos dias de hoje, para os alunos na Educação Básica?
Marcos Ozório – O desafio maior refere-se à falta de condições (escola pública) e à pouca valorização do conhecimento em nossa sociedade (tanto na pública quanto na privada).

revistapontocom – Se ensina Geografia do Brasil, nos dias de hoje, da mesma forma que se ensinava no final do século XX? Se algo mudou, o que mudou e por quê?
Marcos Ozório – Do final do século XX para cá não houve muitas mudanças, a não ser as decorrentes do uso de novas tecnologias (ex: GoogleEarth) que podem apoiar significativamente a constituição de conceitos geográficos. É importante evitar que a Geografia seja uma disciplina escolar de caráter informativo, com ênfase na memorização (momentânea, pois em seguida a uma prova dessa natureza, os alunos esquecem boa parte do que estudaram) e que se volte mais para a promoção do conhecimento cientìfico, tão desvalorizado e tão necessário para um país rico que pretende se desenvolver para além da sua economia, construindo uma sociedade menos dependente dos países do norte.

O ensino de História no século XXI

revistapontocom – O que hoje não se pode deixar de ensinar, na área de História do Brasil, na Educação Básica?
Keila Gringber – O ensino de História melhorou nos últimos tempos, e muito. Temos à disposição mais e melhores livros didáticos, bem como uma infinidade de recursos para usar em nossas aulas. Incorporamos novos temas, e nos aproximamos mais da realidade dos nossos estudantes. No geral, não precisamos mais seguir um currículo pré-determinado, podendo adaptar os conteúdos às especificidades das escolas e dos alunos. Mas ensinar História continua sendo um grande desafio. Ainda damos aula como se dava há cem anos atrás, à base da voz, do giz ou do pilot, e geralmente usamos a tecnolog ia como uma bengala para ilustrar nossas aulas, não como uma forma de introduzir uma nova relação com o conhecimento.

revistapontocom – O que é preciso ser aprendido, na área de História do Brasil, pelos alunos na Educação Básica?
Keila Gringber – Ao contrário de disciplinas como Português ou Matemática, ainda seguimos tendo que explicar por que História é importante. Estudar História é tão importante quanto qualquer outra ciência: o mais importante não é o conteúdo em si, mas compreender como tal conhecimento foi sendo construído por gerações e gerações de seres humanos; e que, como toda criação humana, ele é sempre datado e imperfeito. 

revistapontocom – Qual é o principal desafio de se ensinar História do Brasil, nos dias de hoje, para os alunos na Educação Básica?
Keila Gringber – Mais que tudo, ainda não sabemos bem como despertar no aluno o interesse pela história. Talvez contando algumas, sentando na cadeira de balanço como faziam nossos avós, seja uma boa ideia.

revistapontocom – Se ensina História do Brasil, nos dias de hoje, da mesma forma que se ensinava no final do século XX? Se algo mudou, o que mudou e por quê?
Keila Gringber – Embora tenhamos substituído o ensino conteudista por aulas mais problematizantes, ainda nos vemos às voltas de como fazer com que nossos alunos vivenciem o conceito de tempo, central para a nossa disciplina e tão abstrato para jovens e crianças. Queremos que eles sejam capazes de formular questões sobre o passado, mas em geral negligenciamos o interesse das crianças por batalhas, roupas e outros detalhes que nós, professores, consideramos pouco importantes. Se conseguirmos que eles compreendam que não há mal que nunca perdure nem bem que nunca se acabe, teremos avançado um bocado. Não acho que isto seja pouca coisa. Com certeza os alunos têm muito o que aprender. Nós, os professores, mais ainda.

Especialistas falam sobre classificação indicativa

Ana Lúcia Villela – Instituto Alana (clique aqui)

Antônio Jorge Pereira Júnior – Doutor em Direito Civil (clique aqui)

Beth Carmona – Midiativa (clique aqui)

Carla Camurati – atriz, diretora e roteirista (clique aqui)

Gustavo Gindre – jornalista e Mestre em Comunicação (clique aqui)

Ismar de Oliveira Soares – Dept. Comunicações e Arte da USP (clique aqui)

João Jardim – cineasta e diretor (clique aqui)

João Matta – Professor da ESPM (clique aqui)

Laurindo Leal Filho – sociólogo e professor da USP (clique aqui)

Luís Erlanger – diretor da Central Globo de Comunicação (clique aqui)

Regina de Assis – Consultora em Educação e Mídia (clique aqui)

Rosália Duarte – Coordenadora do Grupem da PUC (clique aqui)

Wagner Bezerra – publicitário, roteirista e diretor (clique aqui)

Waldomiro Vergueiro – professor da USP (clique aqui)

Zico Góes – diretor de conteúdo da MTV Brasil (clique aqui)

Regina de Assis

Um dos indicadores mais importantes para se aferir as prioridades a respeito dos direitos dos cidadãos brasileiros – aí incluídas as crianças e adolescentes, cidadãos em processo – é a existência de legislação específica e contemporânea que  garanta seus direitos. O direito de acesso e fruição das linguagens  audiovisuais, digitais e impressas de qualidade é relativamente recente no Brasil, mas está previsto na Constituição Federal de 1988, normatizada pela Portaria 1.220/07 que trata da Classificação Indicativa. Esta normatização da lei maior que rege nosso país foi uma conquista muito importante da e para a sociedade brasileira.

O processo para obtê-la foi laborioso, exigente e com frequencia penoso, pela incompreensão de setores importantes da sociedade, como parte da classe artística e dos detentores de concessão pública de canais de televisão e  rádio, bem como produtores de jogos eletrônicos, DVDs e conteúdos acessíveis pelos computadores e celulares. No entanto, um significativo contingente de produtores de mídia, artistas, educadores, jornalistas, legisladores, pais e responsáveis se mobilizaram para garantir a nossas crianças e adolescentes o direito de acesso a mídia de qualidade, que faça jus à sua inteligência, curiosidade, criatividade e dignidade. É importante seguir divulgando o que é e quais são os benefícios da Classificação Indicativa, que convida/apoia os produtores de mídia, famílias e educadores a exercerem seu dever cidadão de prover conteúdos atraentes, inovadores, polêmicos, mas dignos, por meio das várias linguagens de mídia, que alimentam corações e mentes de crianças e adolescentes brasileiros.

Regina de Assis
Na época do depoimento, Regina de Assis era presidente da MultiRio. Depoimento concedido ao site do Rio Mídia, em 2007, logo após a aprovação da portaria 1.22o, sobre a classificação indicativa.

 

Zico Góes

A posição da MTV é a seguinte: somos a favor da classificação indicativa. Achamos que é de responsabilidade dos canais zelar pelo conteúdo de seus programas em respeito a seu público. Tenho ouvido, lido e visto por aí muitas opiniões contrárias à portaria, qualificando-a como censura. Acho um exagero, um desvio, uma tentativa de se “lavar as mãos”.

Acho que a maioria das TVs abertas acaba escorregando na qualidade dos programas, apelando mesmo para conseguir os malditos pontos no Ibope. A gente não gosta disso. Esse tipo de conteúdo merece, sim, passar pelo crivo do poder público e quem sabe, um dia, sair da pauta dos ditos “criativos” de TV. No fundo esse apelo à baixaria, ao apelo sexual, violência e tudo mais são reflexo da grande falta de criatividade que atinge a maioria das TVs abertas no Brasil, da preguiça de se achar outros assuntos e formatos. Um copia o outro no que o outro tem de pior sob a alegação de que “dá audiência”, quase ninguém se arrisca a procurar novas soluções.

Temos respeitado a classificação indicativa, mas também temos críticas a fazer. Discutimos com o Ministério [da Justiça] os critérios e muitas vezes não concordamos com a classificação e entramos com pedido de revisão. Às vezes eles usam, sim, critérios muito subjetivos, tomam a parte pelo todo e cometem erros e injustiças. Na maioria das vezes conseguimos demonstrar que estão errados, que o tal programa não é assim e tudo mais e eles voltam atrás, são muito abertos ao diálogo.

Alguns detalhes do Manual [de classificação indicativa] ainda precisam ser revistos, no nosso entender, como a obrigatoriedade de se exibir à classificação em linguagem brasileira de sinais [libras], ou a questão do fuso horário.Mas não gostamos de quem se exime da responsabilidade pelo que faz. É quase como se dar uma autolicença para fazer o que bem entender na TV. O espectador que se vire, mude de canal, feche os olhos e ouvidos. Isso é ruim.

Sabemos que o hábito de assistir à TV não é assim tão individual, não depende só das escolhas pessoais feitas naquele momento, rola um certo automatismo, a TV já vem ou fica ligada em determinado canal o tempo todo e, no caso da TV aberta, não há muita opção. E a escolha, sabemos também, não fica só a critério dos pais que, na maioria das vezes não estão presentes para controlar o que o filho vê ou não. Nessa história toda, a MTV se garante e se responsabiliza pelo que faz e isso que os outros canais deveriam fazer também.

Zico Góes
Na época do depoimento, Zico era diretor de Programação da MTV-Brasil. Depoimento concedido ao site do Rio Mídia, em 2007, logo após a aprovação da portaria 1.22o, sobre a classificação indicativa.

Waldomiro Vergueiro

Intrinsecamente, toda classificação de obra artística que possa predispor um cidadão contra uma determinada obra artística é um ato de censura. Como tal, ela estaria em desacordo com a constituição brasileira, que expressamente proíbe a censura de qualquer atividade artística.

No entanto, entendo que a preocupação com a classificação indicativa, conforme defendida pelo Ministério da Justiça (como, por exemplo, na Portaria n. 1100, de 14 de julho de 2006) tem a seu favor o fato de ser bastante coerente em relação aos preceitos constitucionais, o Código Civil e o Estatuto da Criança e do Adolescente. Assim, sem negar a responsabilidade dos pais no exercício do poder familiar, o Ministério se coloca em uma postura de orientação, assumindo o papel constitucional da União na classificação de diversões públicas. Assim, permanece evidente que cabe aos pais, em última análise, a decisão sobre o acesso de seu filho ao conteúdo veiculado por qualquer veículo de entretenimento.

Nesse sentido, é importante ter em mente que a classificação indicativa existe em muitos países do mundo e tem atingido bons resultados. Por outro lado, qualquer Portaria será insuficiente para atingir os objetivos educativos pretendidos pelo Ministério da Justiça; é importante que os pais sejam participantes da vida de seus filhos, acompanhando as produções a que eles têm acesso e discutindo com eles as razões das restrições.

Além disso, é importante a vigilância e participação da sociedade em relação ao trabalho de classificação indicativa, coibindo abusos no exercício dessa classificação e impedindo que uma mentalidade de censura seja instalada no ambiente de classificação indicativa, principalmente considerando os reflexos que isso poderá ter na sociedade como um todo.

Waldomiro Vergueiro
Coordenador do Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicação e Artes da USP. Depoimento concedido ao site do Rio Mídia, em 2007, logo após a aprovação da portaria 1.22o, sobre a classificação indicativa.