Academia Brasileira de Letras

Por Marcus Tavares

A escritora Ana Maria Machado dispensa apresentações. Mas para quem não sabe ela foi eleita em dezembro passado para ocupar o cargo de presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL) ao longo deste ano. Ao tomar conhecimento de sua eleição, disse que pretende dar continuidade à linha de
atividades voltadas para a promoção dos melhores valores da cultura nacional e da Língua Portuguesa.

Por meio da assessoria de imprensa da ABL, Ana Maria Machado concedeu uma entrevista para a
revistapontocom. Quais são os planos de Ana Maria Machado para a ABL? Algum projeto especial para crianças e adolescentes? E para os professores?

Acompanhe a entrevista:

revistapontocom – Pode-se dizer que, hoje, com sua eleição, a ABL é um pouco mais próxima da literatura infantojuvenil, dada a sua história?
Ana Maria Machado – Desde sua criação, em 1897, a Academia tem buscado estar próxima da sociedade, promovendo, entre outras atividades, ações culturais acessíveis aos cidadãos. Nossa responsabilidade sempre foi com a literatura e com a Língua Portuguesa. Se é literatura, não importa se é infantil ou outro adjetivo. O importante é que seja uma literatura que possa ser lida também por crianças. Mas se não for apreciada e fruída também por adultos, não é literatura. É apenas um livro para criança. Portanto, não vamos estar mais próximos da literatura infantojuvenil, simplesmente. Muitos Acadêmicos, em todos os anos de existência da ABL, escreveram ou escrevem também para crianças, resguardando,
naturalmente, a importância literária de seus textos. Não sou a única acadêmica que tem uma história literária voltada para a infância. Sou apenas a que tem a imagem mais associada a esse segmento. Entre escritores com obra significativa para o público infantil, a Academia abrigou ao menos dois clássicos – Viriato Correia e Olavo Bilac – e um grande mestre – Orígenes Lessa. Uma característica da literatura no Brasil é que não temos uma barreira rígida entre autores que escrevem para crianças e para adultos. Por exemplo, Jorge Amado, Josué Montello, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Adonias Filho, Guilherme de Almeida, Menotti del Picchia, Raimundo Magalhães Junior, Marques Rebelo, Herberto Sales, Nélida Piñon, Odylo Costa Filho, Carlos Nejar , João Ubaldo Ribeiro, Darcy Ribeiro, Antonio Olinto, Alberto da Costa e Silva, Lêdo Ivo, Arnaldo Niskier, Carlos Heitor Cony, Zélia Gattai, Paulo Coelho, Moacyr Scliar, Cícero Sandroni e José Mindlin também escreveram livros infantis. Outros tiveram textos seus transformados em livros para crianças, como Guimarães Rosa e Ivan Junqueira, por meio de uma edição ilustrada e diagramada de forma a atrair pequenos leitores. Desses, Josué Montello, Nélida Piñon, Alberto da Costa e Silva, Arnaldo Niskier, Cícero Sandroni e Ivan Junqueira foram Presidentes da ABL. Não
sou a primeira em nada.

revistapontocom – A senhora tem algum projeto que promova uma aproximação entre a ABL e a infância e juventude?
Ana Maria Machado – Não, nem acho que essa deva ser uma preocupação específica da Academia. Temos no Brasil uma excelente instituição que cumpre muito bem esse papel de fomento e incentivo: a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Mas desejamos, sim, aumentar o número de leitores de literatura no país, independentemente de sua idade. Com esse objetivo, temos uma programação cultural variada e aberta. A Academia sempre buscou estar próxima da sociedade, seja incorporando aos seus
quadros intelectuais oriundos dos mais diversos extratos sociais e procedências geográficas, seja promovendo ações culturais acessíveis aos cidadãos. Nossa programação cultural procura manter o espírito deste tempo que passa e voa, dando seguimento a uma linha de intensa oferta de serviços culturais totalmente gratuitos, abertos ao público e com transmissão direta por meio de nosso site
na internet. Trouxemos para a ABL milhares de estudantes do Ensino Médio, realizando um vitorioso projeto de visitas guiadas às nossas instalações.

revistapontocom – E o que dizer da relação entre a ABL e os professores?
Ana Maria Machado – Esse é um ponto importantíssimo que nos preocupa muito, mas não está ao nosso alcance fazer muita coisa, porque os problemas não se resolvem com ações pontuais. Têm a ver
com a formação do magistério, e isso é uma questão relativa à qualidade do ensino no Brasil como um todo. Na faculdade, os professores aprendem muito sobre pedagogia e psicologia, mas pouco sobre arte. Ficam sem instrumentos para distinguir arte de não arte, textos bons de ruins. Infelizmente, nossos
professores lêem pouco, porque a formação que recebem não dá ênfase a isso. É uma situação completamente contraditória. Ninguém contrata um instrutor de natação que não sabe nadar. No entanto, as salas de aula brasileiras estão cheias de gente que, apesar de não ler, tenta ensinar. Em contrapartida, nas minhas viagens pelo interior do Brasil, tenho conhecido algumas experiências individuais surpreendentes. Mas ainda são mais exceção do que regra dentro do sistema educacional. Esbarram na burocracia, no currículo, no horário que não reserva espaço para que as crianças leiam. Mas temos alguns projetos em andamento, para reforçar essa formação e dar apoio ao professor em seu contato com a literatura – como o Cenas Clássicas, que teve um piloto no ano passado e vai se desenvolver no decorrer deste ano. Além disso, contam-se às centenas os acadêmicos que exercem ou exerceram o
magistério.

revistapontocom – Como mudar este quadro? Isso é realmente possível? Como?
Ana Maria Machado –
É possível, sim. Basta usar o livro na sala de aula com muita paixão. Quando o
trabalho é feito com gosto, fica fácil descobrir a melhor forma de envolver a turma. Também é importante que o professor nunca indique algo que não tenha lido. Nem algo que, tendo lido, não lhe tenha agradado.

revistapontocom – Que livros nacionais marcaram a sua infância e quais a senhora recomendaria para as crianças? E para os jovens?
Ana Maria Machado – Prefiro citar autores. Entre os nacionais que me marcaram na infância: Monteiro Lobato, Olavo Bilac, Guilherme de Almeida. Não havia muitos e minhas leituras, fora esses, eram sobretudo de estrangeiros traduzidos – Mark Twain, Stevenson, Grimm, Perrault, Andersen. E recomendaria hoje, entre os nacionais, Ruth Rocha, Ziraldo, Sylvia Orthof, Bartolomeu Campos Queiroz, Marina Colasanti, Pedro Bandeira, João Carlos Marinho, Mary e Eliardo França, Ricardo Azevedo, Marcos
Rey, José Paulo Paes, Cristina Porto, além das duas autoras brasileiras que receberam o Prêmio Christian Andersen: Lygia Bojunga e eu. Hoje, eu saúdo a vitalidade do segmento editorial da literatura infantil. É um dos que mais crescem no mercado brasileiro. Nossa literatura infantil é original, sem preocupações didáticas nem moralistas e com capacidade de aliar crítica com a expansão da imaginação.

revistapontocom – O que resta para uma infância que é cada vez mais encurtada?
Ana Maria Machado –
Apesar dos muitos avanços, a educação no Brasil, em todos os níveis, continua muito deficiente – e as estatísticas recentes são bem a prova disso. Sempre propus uma transformação que envolva fundamentalmente o trinômio poder público/escola/professor. Sem que nos empenhemos por ações efetivas que mobilizem recursos de toda ordem no sentido de mudar o atual quadro, não devemos contar com melhorias.

O dono da lua

Por Marcus Tavares

Ao olhar para o céu o pequeno Nick faz uma incrível descoberta: a lua desapareceu. Intrigado, resolve desvendar o mistério e convencer os adultos a ajudá-lo. Nick quer descobrir quem é o dono da lua e fazer com que ela volte a brilhar. Esta é a história do livro O dono da lua (Editora Escrita Fina), da escritora estreante no universo infantil, Ronize Aline. O título, que traz ilustrações de Martha Werneck, foi selecionado no Prêmio Monteiro Lobato de Literatura Infantil de 2009, promovido pelo Sesc do DF. O lançamento acontece no dia 5 de fevereiro na Livraria da Travessa (Ipanema), no Rio, depois de uma intensa campanha feita pela
escritora nas mídias sociais. Há cerca de dois meses, Ronize criou uma página do livro no facebook, fez promoções, postou vídeo no Youtube, angariando a simpatia dos pais e interessados. O trabalho parece que deu certo, jornais cariocas passaram a divulgar a façanha da autora.

Em entrevista à revistapontocom, Ronize, jornalista e professora universitária, fala sobre o seu processo de criação e como é ingressar no grupo de escritores de literatura infantil, grupo renomado internacionalmente.

Acompanhe:

revistapontocom – O Dono da Lua conta que história? A obra é voltada para que faixa etária?
Ronize Aline – O dono da Lua conta a história de Nick que, à primeira vista, é um menino como todos os outros. Detesta os legumes que os outros garotos também odeiam e adora as mesmas brincadeiras das quais as outras crianças também gostam. Mas, chegando um pouco mais perto, vê-se que ele é especial. Muito mais do que curioso, ele é um menino que enxerga coisas que ninguém vê; que descobre coisas que ninguém descobre; e que adora passar horas debruçado sob a janela, vidrado nos segredos do céu. Por isso, numa noite, só ele consegue reparar que a Lua simplesmente desapareceu. E não vai ser nada fácil convencer os adultos de que é preciso encontrar o dono da Lua, a pessoa que, noite após noite, a faz
girar no céu, mudando suas fases. Será que essa pessoa existe? Como encontrá-lo? Só mesmo com muita esperteza – e um tantinho de teimosia – Nick vai conseguir resolver esse problema, e devolver a Lua para o céu de todos nós. O livro é voltado para crianças de 7 a 10 anos.

revistapontocom – Escrever para criança: como é este processo?
Ronize Aline – Fascinante. Se por um lado o imaginário infantil tem um repertório riquíssimo, por outro isso não quer dizer que a criança aceite qualquer coisa. Ela não gosta de ser enganada, mas ainda não está engessada pelas convenções e lógicas do mundo adulto. Com isso, a criação é, ao mesmo tempo,
produção e deleite.

revistapontocom – Como foi a sua descoberta como escritora?
Ronize Aline – Desde que me conheço por gente me vejo como escritora, no sentido de uma inventora de histórias. Acabei fazendo jornalismo por imaginar que essa seria a área onde eu mais poderia desenvolver essa habilidade. Apesar de lidar com realidade e não com ficção, o jornalismo me deu a prática de
contar histórias – independente das diferenças na estrutura dos textos. O que fazemos como jornalistas é contar histórias que aconteceram de fato. Mas se for me considerar escritora a partir do momento em que passei a escrever ficção sistematicamente, diria que foi há aproximadamente nove anos, quando comecei a participar de alguns projetos literários. Esse livro mesmo, O dono da Lua, foi escrito há oito anos e só agora está sendo publicado – depois de ter sido selecionado no Prêmio Monteiro Lobato de Literatura Infantil de 2009.

revistapontocom – Como é pensar, criar e escrever uma história infantil?
Ronize Aline – Pensar e criar acontecem de forma muito mais intensa e acelerada do que escrever. Como também sou jornalista e professora universitária, o tempo para escrita é reduzido. Então me sinto sempre atrasada na escrita em relação às histórias que já tenho planejadas. Como gosto muito de observar, acabo tendo muitas ideias de novos livros e pouco tempo para colocar a todas no papel – ou computador. Isso me deixa um pouco frustrada. Quem dera pudesse me dedicar integralmente à literatura.

revistapontocom – Você acha que a gente pode aprender a ser um escritor infantil?
Ronize Aline – Acho que a questão é: a gente pode aprender a ser um escritor? Porque infantil, ou não, é
uma questão de sintonia, afinidade, envolvimento com os temas. Aprende-se a ser escritor ou, como alguns defendem, é puro talento? Aquela equação que diz que 90% é transpiração e apenas 10% é
inspiração faz sentido – só não sei se exatamente nesses percentuais. Acredito, sim, que existam pessoas que tenham mais afinidade com as palavras, outras com números, outras com imagens e assim por diante. Isso não quer dizer que ter facilidade de escrever faz você um escritor pronto. Vide as inúmeras oficinas literárias que pipocam por todo o Brasil, onde são trabalhadas a estrutura do texto literário, a construção de personagens, de cenários, diálogos… Escrever ficção tem sua técnica, como conseguir o efeito desejado junto aos leitores.Então acho que dá para aprender a ser escritor, mas algumas características natas são fundamentais, como em qualquer outra profissão.

revistapontocom – Que critérios um livro infantil deve seguir? O que não pode faltar?
Ronize Aline – Vou responder o contrário: o que um livro infantil não deve ter. Ficção infantil não deve ter lição de moral. O grande erro é achar que literatura infantil é para ficar educando. Educar é para os livros didáticos e paradidáticos. Toda ficção é para libertar, fazer sonhar, se divertir, chorar, se emocionar, rir, se assustar, viver outras vidas, compartilhar, se envolver – tudo aquilo que se faz, por exemplo, no cinema, mas que muitos ainda não descobriram que também podem encontrar nos livros. O que vier, além disso, é consequência, mas não deve ser o objetivo, senão corre-se o risco de afastar os leitores em vez de aproximá-los.

revistapontocom – Como é escrever para criança num país de grandes autores infantis, como Ruth Rocha, Ana Maria Machado, Lygia Fagundes Telles?
Ronize Aline – Eu incluiria outra autora fundamental para a nossa literatura infantil: Lygia Bojunga. Ter a dádiva dessas escritoras é altamente inspirador. Meu livro de cabeceira até hoje é “Marcelo Marmelo Martelo”, da Ruth Rocha. Sinto que foi na primeira vez que o li, quando pequena, que instintivamente decidi que queria ser igual àquela moça, inventar histórias incríveis que deixassem as pessoas com vontade de ler mais, e mais e de novo. Para escrever para criança é preciso gostar de ler como criança. Sempre fui
apaixonada por literatura infantil, mesmo depois de ter passado muito da faixa etária. Tenho uma grande biblioteca de obras infantis porque me dá prazer lê-las, ainda hoje. E, para dar continuidade ao trabalho dos grandes autores infantis brasileiros, não dá pra fazer feio. Escrever para criança requer tanta dedicação e comprometimento quanto para qualquer outro público.

revistapontocom – Como é escrever para criança num mundo onde o livro tem vez e voz, mas concorre com audiovisuais, games e uma interatividade maior?
Ronize Aline – A lógica tem de ser do compartilhamento e não da exclusão. Cabe aos pais – e num segundo momento à escola – incentivar o convívio entre as diversas tecnologias: a do livro de papel, a dos audiovisuais, a dos games, a da internet e assim por diante. Meu filho de três anos e meio já joga games no celular com muita desenvoltura, mas também fica tão maravilhado numa livraria com a quantidade de livros que não quer sair de lá. É preciso mostrar que cada um tem seu encanto. Ler não é dever, é prazer.

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Da Agência Câmara

A Câmara dos Deputados analisa projeto que proíbe a venda de sapatos femininos com saltos altos para crianças. Pela proposta (Projeto de Lei 1885/11), do deputado Décio Lima (PT-SC), a altura do salto de calçados para crianças não poderá ser superior a dois centímetros. O projeto considera criança a pessoa com até 12 anos incompletos.

Pelo descumprimento da determinação, os infratores poderão pagar multa, ser proibidos de fabricar o
produto, ou ter a licença do estabelecimento cassada. Além disso, poderão ser punidos com penas de detenção de seis meses a dois anos. De acordo com o projeto, incorrerá nas mesmas penas quem
patrocinar a oferta desses calçados. A multa poderá ser de R$ 200 por par de sapatos comercializado. A publicidade de calçados femininos com salto superior a dois centímetros, conforme o projeto, devem trazer
“informações claras, corretas, precisas, ostensivas e em língua portuguesa sobre os riscos à saúde e à segurança decorrentes de sua utilização por crianças”.

O deputado Décio Lima informa que já há algum tempo a Medicina tem apontado os males trazidos mesmo às mulheres adultas pelo uso de sapatos de saltos altos. Os riscos à saúde provocados por este acessório são ainda mais graves, porém, quando se trata de crianças, segundo o autor do projeto. “A estrutura óssea infantil deforma-se com facilidade, de forma que a sobrecarga na parte da frente do pé provocada pelo uso de sapatos de saltos altos por meninas pode causar deformações só corrigíveis por cirurgia”, informa o parlamentar.

Encurtamento dos ligamentos

Segundo ele há, ainda, a possibilidade de o pé sofrer um processo degenerativo, com o alargamento da base e o encurtamento dos ligamentos. “Igualmente nocivos são os efeitos dos saltos altos sobre a coluna infantil, consistindo no aumento da curvatura da região lombar em decorrência da projeção para a frente do centro de gravidade corporal, o que pode gerar dores e, até mesmo, mudanças na posição da coluna”, complementa o deputado.

“Erotização precoce”

De acordo com Décio Lima, os alertas médicos costumam, no entanto, “ser abafados pela estridência da indústria da moda, que, de maneira ditatorial, molda os gostos de crianças e reduz o poder de reação dos pais”. Ele aponta ainda para o processo de erotização precoce de meninos e meninas que vem ocorrendo  os últimos anos e diz que “o vestuário incompatível com a fase de formação física, moral e psicológica” das crianças tem sido uma das maneiras de disseminar esta cultura. “O uso de sapatos de saltos altos por meninas, ainda crianças, é apenas uma das vertentes escabrosas desta perda de referências em nossa sociedade”, protesta o autor do projeto.

Tramitação

O projeto tramita em caráter conclusivo e será examinado pelas comissões de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio; de Seguridade Social e Família; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.

O que distrai os alunos?

Por Talita Moretto
Jornalista, especialista em Tecnologias na Aprendizagem. É coordenadora de Programa Jornal e Educação – Projeto Vamos Ler – e possui um blog para discutir o uso de mídia na educação

Uma ampla discussão toma conta dos bancos escolares: a tecnologia veio para auxiliar no ensino ou está atrapalhando as aulas e distraindo os alunos? Educadores analisam e buscam alternativas para conciliar o fácil e rápido acesso aos recursos tecnológicos às práticas pedagógicas. O objetivo: minimizar os efeitos e fazer com que o aluno ainda preste atenção naquela aula onde quadro, giz e um bom livro ainda merecem comparecer.

Mas a grande questão é: será que a distração na escola surgiu apenas com o advento das novas tecnologias da informação e da comunicação? Controlar as conversas paralelas,as risadas e a troca de bilhetinhos é um exercício diário de domínio da classe. E não é de hoje. O problema é que a tecnologia é atraente, e mesmo quando não permitida oficialmente em sala de aula, é a grande promotora da distração
entre os estudantes. Um bom celular permite ao aluno acessar seus e-mails, frequentar redes sociais, ‘twittar’ durante aquela explicação na aula de Química, ou Matemática, ou qualquer outra disciplina que possa ser considerada menos interessante.

O professor de Física do Colégio Marista Ponta Grossa, Wagner Sindici, comenta que a distração mudou quanto ao número de alunos envolvidos. Na profissão há 23 anos, Sindici lembra que há dez anos, em uma turma de trinta alunos, apenas cinco ou seis se distraiam com bilhetinhos. “Fatos que aconteciam na hora do recreio, ou antes do início da aula, eram desdobrados na sala. Eles utilizavam bilhetinhos para deixar o colega informado. Era uma rede de comunicação interna muito interessante. Porém, de uns anos para cá, com o celular, os bilhetinhos sumiram e passou a existir a famosa SMS. Isso começou a se espalhar e um número cada vez maior de alunos passou a agir desta forma”, explica o educador.

Professora há mais de vinte anos no Colégio Marista São Luís, de Jaraguá do Sul/SC, Andréa Gomes Cardoso conta que antigamente os meninos colecionavam figurinhas da Copa do Mundo e as meninas, papel de carta, e faziam o ‘caderno de perguntas’, ou ‘livro de confidências’.  “Anos atrás, a gente apenas
recolhia o material do aluno e não explicava o motivo. Com autoridade, falávamos que não era material de aula e éramos respeitados. Hoje, o papel do educador é outro e se diferencia pela forma de conduzir a conversa com o aluno, principalmente ouvindo-o. Quando recolhemos um material, temos que contextualizar a questão de uso com ética, moral e cidadania”, explica Andréa.

O assessor educacional de Tecnologia da Informação do Grupo Marista, Gilson Fais, esclarece que a tecnologia está a serviço da educação e que a utilização dos mais variados recursos é incentivada dentro dos colégios. “É prematuro validar a proibição do uso do celular dentro da sala de aula, por exemplo, mesmo porque, os recursos que o aparelho disponibiliza são de grande valia para a educação”, comenta. Fais reforça que o aparelho deve ser utilizado com responsabilidade e é preciso também trabalhar a conscientização do aluno ao utilizar a ferramenta. “Claro que cada unidade tem autonomia para trabalhar de maneira diferente.Hoje o recado dos alunos chega por bluetooth. Compete ao educador avaliar de que maneira proceder, pois novos tempos trazem novos recursos e exigem novos métodos de trabalho”, acredita.

Mostra de Cinema

Estão abertas até 18 de março as inscrições para a Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, um dos mais importantes festivais do segmento no Brasil. A 11ª edição do evento ocorre de 29 de junho a 15 de julho no Teatro Governador Pedro Ivo Campos, na capital catarinense.

Podem participar da seleção produções nacionais de todos os gêneros e formatos, direcionadas ao público infanto-juvenil e inéditas em Santa Catarina. O regulamento e a ficha de inscrição estão disponíveis no site www.mostradecinemainfantil.com.br. Este ano todo o processo será online, inclusive o envio dos filmes. As obras selecionadas serão divulgadas no final do mês de maio. O Melhor Filme eleito pelo Júri Oficial e o Melhor Filme escolhido pelo público infantil receberão o prêmio aquisição da TV Brasil no valor de 10 mil reais.

Além dos curtas nacionais na Mostra Competitiva, a programação do evento traz curtas e longas-metragens internacionais, médias e longas brasileiros nas mostras especiais não-competitivas e pré-estreias. “É o resultado de um ano de muito trabalho e pesquisa, pois fizemos parcerias com vários festivais do Brasil e exterior”, salienta Luiza Lins, diretora da Mostra e idealizadora do projeto.

Nessa edição do evento ocorre o 8ª Encontro Nacional de Cinema Infantil, o 5º Fórum de Cinema e Cidadania, o Pitching, em parceria com o Festival Internacional de Cinema Infantil, oficinas para crianças e professores da rede pública e o Projeto Escola, que oferece transporte para as crianças das escolas públicas até à sala de cinema do festival.

A Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis é uma realização da Lume Produções Culturais com apoio do Núcleo de Ação Integrada e patrocinadores.

TV por assinatura

Cidadãos brasileiros têm até o dia 3 de março para opinar sobre a Instrução Normativa Geral que regulamentará dispositivos da nova lei de TV por assinatura.O texto será enviado ao Senado, para que seja avaliado pelo Conselho de Comunicação Social. Em debate, as cotas para produção nacional, a definição de horário nobre, a quantidade de publicidade.

Leia  texto na íntegra

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Por que tanta audiência?

 

Por Marcus Tavares

Everardo Rocha é antropólogo. Professor do Departamento de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), é autor de vários livros, entre eles O que é etnocentrismo?, Magia e Capitalismo, Representações do consumo, O que é mito? e A sociedade do sonho. A revistapontocom conversou esta semana com o professor. Objetivo: discutir, à luz da Antropologia, o interesse das pessoas pelos reality shows, mas especificamente o interesse dos brasileiros. O debate não é à-toa, a maior rede de televisão do país, a Rede Globo, acaba de estrear a 12ª edição do Big Brother Brasil, que já na primeira semana alcançou as páginas dos jornais e da concorrência com o suposto caso de estupro entre participantes da casa.

Como explicar a audiência? Qual é o impacto do programa no dia a dia das pessoas? O que dizer das críticas que a programação recebe? Trata-se de um reality show ou é mais um entretenimento narrativo ficcional?  Confira as principais ideias do professor.

Acompanhe:

Voyeurismo
Talvez, a coisa que o ser humano mais goste de fazer é ver a vida do outro, observar. Gostamos de olhar uns aos outros, seja no shopping, na praça, nos bares e boates. Adoramos ver e ser visto. E quando falamos de cultura brasileira, essa característica é mais evidente, acentuada. Não por acaso, o programa faz muito mais sucesso aqui do que em outros países. Nossa cultura é muito mais enxerida. Muito mais relacional, como costumamos falar em antropologia.

Novela e reality show
Toda telenovela é uma espécie de exercício de voyeurismo e os reality shows seguem o mesmo passo. É claro que os reality shows não contam com a qualidade dos atores profissionais da teledramaturgia, mas chamam a atenção pela interação maior que estabelecem com os telespectadores. O diferencial parte do mesmo entretenimento: olhar a vida alheia. Há as clássicas: as telenovelas. E outras, como os reality shows.

Big Brother Brasil
O BBB consta da grade da Rede Globo, a principal rede de televisão do país. É um reality show que permite o voyeurismo de uma forma bem intensa, 24 horas por dia. Portanto, é natural que agrade. É natural que esse tipo de produto dê certo. É previsível que este formato tenha sucesso. O programa permite a sensação de poder, de fofocar, de saber de tudo e de todos, dos dramas, das alegrias. Dá a sensação aos telespectadores de um falso poder sobre aquelas pessoas, de controle, podendo intervir, tirar do programa o participante que não agrada. Além disso, o programa também se destaca por conta do horário em que é exibido, num horário em que não há muita coisa para se ver na televisão aberta.

Real e verdadeiro?
No modelo proposto pelo programa, tudo ali é verdadeiro, é real. Mas, na prática, sabemos, é irreal. É uma situação de laboratório. Temos uma sensação de realidade, mas não é. No fundo, todo aquele espaço é experimental. Muitos dos participantes que estão ali não teriam condições de morar numa casa daquela, de, inclusive, morar juntas durante tanto tempo, sem fazer nada. Estamos todos vendo um negócio ficcional. Portanto, aquelas pessoas, embora não sejam atores, estão de certa forma atuando. E é claro que a narrativa da edição que nos chega é embalada numa narrativa de teledramaturgia. Tudo é ficcional. O que podemos, inclusive, observar nas palavras do apresentador. O Pedro Bial fala na nave big brother, no planeta big brother. São termos que nos remete a coisas ficcionais, que mostram o quanto são exóticas aquelas experiências, o quanto são de outro mundo, de outro planeta, portanto fora de nossa realidade.

As críticas
É interessante recorrer a dicotomia de Umberto Eco, que nos traz o grupo dos apocalípticos e dos integrados. Em resumo, segundo o grupo dos apocalípticos, a produção cultural, a indústria da mídia, provoca todo tipo de males físicos e ou psíquicos. Já os integrados vêem a produção de uma forma positiva. Acredito que não devemos colocar os fenômenos sociais no banco dos réus. Deveríamos entender a lógica do fenômeno e não dizer simplesmente que é bom ou ruim, que gosto ou não gosto. Temos que tentar compreender o fenômeno. O papel de quem estuda é compreender a lógica social do fenômeno. Os mitos gregos faziam bem ou mal aos gregos? Isso não está em questão. Não julgamos, mas, sim, analisamos. Isso é que deve orientar os estudos de fenômenos como a comunicação de massa.

Qual é a lógica do BBB?
Um voyeurismo elevado e exacerbado. O sentimento de gostar ou não de uma pessoa sem nenhuma lógica, digamos, racional. A noção de poder sobre as pessoas e sobre quem eu não gosto. Posso deletar aquela pessoa apenas com um clique na internet, sem o menor custo.

Banal, nada além disso
O que isso pode impactar na vida das pessoas? Na verdade, não há nenhum grande impacto. Trata-se apenas de um programa de televisão. Nada que irá causar uma grande transformação. É uma coisa muito mais banal do que a gente supõe. Transformação, talvez, só para quem ganha o programa. Nem há tanta repercussão assim. Talvez, tenham passado por lá cerca de 150 pessoas. Se você se lembrar de uns dez participantes já é muito. O BBB é parte deste grande complexo que é a mitologia contemporânea, a indústria cultural que faz parte do nosso mundo.

TV não assusta
Acho que o educador deve analisar, tentar compreender, não julgar. Outra coisa importante é mostrar o quanto é banal o programa. Esse deslumbramento não é positivo. É preciso lembrar que para fazer parte da grade da tevê, o programa, qualquer programa, tem que ser comum, não pode impactar, assustar a audiência. A programação tem que ser confortável ao telespectador. Ninguém liga a tevê para levar susto. A televisão tem o objetivo de ser confortável, tranquila, ao trazer o entretenimento. O que seria um programa de qualidade? Gostaria de deixar isso para as pessoas que estudam este assunto. A contribuição que podemos dar é fazer uma análise não congestionada de preconceitos, não exagerada. Uma análise bem feita contribui, dá subsídios aos, digamos, engenheiros sociais, para encontrar caminhos mais interessantes para a tevê. Sempre se pode fazer melhor? Mas o que é melhor? Os críticos sabem a fórmula?

TV comercial é comercial
Sei que as emissoras de tevê são concessões públicas, mas temos que ter a clareza que a televisão comercial não é feita para educar o povo. Temos que deixar de ter essa ilusão. Concessão pública ou não, ela tem um compromisso comercial. Neste sentido, nem os telejornais escapam. Os telejornais têm os seus produtos que vendem. Vírus, violência, confusão política vendem. É normal que se busque lucratividade.

TV ou bomba atômica?
Nossa sociedade, sim, dirão os arqueólogos do futuro, fez um investimento muito forte nos modos de observação da vida alheia, na tele-visão, na ideia de observar e participar com distância, através de máquinas. Vamos julgar isso desde agora? Vamos mudar o rumo? O que é mais incrível: a observação por meio das máquinas ou a capacidade de destruir o Planeta? Em mais de 100 mil anos de história humana na terra, nenhuma outra cultura investiu tempo, recursos e conhecimento para inventar formas e para criar artefatos capazes de destruir o Planeta. Esta é a nossa cultura. Não sei se é para chorar ou para rir, mas, com certeza, é para tentar compreender. Uma coisa é certa: a melhor forma de nos transformar é por meio do conhecimento. O papel do educador é dar essa consciência, trazer o equilíbrio. Ajudar a construir um olhar de compreensão, não preconceituoso. Discutir com os alunos sobre o que é o BBB é melhor do que ser a favor ou contra. Eis o desafio de todo educador que lida com conhecimento.

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Da Associated Press
Publicado na Folha de S. Paulo, em 14/01/2012

A polícia de Ciudad Juárez, no norte do México, multou um menino de seis anos por condução perigosa, dirigir sem licença e não ter o veículo registrado. As penalidades foram aplicadas após o garoto ter batido sua motocicleta de brinquedo em um SUV (grande veículo de passeio) no dia 27 do mês passado, em um condomínio residencial privado.

Após o caso ganhar notoriedade na mídia, contudo, as autoridades voltaram atrás na decisão. A mãe do garoto, Karla Noriega, disse que a polícia chegou a apreender o brinquedo, movido a gasolina, que o filho ganhou no Natal.

Noriega decidiu recorrer aos meios de comunicação e tornar o caso público quando descobriu que teria que desembolsar o equivalente a R$ 327 para ter a motocicleta de volta. O secretário da Prefeitura de Ciudad Juárez, Héctor Arcelus, afirmou ontem que as multas foram canceladas, que o brinquedo foi
devolvido e que os policiais responsáveis serão punidos por conduta imprópria.Gael, o garoto que bateu na SUV, ficou feliz por ter sua minimotocicleta de volta, mas disse que ela não funciona mais após o acidente.

Português e Matemática

No início do século XXI, quando o atual modelo de ensino é cada vez mais questionado, o que ensinar? Como ensinar? O que deve ser prioridade no ensino das áreas de conhecimento da Educação Básica? A revistapontocom dá continuidade a série de entrevista que pretende ouvir professores de cada área de conhecimento, com o objetivo de refletir sobre o tema e fazer com que você, leitor, também participe, enviando seu comentário e opinião.

Já abordamos as áreas de História e Geografia. Desta vez, vamos falar sobre Língua Portuguesa e Matemática. Confira as observações da professora Carmen Pimentel, professora de Língua Portuguesa da Uerj, do Colégio Cruzeiro e coordenadora nacional do Proler. Com relação à Matemática, trazemos o olhar de Raul Agostino, autor de livros didáticos e professor do Ensino Fundamental e Médio dos colégios QI, A. Liessin e TTH-Barilan, no Rio de Janeiro.

Confira e participe:

– Língua Portuguesa
Carla Pimentel (clique aqui)

– Matemática
Raul Agostino (clique aqui)

 – História
Keila Gringber (clique aqui)

– Geografia
Marcos Ozório (clique aqui)

Bebida para criança?

A Defensoria Pública do Estado de São Paulo enviou uma recomendação à Cereser para que retirasse do mercado uma bebida gaseificada sem álcool, destinada a crianças, que reproduz o formato de espumantes tradicionais –inclusive com rolha. Lançada em 2011 para as festas de fim de ano, a embalagem colorida do Disney Spunch traz personagens da Disney, como a Cinderela, a Branca de Neve e o Mickey.

De acordo com Diego Vale de Medeiros, coordenador do Núcleo do Infância e Juventude da Defensoria, a estratégia da empresa foi “irresponsável, por se relacionar com produto direcionado ao adulto e fazer analogia a espumantes”. Para ele, a bebida fere tanto o Estatuto da Criança e do Adolescente, ao induzir o consumo de álcool, quanto o Código de Defesa do Consumidor –seria considerada publicidade abusiva.

A recomendação não é uma decisão judicial, mas a intenção da defensoria é levar o caso à Justiça, caso o pedido de retirada da bebida das lojas não seja seguido.

Outro lado

A Cereser não quis comentar o assunto. Em nota, diz que “o ofício [da defensoria] é analisado pelo departamento jurídico da empresa, que apresentará defesa até a próxima sexta-feira”. Segundo a defensoria, a Cereser já marcou reunião com o órgão para discutir o assunto. Um caso semelhante ao da bebida são cigarros de chocolate, retirados do mercado há vários anos pela mesma conclusão –o estímulo indevido ao consumo.

Para Vivien Bonafer Ponzoni, psicóloga e terapeuta, “incentivar o consumo de produtos próximos da realidade adulta cria uma necessidade que a criança não tem”. No caso do Disney Spunch, os personagens infantis podem ser mais uma maneira de aproximar a criança do universo do adulto.

Desembargador da Infância e da Juventude do Tribunal de Justiça de São Paulo, Antônio Carlos Malheiros diz que “não deixa de ser uma indução”. “A criança está bebendo a mesma coisa que os pais e se vê tão poderosa quanto eles”, afirma. Não há prazo para que a empresa recolha a bebida.

Fonte  – Folha de S. Paulo

Vamos fazer de conta que você é …

Em tempos de redes sociais, narrativas e personagens em novos perfis

Por Isa Ferreira Martins
Professora da Rede Pública de Ensino do Estado do Rio de Janeiro / Doutoranda em Educação da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ / Mestre em Literatura Brasileira e Teorias de Literatura pela Universidade Federal Fluminense – UFF

O que transforma aquelas crianças com olhos brilhantes e ouvidos atentos a uma história em alguém que diz: “Eu não gosto de ler.”?  Aaaah!… a Narrativa, não vivemos sem ela. Desde que acordamos, até adormecermos, falamos ou pensamos, quase sempre de forma narrativa, sobre o que fizemos durante o dia, o que conversamos, com o que concordamos, como vamos resolver tal problema, o que vivemos…
Então, quando alguém que teve acesso à Educação diz que “não gosta de ler”, precisamos pensar em como evitar este triste desfecho. Fico me perguntando se a fantasia, o colorido, as imagens e, principalmente, o faz de conta e a interação tão necessários ao ser humano, talvez, não sejam deixados de lado muito cedo quando o assunto é a formação do leitor. Como vou “formar um leitor” que não lê ou lê somente para fazer uma prova ou teste e, neste contexto, muitas vezes, até recorre à internet para ler, mas… “o resumo do livro.” Mas será que esta mesma internet não poderia envolver nosso estudante nas redes, também, da leitura? 

Compreendemos que a “obrigação” tira de muitos estudantes o desejo de ler e consequentemente as possibilidades de ampliar suas ideias, interpretações, gramática, ortografia, vocabulário, compreensão da sociedade, de si mesmo e do outro. Mas não podemos desistir porque “navegar é preciso”. Esta expressão, aqui popularizada por Caetano Veloso com a música “Argonautas” e em Portugal pelo poeta Fernando Pessoa, teria sido dita há vários séculos pelo general romano Pompeu aos marinheiros temerosos de enfrentar o mar. Não! Não podemos privar nossos estudantes da navegação por narrativas que nos fazem rir, chorar, nos revoltar, amar, mudar… Pois, sabemos que por meio da leitura podemos experimentar diferentes e incríveis mundos que somente nossa própria vida não nos permitiria conhecer. 

Proponho que a internet da “busca de resumos literários” e sedutoras redes sociais seja palco virtual das “leituras escolares”. Poderíamos formar grupos e a cada um deles indicar um livro, conto etc. Cada componente seria responsável em criar um perfil no Orkut, por exemplo, do “seu” personagem. Comunidades, álbuns, músicas, descrições do perfil e recados (diálogos) trocados entre os personagens teriam de ser a expressão da personalidade e comportamentos lidos/presentes na obra. A turma acompanharia as histórias na “rede”. E, em uma aula semanal (conectado ao site e projetado), os grupos apresentariam os acontecimentos das “vidas” dos seus personagens e explicariam o que motivou no livro e na criatividade deles as “novidades” da semana. Nesta proposta, não há como ler somente o “resumo do livro”. É preciso mergulhar na fantasia, nas vivências, experimentar as emoções e interagir com os demais personagens e com o colega.

Fico imaginando como seria o “perfil” da Emília, de que “comunidades” a Cuca faria parte? E o Saci Pererê? E quem eu, educadora, gostaria de ser? Dona Benta, que conquista pela sabedoria com as palavras? Não, acho que eu gostaria mesmo é de ser a Tia Nastácia. Assim, ao menos no Sítio virtual dos estudantes, eu experimentaria o delicioso prazer de um elogio por cozinhar bem! E você, que personagem gostaria de ser? E que tal deixar seus alunos te sugerirem?

Monteiro Lobato animado

Por Marcus Tavares

A fantasia de Monteiro Lobato que marcou gerações de brasileiros está de volta. Estreio no dia 7 de janeiro, a mais nova versão do Sítio do Picapau Amarelo. Só que desta vez com uma grande diferença: em animação. Produzida pela Rede Globo e a produtora Mixer, a série vai ao ar nas manhãs de sábado, logo após a TV Globinho. São 26 episódios de 11 minutos cada. A produção consumiu muita criatividade, trabalho e R$ 4 milhões. A direção ficou a carga do diretor Humberto Avelar, que carrega em sua bagagem uma série de trabalhos também voltado para o público infantil, como os episódios O Saci, o Curupira, Matinta Pereira e O Boto, da premiada série Juro que Vi, produzida pela MultiRio.

Em entrevista à revistapontocom, o diretor acredita que a nova versão não vai atrair apenas as crianças, mas também muitos adultos: “Acredito que os adultos serão atingidos de forma especial em função do bom humor que investimos nessa versão e, naturalmente, pela nostalgia de rever os personagens clássicos de Monteiro Lobato”.

Acompanhe a entrevista:

revistapontocom – Como foi transformar a obra de Monteiro Lobato em animação?
Humberto Avelar – O processo de produção de animação sempre foi muito trabalhoso. Dessa vez, no entanto, tivemos alguns desafios a mais. O primeiro foi adaptar da obra de Monteiro Lobato para o formato de 26 episódios de 11 minutos. Os roteiros foram baseados em ideias e conceitos contidos na obra original, mas novas aventuras também foram criadas a partir daí. As historias dessa temporada foram inspiradas no livro ” Reinações de Narizinho” e a criação dos roteiros teve o acompanhamento e aprovação da própria família de Monteiro Lobato. O segundo desafio importante foi viabilizar a produção dos episódios em escala industrial. Foram animados cerca de três episódios por mês, equiparando a série ao tempo de realização das produções internacionais. Essa é uma iniciativa pioneira no Brasil já que nenhuma TV aberta havia ainda investido em sua própria série de animação.

revistapontocom – De que forma a equipe trabalhou?
Humberto Avelar – A equipe trabalhou dividida em duas cidades. Roteiristas, músicos, editores e produção em São Paulo. No Rio de Janeiro, animadores e equipe de arte. Coube a mim dirigir e integrar artisticamente esses núcleos, criando soluções que fossem criativas e viáveis dentro do cronograma de produção. Tivemos uma consultoria de profissionais envolvidos com produções infantis para o mercado exterior. A equipe de animação e arte contou com cerca de 30 pessoas, mas todo o grupo, incluindo roteiristas, músicos, técnicos e produção, ultrapassou 50 profissionais.

revistapontocom – De onde veio a inspiração para criar os personagens que já ocupam, por conta da teledramaturgia, o imaginário no público?
Humberto Avelar – O design dos personagens é do paulista Bruno Okada, escolhido num concurso promovido pela TV Globo. A partir desse traço inicial, que traz características bem estilizadas e alinhadas com o visual dos desenhos contemporâneos, criamos a ambientação cenográfica. Mesmo trabalhando sobre um visual cartoon, tivemos a preocupação de retratar paisagens tipicamente brasileiras. A animação brasileira vive um momento de expansão. Acredito que a série do Sítio será um grande estímulo na formação de uma indústria de animação  nacional.

revistapontocom – A série pretende alcançar outros públicos além do infantil?
Humberto Avelar – A série pretende alcançar uma faixa ampla de público. Trabalhamos principalmente focados no público mais jovem, de 4 a 6 anos. Mas as aventuras e conflitos animados vão alcançar certamente os mais velhos. Acredito que os adultos serão atingidos de forma especial em função do bom humor que investimos nessa versão e, naturalmente, pela nostalgia de rever os personagens clássicos de Monteiro Lobato.

revistapontocom – Em um de seus artigos já publicados, você diz que animação é coisa de criança. Pergunto: animação ainda é coisa de criança?
Humberto Avelar – Animação deixou de ser coisa de criança. No momento, acompanhamos bilheterias gigantescas dos filmes animados no cinema, proporcionadas pela presença dos adultos. Acredito que uma boa ideia animada deva se comunicar com todos, preservando, naturalmente, as diferentes leituras.
Afinal, o termo animação vem de “anima”, alma, o que dá vida e movimento. Um assunto que desperta a curiosidade de todos nós, sem restrição de idade.

Previsões 2012

Por Marcus Tavares

Educação: o que esperar em 2012? A revistapontocom ouviu a astróloga Jacqueline Cordeiro, do site Esoteríssima. Segundo ela, a comunicação e o conhecimento estarão em evidência neste ano. Confira as previsões de Jacqueline:

Na numerologia, 2012 representará o número cinco, o que significa, entre outras coisas, um ano marcado pela expansão mental, curiosidade e adaptabilidade. Podemos esperar, em 2012, uma ampliação nos meios de  comunicação, melhoria nas faculdades, novos cursos superiores e à distancia, bem como aumento no número de creches para a população carente.

E o que os professores e os alunos podem esperar em 2012?

Júpiter, planeta da expansão e da sorte, transita pela casa III do Brasil, casa que rege, entre outros assuntos, a educação, a escola, a imprensa escrita e falada e a comunicação em geral. Este planeta tende a fazer com que os governantes dêem mais atenção para a área de ensino, procurando melhorar a qualidade e quantidade das escolas públicas e o salário dos professores.

O ano de 2012 também trará o desafio de lidarmos com as surpresas e problemas deste setor que já aconteceram em 2011. A partir de fevereiro, poderemos ter surpresas agradáveis para a área, com boas iniciativas partindo das prefeituras e até mesmo do Senado Federal. Assistiremos a implantação de um ensino mais justo e mais acessível, que alcance a todos e não apenas alguns.

Em junho, um eclipse da Lua e de Vênus poderá trazer problemas, como greve de professores por melhores condições de trabalho ou de estudantes, por menores mensalidades.

Marcelo Serrado, o equivocado

Por Alexandre Vidal Porto
Mestre em Direito. Diplomata e escritor
Fonte Folha de S. Paulo

“Na década de 1920, a cidade de Berlim conheceu um dos períodos mais tolerantes da história em relação à homossexualidade. Casais do mesmo sexo eram tratados com respeito, e a cultura homossexual era aceita sem constrangimentos. Essa situação propícia se manteve até a emergência de Adolf Hitler, que mandou dezenas de milhares de homossexuais para campos de extermínio, todos com um triângulo rosa no peito.

No Brasil, ocorre situação análoga. Lentamente, a conquista pela igualdade de tratamento para os homossexuais avança. Mas a luta é inglória. Quando se pensa que os avanços estão consolidados, surge um Silas Malafaia, um Jair Bolsonaro ou um Ives Gandra Martins para lembrar que a questão está longe de ser resolvida.

O último nessa linhagem de homofóbicos é o ator Marcelo Serrado, que interpreta o personagem homossexual Crô, na novela “Fina Estampa”. Em entrevista à jornalista Mônica Bergamo, publicada na edição do último domingo deste jornal (“Arrasa, bii!”), Serrado expôs seu preconceito abertamente ao declarar que não gostaria de que a sua filha de sete anos visse um beijo gay na televisão.
Em sua conta no Twitter, o ator negou que fosse preconceituoso. Como se não querer que uma criança assista a um beijo gay nada tivesse de discriminatório. Exatamente como a senhora que diz que não é racista, mas que preferiria que a filha não se casasse com um negro.

A maneira como Serrado educa a sua filha é problema dele. Não se condena o teor de suas declarações preconceituosas, porque a homofobia ainda não é crime no Brasil. O condenável em sua atitude é a negação do óbvio. Ele tem o direito de educar a sua filha como quiser, mas não pode enganar a população tentando descaracterizar a natureza do seu preconceito. Ou seja, Serrado é um homofóbico no armário. Precisa sair dele.

Serrado terá alcançado o auge da sua fama às custas da ridicularização dos homossexuais. Para ele, explorar a homofobia da sociedade brasileira deu certo. Para a Rede Globo, também, porque os índices de audiência da novela são altos. É triste, porém, que uma emissora de televisão preste tal desserviço à consolidação da cidadania.

A imagem desrespeitosa que a televisão brasileira difunde dos homossexuais pode dar lucro às emissoras e aos atores. No entanto, causa prejuízo ao Brasil como um todo, porque solapa os esforços do governo e da sociedade no combate ao ódio e à intolerância. A caricatura homossexual que Aguinaldo Silva compôs e que Marcelo Serrado se presta a interpretar, por exemplo, levará anos para ser desmantelada no imaginário da nação. Produzirá discriminação e gerará violência.

Em defesa da novela, poder-se-ia falar em liberdade de criação artística. No ataque, porém, é necessário recordar a noção de responsabilidade social, que as redes de televisão têm o dever de preservar.
Homossexuais caricatos sempre existiram. Não temos de negá-los. Pergunto-me, no entanto, em que novela ou reality show estarão os homossexuais comuns, que têm relações estáveis, acordam cedo para ir trabalhar e levam uma vida convencional. Eles também existem. São muitos. Pagam impostos e exigem respeito. Ah, e beijam-se também, Marcelo Serrado, como qualquer ser humano normal. Querer ocultar esse fato de sua filha ou de quem quer que seja constitui homofobia, quer você queira, quer não”.

Para 2012

Por Gabriela Vuolo
Coordenadora de Mobilização do Projeto Criança e Consumo do Instituto Alana

No mundo em que vivemos, não é exagero dizer que as crianças são bombardeadas todos os dias com apelos para o consumo. E a sensação é de que isso piora nas vésperas de uma data comemorativa, como o Natal. Para entender se de fato há um volume maior de publicidade voltada às crianças nessas ocasiões, em julho, o Instituto Alana firmou um convênio com o Observatório de Mídia da Universidade Federal do Espírito Santo, que fará um monitoramento da publicidade direcionada ao público infantil na tevê quatro vezes ao ano até 2014. A medição sempre será realizada 15 dias antes da Páscoa, do Dias das Crianças e do Natal e depois será comparada com duas semanas típicas.

Na primeira medição, entre 27 de setembro e 11 de outubro de 2011, uma descoberta alarmante, mas esperada. Como já prevíamos, nas duas semanas que antecederam o Dia das Crianças, 64% de todas as publicidades veiculadas em 15 canais de televisão (6 abertos e 9 segmentados) foram direcionadas ao público menor de 12 anos. A categoria que mais anunciou, adivinhem? Foi a de brinquedos. Ao longo de 15 dias, as crianças foram expostas a milhares de publicidades, sem exagero na conta. Só a fabricante Mattel anunciou aproximadamente 8.900 vezes nesse período. O número é chocante.

Protesto

O resultado dessa primeira pesquisa nos levou para rua. No dia 30 de novembro, fizemos um protesto em frente ao escritório da Mattel em São Paulo, para entregar o prêmio às avessas de Empresa Manipuladora para a marca que mais apelou para o público infantil. Infelizmente, a Mattel não está sozinha. Tem ainda Hasbro, Estrela, Lego, Long Jump… Uma lista de pelo menos 10 marcas que investiram fortemente  em anúncios para crianças no período pesquisado. Como será no Natal? Saberemos em janeiro, quando teremos os resultados do nosso segundo monitoramento.

O importante aqui é esclarecer que, embora haja diferenças nas categorias anunciadas entre uma data e outra (Dias das Crianças tem foco em brinquedos, Páscoa provavelmente em ovos de chocolate e assim por diante), a criança é um alvo relevante do mercado. E se engana quem acha que as publicidades direcionadas aos pequenos são apenas de produtos infantis. Nem sempre. Carros, celulares, cosméticos, roupas, eletrodomésticos, quase tudo pode ser anunciado também para crianças. E por quê? Porque se sabe que hoje a criança participa de quase 80% das decisões de compra de uma família.

Bom negócio, mas antiético

Anunciar para o público infantil é, assim, um bom negócio. Mas é também antiético. Os pequenos ainda estão em fase de desenvolvimento e não compreendem as complexas relações de consumo. As crianças são facilmente seduzidas pela envolvente linguagem da publicidade e são muito mais vulneráveis do que os adultos. Por isso, cedem facilmente ao desejo de ter. Soma-se a isso uma intensa pesquisa de mercado que mostra para os profissionais de marketing a melhor maneira de fazer com que as crianças insistam para os pais comprarem algo – é o chamado nag factor ou fator amolação.

Para uns, isso faz parte da vida contemporânea e a valorização excessiva de bens materiais nada mais é que a “linguagem” das novas gerações. O equilíbrio se dá com educação e limites dos pais. Eles devem decidir se deixam ou não seus filhos assistirem a uma programação televisiva recheada de comerciais; se cedem ou não aos inúmeros pedidos feitos pelos filhos que acabam de ver o anúncio de um brinquedo ou que esbarram com uma prateleira de supermercado repleta de embalagens chamativas. O mercado ensina que as marcas dão status para pessoas e relações. E os pais são responsáveis por desconstruir essas mensagens. Meio injusto, não?

Proteção à infância

Esse é um pensamento perigoso, especialmente porque traduz uma visão bastante rasteira sobre publicidade, criança e consumo. Por mais que o mundo tenha mudado em seus diversos aspectos, não há razão para retroceder justamente naquilo que conseguimos avançar nos últimos 100 anos. A proteção à infância foi uma conquista duramente alcançada ao longo do século e finalmente garantida pela Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança, aprovada por todos os países membros em 1989. No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente regulamentou, em 1990, as diretrizes da nossa Constituição Federal, que garante direitos fundamentais a crianças e adolescentes.

Dessa forma, a proteção à infância plena está garantida pelas leis mais importantes de nosso país. E deve ser assegurada, segundo nossa Constituição, pelo Estado, pela sociedade e pela família. Isso significa que não há como isentar a responsabilidade de empresas e do poder público desse dever, que em muitos aspectos implica no futuro da nação.

Falta de regras claras

É preciso regular a questão da comunicação de mercado voltada para menores de 12 anos. Embora o ECA, a Constituição e o Código de Defesa do Consumidor (CDC) já tenham dispositivos que protegem as crianças dos apelos para o consumo, não há uma lei específica para o assunto. O CDC determina como abusiva e, portanto, ilegal a publicidade que se aproveita da ingenuidade infantil. No entanto, não estabelece regras claras. O que significa se aproveitar da ingenuidade infantil? É subjetivo, vago.

Por isso, defendemos propostas como o Projeto de Lei nº 5.921/2001, que completou 10 anos em tramitação na Câmara Federal no último dia 12 de dezembro.  O texto original do PL deve ser ajustado e ampliado. Nossas contribuições para as comissões por onde o projeto passou são sempre no sentido de que se proteja o público infantil de anúncios comerciais, redirecionando mensagens mercadológicas para os adultos.

Redirecionamento

Acreditamos que é possível mudar. O mercado pode voltar suas comunicações para os pais, como, aliás, já tem sido testado por algumas empresas. A própria Mattel lançou há pouco menos de um mês uma campanha institucional direcionada para adultos. Ao invés de resistir a essa transformação necessária, as empresas deveriam assumir de fato um compromisso ético para com a sociedade e usar a criatividade premiada da publicidade brasileira para anunciar seus produtos e serviços com responsabilidade, ou seja, para o consumidor adulto, formado e capaz de fazer escolhas conscientes.

Cinema infantil nacional

“Não é admissível (,,,) que o cinema infantil brasileiro, por ausência de políticas criativas que busquem equanimidade nos investimentos e nos patrocínios, continue na situação de abandono em que está”. Pedro Rovai.

“Várias soluções pensadas nos diversos debates realizados sobre o assunto recaem no mesmo chavão: faltam leis de incentivo. Quando isto irá acontecer? Qual o ministro da Cultura que realmente se interessará pelo assunto? Será que a criança brasileira não merece ver a cara do seu próprio país e conhecer a qualidade e importância do nosso cinema e dos nossos cineastas?” Marialva Monteiro.

“O cinema infantil continua inexpressivo no Brasil. E ainda não merece destaque tanto no Ministério da Cultura (MinC) quanto nas produtoras, nasTVs, na mídia e mesmo na classe cinematográfica, que vê o cinema voltado para crianças como algo menor e sem importância para o mercado”. Luiza Lins

Por Marcus Tavares

Em plenas férias escolares, nem os tradicionais filmes da Xuxa e dos Trapalhões apareceram nas telas brasileiras para contar história. Hoje, não há um filme sequer nacional infantil em cartaz. E de acordo com o calendário de estreias nacionais do site Filme B, especializado na sétima arte, o cenário não muda durante este ano,embora haja algumas promessas. Quais são as explicações? As de sempre: falta de investimento, interesse e, sim, de uma política pública que também defenda, facilite e promova o setor.

No ano passado, durante a 10ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, a secretária nacional do audiovisual do Ministério da Cultura (MinC), Ana Paula Dourado, instituiu um grupo de assessoramento de elaboração da política pública de cinema para a infância. No primeiro encontro, em agosto, que aconteceu durante o Festival Internacional de Cinema Infantil (FICI), o grupo elaborou, a pedido da secretária, propostas para o cinema infantil nacional. Até hoje, não houve retorno. Nem os editais do curta criança, que incentivam a produção de curtas com temática infantil, foram divulgados pelo MinC. O último edital foi lançado em 2009, ainda no governo Lula.

Confira a matéria da criação do grupo
Confira as propostas do grupo para o cinema infantil

A revistapontocom entrou em contato com três personalidades que têm um histórico ligado ao cinema infantil: Luiza Lins, cineasta que há 11 anos promove a Mostra de Cinema Infantil de Florianópois; Marialva Monteiro, educadora e fundadora do Cinedu – Cinema e Educação; e Pedro Rovai, produtor, cineasta e criador da série cinematográfica Tainá. Por e-mail, eles enviaram um pequeno texto sobre o que pensam sobre o atual cenário do cinema infantil. Confira os textos na íntegra e opine também.

– Leia aqui o texto de Luiza Lins
– Leia aqui o texto de Marialva Monteiro
– Leia aqui o texto de Pedro Rovai

Cinema infantil – texto de Pedro Rovai

Por Pedro Rovai
Produtor e cineasta. Criador da série Tainá

Ao ensejo do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro de 2011, criamos a bancada do cinema infanto-juvenil brasileiro, que tem como objetivo principal defender políticas de estímulo ao desenvolvimento do cinema infanto-juvenil no país. Por seu intermédio, a comunidade cinematográfica nacional está tomando iniciativas que incentivem políticas públicas e práticas de mercado que venham a libertar a produção nacional para crianças e adolescentes de preconceitos arraigados, da subestimação institucionalizada, da carência material crônica, que impede a ampliação da produção cinematográfica brasileira voltada para esse público. Tal situação nos deixa a mercê das produções internacionais, sem condições de competir com o produto estrangeiro, submetendo nossas crianças e jovens à cultura importada e impedindo-lhes de conhecer os valores e a cultura brasileira. São muitos os países que reconhecem a importância dos filmes infanto-juvenis na formação de novas plateias. Geração após geração, eles tornam perene o interesse do público pelas suas cinematografias.

Esse reconhecimento reflete-se em políticas públicas e/ou práticas de mercado que garantem o futuro tanto do audiovisual em geral quanto da cinematografia de cada país em particular, tomando-se por base os filmes para crianças e adolescentes.

Nos Estados Unidos, onde impera a economia de mercado, a comunidade cinematográfica cultiva, há décadas, a consciência plena de que as plateias mais jovens ajudam a manter a histórica hegemonia da produção estadunidense.

Em países onde o apoio governamental é indispensável, o poder público tem e aplica essa percepção. Destacam-se dois exemplos: na Dinamarca, a legislação determina que 25% dos recursos para o audiovisual sejam investidos na produção de filmes infanto-juvenis; na Suécia, o Film Agreement, em um contrato envolvendo as entidades de direito público e de direito privado na área do cinema, estabelece esse mesmo percentual.

Em nosso país, é crônica a carência de filmes infanto-juvenis brasileiros. A produção importada, notadamente dos EUA, ocupa quase todo o espaço junto a esse público. Assumindo as proporções de uma invasão cultural e uma ocupação territorial do setor, a presença massiva do audiovisual alienígena tornou-se gritante nos cinemas, agressiva na televisão e alarmante em todas as janelas.

Dos quase cem filmes de longa metragem produzidos anualmente no nosso país, menos de três por cento são direcionados a esse público. Na indústria livreira nacional, o livro infantil brasileiro, seus grandes autores e seus ricos personagens, ocupam um importante e decisivo papel na formação cultural de nossas crianças. Isto sem mencionar a relevância econômica desse segmento no mercado editorial como um todo.

Não é admissível, portanto, que o cinema infantil brasileiro, por ausência de políticas criativas que busquem equanimidade nos investimentos e nos patrocínios, continue na situação de abandono em que está. Considerando a realidade do cinema infanto-juvenil brasileiro e a urgente necessidade de adoção de iniciativas que alterem esse quadro, a bancada do cinema infanto-juvenil propõe um programa de ação que parta da seguinte plataforma básica.

1 – Demonstrar aos poderes públicos (Congresso Nacional, Ancine, Ministério da Cultura, Governo Estaduais) que a adoção de uma política inspirada nos exemplos citados (Dinamarca, Suécia) seria um ponto de partida eficaz, com a destinação, para a produção infanto-juvenil, de 25 por cento dos recursos aplicados em programas de desenvolvimento do audiovisual  por meio dos incentivos fiscais existentes e dos fundos de apoio a atividade.

2 – Defender junto à secretaria de comunicação da Presidência da República que os patrocínios das empresas estatais e de economia mista que invistam o mesmo percentual de 25% para projetos infanto-juvenis, demonstrando os benefícios culturais, sociais e de mercado que adviriam a partir dessas políticas.

3 – Demonstrar à Ancine a necessidade da criação imediata de uma política de fomento voltada para as distribuidoras, incentivando-as e capacitando-as a aplicar maiores recursos na publicidade e na distribuição dos filmes infanto-juvenis brasileiros, de modo a aumentar a competitividade deles diante da produção importada.

4- Envolver o MEC e as TVs públicas em um amplo programa de difusão do acervo existente e em parcerias para  projetos futuros, dentro dos mesmos princípios que os  adotados para a difusão do livro infantil brasileiro.

A bancada do cinema infanto-juvenil coloca-se à disposição dos entes da sociedade civil e do poder público, para, em curto prazo e em intensa colaboração, realizarmos o mais amplo debate e aprimoramento desta plataforma, buscando concretizá-la. O cinema brasileiro como riqueza da cidadania, a saúde cultural de nossas crianças e jovens e a independência do Brasil não podem mais esperar.

A formação da bancada nasceu da ideia do cineasta de Brasília, Marcio Curi, durante o Seminário “Cinema Infantil Brasileiro: Trajetória e Futuro”, que aconteceu no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O texto, de autoria de Pedro Rovai, foi distribuído para os principais participantes do evento, entre eles Ziraldo, Diler Trindade, Nilson Rodrigues, a coordenadora do seminário, Anna Karina, e o próprio Marcio Curi.

Cinema infantil – texto de Marialva Monteiro

Por Marialva Monteiro
Educadora e fundadora do Cineduc – Cinema e Educação

Filme infantil, o filho pobre do cinema brasileiro

Todos sabemos que a questão da distribuição sempre foi o calcanhar de Aquiles do cinema brasileiro. Muitos filmes são realizados, e de ótima qualidade, mas não chegam às salas de exibição ou permanecem muito pouco tempo nas telas grandes. No caso do filme infanto-juvenil, o problema se agrava porque também não há produção. Qual a causa? A competição com o cinema estrangeiro? A falta de recursos? Este é um tema que já foi discutido em vários encontros, congressos e seminários. Mas a situação continua a mesma.

Gostaria de relatar um fato curioso que presenciei na cidade de Ilhéus, Bahia, onde moro atualmente. No mês de novembro, o filme Capitães da Areia foi lançado na cidade com a presença da realizadora, Cecília Amado, neta de Jorge Amado, autor do livro e morador da cidade durante vários anos. O filme permaneceu apenas uma semana em cartaz. Qual a causa? Falta de divulgação? E as escolas da cidade não estão lendo os livros de Jorge Amado e, portanto, não poderiam aproveitar para levar seus alunos para ver o filme? No entanto, a produção norte-americana O Gato de Botas permaneceu em cartaz durante três semanas no mês de dezembro na mesma cidade.

Outra triste constatação: nestas férias escolares de janeiro de 2012 nenhum filme brasileiro foi lançado. Nem as costumeiras produções de Renato Aragão ou da apresentadora de TV Xuxa. Não esqueci a Professora Muito Maluquinha, mas este não é propriamente um filme para criança. Nos anos anteriores, tivemos ótimos filmes infanto-juvenis, reconhecidos pela crítica e pelo público como: Antes que o mundo acabe (2009), de Ana Luiza Azevedo; As melhores coisas do mundo (2010), de Laís Bodanzky; O ano em que meus pais saíram de férias (2006), de Cao Hamburger; Pequenas histórias (de 2008 e só lançado em 2010), de Helvécio Ratton; e Eu e o meu guarda-chuva (2010), de Toni Venturi. Por que estes diretores não realizaram outros filmes infanto-juvenis? Não são rentáveis? Preferem investir mais no cinema para adultos?

E o Tainá 3 – A origem, de Rosane Svartman, terminado em 2011, quando será lançado? Vale lembrar que o Tainá 2 – A aventura continua, de Mauro Lima, foi realizado em 2005. O produtor Pedro Rovai levou seis anos, portanto, para conseguir o outro.

Várias soluções pensadas nos diversos debates realizados sobre o assunto recaem no mesmo chavão: faltam leis de incentivo. Quando isto irá acontecer? Qual o ministro de cultura que realmente se interessará pelo assunto? Será que a criança brasileira não merece ver a cara do seu próprio país e conhecer a qualidade e importância do nosso cinema e dos nossos cineastas?

É bom nem lembrar o que acontece em outros países da Europa, como a Dinamarca, que destina 25% da verba governamental para a produção de filmes para crianças, porque a nossa tristeza será maior.

Cinema infantil – texto de Luiza Lins

Por Luiza Lins
Cineasta. Coordenadora da Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis

O cinema infantil continua inexpressivo no Brasil. E ainda não merece destaque tanto no Ministério da Cultura (MinC) quanto nas produtoras, nas TVs, na mídia e mesmo na classe cinematográfica, que vê o cinema voltado para crianças como algo menor e sem importância para o mercado.

Mas apesar disto, e dos editais do MinC voltados para este público ainda não terem sido lançados, as produções de curtas e longas, aos poucos, começam a crescer. Que eu saiba, este ano teremos cinco longas sendo lançados: Tainá 3, Nautilus, Aviaõzinho Vermelho, Na Corda Bamba e Uma História Antes da História, do Núcleo de Animação de Campinas. Vários bons projetos também estão em produção, e entre eles o longa Tarsilinha, da TV Pinguim, e o Minhocas, que deu uma parada na produção mas que deve retornar em breve.

Em breve abriremos as inscrições para a Mostra Competitiva de Curta Metragem da 11ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis. E apesar do Edital Curta Criança não ter sido lançado, estamos otimistas quanto ao número e a qualidade dos curtas inscritos.

Enfim, é realmente, nos dias de hoje, uma pena não termos filmes nacionais para crianças nas telas de cinema, mas ao mesmo tempo as produções que estão chegando aos pouquinhos têm uma qualidade de conteúdo muito boa. E temos que lembrar que vários curtas nacionais estão circulando pelo Brasil através de inúmeros cineclubes espalhados pelo país. Temos a Programadora Brasil e o Canal Infantil na internet distribuindo conteúdo para estes cineclubes. A Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis lançou a Caixa Comemorativa [composta de DVDs com os curtas], que também está circulando pelo país.

Enfim, as coisas estão acontecendo aos poucos. Vamos tentar ser otimistas e acreditar que este hiato nas salas de cinema seja um pausa necessária para mais e melhores produções no futuro.

O ensino da Matemática no século XXI

revistapontocom – O que hoje não se pode deixar de ensinar, na área de Matemática, na Educação Básica?
Raul Agostino – Os conteúdos tradicionais foram sofrendo mudanças no decorrer dos anos e o que temos hoje é o resultado da tentativa de equilibrar os conhecimentos abstratos e concretos. O maior problema que enfrentamos não é no que ensinamos, mas como o fazemos.

revistapontocom – O que é preciso ser aprendido, na área de Matemática, pelos alunos na Educação Básica?
Raul Agostino – Os conteúdos que serão necessários para prosseguir na vida escolar, claro. Mas principalmente a raciocinar além dos exercícios e das avaliações. O aluno precisa sair da escola todos os dias com maior independência intelectual do que quando chegou.

revistapontocom – Qual é o principal desafio de se ensinar Matemática, nos dias de hoje, para os alunos na Educação Básica?
Raul Agostino – A falta de motivação, sem dúvida é um dos principais obstáculos para a aprendizagem. O professor, antes de tudo, precisa cativar o interesse de seus alunos pelo que ensina. A paixão pelo conhecimento matemático pode ser estimulada desde cedo, por meio de jogos, de histórias, de desafios.

revistapontocom – Ensina-se Matemática, nos dias de hoje, da mesma forma que se ensinava no final do século XX? Se algo mudou, o que mudou e por quê?
Raul Agostino – Boa parte dos professores ainda trabalha com o método com que foram ensinados. Um método, aliás, que tem se mostrado fracassado. De maneira geral utiliza-se pouco as novas tecnologias. A notícia boa é que há uma nova geração de professores sendo formados que dispõem de uma visão mais dinâmica. Junto do compasso e do esquadro eles usam o computador e até mesmo o celular para fazer o conhecimento chegar aos seus alunos. O número de publicações paradidáticas de qualidade disponíveis também aumentou. Há boas perspectivas.

revistapontocom – Hoje, você diria que ensinar Matemática, na Educação Básica, é mais …. por quê?
Raul Agostino – É  mais estimulante. A fronteira do que podemos fazer está aberta. Em um clique assistir a um documentário sobre a história da matemática, brincar um game cheio de conceitos ou ler um livro repleto de mistérios matemáticos.