Som controlado

Se você já teve aquela sensação de que o áudio do intervalo comercial, exibido na televisão, aumentou de volume repentinamente, saiba que isto pode ocorrer e com um único objetivo: chamar a sua atenção. Mas saiba também que essa variação de volume deve seguir uma padronização, como previsto em lei, promulgada em 2001, porém até hoje não regulamentada. Por esta razão, o Ministério das Comunicações colocou em consulta pública uma proposta de norma sobre a variação de volume entre a programação de rádio e TV e os intervalos comerciais. A meta é estabelecer os detalhes de como a medição e a fiscalização vão ocorrer, assegurando que não haja variações bruscas e injustificadas de volume para o ouvinte e o telespectador.

Pela proposta do ministério, o áudio da programação e dos intervalos deve ser padronizado de forma que a diferença entre eles não ultrapasse 1 decibel. A norma baseia-se no conceito de loudness, que é a percepção subjetiva da intensidade do som.

A proposta pevê a coleta de seis amostras de programação das emissoras num intervalo mínimo de 24 horas para verificar se há mudanças bruscas de volume. Também está prevista a criação de um grupo técnico composto por engenheiros para determinar como se dará a coleta e a medição das amostras.

A fiscalização das variações ficará a cargo da Anatel. Se a agência constatar uma infração, a emissora terá um período de 30 dias para padronizar seus níveis de áudio. Quem descumprir o prazo terá a emissão dos sinais suspensa por até 30 dias.

De acordo com o coordenador-geral de Avaliação de Outorgas da Secretaria de Serviços de Comunicação Eletrônica do Ministério das Comunicações, Almir Pollig, a dificuldade em regulamentar o tema deve-se principalmente à falta de critérios técnicos e de instrumentos de medição adequados.

“A questão do loudness é muito subjetiva, porque as pessoas reagem de modo diferente às variações de áudio. É preciso ter instrumentos objetivos de medição, e esses instrumentos ainda estão passando por um período de padronizações, de acordo com as normas da União Internacional de Telecomunicações. Antes, nem isso havia. Quando a lei foi feita, em 2001, não havia a menor possibilidade técnica de ela ser regulamentada”, explica.

Segundo Pollig, todos os países do mundo têm encontrado dificuldades em regulamentar o loudness. Apenas os Estados Unidos possuem uma norma, elaborada em 2011, e que ainda está em período de testes por conta das frequentes mudanças na padronização internacional. O mesmo princípio valerá para o Brasil, já que o texto em consulta estabelece que aos critérios técnicos da norma devem ser revistos dois anos depois da publicação.

A consulta pública ficará aberta a contribuições até 29 de maio. O MiniCom vai publicar a portaria com as novas regras até o dia 17 de julho e as emissoras terão um ano para se adaptar. Para participar da consulta pública clique aqui.

Inovação mais veloz impõe “reinados” mais curtos


Por João Luiz Rosa e Bruna Cortez

Reproduzido do Valor Econômico, 21/5/2012

Nos próximos meses, vai se ouvir falar muito de Mark Zuckerberg e de sua criação, o Facebook, mas quanto tempo isso vai durar? Como o Facebook, que protagonizou a maior oferta pública de uma empresa de tecnologia, várias companhias já pareceram insuperáveis em algum momento de sua história. Todas viram surgir rivais que as sucederam como símbolo de inovação global.

A constatação parece óbvia: à medida que os ciclos de inovação ficam mais rápidos, os períodos de domínio tecnológico das grandes companhias ficam mais curtos. A IBM, cujas raízes remontam ao fim do século XIX, só teve uma sucessora à altura em meados da década de 80, quando a Microsoft emergiu, colocando no pedestal o software e o PC, em vez dos grandes computadores empresariais. A companhia de Bill Gates dominou o cenário por pelo menos 20 anos, até que o Google se firmasse como a empresa de internet por excelência. O interesse despertado agora pelo Facebook, criado em 2004, mesmo ano em que o Google foi à bolsa, mostra que há um novo pretendente ao trono. É menos de uma década de diferença.

Todas essas companhias continuam relevantes, mas a pergunta é por que o líder de uma fase tecnológica não consegue manter essa posição na etapa seguinte. Ao se tornarem referências globais de tecnologia – e o aval de Wall Street é um sinal dessa capacidade –, as empresas passam a ter obrigações legais que causam uma inevitável distração. A preocupação, antes concentrada no laboratório, é dispersada entre diversos públicos – o acionista, o analista de mercado, a imprensa especializada… Não alcançar uma previsão de resultados pode ser tão ou mais destrutivo quanto lançar um produto que funciona mal.

Com milhares de funcionários e milhões de consumidores, as companhias acabam se fixando em produtos já provados no mercado. O Windows e o Office continuam sendo as armas principais da Microsoft, da mesma maneira que o mecanismo de busca é o carro-chefe do Google.

A despeito de equipes gigantescas e orçamentos generosos destinados à pesquisa, essa camisa de força acaba permitindo o surgimento de companhias menores e muito mais ágeis, que captam melhor as necessidades do público.

Não é à toa que Zuckerberg adiou o quanto pode a estreia do Facebook no mercado de capitais.
Parece cedo demais para perguntar, mas a julgar pela história, qual será e quando vai surgir o próximo Facebook?

A decisão da companhia de pagar US$ 1 bilhão pelo Instagram, em pleno período de silêncio pré-oferta, dá uma pista do rumo atual das coisas. O Instagram, um aplicativo de fotografia, tornou-se um fenômeno de popularidade na web. O próprio Zuckerberg negociou o acordo de compra antes de apresentá-lo pronto ao conselho de administração do Facebook.

O americano Kevin Systrom e o brasileiro Michel “Mike” Krieger, cofundadores do Instagram, podiam ter recusado a proposta, mas concordaram em vender o negócio, menos de dois anos depois de tê-lo criado. Outras criações populares como o Skype não resistiram. O serviço de comunicação é hoje controlado pela Microsoft.

Esse tipo de decisão não surpreende. Muitos empresários da novíssima geração – a maioria com 20 e poucos anos de idade – pensam em vender seus negócios a grandes grupos, em vez de amadurecê-los. Essa tendência vem de anos. Em 2004, o Valor perguntou a seis empresas que integravam o ranking das 29 companhias mais inovadoras do mundo, segundo o Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês), quais eram suas perspectivas. Quatro delas disseram esperar ser compradas.

Zuckerberg tomou uma direção diferente. Em 2006, recusou ofertas bilionárias tanto da Viacom (US$ 1,5 bilhão) como do Yahoo (US$ 1 bilhão) para vender a companhia. E mesmo sob a oferta pública, cuidou de assegurar a si mesmo a maioria das ações com direito a voto, o que lhe dá amplos poderes na direção da empresa.

É verdade que ao rejeitar as propostas de compra, Zuckerberg correu o risco de sumir do mapa. Não fosse essa recusa, porém, o Facebook poderia ser hoje uma divisão meio esquecida nas engrenagens de algum conglomerado de tecnologia ou mídia.

Ironicamente, o surgimento do próximo Facebook pode depender da habilidade de o Facebook real – ou outro gigante tecnológico – perceber o potencial de alguma empresa de garagem, conduzida por um nerd de moletom.

Boca no trombone

 

Martha Payne fotografava seus lanches com a permissão da escola e postava as fotos diariamente em seu blog “Never seconds” (“Nunca repetir o prato”, em tradução adaptada), com comentários e notas sobre a comida. Entre os aspectos avaliados pela menina, estavam a qualidade da comida, a quantidade de “garfadas” em uma porção e o número de fios de cabelo encontrados. A repercussão do blog fez com que o conselho municipal de Argyll, na Escócia, se pronunciasse sobre o assunto e fizesse uma visita à escola da menina. Resultado: o cardápio da merenda melhorou, ainda que temporariamente.

A ideia de criar o blog, segundo Dave Payne, pai de Martha, surgiu quando a menina chegou em casa comentando sobre um texto “jornalístico” que teve que fazer para um trabalho escolar. “Ela chegou dizendo que queria escrever como uma jornalista todos os dias e achamos que um blog seria a melhor ideia”, conta o pai.

Desde então, a menina, que vive com a família em uma fazenda, passou a postar fotos do que comia diariamente, com comentários sobre o cardápio. As primeiras fotos de Martha, de acordo com seu pai, foram reveladoras. As refeições, sempre em porções pequenas, incluíam pizza, hambúrgueres, frituras, poucas verduras e nenhuma fruta.

“Para ela, as fotos eram completamente normais. Para mim, foram chocantes, terríveis. Quase tão chocante quanto isso era o fato de que as crianças achavam aquela comida normal. Ela reclamava um pouco em casa, mas eu não dei muita atenção”, disse Dave.

Pouco depois do primeiro post de Martha, ele escreveu em seu perfil de Twitter sobre o blog da filha. “Na primeira meia hora, três pessoas tinham visto o blog. No dia seguinte, eram mais de 20 mil”, conta. Agora, um mês depois, o “Never seconds” já contabiliza cerca de 1,2 milhão de visitantes.

Alertado por internautas sobre o projeto, o chef Jamie Oliver chegou a mandar uma mensagem para a menina através do Twitter: “Blog chocante, mas inspirador. Continue! Com amor, Jamie”. O sucesso do blog colocou o governo local em uma saia justa. Em uma entrevista à BBC escocesa, uma representante do conselho municipal de Argyll afirmou que o almoço servido na escola não tinha problemas.

“Ela disse que não havia nada errado com a comida e que a culpa era de Martha porque ela escolheu os alimentos errados, mas ela escolhe tudo o que pode todos os dias. Mesmo irritados, não quisemos dar mais entrevistas e nos envolver, mas depois disso a comida melhorou na escola. Coisas que ela nunca viu começaram a aparecer no cardápio. Membros do conselho foram visitar a escola com jornalistas e a comida era muito diferente”, afirma Payne.

Academia Digital

Por Marcus Tavares

Reunir pesquisadores brasileiros que se dedicam ao estudo da cultura digital em seus diversos desdobramentos e promover interfaces de colaboração para o desenvolvimento de projetos na área cultural. Este foi o objetivo do encontro “Academia Digital” realizado na sexta-feira, dia 25 de maio, na Casa da Ciência da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Promovido pelo Pólo Digital do Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC) da mesma instituição, o evento contou com a participação dos representantes de diferentes grupos de pesquisa do país. Na ocasião, Heloisa Buarque de Hollanda, coordenadora do PACC e idealizadora do encontro, explicou que o projeto está aberto a outras universidades e programas brasileiros.

Na parte da manhã, foi feita uma rodada de apresentação dos grupos de pesquisa que estavam presentes. Logo depois, Álvaro Malaguti fez uma apresentação dos projetos que estão sendo realizados, desde 2008, entre a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) e o Ministério da Cultura (MinC). Gerente da integração RNP/MinC, Malaguti destacou a proposta da Rede de Laboratórios para Experimentação em Arte, Cultura e Tecnologia. Fruto da parceria entre as duas instituições, a rede de laboratórios visa a prover infra-estrutura física e de rede para trabalhos culturais colaborativos, que tenham a participação da Academia. A ideia é criar os laboratórios nas unidades da Funarte no Brasil, constituindo espaços de pesquisa para estudiosos de novas linguagens artísticas em plataforma digital. Na parte da tarde, os participantes discutiram possibilidades e perspectivas de criação e interfaces colaborativas.

Cultura digital em análise

Durante a apresentação dos grupos de pesquisa, Sérgio Amadeu, professor do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciência Social Aplicada da Universidade Federal do ABC (UFABC) e Alex Primo, professor do programa de pós-graduação em Comunicação e Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), analisaram o atual contexto da cultura digital.

Sérgio Amadeu disse que a mudança tecnológica ocorrida nos últimos anos libertou o texto do papel, o vídeo da película e a música do vinil. Transformou tudo em digital, disponibilizando todos os conteúdos na rede. “E como o velho mundo industrial reage a isso tudo? Tentando criminalizar os processos que são típicos de cultura. A cultura sempre foi compartilhamento, troca e re-combinação. Nos dias de hoje, por conta da defesa da propriedade industrial, as práticas recombinantes são criminalizadas. Há um grande esforço de criar legislações que tenham o objetivo de proibir o compartilhamento livre, de restringir bens culturais e conhecimentos”, destacou.

Neste contexto, Alex Primo explica que a ideia de que a cibercultura significaria uma série de utopias libertárias não se concretizou. Segundo ele, vivemos numa cultura digital que ainda é ditada pela cultura massiva dos grandes conglomerados de mídia que logo perceberam e incorporaram o potencial das redes sociais e das interfaces de produção de informação, como blog, videolog e twitter. Para ambos professores, estudos e reflexões sobre esses temas é o primeiro passo para repensar e possibilitar novas perspectivas e ações para o futuro.

Veja alguns dos participantes do encontro:

– Alex Primo (UFRGS)
– Alexandre Farbiarz (UFF)
– Alvaro Malaguti (RNP)
– Ana Claudia de Souza (Funarte-RJ)
– Christus Nóbrega (UnB)
– Eliane Costa (UCAM)
– Eugênio Trivinho (PUC-SP)
– Fernanda Bruno (UFRJ)
– Guido Lemos (UFPB)
– Ilana Strozenberg (UFRJ)
– Rejane Spitz (PUC-RIO)
– Rodrigo Savazoni (CCD-SP)
– Sérgio Amadeu da Silveira (UFABC)
– Vanderlei Cassiano Junior (UFGO)

PACC – UFRJ
– Heloisa Buarque de Hollanda
– Cristiane Costa
– Beatriz Resende
– Cristina Haguenauer
– Fernanda Gentil
– Luiz Agner

Carrossel

Por Marcus Tavares

A novela é infantil, mas, se depender da vontade do SBT, o remake vai conquistar a família. Será? Estreou nesta segunda-feira, dia 21, às 20h30, a novela Carrosel, versão brasileira do sucesso mexicano, produzido pela Rede Televisa, que a própria emissora de Silvio Santos exibiu entre maio de 1991 e abril de 1992. Na epóca, a obra conquistou boa audiência, tanto é que o canal reprisou a novela três vezes (1993, 1995 e 1996).

Depois de 23 anos, o objetivo é o mesmo: elevar a audiência do canal e conseguir anunciantes. Por sinal, a novela já estreou com três patrocinadores: Chamito, da Nestlé, Omo e Cacau Show. Segundo matéria publicada pela Folha de S. Paulo, a meta da emissora é emplacar 7 pontos de média no Ibope da Grande São Paulo, ficando à frente da Record. “O SBT quer aproveitar o baixo desempenho da segunda temporada da novela “Rebelde” e do telejornal da concorrente para emplacar o folhetim de Íris Abravanel”, mulher de Silvio Santos, responsável pela adaptação do texto.

Um desafio e tanto, Carrossel terá nada menos do que 260 capítulos. O elenco conta com 17 crianças Entre elas, está Maísa Silva, a menina dos olhos de Silvio Santos. Maísa ganhou o papel da menina Valéria, escrita especialmente para ela.

A versão atual, com direção geral de Reynaldo Boury, se manterá fiel à trama mexicana, mas foi modernizada e adaptada à realidade do Brasil. De acordo com Íris Abravanel, a ideia de fazer a adaptação surgiu de sua filha Daniela Beyruti, diretora artística do SBT. Em entrevista ao Yahoo! TV, o diretor disse que Carrossel será uma oportunidade de fugir do excesso de violência que assola a maioria das novelas atuais.

Análise do primeiro capítulo

A novela é bem colorida. Os atores mirins parecem que já se incorporaram aos personagens, ao contrário de alguns adultos. Pelo que parece, a Escola Mundial ainda precisa se adaptar ao mundo tecnológico. Há computador na mesa da diretora e na sala dos professores (todos desligados), uma televisão de plasma na sala de aula, mas a professora ainda escreve no quadro-negro, com giz! Os personagens são caricatos, como a versão original. A diretora que o diga. Séria e rapugenta, ela quer silêncio, não gosta das crianças e vive no pé dos professores. A trilha sonora é nacional. Há canções de Eiliana, Simony, Patrícia Marx, Toquinho e Chico Buarque. Um CD com as músicas será lançado daqui a 20 dias. O primeiro capítulo durou exatos 50 minutos e detalhe: sem interrupção. Nenhum intervalo, nenhum comercial. Será que vai emplacar?

E a merenda…

 

Está em análise na Câmara dos Deputados projeto que estende as diretrizes da alimentação escolar às instituições privadas de ensino e veta o comércio no interior das escolas de alimentos de baixo valor nutricional. O Projeto de Lei (PL 3348/12), do deputado Rogério Carvalho (PT-SE), proíbe a venda de bebidas e alimentos que contenham, por exemplo, elevados teores de açúcar, de sal e de gordura.

Os estabelecimentos localizados em instituições públicas ou privadas de educação básica que descumprirem a determinação não serão licenciados nem terão seus alvarás renovados. A proposta altera a lei que trata da alimentação escolar (Lei 11.947/09).

clique aqui e leia a proposta na íntegra

O autor da proposta destaca que não existe legislação federal que defina que tipo de alimentos podem ser consumidos nas escolas. Para ele, é possível ampliar o alcance da lei em questão, que define como alimentação escolar “todo alimento oferecido no ambiente escolar, independentemente de sua origem, durante o período letivo”.

“É imprescindível investir em políticas de prevenção da obesidade, que abranjam a infância e adolescência, enfatizando a prática regular de exercícios físicos e a introdução e manutenção de bons hábitos alimentares, proibindo-se nas escolas a presença e o comércio de certos alimentos”, defende o parlamentar. A proposta, que tramita em caráter conclusivo, ainda será distribuída às comissões temáticas.

Sem autoridade

Por Marcus Tavares

No que se transformou a relação professor-aluno? Numa sociedade em que todas as informações estão no Google, em que o professor já não é mais o único detentor do conhecimento e em que crianças e jovens são incentivados a ser cada vez mais autônomos, parece que a figura do professor perdeu o espaço de autoridade. Espaço de reconhecimento de seu valor enquanto profissional/estudioso de uma área do conhecimento.

Não sou contrário à era do Google, ao compartilhamento das informações, e muito menos a dar vez e voz aos jovens, mas acredito que muitos professores foram sendo colocados num sem-lugar. Não só professores, mas os adultos de uma forma geral frente à juventude.

Se em casa assistimos a cenas de jovens que, cada vez mais, afrontam pais, determinam e impõem suas vontades sem nenhum respeito, o que podemos esperar da relação professor-aluno? Hoje a sala de aula tornou-se um espaço onde o docente tem grande dificuldade de exercer autoridade (por favor, não vamos confundir com autoritarismo). Exemplos práticos: os estudantes ignoram sua presença, não cumprem prazos na entrega dos trabalhos, querem impor sempre a sua vontade no ritmo e na condução da aula.

Não posso generalizar. Outros leitores dirão que os jovens sempre foram assim, testaram os limites do professor. Concordo. Mas não podemos negar que essa relação está mais complexa. Outro grupo culpará os professores por tal cenário. Afirmarão que o ‘mestre’ é que não sabe lidar com os adolescentes, que não tem pulso. Mas se a família muitas vezes não tem esse pulso firme, é a escola que vai conseguir?

Ela deve tentar. Mas alguns professores já jogaram a toalha. Desistiram da ideia de conquistar, construir uma relação com os estudantes. Relacionam-se com aqueles que ainda estão interessados na troca, no diálogo, na aprendizagem. Outros continuam na busca e vêm conseguindo lidar com a atual geração, mas vivem antenados para qualquer imprevisto que possa dificultar o relacionamento e colocá-lo por água abaixo.

Muitas vezes idolatramos a geração dos jovens, a primeira a poder criar, produzir e distribuir informação. Mas a primeira, talvez, que é criada sem ter nos adultos (pais e professores) referências e valores. Será que estou sendo muito radical?

Cara, cadê o meu foco?

Renata D’elia
Publicado em 21/05/2012 no Caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo

Sabe aquela mania de assistir à TV enquanto envia mensagens pelo celular, posta um vídeo nas redes sociais, folheia uma revista e prepara o iPod para tocar uma musiquinha no intervalo? Pois um estudo encomendado recentemente pela Time Warner mostrou que a geração dos “nativos digitais” – que nunca viveram em um mundo sem TV por assinatura, internet e telefonia móvel – troca de mídia 27 vezes por hora.

A pesquisa utilizou cintos biométricos e óculos com câmeras embutidas para captar as emoções e a atenção visual dos participantes.Os nativos digitais também preferem a troca de curtas mensagens instantâneas a longas conversas por telefone e não toleram conteúdos tediosos. Já é possível notar impactos nas questões sociais e educacionais e no mercado de trabalho.

Os nativos digitais alternam entre mídias (web, tablets, smartphones, iPod, TV, revistas etc.) em média 27 vezes fora do expediente de trabalho e estudo. Já entre os seus pais, a média de troca é de 17 vezes por hora.

Por passarem mais tempo conectados e usarem várias plataformas de mídia simultaneamente, os jovens têm níveis de resposta emocional mais estáveis.

54% dos nativos digitais preferem mandar mensagens de texto do que falar com as pessoas. Entre os imigrantes digitais, esse percentual cai para 28%.

Em casa, 65% dos nativos digitais levam seus aparelhos para onde vão -versus 41% dos imigrantes digitais com o mesmo hábito.

A indústria da publicidade, por exemplo, vai ter que encontrar maneiras de cativar a atenção dessa audiência cada vez mais fluída e menos concentrada.”É possível que as empresas priorizem cada vez mais seus funcionários jovens para desenvolver estratégias de marketing e mídia”, explica Urs Gasser, diretor-executivo do Berkman Center para Internet e Sociedade da Universidade Harvard, em entrevista ao “Folhateen”.

Segundo ele, vídeos e redes sociais são elementos- chave para compreender esse comportamento. “Criatividade e até mesmo compromisso cívico e político podem ser estimulados. Apesar dos perigos da baixa atenção concentrada e do vício em internet, a tendência multitarefa pode ser produtiva. O autodidatismo também está no DNA desse comportamento e dessa geração.”

Troca-troca

Esse é o caso de Olivia Mendonça, 20, que assiste à TV com o computador no colo e o celular no bolso.”Eu ando com carregador e não desligo meu laptop nunca. Uso SMS, aplicativos e o meu navegador tem sempre várias abas abertas sobre diversos assuntos.” Portadora do distúrbio de deficit de atenção (DDA), ela acredita que os múltiplos estímulos facilitam seu processo de aprendizagem. “Trabalho com vídeo, que já é uma linguagem muito dinâmica. Acabo pesquisando até nas horas vagas. Sou autodidata, assimilo rápido as referências de tudo o que vejo. Minha cabeça é um ‘brainstorm’.”

A defesa que Olivia faz dos seus hábitos vai ao encontro do que pensa a antropóloga Mimi Ito, da Universidade da Califórnia. Para ela, “hoje em dia é possível acessar uma ampla demanda de assuntos instantaneamente, de qualquer lugar, com os dispositivos móveis. Mesmo alternando entre eles, o jovem ainda aprende e sempre com base em interesses individuais. Trata-se de um conhecimento pertinente numa sociedade de demandas tão rápidas”.

Décio Fonseca Neto, 20, é outro do “clube dos conectados”. Estudante de publicidade, ele vive em simbiose com o tablet, o iPod e o smartphone. A alternância constante entre dispositivos móveis, sites e redes sociais não serve apenas para se comunicar com os amigos. “Os Tumblrs têm muita coisa criativa, e também gosto de compartilhar música e opinar sobre vários assuntos. Gosto de me sentir conectado às mudanças”, diz ele.

A geração de Décio e Olivia já nasceu ligada: essas mudanças vão acontecer cada vez mais rápido. E você? Em quantas coisas consegue se conectar ao mesmo tempo?

Adesivos de família

Por Romulo Orlandini
Do site ComCiência 
 
Um Brasil que segue mudando constantemente, onde o modelo tradicional de família encontra cada vez menos espaço. Este é retrato das famílias brasileiras revelado pelo Censo 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e lançado em novembro do ano passado. Os dados mostram que os casamentos civis e religiosos vão, aos poucos, dando lugar às uniões sem vínculos formais nem com a Igreja ou Estado. Em 2000, 49,4% da população estava casada. Dez anos depois o número caiu para 42,9%. Já as uniões consensuais saltaram de 28,6% para 36,4% e o número de divorciados quase dobrou.
 
A representação dessas mudanças pode ser vista em lugares distintos, como nas novelas, literatura moderna e, em um fenômeno recente, nos adesivos colados nos veículos. Em uma palestra apresentada no III Seminário Cenas da Enunciação, em dezembro de 2011, na Unesp de São José do Rio Preto, a professora Ana Raquel Motta de Souza – integrante do grupo Festa (Fórmulas e estereótipos: teoria e análise) e pós-doutoranda na PUC São Paulo – identificou a prática de colar adesivos como uma sensação de pertencimento, uma necessidade de mostrar que não está sozinho no mundo ou que, mesmo sozinho, vive bem desta maneira.

Segundo ela, cada vez mais os espaços público e privado estão se entrelaçando, gerando novas formas de discursividades – sendo os adesivos de família um exemplo disso. “Um aspecto importante é que há o estereótipo da família (da ‘família feliz’, como também vêm sendo chamados esses adesivos), que teria uma constituição pré-determinada (pai-mãe-filho(s)-cachorro) e também o estereótipo de cada um dentro dessa família (a mãe com sacola de compras, o pai com pasta de executivo, o filho com skate, a filha com laço no cabelo, entre outros)”, apontou.

Em um curto período de tempo, de acordo com Ana Raquel, os adesivos ganharam uma complexidade que está além dos estereótipos clássicos, como um homem levantando pesos ou com espeto de churrasco na mão. Foi o início do processo de customização. “Começaram a aparecer famílias com dois homens, duas mulheres, cinco gatos, sete filhos, uma mãe e uma filha, apenas uma pessoa e seus animais de estimação, dentre várias outras combinações que surgiram”, contou a pesquisadora.

Outro elemento do rompimento com a família tradicional acontece nos adesivos que contêm humor, utilizado para recriar estereótipos. “Toda recriação passa por uma dessacralização de algo que será modificado. Acredito que o humor tem um papel forte aí, nessa dessacralização da família tradicional como única possibilidade. Ao mesmo tempo, não acho que quem representa sua família como um casal de duas mulheres e cinco gatos esteja ‘brincando”’. Está (a)enunciando sua família para a sociedade”, disse Ana Raquel.

Ela explica que mesmo que o adesivo seja totalmente alusivo a imagens de humor e não represente fielmente o retratado, como zumbis, personagens do jogo Super Mario Bros ou da série Star Wars, ele está mostrando que o dono daquele carro pertence a um determinado grupo ou é adepto a uma prática social. “Como o adesivo dos automóveis funciona como ‘primeira impressão’ – assim como a roupa da pessoa ou uma tatuagem que ela tenha na pele, por exemplo – nesses casos os estereótipos sociais estão muito presentes nos efeitos de sentido entre interlocutores, pois os estereótipos ancoram nossa organização de mundo e de identidades”, explicou.

Privacidade 2.0

No dia 16 de maio, a professora Fernanda Bruno, do Departamento de Psicologia da UFRJ, vai participar do I Seminário do Núcleo de Estudos Interdisciplinares em Fenomenologia e Clínica de Situações Contemporâneas e interdisciplinares.  Fernanda participará da mesa A relação eu-outro no contemporâneo, a partir das 17 horas, no campus da Praia Vermelha.

Ao divulgar o evento em seu blog Dispositivos de Visibilidade e Subjetividade Contemporânea, a professora divulgou algumas reflexões sobre o tema em uma entrevista concedida, por e-mail, a professora Raquel Recuero, do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Pelotas. Questionada por Raquel sobre a exposição pública do que é privado, Fernanda Bruno fez os seguintes comentários. Confira:

A questão tem muitos caminhos de resposta, pois há inúmeros elementos envolvidos nesse fenômeno de publicização ou exposição da vida cotidiana, íntima, privada etc.Vou começar pela constatação mais evidente, já anunciada por diversos pesquisadores deste tema: as fronteiras entre o público e o privado estão em deslocamento. Mas o que não é tão evidente é que este deslocamento não é apenas no sentido de publicizar o que antes era resguardado no âmbito privado, mas no sentido de ressignificar esses domínios e, mais importante, pensá-los segundo uma outra topologia. Que topologia seria essa? Uma topologia que não delimita dois pólos (dentro/fora, aberto/fechado, exposto/secreto etc), mas que comporta múltiplas camadas, níveis, escalas. Ou seja: cada vez mais deixamos de pensar a separação público/privado de forma estanque para pensarmos em múltiplos níveis e modos de privacidade, assim como em múltiplos níveis e modos de publicização.

Neste sentido, as opções de controle da privacidade/publicidade que encontramos nas redes sociais é uma expressão desta topologia e desta experiência. Regulamos, modulamos a nossa privacidade cotidianamente e selecionamos o que e como desejamos expor (ou não expor) para públicos ou audiências diferentes. Claro que no limite isso sempre existiu (ou melhor, desde que nossa experiência vital, política, institucional e espacial passou a ser orientada segundo essa distinção público/privado), mas agora essa modulação é extremamente corriqueira e intensificada.

Essa é a primeira observação mais geral e importante para encaminhar a nossa conversa. Paralelamente e atrelada a essa mudança topológica (que é também uma transformação no modo como experimentamos nossa vida privada e pública), eu adiciono três elementos, para ser breve:

1º) Vivemos uma sobreposição de sentidos e valorações próprios à convivência de uma cultura da celebridade e do espetáculo (mais antiga, considerando nossa herança mais recente) com a cibercultura. A cultura da celebridade e do espetáculo nos legou um alto apreço pela visibilidade midiática, que, como sabemos, atestava reconhecimento social, afetivo, financeiro etc. Mas fazia parte dessa cultura e desse valor um certo princípio de escassez que de algum modo dizia “imaginariamente” que essa visibilidade midiática era para poucos, para um seleto grupo de eleitos. A cibercultura vem bagunçar esse regime de visibilidade e introduz outras formas, dispositivos, alcances para a visibilidade, agora supostamente “para todos”, mas não da mesma forma nem com o mesmo sentido e alcance. O interessante da cibercultura é que ela acolhe diferentes regimes de visibilidade, e nela há tanto a reprodução da visibilidade midiática tradicional e sua lógica da celebridade, quanto outras vias de visibilidade cujas ações coletivas, políticas, cognitivas, estéticas escapam dessa lógica e, muitas vezes, até se fundam no anonimato dos agentes ou atores em jogo. Mas no tipo de fenômeno que você apontou, vejo nele um “locus” onde a cultura da celebridade e a possibilidade de produção, emissão e distribuição de conteúdo pelo usuário comum se retroalimentam. Creio que muitos adolescentes usam as novas mídias segundo essa lógica, buscando uma visibilidade que ateste um pertencimento social e afetivo que mimetizam de algum modo a celebridade. E no âmbito das redes sociais e da cibercultura, parte dessa visibilidade e desse pertencimento se conquista pela exposição (maior ou menor, segundos os níveis e camadas de que falei) da privacidade e da intimidade. Ou seja, vemos aqui a exposição seletiva da intimidade como motor de sociabilidade. O que também vemos em talks shows e reality shows na mídia de massa (embora os níveis de seleção, reconhecimento e pertencimento variem). Concluindo esse ponto, um dos elementos presentes nos fenômenos de publicização que você apontou está relacionado a essa sobreposição da lógica da celebridade com a lógica da sociabilidade pautada pela publicização seletiva (modulada, editada) da intimidade.

2º) Um segundo elemento concerne à expectativa de exposição pública presente nas redes sociais (e outras plataformas digitais) ou em situações/ambientes que impliquem alguma forma de registro audiovisual (o que se tornou quase que onipresente com os nossos dispositivos móveis c/ câmera e áudio acoplados). Dentro dos padrões “convencionais” de um espaço que se entende público (praça, rua), as pessoas têm uma idéia relativamente clara e muito ancorada no contexto e na situação (no aqui e agora) do grau de exposição a que estão sujeitas – e modulam suas ações tendo em vista essa exposição. A expectativa de exposição é, neste caso, relativamente coerente com os limites daquele espaço. Nas redes sociais, essa expectativa de exposição é mais difícil de se estabelecer e muitas vezes não coincide com a exposição a que de fato se está sujeito. Os tais controles de privacidade nas redes sociais são de algum modo uma tentativa de “concretizar” essa expectativa (o problema é que eles nem sempre são muito evidentes nem simples de manejar, o que faz com que muitos não os usem, como mostram certas pesquisas). O mesmo acontece no caso das festas e situações sociais com inúmeros celulares presentes. Toco neste ponto por conta do caso da transmissão via twitcam de sexo entre adolescentes que mencionou. A expectativa de exposição da intimidade de alguns dos “atores” presentes parece não ter incluído este transbordamento para as mídias sociais, o que torna o caso muito cruel e grave do ponto de vista ético. Que adolescentes tenham prazer em serem filmados e testemunhados por amigos enquanto transam não significa que eles desejem ser vistos por milhares de pessoas, por seus pais, professores, uma cidade inteira etc. Aí o problema ético é o da exposição do outro.

3º) O último elemento toca neste prazer em ver e ser visto. Acho importante perceber que não há apenas um mimetismo da celebridade, mas há uma excitação e um erotismo nessa troca social apimentada por exposições moduladas da intimidade. Ver pitadas da intimidade do outro e ser visto em sua intimidade é hoje uma das “zonas erógenas”, para retomar um termo psicanalítico, da sociabilidade contemporânea. Não há nada de novo aí, mas agora isso se tornou mais visível e cotidiano e há ainda poucas pesquisas sobre o tema no âmbito das redes sociais. Mas, importante, é preciso não confundir esse desejo e essa excitação positivamente experimentada com um desejo de ser exposto a uma publicização que não se escolheu, o que é muito grave.

A TV deve ser educativa?

A televisão deve ser educativa? Se sim, o que seria então uma tevê educativa? Educação rima com entretenimento? Que tal ouvir a opinião de quem tem oportunidade de pensar e fazer a TV? Foi lançado recentemente um movimento para discutir coletivamente o que seria a televisão dos sonhos. O projeto, intitulado Sonhar TV (clique aqui e saiba mais), coletou depoimentos de alguns profissionais da TV no Brasil. Há uma série de questionamentos que eles tentam responder. Mas a revistapontocom reproduz, abaixo, as opiniões deles sobre a relação da televisão com a educação.

Vale a pena assistir.
E aproveita: use o espaço da revistapontocom para deixar seu comentário.

Acompanhe 

Arlindo Machado – Discorda da imposição de uma função pedagógica para a televisão, como transmissora da educação formal, mas afirma, no entanto, que os conteúdos televisivos em geral educam o espectador de alguma forma, das mais variadas maneiras e sobre os mais variados temas.

Danilo Gentili – Discorda que a TV deva ser educativa ou deva ser obrigada a ter qualquer característica exclusiva. Ressalta que o poder da TV reside em comunicar lugares muito distantes no planeta e limitar o espectro dessa comunicação seria patético.

Esther Hamburger – A televisão não deve ter como meta ser educativa, mas apresenta possibilidades onde a interatividade pode promover intercâmbios de experiências altamente educativos. 

Newton Cannito – Considerar a televisão apenas como uma ferramenta para melhorar a educação é reduzir o seu papel artístico. Ressalta que o problema educacional no Brasil é grave, mas a função artística da televisão é ser transgressora, às vezes até “não educativa”. 

Zico Goes – A relação entre o público e a emissora define sua necessidade de ser ou não educativa. No entanto, é importante que ela continue sempre promovendo entretenimento.

Consumo e criança: veja o documentário

O shopping Fashion Mall, um dos templos do consumo do Rio de Janeiro, vai sediar um debate no mínimo curioso. No dia 16, a Livraria Cultura Shoppping Fashion Mall vai exibir o documentário Criança, a alma do negócio. Dirigido por Estela Renner, o documentário mostra que a criança se tornou a alma do negócio para a publicidade.

“A indústria descobriu que é mais fácil convencer uma criança do que um adulto, então, as crianças são bombardeadas por propagandas que estimulam o consumo e que falam diretamente com elas. O resultado disso é devastador: crianças que, aos cinco anos, já vão à escola totalmente maquiadas e deixaram de brincar de correr por causa de seus saltos altos; que sabem as marcas de todos os celulares mas não sabem o que é uma minhoca; que reconhecem as marcas de todos os salgadinhos mas não sabem os nomes de frutas e legumes. Num jogo desigual e desumano, os anunciantes ficam com o lucro enquanto as crianças arcam com o prejuízo de sua infância encurtada”, destaca o site do Instituto Alana, um dos patrocinadores do evento.

A exibição do filme começa às 19h30. Às 20h30, haverá um debate com Luiz Eduardo Rodrigues de Carvalho, coordenador do Laboratório de Vida Urbana, Consumo e Saúde da UFRJ; Nádia Rebouças, publicitária e especialista em comunicação; e Regina de Assis, consultora em mídia e educação. O evento é gratuito. O Shopping Fashion Mall fica na Estrada da Gávea, 899, São Conrado.

Para quem ainda não viu o documentário, a revistapontocom traz, abaixo, a obra na íntegra.

Filmes sobre Globalização

Por Marcus Tavares

Os interessados em participar da segunda edição do Festival Globale Rio 2012 têm até o dia 1º de junho para inscrever seus vídeos. Por meio da exibição de filmes de ficção e documentário, o evento, que será realizado em agosto, no Rio, tem o objetivo de debater com o público temas relacionados aos processos de globalização. “É um festival sem fins lucrativos e não competitivo”, explica o idealizador Agustin Kammerath.

saiba mais sobre o evento, clicando aqui

A proposta nasceu em Berlim, em 2003, na Alemanha. Hoje, acontece em mais duas cidades alemãs, em Bogotá (Colômbia), Varsóvia (Polônia) e Montevidéu (Uruguai). Cada local possui sua coordenação que trabalha de forma independente, apenas mantendo os mesmos propósitos.

revistapontocom conversou, por e-mail, com Agustin. Ele contou mais detalhes do projeto, como os eixos que serão discutidos na edição deste ano. E destacou que a cidade do Rio, mais do que nunca, está inserida num complexo processo de globalização, em virtude, principalmente, dos grandes eventos que serão realizados na cidade.

Acompanhe:

revistapontocom – Como o evento chegou ao Rio?
Agustin Kammerath – A ideia de fazer o Globale no Rio de Janeiro surgiu no ano 2010, após alguns integrantes do atual coletivo carioca terem participado da edição Globale Montevideo, no Uruguai. Éramos dois realizadores independentes que havíamos inscrito o filme “Xingu: porque não queremos Belo Monte”, então selecionado para a edição uruguaia. Depois de termos participado dos debates durante a exibição do nosso vídeo e de outros, ficamos super bem impressionados com a proposta e a dinâmica auto-organizada do coletivo uruguaio. Quando fomos convidados a contribuir com a ampliação da rede Globale na América Latina, através da organização de uma edição no Rio de Janeiro, decidimos aceitar o desafio. Tão logo retornamos ao Brasil, preparamos uma convocatória aberta para constituição do coletivo carioca. Divulgamos essa convocatória amplamente e constituímos um coletivo bastante diverso, heterogêneo e horizontal. Através do esforço deste grupo foi organizada a primeira edição do Globale no Brasil, no ano passado. Este ano, o globale Rio terá sua segunda edição no Rio, em agosto.

revistapontocom – De que forma a proposta do evento vem atingindo o objetivo de promover uma reflexão sobre a globalização?
Agustin Kammerath – Entendemos que a globalização permitiu bons encontros, mas que ela não é vivida igualmente por todos. Nesse contexto, as populações tradicionais e os mais pobres têm sofrido injustiças, mas também têm encontrado novos meios de se articular e resistir. O festival Globale, em todas as suas sedes, procura mostrar filmes que apresentem visões críticas sobre a globalização. A proposta é fazer com que todas as sessões sejam seguidas de debate. Convidamos os realizadores dos filmes, mas procuramos sempre trazer outros convidados porque assim as questões se ampliam muito mais. Esses convidados geralmente são professores, pesquisadores e/ou representantes de movimentos sociais, mas temos a preocupação de garantir a participação do público porque a opinião dele é tão importante quanto a dos diretores e a dos especialistas. Ano passado teve um debate no Ponto Cine, em Guadalupe, para o qual convidamos o Marcio Dias, representando o Coletivo Heróis do Cotidiano que apresentou o filme “Salvem os Ricos”, e o professor Helion Povoa Neto (Núcleo Interdisciplinar de Estudos Migratórios – NIEM/IPPUR-UFRJ). Foi um debate muito bom porque, além deles, todas as pessoas presentes na plateia falaram abertamente. A diversidade de pontos de vista é tão importante para o Globale que começa na composição do próprio coletivo organizador como um grupo heterogêneo. A participação é aberta a qualquer um que esteja interessado.

revistapontocom – Que filmes foram exibidos no primeiro evento?
Agustin Kammerath – O mais importante na escolha dos filmes são as questões que eles levantam. Não somos um festival competitivo porque não queremos entrar na lógica da competição, até porque recebemos trabalhos de formatos muito diversos, desde produções de movimentos sociais até filmes profissionais de cineastas premiados. Não há como compará-los. Não colocamos restrições de duração e os filmes não precisam ser inéditos, precisam apenas trazer aspectos pertinentes aos processos de globalização a partir dos eixos temáticos que propomos. A qualidade técnica aqui fica em segundo plano. Realmente estamos mais preocupados com a mensagem e o processo de realização dos filmes, que muitas vezes são produzidos como uma ferramenta de expressão na luta por direitos básicos. É claro que para fazer uma exibição pública é preciso uma qualidade técnica mínima, mas tendo isso e propondo uma reflexão crítica, já é bacana. No ano passado, não tivemos que nos preocupar com isso, já que os movimentos sociais estão trabalhando com vídeo há bastante tempo. É surpreendente a beleza e a inventividade dos filmes com este perfil que têm aparecido. No Globale, não estamos interessados em discutir os filmes enquanto linguagem artística, embora a gente entenda a arte como uma das formas mais efetivas de intervenção no mundo. É por isso que, em 2011, propusemos o eixo “Terrorismo Poético” e em 2012 vamos continuar a refletir sobre o papel da arte com o eixo “Arte ativismo”.

revistapontocom – O que podemos esperar por esta segunda edição?
Agustin Kammerath – Atualmente o Rio de Janeiro está vivendo a globalização de uma maneira mais visível e perceptível. A cidade vai sediar, este ano, a Rio+20, e daqui a pouco outros eventos internacionais de grande porte. Está passando por transformações urbanísticas estruturais que têm consequências sociais e ambientais. Com isso, acreditamos que alguns debates que iniciamos na primeira edição do Globale Rio não se esgotaram. Portanto, reeditamos os eixos temáticos “Cidade global”; “Conflitos socioambientais” e “Mídia contra hegemônica”. Além do eixo “Arte Ativismo”, que é uma ampliação de um dos temas de 2011, acrescentamos o eixo “Identidades e desigualdades”, que é um debate fundamental para quem se interessa pela globalização, já que o contato com outras culturas tem complexificado a questão da identidade. Além disso, as minorias históricas enfrentam novos problemas de reconhecimento, pois, estamos diante de um cenário em que certos discursos de inclusão e do multiculturalismo ocultam desigualdades persistentes. Outro eixo novo é o “Grandes poderes” . Com ele, pretendemos discutir a articulação internacional do capital, que é o que acaba determinando grande parte das questões práticas do cotidiano da maioria das pessoas. Em 2012, também vamos oferecer oficinas, além das sessões com debates. É uma parceria com a BVAz Idiomas nos permitirá exibir mais filmes estrangeiros.

revistapontocom – Há alguma diferença entre o festival carioca e o das outras cidades?        
Agustin Kammerath – O festival Globale começou em Berlim (2003) como um festival de documentários. A partir daí outras sedes seguiram esta mesma linha. Quando formamos o coletivo do Rio de Janeiro, em 2010, discutimos sobre isso e chegamos à conclusão de que muitas vezes a ficção fala tão bem se não melhor sobre a realidade. Então, o Globale Rio tem o diferencial de receber filmes de todos os gêneros. A rede Globale tem uma identidade e a gente se ajuda trocando alguns filmes e informações sobre produção, mas cada coletivo organizador tem autonomia para fazer suas escolhas. As inscrições de filmes também são independentes em cada cidade.

Especial Dia das Mães

A sua revistapontocom preparou uma edição especial para comemorar o Dia das Mães deste ano.
Uma justa homenagem para todas as mães.
Clique nos links abaixo, leia, participe e compartilhe.



Guia dos Direitos da Gestante e do Bebê
Você sabe quais são os direitos da gestante? E do bebê que acaba de nascer? Não? Pois então, o Unicef lançou no ano passado um guia com todas as informações para as futuras mães. A cartilha foi disponibilizada em PDF. Clique aqui e confira.


Brasil: um bom país para ser mãe?

Entre os países pouco desenvolvidos, o Brasil ocupa a 12º posição no ranking dos melhores países para ser mãe. A lista é liderada por Cuba. Em seguida, Israel e depois Barbados. Em último lugar, aparece a Nigéria. Clique aqui e saiba mais sobre a pesquisa State of The World’s Mothers 2012, divulgada pela Save the Children.


Desenho animado com quem você se identifica?

Vilma, Betty ou Marge? Afinal, com que personagem mãe de desenho animado você se identifica? Para comemorar o Dia das Mães, a revistapontocom listou as mais famosas mães retratadas pelas animações. Clique aqui e confira.


Poema Mães
Na home page da revistapontocom não deixe de assistir ao vídeo Mães. O texto é de Danuza Leão. Narração de Fernanda Montenegro. Vale a pena. Clique aqui e veja.


Consumo e Dia das Mães

Está combinado: amanhã é Dia das Mães. Nem se quiséssemos esquecer a data conseguiríamos. Já há algumas semanas a mídia teima em nos lembrar, ininterruptamente, de homenageá-las. E no mundo capitalista ocidental, homenagem que se preze exige a compra de um belo presente. Bolso vazio não é problema. Descontos à vista, cartões de crédito, primeiro pagamento daqui a cem dias, compras a prazo. Vale tudo para agradar as mães. Afinal, como dizem os comerciais com o seu poder de sedução e persuasão: elas merecem. Clique aqui e leia o artigo na íntegra.

Desenho animado: com quem você se identifica?

Vilma, Betty ou Marge? Afinal, com que personagem mãe de desenho animado você se identifica? Para comemorar o Dia das Mães, a revistapontocom listou as mais famosas mães retratadas pelas animações. A lista é pequena. Surpreso? Pois é, a cada década que passa, as mães, que já não tinham tanto espaço assim, vêm perdendo ainda mais  importância nas histórias vividas pelos  personagens principais, hoje quase todos heróis-mirins.

Os super-heróis do passado, como Batman, Mulher Maravilha e Super Homem – deram lugar às meninas super poderosas, Bem 10 e Padrinhos Mágicos. A pesquisadora Raquel Salgado explica que os heróis mirins de hoje são e estão mais próximos da realidade. Para ela, a mescla de realidade com fantasia, tendo a criança como o eixo dos feitos heróicos, talvez seja o ingrediente especial que faz com que os desenhos animados atuais tenham uma estreita conexão com o imaginário infantil.

“Eles vão à escola, recebem bronca dos pais, ficam de castigo, desobedecem, reclamam por carinho e atenção, burlam as leis dos adultos, mas, ao mesmo tempo, são capazes de grandes feitos – impossíveis para os adultos -, como salvar a cidade de inimigos poderosos, criar maquinarias e aparatos eletrônicos que permitem comunicações interplanetárias, manipular com maestria os segredos do mundo virtual, viajar pelo mundo em busca de aventuras com seres estranhos sem a presença e o suporte dos adultos. Além disso, a autonomia e a independência que esses pequenos heróis apresentam em relação aos adultos despertam, e muito, o interesse das crianças”, pondera Raquel Salgado, em entrevista ao Centro Internacional de Referência em Mídias para Crianças e Adolescentes (Rio Mídia).

A falta de adultos nos desenhos animados pode ser um sintoma de uma sociedade na qual os pais cada
vez mais têm dificuldade de exercer autoridade sobre seus filhos, mais e mais autônomos e independentes. A figura hoje dos pais é, muitas vezes, secundária na educação dos filhos. Educação que acaba sendo exercida por outras instâncias, como a escola, e, particularmente, pelos conteúdos produzidos e divulgados pelos meios de comunicação. Uma reflexão que merece maior aprofundamento.

Por hoje, no Dia das Mães, vamos resgatar as figuras femininas mães que ganharam espaço. Conheça
o perfil de cada uma e reflita. Afinal, com que personagem mãe de desenho animado você se identifica?

 

 

 

 

Vilma Flintstones
É uma excelente dona de casa, adora preparar tudo para família, mas também não dispensa uma fofoca com a vizinha Betty. Alegre e divertida, Vilma exerce influência sobre o espírito exuberante de Fred e está sempre atenta para livrá-lo das confusões em que freqüentemente se envolve. É mãe da pequena Pedrita.

 

 

 

Betty Rubble
É a melhor amiga de Vilma Flintstones, e assim como a colega é uma excelente dona de casa, mas também uma grande feminista. Adotou o pequeno Bambam, que foi deixado na sua porta. O menino é conhecido por sua super-força, capaz de levantar um dinossauro.

 

 

 

 

Jane Jetson
Ela diz a idade. Tem 33 anos. É dona de casa, mas é obcecada por moda e engenhocas novas. Sua loja favorita é Mooning Dales. Ela também é uma esposa obediente que sempre tenta tornar a vida mais agradável possível para sua família. Fora de casa, ela é membro da Sociedade das Mulheres da Galáxia e fã de Leonardo de Vênus e Pia Picasso. Tem dois filhos: Judy Jetson e Elroy Jetson.

 


Marjorie “Marge” Bouvier Simpson
É a mãe de Lisa, Bart e Maggie Simpson. Ela é mais conhecida por causa de seus longos cabelos azuis e de sua personalidade muito paciente. Mesmo Homer aprontando inúmeras confusões, ela continua sendo uma esposa fiel e dedicada, assim como é para com os filhos.Com poucas exceções, Marge gasta a maior parte de seu tempo
como dona de casa, cuidando de Maggie, ajudando Lisa ou defendendo Bart da raiva de seu pai. Mas, ao longo dos episódios, sabe-se que Marge já foi viciada em caçaníqueis, foi presa injustamente e tornou
alcoólatra ao tentar acompanhar as bebedeiras do marido. Marge já abriu uma academia, foi policial em Sprinfield e também já foi professora substituta da sala de Bart. Depois de inúmeras encrencas e vexames, conseguiu se recuperar  Apesar da aparente imagem de esposa padrão americana, Marge se sente por vezes muito solitária e frustrada, principalmente porque ela tem dificuldades em fazer novas amizades e quando consegue alguma amiga, Homer põe tudo a perder com seu modo desajeitado de ser. Também já foi revelado em um episódio que ela tem verdadeira adoração pelo ex Beatle, Ringo Starr.

 

 

Judy Neutron
Cheia de bom senso, Judy se diverte com as palhaçadas de seu marido. Como uma típica mãe, ela sempre está preocupada com a arrumação de casa. Ela não tem muita tolerância com as peripécias que Jimmy faz no carpete da sala, mas está sempre cuidando de tudo. Aliás, Judy é a mecânica da família. E muito fácil encontrá-la   procurando coisas na garagem, olhando as tomadas queimadas enquanto cuida do seu filho.

Brasil: um bom país para ser mãe?

Entre os países do grupo pouco desenvolvido, o Brasil ocupa a 12º posição no ranking dos melhores países para ser mãe. A lista é liderada por Cuba. Em seguida, Israel e depois Barbados. Em último lugar, aparece a Nigéria. Os dados foram divulgados no dia 8 de maio pela organização Save The Children, nos EUA, que promoveu a pesquisa State of The World’s Mothers 2012. Para estabelecer o índice, a organização avaliou, a partir de números da Organização das Nações Unidas (ONU), fatores educativos, econômicos, de saúde e políticos, como a escolaridade e acesso ao trabalho das mães, a utilização de contraceptivos, a mortalidade infantil e a duração da licença de maternidade.

O levantamento divide 165 países em três grupos: desenvolvidos, pouco desenvolvidos e pouquíssimo desenvolvidos. Os 10 melhores países para ser mãe, no primeiro grupo, são a Noruega, Islândia, Suécia, Nova Zelândia, Dinamarca, Finlândia, Austrália, Bélgica, Irlanda e Holanda e Reino Unido, que partilha o décimo lugar.

Na Noruega, uma mulher estuda em média 18 anos, tem uma esperança média de vida de 82 anos, uma taxa de utilização de contraceptivos de 82% e uma taxa de mortalidade infantil (até aos cinco anos) de três em cada mil nascimentos. No Brasil: a mulher estuda em média 14 anos, tem um esperança média de vida de 77 anos, uma taxa de utilização de contraceptivos de 77% e uma taxa de mortalidade infantil (até aos cinco anos) de dezenove em cada mil nascimentos.

No comunicado à imprensa que acompanha o relatório, a Save The Children apela aos líderes dos países mais ricos, que se reúnem dentro de duas semanas na Cimeira do G8, nos EUA, para que tomem decisões sobre políticas e programas que permitam combater a subnutrição e, dessa forma, garantir a sobrevivência de mães e bebês.

A organização cita estudos científicos segundo os quais medidas de apoio à amamentação podem salvar um milhão de crianças por ano e frisa que, nos países em desenvolvimento, especialmente naqueles sem acesso a água potável, a amamentação pode ser a diferença entre viver ou morrer.

Clique aqui e confira, na íntegra, o relatório State of The World’s Mothers 2012 (em inglês)

Guia dos Direitos da Gestante e do Bebê

Boa notícia: no Brasil, a taxa de mortalidade de crianças menores de 1 ano caiu muito nas últimas décadas. Diminuiu de 47,1 a cada mil nascidos vivos em 1990 para 19 a cada mil nascidos vivos em 2008,
o que representa uma redução de 60%. No entanto, a meta de garantir o direito à sobrevivência e à saúde a toda mãe e a toda criança brasileira ainda não foi alcançada. Nas regiões mais pobres, nas populações indígenas, quilombolas, ribeirinhas e em assentamentos, a mortalidade materna e de crianças com menos de 1 ano é mais alta.

Estas e outras informações encontram-se no Guia dos Direitos da Gestante e do Bebê, publicação elaborada pelo Unicef, Ministério da Saúde e Editora O Gobo, lançada no ano passado. O objetivo é socializar informações úteis sobre os direitos das gestantes e dos bebês. No material, é possível encontrar, inclusive, orientações de como fazer valer seus direitos, como o pré-natal e o parto humanizado.

Clique aqui e acesse o PDF da publicação

Dia das mães e o consumo

Por Marcus Tavares

Está combinado: este domingo é Dia das Mães. Nem se quiséssemos esquecer a data conseguiríamos. Já há algumas semanas a mídia teima em nos lembrar, ininterruptamente, de homenageá-las. E no mundo capitalista ocidental, homenagem que se preze exige a compra de um belo presente. Bolso vazio não é problema. Descontos à vista, cartões de crédito, primeiro pagamento daqui a cem dias, compras a prazo. Vale tudo para agradar as mães. Afinal, como dizem os comerciais com o seu poder de sedução e persuasão: elas merecem. Todo ano a história se repete.

Na verdade, dizer às atuais gerações de filhos – e às de mães também – que a data perdeu sua pureza e sentido e se transformou num grande negócio de vendas é ir contra a sociedade em que vivemos. Quem arrisca assumir uma atitude contrária corre sério risco de ser rotulado de chato, alienado ou até mesmo de pão-duro. Ou você acha que a sua própria mãe não está esperando um presente, por simples que seja, neste domingo?

Em nossa sociedade, presentear as pessoas – mães, pais, filhos, tios ou avós – em qualquer data festiva faz parte da cultura, da vida cotidiana, da identidade de nosso povo. Não estou querendo advogar a favor do consumo, mas apenas contextualizar e relativizar nossas atitudes no tempo e no espaço.

Neste sentido, o Dia das Mães assume, a cada ano que passa, mais e mais uma conotação mercadológica. A homenagem se traduz na compra de um presente e ponto final. A mãe é homenageada e o filho cumpre com o seu papel, com a sua posição de sujeito na sociedade de consumo. Posições com as quais ele é convidado ou induzido, pelos meios de comunicação, a identificar-se.

Como bem aponta Douglas Kellner, professor de Filosofia da Universidade do Texas, no livro “A Cultura da Mídia”, trata-se de posições de papéis, de aparências e de imagens fixadas pelos modelos e discursos, enfim pela linguagem da mídia. Posições que trazem consigo valores, estereótipos e modos de vida, criados a partir de um olhar e de um entendimento de mundo.

Afinal, não podemos esquecer que a cultura apresentada pelos meios de comunicação é produzida com uma intenção, com um objetivo. Não estamos diante de uma cultura diversa, heterogênea ou multicultural, mas, sim, de uma cultura particular e mercantil. Os conteúdos veiculados pela mídia são cuidadosamente editados a partir de interesses mercadológicos e ideológicos. Como afirma a reconhecida escritora Ana Maria Machado, a mídia busca a homogeneidade e tende à hegemonia e ao monopólio. “Grandes números, gosto médio e consumo uniformizado que permite a economia de grande escala e o barateamento de custos”, destaca a autora.

Assim é o Dia das Mães. Mesmo tendo absoluta certeza de que nossas mães são únicas, possuem uma história própria e têm características e gostos particulares, todas ou quase todas são presenteadas da mesma forma. Presentes iguais, marcas idênticas. Estudiosos do assunto explicam que isso acontece com freqüência pelo fato de que os comerciais, na prática, não vendem mais o produto anunciado, mas, sim, valores, sentimentos e emoções que a ele estão agregados.

O professor Evandro Vieira Ouriques, coordenador do Núcleo de Estudos Transdisciplinares de Comunicação e Consciência (Netccon), da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica: “O que gostaríamos de ter nas relações em casa e na sociedade está agregado aos produtos e serviços vendidos pela propaganda”. E, portanto, comprados por nós, consumidores.

Estudar o consumo sob este viés é um prato cheio para pesquisadores. No livro “Sociedade de Consumo”, a professora Lívia Barbosa, da Universidade Federal Fluminense (UFF), destaca que o consumo está preenchendo uma função muito além daquela de satisfazer as necessidades materiais. Segundo ela, o consumo adquiriu uma dimensão e um espaço que nos permite discutir, por meio dele, questões sobre nossa própria realidade.

Parafraseando a autora, será o consumo o grande estágio da liberdade de escolha? Ou estamos diante da etapa máxima de manipulação e indução das pessoas? Terá o consumidor efetivamente escolha? Será o consumidor súdito ou rei, ativo ou passivo, criativo ou bem orientado e adestrado?

Boas reflexões. E para quem ainda não resolveu o que dar de presente, boas compras também. Espero que a sua mãe realmente fique feliz com o presente que vai ganhar de você. Surpreenda!

O mito na sala de jantar

 

Por Marcus Tavares

Quem pesquisa a relação entre televisão e escola certamente conhece o livro O Mito na Sala de Jantar, fruto da dissertação mestrado da professora e pesquisadora Rosa Maria Bueno Fischer, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A obra – uma das primeiras que, no Brasil, inaugurou o estudo da recepção da tevê junto aos estudantes – está completando 30 anos. De lá para cá, a autora não parou mais de estudar nem de publicar suas pesquisas, sempre buscando compreender os impactos do audiovisual na subjetividade e no dia a dia de crianças, jovens e adultos.

Nas duas últimas décadas, Fischer também se especializou no estudo do pensamento do filósofo francês Michel Foucault. Não é à toa que ela está lançando agora um novo livro: Trabalhar com Foucault – Arqueologia de uma paixão (Editora Autêntica). “Nele trato de conceitos de Michel Foucault e, na segunda parte, de como fazer análises da TV e do cinema com base na teoria do discurso e do poder em Foucault. Mas penso que O Mito na Sala de Jantar não foi abandonado. Muitas pessoas continuam comprando o livro e me pedindo para falar da pesquisa que está nele. Isso é muito bom”, destaca.

Foi exatamente por essa razão, que a revistapontocom entrou em contato com a professora. Objetivo: resgatar a história do Mito na Sala de Jantar e comparar o contexto da relação da TV com a educação daquela época com a interface dos dias de hoje. Resultado: uma entrevista informativa e com alguns dados históricos para quem gosta e estuda a relação entre o eletrodoméstico mais bem sucedido do mundo e a constituição de conhecimentos e valores de crianças e adolescentes.

Acompanhe:

revistapontocom – Pode-se dizer que O Mito na Sala de Jantar foi um dos primeiros livros que trouxe o debate da televisão para o dia a dia do meio acadêmico da Educação?
Rosa Maria Bueno Fischer – Talvez se possa dizer que esse livro tenha sido um dos primeiros, não exatamente a tratar da relação da TV com a formação dos públicos infantil e juvenil, a realizar um “estudo de recepção” (metodologia desenvolvida particularmente por teóricos latino-americanos como Jésus Martín-Barbero e Guilermo Orozco). E, sim, é preciso salientar, foi um dos primeiros a fazer um levantamento, de recepção, em escolas públicas do Rio de Janeiro. Ou seja, começávamos, há 30 anos, efetivamente a escutar crianças e adolescentes sobre sua relação com um meio de comunicação que já se anunciava forte e presente na vida das famílias de todas as camadas sociais, em vários lugares do mundo. Claro, já havia nos anos 1970, especialmente nos Estados Unidos, vários estudos que apontavam os possíveis prejuízos à educação das crianças, em virtude de um tempo muito longo de exposição à televisão. Psicólogos, psiquiatras, educadores anunciavam uma nova “droga”: a TV! É o caso da estudiosa Marie Winn, que escreveu, em 1977, o livro The plug-in drug: TV, children and the family. Minha perspectiva era outra, bem diferente dessa, como escrevo no livro.

revistapontocom – A senhora acha que o livro, fruto de sua dissertação, abriu caminhos para o estudo do tema?
Rosa Maria Bueno Fischer – Modestamente, acho que sim, mas isso não é mérito apenas do meu trabalho. Dispor-se a observar, escutar, dialogar com crianças em escolas sobre a televisão em suas vidas era bem raro nos primeiros estudos acadêmicos relacionados aos laços entre Educação e Comunicação. Lembro que na mesma época (ou um pouco depois) em que eu pesquisava para minha dissertação, o jornalista Carlos Eduardo Lins e Silva começava sua investigação com operários sobre a audiência do Jornal Nacional, usando uma metodologia de caráter antropológico, que previa assistir junto com aqueles sujeitos a um noticiário televisivo. Analisar “mensagens” da TV, representações e ideologias dos meios era mais comum e, volta e meia, aparecia não só em estudos acadêmicos como em textos críticos de jornalistas. Existem estudos clássicos sobre TV, como o de Sérgio Miceli, publicado em 1972, no qual analisava detalhadamente o programa da apresentadora Hebe Camargo, numa perspectiva sociológica. Mas o foco não era, seguramente, a questão educacional nem a escuta dos sujeitos-espectadores. O fato é que também essa tendência – de análise do meio e de seus produtos – começava a ganhar força na área educacional. É só lembrarmos dos estudos realizados por pesquisadores da área da educação, como Maria Felismina Fusari e Elza Pacheco, ambas de São Paulo, analisando as relações entre o educador e os desenhos animados que as crianças viam na TV. Ou os estudos diretamente relacionados à formação do telespectador, como os de Maria Luíza Belloni. Hoje temos acumulado um conjunto de pesquisas que colocam o espectador no centro, seja ele o jovem, a criança, o próprio professor, sejam diferentes grupos de distintas condições sociais e culturais.

revistapontocom – Professora, em que contexto a sua dissertação foi escrita? Qual era o objetivo do trabalho? O que ele trazia de novidade naquela época?
Rosa Maria Bueno Fischer – Esse é um aspecto bem interessante. Eu estava realizando meu mestrado no IESAE – Instituto de Estudos Avançados em Educação, da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, no final dos anos 1970. Um tempo difícil, de lutas políticas sérias no país, sob o regime militar. A televisão, particularmente a TV Globo, alinhava-se com os militares e atingia um momento de altíssimo prestígio e de capacitação técnica. Eu tinha aulas com o antropólogo Roberto DaMatta, com a filósofa Zilah Xavier de Almeida Borges (minha orientadora) e me interessava cada vez mais pelo tema das narrativas ficcionais, das histórias de vida, perguntando-me como certas verdades iam se constituindo como verdades para as pessoas, como se construía “a realidade” para os sujeitos. Afinal, perguntava-me, será que também o tempo de exposição à TV teria algo a ver com isso? E de que modo aquelas narrativas televisivas contribuíam para todo esse processo de construção de si mesmo? Bem, nessa mesma época (1979) comecei a trabalhar na TV Educativa do Rio de Janeiro (então chamada de Fundação Roquette-Pinto), coordenando uma pesquisa sobre televisão e criança, encomendada pela gerente da área infanto-juvenil da TV Educativa, Maria Helena Kühner. Esse trabalho foi feito com o jornalista e professor Dermeval Netto. Os dados levantados para a TV Educativa, que desejava planejar sua nova programação, com base em pesquisa com crianças e adolescentes, acabou se mostrando para mim como muito rico e merecedor de uma análise mais detalhada. Isso coincidiu com o momento de eu definir meu objeto de pesquisa no mestrado. A novidade (e o risco, posso dizer) consistia em suspender a ideia de que a TV era perigosa, funcionava como “droga” ou que existia principalmente para manipular as pessoas. Mais do que isso: a novidade estava em levantar a hipótese da TV como “contadora eletrônica” de histórias, como lugar em que circulavam certos mitos, os quais serviam exatamente para interpelar as pessoas, chamá-las. Por exemplo: o mito da origem, presente nas telenovelas (e em tantas outras narrativas ficcionais), e que vemos até hoje na TV. Trinta anos atrás eu escrevia que a pergunta “quem sou eu?”, “de onde vim?”, “quem é meu pai, quem é minha mãe?” – ingrediente sem o qual não se escreve uma telenovela, entre tantos outros – hoje, em 2012, também está presente em programas de alta audiência, como o Fantástico, em que filhos procuram pais, encontram-se e desencontram-se. Mais do que isso: a novidade estava, como disse anteriormente, no trabalho da escuta, particularmente a escuta de crianças e adolescentes de camadas populares.

revistapontocom – Trinta anos depois, O Mito na Sala de Jantar ainda é o mesmo? Mudou alguma coisa? O quê?
Rosa Maria Bueno Fischer – Bem, os tempos mudaram e muito. Em primeiro lugar, vivemos um regime democrático. O sentimento persecutório, em termos políticos e culturais (das autoridades governamentais e das grandes redes de TV), ganhou novos contornos e, certamente, não existe como naquele tempo. Há várias conquistas, seja por parte dos movimentos sociais mais diferentes (relacionados a raças, etnias, opções de orientação sexual, geracionais, profissionais etc), seja por parte dos que lutam pela liberdade de expressão, ocorridas nessas três décadas. A própria posição do Brasil no cenário internacional tem outra configuração, que nos favorece politicamente – embora os tantos problemas que ainda tenhamos a enfrentar, especialmente em termos de saúde e educação. Mas, ao reler meu pequeno (e primeiro) livro, observo que as escolhas das crianças, quanto aos programas de maior receptividade entre elas, ainda hoje têm relação com o que venho chamando de “amor à narrativa” – e aos respectivos mitos, por exemplo, do amor romântico, da curiosidade sobre a própria origem, sobre a magia das histórias fantásticas (sejam as dita “reais”, sejam as propriamente ficcionais). Mas a mudança principal pode-se dizer que se concentra em dois aspectos diretamente relacionados entre si: de um lado, a ampliação do acesso à informação, pelas diferentes tecnologias digitais; de outro, a estupenda abertura de espaços em que proliferam não só narrativas ficcionais ou meramente informativas, mas especialmente narrativas mínimas, curtas, sincopadas, em que o “eu” é o personagem principal. Redes sociais multiplicam as narrativas de si mesmo. Considerando a chamada convergência das mídias, observa-se que as histórias voltadas “para o próprio umbigo” são uma tônica do nosso tempo: estão nos perfis, textos, fotos e vídeos postados no Facebook e estão nos programas de TV, particularmente nos reality shows. Eu diria que abre-se um espaço bem interessante para analisarmos as novas configurações do mito de Narciso.

revistapontocom – Qual era o ‘olhar’ que a educação, a academia, os intelectuais, da época do lançamento do livro, tinham para a televisão?
Rosa Maria Bueno Fischer – Como respondi acima, naquela época o forte era fazer uma análise severa da TV e mostrar, apocalipticamente, o quanto estávamos sendo manipulados por ela. Essa ideia de uma “influência” vertical da TV sobre os “pobres mortais” era bem acentuada. Claro, estou exagerando, pois temos vários estudos extremamente ricos e sérios, como os de Muniz Sodré (que, aliás, estava na minha banca de mestrado), autor, nos anos 1970, de dois livros bem importantes: A comunicação do grotesco. Introdução à cultura de massa brasilei¬ra; e O monopólio da fala. Função e linguagem da televisão no Brasil. Essa crítica precisava ser feita, era necessária, e se fazia competentemente por estudiosos como Sodré. Ao mesmo tempo, tínhamos o estudo de Sérgio Miceli, que ampliava essa perspectiva crítica, indo aos detalhes de como se construída um programa como o da Hebe Camargo, o que diziam os espectadores nas suas cartas à emissora e à apresentadora, o que dizia a própria Hebe. Umberto Eco, Pierre Bourdieu e Edgar Morin também nos ajudavam a pensar o que, afinal, constituía o “espírito do tempo”, naqueles idos de 1960-1970, no cinema e principalmente na televisão. Lembro que, ao terminar minha pesquisa e ao lançar o livro, imediatamente fui convidada para fazer palestras não só no meio acadêmico, mas também em empresas de televisão (no SBT) e em agências de publicidade. Em todos esses lugares, os profissionais manifestavam um interesse (cada um a seu modo) em pensar a TV para além de análises demolidoras, que viam nos programas uma fonte de todo o mal.

revistapontocom – Hoje então o “olhar” da educação, da academia, dos intelectuais para a televisão é outro?
Rosa Maria Bueno Fischer – Hoje, especialmente com a emergência dos Estudos Culturais dentro dos programas de pós-graduação em educação, a TV passou a ser um objeto de estudo do maior interesse. Peças publicitárias e programas de TV são analisados nessa perspectiva ou em outras, como a da Análise do Discurso. Há vários grupos de pesquisa, no Rio de Janeiro (UERJ e PUC-Rio), em Santa Catarina (UFSC) e aqui no Rio Grande do Sul (UFRGS), em que se reúnem pesquisadores genuinamente interessados em estudar a TV e as demais mídias (com ênfase também no cinema), não só investigando a linguagem desses meios, mas criando novas estratégias metodológicas de escuta de espectadores mais jovens. Isso é muito promissor e me sinto feliz de continuar incentivando estudantes a inventarem diferentes modos de “estar com” as pessoas e produzir com elas relatos e elaborações, a partir do que veem nas telas do cinema, da TV (e do computador).

revistapontocom – Há 30 anos, qual era o papel da TV brasileira? E hoje, como a senhora avalia a função da televisão?
Rosa Maria Bueno Fischer – Bem, acho que o papel da TV hoje e há 30 anos continua sendo o de “contadora de histórias”. Nós não vivemos sem histórias, sejam elas narradas por nossos pais, junto à nossa cama, quando crianças, seja no isolamento de um quarto ou de uma sala, seja num quarto de hospital. Esse é o aspecto principal: ver, ouvir, contar histórias. Distrair-se, informar-se, descansar do trabalho, aprender as coisas mais prosaicas, abrir janelas para o mundo. Mas não é só isso. A TV brasileira, como nos ensina Eugênio Bucci, conta a história de um país, e conta a seu modo; desenha para nós o que somos, e muitas vezes o que “deveríamos” ser, em termos políticos, sociais, humanos. Por mais que as grandes redes de TV se afirmem neutras ou sem uma posição política (partidária), a verdade é que estão nos orientando sobre modos de ser e estar neste mundo. Tenho observado que, mais recentemente, algumas telenovelas têm exagerado no que se refere a cultivar o sentimento da vingança, afirmando, como no caso da personagem principal da novela “Avenida Brasil”, da Rede Globo, que mais importante que o sentimento amoroso é a realização da vingança. Ou seja, o mito do amor romântico – que o psicanalista Jurandir Freire Costa diz ser um amor com data de validade, já que é fadado em geral a durar pouco tempo –, ainda vigente em nossos dias, reveste-se de novos valores, bastante discutíveis, como o da vingança a qualquer preço. O que é muito próxima, inclusive, da amoralidade da chamada “justiça pelas próprias mãos”. De qualquer forma, vejo que hoje a TV está mais sujeita a ser questionada, já que outras redes instantâneas de informação circulam no social: uma cena na TV, por exemplo, quando merecedora de discussão, imediatamente é colocada na internet, pela facilidade com que pode ser gravada e retransmitida. Ao mesmo tempo, essa facilidade de circulação de imagens e textos também corresponde a um excesso de coisas a ver e sobre as quais opinar. Ou seja, vivemos um tempo em que está sendo necessário, cada vez mais, fazer novos aprendizados, no caso, em relação à TV e a tantas imagens que nos chegam e a que temos acesso. Esses aprendizados, a meu ver, estão relacionados a uma ampliação de repertórios, e a um cuidadoso trabalho nas escolas, no sentido de haver maior discernimento nas nossas escolhas. E isso pode começar com pesquisas, por pequenas que sejam, como essa que realizei há exatos 30 anos. Momentos de conversa, de escuta, de encontro efetivo com crianças e jovens. Eles têm muito a dizer e quase sempre nos surpreendem, simplesmente pelo fato de terem sido genuinamente escutados.

revistapontocom – A senhora acaba de lançar mais um livro. E a questão da televisão continua presente.  Trata-se do livro Trabalhar com Foucault – Arqueologia de uma Paixão (Editora Autêntica), onde a senhora propõe analisar a TV e o cinema a partir do discurso e do poder em Foucault. Em que medida esta análise pode favorecer o entendimento da mídia audiovisual?
Rosa Maria Bueno Fischer – Reuni neste novo livro, de 2012, estudos que venho fazendo há bastante tempo – desde a elaboração de minha tese de doutorado, que tratou de produtos da mídia endereçados a adolescentes e jovens (Adolescência em discurso: mídia e produção de subjetividade), com base nesse pensador genial que é Michel Foucault. Dentre tantos aprendizados que fiz com esse autor, um deles, especificamente relacionado aos estudos de TV e cinema, no âmbito da educação, é o de que produtos como os televisivos, por exemplo, dizem respeito a práticas (discursivas e não discursivas) de uma época, e como tal precisam ser analisados. Em outras palavras, há saberes que circulam em uma dada época – como o de que devemos nos confessar publicamente, por exemplo, e que isso tem um valor de verdade; ora, esses saberes estão nos discursos e estão nas práticas institucionais, das mais diferentes formas; exercem poder sobre nós, e muitas vezes nós resistimos a eles. Como isso ocorre, no caso da TV e do cinema? Que verdades circulam nesses meios? Como elas se tornam verdades também para nós? Como elas interpelam os sujeitos, como elas produzem coisas belas em nós ou como elas caminham no inverso das práticas de solidariedade e de justiça social? Foucault nos ensina que é preciso ir aos mínimos detalhes dos documentos (os próprios programas de TV, os filmes, a linguagem específica desses materiais, além dos depoimentos de crianças, professores, jovens, sobre essas mesmas produções). Foucault nos diz que devemos operar com esses documentos, transformando-os em verdadeiros monumentos. Isso permite nos defrontarmos com coisas ditas e coisas feitas, fatos por vezes surpreendentes, por vezes aparentemente inócuos, mas sempre questionados naquilo que até então tinham de óbvios, para serem mostrados como históricos, enraizados no seu tempo, como acontecimentos nem sempre lineares) às vezes como algo completamente inesperado). Lembro aqui o capítulo seis desse livro, “Técnicas de si na TV: a mídia se faz pedagógica”, só para citar um exemplo, cheguei a imaginar uma sugestão teórica e metodológica para investigações sobre o que chamei, com base em Foucault, de “dispositivo pedagógico da mídia”. O texto apresenta em detalhes o modo como se foi construindo uma pesquisa, relacionando os campos da comunicação, da pedagogia e da filosofia da cultura. Defendo ali a hipótese de que a mídia é também um locus de educação, de formação, de condução da vida das pessoas. E isso tem importantes repercussões nas práticas escolares, na medida em que crianças e jovens de todas as camadas sociais aprendem modos de ser e estar no mundo também nesse espaço da cultura. Proponho que continuemos a perguntar como se produzem e como entram em circulação não só técnicas de transformar a si mesmos, mas todo um conjunto de textos relacionados com a constituição de “discursos de verdade” sobre as complexas relações entre sujeito e verdade. Quanto ao cinema, tenho usado bastante Foucault, para pensar principalmente como é possível, de um lado, estudar a linguagem dos filmes, mostrando que não há uma correspondência direta entre imagens e palavras, e que a imagem (cinematográfica, no caso) só existe mesmo porque é vista, como está “em relação com” alguém, aquele que vê, aquele que entra em diálogo com ela. De outro, tenho usado a discussão de “hermenêutica do sujeito” em Foucault, para pensar na formação ética e estética de estudantes de Pedagogia (e de docentes, além de jovens e crianças), a partir de uma relação mais íntima com obras do cinema.

revistapontocom – A senhora poderia explicar para os leitores, de forma resumida, o que seria a teoria do discurso e do poder em Foucault?
Rosa Maria Bueno Fischer – Para Foucault, onde há poder há resistência. E só se exerce poder sobre homens livres. As relações de poder precisam ser vistas também na sua condição de horizontalidade – no sentido de que sempre há a possibilidade de uma certa reversibilidade, e nas mínimas relações, não só do Estado em relação aos cidadãos. Ele prefere falar não simplesmente em poder, mas em relações de poder, porque sempre haverá mais força de um lado e, ao mesmo tempo, sempre haverá uma certa forma de liberdade, mesmo nas condições mais adversas de desequilíbrio entre as duas partes. Isso porque o poder é móvel, desloca-se e podem ser criadas e vividas “linhas de fuga” ao instituído. Mas o fato é que sempre estamos imersos em relações de poder. Quanto ao discurso em Foucault, podemos dizer, sinteticamente, que para esse autor discurso é sempre uma prática. Ou seja, os discursos não só nomeiam ou representam a realidade: eles também criam, constituem determinados modos de pensar e ver o mundo, nos mais diferentes campos. Nós podemos falar em “discurso pedagógico” e levantar, por exemplo, quais os principais enunciados que circulam nas práticas institucionais das escolas. Veremos que esse discurso varia, historicamente, mas que ele constitui modos de ser professor, de ser aluno, de aprender, e assim por diante. O importante é que não há em Foucault uma separação (e nem uma identidade) entre “dizer” e “fazer”: o que fazemos tem a ver com saberes, com discursos que assumimos como verdade para nós (ou que questionamos, igualmente); da mesma forma, o que dizemos está mergulhado em saberes que circulam no social, aprendidos historicamente. Tudo é prática. Os programas de TV são, de algum modo, também formas práticas de alguns discursos se transformarem em imagens e textos, e fazerem circular saberes de uma época. Tudo tem uma mobilidade, e principalmente a possibilidade de abertura, de questionamento, de estudo. Sobretudo, de criação.

Pais, filhos e internet

Por Marco Aurélio Canônico
Publicado na Folha de S. Paulo

Atordoados com um desenvolvimento tecnológico que não conseguem acompanhar na mesma velocidade que seus filhos, os pais vêm se abstendo de prepará-los para o universo digital, deixando-os expostos a riscos. O diagnóstico é de Michael Rich, 58, professor do Centro de Mídia e Saúde Infantil da Universidade Harvard e um dos maiores especialistas americanos nas interações de crianças com mídias diversas.

Ele veio ao Rio, em abril passado, para fazer uma palestra no 1º Encontro Internacional sobre o Uso de Tecnologias da Informação por Crianças e Adolescentes, organizado pela Universidade do Rio de Janeiro (Uerj). “Os pais precisam engolir seu orgulho e se tornar aprendizes dos filhos na parte técnica, para que possam ser seus professores na parte humana”, disse Rich à Folha.

Pai de quatro filhos (os mais novos têm cinco e sete anos), Rich tem um site (cmch.typepad.com/mediatrician) no qual tira dúvidas dos pais. Em entrevista à Folha de S.Paulo, ele falou sobre como busca introduzir dados científicos em uma discussão que ainda é guiada por valores morais.

Folha – As crianças estão sendo apresentadas à tecnologia cada vez mais cedo. Isso é ruim?
Michael Rich – Não, mas também não é bom. O problema é que os pais dão essas ferramentas para as crianças não porque elas precisem ou saibam usar, mas por causa da pressão social e das próprias crianças. Os filhos dizem “eu quero um iPhone porque todos os meus amigos têm um”. Assim como você pensa em quando deve mostrar para uma criança o que é uma serra elétrica, deveria considerar quando e como vai apresentar a televisão, a internet, os celulares.

Folha – Há uma idade certa para as crianças serem apresentadas às mídias?
Michael Rich – Varia de acordo com cada mídia e cada criança. Escolhemos ferramentas diferentes dependendo da idade, do estágio de desenvolvimento e das necessidades. Temos pesquisas que mostram que, antes dos 30 meses, crianças não aprendem muito por meio de telas. Conseguem assistir e imitar o que veem, mas não identificam aquilo como uma representação de uma realidade tridimensional. O melhor software para as crianças está entre as orelhas delas: é o que se coloca na cabeça delas em termos do que elas são como pessoas e como cidadãos.

Folha – O sr. diria que os pais em geral têm noção dos riscos que a exposição das crianças à tecnologia pode trazer?
Michael Rich – De modo algum. Eles não têm a menor ideia, muitas vezes porque não querem saber. Eles sentem que as crianças sabem muito mais do que eles, porque são nativos digitais, enquanto os pais são imigrantes digitais, acabaram de chegar, não falam a língua, não entendem o lugar. Os pais estão acostumados a ser os experts da família e sabem que, nesse ambiente, não o são, então decidem não comprar essa briga, apenas dão o laptop, o celular e pensam “desde que eles estejam no quarto, não vão se meter em problemas”, o que é um erro.

Folha – Como eles podem se envolver na vida digital de seus filhos e até que ponto devem fazê-lo?
Michael Rich – Os pais precisam se envolver com a vida digital de seus filhos tanto quanto se envolvem com a vida fora da rede. Um pai não deixaria o filho ir a uma festa em uma casa na qual não sabe se vai haver bebida, drogas, armas. Do mesmo modo, não deveria deixar o filho desacompanhado na internet. Como os pais não se sentem confortáveis na internet como seus filhos, os egos atrapalham. Eles precisam se permitir ser os aprendizes. Precisam sentar e jogar videogame com eles, aprender a parte técnica e, aproveitando essa posição de vulnerabilidade, discutir outros temas.

Folha – Mas como lidar com o fato de que os jovens sabem esconder dos pais o que fazem na internet?
Michael Rich – A educação que recebem quando crianças é fundamental, aí se formam os adolescentes que serão. É preciso construir neles respeito por si mesmos e pelos outros. Isso vai se traduzir em comportamentos saudáveis na web. Tentar policiar ou pegá-los em flagrante nunca vai funcionar, eles sempre vão conseguir contornar as regras. Os pais têm de superar a distinção que fazem entre educação, que levam muito a sério, e entretenimento, que tratam como se fosse um momento em que as crianças desligam o cérebro. Fazemos grandes esforços para mandá-los para as melhores escolas e achamos que, quando voltam e ficam jogando “Call of Duty” [um dos mais populares jogos de tiro] por três horas, não estão aprendendo nada, mas estão.

Folha – Falando dos problemas da exposição de modo mais específico, quais seriam os mais frequentes?
Michael Rich – As crianças se metem em problemas porque acham que são anônimas ou não rastreáveis na internet. Fazem coisas naquele ambiente que nunca fariam pessoalmente, porque têm essa ilusão de que ninguém pode identificá-las. De uma perspectiva médica, os dois maiores problemas são a obesidade e a ansiedade. A obesidade é um problema mundial, gerado por estilos de vida pouco ativos e pelo marketing. Do lado da ansiedade, as crianças são cada vez mais pressionadas a fazer mais, conseguir mais, mais rapidamente. Nos EUA, é recorde o número das que recebem medicação psiquiátrica por problemas de déficit de atenção, ansiedade, depressão.

Folha – Em sua palestra, o sr. disse que os pais não deixam que as crianças fiquem entediadas, e que isso é ruim. Por quê?
Michael Rich – O cérebro humano busca novidades, sentir e experimentar novas coisas. O problema é que, se formos constantemente estimulados pela televisão, pelos videogames e pela internet, nunca aprendemos a ser reflexivos, criativos, a buscar a novidade dentro de nós. É preciso tédio para chegar lá. Sair de casa também funciona. A natureza é um grande estimulante.

Folha – Os pais deveriam proibir que os filhos usassem celulares e internet em algum momento?
Michael Rich – Conheço gente que determina uma espécie de pausa digital semanal, um dia no qual desliga tudo por 24 horas. E as famílias que fazem isso sentem-se incrivelmente libertas, porque seus membros passam a interagir, conversar uns com os outros, coisas que nunca fariam se estivessem com seus iPhones, laptops ou TVs.

Folha – Há alguma mídia que tenha comprovadamente mais efeitos negativos sobre a saúde das crianças?
Michael Rich – Para problemas específicos há algumas mídias que interferem mais do que outras. Por exemplo, a televisão pode estar mais ligada à obesidade, por conta da imobilidade, e os videogames causam um aumento da ansiedade, porque você fica em um estado de adrenalina constante. Mas isso varia muito entre crianças.

Folha – Esse discurso sobre os perigos das mídias pode ser sequestrado pelo discurso político mais conservador?
Michael Rich – Sem dúvida. Invariavelmente os políticos usam isso a partir de um ponto de vista moral, “as crianças não devem ver pessoas nuas, não devem ver violência”, e a solução deles é restringir, censurar. Não acho que criar leis resolve a questão, o que resolve é educar.