O Brasil na TV

Por Laurindo Lalo Leal Filho
Sociólogo e jornalista. É professor de Jornalismo da ECA-USP

O Brasil que se vê na TV está restrito ao Rio e a São Paulo, salvo raras exceções. Exibem-se nas novelas e nos telejornais lindas paisagens e graves problemas urbanos dessas metrópoles para todo o país. Fico a me perguntar o que interessa ao morador de Belém o congestionamento da Marginal do Tietê, exaustivamente mostrado pelas redes nacionais de TV? Não haveria fatos locais muito mais importantes para a vida dos telespectadores do Pará do que as mazelas da capital paulista?

No entanto, o conteúdo que vai ao ar não é determinado pelos interesses ou necessidades do telespectador, e sim, pela lógica comercial. Para o empresário de TV local, é mais barato e mais lucrativo reproduzir o que a rede nacional de televisão transmite, inserindo alguns comerciais da região, do que contratar profissionais para produzir seus próprios programas.

Para as grandes redes trata-se de uma economia de escala: com um custo fixo de produção, o lucro cresce à medida que os anúncios são veiculados num número crescente de cidades. Isso ocorre porque, como qualquer outra atividade comercial, a lógica do capital é a da concentração, regra da qual a televisão, movida pela propaganda, não escapa. Só que a TV não é, ou não deveria ser, apenas um negócio como outro qualquer. Por transmitir valores, ideias, concepções de mundo e de vida, ela é também um bem cultural, e não uma simples mercadoria. Daí, a necessidade de ser regulamentada e ter os seus serviços acompanhados de perto pela sociedade.

Novas tecnologias abrem brechas

Como concessões públicas, as emissoras têm obrigação de prestar esses serviços de maneira satisfatória, atendendo às necessidades básicas de informação e entretenimento a que todos tem direito.
Caso contrário, caberiam reclamações, processos e punições, como ocorre em quase todas as grandes democracias do mundo. Aqui, além de não existirem órgãos reguladores capazes receber as demandas do público e dar a elas os devidos encaminhamentos, não temos uma legislação capaz de sustentar esse processo. Por aqui vale tudo. E quem perde é a sociedade, empobrecida culturalmente por uma televisão que a trata com desprezo.

Diretores de emissoras chegam a dizer, preconceituosamente, que “dão ao povo o que o povo quer”. Um caso emblemático da falta que faz essa legislação é o da produção e veiculação de programas regionais.

Se o mercado concentra a atividade televisiva no eixo Rio-São Paulo, cabe a lei desconcentrá-lo, como determina artigo 221 da Constituição, até hoje não regulamentado. Sua tramitação é seguidamente bloqueada no Congresso por parlamentares que representam os interesses dos donos das emissoras de TV. Em 1991 a então deputada Jandira Feghali apresentou um projeto de lei estabelecendo percentuais de exibição obrigatórios para produção regional de TV no Brasil. Doze anos depois, em 2003, após várias concessões feitas para atender aos interesses dos empresários, o texto foi aprovado na Câmara e seguiu para o Senado, onde dorme um sono esplêndido até hoje. São mais de vinte anos perdidos não apenas para o telespectador, impossibilitado de ver o que ocorre na sua cidade e região.

Perdemos também a oportunidade de abrir novos mercados de trabalho para produtores, jornalistas, diretores, atores e tantos outros profissionais obrigados a deixar suas cidades em busca de oportunidades limitadas nos grandes centros. Mas se os interesses empresariais das emissoras bloqueiam esse florescimento artístico e cultural, as novas tecnologias estão abrindo brechas nessas barreiras.

O barateamento e a diminuição dos equipamentos de captação de imagens impulsionaram o vídeo popular e a internet vem sendo um canal excelente de divulgação desses trabalhos.

Programação regional

Combina-se a vontade e a capacidade de fazer televisão fora das emissoras tradicionais com a necessidade do público de acompanhar aquilo que acontece perto de sua casa ou de sua cidade. O que não descarta a necessidade da existência de programação regional nas grandes emissoras, como forma de tornar o Brasil um pouco mais conhecido pelos próprios brasileiros.

Reproduzido da Revista do Brasil
Fevereiro/ 2012

Música nas escolas

Estão abertas as inscrições para o Prêmio Concertos Didáticos, iniciativa que concederá a 22 projetos o valor R$ 22 mil para realizarem apresentações em diferentes escolas da rede pública. O edital, divulgado pelo Ministério da Cultura (MinC) determina, também, a realização de pelo menos seis concertos por projeto, além de que um terço das obras apresentadas seja de autores brasileiros.  Ao todo serão investidos R$ 500 mil.

As inscrições de projetos poderão ser realizadas até o próximo dia 26 de março. No caso do grupo ser formado por duo ou trio, serão exigidas no mínimo oito apresentações. Poderão se inscrever pessoas jurídicas com ou sem fins lucrativos, que sejam voltadas para o desenvolvimento de atividades relacionadas à produção artístico-cultural.

Os projetos deverão ser encaminhados para Premio Funarte de Concertos Didáticos – Centro da
Música/Funarte. Rua da Imprensa nº 16 sala 1308 – Centro – Rio de Janeiro – RJ – CEP: 20030-120.

As apresentações deverão acontecer até o dia 10 de novembro. As iniciativas serão avaliadas previamente pelo Centro de Música da Funarte (Cemus) que irá analisar a adequação da proposta às diretrizes contidas no edital, após essa fase preliminar, os projetos serão apreciados por Comissão de Seleção que seguirá critérios como: qualidade e excelência dos projetos; qualificação dos profissionais envolvidos no projeto; presença de música brasileira; e clareza dos objetivos e viabilidade de execução da proposta.

Veja aqui o edital na íntegra

Você viu essa?

A notícia pegou muita gente de surpresa. Desde o início do ano, a equipe da revistapontocom estava em contato com o Unicef para saber detalhes sobre o tema do Dia Internacional da Criança no Rádio e na TV, celebrado há 20 anos ininterruptamente pela instituição. Na segunda quinzena de fevereiro, Karen Cirillo, produtora executiva do órgão, respondeu um e-mail enviado pela revistapontocom ao Unicef.  Nele, ela dizia que a instituição anunciava o fim da celebração. Logo, em seguida, o portal do Unicef publicou uma nota, em inglês, explicando a decisão. Dias depois, a nota foi traduzida para o português.

Eis, abaixo, a nota oficial do Unicef:

Unicef anuncia o fim do Dia Internacional da Criança no Rádio e na TV

Em 2011, o Unicef celebrou o 20º Aniversário do Dia Internacional da Criança no Rádio e na TV (ICDB*). A iniciativa – que começou como uma maneira de conseguir que as emissoras dedicassem um tempo de sua programação para as questões relacionadas às crianças – cresceu através dos anos e se tornou uma celebração da participação de crianças e adolescentes na mídia. Ao longo do caminho, inspirou o desenvolvimento de programação infanto-juvenil de qualidade, programas regulares de rádio e TV conduzidos por meninos e meninas e uma infinidade de eventos especiais. A iniciativa foi abraçada tanto por grandes emissoras privadas quanto por organismos públicos de radiodifusão em pequenos países.

Hoje nós celebramos o que o ICDB foi capaz de realizar e anunciamos o fim da iniciativa. Pelo retorno que recebemos, fica claro que o ICDB alcançou seus objetivos: uma melhor qualidade da programação infanto-juvenil e uma maior atenção às crianças e aos adolescentes por parte das emissoras. Neste estágio, com a mudança no cenário da mídia e os excelentes progressos frutos do ICDB, faz sentido declarar que o Dia Internacional da Criança no Rádio e na TV foi um sucesso.

Ainda que o Unicef não vá mais coordenar um dia ou fornecer um tema global, nós encorajamos as emissoras para que continuem envolvendo as crianças e os adolescentes de alguma forma em sua programação, não apenas em um dia, mas durante todo o ano. Se o ICDB foi um sucesso em seu país, por favor, continue a celebrá-lo da maneira que achar adequada, escolhendo um tema ou assunto que seja importante para a sua comunidade.

Obrigada por todo o seu apoio, criatividade e dedicação para aumentar a participação de meninas e meninos nos meios de comunicação e melhorar a programação para as crianças.

Por Karen Cirillo, Produtora Executiva do Dia Internacional da Criança no Rádio e na TV

Escolas das diferenças?

Por Maria Teresa Eglér Mantoan 
Professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde também atua junto ao Laboratório de Estudos e Pesquisas em Ensino e Diversidade (Leped)
 
O convívio com alunos anteriormente excluídos das escolas comuns é recente e gera ainda muito preconceito, receios, insegurança. Essas reações às diferenças vêm das práticas de distanciamento dessas pessoas, como ocorre com outras minorias; alimentam o descrédito e reduzem as expectativas dos professores e continuam a manter as “escolas dos diferentes”, os alunos “diferentes”, seja porque são os melhores da classe, seja porque são os alunos nela incluídos – os chamados “alunos da inclusão”.

Resistindo às mudanças exigidas por uma abertura incondicional às diferenças, as escolas têm se esquivado dos desafios que levariam os seus professores a rever e a recriar suas práticas e a entender as novas possibilidades educativas trazidas pela inclusão. Esses desafios vêm sendo neutralizados por políticas e diretrizes educacionais, programas compensatórios de reforço, aceleração, escolas especiais e outros. Falsas soluções para enfrentá-los têm feito as escolas escaparem pela tangente e se livrarem do enfrentamento necessário para romper os fundamentos de sua organização pedagógica fechada, ultrapassada e inflexível a mudanças.

Ao atender às características desse tipo de organização, elas estão habituadas a categorizar e hierarquizar, os alunos em grupos, nominações, arbitrariamente constituídos. Os territórios corporativos constituem outro alvo desafiante, principalmente, quando se trata dos profissionais da educação especial.

Outros entraves provêm das soluções paliativas, que deturpam os princípios de uma educação para todos e que vão pouco a pouco minando o rigor desses preceitos, em nome de uma falsa flexibilidade, como os currículos adaptados, as atividades facilitadas, a terminalidade específica para alunos com deficiência.

Muitos professores de escolas comuns acreditam que um ensino diferenciado e adaptado às necessidades de alguns alunos é a solução para atender a todos nas salas de aula.

Diferenciar o ensino para alguns alunos não condiz com o que uma pedagogia das diferenças preconiza para flexibilizar as escolas. Podemos cair em uma cilada, quando o ensino diferenciado remete a um ensino à parte para alguns e a propósitos e procedimentos que decidem “o que falta” ao aluno, concebendo a aprendizagem como um processo regulado externamente.

O aluno se adapta a novos conhecimentos, quando transpõe os conflitos cognitivos provocados pelo ensino de um dado conteúdo e essa adaptação testemunha a sua emancipação intelectual. A assimilação do conhecimento provém de um processo de autorregulação, no qual o aprendiz demonstra sua capacidade de relacionar e de incorporar o novo ao que já conhece. Essa regulação ativa é que deve ser buscada, como um dos objetivos da escola.

As práticas de ensino se tornam flexíveis quando consideram essa emancipação, que é própria de todos os alunos, independentemente da capacidade de aprender de cada um e os reconduz ao lugar de saber, do qual foram excluídos, na escola ou fora dela. Na mesma direção, as atividades escolares se diversificam para que todos os alunos tenham livre escolha sobre elas, ao invés de serem predestinadas e diferenciadas para um grupo ou outro da turma.

Rever a organização pedagógica das escolas, à luz de concepções de ensino e de aprendizagem inovadoras e abandonar os arranjos criados para manter as aparências “bem intencionadas”, atribuindo aos alunos o fracasso, a incapacidade de acompanhá-la em todos os níveis de ensino, envolvem coragem e humildade.

Sabemos da necessidade e da urgência de um ensino que atenda a todos os alunos nas suas diferenças. Quando se abstrai a diferença, para se chegar a um sujeito universal, a inclusão perde o seu sentido. Conceber e tratar as pessoas igualmente esconde suas especificidades. Porém, enfatizar suas diferenças pode excluí-las do mesmo modo! Eis aí a armadilha da inclusão.

As peculiaridades definem a pessoa e estão sujeitas a diferenciações contínuas, tanto interna como externamente. Estamos, no entanto, convencidos e habituados às formas de representação da diferença, que são resultantes de comparações e de contrastes externos. Para Burbules (2008), essas representações constituem formas de pensar a diferença, como diferença entre.

A diferença entre está subjacente a todos esses entraves às mudanças propostas pela inclusão, seja na escola , como em outras instituições sociais. Velada ou explicitamente, ao fazermos comparações, fixamos modelos, definimos classes e subclasses de pessoas, de alunos, com base em atributos que não dão conta de suas diferenças por completo, excluindo-as por fugirem à média e/ou à norma estabelecida. É o que ocorre nas escolas dos diferentes, que tanto podem ser escolas especiais como comuns, que se restringem a receber alguns alunos, ou aqueles que correspondem às suas exigências e acompanham o seu ensino.

As escolas das diferenças implicam rigor e qualidade das propostas educacionais. Em uma palavra, elas enfrentam a si mesmas, ao buscarem distinguir o modo como produzem as diferenças nas salas de aula: categorizando os alunos em bons e maus estudantes ou considerando cada aluno como sendo o resultado da multiplicação infinita das manifestações da natureza humana. Tais escolas atendem incondicionalmente a todos os alunos.

Por se apoiarem no sentido da diferença entre, nossas políticas públicas de educação confirmam, em muitos momentos, o projeto igualitarista e universalista da modernidade, baseado na identidade idealizada e fixa do “aluno modelo”. Embora já tenhamos avançado muito, desconstruir o sentido da diferença entre em nossos cenários sociais é ainda uma gigantesca tarefa.

Contrapondo-se à diferença entre, a inclusão é uma reação aos valores da sociedade dominante e ao pluralismo, entendido como uma aceitação do outro e incorporação da diferença, sem conflito, sem confronto.

A diferenciação para excluir limita o direito de participação social e o gozo do direito de decidir e de opinar de determinadas pessoas e populações e é ainda a mais frequente. Tal diferenciação é própria das escolas dos diferentes, em que os alunos são triados, segundo decisões de fora, baseadas na valoração positiva ou negativa do desempenho escolar.

Na contramão dessa tendência, a diferenciação para incluir está cada vez mais se destacando e promovendo a inclusão total pela quebra de barreiras físicas, atitudinais, comunicacionais, que impedem algumas pessoas em certas situações e circunstâncias de conviverem, cooperarem, estarem com todos, participando, compartilhando com os demais da vida social, escolar, familiar, laboral, como sujeitos de direito e de deveres comuns a todos. Tal diferenciação está na base da inclusão escolar e das escolas das diferenças.

A Educação Especial conquistou posições importantes do ponto de vista legal e educacional na educação brasileira e esses marcos estão fundamentados na Constituição de 1988 e na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência/ONU, 2006, ratificada e assimilada ao texto constitucional pelo Decreto no. 6.949/2009. A Política Nacional de Educação Especial, na Perspectiva da Educação Inclusiva/MEC 2008 é o testemunho de nossos avanços em direção à inclusão escolar. Ela é explícita quando propõe a diferenciação para incluir e reconhece o sentido multiplicativo da diferença, que vaza e não permite contenções, porque está sempre mudando e se diferenciando, interna e externamente, em cada sujeito. Em seu texto fica patente que a diferenciação é fluída (Burbules,2008) e bem-vinda, porque não celebra, aceita, nivela, mas questiona a diferença!

Não há mais como recusar, negar, desvalidar a diferença na sociedade brasileira e no cenário internacional. Cabe-nos, pois, como educadores, colocar em cheque a produção social da diferença, como um valor negativo, discriminador e marginalizante, dentro e fora das nossas escolas.

Referências

– BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988.
– Brasil, Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Marcos político-legais da educação especial na perspectiva da educação inclusiva. Brasília: Secretaria de Educação Especial, 2010.
– Burbules, Nicholas C. Uma gramática da diferença: algumas formas de repensar a diferença e a diversidade como tópicos educacionais. In: GARCIA, Regina Leite; MOREIRA, Antonio Flávio Barbosa (Org.). Currículo, na contemporaneidade – incertezas e desafios. 3ªed. São Paulo: Cortez Editora, 2008.

Quando o bloco começa na sala de aula

 

Por Maria Teresa Jaguaribe Alencar de Moura
Diretora da Escola Sá Pereira
Musicoterapeuta (CBM) e Mestre em Educação (PUC-Rio)

Já há alguns anos que organizamos, quando as aulas reiniciam antes do carnaval, o bloco da Sá Pereira. Aproveitamos a atmosfera de festa que envolve toda a cidade para motivar nossos alunos e suas famílias. Mas como contextualizamos essa atividade? De que forma ela se relaciona com o trabalho pedagógico da escola?

Uma das características de nossa proposta pedagógica é o trabalho desenvolvido através de projetos, o que nos permite viver uma escola alicerçada no real, aberta a múltiplas relações, onde a criança se aproxima, gradativamente, dos procedimentos de estudo e de pesquisa, observando, analisando, selecionando, relacionando, sintetizando criticamente e se apropriando de sua aprendizagem, não apenas no que diz respeito à seleção de informações pertinentes, mas também na busca de soluções adequadas para cada momento vivido. O trabalho com projetos visa a promover um processo de ensino e aprendizagem compatível com a avalanche de informações que hoje nos surpreende e, ao mesmo tempo, instiga e provoca.

Optamos por um projeto institucional anual que norteia os projetos de todas as turmas da escola. Terminamos o ano fazendo um grande debate com os alunos e seus pais sobre os assuntos que teriam relevância para serem eleitos como tema do projeto institucional do ano seguinte. Escolhido o tema, divulgamos uma primeira justificativa com alguns objetivos gerais no site da escola. Confira no site.

Os critérios de escolha do tema, além de sua relevância para a comunidade escolar, para os contextos social e histórico que nos envolvem, indicam a necessidade de ser bastante abrangente para atender a diferentes faixas etárias, de favorecer a integração entre as áreas do conhecimento, de permitir o acesso a fontes variadas e suficientes para pesquisa, para que possa ser trabalhado por todas as turmas da escola de maneira transversal e transdiciplinar.

A partir daí, nossos compositores iniciam os trabalhos, buscando criar uma letra que possa instigar a curiosidade da garotada. Dessa forma, a música que todos aprenderão a cantar traz questões, perguntas, abre caminhos de estudo e pesquisa, orientando e sugerindo diferentes formas de abordar um mesmo assunto.

“O que seria desse mundo sem as grandes invenções?” [clique aqui e ouça o samba-enredo] Assim começa o samba 2012, provocando uma série de reflexões sobre a histórias das invenções, sobre o processo criativo humano, sobre nossa responsabilidade nas transformações que provocamos no mundo.

Com esse projeto pretendemos “mostrar às crianças que é preciso convocar o homem a assumir sua responsabilidade nas relações diretas com os outros e com o meio ambiente com os quais interage produzindo cultura. Pretendemos fazê-las compreender que o contexto que faz emergir cada inovação e criação humana, assim como suas possibilidades de transformação do mundo, é resultado de ações coletivas. Com isso acreditamos favorecer uma atitude de maior comprometimento com o outro e com o planeta que nos abriga, além de ampliar o conhecimento que temos de nós mesmos e do mundo que nos cerca.”

Para escolher o samba ou a marchinha do ano, realizamos um concurso, no qual pais e alunos defendem suas composições. Publicamos também as canções no site da escola abrindo a possibilidade de votação on line. E, dessa forma, também criamos um repertório musical único e original a cada ano.

Nesse processo, envolvemos toda a comunidade escolar criando um clima de interesse, sintonia e colaboração. Os professores tentam relacionar as atividades pedagógicas com o universo do carnaval, apresentando informações sobre a história do carnaval no Brasil e no mundo, aproximando as crianças dessa manifestação cultural tão importante. Como temos incluídas no currículo da escola diversas linguagens artísticas, nessas aulas as crianças também vivenciam diferentes ritmos, danças e personagens que compõem a festa.

Ainda não temos uma bateria própria, projeto que se lança para o futuro, mas essa falta também nos traz a possibilidade de uma parceria muito valiosa com a escola de música do Spanta Neném, formada por crianças da comunidade do Dona Marta, próxima à escola, o que favorece a socialização entre nossos alunos e crianças de uma realidade social e cultural diversa que co-habitam o mesmo bairro, a mesma cidade, mas têm poucas possibilidades de um verdadeiro encontro.

O dia da festa é a maior folia! Muitos moradores do bairro se juntam a nós para dar uma volta no quarteirão atrás do carro de som e da bateria, cantando o samba que será o abre alas de um ano de muito estudo e descobertas.

Folia para as crianças

Por Débora Póvoa
Do Rio Guia Oficial do Rio de Janeiro

O gosto pelo samba pode vir de berço. Prova disso é que neste Carnaval os pequenos foliões poderão se esbaldar em bailinhos feitos especialmente para eles. Da Zona Sul à Zona Norte do Rio de Janeiro, vários clubes preparam festas animadas para quem desde cedo já tem samba no pé. No Tijuca Tênis Clube, o tradicional baile infantil agita a criançada nos dias 19 e 21 de fevereiro. A banda Harmonia do Rio vai embalar a tarde, que ainda terá concurso de fantasias, bonecos e brinquedos para entreter os pequenos. Um área especial dará total segurança e conforto para bebês e crianças menores.

Marchinhas, batucada e muito samba não vão faltar no Jockey Club, também no dia 19. A Escola de Samba Mirim Império do Futuro e a Orquestra Fina Flor animarão uma festa à fantasia dedicada ao público infantil, que contará também com o grupo Animasom realizando brincadeiras entre pais e filhos. O evento faz parte do calendário dos Bailes do Rio, série de festividades carnavalescas realizadas no Jockey entre os dias 16 e 21 de fevereiro.

Já no dia 21 é a vez de o grupo Palavra Cantada comandar a festa no Clube Monte Líbano. Os músicos Sandra Peres e Paulo Tatit prometem divertir os baixinhos com canções de letras inteligentes e sonoridade marcante. E não podemos esquecer os blocos infantis, que continuam levando crianças e famílias às ruas cariocas. No Largo do Machado, o “Largo do Machadinho, mas não largo do suquinho” sai no dia 20, às 8h, com uma marchinha criada pela cantora e compositora Bia Bedran. A Banda Infantil de Ipanema vai animar a Praça General Osório no mesmo dia, às 15h.

Serviço

Baile Infantil do Tijuca Tênis Clube
Data: 19 e 21 de fevereiro
Endereço: Rua Conde de Bonfim, 451, 2º e 3º andares e hall – Tijuca
Horário: 16h
Contato: (21) 3294-9300
www.tijucatenis.com.br

Baile Infantil à Fantasia no Jockey Club
Data: 19 de fevereiro
Endereço: Praça Santos Dumont, 31, Tribuna C – Gávea – Rio de Janeiro
Horário: 15h
Contato: (21) 2554-5782
www.bailesdorio.com.br

Baile Infantil Palavra Cantada
Data: 21 de fevereiro
Endereço: Avenida Borges de Medeiros, 701 – Lagoa
Horário: 15h
Contato: (21) 2239-2399
www.carnavalmaiscarioca.com.br

Bloco “Largo do Machadinho, mas não largo do suquinho”
Data: 20 de fevereiro
Endereço: Largo do Machado 
Horário: das 8h às 16h

Banda Infantil de Ipanema
Data: 20 de fevereiro
Endereço: Praça General Osório
Horário: das 15h às 20h

Carnaval e escola

Por Helena Cancela Cattani
Historiadora e pesquisadora do carnaval do Rio Grande do Sul.

Quem descobriu o Brasil? Foi seu Cabral, no dia 22 de abril, dois meses depois do carnaval? Como, se antes houve Colombo, Duarte e Vasco da Gama? E tem mais: o português “descobriu” ou conquistou? Quando, afinal, começa a História do Brasil? O que há de história na versão oficial?

O ensino dos eventos ocorridos por volta de 1500 fica muito mais instigante quando inclui esse tipo de questionamento. Além de aprender História, os alunos são levados a refletir sobre o próprio processo pelo qual ela é construída, em diferentes versões ainda hoje reproduzidas.

Melhor ainda quando essa discussão historiográfica aparece em linguagem popular, no embalo dos versos de sambas de carnaval:

Partiram caravelas de Lisboa,
Com o desejo de comercializar
As especiarias da Índia, e o ouro da África
Mas depois o rumo se modificou
Olhos no horizonte, um sinal surgiu
Em 22 de abril, quando ele avistou
Se encantou

(Imperatriz Leopoldinense, 2000)

Pois o tratado eu sei que existiu
Viajando foi às Índias
Vasco da Gama o navegador
(Foi quem comandou)
O acordo foi fechado
E novamente a Europa desfrutou
Então Cabral partiu, oficializou
Rezaram a missa como o rei mandou

(Acadêmicos do Salgueiro, 1995)  

Mesma temática, diferentes formas de abordá-la. Enquanto o samba-enredo da Imperatriz enfatiza a visão mais tradicional do “Descobrimento”, o Salgueiro questiona algumas “coincidências” que cercam aquele período, como a assinatura do Tratado de Tordesilhas em 1494.

Sempre às voltas com assuntos históricos, os sambas de enredo funcionam como uma ferramenta didática diferenciada. Não foi à toa que, no final da década de 1920, as agremiações carnavalescas do Rio de Janeiro receberam o apropriado nome de escolas de samba. Embora haja controvérsia sobre o motivo original dessa designação, o fato é que essas “escolas” – hoje presentes não só no Rio, mas em outras capitais e até em municípios do interior – contam uma história em seus desfiles. É uma apresentação inédita e única, em que, por cerca de uma hora, apresentam suas versões carnavalizadas sobre fatos, eventos e personagens do passado – de figuras populares como Zumbi dos Palmares a soberanos como D. João VI, de revoluções marcantes, como a francesa, a temas mais particulares, como a história da cachaça. Por que não levar essas narrativas para dentro da sala de aula?

O samba geralmente provoca reações diferentes entre os alunos. Alguns, antes mesmo de entender a proposta, resistem por não gostarem do gênero musical. Outros se apressam a lembrar ao professor que os festejos de carnaval só acontecem em fevereiro, então não faz sentido ouvir sambas em outras épocas do ano. Superada esta ou aquela resistência inicial, o resultado é que a maioria das turmas que trabalham com esta proposta acaba por considerá-la muito positiva, e passa a interessar-se pelo tema após o início das atividades.

Até meados dos anos 1990, era obrigatório, nas escolas cariocas, abordar temáticas nacionais. E mesmo depois que a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) aboliu essa exigência, a maioria dos sambas continuou privilegiando a História do Brasil. É esta abundância de enredos que permite a análise e comparação entre versões e abordagens de um mesmo assunto.

Datas marcantes costumam inspirar desfiles comemorativos. Foi assim em 1988, no centenário da abolição da escravatura, quando a Unidos de Vila Isabel apresentou um desfile intitulado “Kizomba, a Festa da Raça”, exaltando a luta negra. Seu samba cantava “Vem a Lua de Luanda/ Para iluminar a rua/ Nossa sede é nossa sede/ De que o apartheid se destrua”. Dois anos depois, estava oficialmente encerrado o regime segregacionista na África do Sul. Em 2007, a Porto da Pedra apresentou um enredo em homenagem àquele país, cujo samba (“Preto e Branco a Cores”) louvava o principal artífice político da conquista da igualdade racial: “Liberto permanece o pensamento/ Ele foi meu alento/ Quando o corpo foi prisão/ O nosso herói Mandela é”.

A alunos do primeiro ano do ensino médio foi proposta uma análise comparativa dos dois sambas. O debate inicial centrou-se na questão de como era possível traçar semelhanças e diferenças entre as composições, que abordam assuntos semelhantes, mas com quase 20 anos de distância. Depois de uma exposição, feita pela professora, de elementos importantes para a compreensão dos desfiles, a turma elencou seus argumentos considerando não só as letras, mas o enredo e os elementos gráficos utilizados. Divididos em grupos, os alunos pesquisaram o contexto histórico em que esses sambas foram produzidos: o ocaso do apartheid, no fim da década de 1980, e a importância socioeconômica da África do Sul dos anos 2000. Os sambas permitem ainda o debate sobre as realidades dos dois países e suas transformações políticas e sociais ao longo do tempo, a fim de se obter uma melhor compreensão acerca da identidade étnica negra.

O exercício de criação de uma linha do tempo, aplicado a turmas de 7ª série do ensino fundamental, também pode contar com a ajuda de sambas-enredo. Alguns deles fazem verdadeiros passeios pela história universal. Um exemplo é o samba de 1998 da Unidos de Vila Isabel, “Lágrimas, Suor e Conquistas em um Mundo em Transformação”. O enredo, de autoria de Jorge Freitas, apresenta a história da civilização ocidental, da pré-história à Revolução Francesa. A partir das informações fornecidas pela letra, os alunos identificaram fatos e eventos, e observaram a coexistência destes através do tempo: “A luz de Roma se apaga”, “O clero, a bem da verdade, julgava o herege na Inquisição”, “O homem avança no velho mar”, “Da burguesia surge o renascer”, “Na França movimentos radicais deram ao mundo outra mentalidade”.

É importante incorporar manifestações relacionadas às comunidades dos alunos. Eles passam a observar questões ligadas a seu meio social, e assim desenvolvem maior interesse pelas atividades propostas. Alguns alunos, por iniciativa própria, podem trazer sambas que consideram relevantes ou que foram compostos pelas escolas às quais pertence o seu núcleo familiar.

O uso do samba não precisa ficar restrito ao ensino de História. Interações com outras áreas do conhecimento, como Geografia, Literatura e Artes Visuais, enriquecem o trabalho e aprofundam a compreensão dos alunos. No livro Para tudo não se acabar na quarta-feira: a linguagem do samba-enredo”, o pesquisador Júlio César Farias realiza um estudo linguístico de sambas-enredo e propõe sua utilização no ensino de Língua Portuguesa.

Farias lembra que a linguagem dessas composições se transformou ao longo do tempo. Na década de 1930, elas se constituíam de pequenos versos e incluíam partes improvisadas por repentistas. Durante a ditadura do Estado Novo (1937-1945), os sambas ficaram mais longos e incorporaram temas ufanistas, com expressões eruditas adaptadas de livros didáticos, reproduzindo o discurso oficial. A década de 1960 marcou a inserção de temas folclóricos e ligados à cultura negra, e entre os anos 70 e 80 houve a aceleração dos sambas, para atender a desfiles mais espetacularizados, tendo lugar no Sambódromo e com transmissão pela TV. É quando o pesquisador percebe a “diluição poética” dos sambas, em nome de rimas mais fáceis para conquistar o público.

Ainda assim, as letras mantêm grandes atrativos para os estudos históricos, a partir de elementos da epopeia literária: o tema é anunciado, feitos heroicos são exaltados, personagens e passagens históricas, mitificadas.

Aspectos visuais do desfile, como as fantasias e as alegorias, podem ser analisados pelo viés artístico e histórico. A escolha temática para o desfile e o meio onde se inserem as comunidades carnavalescas, assim como as diferentes formas de celebrações carnavalescas no Brasil, unem aspectos históricos e geográficos. Além disso, a construção das letras dos sambas observa particularidades de determinados meios sociais, no tempo e no espaço.

Se o carnaval criou escolas para ensinar samba, por que o samba não pode virar instrumento pedagógico? Como cantou a Acadêmicos de Santa Cruz em 2007, “No tic-tac das horas/ Nosso samba vira história”.

Texto inicialmente publicado na Revista de História

Liga da proteção

 

“Liga da proteção: proteja nossas crianças e adolescentes. Violência sexual é crime. Denuncie”. Este é o slogan da campanha deste ano do Governo Federal para o carnaval. O objetivo é convocar a sociedade para a responsabilidade de proteger as crianças e adolescentes.

A mobilização, liderada pela Secretaria de Direitos Humanos, acontecerá nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Salvador, Vitória, Belo Horizonte, Natal, João Pessoa, Boa Vista, Campo Grande, Rio Branco, Goiânia, Florianópolis, Curitiba, Porto Alegre, Brasília, Manaus, Fortaleza e Belém.

A ideia é realizar atividades de sensibilização no período pré-carnavalesco com foco na prevenção, além de mobilizações durante todo o carnaval, que envolvam a divulgação do Disque Direitos Humanos – o Disque 100 – serviço gratuito que funciona 24h nos sete dias da semana para receber denúncias de violência contra crianças e adolescentes e do Conselho Tutelar.

A divulgação por meio da internet será também um trunfo para redução da incidência de casos de violência sexual na infância e adolescência durante o período festivo. As ações na rede compreendem a mobilização pelas mídias sociais com a hashtag #ligadaprotecao e pelo site http://ligadaprotecao.com.br.

Uma nova educação

Estudantes vêem a educação dividindo conteúdos entre interessantes e não interessantes, relevantes e irrelevantes, dividindo-os em compartimentos separados, esse é um dos grandes problemas educacionais que deve ser contornado. // Sim, os professores podem ser substituídos por uma máquina. E o que pode ser substituído por uma máquina deve ser substituído. // O futuro da educação está na auto-educação. // O papel do professor do futuro seria o de apresentar questões que instigam a curiosidade das crianças, principalmente crianças com menos de 13 anos, mais abertas ao conhecimento e menos ligadas a questões como classes sociais. A reação de crianças abaixo dos treze anos é exatamente igual em qualquer lugar do mundo. O emprego dos professores não seria ameaçado. Seria diferente.//  Se tiver que projetar os próximos cinco anos, eu diria que o celular vai desaparecer. A tecnologia do celular poderá ser transferida para o cérebro humano.

As ideias polêmicas – acima – são de Sugata Mitra, indiano, radicado na Inglaterra, especialista em tecnologia educacional, que foi convidado para participar da Campus Party deste ano, em São Paulo. Ele falou para o público nesta terça-feira, dia 7 de fevereiro.

Professor de Tecnologia Educacional da Newcastle University, na Inglaterra, e professor visitante do Massachusetts Institute of Technology, o prestigiado MIT, no Estados Unidos, Sugata é idealizador do projeto Hole in the Wall (o buraco na parde), desenvolvido na ìndia, pelo qual crianças de uma comunidade carente passaram a contar com acesso à internet, disponibilizada por meio de um computador, colocado em uma das paredes da comunidade.

“‘Entre 1999 e 2001, na Índia, havia muitas crianças sem acesso a computadores, e quase nenhum professor para ensinar informática”, disse Mitra à Revista Época. O professor resolveu testar a reação das crianças ao aparelho sem a ajuda de professores, simplesmente colocando um no meio de uma favela indiana. Não havia ninguém para ajudar no uso, mas a máquina tinha monitoramento remoto. Estava equipada com teclado, mouse e o mecanismo de busca na web popular na época, o Altavista.

“Crianças que não sabiam inglês estavam surfando na web, ensinando umas às outras”, disse o professor. A equipe de Sugata conseguiu verba do Banco Mundial para prosseguir com a pesquisa, que foi replicada em outras cidades da Índia e da África do Sul. Além de dados, os computadores da nova fase também enviavam fotografias de quem estava usando a máquina e imagens da tela navegada, de dois em dois minutos. Para garantir que apenas crianças navegassem, o teclado e o mouse ficavam em uma caixa de madeira, com um buraco para caber apenas mãos bem pequeninas.

De acordo com matéria publicada pela Revista Época, até 2004, segundo Mitra, 1 milhão de crianças aprenderam sozinhas a usar o computador, em grupo, ensinando umas às outras. E aprenderam o básico de inglês, para poder se comunicar com o mundo. “Em apenas 9 meses, as crianças chegavam no nível de secretárias que trabalham com o computador”, disse.

A partir de 2004, a pesquisa seguiu rumos ambiciosos. A demanda por pessoas que falam língua inglesa nos empregos indianos – principalmente em call centers – era, e é, grande na Índia. A ideia de Mitra foi introduzir no computador de uma turma específica um programa que transforma em texto as palavras ditas em inglês. “No começo, elas falavam e o computador não entendia. Disse que elas teriam que fazer com que o computador entendesse”, afirmou. “Voltei 2 meses depois e cumprimentei uma criança: ‘How are you?’ (‘Como está você?’). Ela respondeu ‘Fantastic’ (‘Fantástico’)”, disse. Segundo Mitra, os estudantes tinham baixado uma versão online do Dicionário Oxford. Assim, buscavam a palavra, ouviam a pronúncia e repetiam para o programa instalado pelo pesquisador, que reproduzia a mesma palavra na tela. Era só conferir. “Um professor faria isso. Mas o professor (ele mesmo) foi embora, e só voltou dois meses depois”.

Outra evolução da pesquisa foi um teste arriscado, e o resultado, segundo Mitra, era analisar o fracasso. O ‘problema’ é que não houve fracasso. A proposta: Será que crianças na pré-adolescência entenderiam um texto que explica a biotecnologia na reprodução do DNA? No primeiro teste sobre o assunto, todos tiraram zero, como era de se esperar. Dois meses depois, a mesma coisa. O interessante é que ninguém, segundo Mitra, deixava de se interessar em tentar. Mais dois meses se passaram e o nível de acerto em um novo teste foi de 30%. Sugata Mitra queria 50%, o mesmo nível obtido por crianças das melhores escolas particulares de Nova Deli, capital da Índia.

A estratégia para alcançar esse objetivo foi simples: Escolher uma aluna simplesmente para incentivar as crianças, dizendo coisas como “Fantástico! Na minha idade eu faria muito menos”, mesmo que o resultado do ‘aluno’ em questão não fosse satisfatório. No terceiro teste, as crianças acertaram metade das questões, afirma Mitra.

Atualmente, as pesquisas com crianças e computadores são aplicadas por Mitra em vários países, inclusive no Brasil. Aqui, o estudo é feito na Casa do Zezinho, um projeto social de educação para crianças de de favelas da Zona Sul de São Paulo.

Acompanhe as notícias da Campus Party 2012. O que é Campus Party? Um dos maiores acontecimentos de tecnologia e internet do mundo. O evento que acontece em São Paulo reúne 7 mil campuseiros. Na programação, debates, mesas redondas, trocas de experiência.

Redes sociais: chegou a hora de dar um tempo?

Por Nelson de Sá
Articulista da Folha de S. Paulo
Matéria publicada no caderno TEC da Folha de S. Paulo – 23/01/2012

Há dois meses, falando a estudantes em Stanford, Mark Zuckerberg desabafou que, se voltasse no tempo para recomeçar o Facebook, ficaria em Boston, longe do Vale do Silício, dos fundos de “venture capital” e da “cultura de curto prazo”. Ele tem um problema: a abertura de capital do Facebook se aproxima e a rede social dá sinais de, nos EUA, ter batido no teto. As visitas cresceram 10% de outubro de 2010 ao mesmo mês de 2011, segundo a comScore, contra 56% de aumento no ano anterior.

Já se fala em “saturação social”, como publicou o “New York Times”. Segundo depoimento de David Carr, repórter e colunista da área cultural do “NYT”, 2011 foi o primeiro ano em que ele viu sua produtividade cair por causa de seu consumo de mídia. E, para 2012, Carr diz estar diante da escolha entre cortar passeios de bicicleta ou “alguns desses hábitos digitais que estão me comendo vivo”.

Nas três primeiras semanas, nada. “Meu Twitter ainda está me comendo vivo, embora eu tenha tido certo sucesso em desligá-lo por um tempo”, diz ele à Folha. “Na maior parte do tempo, porém, é como ter um cão amigável que quer ser sempre acariciado, levado para passear. Em outras palavras, continua me deixando louco.”

Menos interação

Pouco a pouco, os americanos, bem como os europeus, restringem a interação on-line e se tornam “espectadores”, segundo o relatório Adoção de Mídia Social em 2011, da Forrester Research. Só um terço dos americanos e europeus atualiza seus perfis em redes sociais, Twitter inclusive, toda semana.

Já nos emergentes, Brasil entre eles, dois terços dos internautas atualizam seus perfis semanalmente. Nos centros urbanos, três quartos.

O relatório visa ajudar em estratégias de negócios, alertando que “essas tendências apresentam um desafio para o Facebook, conforme se aproxima de seu IPO [oferta pública de ações]”.

Aos estrategistas de marketing, Gina Sverdlov, da Forrester, escreve: “Se você tem como alvo usuários nos mercados ocidentais, priorize dar a eles conteúdo que possam simplesmente ler ou ver. Não espere muita interação dos consumidores ocidentais”.

“Slow” tudo

A reação vai além das redes sociais. No final do ano, a revista “Travel + Leisure” publicou uma edição sobre “o futuro das viagens”, ouvindo futuristas e proclamando que “o maior luxo do século 21 será escapar da rede” em “black hole resorts”, refúgios buracos negros, com “total ausência de internet -até as paredes serão impenetráveis ao acesso sem fio”.

Segundo Judith Kleine Holthaus, ex-Future Foundation, hoje responsável por estratégia e insight na McDonald’s Corp., “sejam instalados no alto de montanhas ou em vilas exóticas, os buracos negros serão o ápice do movimento ‘slow food’ [a favor de produção camponesa], ‘slow travel’, ‘slow’ tudo -o máximo em se livrar de tudo”.

Na mesma direção, espalham-se pela Ásia os centros de recuperação de viciados em internet. Na Coreia, já seriam 200. Na China, 300.

Ganham repercussão nos EUA os softwares criados por Fred Stutzman, da Universidade Carnegie Mellon, como o Freedom, um “software de produtividade” que restringe o acesso à web por um determinado número de horas.

Ataques à web

E no último ano e meio acumularam-se os livros com questionamentos aos efeitos da internet: ela mina a criatividade, escreve Jaron Lanier em “Gadget – Você Não É um Aplicativo” (ed. Saraiva); sufoca os momentos de quietude, segundo “Hamlet’s Blackberry”, de William Powers, inédito no Brasil; e afasta as pessoas com ferramentas que serviriam para aproximá-las, segundo “Alone Together”, de Sherry Turkle, do MIT, também inédito por aqui.

O porta-bandeira nas críticas é Nicholas Carr, autor três anos atrás de um artigo de grande repercussão na revista “Atlantic”, “Is Google Making Us Stoopid?” (“O Google está nos tornando burros?”), com argumentos que depois ampliou em “A Geração Artificial” (ed. Agir). Dele, na edição mais recente: “O que são os smartphones senão coleiras high-tech?”.

Cansaço da web ainda está longe do Brasil

O Brasil está longe da saturação social observada nos EUA: o Facebook cresceu 192% em um ano, chegou a 36 milhões de usuários e ultrapassou afinal o Orkut -que também cresceu, mas 5%, segundo a comScore.

Em relatório, a consultoria Forrester Research até recomenda, aos investidores e profissionais de marketing: “Se você está colocando todos os esforços sociais nos EUA, é hora de mudar seu foco -e seu orçamento- para países onde os usuários são mais sociais”.

“Os emergentes lideram o mundo na adoção de mídia social, enquanto mercados tradicionais ficaram para trás”, diz o estudo, destacando, entre os emergentes, China, Índia e Brasil.

Mas já se percebem por aqui os primeiros sinais de uma reação à vida digital e aos seus efeitos sobre a produtividade, ao menos nos bolsões em que a disseminação de mídia social é maior e mais amadurecida.

Num exemplo prosaico, a presidente Dilma Rousseff abandonou o Twitter há mais de um ano, apesar dos reclamos gerais, “por falta de tempo”, segundo a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.

Ela continua com a internet presente em seu cotidiano, mas como “espectadora”, na classificação da Forrester para internautas de mercados “maduros” como os EUA.

No caso, Dilma usa a internet para consumo de jornais e revistas, o que ocupa entre uma hora e uma hora e meia de seu tempo, pela manhã. Tem como base um notebook, que fica em sua mesa, e usa tablet para leitura de títulos, inclusive internacionais, como o “Financial Times”. Iniciado o trabalho, não permite nem celular nas reuniões.

Corroborando estudos que indicam que a internet prejudica não apenas a criatividade das pessoas mas a sua própria humanidade, o diretor de teatro Antunes Filho abandonou seu notebook, que deu para um assistente.

“Eu gosto de ficar com a cabeça livre”, responde Antunes, ao ser questionado sobre criatividade. “A internet é o grande cheio. Você tem de ficar no grande vazio, no grande zen, solto, nuvem branca correndo no céu.”

“Desativei”

Também são comuns os casos de jovens que se desligam da rede para estudar. É o caso da estudante brasiliense Isabele Bachtold, 24, que fez uma pausa para se dedicar mais ao concurso do Instituto Rio Branco.

“Eu acabava entrando [na internet] para tirar alguma dúvida, aí ficava no Facebook e, quando percebia, já tinha passado meia hora”, conta. Assim, tomou a decisão de desativar a conta. “Desativei, em vez de deletar, porque pretendo voltar”, diz Isabele.

Até agora, a estudante não sentiu tanta falta da rede social -o Facebook era a única que usava. “Eu só sinto falta de saber o que está acontecendo na cidade.”

Dos amigos que mantinha na rede, 13 eram os que Isabele interagia com mais frequência. “Sempre que tinha novidades, alguém postava nesse grupo. Continuo me encontrando com eles.” (Nelson de Sá E Alexandre Aragão)

Território mental: a chave do ser humano

Por Marcus Tavares

Conheci pessoalmente o professor Evandro Vieira Ouriques, há cinco anos, na sede do Programa Avançado de Cultura Contemporânea (Pacc), do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ. Estava interessado em conhecer as bases teóricas e as opiniões do professor que estava à frente da recém criada disciplina “Construção de estados mentais não-violentos na mídia”, oferecida pelo Núcleo de Estudos Transdisciplinares de Comunicação e Consciência-NETCCON, da Escola de Comunicação-UFRJ, sob sua coordenação desde 1984.

Para ele, os estados mentais dos indivíduos – o fluxo de pensamentos, afetos e percepções – estão atravessados cada vez mais pelo discurso da mídia. Portanto, repetir inconscientemente os valores dominantes da e na mídia em nada contribui para o bem-estar da sociedade. O ser humano, destacou o professor, precisa, mudar de atitude.  De lá para cá, Evandro intensificou e divulgou seus estudos. Criou, inclusive, um novo campo de conhecimento, intitulado “Economia psicopolítica da comunicação e da cultura”, cuja metodologia operacional é o que ele chama de Gestão da Mente, centrada no conceito de território mental (criado em 2009), lugar onde ocorrem os estados mentais.

Em entrevista à revistapontocom, o professor explica detalhadamente o que é território mental e como a sociedade deveria repensar suas práticas e ações. Evandro avisa: “o território mental é a chave do ser humano, pois somos ‘apenas’ o que pensamos. Portanto, o controle do fluxo dos estados mentais é vital para a democracia, para a felicidade, para a vida em paz. Basta lembrar que os padrões de comportamento, como os padrões de produção e consumo, são determinados apenas pela vontade de cada pessoa em rede”.

Neste ano, além de continuar na coordenação do Netccon, o professor, que recebeu no ano passado o Prêmio de Melhor Acadêmico do Mundo, o Best Scholar 2010, do Reputation Institute, de Nova Iorque, e o título de Zulu, da Universal Zulu Nation, que criou no início da decado dos 70 a Cultura Hip Hop, vai começar a supervisionar pesquisas de Pós-doutorado em Estudos Culturais no PACC e ministrar aulas sobre Psicopolítica e Gestão da Mente no Doutorado em Comunicação em Contextos interculturais, da Universidad de La Frontera, no Chile.

Acompanhe a entrevista:

revistapontocom – Como podemos definir o que é território mental?
Evandro Vieira Ouriques – O território mental é a chave da ação no mundo, pois somos ‘apenas’ o que pensamos e afetamos. O que nos afeta e percebemos. É onde ocorre o fluxo de pensamentos, afetos (sentimentos, emoções, incluído o que normalmente é chamado de “coração”) e percepções (sensações, intuição etc.), ou seja, o fluxo dos estados mentais (gratidão, generosidade, amor, ódio, vaidade, ressentimento, inveja, cobiça, bondade, alegria, colaboração etc.) que são a fonte de referência para a ação no mundo. Território mental é o que determinadas maneiras de ver o mundo chamam de mente. E o que muitos, na mentalidade do Ocidente, confundem com a ‘razão’, opondo esta ao ‘coração’. Esta confusão tem graves consequências, pois muitos advogam que o outro mundo que queremos é construído com base no ‘coração’, com as emoções, com os sentimentos. Ora, são exatamente as emoções e os sentimentos que se encontram extremamente perturbados nos dias de hoje. Daí que um especialista em mente como Sri Aurobindo, criador do Yoga Integral, afirma que a fonte de referência para a ação está ‘atrás do coração’ e ‘acima da cabeça’. Está distante do turbilhão das emoções e distante da rigidez da razão e da limitação do intelecto.

revistapontocom – Então pode-se afirmar que nós – seres humanos – somos os nossos próprios territórios mentais?
Evandro Vieira Ouriques – Sim. Somos apenas o nosso próprio território mental, o nosso entendimento do mundo, entendimento este que qualifica e assim determina cada uma de nossas escolhas, de nossas decisões. Nosso território mental é o lugar onde construímos e sustentamos a Justiça de nossas ações. É assim que ele é criado historicamente. Ele é fruto da história das mentalidades, das maneiras de pensar e agir no mundo, disseminadas, propagadas e multiplicadas pelas estruturas de poder, pelos sistemas de poder, mesmo que estes sistemas sejam, por exemplo, as redes nas quais vivemos hoje. Quanto mais o território mental é criado pela própria pessoa, mais esta pessoa é de fato livre. Se observarmos com sinceridade e acuidade, veremos que a maior parte de nós mesmos não é livre. Quantas vezes fazemos o contrário do que dizemos? Quantas vezes nos flagramos fazendo o que não gostamos? A maior parte das pessoas é pensada e sentida por outras. Elas foram treinadas pelas instituições da sociedade, em especial pela educação e pela mídia, a pensarem, sentirem e perceberem segundo uma determinada perspectiva, ao ponto de matarem e morrerem por esta perspectiva, que é sempre epistêmica, vale dizer, que está afinada com uma maneira de validar o pensamento. O que é trágico é que as pessoas acham que a perspectiva em que acreditam é fruto de uma criação própria. Elas acreditam que tal perspectiva é a verdade absoluta.

revistapontocom – Então o nosso território mental foi sendo ‘alimentado’ desde as primeiras gerações até os dias de hoje?
Evandro Vieira Ouriques – Sim, com certeza. Por isto é decisivo a pessoa compreender de onde vêm as ideias que ela defende como ‘verdades absolutas’. É uma tragédia imensa repetir ideias sem questioná-las. Por exemplo: “a vida é cruel”, “o ser humano não presta”, “mulher não dá pra entender”, “homem é assim mesmo”, “o ser humano sempre foi violento”. Se refletirmos criticamente a respeito destas supostas “verdades”, veremos que não é bem assim. Quer um exemplo? Se analisarmos criticamente e com base numa boa pesquisa a frase o “ser humano sempre foi violento”, veremos que ela não faz sentido. A civilização cretense, imediatamente anterior à grega, portanto bem recente, não era bélica, as cidades não eram muradas, não produziam armas e a sexualidade não era reprimida como um pecado, como ocorre na presente civilização de base judaico-cristã, na qual se repete que teríamos nascido de um pecado original.

revistapontocom – Mas por que isso acontece? Dada a nossa extensa historiografia, o nosso território mental não deveria ser, hoje, mais qualificado e inteligente?
Evandro Vieira Ouriques – Quando os estados mentais da solidariedade, da generosidade, da fraternidade, por exemplo, são desqualificados, o território mental se torna reduzido. Prova disso são os programas de reality show, nos quais apenas se reproduzem os estados mentais sem analisá-los criticamente. A atitude – tanto dos participantes quanto do público – são como folhas soltas ao vento, levada pelos pensamentos, afetos e percepções que os atravessam. Quando a complexidade da vida é reduzida aos rendimentos, ao que se supõe ser “lucro”, a um único padrão de ‘riqueza’ que implica necessariamente na ‘pobreza’ da maioria, a uma vida que se passa na esperança de poder consumir mais e mais, quando sabemos que jamais as pessoas poderão consumir o que lhes é apresentado como “felicidade”, estamos reduzindo, na prática, o território mental. É o que vem acontecendo com a humanidade e atinge neste momento um intenso padrão. Por exemplo, o Brasil em que opta pelo desenvolvimentismo e deixa em segundo plano a sustentabilidade. O domínio do próprio território mental permite escapar deste determinismo histórico que negocia futuros que aprofundam a desconexão das pessoas com o presente, capturando-as em uma vida de desejo que exaure a existência até o cerne, que reduz a vida, e assim a mídia.

revistapontocom – O ser humano, em um dado momento, descobriu, portanto, que poderia intervir no território mental do outro.
Evandro Vieira Ouriques – Sim, o problema é sistêmico. Como bem mostraram os estudos dos pesquisadores Maturana e Varela. O amor é a base do biológico e do social. Quando a humanidade desistiu do amor em prol da violência, do ódio, da competição, da vaidade perpétua, como dizem tão bem os tibetanos, a doença estava instalada. Basta ver qualquer bom filme sobre as monarquias européias, por exemplo, ou sobre a classe dominante. São apenas tristes histórias produzidas por territórios mentais dominados pelo estado mental da vaidade e seus conexos, como inveja, competição, intriga, traição, apego etc. Esta é uma tarefa complexa, mas não diria complicada, pois o conceito ‘complicado’ fala da incapacidade de um determinado pensamento dar conta do que ele mesmo, o pensamento, criou.

revistapontocom – A mídia então pode exerce um grande poder sobre os territórios mentais dos indivíduos, não?
Evandro Vieira Ouriques – Com certeza, lamentavelmente estamos cheios de exemplos disto. Ainda bem que dispomos da cultura digital, que não é uma garantia, mas uma ampla possibilidade, pois ela também depende daqueles que a vivenciam sejam livres. Como se vive hoje num mundo mais e mais midiatizado, e assim acelerado e tecnologizado, cada vez mais as pessoas são pensadas, sentidas e percebidas por outros, por exemplo pelo conceito de disputa política, pelo estado mental da inveja e da vingança, como falei anteriormente, enquanto se imaginam “livres”. É, sim, de fato, uma tragédia. E ao mesmo tempo uma imensa possibilidade de liberdade. Por isto, criei a metodologia Gestão da Mente, que utilizo em meu trabalho acadêmico, em minhas consultorias e em meu consultório, no qual atendo pessoas e casais interessados em re-descreverem suas vidas, vale dizer em escapar do sofrimento. É sintomático que os movimentos sociais empenhados na democratização da comunicação, na desconcentração da propriedade horizontal e vertical dos meios de comunicação, na constituição de um novo marco regulatório da comunicação do Brasil, tendo em vista o descalabro desta concentração, ainda não tenham se dado conta de que tal concentração história está presente em seus próprios territórios mentais. É muito mais frequente e comum do que gostaríamos o fato de que indivíduos, grupos, redes, movimentos e organizações apresentem atitudes antidemocráticas na maneira como conversam internamente, articulam suas ações intersetoriais e procuram mobilizar os segmentos sociais com os quais trabalham em favor da cidadania, da democracia, das políticas públicas sociais, das intervenções em comunidades e da responsabilidade socioambiental. Quando verificamos ao longo da História, e do presente, a extensão dos prejuízos causados por essas atitudes mentais para os movimentos de transformação social, podemos afirmar que se trata de uma alarmante pandemia no território mental, que pode ser superada apenas pela re-ligação dos saberes sobre a sociedade com aqueles sobre a economia psíquica dos indivíduos.

revistapontocom – Nesta história, há algum ‘culpado’?
Evandro Vieira Ouriques – Este aspecto é decisivo. Quem é o culpado? O fato de se fazer esta pergunta já mostra o vazamento do paradigma judaico-cristão que está na base da maior parte dos territórios mentais, paradigma construído sobre o fundamento da culpa e do pecado. Não há culpa. Há responsabilidade. Por isto tantos temem reconhecer falhas, pois as entendem como pecados. Daí ser sistêmica a irresponsabilidade pessoal e social e a exteriorização da responsabilidade na direção da outra pessoa, do governo, da classe dominante, da empresa, do vizinho, da mulher, do patrão, do empregado, dos pobres etc. É este outro que passa a ser “o” culpado. Basta ver como a mídia produz a cada dia um ‘judas’ para ser malhado por todos. Na atual Europa, os ‘culpados’ seriam os “gastos públicos”, como foi aqui no Brasil na década dos 90. Quando em verdade o que está ocorrendo é simplesmente o resultado da cobiça e da indiferença, por meio da vaidade. Para que possamos viver de fato nas ordens da reciprocidade e da lei, é imperativo desfazer-se desta onipotência, que faz com que se acredite que tudo que é bom é seu por direito e que o mal está sempre no outro e fora de si. Como uma vez disse Joel Birman: que tudo o que é prazeroso está dentro do sujeito. E tudo aquilo que é desprazeroso está na sua exterioridade.

revistapontocom – Professor, e a religião? A religião não teve durante anos um papel importante e definidor na construção dos territórios mentais?
Evandro Vieira Ouriques – A religião lamentavelmente foi esquecida pela Teoria Social. Traumatizada pela história terrível da Inquisição e do compromisso da Igreja com o poder, a Teoria Social a desqualificou na maior parte das vezes. Digo lamentavelmente uma vez que jogaram fora junto com a água do banho, como se diz, o próprio bebê. O que eu quero dizer? A questão não é a religião (na maior parte dos casos, claro, terrivelmente comprometida com o poder, sobretudo aquelas que querem converter o outro) mas a metáfora da religião. Ou seja, de que a religião está falando? Ela fala da possibilidade do encontro, da comunicação, do diálogo, da fusão Natureza e Cultura, do amor, da paz. Consequentemente, e este seria um assunto para outra entrevista, esta possibilidade ressurge na forma dos fundamentalismos, tantos os religiosos quanto o do consumo, com seus templos, os shopping center. É assim que sujeito acredita que pode impor os seus ideais e instituir a sua lei, não se submetendo a nada que lhe seja exterior. No meu prédio, na porta do zelador, veja o ponto em que estamos, está fixado um aviso de que a palavra do Deus está acima da palavra da Constituição. Sim, é desta maneira que o sujeito pensa estar autorizado a submeter os outros pela conversão, quando o desafio divino, se mergulhamos no estudo comparado das religiões, é o de reconhecer o outro na sua singularidade e na sua diferença e procurar o lugar do encontro, da unidade na diferença. No entanto, o fundamentalista acredita patologicamente que é o Deus encarnado na Terra, o que do ponto de vista clínico é considerado como sendo da ordem da onipotência. Neste sentido, a metáfora da religião está relacionada com a construção de um território mental mais positivamente colaborativo, mais sustentável. Tenho trabalhado intensamente com recursos de determinadas tradições espirituais, em especial as hindus, tibetanas, xamânicas e indígenas, para promover uma mudança no território mental. Por exemplo, o conceito hindu de consciência-testemunha e as práticas de pranayama, de maneira a constituir o que chamo de pensamento respiratório. Ou seja: a observação crítica e alteração deliberada do padrão respiratório que sustenta cada estado mental.

revistapontocom – O senhor fala na possibilidade de construir novas estruturas para os territórios mentais? Em mudanças. Isso não é uma grande utopia?
Evandro Vieira Ouriques – Utopia para mim é viver no ódio, é crer que a vida seja feita contra o outro, que para que eu ganhe, você teria que perder, que existiriam pessoas que mereceriam mais do outros, que crianças poderiam ficar abandonadas, que personalidades poderiam ser moldadas para atender a interesses de concentração e poder. Isto sim é uma utopia, se estamos entendendo este conceito de utopia no sentido do que não é possível de ser realizado. A insustentabilidade está aí provando que não há nada mais anti-prático e anti-materialista do que o espírito capitalista em rede, uma vez que ele destrói os corpos tanto dos que odeiam quanto dos que são odiados e mais: destrói o corpo da Natureza. Trata-se, portanto, de um suicídio coletivo, movido por uma vontade descontrolada.

revistapontocom – Enfim, para onde vamos? O senhor arrisca uma previsão?
Evandro Vieira Ouriques – Vamos para onde quisermos. O mainstream está aí, como esteve desde quando abandonamos a sabedoria de entender a Cultura como um modo da Natureza. A situação na Europa e nos EUA mostra para onde a mentalidade dominante está indo. O Brasil está sendo construído como um futuro Estados Unidos, como me referi anteriormente? É isto que queremos? Investir na história de mais um império, que talvez domine o mundo depois da Ásia? Ou queremos nos abrir para outros e de fato inovadores estados mentais e consequentes soluções sociais de fato sustentáveis? Outros padrões de produção e consumo? Outro padrão do que seja ‘riqueza’? Vamos deixar o nosso território mental repetir as mesmas decisões injustas e insustentáveis? Ou vamos tomar conta dele e libertar-se da escravidão que é a vaidade perpétua? A decisão está em minhas mãos, suas mãos. Está nas mãos de você que nos lê. Muita gente está fazendo esta mudança e investindo no novo mundo que já está aí, emergindo de dentro e para além das ruínas da mentalidade do Ocidente moderno, como disse, gerador de injustiça e insustentabilidade.

revistapontocom – Na prática, como construir um território mental mais ‘humano’? O que fazer? Como fazer?
Evandro Vieira Ouriques – O território mental é transformado por cada ser humano no exercício dos valores societais, que fundam a sociabilidade, para que o ser humano seja, como você diz, mais “humano”. Esta transformação é resultado de uma gestão permanente do fluxo de estados mentais o que implica no exercício consciente da vontade, o que demanda o controle de formação do desejo. Isto permite você direcionar sua decisão na direção do que você quer ver no mundo. Somos o que queremos ver no mundo ou pensamos, sentimos e percebemos que o mundo seja. Muitos acreditam ser impossível mudar, pois assim estaríamos perdendo o que é então chamado de “vantagens”. “Vantagens” que permitiriam “prazeres” de toda a sorte. Em minhas pesquisas, publicações, aulas, cursos, conferências e clínica terapêutica, praticamos a gestão do território mental, que eu chamo, desde 2005 ,de Gestão da Mente. O que pode ser feito de imediato é agir simultaneamente em dois eixos: (1) observar analiticamente o fluxo de pensamentos, afetos e percepções, vale dizer, ler seus próprios estados mentais como quem lê para fazer a revisão um texto jornalístico, um projeto, uma argumentação, um roteiro. Observar e analisar a narrativa sobre si mesmo, sobre a vida e sobre o mundo, o que implica observar o feed-back que lhe é oferecido pela rede de relações; (2) observar a respiração que sustenta cada estado mental. Tem sido acanhada [a teoria cultural] com respeito à moralidade e à metafísica, embaraçada quando se trata de amor, biologia, religião e a revolução, grandemente silenciosa sobre o mal, reticente a respeito da morte e do sofrimento, dogmática sobre essenciais, universais e fundamentos e superficial a respeito da verdade, objetividade e ação desinteressada. Por qualquer estimativa, essa é uma parcela da existência humana demasiado grande para ser frustrada. Além disso, esse é um momento bastante embaraçoso da história para que nos achemos com pouco ou nada a dizer sobre questões tão fundamentais. Trata-se, portanto, de um trabalho de muita determinação, foco, compaixão consigo mesmo, pois aos poucos vai se conhecendo horrores que pensavam estar fora, apenas nos “outros”. Neste sentido, trava-se, portanto, um diálogo em rede da pessoa com ela mesmo e com suas relações. Algumas reflexões: será que estão me entendendo? Estou falando acessível? Por que não estou respirando fundo e relaxado? Por que estou interessado em que tudo dê certo? O que é dar certo? Sinto raiva. Raiva? O que estou pensando agora que me faz sentir este ou aquele afeto? O que estou sentindo agora? O que estou percebendo? Que conceitos estão circulando no meu território mental? Por quê? De onde eles vieram? Eu concordo? Eu quero? Chamo o aprofundamento da observação do fluxo de estados mentais de ‘arqueologia dos conceitos’. O aprofundamento da observação da respiração, e a gestão do corpo que daí se abre, eu chamo de ‘arqueologia da presença dos conceitos nos corpos’, não só nos corpos das pessoas como de todos os corpos naturais e os criados pelas tecnologias. Como diz Terry Eagleton, “se, com muita frequência, conhecer o mundo significa atravessar complexas camadas de auto-decepção, conhecer a si mesmo envolve ainda mais disso. Somente pessoas excepcionalmente seguras podem ter a coragem de se confrontar dessa maneira, sem racionalizar o que desenterram e nem se deixar consumir pela culpa estéril. Só alguém certo de estar recebendo amor e confiança pode alcançar essa espécie de segurança. (…) valor e objetividade não são os opostos que tantos parecem pensar”. Vamos, portanto, praticar em rede o Amor, este outro nome dos valores societais, da justiça, das políticas públicas, da colaboração positiva, da sustentabilidade, da alegria, da gratidão, da generosidade, da gentileza, da celebração.

Professores do estado: gratificação por desempenho

Por Wilson Risolia
Secretário de Estado de Educação

Com o início do ano letivo, recomeçam também as expectativas de milhares de alunos, pais e professores. A Secretaria de Estado de Educação tem um papel fundamental nesse processo e vem assumindo o compromisso de melhorar a qualidade do ensino, valorizar os profissionais e proporcionar um ambiente escolar digno para todos.

A partir de ações efetivas desenvolvidas no ano passado, já é possível perceber os primeiros resultados positivos. Diversas reivindicações históricas da categoria foram atendidas, entre elas, a criação do auxílio-qualificação e do auxílio-transporte; a gratificação para servidores lotados em áreas de difícil provimento; a incorporação da gratificação do extinto Programa Nova Escola e a equiparação das GLPs (horas-extras).

A implantação do Currículo Mínimo também merece destaque, porque passou a servir como apoio e orientação para os docentes no planejamento escolar e também garantir os conteúdos básicos necessários em cada disciplina.

Para 2012, a Seeduc tem novidades. Como reconhecimento por todo esforço e comprometimento, os funcionários passarão a receber a remuneração variável, que é uma gratificação de acordo com o desempenho obtido.

Em fevereiro, também será criada a Escola de Aperfeiçoamento dos Servidores de Educação, onde os profissionais poderão se aprimorar, com cursos específicos. Até março, serão inauguradas, ainda, obras em cinco unidades escolares de diferentes regiões do estado.

Outro benefício para as escolas estaduais será a aquisição de kits esportivos e culturais, como instrumentos de apoio para o aprimoramento da qualidade educacional dos professores de Educação Física e Arte. O investimento total da Seeduc foi mais de R$ 8 milhões.

Estamos confiantes de que estamos na direção certa. Com o apoio de todos, será possível alcançar as metas estabelecidas, e atender as expectativas diretores, professores, funcionários e pais, que buscam um ensino de qualidade para os jovens do Rio de Janeiro.

“A TV perdeu a vergonha”

Por Marcus Tavares

Daniel Azulay é um nome conhecido por muitas gerações. Desenhista, músico e arte-educador brasileiro, ele foi o criador da Turma do Lambe-Lambe, que invadiu a programação infantil brasileira entre as décadas de 70 e 90. O programa misturava desenho, histórias e um quadro bem popular, o mãos mágicas, que ensinava as crianças a criar.

Longe da TV, Daniel vem realizando exposições de arte contemporânea no Brasil e no exterior, incluindo projetos sociais de arte-educação. Acaba, inclusive, de lançar o livro de arte ‘A porta’. Por sua vez, a Turma do Lambe-Lambe, que ganhou versão animada, pode ser vista no Canal Futura e na TV Ra-Ti-Bum.

A revistapontocom conversou com o desennhista sobre o atual momento da programação infantil na TV aberta brasileira. Para ele, “a TV hoje em dia perdeu a vergonha, todo mundo sabe que virou um balcão de negócios onde o dinheiro pode tirar um telejornal do ar no horário nobre e transmitir, em rede nacional, um programa religioso para dizimistas”.

Acompanhe:

revistapontocom – Como você avalia a história da programação brasileira voltada para as crianças?
Daniel Azulay – Do ponto de vista de conteúdo educativo, nos programas antigos existia sempre a preocupação educativa e por que não dizer, ética e moral de contribuir de forma construtiva com a formação das crianças. Era muito comum em produtos ou programas infantis incluir o rótulo “Educa-diverte-instrui”. Havia também a dramatização com adaptação para a TV de autores de literatura infantil como o Teatrinho Trol e apresentadores como Gladys e seus bichinhos, Capitão AZA, National KID, Circo do Carequinha e Capitão Furacão.

revistapontocom – E hoje, há espaço de qualidade para a infância na programação da TV brasileira?
Daniel Azulay – Espaço sempre há se houver boa vontade e respeito pela criança que assiste à televisão.  Enquanto as emissoras olharem a criança apenas como produto, como alvo de merchandising e objeto de consumo, estamos crescendo como o rabo do cavalo, para baixo no nível da mediocridade que está aí.

revistapontocom – Por que, nos dias de hoje, programação infantil na TV aberta se resume a desenhos animados e em sua grande maioria estrangeiros?
Daniel Azulay – É facil entender: porque é mais barato quando não é de graça, e ainda gera lucros. As emissoras de TV adoram chamar programa de criança como “Sessão Desenho”. Os desenhos animados de praticamente todas os canais não custa um centavo para as emissoras. Há uma enorme disputa e oferta mundial para distribuir esses desenhos. Tudo para veicular os personagens de licensing e merchandising que geram fortunas em dinheiro para os distribuidores e emissoras que repartem percentuais das vendas milionárias de lancheiras, mochilas, cadernos, livros, brinquedos etc. As crianças, pobres coitadas, imploram aos pais que comprem tudo o que elas assistem na TV. Haja salário familiar e compensação afetiva para cobrir todas essas compras de produtos que escoam nas prateleiras na chamada “venda emocional”. Os americanos incluem o rótulo que atesta “a fama” do produto “As seen on TV”.

revistapontocom – Eis o motivo pelo qual a Turma do Lambe Lambe não tem espaço hoje na TV aberta? Ela está no Futura e na TV Ra ti bum, certo? Foram feitas 104 tiras animadas da Turma Lambe Lambe, não foi?
Daniel Azulay – Na minha opinião, para voltar à telinha em rede nacional é mais fácil eu fundar uma igreja, bolar um programa de Baile Funk e comprar horário na TV ou inventar um Carnê do Baú, como o Silvio Santos fez para comprar sua emissora de televisão. Aí como dono de uma emissora, eu poderia continuar a apresentar meu programa para crianças como sempre gostei de fazer. A TV hoje em dia perdeu a vergonha, todo mundo sabe que virou um balcão de negócios onde o dinheiro pode tirar um telejornal do ar no horário nobre e transmitir, em rede nacional, um programa religioso para dizimistas. A televisão aberta, como um todo, está tão abandonada que até o governo se esqueceu de que tem obrigação de fiscalizar a programação das emissoras. Não sou pessimista, sou realista. Infelizmente a mediocridade está tão disseminada nas cabeças que dirigem  nossas emissoras que a única coisa que sabem administrar é a cultura do “quanto-eu-levo-nisso” ou do maior lucro que posso gerar a curto prazo. Afinal de contas a TV é de graça, o telespectador não paga para ver a TV aberta. É triste ver que a programação de um modo geral reflete a linha de montagem de fórmulas desgastadas, os mesmos formatos, os mesmos protagonistas, nivelando por baixo a criação artística. Só para lembrar, não é de hoje que adultos, jovens e crianças não têm espaço para mostrar e divulgar seu talento na televisão. Mas nem tudo está perdido. De tão supérflua, a TV aberta caminha para a obsolescência, pois não compete com a TV do primeiro mundo, a TV a cabo altamente avançada em conteúdo, inovação e informação. Meu trabalho de TV hoje se resume a reprises no canal Futura e na TV Rá-Tim-Bum.

revistapontocom – E a sua opinião sobre desenho animado, os quadrinhos? Como você analisa o atual mercado brasileiro voltado para a infância? Há espaço para novos autores? Novas propostas?
Daniel Azulay – É um mercado em franca expansão. Carlos Saldanha e o sucessos da Era do Gelo e Rio, lavaram a alma não só de todos nós brasileiros como tb um orgulho da nossa c apacidade técnica e artistica para o mundo.

Sem saber como usar

Matéria publicada na Folha de S. Paulo – 1/2/2012
Por Breno Costa e Renato Machado

O MEC (Ministério da Educação) vai gastar cerca de R$ 110 milhões na compra de tablets para serem usados em sala de aula sem ter produzido um estudo definitivo sobre o uso pedagógico dos aparelhos. Conforme a Folha revelou ontem, o MEC iniciou na semana passada, sem alarde, uma licitação para a aquisição de 900 mil tablets.

A compra total será de, ao menos, R$ 330 milhões, valor mínimo estimado em leilão. Só um terço dos aparelhos ficará com o MEC. O restante deverá ser adquirido por Estados e municípios, que arrecadarão com aproximadamente R$ 220 milhçoes.

O próprio MEC reconhece que o desenvolvimento do método pedagógico para  uso do computador vai acontecer na prática, Os equipamentos serão usados na formação de núcleos, como parte de um plano piloto, em que professores e alunos trabalharão com os tablets para depois disseminarem o aprendizado.

Para efeitos de comparação, o programa Um Computador Por Aluno, do qual a compra dos tablets faz parte, teve um início diferente. Na ocasião, foram fechadas parcerias com universidades que trabalharam no desenvolvimento de conteúdo e na avaliação da nova tecnologia.

Coordenadora do programa ministerial no Sul e no Amazonas, a pesquisadora da UFRGS (Federal do Rio Grande do Sul) Léa Fagundes é favorável ao uso do tablet, mas diz que a discussão sobre a compra do aparelho não passou por pedagogos.

A única audiência pública realizada pelo MEC para subsidiar a compra, em agosto, envolveu só aspectos técnicos, como sistema operacional e tamanho de tela, e não as questões educacionais.

O receio dela é que o tablet seja usado para reforçar o padrão educacional existente. “Tenho medo é de que os governos estejam comprando porque nele cabem 300 livros didáticos. Então, o paradigma não muda”, diz.

AUTONOMIA

O plano do MEC vai nessa direção. A pasta afirma que uma das vantagens do tablet é poder incluir toda a biblioteca do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) num aplicativo.

O professor da PUC-SP Fernando José de Almeida diz que o MEC só deve dar a diretriz inicial, cabendo a Estados e municípios cuidar de projetos pedagógicos.

Almeida também defende que uma parte do aprendizado seja feito na própria sala de aula. “Precisa ter um plano pedagógico, mas também é necessário dar autonomia aos professores”, afirma. O edital para a compra dos equipamentos foi lançado no fim do ano passado, ainda na gestão de Fernando Haddad. O seu substituto, Aloizio Mercadante, é um entusiasta do uso da tecnologia na educação. Em sua posse, dedicou boa parte do discurso para tratar dos benefícios de computadores, tablets e outros.

Professores precisam ser capacitados para essa nova maneira de dar aulas
Por Sérgio Amaral
Livre-docente e coordenador do Laboratório de Novas Tecnologias Aplicadas na Educação,
na Faculdade de Educação da Unicamp

A aula tradicional está cada vez mais mediatizada pelas tecnologias digitais. Começamos com a introdução do computador, passamos pela lousa digital, até chegarmos aos tablets. Para os professores, a introdução dos tablets em sala de aula deverá trazer uma grande mudança na maneira de dar aula, de apresentar e de discutir o conteúdo com seus estudantes.

O problema não é com os alunos, mas com os professores. Precisamos capacitar os docentes para a utilização didática dos tablets no desenvolvimento das atividades pedagógicas em sala de aula. O professor necessita de uma mudança na maneira de ensinar, precisa de uma adaptação do material didático. É fundamental desenvolver atividades em sala de aula com conteúdos que efetivamente utilizem os recursos tecnológicos dos tablets.

O tablet é pequeno, apresenta certa dificuldade de realizar anotações e outros problemas se compararmos com o livro didático. Mas apresenta recursos com a convergência multimidiática e a conexão com a internet que facilitam a busca e a integração de conteúdo, contribuindo com o processo de aprendizagem.

Para tanto, é necessário que a capacitação dos professores não seja somente instrumental, mas contextualizada na potencialidade e na limitação da tecnologia. Deve incluir como são as novas formas de interagir, a linguagem e a construção de conteúdo e como incorporá-las nos processos de ensino e de aprendizagem. Só assim, de fato, estará justificado o uso de tablets em sala de aula, como efetivo instrumento do aprender.