O ensino de Língua Portuguesa no século XXI

revistapontocom – O que hoje não se pode deixar de ensinar, na área de Língua Portuguesa, na Educação Básica?
Carmen Pimentel – A ler. Parece óbvio, mas não é. Ler engloba muito mais do que somente decodificar o sistema linguístico. Nossas crianças precisam estar em contato com os livros, manuseá-los, brincar com eles, aprender a gostar deles como fonte de conhecimento e de prazer desde quando começam a segurar as coisas. E isso é ensinado. Incentivar a leitura, convidar para a leitura, mostrar o valor de uma história. Só assim se aprende a ler.

revistapontocom – O que é preciso ser aprendido, na área de Língua Portuguesa, pelos alunos na Educação Básica?
Carmen Pimentel – Muita gente acha que ensinar Língua Portuguesa é ensinar gramática. A gramática não deve ser esquecida, mas também não deve ser a única abordagem. Partindo da leitura e da compreensão de textos, o ensino da língua ganha função e passa a ser mais interessante para a criança. Saber o porquê das escolhas de determinadas expressões, a estrutura das frases que podem gerar diferentes entendimentos, o significado das palavras que são a base do texto, isso é muito rico e torna o ensino de Língua Portuguesa mais dinâmico e significativo para os estudantes.

revistapontocom – Qual é o principal desafio de se ensinar Língua Portuguesa, nos dias de hoje, para os alunos na Educação Básica?
Carmen Pimentel – A competição com outras mídias. Ler livros é uma experiência única. Se o professor não consegue passar isso para seus alunos, ele não contribui para um bom ensino de Língua Portuguesa nem para uma formação integral de seus alunos. A internet, o cinema, a música, enfim, são linguagens que caminham junto com a Língua Portuguesa. Afinal, por trás dessas linguagens está a própria língua! Lançar o desafio da leitura de um livro é estimular a criatividade, aguçar a percepção, dar oportunidade para ampliar conhecimentos de toda espécie – até linguístico.

revistapontocom – Ensina-se Língua Portuguesa, nos dias de hoje, da mesma forma que se ensinava no final do século XX? Se algo mudou, o que mudou e por quê?
Carmen Pimentel – Nem pode ser assim. Quantas coisas surgiram de lá para cá. Quantas novidades, quantas possibilidades. A ideia é aliar a tecnologia ao ensino sempre. Atualmente o ensino de Língua Portuguesa, especialmente da gramática, procura ser mais ligado aos textos. Fala-se muito da Gramática Textual que parte da leitura e da compreensão dos textos para a estrutura gramatical. Mas ainda há muita confusão quanto a essa metodologia. Alguns professores entenderam que a gramática, então, não precisava mais ser ensinada. Se temos que aprender a somar e multiplicar para fazer os cálculos mais complexos, temos que compreender como a língua se estrutura para podermos ler e escrever quaisquer textos com mais facilidade. Soma-se a isso o uso das tecnologias em sala de aula, e temos, com certeza, um ensino diferente daquele do final do século XX.

revistapontocom – Hoje, você diria que ensinar Língua Portuguesa, na Educação Básica, é mais …. por quê?
Carmen Pimentel – É mais divertido. Pelo menos deveria ser. Com todas as possibilidades tecnológicas que temos em mãos e com mais diálogo entre professores e alunos que antigamente, se o professor não aproveitar para tornar suas aulas mais divertidas, mais dinâmicas, mais criativas, está marcando passo. Leitura, tecnologia e visão crítica são as palavras-chave para o ensino de Língua Portuguesa nos dias de hoje. Afinal, material para usar em sala de aula não falta.

Marketing do desejo

Luiz Felipe Pondé
Texto publicado no Caderno Ilustrada, Folha de S. Paulo

Mais importante do que o sucesso é passar uma imagem de sucesso.” Você pode ouvir uma frase como esta em qualquer palestra brega de motivação em recursos humanos. Já disse antes que acho palestras assim a coisa mais brega que existe. Mais brega do que isso só mesmo achar que o mundo melhorou porque existe o Facebook.

A melhor forma de manter a dignidade na era do Facebook (se você não resistir a ter um) é não contar para ninguém que você tem um Facebook. Quase tudo é bobagem nas redes sociais porque o ser humano é banal e vive uma vida quase sempre monótona e previsível. E a monotonia é o traje cotidiano do vazio. E a rotina é o modo civilizado de enfrentar o caos, outra face do vazio.

A ideia de que aprendemos a falar porque quisemos “conhecer” o mundo é falsa. Segundo os evolucionistas, é mais provável que tenhamos aprendido a falar para falar mal dos outros e fofocar.

O “Face” é, neste sentido, um artefato paleontológico que prova que nada mudou. Sempre se soube que não basta à mulher de Cesar ser honesta, ela tem que parecer honesta, portanto, a imagem de honesta é mais importante do que a honestidade em si. Mas aqui, o foco é diferente: aqui a questão é a hipocrisia como substância da moral pública. Todo mundo sabe que a mentira é a mola essencial do convívio civilizado.

No caso de frases como a citada no primeiro parágrafo, comum em palestras de motivação em recursos humanos, é que são oferecidas como “verdades construtivas de comportamento”. E não como o que verdadeiramente são: estratégias para desgraçados e “losers” se sentirem melhor.

Ficamos covardes. Fosse esta geração de jovens europeus (que só sabe pedir direitos e iPads) que tivesse que enfrentar Hitler, ele teria ganhado a guerra. Provavelmente esses estragados por décadas de “estado de bem-estar social” teriam dito “não à guerra em nome da paz”. Grande parte do estrago que Hitler fez no início foi causada por gente que gostava de dizer que a paz sempre é possível. Gente medrosa mesmo.

Mas nossa época, como eu costumo dizer muitas vezes, é a época do marketing de comportamento. A “ciência da mentira dos losers”. Dentro desta disciplina geral, existe o marketing do desejo, especializado em mentir para as pessoas dizendo que “sim, confie no seu desejo que tudo dará certo”.

Mesmo alguns psicanalistas (vergonha da profissão) embarcaram nesse otimismo de classe média. “Nunca traia seu desejo”, dirão os traidores da psicanálise. Sabe-se muito bem que é o desejo que nos trai porque ele está e vai além do que, muitas vezes, conseguimos suportar.

Uma das grandes tragédias de nosso tempo é o fato de que não existem mais recursos “simbólicos” para aqueles que resistem ao desejo em nome de “um bem maior”, como no caso da família, do casamento, ou simplesmente resistir a virar canalhas com desculpas do marketing. O legal é ser “escroto” se dizendo “livre”. A “ética do desejo”, que recusa abrir mão do próprio desejo em nome de algo maior do que ele, destruiu a noção de caráter.

Para a moçada do marketing do desejo, resistir ao desejo é coisa de gente idiota e mal resolvida porque ter caráter não deixa você muito feliz o tempo todo. É verdade que resistir ao desejo não garante felicidade alguma, mas uma cultura dominada pela ideia de felicidade é uma cultura de frouxos. Mas outra verdade, não menor do que a anterior, é que o desejo pode ser um companheiro traiçoeiro. A afetação da felicidade faz de nós retardados mentais. Eu nunca confio em gente feliz.

O mestre Freud dizia que o desejo é desejo de morte. Afirmação dura. Mas o que ela carrega em si é o que já sabemos: o desejo nos aproxima do nada (morte) porque desvaloriza tudo que temos. Por isso, quando movidos por ele, sem o cuidado de quem se sabe parte de uma espécie louca, flertamos com o valor zero de tudo.

Nada disso significa abrir mão do desejo, mas sim saber que ele nos faz animais que caminham sobre tumbas que sorriem para nós como mulheres fáceis. Resistir ao desejo talvez seja uma das formas mais discretas de amar a vida.

Tecnologia no ensino

Por Kevin Delaney
Publicado no caderno The New York Times, da Folha de S. Paulo

Durante décadas, uma visão tecno-utópica da sala de aula incendiou os sonhos dos educadores. Nesse cenário, o professor deixa de ser “um sábio no palco para ser um guia ao seu lado”. Pois em uma classe de alunos autodirigidos e ligados à web o papel do professor é simplesmente oferecer uma orientação sutil.

Em países tão diferentes quanto China, Índia e Colômbia, os educadores alimentam essa ambição com enormes investimentos em informática. Em outros países, como os Estados Unidos, esses impulso se choca com cortes orçamentários e demissões de professores. Mas, como muitas visões utópicas, esta enfrenta uma reação.

“Ensinar é uma experiência humana”, disse ao Times Paul Thomas, professor associado de educação na Universidade Furman, na Carolina do Sul. “A tecnologia é uma distração quando precisamos de alfabetização, raciocínio matemático e pensamento crítico.”

Até Steve Jobs, que comandou a revolução do computador na sala de aula como um dos fundadores da Apple, tinha suas dúvidas. Seu biógrafo Walter Isaacson descreveu uma conversa no início deste ano entre Jobs e Bill Gates, o cofundador da Microsoft. Os dois “concordaram que até agora os computadores, surpreendentemente, haviam tido pouco impacto nas escolas”.

E Jobs não era o único guru tecnológico do Vale do Silício a questionar os computadores no ensino. A escola Waldorf da Península, localizada no centro do Vale do Silício, em Los Gatos, ensina os filhos de muitos funcionários de gigantes tecnológicas como Google, Apple, Yahoo e Hewlett-Packard, relatou o Times. Mas não há computadores na escola, e seu uso em casa também é desencorajado.

Alan Eagle, que trabalha na Google, não teme que seus filhos fiquem atrasados. “Na Google e em todos esses lugares fazemos tecnologia tão fácil de usar quanto possível”, ele disse ao Times. “Não há motivo para que as crianças não consigam aprendê-la quando ficarem mais velhas.”

Mas não diga isso na Coreia do Sul, que está gastando US$ 2 bilhões para modernizar ainda mais seu já futurista modelo de educação digital até 2015. E quem pode discutir com o sucesso? Seus alunos se classificam nos níveis mais altos em matemática e ciência em todo o mundo. Mas existe um preço para essas conquistas. As crianças estão exaustas e estressadas com as sessões de estudos até tarde da noite.

Também há um crescente temor entre os educadores coreanos de que sua ênfase para o aprendizado por repetição, neste caso reforçado por computadores, esteja produzindo estudantes que não são criativos.

Outro país superinformatizado, a Finlândia, também se classifica no topo dos testes globais. Mas as escolas têm muito pouca tecnologia e as crianças de lá não são tão pressionadas.

Bryan Luizzi, diretor do colégio Brookfield em Connecticut, visitou a Finlândia este ano. “Foi um pouco desanimador”, ele disse ao site Scholastic.com. “Eu não vi um só estudante com um laptop.”

É claro que inúmeros fatores contribuem para o sucesso de um país na educação. A Finlândia quase não tem pobreza e os professores são bem pagos e altamente respeitados.

Como escreveu no Times Rudy Crew, um ex-diretor do departamento de educação da Cidade de Nova York, “certamente há oportunidades que podem ser captadas por meio da tecnologia, mas no centro da educação está a relação entre professor e aluno”.

Educação dos filhos

Por Marcus Tavares
Editor da revistapontocom

Muito se fala sobre a responsabilidade do Estado na proteção e na promoção dos direitos da infância. Volta e meia cobra-se da escola a educação das crianças, por meio da constituição de conhecimentos e valores. Isso sem falar, é claro, na responsabilidade dos meios de comunicação, no sentido, por exemplo, de não violar e ou encurtar a infância, por meio de suas narrativas e linguagens. O que dizer da publicidade, sempre alvo, justo, de críticas? Essas são algumas das cobranças legítimas que, cada vez mais, são exigidas por uma sociedade que está aprendendo a cobrar pelos seus direitos.

Mas, neste início de ano, quero ratificar que esta mesma sociedade também tem deveres para com a infância, e em especial a família. Será que pais e ou mães estão de fato, e de direito e dever, exercendo seus papéis de orientadores, educadores, mediadores, enfim, de pais?

Não quero tirar a responsabilidade das instituições que citei acima, mas é imprescindível, sim, que os pais exerçam o papel que lhes foram outorgados. Muitas vezes, assistimos a um completo deslugar que ocupam na vida dos filhos. Não são exemplos nem dão exemplos. Não educam, não ensinam. Em alguns extremos, não sabemos quem são os filhos e quem são pais. Neste cenário, jogar a responsabilidade para o ‘outro’ é mais fácil.

Os pais precisam assumir quem realmente são na relação com os filhos. Não no sentido autoritário, mas na autoridade que lhes cabe. As crianças precisam de pais presentes, atentos, equilibrados, que saibam dialogar, ensinar, brincar, respeitar e dizer não.

Sei que muitas famílias, por exemplo, passam por situações financeiras complicadas, por crises em seus relacionamentos, por falta da figura paterna ou materna, mas creio que estes problemas não possam ser transformados em justificativas para a não-obrigação, de educar os filhos. Que o digam inúmeras famílias. E o que dizer então daquelas que, aparentemente, não enfrentam problemas financeiros e ou da ordem emocional e ainda sim não são presentes?

Que em 2012 sociedade, estado, instituições e os pais das crianças estejam unidos, cada qual cumprindo com o seu papel, para uma infância mais feliz.