Espiritualidade e educação

Por Marcus Tavares

De 1º a 5 de outubro, o Núcleo de Educação e Espiritualidade da Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em parceria com o Instituto de Formação Humana, vai promover o encontro A condição humana: olhares da espiritualidade, educação, saúde e tecnologia. O objetivo é aproximar a temática da espiritualidade da formação humana, como um novo campo do estudo acadêmico.

“O ser humano precisa se humanizar, desenvolver mais plenamente possível suas possibilidades e capacidades. Este entendimento de formação humana deve se incorporar aos objetivos educacionais, que só serão atingidos por meio da consideração dos aspectos mentais, emocionais, corporais, relacionais e transcendentes do ser humano”, destaca o coordenador do evento, o professor José Policarpo Júnior.

Em entrevista, por e-mail, à revistapontocom, Policarpo afirma que a falta desta comunhão entre a educação e a espiritualidade pode explicar os aumentos de violência e a falta de estímulo e comprometimento da juventude. Segundo ele, a educação foi reduzida historicamente “a um processo de desenvolvimento apenas cerebral, lógico, cognitivista, sob nomes pomposos de construtivismo e mesmo de educação integral”.

Acompanhe:
revistapontocom – Qual é o objetivo do evento?
José Policarpo Júnior – Na verdade, são três eventos reunidos por uma temática única A condição humana: olhares da espiritualidade, educação, saúde e tecnologia. Os eventos são o I Encontro Internacional de Educação e Espiritualidade, o I Encontro Brasileiro de Formação Humana e o VI Encontro de Filosofia da Educação do Norte e Nordeste. Os objetivos de tais eventos encontram-se dispostos na página eletrônica www.formacaohumana.org/eventos, mas podemos dizer, em síntese, que o principal objetivo é fortalecer e, talvez, instituir a temática da espiritualidade e da formação humana como um campo da ciência, do estudo acadêmico sistemático, quer em termos teóricos, quer de intervenção. O Brasil, em termos do tratamento científico e acadêmico dessas temáticas, está ainda muito pouco desenvolvido em relação a alguns países, como os EUA. É preciso demonstrar à comunidade acadêmica brasileira – e já há alguns cientistas e estudiosos brasileiros que têm tomado para si tal responsabilidade – que as temáticas da espiritualidade e da formação humana não são assunto apenas da religião ou da moral.

revistapontocom – O que o senhor quer dizer com o binômio educação e espiritualidade?
José Policarpo Júnior – Quando dizemos que o ser humano é racional, certamente não queremos significar que ele o é completamente. Sabemos, por experiência própria e alheia, que há vários aspectos em nós que, como dizia o filósofo Aristóteles, resistem a obedecer à razão. No entanto, ao dizermos que o ser humano é racional, estamos indicando que todo ser humano tem em si a potencialidade de desenvolver-se racionalmente e procurar guiar-se desse modo – isto não significa excluir ou abandonar os outros aspectos/dimensões do humano, mas alinhá-los, sem violência, aos princípios da razão. Sabemos o quanto isso é difícil e que agir racionalmente pressupõe que alguém tenha sido cultivado para tal atitude. Pois bem, a analogia se presta também ao entendimento da espiritualidade. Ao dizermos que o homem é espírito, entendemos que nem tudo nele o é, mas, sim, que o ser humano é chamado a orientar-se de acordo com o entendimento do que é espiritual. Meu colega e amigo Ferdinand Röhr, também um dos organizadores desses eventos, costuma compreender a tarefa formativa como a orientação de todos os aspectos do humano (mente, emoções, comportamento) pela espiritualidade, a qual, para ele é uma dimensão em si. Podemos também entender que o ser humano é espírito ao compreendermos que o que há de mais sublime nas realizações humanas (os valores humanos como a solidariedade, a compaixão, a igualdade, a paz; o amor; o altruísmo etc.) é por nós chamado de espiritual, no sentido, por exemplo, que a filósofa Hannah Arendt atribuía a todas as atividades humanas invisíveis, como o pensar, o julgar, o querer. A espiritualidade é aquilo que, em nós ou além de nós, nos toca incondicionalmente a vivermos de um modo que supere a visão estreita dos nossos desejos e preferências egocêntricas. A compreensão disso acontece por meio de uma razão que se abre ao acolhimento do que é sábio e equânime. Quando compreendemos que esses valores não são inventados por nossa mente, mas acolhidos de algo que transcende a nossa própria mente, estamos próximos a reconhecer a natureza espiritual do humano. Esta compreensão, portanto, de espiritualidade contribui para o entendimento do que vem a ser a tarefa formativa da educação. Reconheço, entretanto, que não é estritamente necessário que alguém aceite tal compreensão para entender a tarefa formativa educacional, embora aquela compreensão em muito facilite o entendimento desta última.

revistapontocom – Por que é preciso discutir, em pleno século XXI, a ‘formação’ humana, sob o ponto de vista educacional, emocional e relacional. Isso já não seria um consenso?
José Policarpo Júnior –
São partes intrínsecas da condição humana os aspectos emocionais e relacionais. As emoções do ser humano são uma herança ancestral que perdura até agora. Não se conhece, nem se concebe, ser humano sem emoções/sentimentos, nem sem relacionamentos – por mais que tais aspectos possam se encontrar em estado bruto, sem burilamento ou formação em qualquer ser humano em particular. Portanto, esta não é uma questão do século XX, XXI ou do século V a.C. Esta é uma questão do humano, assim como o são os aspectos da razão e de sua corporalidade. O que talvez seja novo (não no sentido de que isso fosse desconhecido por outras culturas, sociedades e civilizações outras, e até mesmo pela civilização ocidental em algumas de suas épocas definidas) seja o fato de a ciência começar a se interessar e passar a levar em consideração, no seu modo de proceder, as contribuições de sabedoria e prática que já anunciavam há muito tempo que o homem precisa, pode e deve conhecer o seu interior, que se relaciona ao modo como se expressa exteriormente.

revistapontocom – Quando se fala em condição humana, o senhor destaca o aspecto educacional, o emocional e o relacional. Todos têm a mesma importância?
José Policarpo Júnior –
Sim. Aliás, a formação humana é um processo que visa a desenvolver e humanizar aquilo que no ser humano precisa de atualização ou se encontra em estado bruto ou não humanizado. A educação é uma parte da formação humana que se caracteriza pela intenção explícita de promover tal desenvolvimento em todas as dimensões e áreas do humano que dele necessitam. Neste sentido, as dimensões emocional e relacional são algumas das dimensões humanas que necessitam de cultivo. O ser humano precisa se humanizar, desenvolver o mais plenamente possível suas possibilidades e capacidades – este entendimento de formação humana deve se incorporar aos objetivos educacionais, que só serão atingidos por meio da consideração dos aspectos mentais, emocionais, corporais, atitudinais, relacionais e transcendentes do ser humano.

revistapontocom – O senhor acha que a escola está afastada desta discussão?
José Policarpo Júnior – Sim, infelizmente, e principalmente no Brasil. A origem latina da palavra educação alude a educere e educare, termos que fazem referência a trazer para fora ou desenvolver e alimentar e cultivar – em suma: fazer desenvolver o que o ser humano já traz em si, por meio do cultivo e cuidado apropriados disponibilizados por alguma instância capacitada a fazê-lo. Se a escola possui função educacional, é claro que deveria primar pela compreensão e comprometimento com o desenvolvimento integral e individual de cada ser humano. Acontece que a educação sistemática, devido a inúmeros fatores (familiares, sociais, econômicos, culturais e políticos), foi reduzida historicamente, especialmente nas últimas três décadas no Brasil, a um processo de desenvolvimento apenas cerebral, lógico, cognitivista, sob nomes pomposos de construtivismo e mesmo de educação integral. Sob tal entendimento, a educação, do ponto de vista majoritário dos pais, dos governos, das escolas e das empresas, reduz-se à introjeção, pelos seres humanos singulares, das formas lógicas de uma inteligência desencarnada e objetificante apenas. Isto acontece porque a educação foi reduzida à função de disponibilizar tais formas entre os sujeitos para fins de reprodução e competição econômicas. Os pais, escolas e governos querem seus filhos, alunos e cidadãos mais aptos a incorporar as formas lógicas da inteligência matemático-linguístico-conceitual, mesmo que tais crianças, adolescentes e jovens sejam criados em meio a um grande analfabetismo interior e individual. Tudo isso, entretanto, cobra um preço e não deveríamos nos impressionar com os aumentos de violência, de falta de estímulo e comprometimento da juventude com tais metas. Isto é o resultado da vasta incompreensão que se abate sobre os formuladores de políticas educacionais, sobre as escolas e os pais.

revistapontocom – A proposta de uma educação pautada na espiritualidade não altera o encaminhamento da educação dos dias de hoje? Isso não seria uma utopia?
José Policarpo Júnior
– Sim, altera. Aliás, seria difícil encontrar alguém, mesmo entre os opositores radicais da ideia de espiritualidade, que defendesse a educação sistemática do modo como está. Em minha opinião, entretanto, a compreensão que deriva da espiritualidade, encarnada em atitudes congruentes, seria algo que estaria mais próximo à realização de algumas das próprias metas que as estruturas escolares e os governos fazem a si mesmos. Logicamente, uma educação espiritual é respeitadora daquilo que o ser humano é e pode vir a ser e, em tal sentido, não pode se comprometer com metas homogeneizadoras dos governos e das agências internacionais, a despeito de que compreendamos que um ser humano em formação que progressivamente entre em contato aprofundado consigo mesmo e com os demais estará mais propenso, inclusive, a atingir melhor performance naquilo que o sistema dele costuma exigir. Entretanto, é preciso desde logo deixar claro que isto não é utópico. Inclusive já temos muitos instrumentos que podem ajudar nesse empreendimento, embora o cognitivismo disseminado na educação contribua para seu desconhecimento ou para a indisposição em procurá-los. Só para dar um exemplo, podemos certamente ensinar as crianças e adolescentes, com nível significativo de comprovação por rigorosos meios científicos, a entrar em contato com seu interior, a familiarizar-se com a economia de suas emoções, a saber reconhecer e monitorar seus estímulos, a entender os modos adequados de estabelecer relações, amizades e projetos em comum, a tolerar frustrações e saber ser flexível e persistente diante de obstáculos etc. Em relação a tais aspectos, por exemplo, nestes eventos estaremos lançando, oficialmente, o currículo “Educação emocional e relacional para crianças – pensamento, afetividade e trabalho com habilidades sociais (PATHS)”, de autoria de Carol Kusché e Mark Greenberg. A obra foi traduzida e editada no Brasil pelo Instituto de Formação Humana. Se um material dessa qualidade, que já foi traduzido em mais de 10 idiomas e aplicado em mais de 10 países, fosse certificado, por exemplo, pelo Ministério da Educação, seria possível que a publicação fosse disponibilizada para qualquer professor. O Brasil tem recursos para isso. Faltam discernimento e esclarecimento das autoridades, dos gerentes, dos pais e professores – menos destes últimos e muito mais dos primeiros – para se comprometer com iniciativas que levem a tais finalidades.

revistapontocom – O seu grupo de pesquisa Educação e Espiritualidade, criado em 2009, vem mostrando o quê neste campo de estudo?
José Policarpo Júnior –
Grande parte do que falei aqui vem sendo estudado – de modo teórico e com intervenções balizadas cientificamente – pelo Núcleo e também pelo Instituto de Formação Humana. Já temos teses e dissertações defendidas e artigos publicados que expressam tais ideias. Alguns desses estudos, por exemplo, já empreenderam análise de intervenções concretas junto a jovens e crianças para a promoção do desenvolvimento emocional, relacional, compreensão da individualidade e do sentido pessoal próprio de vida no mundo. Aliás, a própria edição brasileira do PATHS acima mencionado, apesar de ser uma realização do Instituto de Formação Humana, mantém relação com as preocupações e reflexões geradas no âmbito do referido Núcleo.

revistapontocom – O senhor poderia dar um exemplo de um dos estudos do seu grupo?
José Policarpo Júnior – Uma de minhas ex-orientandas, Paula Cordeiro, defendeu uma tese de doutorado que estudou um componente curricular por ela mesma composto, com minha orientação, com o objetivo de desenvolver a ideia de individuação, de monitoração das emoções, de cultivo da empatia e da escuta, de estabelecimento de metas e de relações positivas entre jovens do Ensino Tecnológico. Um dos vários resultados da intervenção demonstrou o quanto esses jovens (que não conferiam importância a tal formação em seu início) passaram a compreender e valorizar a importância de escutarem a si mesmos, de entender a dinâmica das emoções e a aprender a como monitorá-las e direcioná-las, deixando, portanto, de caírem como suas vítimas, de controlar sua impulsividade, inclusive percebendo o ganho de concentração e capacidade de desenvolver tarefas e atividades complexas, que antes eram simplesmente percebidas como dificuldades exteriores, de atribuir para si mesmos metas dignas e significativas, de estabelecer relações pessoais mais sadias. Enfim, os jovens (como igualmente as crianças e adolescentes) passaram a entender mais o que significa sincronizar os valores, suas metas, pensamentos, sentimentos, comportamentos, e a perceber o ganho pessoal e a realização existencial de o fazer.

Comissão vai propor novo modelo de Ensino Médio

A cada 100 alunos que entram no Ensino Fundamental, apenas 44 continuam nos bancos escolares até o Ensino Médio. Desses 44, metade abandona as salas de aula e somente 12 chegam à universidade, conforme dados coletados no ano passado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Um dos principais motivos para esses índices, segundo o deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), é a inadequação do Ensino Médio à realidade dos jovens. Uma comissão especial da Câmara pretende ajudar a resolver o problema.

Instalada no dia 23 de maio, a Comissão Especial da Reformulação do Ensino Médio reúne até o momento 24 deputados de 13 partidos para encontrar um modelo melhor para a última fase da educação básica no País. “O problema é que o modelo atual é uma etapa meramente intermediária para que aluno possa chegar à universidade. Por isso, não responde às demandas da economia brasileira nem às expectativas de nossos jovens”, argumenta Lopes, que preside o grupo.

O relator, deputado Wilson Filho (PMDB-PB), explica que o colegiado deve realizar, a partir de agosto, reuniões com o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, com técnicos da pasta, secretários de educação, gestores de centros de ensino, pesquisadores nacionais e estrangeiros, além de representantes de entidades que atuam na área. Um relatório preliminar, a ser elaborado até novembro, deverá nortear discussões a respeito do tema em diversos estados. A ideia é que o grupo chegue a uma proposta de alteração da legislação atual sobre o ensino médio até o final do próximo ano.

Chupetas brilhantes e a fase oral

Por Lais Fontenelle e Equipe Instituto Alana

Chupeta só na hora de dormir? Devo estimular meu filho a usar chupeta para se acalmar? E depois se ele gostar quando devo tirar? O uso prolongado da chupeta afeta a dentição e a linguagem? Melhoram as cólicas dos pequenos? Toda mãe já viveu algum desses dilemas envolvendo o uso de chupetas em filhos bebês. Eu mesma estou vivendo isso agora, pois minha pequena fez seis meses e muitas outras mães amigas me perguntaram se já troquei o tamanho do bico da chupeta para número 2. Pois é… Como boa marinheira de primeira viagem, eu nem sabia que existiam vários tamanhos de bico; só tinha sido introduzida às diferentes marcas…

Atualmente, não são somente tamanhos ou marcas de chupetas e mamadeiras que invadiram as prateleiras das lojas e sites especializados em produtos para bebês. Existe uma infinidade de acessórios e objetos feitos sob medida para encantar o universo materno. Desde a gestação, eu ficava chocada com o bombardeio de apelos ao consumo para produtos de bebês. A lista do enxoval da maternidade, os objetos de higiene, produtos de alimentação e de passeio… Era uma quantidade enorme de itens que só me faziam pensar: será que meu bebê vai precisar de tudo isso? Mães de classe social mais favorecida chegam a viajar mais de 8 horas exibindo seu barrigão para fazer o enxoval em Miami ou Nova Iorque e voltam com as malas repletas de roupinhas e acessórios. No entanto, tudo o que esse pequeno ser indefeso que acabou de chegar ao mundo precisa é de um colinho bom.

Sabemos também que os bebês estão vivendo a fase que muitos especialistas chamam de oral, ou seja, estão conhecendo o mundo pela boca. E se repararmos bem vamos nos dar conta de que todos os objetos que colocamos nas mãos dos pequenos são levados à boca. Eles parecem sentir o gosto e a textura do mundo através desse sentido. Por isso fiquei muito impressionada com a matéria que acabei de ler na Folha de São Paulo que conta que chupetas viraram produtos de luxo entre as mamães e chegam a custar mais de 200 reais. Pasmem! Os bebês da sociedade contemporânea podem estampar na boca chupetas cravejadas de cristais swarovski. A novidade chamada de Chuchica (Chupeta- Chique da Camy) foi inventada por uma profissional do marketing e virou febre entre mães de grande poder aquisitivo, que podem personalizar a boca de seus filhotes com borboletas ou até as iniciais dos nomes brilhantes. As chupetas são vendidas por um site oficial e o mais chocante é que, navegando pelo mesmo, encontramos bebês e homens maduros fazendo propaganda das chupetas. Estaríamos adultizando nossos bebês ou infantilizando os adultos?

Bom, se chupetas serviam antes para acalmar e acolher nossos bebês hoje serve também como objeto de luxo e moda. Agora me pergunto: e se um cristal cair e o bebê o engolir? O problema das chupetas com cristais, a meu ver, não está somente no fato de que estamos mercantilizando a fase mais simples e essencial da vida de um ser humano que é a infância, mas também no perigo que o uso das mesmas pode trazer a saúde física dos bebês que precisam muito mais de cuidado, atenção e carinho do que de uma chupeta com cristais. Vale a reflexão!

O impacto do twitter na educação

O Portal Universia publicou, na semana passada, a lista das 10 mudanças causadas pelo Twitter na Educação, mais precisamente no âmbito do Ensino Superior. Segundo a publicação, já se foi há muito tempo a época em que o PowerPoint era a tecnologia mais expressiva nas salas de aula. Hoje em dia quem comanda a mudança é a rede social de microblogging Twitter. Quer saber como?

Confira:

1. Celulares são permitidos em aula
Principalmente nas universidades os celulares voltaram a ser bem vindos na sala de aula. Eles não são vistos mais como inimigos, mas sim como aliados para o aprendizado.

2. As aulas se tornam uma conversa
Sem o Twitter, muitas aulas se tornam um longo monólogo. Com essa ferramenta, porém, as palestras podem ser mais interativas e com maior grau de engajamento e participação.

3. Envolvimento dos alunos
Alunos mais tímidos conseguem se comunicar com os professores e colegas por meio de tweets e interagir, mesmo em palestras com mais pessoas. Além disso, os comentários e discussões não terminam nas aulas, mas podem continuar online.

4. Mais conexões
Em aulas com mais pessoas, como acontece nas faculdades, mais alunos conseguem se envolver e conectar com as pessoas. Durante as aulas o tempo para interrupção é menor, mas com o Twitter isso pode acontecer o tempo todo.

5. Envolvimento depois das aulas
Quando as aulas acabam, os comentários e discussões não precisam terminar. Podem continuar na plataforma do Twitter por meio de hashtags e mensagens diretas.

6. Contato com especialistas
Especialistas do mundo inteiro e de universidades espalhadas pelo mundo estão agora muito mais próximos para contato. Você pode conectar-se com eles diretamente pelo Twitter e estabelecer contato e trocas de experiências que aumentem seu aprendizado.

7. Mais informação do que nunca
O acompanhamento em tempo real das aulas e palestras permite que mais informações do que nunca fiquem armazenadas online para consultas posteriores. Diversos pesquisadores já usam o Twitter como fonte para consulta em pesquisas e estudos.

8. Reflexão
Com hashtags específicas e contato com professores a reflexão sobre os conteúdos vistos nas aulas pode acontecer mesmo depois que estas acabem.

9. Revisão
Durante as palestras você pode postar suas anotações no Twitter e revisá-las mais tarde. Além disso, você também pode compartilhá-las com outras pessoas e aproveitar a anotação dos outros para revisar.

10. Menos interrupções
Para algumas pessoas, o Twitter pode servir como distração nas aulas, mas para quem conseguir usá-la como ferramenta pode ser uma ótima forma de evitar muitas interrupções e ainda assim participar.

Classificação indicativa: sociedade civil integra comitê

O Ministério da Justiça criou neste mês de julho o Comitê de acompanhamento pela sociedade civil para a Classificação Indicativa, que terá caráter consultivo e orientador da política. Composto por membros da sociedade civil, o grupo irá se reunir semestralmente.

“A política de Classificação Indicativa, ainda que consolidada, está sempre em processo de aprimoramento e discussão, por isso acreditamos que um grupo de especialistas das mais diversas áreas poderá garantir que os propósitos da política serão continuamente discutidos e avaliados, garantindo a proteção de crianças e adolescentes”, explica a coordenadora adjunta da Classificação Indicativa, Alessandra Macedo.

Apesar de o comitê não participar diretamente da classificação de uma obra ou mesmo interferir na classificação atribuída pela equipe técnica da coordenação, os integrantes poderão ser consultados em casos específicos em que a área técnica não tenha um consenso, além de contribuírem na construção permanente da política.

A Secretaria Nacional de Justiça será a titular do comitê; o Departamento de Justiça, Classificação, Títulos e Qualificação será o órgão diretor; e a Coordenação de Classificação Indicativa ficará responsável pela secretaria.

Confira as instituições participantes do Comitê:

– Conselho Nacional dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes – CONANDA;
– Conselho Federal de Psicologia;
– Pastoral da Criança;
– Conectas Direitos Humanos;
– Sociedade Brasileira de Pediatria;
– Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social;
– Andi – Comunicação e Direitos
– Instituto Alana;
– Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc).

Conversa de Gente Grande

Por Marcus Tavares

A Band estreou no último domingo, dia 15 de julho, às 20 horas, o programa Conversa de Gente Grande. Produzido pela produtora Eyeworks, o programa conta com a presença de Marcelo Tas e a participação – e sinceridade – de crianças, dos três aos doze anos, para atrair a audiência. O formato é uma adaptação do sucesso argentino Agrandadytos.

“Conversa de Gente Grande é um programa leve, divertido e feito com crianças que falam de assuntos da vida adulta, como violência, drogas e relacionamentos. Cada gravação é surpreendente pois os pequenos são imprevisíveis e sempre têm algo inesperado a dizer. Pra mim, este é um desafio totalmente novo, que junta minha experiência anterior em programas infantis com meu lado entrevistador”, conta Marcelo Tas.

Basicamente, o programa conta com dois quadros: Mano a Mano, que consiste em uma série de entrevistas entre Tas e uma criança, onde os assuntos não têm nenhuma especificidade, mas buscam dar uma pincelada na opinião dos pequenos acerca do mundo em que vivem, e o quadro em que as crianças entrevistam com um convidado famoso. No primeiro programa, elas entrevistaram o Rei Pelé.

“O mais surpreendente no trabalho com as crianças é a quantidade de informação que elas absorvem hoje e a visão de mundo que elas tem. Uma visão muitas vezes inocente, irônica, mas ao mesmo tempo certeira. E é isso que o programa vai explorar”,  revela Mariano Feijoo, diretor da atração, em material
divulgado pela Band.

Na semana passada, por e-mail, o diretor, argentino, Feijoo respondeu algumas perguntas da revistapontocom sobre o programa, deixando claro que a atração não é voltada para as crianças, mas
para toda a família.

Acompanhe:

revistapontocom – É a primeira vez que o senhor está envolvido em uma produção brasileira?
Mariano Feijoo – Não. No ano pasado, eu dirigi – junto a Marcelo Zaccariotto – , o programa Agora é Tarde [também da Band]. No ano de 2009, dirigi o E24 [produção da Band] e programas da Discovery, como Doces Sonhos e Doces Momentos. Eu trabalho na Eyeworks da Argentina há 14 anos. Trabalhei na Argentina, Espanha, Portugal e Chile. Agora estou no Brasil.

revistapontocom – Qual é o objetivo do Conversa com Gente Grande? É puro entretenimento ou tem algum objetivo além do lazer?
Mariano Feijoo – É um programa familiar. A ideia é mostrar como as crianças vêem o mundo, a diferença de uma criança dos dias de hoje com as do passado. A relação que as crianças também têm com a tecnologia, que é surpreendente. A relação delas com os meios de comunicação, com os adultos. Exploramos seus costumes, linguagens e interesses. É um programa para adultos feito com crianças. Neste sentido, é um programa para toda a família

revistapontocom – As crianças participam do programa dizendo o que pensam e sentem sobre os mais variados assuntos. No início da década de 2000, a Globo produziu o programa Gente Inocente. Nele, as crianças também diziam o que pensavam. Mas o programa recebeu várias críticas. Diziam que as crianças eram orientadas em suas ‘falas’. Como funciona a ‘dinâmica’ no CGG?
Mariano Feijoo – O programa está dividido em dois grandes blocos. Um é formado pelo que chamamos de Mano a Mano, onde as crianças são entrevistadas pelo Marcelo Tas. No outro, as crianças entrevistam
um convidado famoso. As crianças do Mano a Mano são mais pequenas, têm entre 3 e 7 anos. Não há nenhum tipo de filtro ou controle. Elas podem falar livremente e contestar as respostas e intervenções do Marcelo Tas. As crianças que participam como entrevistadoras são mais velhas, entre 8 e 11 anos. São elas que propõem as perguntas. Nós apenas ordenamos, organizamos, no sentido de que a entrevista seja balanceada e não repetitiva. Mas outra vez: elas perguntam o que querem.

revistapontocom – Como as crianças foram escolhidas? Como são preparadas?
Mariano Feijoo – Por meio de testes de elenco.

revistapontocom – Pode-se afirmar que há, hoje, uma certa tendência do mercado em não produzir programas voltados unicamente para o público infantil, mas sim para a família como um todo? Por que isto vem acontecendo? Não se sabe mais ao certo o que seria uma boa produção para as crianças?
Mariano Feijoo – Não saberia responder. Suponho que tenha a ver com o objetivo de atingir um público maior, não se limitando a uma determinada idade. Mas estou respondendo o que me vem primeiro à mente, assim como as crianças do quadro Mano a Mano.

revistapontocom – Outro grande entrave à produção de programas voltados para as crianças na TV aberta, segundo o mercado, é a falta de patrocinadores e ou anunciantes, inclusive por conta dos movimentos contra a publicidade para a faixa etária. Como o programa está lidando com isso? Ele já estreia com bons e fortes patrocinadores? Se sim, quais são?
Mariano Feijoo – Não tenho ideia. A Band é quem cuida disso.

revistapontocom – Qual é a expectativa da audiência? Há alguma pressão neste sentido? Por que o dia de domingo para veicular a produção?
Mariano Feijoo – Domingo é um dia adequado, bem como o horário. Em geral, no fim do dia de domingo, as famílias estão reunidas em casa. Por outro lado, para a audiência é complicado. Há programas históricos e consolidados em outros canais. Mas o nosso programa é bom e preferimos este dia e horário mesmo com a concorrência forte do que veiculá-lo num horário marginal apenas para escapar desta mesma concorrência.

revistapontocom – O que o público pode esperar?
Mariano Feijoo – O público vai se surpreender. As crianças são imprevisíveis, têm opiniões sobre todos os temas e pessoas. Nós nos divertimos muito fazendo o programa. A ideia é que o público também se divirta.

Plano Nacional de Cultura

Embora tenham sido aprovadas em dezembro do ano passado, as 53 metas do Plano Nacional de Cultural, elaboradas pelo Ministério da Cultura (MinC), foram condensadas, em junho, numa publicação. O objetivo do trabalho é “traduzir as metas para a sociedade brasileira de uma forma didática e acessível, visando facilitar a compreensão por parte dos cidadãos do país, produtores culturais, gestores públicos, parlamentares e todos que se interessarem pelo tema”.

Foram impressos 20 mil exemplares que serão distribuídos a vários órgãos, como secretarias de Cultura de todo o país e demais instituições envolvidas na construção dos planos municipais de cultura. A publicação também está disponível em formato digital. Clique aqui e acesse o documento.

Das 53 metas, quatro estão ligadas diretamente à escola. São elas: Meta 12 – 100% das escolas públicas de Educação básica com a disciplina de Arte no currículo escolar regular com ênfase em cultura brasileira, linguagens artísticas e patrimônio cultural; Meta 13 – 20 mil professores de Arte de escolas públicas com formação continuada; Meta 14 – 100 mil escolas públicas de Educação Básica desenvolvendo permanentemente atividades de arte e cultura; e Meta 15 – Aumento em 150% de cursos técnicos, habilitados pelo Ministério da Educação (MEC), no campo da arte e cultura com proporcional aumento de vagas. A publicação indica como as metas deverão ser alcançadas.

O Plano se estrutura em três dimensões complementares: a cultura como expressão simbólica; como direito de cidadania; e como campo potencial para o desenvolvimento econômico com sustentabilidade. Essas dimensões, por sua vez, desdobram-se nas metas.

As metas do PNC deverão ser cumpridas até 2020. Mas o alcance depende de trabalhos interministeriais, de recursos federais, de emendas parlamentares que auxiliem a viabilização dos projetos e da apropriação federativa, ou seja, da participação dos estados e municípios, que devem também criar seus planos de cultura. A pergunta é: será que as metas saem, de fato, do papel?

Adaptações literárias para jovens leitores

Por Gizelle Kaminski Corso
Professora substituta do Departamento de Metodologia de Ensino da Universidade Federal de Santa Catarina e doutora em literatura pela mesma instituição.

O aparecimento de uma literatura para leitores infantis e juvenis ocorre mais precisamente por volta do século XVIII, quando, aliado à burguesia (nova noção de família, centrada em um núcleo unicelular), vem à tona o conceito de “infância” e, consequentemente, o de criança. A burguesia separou a infância da idade adulta, vendo aquela como uma faixa etária diferenciada, com interesses próprios e formação específica. Os primeiros textos para crianças foram produzidos por pedagogos e professores, com marcante teor educativo – daí é que vem a associação da literatura infanto-juvenil com a escola e com a pedagogia, e a justificativa de alguns livros para crianças em circulação no Brasil, no início do século XIX, confundirem-se com obras didáticas.

Apesar de a origem desses textos ter acontecido por motivos pedagógicos, e não literários, a literatura infanto-juvenil originou alguns tipos de textos exclusivamente seus, como a história de animais ou como os contos de fadas.

É de adaptações de textos clássicos e de contos de fadas que provém e se fortalece a literatura para jovens leitores. Compilados pelo francês Charles Perrault, no século XVII, adaptando-os de narrativas populares e revestindo-as de valores da burguesia, e pelos famosos alemães Jacob e Wilhelm, conhecidos irmãos Grimm, no século XIX, os contos de fadas não foram escritos especialmente para as crianças bem como não faziam parte da educação burguesa. Esses contos, anônimos e, portanto, recolhidos do seio do povo – do folclore popular –, eram ligados às camadas inferiores e estabeleciam conexões entre a situação social e a condição servil. Assim, por meio desses materiais preexistentes, como os clássicos e os contos de fadas, essa literatura começou a constituir o seu acervo. Por possuírem um conteúdo onírico latente e abrigarem a presença do elemento mágico, que auxilia os personagens a vencerem dificuldades, por exemplo, os contos de fadas se mostraram mais apropriados aos leitores mirins. Dessa forma, o folclore europeu foi sendo constituído por narrativas de transmissão oral, cujo sucesso fez com que migrassem para diferentes partes do mundo.

No Brasil, desde o final do século XIX, havia preocupação de fazer com que os leitores tivessem acesso e, possivelmente, maior entusiasmo com a leitura de textos. Além disso, era possível perceber que o país carecia de uma literatura própria para leitores ainda em fase de escolarização, pois até então circulavam aqui, na sua maioria, traduções de livros europeus. Era necessário repensar essa questão e procurar alguma alternativa para fazer com que esses leitores ingressassem na leitura de clássicos por outra via que não apenas a da tradução do texto integral; daí uma das razões para que se viabilizasse o aparecimento das adaptações.

Assim, com o intuito de se estabelecer uma comunicação com o leitor infantil é que se deu o aparecimento das primeiras traduções e adaptações dos contos de Charles Perrault, dos irmãos Grimm e de Hans Christian Andersen no Brasil.

Era muito forte, no Brasil desse período, o anseio de nacionalizar a produção literária para crianças e jovens, pois era marcante a influência de traduções e adaptações de autores portugueses; por isso, o editor Quaresma encomendou a Alberto Figueiredo Pimentel (1869-1914) uma biblioteca destinada aos pequenos leitores. Assim, o jornalista, diplomata e escritor Pimentel e o professor do Colégio Pedro II, Carlos Jansen (1829-1889) são vistos como os primeiros tradutores/adaptadores de obras clássicas europeias. São do primeiro os Contos de fadas (1896), tradução de Perrault, Grimm e Andersen, Contos da Carochinha (1894), Histórias da avozinha (1896) e Histórias da Baratinha (1896), os quais apontavam para a moralidade e o sentido educativo; e do segundo, Robinson Crusoé (1883), de Daniel Defoe (prefácio de Sílvio Romero); As viagens de Gulliver (1888), de Jonathan Swift (prefácio de Rui Barbosa); Dom Quixote de la Mancha (1901), de Cervantes; As mil e uma noites (1882) (seleção e prefácio de Machado de Assis); As aventuras do barão de Münchhausen (1891), contadas por Erich Kästner, G. A. Burger e outros. É interessante notar que alguns títulos de Jansen foram prefaciados por figuras importantes do meio intelectual da época, como: Sílvio Romero, Machado de Assis e Rui Barbosa. Dessa forma, Jansen intentava lograr para suas adaptações (e para si) maior credibilidade ao ter prefácios assinados por esses escritores.

Embora apelativas à moralidade, “ galegais”, “ literaturizadas”, como afirmava Monteiro Lobato, as primeiras adaptações-traduções de Carlos Jansen e Figueiredo Pimentel foram o pontapé inicial para que os leitores jovens brasileiros do final do século XIX começassem a desfrutar da leitura desse tipo de textos. Apesar de essa fase de formação da literatura para o público mirim ainda se dar sob a égide do Romantismo – o que poderia instaurar aspirações nativistas do movimento, o desejo de uma marca própria, da cor local –, não o correu entre nós o aproveitamento da tradição folclórica para a constituição de textos para jovens leitores, como o fizeram os alemães, os irmãos Grimm, e os franceses, na pessoa de Charles Perrault. Assim, no Brasil, por muito tempo ocorreu a transmissão da literatura de tradição estrangeira e apenas com Monteiro Lobato esse quadro seria alterado. Foi ele quem procurou trazer para o acervo literário do leitor, via aproveitamento, personagens folclóricas, como o Saci Pererê, e relatos populares. Lobato inovou também porque construiu uma realidade ficcional coincidente com a do leitor de seu tempo, o que ocorreu com a criação do Sítio do Pica-Pau Amarelo, ao colocar crianças na condição de heróis, o que possibilitava a identificação imediata com o leitor daquele tempo.

Além disso, foi um obstinado partidário das adaptações; procurou recriar e reescrever uma série de textos que marcaram sua infância – Dom Quixote, Peter Pan, Pinóquio, Robinson Crusoé, Alice no país das maravilhas, para citar alguns –, pois considerava o conhecimento deles essencial para as novas gerações.
A ideia de Lobato de dar início a uma literatura que “nos faltava”, pois o que havia de leitura disponível era de “uma pobreza e tão besta”, “moitas de amora do mato – espinhentas e impenetráveis”, nasceu dentro de casa, ao observar a forma como seus filhos ouviam atentamente as histórias que a mãe, Purezinha, contava. A esposa de Lobato, naqueles tempos, fazia o papel que posteriormente seria feito e ficcionalizado em Dona Benta Encerrabodes de Oliveira, a distinta narradora do Sítio. Então, era preciso que a leitura fluísse, que os códigos estéticos fossem renovados e que as narrativas fossem livres de enfeites literários. Nesse sentido, podemos perceber que as adaptações, para Lobato, deveriam ser diferentes, sem termos do “tempo da onça”, “em língua do Brasil de hoje”.

Quem não está sintonizado com o mercado editorial pode pensar que pós-Lobato não apareceram mais adaptações literárias de rigor e qualidade. Da mesma forma que cresce a produção e elaboração de obras ditas originais (inúmeros escritores, ilustradores), cresce também o número de adaptações e, aliado a isso, pesquisas e pesquisadores. Para demonstrar tal importância das adaptações, incluídas entre a literatura pensada para jovens leitores, ressalto que, nas premiações anuais da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), que ocorrem desde 1974, existem categorias para as adaptações literárias, que seriam: tradução/adaptação criança; tradução/adaptação jovem; tradução/adaptação informativo; tradução/adaptação reconto.

Embora as adaptações ainda dividam opiniões, sua importância e presença não podem ser ignoradas, porque elas são parte do acervo de leitura para jovens leitores. Mas, reconheço, concordando com a professora, escritora e ensaísta Nelly Novaes Coelho, em texto publicado no Jornal do Alfabetizador, em 1996, intitulado “O processo de adaptação literária como forma de produção de literatura infantil”, que esse processo deve ser desenvolvido com rigor, o que exige do adaptador um trabalho vigoroso em três níveis, a citar: nível da composição, da estrutura narrativa; nível da personagem e nível do discurso. Abarcando esses três níveis, o processo de adaptação atingirá uma recriação simplificadora da linguagem narrativa, suscetível de agradar ou estimular os jovens leitores.

Atento para um aspecto bastante pertinente, levantado por Linda Hutcheon quando diz que para experienciar uma adaptação como adaptação, é preciso reconhecê-la como adaptação. A recorrência nem sempre é imediata e as adaptações são assim reconhecidas em consonância com seus pares – fontes em que bebem. Segundo João Luís Ceccantini (1997), a cada adaptação bem realizada, independente do seu formato, nas várias linguagens, é grande o número de leitores que se volta para os textos que a precederam. No entanto, não podemos ver as adaptações apenas como caminho – ou como caminho certeiro, aposta exata, confirmação inquestionável de acesso – aos originais, porque pode acontecer de nunca se chegar ao “original” (tradução). Ou seja, pode acontecer de não se reconhecer uma adaptação como adaptação porque, pelo desconhecimento, considerá-la como um/o original.

Com estas reflexões, pretendo enfatizar que as adaptações literárias para jovens leitores, quando elaboradas com rigor e seriedade, são importantes e necessárias no processo de formação de leitores. Importantes por colocarem em circulação obras clássicas distanciadas dos leitores tanto em matéria de tempo quanto de convenções linguísticas e estéticas. Necessárias por contribuírem na formação de leitores também de textos clássicos. Importantes por defenderem/promoverem a circulação desses textos e, assim, manterem/preservarem certas referências culturais. Necessárias por servirem como um “ convite” a uma leitura do/mergulho no original – que muitas vezes pode ser a tradução. Importantes, principalmente, por tornarem a leitura diferente, menos densa, mais prazerosa, e, de acordo com as ideias de Lobato, sem “termos do tempo da onça” e “português de defunto”, mas uma leitura “ o dobro mais interessante”.

Texto publicado inicialmente no site ComCiência.

Serbian Film

Quase um ano após ter tido sua exibição proibida em todo o território nacional devido a seu conteúdo violento e pornográfico, o longa A Serbian Film – Terror sem Limites foi liberado na semana passada, em decisão da Justiça Federal em Minas Gerais. O veto havia sido determinado pelo juiz Ricardo Rabelo, da 3ª Vara Federal, em agosto passado, atendendo a ação cautelar da Procuradoria da República em MG.

saiba mais sobre a polêmica que envolve o filme

A ação diz que o filme desrespeita o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) por exibir cenas de sexo simulado com menores, como o estupro de um recém-nascido. Após um ofício assinado pelo diretor-geral da Polícia Federal, dizendo que a obra “não incorre em nenhuma modalidade criminal”, o mesmo juiz decidiu agora que “não há mais razões de natureza jurídica” para o veto.

Em sua sentença, Rabelo afirmou ter assistido ao filme. “É realmente muito forte. Verdadeiramente impactante. O enredo é crudelíssimo (…) Se estivesse no cinema teria me levantado e ido embora. No entanto, como juiz, não posso ser o seu censor no território nacional, como me diz a Constituição Federal.”

A distribuidora da obra no Brasil, a pequena Petrini Filmes, de São Luís (MA), comemorou a decisão –à qual ainda cabe recurso– e lamentou os “constrangimentos”. “Sofremos bastante. Nosso nome foi ligado a crimes horríveis, perdemos dinheiro por não poder lançar a obra”, diz Raffaele Petrini, diretor-executivo da empresa.

O filme, que teve apenas sessões pontuais em festivais de Porto Alegre e de São Luís, no ano passado, deve agora ganhar lançamento nos cinemas, em circuito restrito. “Vamos fazer algumas pré-estreias em festivais que estão interessados e já temos algumas salas que querem exibi-lo. Depois, no fim do ano, lançaremos em DVD e Blu-ray”, disse Petrini.

Ainda assim, uma liminar da Justiça do Rio proíbe a exibição do filme no Estado.

Fonte – Folha de S. Paulo

Volume dos comerciais

Foi publicada no Diário Oficial da União, do dia 12 de julho, portaria que regulamenta a padronização do volume do áudio dos comerciais veiculados nos intervalos da programação das TVs abertas, chamado mundialmente de “loudness” ou intensidade subjetiva de áudio.

Segundo Genildo Lins, secretário de Comunicação Eletrônica do Ministério das Comunicações, a regulamentação obedece a padrões internacionais e o limite máximo de variação de som será de dois decibéis, que é quase imperceptível ao ouvido humano, esclareceu. Adiantou que este volume poderá ser
revisto daqui a um ano. As prestadoras de serviço de radiodifusão terão 12 meses para se adaptar às determinações da portaria do Ministério das Comunicações.

O secretário afirmou que as empresas de radiodifusão que descumprirem a portaria e continuarem aumentando o volume do áudio nos intervalos comerciais poderão até mesmo ter seu sinal suspenso. Segundo determina a portaria, a emissora que descumprir a regra será advertida e terá 30 dias de prazo para corrigir a irregularidade. Se não o fizer, será sujeita às sanções previstas em lei que pode levar até à
suspensão temporária do sinal.

A portaria diz que, para efeito de fiscalização, serão analisadas seis amostras de áudio de uma programação, cada uma contendo um bloco de programa e o intervalo comercial imediatamente posterior.O Ministério das Comunicações deverá formar um grupo técnico, do qual a Anatel fará parte, para propor mecanismos e procedimentos de como será feita a fiscalização, considerando as especificidades de cada serviço.

Fonte – Ministério das Comunicações

Estatuto da Criança e do Adolescente: o que podemos comemorar?

Por Marcus Tavares

Crianças e adolescentes são “pacientes” na Saúde, “alunos” na escola, “dependentes”, na Previdência Social e na Receita Federal, “problema social” quando estão na rua, “potenciais eleitores” depois dos 16 anos de idade, “rebeldes” para algumas linhas interpretativas das Ciências Sociais e Humanas, “benção divina” para algumas tradições religiosas, “castigo dos céus” para outras, “cidadãos do futuro” nos discursos políticos, “fonte de renda” para algumas famílias que as exploram das mais variadas formas e “herdeiros das dívidas” para algumas famílias.

Esta é uma das observações de Roberto da Silva, professor do Departamento de Administração Escolar e Economia da Educação, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Em entrevista à revistapontocom, o professor analisou os 22 anos da criação do Estatuto da Criança e do Adolescente, promulgado em 13 de julho de 1990. O assunto foi ponto de partida para uma análise da infância e da adolescência no Brasil, realidade que o professor conhece bastante.

conheça a trajetória do professor doutor Roberto da Silva, ex interno da Febem e que também ficou sete anos preso na Casa de Detenção de São Paulo.

Vale a pena conferir as ideias e reflexões do professor. Acompanhe:

revistapontocom – Completamos 22 anos da promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), no dia 13 de julho. É uma data para ser celebrada? Por quê?
Roberto da Silva – Sim, primeiro porque segundo nossa tradição judaíco cristã, datas são para ser comemoradas. Segundo porque o rebento que nasceu 22 anos atrás sobreviveu e já tem toda uma geração – pós-ECA – cujos direitos e deveres estão sob “aborto”, a “morte” ou a revogação do ECA. Alguns querem alterações, para torná-lo melhor e mais eficaz na proteção dos direitos de crianças e adolescentes no Brasil.

revistapontocom – Podemos então dizer que o ECA ‘pegou’ no Brasil, no sentido de ser respeitado e cumprido pelas pessoas e ou instituições?
Roberto da Silva – Dos cerca de 6.550 municípios brasileiros, 5.577 possuem pelo menos um Conselho Tutelar instalado, ainda que o seu funcionamento não esteja conforme a determinação do ECA. Os conselhos municipais dos direitos da criança e do adolescente estão instalados em mais de 90% dos municípios brasileiros e todos os estados e o DF possuem o Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente. E em nível nacional está em pleno funcionamento o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda). Compare esta taxa de desempenho com qualquer outro indicador social no Brasil, como existência de bibliotecas públicas, de maternidades, de saneamento básico, de coleta de lixo, de salas de cinema, de água tratada, de localização de telefone público etc. e podemos concluir se o ECA “pegou” ou não no Brasil. E com a diferença fundamental de que a tendência é de crescimento e de aperfeiçoamento destas estruturas que compõem o Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente no Brasil.

revistapontocom – Uma das novidades que o ECA trouxe foi o estabelecimento que crianças/jovens são prioridades em todos os sentidos. Isto acontece na prática?
Roberto da Silva – Dentre os vários princípios norteadores do ECA, o da “prioridade absoluta” talvez não seja o mais importante nem o que melhor mereça destaque. Educação, Saúde, Segurança Pública e acesso à Justiça são políticas de caráter universal, que devem atender a todos os brasileiros sem qualquer tipo de distinção, inclusive por faixa etária. Na restituição do Imposto de Renda, os idosos são prioritários e não os pais que possuem filhos pequenos. No pagamento de dívidas trabalhistas, os empregados têm prioridade independente se são ou não provedores de crianças pequenas. Na execução de sentenças judiciais, que inclui o confisco de bens móveis e imóveis, como saldos de contas bancárias e cadernetas de poupança, ninguém verifica se isso afeta ou não o direito de crianças e adolescentes dependentes do devedor. Nas ações de despejo, de reintegração de posse (exemplo do Pinheirinho), os direitos de crianças e adolescentes são simplesmente ignorados. Estas situações comprometem não apenas este princípio da “prioridade absoluta”, mas também o de “crianças e adolescentes como sujeito de direitos”. O princípio norteador do ECA que deve ser observado e que efetivamente faz diferença é o de “criança e adolescente como pessoas em fase peculiar de desenvolvimento” e este tem mobilizado a sociedade para se aperceber do que é ou não apropriado para determinada faixas etárias. E, neste sentido, há diversas ações, tanto do Estado quanto de governos e da sociedade civil no sentido de coibir as práticas abusivas, como os casos de trabalho infantil, da exploração sexual, do uso de imagens, da proibição de vendas de cigarros e bebidas, de viagens desacompanhadas etc.

revistapontocom – O ECA afirma que a criança e o adolescente são responsabilidade do Estado, da sociedade e da família. Mas será que estas três instituições veem as crianças e adolescentes da mesma forma? O senhor poderia descrever como, em sua avaliação, cada uma das instituições vê e entende meninos e meninas e o que caberia a elas?
Roberto da Silva – Crianças e adolescentes são “pacientes” na Saúde, “alunos” na escola, “dependentes”, na Previdência Social e na Receita Federal, “problema social” quando estão na rua, “potenciais eleitores” depois dos 16 anos de idade, “rebeldes” para algumas linhas interpretativas das Ciências Sociais e Humanas, “benção divina” para algumas tradições religiosas, “castigo dos céus” para outras, “cidadãos do futuro” nos discursos políticos, “fonte de renda” para algumas famílias que as exploram das mais variadas formas e “herdeiros das dívidas” para algumas famílias. Enfim, criança e adolescente podem ser tudo, mas, segundo o ECA, a responsabilidade quanto à garantia, promoção e defesa dos direitos da criança e do adolescente é de natureza coletiva, solidária e que envolve a todos indistintamente. De um ponto de vista ético, a família é a primeira responsável pela garantia, promoção e defesa dos direitos de seus filhos. Quando isto não ocorre deve o Estado entrar como coadjuvante, no sentido de auxiliar a família a cumprir suas funções e nunca no sentido de substituí-la. À sociedade, dita organizada, cabe sobretudo a função de apoiar a família e de oferecer a ela alternativas para que bem possa cumprir suas funções, mas também de “vigilância social”, no sentido de problematizar, discutir e até mesmo de denunciar as violações de direitos.

leia também: crianças sem direitos, outra entrevista com o professor Roberto da Silva, na revistapontocom, clique aqui

revistapontocom – Ao mesmo tempo em que protege e garante os direitos da infância e da adolescência, o ECA promove a faixa etária, empoderando-a. É possível crianças e adolescentes terem espaço num mundo adultocêntrico? Esse empoderamento não fica apenas no discurso?
Roberto da Silva – Claro que sim, principalmente diante do princípio que afirma que crianças e adolescentes são sujeitos de direitos. Isso significa que filhos não são propriedades de seus pais. Pai e mãe são enquanto forem necessários e suficientes para a garantia, promoção e defesa dos direitos fundamentais de seus filhos. À medida que colocam estes direitos fundamentais em risco, podem deixar de ser pai ou mãe. Esta é uma estratégia de empowerment (empoderamento) significativa em uma sociedade de tradição cristã, católica, patriarcal e baseada no modelo hegemônico da família nuclear, pois permite, em qualquer situação conflituosa, se decidir pelo “melhor interesse da criança e do adolescente”, inclusive com possibilidade de sua própria manifestação, respeitando sempre sua maneira própria de comunicar e manifestar suas vontades e preferências, tal como ocorre na disputa judicial pela guarda de filhos pequenos. O princípio que melhor responde a esta pergunta, penso eu, é o de “pessoa em fase peculiar de desenvolvimento”, que já falei. Em nome deste princípio é que assume relevância a chamada “cultura da infância” ou, de outra forma “os valores próprios da infância”, que têm levado a Saúde, por exemplo, a desenvolver a área da pediatria, a Educação a desenvolver a especificidade da Educação Infantil, à especialização da Justiça da Infância e da juventude, à arquitetura, engenharia, indústria, comércio e serviços de modo geral, a desenvolverem serviços, produtos, linguagens e abordagens que se adequam a esta faixa etária. Claro que há abusos aí: as seções de doces e de brinquedos junto aos caixas em farmácias, supermercados, padarias etc., que colocam pais em desespero, é um mau exemplo desta adaptação. A indústria de brinquedos, dos jogos eletrônicos e dos desenhos animados são outros exemplos. Mas cabe à “vigilância” da sociedade organizada e ao poder indutor do próprio Estado corrigir as distorções e cobrar posturas mais éticas destes “exploradores” da cultura da infância.

revistapontocom – Como a escola lida com este ‘empoderamento’ de crianças e jovens?
Roberto da Silva – Lida mal e é um dos setores da sociedade que mais tem enfrentado dificuldades para absorver e se adaptar à “cultura da infância” e de respeitar os “valores próprios da infância”. Excessivamente normativa, prescritiva e disciplinadora, a criança, aqui chamada “aluno”, é quem precisa se adaptar à lógica escolar, reduzindo a criança, mesmo pequena, a um “objeto de aprendizagem” e negligenciando a possibilidade de a criança ser um “sujeito de ensinagem”. Ou seja, entende-se que a criança “vai” à escola para aprender e por isso é exigido dela uma rígida disciplina, postura, cumprimento de tarefas, obediência, acatamento e submissão. A escola trabalha no sentido de “empoderar” o aluno, mas de submissão da “criança” que existe dentro deste aluno.

revistapontocom – Vários autores, no passado e no presente, já avaliaram o lugar que a criança ocupou e ocupa na sociedade, podemos citar Philippe Ariès e Neil Postman. Mas hoje, que lugar ocupam as crianças na nossa sociedade? Qual a definição de infância no mundo mundializado?
Roberto da Silva – São poucos os autores, do passado e do presente, que escrevem sobre a criança brasileira e o sentido de infância que vigora no Brasil. Moncorvo Filho e Monteiro Lobato são dois exemplos, ainda que possamos discordar de suas posições teóricas, mas que não somente descreveram a criança e a infância brasileira como desenvolveram programas, projetos, ações, legislação, políticas, personagens e situações para dar vida às suas concepções. No Brasil, a definição de criança ainda é marcada pelo ranço da pobreza, da miséria e do subdesenvolvimento: as ideias de que crianças significam despesas, de que possam ser motivo de complementação da renda familiar, de que possam trabalhar para substituir adultos, que tenham que desde cedo assumir responsabilidades etc. se baseiam em uma certa lógica utilitarista de criança enquanto “bem”, como um “capital” que possa render dividendos ou comprometer as finanças da família. E não são apenas famílias de baixa renda que pensam assim: famílias de melhor capacidade econômica, mas ética, moral e culturalmente subdesenvolvidas, também concebem seus filhos como “moedas de troca”, como um “cofrinho” no qual se coloca dinheiro para render lucros no futuro ou, ainda, como “prodígios” que possam substituir os pais como provedores dos recursos que a família precisa para manter seu status quo.

revistapontocom – As crianças e os jovens têm que poder hoje?
Roberto da Silva – Creio que sejam diferentes os poderes que exercem crianças, adolescentes e jovens. Crianças, quanto mais novas, mais poderes exercem, algumas, reconheçamos, exercem poderes quase ditatoriais sobre os pais. As necessidades próprias da pequena infância exigem presença, prontidão e vigilância dos pais 24 horas por dia: são os filhos que vão fazer os adultos se descobrirem enquanto pais e mães e não o contrário. As necessidades da pequena infância são poderes que os filhos exercem sobre os pais de forma taxativa, não há como não atendê-las. Quando as necessidades são menores, e filhos passam a exercitar a vontade, o desejo, gostos e preferências, aí os adultos passam a exercer o poder disciplinador e se convencem que são realmente pais e mães, mas logo em seguida vem a adolescência, cujas marcas não são apenas ditadas pelas necessidades, pelas vontades, preferências ou desejos. Adolescentes têm, vamos dizer assim, o poder que é capaz de conquistar. Porém, conquistas estas nunca tranquilas, sempre na base da resistência, da ruptura ou da negociação. Podem votar a partir dos 16 anos de idade, mas não podem definir o horário de voltar para casa nos finais de semana. Podem fazer quase tudo o que querem, desde que seus pais não tomem conhecimento disso e que não levem suas experiências para dentro da escola. Quanto aos jovens, se entendermos como faixa etária entre 18 e 21 anos de idade, pouco ou quase nenhum poder exercem, principalmente os do sexo masculino, que ainda são reféns do famigerado, antiquado e retrógado “serviço militar”. Se estudantes do ensino superior, a faixa etária da dependência se amplia até aos 24 anos de idade, mas são apenas “promessas”, plantadas lá na escolha do curso no vestibular, mas nem sempre concretizadas seja na escolha do curso, na conclusão dele ou no efetivo exercício da profissão escolhida. Talvez uma dimensão do poder nesta faixa etária esteja associada ao vigor físico, à sexualidade, à capacidade de reprodução, atributos estes fartamente usados mais nas relações de gênero do que nas relações intergeracionais ou de diferentes faixas etárias.

Anima Mundi, por crianças e jovens

O Anima Mundi já começou e, para quem não sabe, o festival traz mais uma vez a sessão Futuro Animador, onde são exibidas os melhores filmes produzidos por crianças e adolescentes. Na edição deste ano, a maioria das obras aborda a questão ambiental. Filmes de diversos países estão presentes. Cabo Verde está representado pelo curta Nôs Terra, que celebra o equilíbrio da vida ligada à natureza, com depoimentos de crianças da Ilha de Santiago. Elas compartilham experiências de quem tem a terra como fonte de subsistência, e as ilustram com desenhos próprios. Há também stop motion com materiais, como argila e milho.

O curta Le Monde Sauvage d’ Hawai também explora o stop motion com objetos. As crianças belgas construíram animais com velharias diversas, como telefones, canos, fitas etc. No melhor estilo Vik Muniz. Além disso, criaram desenhos e máscaras celebrando a diversidade da fauna do Havaí. Tudo foi feito a partir de apenas sons dos animais.

O Brasil também não está por fora dessa, pelo contrário. Ao todo são 22 curtas. Um deles é A Garça Graça, feito pelos alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Tânia Pôncio Leite, em Cariacica, Espírito Santo. Durante um sonho da menina Graça, os animais ganham voz e a contam como a poluição os prejudica.

Na revistapontocom você já pode assistir a alguns dos filmes brasileiros. Segue, em seguida, a lista completa dos curtas do Brasil que foram selecionados. Todas as obras estão sendo exibidas no Centro Cultural dos Correios e no Centro Cultural do Banco do Brasil (clique aqui e veja a programação).

Sessão FUTURO ANIMADOR – FILMES BRASILEIROS:

O aquecimento global
Colégio Criativo – Alunos do 3º ano B – Brasil
Turistas testemunham o drama de um urso, preso numa geleira do Pólo Norte por causa do aquecimento global, e denunciam a situação divulgando fotos em jornais e na internet.

Fábula: A pomba e a formiga
Professora Amália Maria Mattos/CIEP Agostinho Neto – Brasil
Fábula contada por 23 crianças de 6 anos, sobre uma pomba que salva uma formiga. Um dia, a formiga retribui o favor. 

Sonho de menina
Márcio Emilio Zago – Brasil
Os sonhos de uma menina pobre e como o acaso muda seu destino.


As Curvas de Niemeyer

Alunos da Rede Pública Municipal de Vitória – Brasil
A menina Estela embarca numa nave do tempo junto com Oscar Niemeyer e, numa aventura cheia de cores e curvas, descobre as principais obras do artista.

Maria vai com as outras
Alunos da Escola Municipal Burle Marx – Brasil
História de uma ovelha que imitava tudo que as outras ovelhas faziam.


Jasmin, a princesa da Maré
Alunos da Escola Municipal Tenente Antônio João – Brasil
As aventuras de uma princesa francesa que é seqüestrada e vai parar na favela da Maré, no Rio de Janeiro.

Veja os outros vídeos selecionados:

Boa Morte
Lucas Vega – Brasil
Questionamentos, filosofias e ironias sobre a vida e a morte.

O Boto
Isabel Domingues – Brasil
A tradicional lenda brasileira do Boto ganha um final inusitado, agora com certificado científico.

POW – um filme de Tales
Tales Michelena Munhoz – Brasil
Um gato bate na bola, ela quica e POW!

Caminhando para o Iguaçu
Telmo Carvalho; Alunos do Projeto Cine Coelce – Brasil
Iguaçu em tupi quer dizer local com grande quantidade de água. O que acontece quando não há a preocupação com o meio ambiente?

Cinema de sombras
Laura Bezerra Lima – Brasil
A luz acaba. Para se divertir, uma menina usa a imaginação brincando com as sombras.

Capitão do Mangue
Alunos CMEI Erenita Rodrigues Trancoso – Brasil
Crianças falam sobre o manguezal, inclusive a Lenda do Capitão do Mangue.

O Pintor
Escola Núcleo de Arte Sebastião Bernardes de Souza Prata – Brasil
Um pintor em busca de sua criação.

O que nós vimos da janela da sala
Professora Amália Maria Mattos de Araújo –  Brasil
Olhando pela janela da sala de aula, alunos descobrem um ninho. O que vai acontecer a cada dia?

A Garça Graça
Alunos EMEF Tânia Pôncio Leite – Brasil
A vida da garça e o sonho de Graça.

Mente poluída
Thalitha Chiara de Siqueira Garcia (AMDEM – Mogi) – Brasil
Como os efeitos da poluição podem nos atingir e de que forma isso pode afetar a nossa mente.

O Gigante Adormecido
Alunos das Oficinas de Artes Visuais e Fotografia – Brasil
Duas crianças conversam sobre a lenda do gigante adormecido que explica a origem e o formato das montanhas que circundam a Baía de Guanabara.

Uma Viagem Inesquecível
Alunos do Tabladinho / Turma Cavalinho Azul 2011 – Brasil
Um grupo de amigos de escola viaja pelo espaço a bordo de um disco voador.

Crack Caminho sem volta
Josimário Façanha – Brasil
Um jovem é atraído por um vendedor de crack e tem um final trágico.

Quem é craque não fuma crack
Gustavo Tomazi – Brasil
Dois amigos esportistas vivem uma situação de risco ao tentar se enturmar com novos colegas de escola. Eles terão que fazer escolhas importantes que podem mudar o seu destino.

Bravooo!
Escola Núcleo de Arte Sebastião Bernardes de Souza Prata – Brasil
A  efemeridade do sucesso…

Reciclagem
Thalitha Chiara De Siqueira Garcia (AMDEM – Mogi) – Brasil
Diversas formas de reciclagem. Um jeito divertido de inspirar as pessoas a trabalhar com o que tem.

Faça o seu jornal escolar

Professores que desejam produzir com seus alunos um jornal escolar têm uma oportunidade para aprimorar seus conhecimentos. A ONG Comunicação e Cultura, de Fortaleza, em parceria com o Banco do Nordeste do Brasil, está oferecendo um curso à distância com este objetivo. Durante as aulas, os educadores vão conhecer teoria e prática, sendo acompanhados na produção de duas edições do jornal. A ideia é produzir os jornais ao mesmo tempo em que o curso é ministrado.

“É o aprendizado por meio da prática. O educador terá a chance de tirar dúvidas no momento em que elas acontecem, além de ser orientando durante sua prática de trabalho”, explica Daniel Raviolo, coordenador geral da ONG.

Estão sendo oferecidas 200 vagas. Para participar, basta que o interessado envie um e-mail (participe@jornalescolar.org.br) para a coordenação. A formação deve ser iniciada no final do mês de agosto. A carga horária é de 70 horas. Podem participar professores que atuam em todos os municípios atendidos pelo Banco do Nordeste do Brasil (clique aqui e confira se seu município é contemplado).

Para socializar as informações, o Comunicação e Cultura criou o Portal do Jornal Escolar, que traz conteúdos para escolas e professores que queiram publicar jornais, seja para toda a escola ou para uma turma específica, inclusive serviço de impressão a preço subsidiado. A ONG atua nessa área desde 1996.

Comunic@ Escola

A ONG Oficina de Imagens, localizada em Belo Horizonte, reuniu jovens de várias instituições da cidade para atuar na cobertura do Seminário Internacional Educomunicação, Direitos Humanos e Cultura de Paz nas Escolas, realizado no dia 4 de julho. Os jovens formaram um grupo chamado Focus, que fez a cobertura do evento em tempo real pela web utilizando diversas linguagens, como áudio, vídeo e fotografia.

Veja os dois vídeos produzidos pelos adolescentes:

O seminário internacional Educomunicação, Direitos Humanos e Cultura de Paz nas Escolas faz parte do projeto Comunic@ Escola – Mercosul, que pretende contribuir para a formulação e sistematização de metodologias que coloquem em prática, no contexto das escolas públicas, o exercício da cidadania regional. A partir de temas relacionados à promoção dos Direitos Humanos, os participantes do projeto têm a oportunidade de trocar suas experiências e, a partir de um rico processo de diálogo e troca, construir estratégias comuns para superação dos níveis de violência, intolerância e violação de direitos humanos registrados no âmbito das instituições de educação latino-americanas.O projeto envolve Brasil, Argentina e Bolívia.

Clique aqui e saiba mais sobre o projeto

Participaram do evento Wade Ude, professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Minas Gerais, Regina de Assis, consultora em mídia e educação, Mayki Gorosito, da Rede Mercocidades, Paulo Brescia, do Projeto Estado + Direito e  Eva Fontdevila e Emanuel Gall, da Abrojos.

O evento foi uma realização da Oficina de Imagens em parceria com o Programa Escola Integrada, da Prefeitura de Belo Horizonte e contou como apoio das ONGS Abrojos, da Argentina, e Eco Jóvenes, da Bolívia, além do Projeto In da Rede Mercocidades.

Flip para crianças e jovens

Neste ano, as notícias da Feira Internacional de Paraty (Flip) puderam ser acompanhadas por meio da apuração de 40 estudantes da cidade. Eles fizeram parte da FlipZona, braço educativo da Flip voltado ao público adolescente, que neste ano recebe, pela primeira vez, a parceria do jornal Estado de S. Paulo. O repórter Paulo Saldaña, do caderno Vida, acompanhou os participantes da pauta à edição dos textos. Os próprios estudantes, todos moradores de Paraty, foram os responsáveis pela cobertura, que mostrou os bastidores, os detalhes da programação. O material pode ser conferido em www.flipzona.org.br.

Oficina para crianças
A revistapontocom reproduz abaixo uma das matérias postadas no FlipZona. Os jovens acompanharam a oficina de ilustração e criação de histórias para crianças. 

Os ilustradores Andrés Sandoval e Daniel Bueno participaram da oficina de ilustração e criação de histórias “Siga a seta e caia na história”, com a mediação de Graça Lima. A oficina contou com a participação de estudantes de várias escolas de Paraty. Foi um processo divertido, que abusou da criatividade e da imaginação das crianças. Os ilustradores desenhavam de acordo com o que era dito na plateia, que também contou com a presença dos ilustradores Tino Freitas e Guto Lins, que ajudaram a desenvolver o enredo com as crianças.

Andrés iniciou a história desenhando uma mosca. Enquanto isso, Graça Lima circulava entre a plateia, passando de criança em criança, para dar continuidade à história, que ficou mais ou menos assim: “Era uma vez uma mosca, que foi engolida por um sapo, e embarcou numa viajem para a América do Sul. Porém, o navio naufragou e o sapo foi morto por um urso, mas o urso ficou triste porque queria comer peixe. De repente, um peixe gigante engoliu o urso e o peixe foi morto por um jacaré que, numa briga com uma cobra, acabou morrendo. Porém, a mosca sobreviveu a todos esses ataques. Ela acabou encontrando a Sra. Mosca. Juntos, foram voando para a lua de mel, quando pegaram uma nave espacial do Star Wars rumo ao Planeta Guaracá. Em Guaracá, viviam habitantes amarelos, com quatro braços que tinham piolhos gigantes e anteninhas vermelhas, eram viciados em amendoim e viviam em cavernas de chocolate nas Montanhas de Morango. Desorganizados, apenas escutavam Rock’nRoll (sertanejo lhes dava alergia). Por fim, o Sr. e Sra. Mosca viveram felizes em Guaracá”.

A imprensa pós Rio+20

Por Marcus Tavares

Capas de jornais e revistas. Entrevistas e debates. Vídeos, matérias especiais e muitos artigos. A Rio+20 ocupou boa parte do noticiário da imprensa brasileira há algumas semanas. E agora, o que ficou? Foi apenas mais um evento sobre meio ambiente divulgado? Em vinte anos, o Rio de Janeiro/Brasil foi sede de dois grandes encontros. De alguma forma, isso contribuiu para uma cobertura mais profunda sobre a ecologia no país?

A revistapontocom conversou com o jornalista Wilson Bueno. Professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), Bueno vem estudando há alguns anos a interface jornalismo e meio ambiente. Segundo ele, a mídia precisa desempenhar um novo papel: “Mas essa que aí está parece não ter competência ou disposição para exercê-lo. Precisamos sacudi-la, reformulá-la e criarmos alternativas cidadãs em nome do país e do planeta que desejamos para as novas gerações”, destaca.

Acompanhe:

revistapontocom – Como o senhor avalia a cobertura da mídia sobre o meio ambiente?
Wilson Bueno – Embora a cobertura da temática ambiental tenha crescido significativamente nos últimos anos, ela ainda está refém de fatos espetaculares (eventos, acidentes ambientais, debates como o do Código Florestal) e não mantém uma frequência, compatível com a sua importância. Além disso, com raras exceções, a imprensa não assume uma perspectiva investigativa e se omite em relação a grandes questões, como a segurança alimentar, a postura insustentável de grandes empresas ou setores (mineradoras, montadoras, papel e celulose, agroquímicas e empresas de biotecnologia etc), assumindo, quase sempre, a posição dos grandes interesses empresariais ou políticos. Felizmente, há algumas mídias ambientais autênticas e profissionais competentes comprometidos com o meio ambiente que têm feito o debate avançar e ganhar qualidade. Ainda que seja importante denunciar abusos e equívocos, é fundamental superar o nível da mera denúncia, inclusive para aprofundá-la e provocar mobilização a sociedade para enfrentar empresas, governos etc que ousam afrontar recorrentemente o meio ambiente.

revistapontocom – A ECO 92 não trouxe alguma mudança neste sentido?
Wilson Bueno – Embora não tenha trazido resultados concretos porque as nações boicotaram o que havia sido acordado durante a ECO 92, o evento se constituiu em um marco por ter trazido a questão ambiental para a linha de frente, alavancado a cobertura da imprensa e permitindo a mobilização de grupos organizados que têm se mantido ativos até hoje. A ECO 92 contribuiu para que a questão ambiental fosse contemplada planetariamente até porque havia um contexto favorável para que isso ocorresse.

revistapontocom – Entre a ECO 92 e a Rio+20, o que aconteceu com a cobertura da imprensa?
Wilson Bueno – Ela se ampliou, viu surgir novos veículos e novos espaços de divulgação, novas fontes surgiram e se consolidaram ao longo do tempo e, mesmo com as lacunas apontadas anteriormente, assumiu um novo patamar, mantendo-se presente em inúmeros veículos, ambientes, programas etc. Mas a grande imprensa e os monopólios da comunicação não têm efetivamente colocado o dedo na ferida porque isso não lhes interessa. Tratam o tema cosmeticamente, privilegiando mais o aspecto midiático, o aumento da audiência do que buscando despertar consciências e mobilizar a população.

revistapontocom – E com a Rio+20, algo mudou nesta interface?
Wilson Bueno – A Rio+20 se caracterizou pela omissão e timidez dos governantes, mas, pelo menos no Brasil, serviu para acirrar o debate, incrementar uma postura crítica em relação a países e empresas, promover uma maior articulação entre os comprometidos com a solução do impasse ambiental. A imprensa cobriu o evento em si, mas pouco avançou em termos de trazer novos elementos para o debate e aprofundá-lo. A Rio+20, na imprensa, se constituiu em um evento midiático que não trouxe, pelo menos por enquanto, novos desdobramentos em termos de cobertura qualificada, com raríssimas exceções. Para a maioria dos veículos, foi mais um evento que passou.

revistapontocom – O que pode explicar essa ‘evolução’ da cobertura: o jornalismo diferenciado, a pressão da sociedade, a atuação de organismos internacionais?
Wilson Bueno – Há pressão de todo lado, sobretudo porque se aprofunda a consciência de que o impasse ambiental precisa ser equacionado com urgência, mas a imprensa, refém das fontes oficiais ou empresariais, caminha lentamente e não temos certeza de que ela efetivamente possa contribuir para que as mudanças necessárias ocorram antes que os problemas se tornem mais dramáticos. A cobertura tem sido mais ampla, o que não quer dizer que seja mais qualificada. Ainda predominam as ações de marketing verde e essa visão cosmética que caracteriza a chamada “economia verde”, particularmente com a ação nefasta de corporações que insistem em descolar o discurso da realidade, uma postura marcadamente predadora.

revistapontocom – Embora o Estado possua, no Brasil, seus meios de comunicação, é a grande imprensa – privada – que consegue uma maior penetração entre a sociedade. Ao cobrir o tema de meio ambiente, essa imprensa possui outros objetivos, além do serviço público da informação?
Wilson Bueno – A imprensa tem seus compromissos e interesses e necessariamente eles não estão sintonizados com as demandas reais da sociedade. Ela continua demonizando os movimentos sociais, esvaziando debates (como os relativos aos monopólios na área de sementes, às relações espúrias entre governos e corporações etc) e contribuindo para reforçar ações irresponsáveis comprometidas com o marketing verde. Há uma hipocrisia empresarial sustentada por ações comerciais da mídia privada. A imprensa brasileira é notadamente um grande balcão de negócios. As exceções (que felizmente existem) confirmam a regra.

revistapontocom – O que fica da Rio+20 para a interface mídia e meio ambiente?
Wilson Bueno – Para a grande imprensa, poucas mudanças irão acontecer e o cenário permanecerá o mesmo já descrito nessa avaliação, mas certamente irão surgir novas mídias ambientais, haverá maior presença da temática ambiental nas redes e mídias sociais e a sustentabilidade será incorporada gradativamente ao debate que hoje anima os jovens. Os governos e as empresas estarão sob vigilância, mesmo porque, se nada for feito com urgência, o problema tenderá a se agravar, tornando inevitáveis ações imediatas e de grande impacto. Se dependermos de empresas e governantes pouco esclarecidos ou omissos, que continuam, assim como os empresários inescrupulosos, predominando entre as fontes que repercutem a temática ambiental, a cobertura permanecerá morna, não crítica e  contaminada por interesses comerciais e políticos. A coragem e a competência de alguns jornalistas não conseguirão se não houver uma mobilização efetiva da sociedade, promover as mudanças que todos queremos. Há estruturalmente, pela ação desse capitalismo predatório, condições para que os privilégios e os interesses escusos prevaleçam em detrimento da qualidade de vida e da preservação da nossa diversidade (ambiental, social e cultural). A mídia precisa desempenhar um novo papel, mas essa que aí está parece não ter competência ou disposição para exercê-lo. Precisamos sacudi-la, reformulá-la e criarmos alternativas cidadãs em nome do país e do planeta que desejamos para as novas gerações.

Infância e comunicação

A Andi – Comunicação e Direitos acaba de lançar o livro Infância e Comunicação – referências para o marco legal e as políticas públicas brasileiras. A publicação realizada no ano passado já está disponível no meio on-line. A obra apresenta uma visão ampla de dez temas centrais para que a sociedade brasileira avance com seus programas de garantia, promoção e proteção dos direitos das crianças e dos adolescentes no campo da mídia.

O objetivo é apoiar gestores públicos, organizações da sociedade civil e empresas a implementarem soluções compartilhadas para o fortalecimento de um sistema midiático pautado por princípios democráticos e pela necessidade de oferecer às novas gerações conteúdos que contribuam para seu desenvolvimento integral.

A obra apresenta e discute os seguintes temas:

1 – Educação para a mídia no âmbito do sistema de ensino
2 – Estímulo à produção de conteúdos de qualidade
3 – Programação regional e nacional
4 – Crianças e adolescentes participando da produção de conteúdos
5 – Regulação de exibição de imagens e identificação/identidade de crianças
6 – Avaliação sistemática dos impactos gerados pelos conteúdos audiovisuais
7 – Estabelecimento de faixas de horários e de faixas etárias
8 – Regulação da publicidade dirigida às crianças
9 – Trabalho infantil artístico nos meios de comunicação
10 – Novas tecnologias – promoção da inclusão e estratégias de proteção

Encontro brasileiro de educomunicação

Nos dias 25 e 26 de outubro, o Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de São Paulo (USP) vai promover o IV Encontro Brasileiro de Educomunicação. E, pela primeira vez, o evento abrirá um espaço para a apresentação de papers e relatos de experiências, ligados à pesquisas acadêmicas no campo da educomunicação.

As propostas devem apresentar o nome do autor, a instituição à qual está vinculado, o título do trabalho e um resumo de no máximo 20 linhas. Aceita-se trabalhos de autoria coletiva. Os interessados têm até o dia 25 de agosto para enviar a submissão para o seguinte e-mail: coloquio-educom@usp.br.

O aceite das propostas será divulgado no site da Licenciatura em Educomunicação da ECA/USP (www.cca.eca.usp.br), no dia 5 de setembro. A coordenação avisa que a comissão julgadora seguirá as normas estabelecidas pela Intercom para análise dos trabalhos científicos. Os textos definitivos deverão ser encaminhados, para o mesmo e-mail, até o dia 30 de setembro.

Para mais informações, clique aqui.

Turma da Mônica contra as drogas

A Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) anunciou, durante o encerramento da 14ª Semana Nacional sobre Drogas, realizado no dia 26 de junho, uma parceria com Mauricio de Sousa para o lançamento de quatro publicações em quadrinhos com foco na prevenção do uso de drogas e álcool entre os adolescentes. As revistas serão distribuídas em 15 mil escolas públicas de todo o Brasil.

As cartilhas, que tratam de álcool, crack e outras drogas, utilizam os personagens da Turma da Mônica Jovem e Turma da Tina para alertar pais, educadores e alunos sobre o tema. Trata-se da nova etapa do projeto Diga Sim à Vida, que já conta com publicações da Turma da Mônica destinadas a crianças.

As revistas sobre uso do álcool e crack e outras drogas são direcionadas aos alunos dos anos finais do Ensino Fundamental. Para o Ensino Médio, as publicações serão ilustradas com personagens da Turma da Tina. As HQs serão distribuídas em escolas cujos professores irão participar do Curso de Prevenção do Uso de Drogas para Educadores de Escolas Públicas, oferecido na modalidade a distância pela Universidade de Brasília (UnB). As aulas serão realizadas no segundo semestre deste ano e terão duração de quatro meses.

Escola e redes sociais: combinação possível?

Escola e mídia. Duas instituições que estão cada vez mais próximas e, ao mesmo tempo, distantes. Embora não faltem teorias, estudos e cursos que defendam o trabalho conjunto entre elas, a interface não é das melhores. Muitas escolas ainda não sabem lidar com os meios de comunicação, cada vez mais presentes, influentes e ao alcance de crianças desde a Educação Infantil.

Em junho do ano passado, a mídia noticiou com grande destaque o caso da estudante Jannah Nebbeling, 15 anos, aluna do Colégio PH, no Rio de Janeiro. Na época, ela disse ter sido coagida pela direção da escola por ter criado uma comunidade no Facebook para debater assuntos escolares e divulgar as respostas dos deveres de casa que valiam pontos. A página era acessada por cerca de 700 alunos. Para a estudante, uma ação normal. Para a escola, uma cola virtual.

O caso foi parar na polícia. A mãe da aluna processou a escola pela forma como a instituição conduziu o problema: suspendeu a aluna por cinco dias. A escola diz ter chamado o responsável de cada aluno que estava participando da comunidade para uma conversa particular, explicando que se tratava de uma cola indevida, um processo não pedagógico.

A revistapontocom conversou com especialistas nas áreas de tecnologia e educação para contribuir com o debate. Afinal, como é possível estabelecer uma interface criativa e construtiva entre a escola e, hoje, as redes sociais? Como eles avaliam o caso da aluna? Que pontos positivos é possível tirar deste caso?

Acompanhe:

Professor do Colégio Pedro II, Sérgio Lima afirma que a aluna fez um “uso pobre” das redes sociais. “As respostas dos deveres poderiam ter sido usadas para trocas de conhecimento entre os alunos, para que todos aprendessem mais sobre as questões. Pelo que entendi, as trocas tinham como único objetivo fraudar o sistema de notas da escola. Logo, um uso conservador e limitado das possibilidades ricas de aprendizagem que as redes sociais oportunizam”, destaca.

A ação da aluna, na visão do professor, pode ser considerada como um resultado conservador do sistema de avaliação da escola, que, de certa forma, incentiva a necessidade dos alunos colarem. Para Sérgio, se as escolas continuarem funcionando e propondo atividades condizentes com os resquícios da sistematização da Era Industrial, essas contradições serão cada vez mais frequentes. “Se a escola mudar as formas de aprendizagem e avaliação, a cola poderá não fazer mais sentido”, avalia.

Para o professor, o episódio é um prato cheio para as escolas que desejam continuar fechadas para o novo mundo tecnológico. Mas também é, ao mesmo tempo, uma ótima reflexão para as que querem, de fato, ampliar suas potencialidades e limites. “As escolas que querem uma desculpa para continuarem no século XIX poderão tomar este episódio como argumento a favor de seu neoludismo – uma ideologia que se opõem às novas tecnologias. Já as escolas que sabem que os desafios para se educar no nosso atual contexto informacional são enormes tomarão este episódio como um convite para a reflexão”.

Tarefa nada fácil. Afirma a professora Camila Lima Santana, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do IF Baiano. Ela reconhece a dificuldade, pois as escolas estão enraizadas em práticas lineares, segmentadas. E tudo que possibilite uma abertura, uma novidade, um caminho em que não se saiba trilhar, dá medo. Mas é preciso rever, refletir. “E reconhecer esses espaços digitais para além do ócio e das inutilidades. É fundamental pensar as redes sociais como locus de informação, de troca de saberes e aprendizagem”, conta.

Na avaliação de Camila, deixar de lado as tecnologias e, mais especificamente as redes sociais, não é uma boa estratégia. Afinal, as tecnologias são um elemento forte e contundente da atual cultura contemporânea. As redes sociais, assim como as clássicas instituições, como a escola, também favorecem a interação e a constituição de conhecimentos e valores. Portanto, afirma a professora, devem ser, pelo menos, objeto de discussão.

“É preciso olhar para o que está disponível na rede e apropriar-se de sua lógica para direcionar práticas pedagógicas e incentivar o diálogo com esses espaços, pois neles circulam informações, saberes e experiências, elementos fundamentais para o processo educativo. É preciso aliar essa dinâmica à práxis, compreendê-la, debatê-la e abrir as portas da escola para o mundo que a internet representa”, afirma.

Mestre em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Camila destaca ainda que as redes sociais são espaços de interação humana. “Os sites de redes sociais não são culpados por atos de violência, agressão, cola, por nada. Os sujeitos que agem dessa maneira na rede, agem em outros espaços. O que a internet permite é que essas práticas sejam divulgadas e atinjam maior número de pessoas. Somos nós, humanos, que fazemos os espaços serem o que são e terem as utilidades que desejamos”.

Andrea Ramal faz coro às observações de Camila. E vai mais além. Segundo ela, que é especialista em novas tecnologias, a internet não é um material didático pronto. É preciso que o uso de qualquer recurso, inclusive das redes sociais, com finalidades educacionais, seja fundamentado por um projeto pedagógico consistente. Para Andrea, o limite começa a existir quando as redes sociais, em vez de servirem para o desenvolvimento das pessoas e o crescimento dos estudantes, por meio do compartilhamento de conhecimentos e da comunicação intersubjetiva, começam a serem usadas com finalidades que ferem a ética. Para a especialista, cabe aos educadores – na escola e na família – orientarem os estudantes neste sentido.

“As redes sociais potencializam as atividades que se realizam em grupo, pois por meio delas os alunos podem se relacionar com outras pessoas. Pode haver produção coletiva de conhecimento, numa espécie de rede cooperativa de aprendizagem. Acredito que as redes sociais vão ajudar a fazer da sala de aula um ambiente mais interativo e dialógico, pois o modelo unidirecional da comunicação, no qual o professor fala e o aluno ouve, será substituído pelo modelo das redes em que todos os sujeitos têm vez e voz”.

Então as escolas que usam as redes sociais no ensino estão a um passo à frente das que não usam? Para Andrea, estas escolas provavelmente estão educando os alunos para conviver com naturalidade e consciência no mundo digital. “Escolas que ainda não usam precisam ficar atentas: podem estar educando os alunos ainda na lógica do papel e da caneta, da comunicação bidirecional, dos conhecimentos lineares. Mas as que usam também devem abrir os olhos: “o uso de redes sociais na educação depende, sim, de um planejamento pedagógico consistente”, pondera Andrea Ramal.