Fórum Pensar Infância

Por Marcus Tavares

Cinema infantil brasileiro: o quadro não é um dos melhores. A constatação é unânime entre criadores, produtores e formuladores de políticas públicas que estiveram presentes na abertura do Fórum Pensar a Infância, realizado na segunda-feira, dia 27, no Oi Futuro Ipanema, no Rio. Neste cenário, há boas perspectivas? Talvez. Para Glauber Piva, diretor da Ancine, e Sérgio Sá Leitão, diretor-presidente da RioFilme, é preciso que todos os setores envolvidos e interessados no tema estabeleçam um pacto pelo cinema infantil, pela infância brasileira, para que mudanças sejam, de fato, implantadas. Pacto que passa, segundo Leitão, pelo estabelecimento de cotas, por políticas afirmativas por parte dos governantes. Para Piva, não por cotas, mas por linhas especiais de financiamento.

“O mercado de cinema está vacilando com a infância. O que era ruim ficou ainda pior por conta de duas questões. Primeiro: o país perdeu, ao longo dos anos, as franquias de sucesso, oriundas da tevê, que garantiam boa bilheteria, como Os Trapalhões e Xuxa. Segundo: estamos assistindo à chegada dos filmes em 3D. O olhar das crianças está sendo treinado pelas produções estrangeiras neste formato, que não é pensando, nem produzido no Brasil. A indústria brasileira está se abdicando de conquistar corações e mentes das nossas crianças. A indústria audiovisual despreza o público infantil, que representa um terço da bilheteria. Um saída seria o estabelecimento de cotas. Toda política afirmativa tem caráter pedagógico. Na hora que demarca território, gera demanda”, avaliou Leitão.

Em sua fala, Piva concordou com Leitão, mas defendeu como ação concreta e imediata o estabelecimento de uma linha de financiamento para a cadeia produtiva do cinema infantil. Com recursos na ordem de R$ 600 milhões, que deverão ser aplicados ainda este ano, o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), na avaliação de Piva, deveria abrir uma linha específica voltada para o público infanto-juvenil. Segundo ele, esta é uma proposta que deverá ser levada e analisada pelo Comitê Gestor do FSA, composto por representantes do Governo Federal e da sociedade civil.

Clique aqui e saiba o que é o Fundo Setorial do Audiovisual

“Já foi anunciado, no primeiro semestre, um investimento de R$ 205 milhões. Agora, neste segundo semestre, serão destinados, para o mercado, mais R$ 400 milhões do Fundo Setorial do Audiovisual. Defendo que haja uma linha específica para a infância. Neste sentido, deveríamos investir na qualificação profissional para produção e gestão de audiovisual e no desenvolvimento de projetos. Seria importante também estimular a ampliação das co-produções internacionais na área, a produção multiplataforma e a inclusão do audiovisual nos currículos da Educação Básica. São ações que deveriam estar na pauta de um pacto pela infância. Mas é um pacto muito além de filmes que vamos financiar, que cinemas vão exibir. Vamos propor [um pacto pela infância] de verdade para o país inteiro? Para o Governo? Para institutos, vários ministérios e níveis governamentais? Assim como somos capazes de fazer um pacto pelo desenvolvimento, pela geração de emprego, pelo combate à miséria, vamos discutir a infância no Brasil pra valer? Isto significa enfrentar corporações, enfrentar visões de mundo. O que estamos fazendo aqui é uma disputa de visão de mundo. Passado o Fórum Pensar Infância, gostaria de debater com vocês da coordenação do Fórum e outras pessoas interessadas uma proposta para o Comitê Gestor do FSA”, garantiu Piva.

A abertura do evento, que integra o Festival Internacional de Cinema Infantil (FICI), também contou com a participação de Julia Levy, superintendente do audiovisual da Secretaria de Estado de Cultura do Rio, e de Rafael Parente, subsecretário de novas tecnologias educacionais da Secretaria Municipal de Educação do Rio.

No final do encontro, Carla Camurati, diretora do FICI e mediadora do evento, destacou que política pública, no caso a de audiovisual para a infância, não pode ser um ‘balcão de negócios’, ‘um jogo de empurra’. “Nossa legislação tem problemas. Não temos, de fato, uma política pública de cultura. É preciso um raciocínio mais profundo sobre o tema”, ponderou.

Os produtores Diler Trindade, Pedro Rovai e Virginia Limberger, a diretora Karen Acioly, a diretora do ComKids, Beth Carmona, o diretor de cinema de animação, Andrés Lieban,e a diretora do Festival Internacional de Cinema Infantil de Florianópolis, Luiza Lins, acompanharam o debate, bem como uma plateia atenta de professores, criadores, realizadores e defensores da causa da infância.

Educação: o que eu quero para minha cidade?

A revistapontocom lançou a pergunta para alguns leitores. Eles refletiram e escreveram para nós. Confira, abaixo, o que eles desejam para a educação. Envie também a sua resposta. Você pode publicar aqui mesmo ou então em nossa página no Facebook. Participe!

A educação é a base de tudo e de qualquer coisa. Tanto as pessoas que querem e lutam por um planeta Terra melhor quanto aquelas (que infelizmente ao longo da história da humanidade são as que tem o poder de decisão) que querem e lutam para um planeta Terra caótico, desequilibrado e desigual sabem disso. Essa luta do bem e do mal vê na educação sua principal aliada; tanto para o bem, que é uma educação que ensina a pensar, que liberta as mentes e os indivíduos e quanto para o mal, que é a educação que temos atualmente (na maioria das escolas), que quer crianças, jovens e professores que não pensam, limitados, desinteressados e insatisfeitos. Vamos eleger que tipo de candidato? O que vai investir na educação para o bem ou para o mal? A escolha é de cada cidadão. Raquel Pacheco é professora, pesquisadora e profissional na área da televisão e do cinema.

A Educação é uma questão decisiva e portanto complexa. Porém é fácil saber que ela precisa de três princípios fundamentais: a) Incorporar desde a mais tenra idade o entendimento vivencial de que a alegria, a solidariedade, a dádiva, a bondade e o amor facilmente encontrado nas crianças fazem parte da lógica da vida e que, portanto, a cultura é apenas mais um modo da natureza; b) o estudo, repito vivencial, a respeito das muitas culturas humanas apagadas dos currículos que, iniciando na Grécia, “ensinam” que a vida e o mundo seriam o que propagam a primazia da ação, da razão e do crescimento ilimitado, através da industrialização, do Iluminismo, da cultura protestante de prestar contas, da qualificação e competência profissional, e da economia baseada no crédito; c) também do estudo vivencial do não-dualismo, para que as pessoas saiam da prisão trágica e irresponsável de atribuírem tanto a responsabilidade pelo que acontece quanto à possibilidade de emancipação frente ao que acontece à entidades metafísicas como instituição, capitalismo, organização, sociedade, tecnologia, redes. Educação é ajudar a lembrar em rede o que não pode ser esquecido: que a vida é dádiva e que a sociedade é a possibilidade de sermos responsáveis por nossos estados mentais, eliminando do fluxo de nossas mentes (pensamentos, afetos e percepções) a ignorância, ódio e ganância que até aqui procuramos legitimar “cientificamente”. Como diz um provérbio hindu, se eu não sei quem eu sou, eu sirvo a você; se eu sei quem eu sou, eu sou você. Esta é a Educação que precisamos. A do encontro, a da preparação para viver o conflito como a possibilidade do vigor da complementaridade dos opostos. Vale dizer, do amor, como a base do biológico, do psíquico, do social, do político.” Evandro Vieira Ouriques é coordenador do NETCCON – Núcleo de Estudos Transdisciplinares de Comunicação e Consciência. da Escola de Comunicação da UFRJ e supervisor de pesquisas de Pós-Doutorado em Estudos Culturais, PACC.UFRJ, recebeu o prêmio de Melhor Acadêmico do Mundo, o Best Scholar 2010, do Reputation Institute de NY e o título de Guerreiro Zulu, da Universal Zulu Nation. Tem publicações no Brasil Dinamarca, Inglaterra, Estados Unidos, Chile, Portugal.

Quem cabe no TODOS das políticas educacionais no Rio de Janeiro? Eu quero uma cidade que não separe, categorize e hierarquize crianças e jovens, atribuindo-lhes maior ou menor valor na prioridade e na garantia do direito indisponível à educação. Eu quero uma cidade com habilidade e urgência para desconstruir, na prática e na mentalidade de gestores/as e da população, a ideia de que a pobreza é uma questão social, mas a deficiência é um “problema” das famílias. A prática da ONG Escola de Gente comprova que insistir na falsa competição entre “ser pobre” e “ter deficiência” é um dos maiores obstáculos à elaboração de políticas públicas educacionais inclusivas. Segundo a ONU, mais de 70% de pessoas com deficiência vivem na pobreza nos países em desenvolvimento. Segundo o Censo IBGE 2010, um quarto da população brasileira tem alguma deficiência. Pessoas com deficiência e pobres existem e precisam deixar de ser um dos principais alvos da violação de direitos humanos no Brasil e no mundo. Por isso estou alinhada com a Constituição e defendo a escola inclusiva: local onde as gerações se encontram, sem discriminação de qualquer natureza, com suas necessidades específicas de aprendizagem reconhecidas e atendidas, com amplos estímulos para desde cedo se articularem etica e politicamente para a construção de uma escola e de uma sociedade mais dignas do que aquelas recebidas, como herança, das gerações que as antecederam. Claudia Werneck é jornalista e escritora especializada em inclusão, empreendedora social e fundadora da ONG Escola de Gente. É autora de livros para crianças e adultos/as, entre eles o “Quem cabe no seu TODOS?”. 

A escola em que trabalho possui duas quadras e um campo de futebol, o que, de uma maneira geral, é muito, pois, na maioria das vezes, as unidades, quando têm, usam apenas o pátio como o único lugar para práticas esportivas. Uma das quadras foi, recentemente, reformada, mas a pintura já está saindo, e, por falta de recursos, não houve condições de melhorar a outra quadra e o campo, cheio de falhas e buracos. Do outro lado da rua, ao abrir, literalmente, a janela da minha sala, vejo as obras do Estádio Mário Filho, o Maracanã, que está recebendo investimento, de cerca de R$ 800 milhões, o que me faz pensar que: de um lado da rua, está um investimento para a “copa”, e do outro lado, um investimento para formar uma nação. A Educação que eu quero para minha cidade não deveria depender do lado que eu olhe da rua e sim, de que lado, o poder público vai investir. Adriano Barbosa – professor.

Quero uma cidade planejada para o bem estar e o conforto das pessoas, com menos automóveis e mais bicicletas e calçadas, menos ruído e mais verde, menos lixo e mais reciclagem, menos prisões e mais escolas, menos pobreza e mais inclusão, menos medo e mais alegria. Uma cidade onde as pessoas se sintam parte de um projeto coletivo, cúmplices de uma mesmo ideal, onde o que o espaço público que “não é de ninguém” passe a ser considerado “propriedade de todos”, e seja preservado e protegido por todos, para todos. André Trigueiro – jornalista.

 

Quero um IDEB melhor para minha cidade, mas mais do que isso, quero que as crianças aprendam. Quero que leiam. Não apenas que decodifiquem, mas que descubram o prazer da leitura, que encontrem um mundo de possibilidades infinitas, que tirem suas próprias conclusões. Quero que escrevam, em bom português, claro, mas que, além disso, se expressem, que criem, que utilizem diferentes linguagens para se comunicar. Quero que gostem de ir à escola e quero boas escolas, em todos os sentidos. Bem equipadas, bem cuidadas, com bons professores e que eles sejam bem pagos e tratados com respeito. Andrea Garcez – doutoranda em Educação pela PUC-Rio.

São tantos os quereres para minha cidade. Sim, pois não basta ter o título de Cidade Maravilhosa. É preciso ser e buscar cada vez mais motivos para continuar sendo digna do título pelo qual é reconhecida mundialmente. Além de suas necessidades nas áreas de saúde, transporte, lazer, limpeza e habitação, a Educação precisa ser muito bem cuidada. Todas as escolas devem estar em condições perfeitas. O prédio da escola deve estar bem cuidado, ser um lugar bonito, agradável, convidativo e com uma infraestrutura que mostre a importância que é aos que a frequentam e ao que lá acontece. As pessoas que lá trabalham precisam sentir-se valorizadas e isso passa pela formação continuada de qualidade, pelas boas condições de trabalho e, claro, pela remuneração digna. Não posso deixar de mencionar também que os alunos matriculados nas escolas da rede municipal merecem estudar conteúdos de acordo com o seu ano de escolaridade. Não podemos mais oferecer o mínimo para cobrar o mínimo do mínimo e fazermos de conta que está tudo bem. Não basta dizer que se quer uma educação de qualidade. É preciso fazer acontecer. Angela Ramos – professora.

Gostaria que houvesse um trabalho sistemático com as famílias dos alunos do Ensino Fundamental, para que elas aprendam a acompanhar o trabalho da escola e ajudem a elevar o rendimento dos filhos. Nos sistemas educacionais que mais se destacam no mundo, os pais/responsáveis têm boa escolaridade e ampla formação cultural; e quando não é assim, as escolas os capacitam para que eles reforcem e ampliem a educação da sala de aula. Para isso há técnicas específicas, que as famílias cariocas precisam conhecer. Não falo da conhecida “reunião de pais”, e sim de um projeto específico de formação. Ele pode ajudar a controlar a qualidade do ensino oferecido nas escolas, reforçar o trabalho dos bons professores, potencializar o rendimento das crianças, elevando o IDEB do município, e contribuir para a qualidade de vida na nossa cidade. Afinal, a parceria entre escola e família não melhora só as matérias, como português e matemática, mas também os comportamentos e atitudes, como respeito pelos demais, urbanidade e civilidade. Andrea Ramal – educadora.

Acredito que a educação seja a ferramenta essencial para a transformação. Já acordamos para o fato de que sem escola, nossos jovens não terão um futuro garantido. Acordamos para o fato, mas ainda longe do objetivo final. Quando penso em Educação, penso em qualidade: professores bem remunerados e capacitados, alunos com direto a qualidade de ensino, informação e oportunidade de se desenvolver de acordo com seus talentos e sobretudo usufruindo de seus direitos. Sou muito feliz e tenho grandes recordações da escola onde estudei e não tenho dúvida de que meus professores e diretores, junto de meus pais, é claro, foram pedras fundamentais na formação do meu caráter e encaminhamento para a vida adulta. Fiorella Mattheis – atriz.

O projeto de Educação que eu quero para a minha cidade terá de incluir a todos, considerar as crianças e os jovens como produtores de cultura e contribuir para que, efetivamente, possam ocupar/circular pela cidade, como atores e autores que são. Terá de cativar e ser cativado, não prescindir de sensibilidade, intuição, criatividade e também de aporte teórico que consubstancie práticas. Cativar e ser cativado demanda comunhão com o outro, com o seu saber/fazer; demanda abertura,disponibilidade para compreender outras lógicas, valores e entendimentos, o que requer um livre trânsito de ideias, em que ninguém tenha a vez e a voz extirpada, onde “as rosas vermelhas não sejam pintadas de branco por decreto da rainha.” O projeto que eu quero deve “conspirar” a favor de uma escola que se ocupe não apenas da formação científica, mas também da formação cultural, que ouse buscar as interseções, os diálogos, entre ciência e arte, fazendo do desafio de conhecer, de fato, uma grande aventura. Nessa escola o gato-careteiro viverá livremente. Para essa escola, o chapeleiro louco não será louco, não, apenas livre! Flavia Lobão – professora.

Quero uma educação para as pessoas da cidade, uma cidade do século XXI. Uma escola que trabalhe não apenas a dimensão da razão, da cognição, mas que incorpore em seu currículo e práticas as dimensões éticas e estéticas. Uma escola que trabalhe a partir da Palavra, do Território e do Corpo, além da Técnica, superando um modo fordista de ensinar e rompendo com uma referência de conteúdos que nos mantêm no século XIX. Uma escola que não busque apenas, e mesmo assim fracasse, em formar “pequenos gramáticos, geógrafos, historiadores, matemáticos, …”, mas que trabalhe com saberes que ajudem as novas gerações a compreender e agir por um mundo no qual se pratique o devido respeito às diferenças, além do compromisso com a construção de uma cidade onde a dignidade humana seja o principal valor. Uma escola que contribua para o exercício de uma humanidade plena e não para formar um ser reduzido à sua condição de consumidor de bens distintivos, reprodutor de velhas hierarquias. Uma escola com vida, democracia, alegria e que valorize sentimentos que devem ser cada vez mais públicos, universalizados: solidariedade, generosidade, amorosidade, bondade. Uma escola concreta, real, onde os seus sujeitos sintam-se tratados com dignidade e respeito, e assim tratem os outros. Quero uma escola humana em uma cidade educadora.” Jailson de Souza – educador.

Quero uma Educação contemporânea! Comprometida com as crianças e jovens do século XXI e suas novas formas de ser, estar e interagir no mundo. Uma Educação que compreenda as novas demandas, uma escola que se integre ao mundo e não se isole em seus muros. Um currículo que inclua o respeito, a política, a espiritualidade e a cidadania. Professores capacitados, bem remunerados e motivados! Quero uma Educação para além das escolas! Quero ações concretas que valorizem o cidadão, preservem nossos bens e respeitem a Natureza! Tiago Dardeau – professor.

 

Eu quero que nossas crianças aprendam de forma significativa, desenvolvam o raciocínio lógico, a capacidade de expressão e compreensão, a criatividade. Eu quero uma escola onde nossas crianças sejam amplamente expostas ao universo da palavra escrita, às diferentes linguagens, aos mais variados padrões estéticos. Eu quero uma cidade que ofereça uma escola que ensine e não de uma escola que simplesmente as avalie Escola não pode ser gerida pela lógica do mercado. A busca desenfreada por índices, a fome voraz de mensurar o desempenho escolar são incompatíveis com a lógica do conhecimento, do saber. Esta última possui outro ritmo, caminha noutro passo, também tem seus descompassos, mas é íntegra em sua intencionalidade, pois almeja tão somente o sucesso dos alunos. Marcos Ozório – professor. 

Quero políticas públicas que permitam a reelaboração da cultura e da identidade profissional dos professores de modo que possam questionar criticamente práticas pedagógicas hegemônicas; políticas públicas que possibilitem a reconfiguração da educação escolar de modo a ser pautada na diversidade, na aceitação das diferenças, para que seja inclusiva; políticas públicas que deem mais que acesso de qualquer pessoa à educação escolar, o sucesso de todos na aprendizagem. Quero uma educação associada à saúde e à segurança. Virgínia Barbosa – educadora.

 

O óbvio. O sonho. Ensino de qualidade para todos. Infraestrutura para que isso possa acontecer, com salários dignos para os profissionais envolvidos neste desafio e o fortalecimento da relação e troca entre a escola e a vida cultural da cidade, a sociedade. Rosane Svartman – cineasta.

 

 

 

Eu quero que a escola pública volte a ser desejada pela população da minha cidade. Para isso, as camadas populares e todas as demais estariam juntas compartilhando  o espaço escolar com ética e a certeza de que ele é pertence a todos eles. Neste caso, as escolas particulares existiriam como uma opção apenas os que buscassem uma  educação diferenciada, não melhor, apenas por ser paga. Nessa circunstância, ser professor seria uma escolha que resultaria de desejo e de alguma aptidão, mas também de  muita competência, sem qualquer aproximação com dons ou com sacerdócio. Aliás, os preceitos religiosos de qualquer natureza, estariam fora das escolas publicas laicas, por definição. As crianças e jovens sentiriam orgulho por ser dessa ou daquela escola, e os professores também. Ali estariam identificados e acolhidos como os protagonistas de uma construção  diária e coletiva que repercutiria e valorizaria as marcas de suas histórias,  embora ninguém estivesse errado nem pudesse ser excluído apenas por ser diferente. Maria Inês Delorme – professora.

Quero que a Educação na minha cidade seja de fato a prioridade do governo federal, estadual e da prefeitura. Isso inclui investimentos reais em planejamento, pesquisas, cientistas e principalmente professores e escolas. Que sejam desenvolvidas políticas públicas que estudem e entendam esse momento de transição, que hoje é chamado, segundo Bauman, de “Sociedade Liquida”, onde as relações são marcadas pela flexibilidade, fluidez e pela necessidade das mudanças. Que sejam criadas metas objetivas, eficientes e rápidas para implantação de uma Educação inclusiva, que reflita a realidade da nossa cidade mas também nos projete e nos insira num patamar de excelência mundial. Já que é para desejar… e que depois disso possamos nos diferenciar por nossas qualidades especificas de flexibilidade, facilidade de adaptação e criatividade. Patricia Aguiar – publicitária.

Eu quero para a minha cidade uma educação pública atualizada com o tempo em que vivemos. Uma educação que inclua, além dos aspectos cognitivos, os afetivos e sensoriais. Uma educação comprometida com o crescimento pessoal e coletivo. Uma educação mediada por valores de convivência solidária. Marinete D’angelo – consultora em educação e mídia.

 

 

Quero resgatar o apreço, atenção e orgulho pelo ensino público. Quero ver currículos multiculturais, inclusivos e diversificados em ação. Quero turnos estendidos ocupados por atividades significativas e disponíveis para todos os alunos. Novas tecnologias em ação e novos usos das velhas tecnologias em sala de aula. Quero programas de formação continuada desenhados e implementados por educadores de verdade e planos de carreira que valorizem o trabalho dos bons professores. Projetos de integração com as famílias e sociedade em geral. Quero ver atividades científico-culturais variadas acontecendo em parceria com escolas. Quero ver educadores nas equipes da Secretaria de Educação e não apenas economistas . Por fim, quero presenciar a alegria e a aprendizagem coexistindo nos mesmos espaços. Mônica Waldhelm – professora.

Eu quero uma educação baseada na experimentação, capaz de formular hipóteses e desenvolver soluções para problemas do cotidiano.  Onde o ensino das ciências exatas não se resuma a memorização de um corolário enfadonho e sem sentido.
Eu quero uma educação que pare de formar analfabetos funcionais em massa. Onde educadores não precisem optar entre um sanduiche ou ir ao cinema. Eu quero uma educação onde o binômio retenção/promoção de estudantes seja determinado pelas habilidades e competências adquiridas e não pela demagogia criminosa de gestores públicos, que decidem o destino de verbas públicas como quem conta “cabeças de gado”. Eu quero uma educação onde a formação de sujeitos autônomos seja algo mais que um bordão inscrito, cinicamente, em teses acadêmicas e programas de governo. Winston Sacramento – professor.

Quero uma cidade feliz, antes de tudo. Uma cidade sem violência, na qual as crianças, jovens e adultos possam sair de casa sem medo. Uma cidade que respeite todos os cidadãos. Para mim, este é o primeiro passo para uma educação de qualidade. Quero paz e desejo paz para toda a minha cidade. E que os políticos eleitos não trabalhem para si, mas para a população, sem demagogia, sem hipocrisia. Luanna Tavares – estudante de Comunicação.

Eleição 2012

No ano eleitoral, a revistapontocom lança a campanha Educação: o que eu quero para minha cidade? Conheça a nossa proposta, responda à pergunta, acompanhe as entrevistas e compartilhe esta ideia. Clique, abaixo, e saiba mais:

Convocatória
Silvana Gontijo, presidente do planetapontocom

Diário da campanha
Marcus Tavares, editor da revistapontocom

Eu quero para minha cidade…
Leitores respondem à pergunta

Qual é o papel da grande imprensa no período eleitoral?
Jornalistas Ana Lagôa, Eliane Bardanachvili e Élida Vaz opinam

 

“Muitos alunos saem da escola sem saber ler, escrever e ou contar”

Educação: o que eu quero para minha cidade? Este é o slogan da campanha da revistapontocom.Conheça a proposta e participe. Abaixo, você confere as primeiras entrevistas publicadas pela campanha.

As entrevistas aqui publicadas não traduzem a opinião da revistapontocom. Sua publicação obedece ao propósito de promover o debate da política pública municipal de educação, no Brasil, com ênfase no Rio de Janeiro, e de refletir as diversas tendências de pensamento. O espaço está aberto a todos os interessados em se manifestar.

Por Marcus Tavares

A diretora da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Rosana Glat, não titubeia ao ser perguntada qual é o maior desafio da política educacional do município do Rio de Janeiro: ensinar. Segundo ela, ainda há muitos alunos que saem da escola sem saber ler, escrever e ou contar. A professora reconhece que a Secretaria Municipal de Educação do Rio vem trabalhando no sentido de reverter o quadro, mas talvez não de uma forma pedagógica consistente.

“O que ouço de muitos professores da rede é que a Secretaria Municipal de Educação do Rio tem investido numa série de “pacotes” de apostilas que trazem textos já prontos e questões padronizadas, que objetivam a aprendizagem e a aceleração do ensino. Os professores se ressentem, pois, em vez de serem instigados a terem/desenvolverem uma iniciativa, são orientados a seguir e aplicar tais conteúdos destas apostilas, que muitas vezes não têm conexão com a realidade de seus estudantes. O objetivo é alcançar bons resultados nas avaliações externas às quais as escolas estão sendo submetidas, como a Prova Brasil. É uma boa estratégia? Sem dúvida, isso pode dar bons resultados, mas não passam de números, estatísticas. O foco é nas avaliações e não nos alunos”, destaca.

Em entrevista à revistapontocom, na sede da Faculdade de Educação da Uerj, Rosana faz uma análise da atual conjuntura.

Acompanhe:

revistapontocom – Como a senhora avalia a política educacional do município do Rio?
Rosana Glat – A rede municipal de escolas do Rio cresceu muito. Não tenho dúvidas de que a qualidade de ensino também melhorou. Não é ainda o padrão que nós desejamos, mas há uma qualidade. Fui membro do Conselho Municipal de Educação, durante a gestão da então secretária Sônia Mograbi. Foi durante este período que entendi o que era rede pública, sua estrutura e administração. Hoje, temos um acesso quase que universal às escolas. Existe uma discussão teórica, e não apenas empírica, tanto no nível da Administração Central quanto nas escolas da rede. Discussões que, sim, vêm se transformando de acordo com as posições político-ideológicas de seus dirigentes. Existe também um grande investimento na capacitação dos professores. Uma democratização da gestão. Por exemplo: os diretores das escolas são eleitos, o que não acontece em muitos municípios e estados brasileiros. Há uma participação da sociedade por meio do Conselho Escola Comunidade. Ou seja: quero dizer que a política educacional do município do Rio de Janeiro avançou, mas ainda temos muitos desafios pela frente. Um, que se apresenta fortemente, é a estrutura da rede. Temos uma rede imensa que, mesmo dividida por Coordenadorias Regionais de Educação (CREs), reúne uma diversidade muito grande de realidades e contextos socioeconômicos e culturais. Essa mega rede, de certa forma, dificulta a comunicação e a implementação das propostas. Há uma grande distância entre as políticas públicas geridas na Secretaria Municipal de Educação e o dia a dia do professor na escola. De uma forma geral, as CREs acabam trabalhando muito mais de forma burocrática e administrativa, não porque queiram, mas pela própria dinâmica do trabalho, do que numa linha pedagógica, de auxilio ao trabalho do professor. Posso estar generalizando, porém é o que ocorre. Seria preciso promover um trabalho pedagógico muito mais local, do que centralizado no âmbito da Secretaria Municipal de Educação. É preciso descentralizar as decisões e as discussões. Até que elas cheguem à base, se perderam. É necessário disponibilizar tempos e espaços para que os professores, na escola, troquem informações e experiências. Os diretores e coordenadores pedagógicos também precisariam deste espaço. Eles estão tão atarefados com questões administrativas, não têm tempo para discutir os problemas e os desafios pedagógicos, a reformulação dos currículos etc.

revistapontocom – Este diálogo entre o nível central da Secretaria Municipal de Educação e as escolas é o principal desafio da rede de escolas do Rio?
Rosana Glat – Um deles. O principal é, sem dúvida, o ensinar. Como fazer com que os alunos aprendam? Ainda temos muitos alunos que saem da escola sem saber ler, escrever e ou contar. A escola é o único instrumento que pode transformar a sociedade e a pessoa.

revistapontocom – Mas isto não vem sendo perseguido atualmente?
Rosana Glat – Sim, mas talvez não de uma forma pedagogicamente consistente. O que ouço de muitos professores da rede é que a Secretaria Municipal de Educação do Rio tem investido numa série de “pacotes” de apostilas que trazem textos já prontos e questões padronizadas, que objetivam a aprendizagem e a aceleração do ensino. Os professores se ressentem, pois, em vez de serem instigados a terem/desenvolverem uma iniciativa, são orientados a seguir e aplicar tais conteúdos destas apostilas, que muitas vezes não têm conexão com a realidade de seus estudantes. O objetivo é alcançar bons resultados nas avaliações externas às quais as escolas estão sendo submetidas, como a Prova Brasil. É uma boa estratégia? Sem dúvida, isso pode dar bons resultados, mas não passam de números, estatísticas. O foco é nas avaliações e não nos alunos. É claro que numa rede de mais de mil escolas, há aquelas em que o diretor orienta seus professores a dar continuidade às práticas que já realizavam, há aquelas que seguem a orientação do nível central e há aquelas que continuarão à margem, sem desenvolver nenhuma ação concreta neste sentido. Por não ter uma formação básica como educadora, mas, sim, uma gestora, a atual Secretária Municipal de Educação [Claudia Constin], aposta nestas avaliações, nestas estatísticas.

revistapontocom – Foi uma ruptura com a gestão anterior?
Rosana Glat – Foi uma mudança significativa. Hoje há um foco em grandes projetos e em estatísticas. Antes, nas duas gestões anteriores, sob a direção da então Secretária Sônia Mograbi, o foco estava numa proposta pedagógica mais individualizada, dentro da própria escola, fruto da elaboração do Núcleo Curricular Base – MultiEducação, produzido na época da Secretária Regina de Assis, que dava ampla margem para adaptações ao nível local. Acho que, de uma certa forma, fomos de um extremo ao outro.

revistapontocom – Há um consenso geral de que a educação deve ser prioridade em qualquer governo. E não faltam soluções e encaminhamentos para alcançar uma qualidade no ensino. Mas por que parece que pouco avançamos?
Rosana Glat – A educação não é prioridade. Há interesses econômicos que prevalecem e limitam as ações. Às vezes, a opção não é pedagógica e, sim, financeira. O Secretário de Educação também não trabalha sozinho, não tem total autonomia; ele pertence a um sistema de governo que não prioriza, quase sempre, a educação. Acho que as pessoas quando assumem seus cargos políticos acabam jogando o “bebê fora junto com a água suja do banho”. Poderia citar dois exemplos práticos no contexto da Secretaria Municipal de Ensino do Rio. O primeiro deles tem a ver com a área da Educação Especial. O Rio de Janeiro é um dos municípios, até mesmo por ter sido capital federal, que, nos últimos 20 anos, avançou muito nos debates sobre este tema. Nossa rede tinha uma característica marcada por uma gestão diferenciada no atendimento aos estudantes portadores de necessidades especiais. A cidade oferecia várias modalidades/opções de escolarização, como classes especiais e salas de recurso. No início da atual gestão, vimos um certo retrocesso no encaminhamento desta política. Por uma orientação também do MEC no sentido de promover a inclusão total destes estudantes às salas regulares, inicialmente houve uma política da SME de fechar as classes especiais e incluir todos os alunos. Não havia uma infraestrutura nem material nem de recursos humanos qualificados para dar conta desta política. O que aconteceu? Uma grande confusão, na qual vários pais de alunos acionaram o Ministério Público para terem resguardados seus direitos e de seus filhos por uma educação diferenciada. Houve então uma descontinuidade. Esse exemplo mostra também uma outra consideração, que é a profunda distância entre o sistema público de ensino e as universidades, que poderiam contribuir com o trabalho de implementação e avaliação da política pública. Ainda no caso da Educação Especial, uma das ações da Prefeitura foi a contratação de estagiários para acompanhar os alunos com necessidades especiais incluídos em turmas comuns. Não sei como foi a capacitação desses estagiários, mas muitos são alunos nossos nos primeiros períodos do Curso de Pedagogia, e pelo relato que fazem, muitos acabaram se transformando em “babás” dos alunos. O segundo exemplo se refere à Educação Infantil, que também me parece que ainda há muito para evoluir. Faltam vagas no segmento. Além disso, também há carência de profissionais capacitados. Em boa parte, as crianças são atendidas por pessoas que ocupam o cargo de agente auxiliar de creche, que não têm formação específica, embora haja, certamente, supervisão. Tem sido também apontado por especialistas da área que a atual gestão resgatou avaliações psicológicas, para serem trabalhadas na Educação Infantil, datadas da década de 70, que são alvo de grandes críticas. Mais uma vez digo: a Faculdade de Educação poderia oferecer formação para os professores e estabelecer debates sobre novos meios de avaliação, por exemplo. Isso poderia ser estabelecido por meio de convênios e parcerias, sem grandes custos. O sistema não aproveita e estreita laços neste sentido. No entanto, contrata profissionais da academia para projetos pontuais, sendo bem remunerados. Em vez de aproveitar os recursos das universidades, contrata empresas e ou ONGs. Não sou contra parcerias com o setor privado. Pelo contrário, mas é preciso deixar claro quem “dá as cartas”, quem “dita as regras” e quais são os encaminhamentos pedagógicos.

revistapontocom – Se essa parceria entre o sistema municipal de ensino e as universidades é tão rica e proveitosa como a senhora destaca, por que ela não acontece? Já aconteceu?
Rosana Glat – Oficialmente, que eu saiba não aconteceu. Não temos uma aliança institucional, uma parceria bem fundamentada. A aproximação acontece muito mais na figura individual de um pesquisador da academia que tem interesse em estudar/pesquisar algum objeto/projeto da Secretaria Municipal de Educação e que tem entrada na rede; não a nível institucional. E isso não acontece só em relação ao município do Rio de Janeiro. Acho que grande parte do sistema público de ensino tem certa desconfiança da universidade. Acha que a academia vai querer ditar as regras, dizer que tudo está errado e não trazer qualquer contribuição.

revistapontocom – Na luta pela educação pública de qualidade qual deve ser o papel da sociedade?
Rosana Glat – A sociedade deveria ser mais pró-ativa. Mas fazemos pouco neste sentido. Somos o país do carnaval. Ainda não temos, infelizmente, aquela noção de direito do consumidor. Não somos apenas consumidores de produtos industrializados, mas também, por exemplo, da educação pública. O professor é um funcionário público do cidadão que paga os impostos; é meu funcionário. É necessário ter esta consciência. Mas somos uma geração que veio da ditadura, que foi antecedida pela figura dos coronéis. Nestas eleições, a população deveria analisar e procurar conhecer mais os candidatos, olhar e acompanhar o que a mídia independente vem publicando, já que ela não está ligada a nenhuma grande corporação ou interesse político. E digo mais: pesquisar e conhecer não apenas os candidatos à Prefeitura, mas os candidatos à Câmara dos Vereadores. Não podemos esquecer que deste grupo sai a Comissão da Educação da Câmara, que vai legislar sobre o tema.

revistapontocom – Qual deve ser o perfil do próximo secretário(a) de educação do Rio?
Rosana Glat – Ele tem que ser educador, não precisa ser formado em Pedagogia, mas é necessário que esteja ligado à educação. Penso que é bom que seja alguém que seja oriundo da rede municipal ou que pelo menos conheça bem esta rede. Que seja alguém que, preferencialmente, não esteja ligado a nenhum partido político para que possa montar uma boa equipe, acima dos interesses partidários. Um indivíduo que tenha a capacidade e humildade de manter aquilo que está dando certo. Um secretário que seja capaz de imprimir sua marcar, sem destruir o que já foi construído. Mas também tem que ser uma pessoa ‘furona’, que tenha peso político e reconhecimento para lutar e dialogar com diferentes secretarias em favor da sua pasta. E que por fim faça bom uso do Conselho Municipal da Educação, que reúne representantes do poder público e da sociedade civil organizada.

“Repetimos a mesma ladainha há muitos anos, só que entre nós mesmos”

Educação: o que eu quero para minha cidade? Este é o slogan da campanha da revistapontocom.Conheça a proposta e participe. Abaixo, você confere as primeiras entrevistas publicadas pela campanha.

As entrevistas aqui publicadas não traduzem a opinião da revistapontocom. Sua publicação obedece ao propósito de promover o debate da política pública municipal de educação, no Brasil, com ênfase no Rio de Janeiro, e de refletir as diversas tendências de pensamento. O espaço está aberto a todos os interessados em se manifestar.


Por Marcus Tavares

“Precisamos envolver a sociedade no debate da Educação. E envolver implica mobilizar a participação da população, que, ao se perceber realmente envolvida em um determinado processo, passa a se sentir corresponsável pelos seus resultados, sejam eles positivos ou não. No momento em que os indivíduos perceberem que têm, unidos, poder decisório sobre a definição das políticas públicas, eles se tornam corresponsáveis. Todo esse processo precisa ser desencadeado”. A constatação é da professora e diretora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), Janaína Specht Menezes.

Para a professora, a ladainha sobre os desafios e as possíveis saídas para a melhoria das políticas educacionais é sempre a mesma e há muitos anos é dita. Porém, trata-se de um discurso que circula somente entre os professores. Daí a necessidade de envolver a sociedade.

Em entrevista à revistapontocom, na sede da Faculdade de Educação da UniRio, Janaína destaca de que forma a população deve observar as plataformas educacionais dos candidatos.

Acompanhe:

revistapontocom – Como a senhora avalia a educação municipal do Rio de Janeiro?
Janaína Specht – Para falar da cidade do Rio de Janeiro é preciso, primeiramente, fazer uma breve análise nacional. Durante a década de 1990, aconteceram muitos avanços, principalmente em termos de acesso e permanência do aluno na escola pública. Pode-se dizer que presenciamos uma revolução educacional. Foi nesta década de 1990 que foi aprovada a Emenda Constitucional de número 14, que clarificou as responsabilidades dos entes federados para com a Educação. Estabeleceu-se que o município ficaria responsável pela Educação Infantil e pelo Ensino Fundamental e, o Estado, pelos Ensinos Médio e Fundamental. Isso facilitou muito o acompanhamento e controle das responsabilidades dos entes federados para com a Educação nacional. Antes, nem eles sabiam o que deveriam priorizar. Não existia uma política de responsabilização. A  emenda trouxe essa clarificação. Em seguida, foi criado o Fundef (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério), que fortaleceu a política de financiamento da Educação Básica. Não existe direito à Educação se ele não vier associado a fontes estáveis, regulares e sólidas de recursos. O Fundef trouxe esse recurso para o Ensino Fundamental, vinculando o repasse das verbas ao quantitativo de alunos matriculados. Isso possibilitou a ampliação do atendimento. Em1996, foi também aprovada a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), que trouxe uma nova orientação para a Educação para o país. A partir daquele ano, o país começou a caminhar diferente. Agora, em 2006, o Fundef foi substituído pelo Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação). Mais recentemente, em 2010, tivemos a Conferência Nacional de Educação (CONAE), que subsidiou, ou que pelo menos deveria balizar a construção do novo Plano Nacional de Educação, a qual indicou que o país deveria aplicar 10% do PIB (Produto Interno Bruto) na Educação. O projeto de lei, hoje, está em análise no Congresso Nacional. Ao listar estas questões quero mostrar que houve, sim, um significativo avanço na educação do país. Foram suficientes? Não, não foram. Mas não podemos negar que melhorou. No que tange ao Rio de Janeiro, com certeza a Educação tem muito a avançar. O Rio apresenta valores para o IDEB distantes das suas reais possibilidades. Talvez a quantidade de alunos, por ter a maior rede de escolas da América Latina, no âmbito de uma cidade, interfira na qualidade. Não sei. O fato é que a cidade poderia e merecia contar com uma melhor qualidade não só na Educação.

revistapontocom – Quais seriam os desafios da Prefeitura do Rio em busca da qualidade?
Janaína Specht – Não sei se eu tenho condições de responder a esta questão. Para isso, teria que haver uma pesquisa, que levantasse as dificuldades da rede. Mas, entre outros aspectos, creio que é preciso rever o currículo do Ensino Fundamental. Além disso, um grande desafio é cumprir efetivamente as determinações associadas ao financiamento da educação, quero dizer, respeitar o ordenamento normativo associado ao financiamento da Educação pública. Questiona-se se o Rio de Janeiro vem aplicando o percentual constitucional de 25% dos impostos na Educação. E outro ponto importante: faz-se necessário a ampliação das matriculas em horário integral. Não há saída: precisamos possibilitar aos jovens uma Educação integral em tempo integral. Se o Sul do país é comparado com a Europa e no Norte temos altos indicadores de pobreza, a cidade do Rio constitui-se importante exemplo da desigualdade brasileira. Uma escola de tempo integral que tenha por objetivo a formação integral das crianças, que possibilite atividades que extrapolem e fortaleçam o currículo regular, como aulas de música, teatro e esportes, com certeza, impactaria positivamente na Educação das crianças e jovens cariocas, portanto, na diminuição desta desigualdade. É necessário ampliar o tempo que os estudantes passam na escola. Mas que este tempo não resulte o dobro do mesmo. Para que isso seja de fato implantado voltamos à questão do financiamento. Não sou ingênua, não acho que a Educação vai resolver os problemas do mundo, mas contribuirá enormemente se a priorizarmos no contexto da administração pública, e de forma intersetorial, envolvendo a Educação, a Saúde, a Cultura e outras áreas.

revistapontocom – Professora, todas essas reivindicações já foram ditas mais de mil vezes. Por que é tão difícil de concretizar/realizar uma política pública educacional de qualidade?
Janaína Specht – Todas essas reivindicações estão claras para mim e para você, para os professores das universidades. Mas a população, de modo geral, tem pouco acesso às informações. Um exemplo simples: a sociedade não sabe que parte do preço dos alimentos é composta de impostos. Diferentemente dos EUA, nossa população esquece e, pior, não é lembrada, não é informada de que é ela quem financia o Estado e, portanto, pode e deve cobrar por seus direitos. Sabemos que 25% dos impostos devem ser investidos na Educação. Você acha que a população sabe disso? Ela quer que o filho tenha uma escola melhor, porém desconhece que é parte integrante do processo do financiamento do Estado e que pode cobrar por seus direitos, simplesmente, porque paga muito bem por isso. Na verdade, repetimos a mesma ladainha há muitos anos, só que entre nós mesmos. Esse discurso, portanto, não circula. Quando discuto estas questões com meus alunos, eles se espantam por desconhecerem algo tão importante, e, felizmente, ficam inquietos. Além disso, atualmente, a Educação, em nosso país, infelizmente, tem dificuldade para mobilizar a população. A mídia, que poderia auxiliar neste processo, parece ausente. Veja a questão atual da greve das universidades. Não se fala sobre isso nos meios de comunicação e quando se fala, é muito pouco. Quem controla a mídia no Brasil? Quais são os interesses da mídia? A quem ela atende? Precisamos envolver a sociedade no debate da Educação. E envolver implica mobilizar a participação da população, que, ao se perceber realmente envolvida em um determinado processo, passa a se sentir corresponsável pelos seus resultados, sejam eles positivos ou não. No momento em que os indivíduos perceberem que têm, unidos, poder decisório sobre a definição das políticas públicas, eles se tornam corresponsáveis. Todo esse processo precisa ser desencadeado.

revistapontocom – Nestas eleições, como a população deveria avaliar as propostas para a pasta da Educação dos candidatos à prefeitura do Rio?
Janaína Specht – Sugeriria que analisasse o histórico dos candidatos em relação às suas ações associadas à Educação. O que o candidato está propondo? O que ele já fez pela educação, se já teve algum cargo eletivo? Dizem que o brasileiro não tem memória. Eu luto pela preservação da minha memória, luto pela divulgação da importância das memórias para que não cometamos os mesmos erros. Se o candidato é novo na política, temos que analisar o projeto que está propondo para a Educação. Ele vai investir na Educação? Em quê? Quanto? Como? Ele pensa na ampliação de vagas? Em horário integral? Como analisa a importãncia do controle e acompanhamento social da política educacional? De que forma ele planeja chamar a sociedade para debater a educação? É preciso ficar bem atento.

revistapontocom – Qual deveria ser o perfil do próximo secretário de Educação do Rio?
Janaína Specht – Já morei em muitos municípios e Estados brasileiros. Nestas andanças, já vi um engenheiro ser um ótimo secretário. À primeira vista, não arriscaria ser corporativista com a área educacional. Indicaria alguém com experiência, que venha atuando na Educação. Não precisa ser necessariamente professor. A pessoa precisa, sim, ter uma história na Educação, conhecer a Educação do município. Tem que ser um profissional que tenha investido parte de sua vida, do seu conhecimento e energia na área da Educação. Há de ser também, é claro, uma pessoa política e moralmente idônea. O que me preocupa muito é quando o prefeito eleito coloca um político para dirigir a Educação. Quero uma pessoa que tenha uma história associada à educação e que essa história seja digna.

“Professores e alunos devem ficar mais tempo na escola”

Educação: o que eu quero para minha cidade? Este é o slogan da campanha da revistapontocom.Conheça a proposta e participe. Abaixo, você confere a entrevista com a ex-secretária municipal de Educação do Rio, Mariléa da Cuz.

As entrevistas aqui publicadas não traduzem a opinião da revistapontocom. Sua publicação obedece ao propósito de promover o debate da política pública municipal de educação, no Brasil, com ênfase no Rio de Janeiro, e de refletir as diversas tendências de pensamento. O espaço está aberto a todos os interessados em se manifestar.

Por Marcus Tavares

“Questões políticas à parte, há duas coisas que defendo. Primeiro: não é só o aluno que deve ficar mais tempo na escola. O professor também, não dando aula, mas se atualizando, pesquisando e dialogando com outros profissionais. E segundo: acho que a escola precisa contar com uma equipe interdisciplinar composta por psicólogo, assistente social e advogado, para dar conta da complexidade da educação diante dos conflitos familiares que são cada vez maiores e que refletem no ambiente escolar”. A afirmação é da professora e ex-secretária municipal de Educação do Rio, Mariléa da Cruz, que ocupou o cargo entre 1989 e 1992.

Em entrevista à revistapontocom, em sua casa, Mariléa defende o horário integral como uma estratégia para a resolução de vários desafios educacionais, mas para que o projeto dê certo é preciso que o governo promova ações dentro e fora da escola para garantir a qualidade. “Do contrário, é melhor a escola sem horário integral, mas com uma excelente qualidade de ensino”, destaca a professora que está, hoje, à frente da ONG Cidadaniarte

Acompanhe:

revistapontocom – Há 20 anos, a senhora terminava o seu mandato à frente da secretaria municipal de Educação do Rio. O que mudou na escola de lá para cá?
Mariléa da Cruz – O processo educacional é uma questão bem complexa e que envolve a resolução de uma infinidade de problemas que se entrelaçam, sendo que alguns de muita dificuldade para encontrar alguma solução. No dia a dia da política pública educacional, você tem problemas relativos à cultura política, à estrutura administrativa, aos recursos públicos, à rapidez com que as coisas acontecem e ao descompasso entre a realidade da escola conservadora e o avanço científico-tecnológico. Soma-se a isto a relação família e escola, hoje mais agravada e complexa. A escola deixou de ser a instituição da sabedoria, da informação. A informação está ao alcance de todos, independentemente da escola. O desafio de hoje não é informar, mas como fazer com que os estudantes assimilem, analisem e utilizem a informação de forma adequada. Por sua vez, a família, diferente de antigamente, não tem mais tempo para seus filhos. Nesta simbiose – família e escola – há ainda a realidade socioeconômica da cidade que interfere no dia a dia da escola, dos professores, funcionários e alunos. Por conta dessas questões e seus desdobramentos, o desafio da escola de hoje é muito maior. Digo que nos dias de hoje, torna-se mais difícil encontrar solução para os grandes desafios escolares que se agravaram e os novos que surgiram.

revistapontocom – Que desafios escolares seriam estes?
Mariléa da Cruz – Por exemplo, a formação do professor. Nem as universidades nem as escolas normais conseguiram encontrar um novo caminho para qualificar o trabalho do docente. Há ainda o velho ranço dos baixos salários e das condições de trabalho dos professores, questões que passam pela postura política dos governantes. Educação não dá visibilidade política, pois se trata de um processo longo. Quando, de fato, um prefeito chega a ser avaliado pela sua gestão educacional, muitas vezes ele já faleceu. Quando ele está no poder, muitas vezes lança um projeto sem necessariamente analisar todas as circunstâncias em que a proposta se dará. Lança um projeto apenas para ter visibilidade, não garante, portanto, a sua continuidade. Educação não é prioridade. Isto é fato e a história está aí para confirmar. Questões políticas à parte, há duas coisas que defendo. Primeiro: não é só o aluno que deve ficar mais tempo na escola. O professor também, não dando aula, mas se atualizando, pesquisando e dialogando com outros profissionais. E segundo: acho que a escola precisa contar com uma equipe interdisciplinar composta por psicólogo, assistente social e advogado, para dar conta da complexidade da educação diante dos conflitos familiares que são cada vez maiores e que refletem no ambiente escolar. A ampliação da permanência das crianças e dos jovens na escola, ou seja, o horário integral, também é uma bandeira. O horário integral remete à proposta do Darcy Ribeiro e de Leonel Brizola. Foi, sem dúvida, uma proposta arrojada. O que aprendemos: não basta oferecer horário integral na escola, é preciso que o governo promova ações dentro e fora da escola para garantir a qualidade deste horário integral. Do contrário, é melhor a escola sem horário integral, mas com uma excelente qualidade de ensino.

revistapontocom – E em relação à política pública municipal de Educação do Rio? Avançamos?
Mariléa da Cruz – Não vou dizer que conheço profundamente o que tem acontecido hoje no âmbito da secretaria municipal de educação do Rio. Primeiro por defasagem do tempo. E segundo porque comecei a me dedicar a outras atividades, relacionadas à educação, mas não ligadas à política pública. E, evidentemente, o fato de já ter sido secretária cria algumas dificuldades, até para se aproximar e entender o que está acontecendo. Não vou dizer que está pior ou melhor. Acho que todas as secretárias que por lá passaram tiveram a intenção de fazer funcionar o sistema, de melhorá-lo. Todas tiveram suas realizações e deficiências, como também tive. Acho que do ponto de vista de estabelecer uma relação entre cultura e educação avançamos. Posso dizer com certo orgulho que começamos isso, quando iniciamos a realização de concursos (cartazes), festival de pipas, criação de corais, do centro de memória da educação. Avançamos também à medida que temos, hoje, quase a universalidade no atendimento no Ensino Fundamental. Aponto ainda, como positivo: o trabalho junto aos estudantes com dificuldade de aprendizagem e a tentativa de aumentar a participação da comunidade na escola, com o fortalecimento do Conselho Escola Comunidade, que hoje não tem o mesmo peso de antes, mas tem uma função estratégica. Mas, de fato, não avançamos em questões históricas, como o salário dos professores e volto a falar: as condições de trabalho. Outros problemas se agravaram, como a questão da violência na cidade e dentro da escola. E, pelo que sei, existe hoje entre os professores uma insatisfação generalizada com relação às estatísticas escolares. Houve um momento em que os docentes não estavam satisfeitos com a aprovação automática. Hoje, parece que esta insatisfação é maior, pois, ao acabar com a aprovação automática, o atual prefeito foca em estatísticas e avaliações para mostrar que o nível das escolas está melhor. Para isso, chega à escola uma série de projetos que tem o objetivo de alcançar metas, não permitindo que as escolas desenvolvam, com mais liberdade, seu próprio projeto político pedagógico, mais voltado à sua realidade. Na minha época, lançávamos projetos, mas as escolas desenvolviam os que mais tinham a ver com o seu cotidiano e entorno.

revistapontocom – Como a senhora avalia a participação da sociedade neste debate?
Mariléa da Cruz – Acho que a população se interessa pouco pela educação. Houve um momento durante o Governo Brizola de certa mobilização. Percebo que as famílias não dão à educação, a importância que ela merece. Muitas vezes os pais mandam seus filhos para a escola por causa do Bolsa Família ou porque simplesmente têm de trabalhar. A Educação como está, não é algo que representa o futuro, que possibilita a transformação. Há um sentimento de derrota instaurado. Existem pais que não acreditam nos seus filhos, na capacidade deles. Se eles não aprendem, a culpa não é da escola, é deles.

revistapontocom – Neste sentido, fica difícil a sociedade avaliar os candidatos, principalmente em relação à plataforma educacional?
Mariléa da Cruz – Certamente. Acho que para avaliar, a sociedade precisa, primeiro, acreditar nos candidatos. Hoje, com tantos escândalos e problemas, a população já se habituou a escutar promessas com a perspectiva de que não serão cumpridas. Há um descrédito muito, muito grande. A grande preocupação da sociedade, nos dias de hoje, é a saúde. A população poderia, sim, pressionar os governos para que a educação se tornasse prioridade, mas para isso ela precisaria estar dentro da escola, vivenciando as relações, o cotidiano. Se a sociedade não pressiona, o governo não valoriza, não dá a devida prioridade e visibilidade que a Educação merece. Com isso, a Educação é tocada do jeito que dá, de acordo com a vontade política do secretário. Um secretário de Educação, por mais que tenha a melhor ideia, depende do governo, seja municipal, estadual ou federal.

revistapontocom – Qual deve ser o perfil do(a) secretário(a) municipal de Educação do Rio?
Mariléa da Cruz – Acho que ele não precisa ser um educador. Ele tem que ter a qualidade de perceber quais são os problemas e se cercar de profissionais competentes. Que ele assuma não por vaidade profissional, mas porque quer contribuir com a educação de qualidade. Seu principal desafio será convencer toda a equipe governamental da importância da educação.

EUA ampliam privacidade infantil na web

Por Mariana Barbosa
Da Folha de S. Paulo

Os EUA publicaram ontem novas regras sobre publicidade e proteção de dados de crianças na internet, que podem afetar a forma como redes sociais e sites de adultos lidam com dados de crianças. Sugeridas pela Comissão Federal de Comércio (FTC), as novas regras, que devem entrar em vigor após um período de 40 dias de consulta pública, são uma atualização do Coppa, lei que trata da privacidade de crianças na internet e que data de 1998 – antes, portanto, de Facebook, Twitter e afins.

O Coppa estabelece que sites voltados especificamente para crianças precisam de autorização de pais para coletar qualquer informação, como nome e e-mail de usuários com menos de 13 anos. Porém, essa restrição tem sido driblada quando as crianças se conectam aos jogos por meio de redes sociais. Pela nova regra, redes como Facebook não poderão mais coletar informação de criança sem o consentimento verificável dos pais. Não basta enviar um e-mail para um endereço fornecido pela criança. É preciso fornecer dados de cartão de crédito ou enviar uma assinatura por fax. A responsabilidade sobre a violação das regras não estará restrita ao site. A empresa responsável pela coleta de dados e o portal que estiver hospedando o site também terão de responder.

A atualização do Coppa também deve garantir a efetiva proibição do uso de publicidade dirigida com base no comportamento da criança na internet. Anunciantes e empresas como o Facebook já se manifestaram contra as novas regras, que estão em discussão já há alguns anos. Eles dizem que a indústria já adota padrões de conduta que proíbem as práticas que a nova legislação quer coibir.

Recentemente, porém, o FTC tentou processar a rede social OpenFeint por violar as regras do Coppa, mas teve de encerrar a investigação por falta de clareza na legislação. Na contramão da nova legislação, o Facebook anunciou recentemente que quer liberar a rede para menores de 13 anos, oferecendo ferramentas para os pais controlarem melhor a conta filhos.

Epidemia de amor pelas crianças

Por Contardo Calligaris
Psicanalista

1) É habitual que, na infância e na adolescência, um jovem sonhe com vitórias e aplausos, sem pensar nos esforços necessários para merecê-los.Nestes dias, deparo-me com crianças ninadas por devaneios de glória olímpica. Sem querer, corto seu barato, explicando o que é indispensável fazer para que esses sonhos se transformem numa chance real de chegar lá. As crianças respondem que elas não têm a intenção de realizar o tal sonho: apenas querem o prazer de devanear em paz. Até aqui, tudo bem, mas os pais me acusam de estragar, além dos sonhos, o futuro dos filhos, os quais, segundo eles, para triunfar na vida, precisariam confiar cegamente em seus dotes. O problema é que os elogios incondicionais dos pais e dos adultos não produzem “autoconfiança”, mas dependência: os filhos se tornam cronicamente dependentes da aprovação dos pais e, mais tarde, dos outros. “Treinados” dessa forma, eles passam a vida se esforçando, não para alcançar o que desejam, mas para ganhar um aplauso. Claro, muitos pais gostam que assim seja, pois adoram se sentir indispensáveis (no cinema, uma mãe enfia a cara embaixo de seu próprio assento para atender o telefone que vibrou no meio do filme e sussurrar um importantíssimo: sim, pode tomar refrigerante).

2) Meu irmão, aos dez anos, quis que todos escutássemos uma música que ele acabava de “compor”. Movimentando ao acaso os dedos sobre o teclado (não tínhamos a menor educação musical), ele cantou uma letra que começava assim: sou bonito e eu o sei. Minha mãe escutou, constrangida, e, no fim, declarou que a letra era uma besteira, e a música, inexistente. Mas, se meu irmão quisesse, ele poderia estudar piano –à condição que se engajasse a se exercitar uma hora por dia. Meu irmão (desafinado como eu) desistiu disso e se tornou um médico excelente.

3) Os pais dos meus pais davam, no máximo, um beijo na testa de seus filhos. Já meus pais nos beijavam e abraçavam. Mesmo assim, não éramos o centro da vida deles, enquanto nossos filhos são facilmente o centro da nossa. Para a geração de meus avós e de meus pais, a vida dos adultos não devia ser decidida em função do interesse das crianças, até porque o principal interesse das crianças era sua transformação em adulto (criança tem um defeito, foi-me dito uma vez por um tio: o de ser ainda só uma criança). Lá pelos meus oito anos, eu tinha passado o domingo com meus pais, visitando parentes. A noite chegou, e eu não tinha nem começado meu dever de casa. Pedi uma nota assinada que me desculpasse. Meu pai disse: esta criança está com sono e deve trabalhar, façam um café para ele. Detestei, mas também gostei de aprender que, mesmo na infância, há coisas mais importantes do que sono e bem-estar.

4) Na pré-estreia do último “Batman”, em Aurora, Colorado, um atirador feriu 58 pessoas e matou 12. Um comentador da TV norte-americana (não sei mais qual canal) disse, de uma menina assassinada, que ela era “uma vítima inocente”. Se só a menina era inocente, quer dizer que os outros 11, por serem adultos, eram culpados e mereciam os tiros? Tudo bem, estou sendo de má-fé: o comentador queria nos enternecer e supunha, com razão, que, para a gente, perder um adulto fosse menos grave do que perder uma criança, que tem sua vida pela frente e, como se diz, ainda é “um anjo”. No entanto, eu não acredito em anjos e ainda menos acredito que crianças sejam anjos. Também não sei o que é mais grave perder: a esperança de um futuro ou o patrimônio das experiências acumuladas de uma vida? Você trocaria seus bens atuais por um bilhete da Mega-Sena de sábado que vem?

5) Cuidado, não sonho com uma impossível volta ao passado. Essas notas servem para propor uma mudança preliminar na maneira de contabilizar as falhas que podem atrapalhar a vida de nossos rebentos. Explico. A partir do fim do século 18, no Ocidente, as crianças adquiriram um valor novo e especial. Únicas continuadoras de nossas vidas, elas foram encarregadas de compensar nossos fracassos por seu sucesso e sua felicidade. Desde essa época, em que as crianças começaram a ser amadas e cuidadas extraordinariamente, nós nos preocupamos com os efeitos nelas de uma eventual falta de amor. Agora, começo a pensar que nossa preocupação com os estragos produzidos pela falta de amor sirva, sobretudo, para evitar de encarar os estragos produzidos pelos excessos de nosso amor pelas crianças.

Fonte – Folha de S. Paulo
Caderno Ilustrada, 9 de agosto de 2012

Cinema para todos

Por Marcus Tavares

Na última terça-feira, dia 14, os estudantes Estevão dos Santos, Debora Santos e Maria Araujo, do Colégio Estadual Julia Kubitschek, fizeram um programa diferente: foram ao cinema. Eles e outros estudantes da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro assistiram ao filme À beira do caminho, no Cine Odeon, na Cinelândia, Centro do Rio. Cinema, inclusive, com direito a um debate exclusivo com o diretor do longa, Breno Silveira. “É bem bacana porque depois do filme conseguimos trocar ideais com o diretor. O filme é bem bonito”, destacou Estevão, ao lado de André Barbosa, seu professor de Didática.

Segundo André, além de entretenimento, cinema também é cultura, educação, conteúdo que pode ser discutido e refletido depois da sessão, ainda mais com estudantes que serão futuros professores. “Esta obra em especial fala sobre relações humanas, questão crucial no dia a dia dos profissionais do magistério”.

Se o público gostou, o que dizer do diretor Breno Silveira? “A cultura precisa do espelho, do público. Então quando você tem um filme que fala da nossa cultura, da nossa alma, que tem a nossa cara, é importante que haja um espelho significativo e, se for de jovens, melhor ainda”, destaca.

Em entrevista à revistapontocom, Breno diz que gosta de ter atores crianças em seus filmes, pois elas trazem o olhar que os adultos não têm, um olhar sem filtros, neuroses e complicações. Em À beira do caminho, a função do garoto Duda (Vinícius Nascimento) é trazer de volta à vida o personagem João (João Miguel), que se encontra amargurado e triste. “O Duda, a criança, traz uma visão que João não tinha da própria realidade. Ele faz João voltar a se encontrar com todos os laços que deixou para trás”, conta.

De acordo com Breno, o ator Vinícius Nascimento, que interpreta o Duda, foi escolhido de um grupo de mais de 500 meninos. Segundo o diretor, o baiano Vinícius é um garoto que consegue falar sem usar a palavra. Ele fala com os olhos, com o sorriso, com o aperto de mão. “Ele mesmo calado é expressivo. Tem um olhar profundo, não é só um bom ator. Tem isso na alma dele, o que engradece o papel da criança no texto, no filme”.

A ida dos estudantes da rede estadual ao cinema faz parte do projeto Cinema para Todos, da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro que tem o objetivo de estimular e democratizar o acesso dos alunos às salas de cinema. O programa atua em duas frentes: organizando sessões exclusivas para escolas e promovendo a distribuição de vales-ingresso gratuitos, que podem ser utilizados em qualquer dia e hora nas 65 salas de cinema conveniadas em todo o Estado, para todos os filmes brasileiros em cartaz, inclusive finais de semana e feriados, sem obrigação de uniforme ou apresentação de caderneta escolar.

Os vales-ingresso podem ser trocados por alunos do 9º ano do Ensino Fundamental, do Ensino Médio e do segmento Ensino de Jovens Adultos, seguindo a classificação indicativa de cada filme.  Em alguns casos, as sessões agendadas pelas escolas contam com a presença de direção e elenco dos filmes exibidos. O agendamento pode ser feito por e-mail: agendamento@cinemaparatodos.rj.gov.br ou por telefone (21-2220-3638 e 21-2524.6647). O programa promove também oficinas de videointeratividade, encontros pedagógicos com os professores e, em breve, criará cineclubes em 30 escolas, além de fechar parcerias para aproveitamento das instalações de outros 30 cineclubes independentes e já em atividade.

Torresmo

Por Artur Melo, 10 anos
A
luno do 5º ano do Ensino Fundamental, da Escola Sá Pereira

 

 

 

 

Torresmo

Cansado da calmaria da fazenda,
Torresmo fugiu para passear

E para cidade lá foi se arriscar.
E, no meio da agitação,
Sentiu o cheiro de pipocão,
Bem suculento e gostoso.
O cheiro vinha do cinema.
E sem pestanejar
Já estava lá.

Os seguranças bem que o viram entrar
Mas não conseguiram pegar.
Torresmo comeu toda a pipoca.
Fugindo da atendente,
Entrou na sala do filme todo contente

 

Mas deu de cara com uma cena esquisita:
A cozinheira preparava um porco na marmita.
Ele gritou assustado
Deixando todos tão irritados
que queriam matar o pobre coitado.

E sem pestanejar
O porco saiu correndo de lá
Pensando que a fazenda
Era mesmo o melhor lugar.

4º Fórum Pensar a Infância

O mercado audiovisual e sua relação com a infância. Os interessados neste tema não podem deixar de participar do 4º Fórum Pensar a Infância, evento que faz parte do Festival Internacional de Cinema Infantil (FICI), que chega à sua 10ª edição. Em parceria com o Centro de Cultura Brasil & Holanda e o Dutch Film Fund, o Fórum deste ano vai trazer profissionais do cinema holandês para discutir com realizadores brasileiros. Participarão também produtores, artistas, criadores e gestores públicos. O encontro acontecerá entre os dias 27 e 30 de agosto, no Oi Futuro Ipanema, no Rio de Janeiro.

Inscrições na página oficial do evento

Confira a programação

Dia 27 de agosto

– Painel de Abertura (17h30) – Políticas públicas para o audiovisual infanto-juvenil. Autoridades se reúnem para falar sobre estratégias e ações para o fortalecimento das políticas públicas dedicadas ao audiovisual para o público infantojuvenil. Com Ana Paula Santana, secretária do Audiovisual, SAv/Minc; Glauber Piva, diretor da ANCINE; Julia Levy, superintendente do Audiovisual da Secretaria de Estado de Cultura; Sérgio Sá Leitão, diretor-presidente da Riofilme; e Rafael Parente, subsecretário de Novas Tecnologias Educacionais, da SME Rio de Janeiro.

Dia 28 de agosto

– Aula magna (10h) – Com Mieke de Jong, roteirista de Tony 10. Roteirista holandesa fala sobre a criação de audiovisual de qualidade para toda a família a partir de sua experiência na criação de narrativas que unem fantasia e realidade.

– Aula magna (14h) – Com Alexander Abela, roteirista e diretor. Ele fala sobre a arte de traduzir para o público infantil uma narrativa verídica, enriquecida pela tradição oral africana e por pinceladas de outras culturas e religiões.

– Painel Clássicos da literatura no cinema (16h30) – Diretores refletem sobre o desafio de adaptar narrativas consagradas da literatura para o cinema e apresentam seus projetos de longa-metragens para e sobre crianças. Com Eduardo Goldenstein, diretor de “Corda bamba — História de uma menina equilibrista”; Guilherme Fiúza, diretor de “O menino no espelho”; e Rosane Svartman, roteirista e diretora de “Pluft”.

Dia 29 de agosto

– Painel Encontro com o cinema holandês (10h) – Diretoras holandesas falam sobre sua experiência na realização de obras destinadas a crianças, jovens e famílias, a partir de roteiros originais ou adaptados, e discutem os principais desafios encontrados. Com Mischa Kamp, diretora de Tony 10, e de Nicole van Kilsdonk, diretora de Taking Chances.

– Aula magna (14h) – Transmídia para a infância. Aula magna com o norte-americano Chris Rettstatt: especialista em estratégias multiplataformas direcionadas para o público infantil, ele fala sobre o desenvolvimento de projetos transmídia envolvendo TV, cinema, aplicativos e ebooks.

– Painel Festivais infantojuvenis pelo mundo (16h30) – Diretoras de festivais discutem as diferentes perspectivas e significados de se exibir filmes para crianças no século XXI. Com Carla Esmeralda, diretora do Festival Internacional de Cinema Infantil;  Elizabeth Shepherd, diretora do Children’s Film Festival Seattle; Luiza Lins, diretora da Mostra Infantil de Florianópolis; Margret Albers, diretora do festival e fundação Goldenerspatz; e Stephanie Rueckoldt, diretora do Festival Internacional de Cine Arte para niñas y niños na Fundación Caleidoscopio de Sueños.

Dia 30 de agosto

– Painel Encontro com o cinema holandês (10h) – Produtoras holandesas falam sobre sua experiência no desenvolvimento de obras destinadas a crianças, jovens e famílias, e discutem os principais desafios encontrados na produção para ultrapassar o mercado local. Com Sabine Veenendaal, produtora, FlinckFilm, e Iris Otten, produtora, Pupkin Film.

– Aula magna (10h) – Aula magna interativa com Sarina Condello, arte-educadora e diretora, sobre como inspirar a infância através do ato do brincar, e a experiência de seu projeto The Big Little Caravan of Joy, dedicado à realização de performances para crianças desprivilegiadas no continente africano.

–  Painel Um novo cenário para os canais de TV (16h30) – As determinações da Lei 12.485 e as novas estratégias dos representantes de canais de TV infantojuvenis para aquisição de conteúdo. Com Daniela Vieira, gerente de conteúdo, Cartoon/Boomerang/ Tooncast; Jimmy Leroy, vice-presidente de criação, Nickelodeon América Latina; Marcus Fernandes, gerente de aquisições e produção independente , TV Cultura; e Paulo Marinho, diretor, Gloob.

PIB e educação

O jornal Folha de S. Paulo publicou em sua edição do dia 4 de agosto dois artigos. Um favorável a obrigatoriedade do gasto de 10% do PIB com educação, de autoria de Ivan Valente, deputado federal pelo PSOL-SP. Outro contrário, de José Francisco Soares, professor de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais.

Clique abaixo e confira cada uma das opiniões:

– Lições de Cocal dos Alves e de Brasília
José Francisco Soares

– 10% ainda é pouco
Ivan Valente

Lições de Cocal dos Alves e de Brasília

Por José Francisco Soares
Professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais

O Brasil acumulou, ao longo de sua história, um grande déficit educacional. Assim, a desigualdade educacional é tão prevalente em nosso país quanto a desigualdade de renda.O pagamento dessa dívida exige muitos investimentos em recursos humanos e materiais em todas as etapas da educação básica, geridos com o objetivo de cumprir a missão institucional dessas escolas, que é garantir o direito à educação, na forma prevista em nossa legislação.

A pesquisa educacional internacional estabeleceu firmemente que três dimensões devem estar presentes concomitantemente para o bom funcionamento de uma escola: materiais, pessoas e pedagogia. Os recursos devem ser suficientes para garantir salários adequados e prover as materialidades necessárias, o que inclui merenda, horário de reforço, materiais educacionais de qualidade e quantidade suficientes, equipes de apoio técnico e afins.

As pessoas que fazem a escola são seus professores, funcionários, alunos e respectivas famílias. Todos devem estar devem estar capacitados e comprometidos em fazer da escola um local de aquisição de aprendizados relevantes. E, finalmente, a pedagogia, a ciência da sala de aula, que para se materializar depende da existência dos outros meios.

Em recente pesquisa que coordenei no Grupo de Avaliação e Medidas Educacionais da Faculdade de Educação da UFMG, foi possível medir o efeito das escolas municipais de educação básica no aprendizado de cada um de seus alunos, independentemente de suas características socialdemocráticas, que cristalizam vantagens ou desvantagens educacionais.

Ou seja, medimos o quanto a escola em si, por meio de suas políticas e práticas internas, contribui para o aprendizado de seus alunos, depois de descontadas as diferenças socioeconômicas entre eles que estão fora do controle da escola. Ao se correlacionar este efeito com o gasto municipal por aluno, observamos uma associação muito baixa. Ou seja, há escolas de municípios que gastam muito pouco e têm ótimos resultados.

O melhor exemplo é Cocal dos Alves, uma pequena e agora famosa cidade do Piauí que tem garantido a seus alunos excelentes resultados. No outro extremo está Brasília, onde o gasto por aluno é equivalente ao de um aluno em uma escola privada, mas onde há muitos alunos que não aprendem o necessário.

Essas evidências e muitas outras, já obtidas no Brasil e no exterior, mostram que a mera alocação de mais recursos ao sistema brasileiro de educação básica, mantida sua forma atual de uso desses recursos, não produzirá as mudanças que o país necessita.

A redução da complexa questão do atendimento dos direitos educacionais dos brasileiros a uma única dimensão coloca a sociedade diante de uma falsa decisão.

O Plano Nacional de Educação tem 19 outras metas. Elas não foram adequadamente debatidas pela sociedade. A sua implementação exigirá decisões difíceis, cujos contornos ainda não são completamente conhecidos. Não há nenhuma evidência sólida de que atingir a meta de recursos levará automaticamente ao atingimento das outras metas.

A educação brasileira precisa de mais recursos a serem usados para o pagamento da dívida educacional. No entanto, embora a evidência empírica aqui apresentada trate apenas da educação básica, alocar 10% do PIB à educação não deve ser obrigatório até que se tenha mais clareza e consenso sobre como os novos recursos serão gastos.

10% ainda é pouco

Por Ivan Valente
Deputado federal pelo PSOL-SP e presidente nacional do partido.

Integrou a comissão especial do PNE na Câmara

Depois de 18 meses de tramitação, a Comissão Especial do Plano Nacional de Educação na Câmara concluiu a votação do novo Plano Nacional de Educação. O texto, que ainda precisa passar pelo Senado, estabelece 20 metas que o país deve atingir no prazo de dez anos. Entre elas: fim do analfabetismo, aumento do atendimento em creches, ensino em tempo integral em ao menos 50% das escolas públicas e o crescimento da fatia da população com ensino superior.

Ao longo de todo o debate na Câmara, no entanto, o maior embate foi sobre o aumento dos recursos para a educação. Atualmente, União, Estados e municípios aplicam, juntos, cerca de 5% do PIB no setor. De acordo com a proposta inicial do governo, a meta de financiamento do PNE seria de 7% do PIB em dez anos.

Mas há muito tempo movimentos sociais, estudantes e profissionais da educação reivindicam um aumento significativo de recursos. Já no primeiro PNE (2001 – 2011), vetado por FHC, o Congresso tinha aprovado 7% do PIB para a educação. Dez anos depois, o governo Dilma propôs o mesmo índice para 2021, o que gerou protestos em todo o país.

Durante a tramitação na Câmara, o valor foi sendo ampliado. Mas, para especialistas, continuava insuficiente para que a educação superasse o seu atraso histórico. Desde os anos 90, pesquisas apontam os 10% do PIB como patamar mínimo a ser investido, ao longo de vários anos, para garantir acesso, permanência e qualidade na educação e superar problemas estruturais.

Após muita pressão dos movimentos e de partidos como o PSOL, um acordo feito entre governo e oposição garantiu a aprovação dos 10% na comissão especial. O governo se comprometeu a investir 7% do PIB na educação nos primeiros cinco anos de vigência do plano (até 2016) e 10% ao final de dez anos (até 2021). A aprovação de forma escalonada, no entanto, não garante por si só a melhoria dos problemas.

Quando falamos em qualidade social da educação, é fundamental considerar o custo-aluno-qualidade e aspectos como a redução do número de alunos em sala de aula, valorização, salários dignos e formação continuada dos docentes. Para garantir tudo isso, é fundamental recursos suficientes.

Países da OCDE que hoje investem entre 5 e 6% de seu PIB no setor já superaram aspectos como esse, sobretudo porque investiram, durante muito tempo, patamares bastante superiores a 10% do PIB na educação. O Brasil, portanto, ainda não fez sua lição de casa.

O governo e setores contrários ao aumento do financiamento da educação dizem que destinar 10% do PIB ao setor é perdulário, num contexto em que faltam recursos.É preciso lembrar, no entanto, que os R$ 450 bilhões a mais que agora devem ser aportados à educação, no período de dez anos, estão muito distantes do que o governo gastará no mesmo período com o pagamento de juros da dívida pública.

Só em 2011, foram R$ 230 bilhões. Ou seja, o governo aceita gastar R$ 230 bilhões ao ano em juros da dívida, mas diz não ter R$ 450 bilhões em dez anos para a educação. A presidenta Dilma ainda ameaça levar a discussão do PNE para o plenário da Câmara e tentar mudar o texto no Senado. Ou seja, ainda há muita luta pela frente.

Como o PNE não prevê sanção no caso de descumprimento de suas metas, somente a mobilização popular nas ruas e no Parlamento pode garantir a aplicação correta da porcentagem do PIB na educação. É necessário, assim, que os setores que se preocupam com a qualidade da educação continuem alertas. Do contrário, a conquista dos 10% do PIB pode não sair do papel.

 

“É preciso achar um equilíbrio entre avaliação e política pedagógica”

Educação: o que eu quero para minha cidade? Este é o slogan da campanha da revistapontocom. Conheça a proposta e participe. Abaixo, você confere a entrevista com a diretora da Faculdade de Educação da UFRJ, professora Ana Maria Monteiro.

As entrevistas aqui publicadas não traduzem a opinião da revistapontocom. Sua publicação obedece ao propósito de promover o debate da política pública municipal de educação, no Brasil, com ênfase no Rio de Janeiro, e de refletir as diversas tendências de pensamento. O espaço está aberto a todos os interessados em se manifestar.

Por Marcus Tavares

“É preciso achar um equilíbrio entre avaliação e política pedagógica. A minha critica é que a atual política educacional do Rio aposta e investe na dependência do professor em vez de investir na sua autonomia e formação. É preciso pensar em gestão, sim, mas numa gestão pedagógica. Vamos ver o que vai acontecer nas próximas eleições”. A afirmação é de Ana Maria Monteiro, atual diretora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), cuja trajetória profissional é marcada como professora nos diferentes níveis da Educação Básica e Superior e na área de formação de professores.

Em entrevista à revistapontocom, na sede da Faculdade, Ana Maria Monteiro faz uma análise dos desafios da política pública educacional do Rio de Janeiro e afirma que a atual gestão vem exercendo um sistema de pressão em cima do professor, que, em função de alcançar metas, tem se dedicado a somente ensinar conteúdos que cairão nas avaliações, como o IDEB.

“E o que é mais grave: a secretaria tem produzido apostilas, uma espécie de aula pronta, com os tais conteúdos, que viraram uma espécie de bengala para alguns docentes. Antigamente, havia uma crítica de o professor ser dependente do livro didático. Será que estamos criando o professor-apostila-depentende?”, questiona.

Acompanhe:

revistapontocom – Como a senhora avalia a história da política educacional do município do Rio de Janeiro?
Ana Maria Monteiro – Da década de 80 para cá, houve avanços, sem dúvida. Nos anos 80, as condições de infraestrutura das escolas eram péssimas, muito improvisadas inclusive. Além disso, as escolas funcionavam em três turnos, havia um desgaste grande das instalações. Vivíamos também uma época de mudanças, com novas discussões sobre alfabetização, com os estudos de Emília Ferreiro, e com relação à implementação do horário integral no Ensino Fundamental, com o surgimento da proposta dos Cieps, que trazia uma nova concepção de currículo e de aprendizagem. Avaliando hoje, acho que as condições de infraestrutura das escolas melhoram em parte. O currículo foi sendo reelaborado. Mas a demanda por uma escola em horário integral não foi para frente, o que deveria ter acontecido.

revistapontocom – A implementação do horário integral é, portanto, ainda um dos desafios da educação do município do Rio?
Ana Maria Monteiro – É uma demanda cada vez mais evidente. Mas se somam outros. Por exemplo, a expansão da Educação Infantil. É preciso mais espaços, vagas e profissionais qualificados. Há um número enorme de profissionais que trabalha na educação infantil e que ainda não tem uma capacitação condizente. Isso sem falar, é claro, na remuneração do magistério. O que é pago hoje aos professores acaba induzindo-os a terem três, quatro jornadas, o que vai tornando negativo o trabalho. É um efeito negativo radical na qualidade de vida. O professor não tem tempo de elaborar, preparar as aulas, de estudar. Acaba adoecendo, fica exaurido. Como é que vamos qualificar a educação deste jeito? Uma alternativa seria aumentar a carga horária do professor? Sim, mas respeitando a qualidade de vida e remunerando o profissional para que ele possa se dedicar da melhor forma ao seu trabalho.

revistapontocom – Por que esses desafios de ontem e de hoje não são alcançados?
Ana Maria Monteiro – É uma boa pergunta. Acho que é uma questão de recursos e mais ainda: de prioridade. Ainda se tem uma visão preconceituosa e discriminatória de que a escola pública é lugar de gente menos favorecida. E como quem está no poder coloca o seu filho em escola particular, nada se faz pela escola pública. Também acho que os políticos não recebem da sociedade uma reivindicação clara e contundente pela educação. A opinião pública informada, que tem condições de agir, também está com seu filho na escola privada, não é, portanto, afetada pela política pública educacional. A grande parte da população que faz uso da rede pública não está organizada suficiente para agir, pressionar. Houve mudanças, sim, mas até que ponto a educação é um valor para a sociedade? Há uma questão cultural. Soma-se a isto o fenômeno do zigue-zague administrativo. Cada governo quer colocar seu projeto. Quando assume o cargo, o prefeito/secretário de educação apaga tudo e começa de novo, o que desmotiva os professores. Às vezes isso acontece mesmo quando o sucessor é do mesmo partido do que aquele que deixou o cargo.

revistapontocom – Isso aconteceu na trajetória da secretaria municipal de educação do Rio?
Ana Maria Monteiro – Nos últimos 20 anos, tivemos, entre 1993 e 2009, uma certa continuidade na proposta educacional, que foi interrompida com a posse da atual secretária de educação, Claudia Costin. Na verdade, desde o final dos anos 80, havia um movimento de se investir na formação do professor, em proporcionar meios para que este profissional se qualificasse e se tornasse mais autônomo em sala de aula. A partir de 2009, houve uma mudança neste sentido. Verificamos uma política não mais centrada na formação do professor, mas numa política de rendimento, mediada por avaliações.

revistapontocom – Mas não é preciso avaliar o sistema de ensino?
Ana Maria Monteiro – A avaliação é muito importante. É preciso, sim, avaliar o sistema. Mas o que se observa na atual gestão da secretaria municipal de educação é um sistema de pressão em cima do professor, que, em função de alcançar metas, tem se dedicado a somente ensinar conteúdos que cairão nas avaliações, como o IDEB. E o que é mais grave: a secretaria tem produzido apostilas, uma espécie de aula pronta, com os tais conteúdos, que viraram uma espécie de bengala para alguns docentes. No discurso da secretaria municipal de educação, as apostilas são uma base para os professores. Mas, na prática, tem se tornado uma forma de treinar os alunos para as provas, o que desqualifica a figura do professor, no sentido de que ele não precisa mais preparar suas aulas. Tudo está na apostila. Antigamente, havia uma crítica de o professor ser dependente do livro didático. Será que estamos criando o professor-apostila-depentende? Além disso, observamos uma duplicação da verba pública para o mesmo fim. Se já existem os recursos do FNDE para a produção de livro didático, qual seria o sentido da secretaria produzir as apostilas que trazem, teoricamente, os mesmos conteúdos?

revistapontocom – A senhora afirma que houve uma ruptura no processo de investimento na formação do professor. Como e por que isso aconteceu?
Ana Maria Monteiro – Em parte isso aconteceu em decorrência de experiências que foram feitas, nas gestões anteriores, com a proposta de avaliação continuada, que acabou recebendo o nome de aprovação automática. A proposta de avaliação continuada, o sistema de ciclos, na prática, é muito interessante, pois é consistente e não expulsa a criança da escola, há um comprometimento e um acompanhamento de cada criança muito grande. Mas essa proposta não foi bem implementada, os professores não receberam apoio e não foram orientados na condução do projeto. Isso tudo, associado a turmas grandes e a desvalorização do magistério, deu origem a aprovação automática, fato que abriu espaço para a atual gestão. Abriu espaço para uma política centrada, portanto, na avaliação. Fomos de um extremo ao outro. Do oito ao oitenta. É preciso achar um equilíbrio entre avaliação e política pedagógica. A minha critica é que a atual política aposta e investe na dependência do professor em vez de investir na sua autonomia e formação. É preciso pensar em gestão, sim, mas numa gestão pedagógica. Sob o ponto de vista pedagógico, houve um retrocesso na cidade do Rio. Vamos ver o que vai acontecer nas próximas eleições.

revistapontocom – Neste sentido, como a população deveria avaliar as plataformas de educação dos candidatos à prefeitura do Rio?
Ana Maria Monteiro – Até nos discursos, o tempo destinado à educação é mínimo e sempre com palavras chaves. É preciso cobrar medidas concretas. Perguntar diretamente aos candidatos o que eles pretendem fazer para o seu bairro, para a escola de seu filho. Serão contratados novos professores? O horário escolar será ampliado?

revistapontocom – Qual deve ser o perfil do próximo secretário de educação do município do Rio de Janeiro?
Ana Maria Monteiro – Tem que ser uma pessoa da área da educação. A tendência é colocar gestores. Acho que a questão da gestão é importante. Mas esse gestor não pode ver apenas o lado administrativo e fiscal. Aposto numa pessoa da área de educação, mas com a visão da gestão pedagógica, que entenda as especificidades de um contexto educacional, que envolva professor, aluno, ensino e contexto cultural. Não resta dúvida que estamos diante de uma rede de escolas de muita complexidade e que, inclusive, viveu e vive uma crise de violência bem dramática. Não é um perfil simples de ser encontrado.

“Em educação, observe três aspectos: acesso, permanência e qualidade”

Educação: o que eu quero para minha cidade? Este é o slogan da campanha da revistapontocom. Conheça a proposta e participe. Abaixo, você confere a entrevista com o diretor da Faculdade de Educação da UFF, professor Jorge Najjar.

As entrevistas aqui publicadas não traduzem a opinião da revistapontocom. Sua publicação obedece ao propósito de promover o debate da política pública municipal de educação, no Brasil, com ênfase no Rio de Janeiro, e de refletir as diversas tendências de pensamento. O espaço está aberto a todos os interessados em se manifestar.

Por Marcus Tavares

“Recuar aqui ou ali faz parte do jogo da política educacional. O que me preocupa é aquilo que parece que nunca vai mudar no cenário da política pública educacional, que ninguém discute, que aparentemente já foi aceito, dado como certo e ponto final. Destaco dois não avanços na pasta da educação municipal do Rio: os recursos materiais para a melhoria das condições de trabalho do professor e o aumento das doenças nos profissionais da educação. Estes temas não são discutidos. São dados como certos e ninguém questiona. São problemas graves. Uma escola que adoece não pode ser uma escola boa para ninguém”. A observação é do professor e atual diretor da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), Jorge Najjar.

Em entrevista à revistapontocom, na sede da Faculdade, o professor destaca ainda que o maior desafio hoje da rede municipal de ensino do Rio é o aumento do tempo de escolarização dos estudantes. Diz ele: “Temos uma escola de cerca de quatro horas de aula por dia. Em todos os países em que a educação deu minimamente certo, o tempo da escolarização é grande e ampliado, pelo menos são oferecidas sete horas por dia. Escolarização que passa, obviamente, não apenas pelo oferecimento de disciplinas regulares, mas por reforço escolar, esportes e artes. Como podemos comparar os resultados, por exemplo, do PISA, entre as escolas brasileiras e as europeias?”, indaga.

Acompanhe:

revistapontocom – Como o senhor avalia a política de educação do município do Rio de Janeiro?
Jorge Najjar – A cidade do Rio de Janeiro é muito grande e por isso tem diferenças significativas. Há escolas da rede privada que apresentam qualidade e outras, carências em quase tudo. Essas diferenças também são encontradas na rede pública, a maior da América Latina. Trata-se de uma rede bem organizada administrativamente em comparação à rede do Estado do Rio. Em relação ao Brasil, você tem um corpo docente razoavelmente preparado, com titulação, o que é bastante interessante. E programas recorrentes de formação continuada para os professores. Por outro lado, é uma rede que apresenta muitas carências. Há escolas em condições físicas ruins, embora não seja a maioria. Paga-se muito, muito pouco ao professor. O salário não é condição suficiente para estabelecer a qualidade da educação, mas, certamente, é condição necessária. Em decorrência da baixa remuneração, temos o professor itinerante, que trabalha em duas, três, quatro escolas diferentes para garantir uma qualidade de vida melhor. Enquanto não forem sanadas as questões estruturais, no que tange as condições de trabalho do profissional, a rede de ensino do Rio, mesmo bem organizada, não tem condições de apresentar um padrão de qualidade significativo e esperado. Soma-se a isto os problemas da cidade, que não são da escola, mas que acabam vinculados. Um deles, seguramente, é a violência. Temos muitas escolas localizadas em regiões de risco, onde a exposição de crianças e adolescentes ao tráfico é muito triste. Resumindo: temos uma rede com muita potencialidade, mas que precisa de atenção e investimentos para se tornar uma rede que ofereça uma escolarização de qualidade para a população.

revistapontocom – Nos últimos vinte anos, pode-se dizer que história da educação pública municipal do Rio foi marcada por avanços ou recuos?
Jorge Najjar – Diria que temos avanços e recuos. Entre os avanços, destaco um crescimento significativo de acesso à escola. Basta observarmos que, em 1950, de cada 10 crianças em idade escolar, apenas três ingressavam na escola. Na década de 90 e 2000, assistimos a uma universalização no atendimento de crianças em idade escolar. Não é uma peculiaridade do Rio de Janeiro. Sim, foi um movimento nacional, mas que foi feito em colaboração e com esforços locais. Outro avanço: a formação dos professores. Verifica-se um crescimento significativo da titulação dos profissionais de ensino. A grande maioria passa a ter Ensino Superior. Parece uma coisa óbvia, mas não é no Brasil. Destacaria ainda o esforço de construção da proposta curricular base da cidade do Rio de Janeiro: a MultiEducação. Foi um grande esforço positivo de discussão curricular, de questionamento, de arrumação. Hoje em dia, não se trabalha com a MultiEducação, ela não dá mais conta, mas os professores ainda recorrem à proposta. Por outro lado, há vários recuos. Posso citar, por exemplo, a recente medida de contratação de professores para a disciplina de religião. Não tenho nada contra religião, mas o Estado é laico. Este dinheiro poderia ser investido em outra coisa. Mas mais do que o recuo, o que me preocupa de fato é o que chamo de ‘não avanço’. Recuar aqui ou ali faz parte do jogo da política educacional. O que me preocupa é aquilo que parece que nunca vai mudar, que ninguém discute, que aparentemente já foi aceito, dado como certo e ponto final. Destaco dois não avanços: os recursos materiais para a melhoria das condições de trabalho do professor e o aumento das doenças nos profissionais da educação. Estes temas não são discutidos. São dados como certos e ninguém questiona. São problemas graves. Uma escola que adoece não pode ser uma escola boa para ninguém.

revistapontocom – Quais seriam hoje os principais desafios da pasta da educação do município do Rio?
Jorge Najjar – Listaria: a recuperação e manutenção da estrutura física de algumas escolas, a questão salarial dos professores, a formação continuada dos profissionais de ensino e a violência que perpassa o cotidiano das salas de aula. Mas creio que o aumento do tempo de escolarização dos alunos seja, de fato, o maior desafio, que de certa forma está ligado aos quatro primeiros que listei. Temos uma escola de cerca de quatro horas de aula por dia. Em todos os países em que a educação deu minimamente certo, o tempo da escolarização é grande e ampliado, pelo menos são oferecidas sete horas por dia. Escolarização que passa, obviamente, não apenas pelo oferecimento de disciplinas regulares, mas por reforço escolar, esportes e artes. Como podemos comparar os resultados, por exemplo, do PISA, entre as escolas brasileiras e as europeias? Em Portugal, as crianças estudam cerca de sete, oito horas por dia na escola. É o dobro do nosso ano letivo. Se não pensarmos desta forma, nossa educação não tem futuro. Pode-se ter até um bom professor. Mas pergunto: como este professor de Ciências, por exemplo, poderá ensinar bem em cinquenta minutos? Não dá. Pode-se ter também um excelente espaço físico. Mas com qual objetivo, se o estudante fica apenas quatro horas?

revistapontocom – O senhor acha que esses desafios podem ser vencidos por uma gestão de quatro anos?
Jorge Najjar – São desafios alcançáveis, não tenho a menor dúvida. Mas é sabido também que uma gestão de quatro anos não dá conta. Nada em educação se faz em curto prazo. Sabemos que um dos grandes problemas da educação no Brasil é o zigue-zague das políticas educacionais, que estabelece uma não continuidade de projetos e propostas. Comparando a rede municipal do Rio com a do Estado, tivemos certa continuidade de políticas educacionais, o que trouxe aspectos positivos. Talvez, não seja possível, em curto prazo, implantar em todas as escolas o horário integral. Mas é possível, sim, iniciar este processo, apontando para uma política de expansão, algo que possa, daqui a quinze, vinte anos, estar em pleno funcionamento em todas as escolas. Paulo Freire dizia: utopia é fazer hoje o que é possível para que amanhã a gente possa fazer o que não é possível hoje. Os novos gestores têm que ver a educação como um desafio. Não existe sociedade desenvolvida sem que as questões educacionais tenham sido sanadas.

revistapontocom – Quando o senhor fala de horário integral nas escolas, o senhor de certa forma está se referindo à política pedagógica do município do Rio. Como o senhor avalia a educação do Rio neste sentido?
Jorge Najjar – Faltam pesquisas sérias sobre a efetividade da política pedagógica do município do Rio. Há muita pouca coisa sendo pensada e escrita sobre o impacto desta política na aprendizagem. Há algumas semanas, a Faculdade de Educação da UFF teve um encontro com a atual secretária municipal de Educação, Claudia Costin, que nos chamou para conversar com o objetivo de constituir parcerias no que tange à formação de professores, mas também para induzir pesquisas na rede. Tal como eu, a secretária acredita que existem muitos “achismos” sobre a política e o seu impacto. Por exemplo: na educação especial, os pais são ouvidos no sentido de optarem por uma escola especial ou do sistema regular. Afinal, isso é bom ou ruim? A priori, você tem convicções muito fortes. Uns vão dizer que isso é muito bom e outros, que não é. Mas ninguém pesquisou sobre o tema. Faltam pesquisas que poderiam indicar se este procedimento tem impacto positivo ou negativo. Soma-se a isso, por outro lado, algo que é bem badalado nos dias de hoje, mas que vejo com muito cuidado: a vinculação da qualidade da educação a determinados índices e resultados. Talvez, o mais importante hoje em dia seja o do IDEB.  Acho que o indicador mostra, mas ao mesmo tempo, esconde coisas. Não diria que ele é o retrato da qualidade da educação, como vem sendo veiculado pela imprensa e por alguns educadores. Dito isso, se olharmos para os resultados do IDEB, o último tem aproximadamente dois anos, vamos ver que a taxa do Rio é relativamente baixa. Possivelmente, a taxa caiu em função do aumento do índice de reprovação, um dos indicadores do IDEB. Isto coincide com a mudança de governo que aconteceu há quatro anos, quando a chamada aprovação automática foi abolida e consequentemente o número de reprovados aumentou. Creio que em breve, ainda este ano, serão divulgados novos resultados do IDEB. Temos que prestar atenção para ver o que aconteceu. Esse novo resultado vai refletir o encaminhamento dado pela atual gestão da secretaria municipal de educação do Rio. Parece que deve aumentar um pouco. Mas mesmo assim deverá ser um aumento muito baixo para uma cidade do nível do Rio de Janeiro. Aumento que não expressa de forma alguma um qualidade de educação, uma escola de qualidade. Isso ainda está para ser construído e só pode ser construído, repito, a partir de pesquisas avaliativas sérias, principalmente, de processos e não de resultados.

revistapontocom – Neste sentido, o senhor defende uma maior aproximação entre o poder público e as universidades?
Jorge Najjar – Se a universidade estiver isolada da Educação Básica, ela perde o sentido de existir. Uma Faculdade Educação isolada é absolutamente inútil. É preciso jogá-la fora. Ela é cara. O dinheiro público investido poderia então ser aplicado com outra coisa. A Faculdade de Educação só tem sentido se estiver colada com a escola pública, aprendendo e dialogando. Sozinhas, as redes de Educação Básica não têm condições de dar conta de todo o trabalho administrativo e pedagógico que a educação exige. Pensar a Educação Básica por meio da prática, como se a teoria não tivesse sentido algum, é de uma imbecilidade enorme. E, de outro lado, achar que a teoria por si só se basta também não gera conhecimento e diálogo. Hoje, a universidade vem reconhecendo, cada vez mais, a sua responsabilidade social frente aos desafios do cotidiano. As instituições privadas visam ao lucro. As públicas precisam visar ao desenvolvimento social.

revistapontocom – Tendo em vista às eleições municipais deste ano, como a população pode e deve avaliar as propostas educacionais dos candidatos?
Jorge Najjar – As propostas de educação dos candidatos giram em torno de três questões: acesso, permanência e qualidade. A população deve observar o que as candidaturas estão propondo para a melhoria do acesso, que não se traduz apenas na garantia da vaga, mas na oferta de vaga próxima à residência, na facilidade do transporte etc. Com relação à permanência, é interessante examinar se os candidatos estão propondo um aumento na quantidade de horas que as crianças ficam na escola. Se há um projeto que garante a permanência dos meninos nas salas de aula. Estatisticamente, verifica-se que os meninos acabam deixando a escola muito mais cedo do que se pensa, muitas vezes pela necessidade de entrar no mercado de trabalho para ajudar no orçamento das famílias. O candidato tem alguma proposta para assegurar os estudos dos rapazes? É preciso ver também de que forma as plataformas educacionais estão pensando/planejando a estrutura física das escolas e os cursos de formação para os professores. Não precisa ser mestre ou doutor em educação para avaliar as propostas. Sugiro: avalie as propostas de acordo com o que você deseja para o seu filho em relação ao acesso, permanência e qualidade.

revistapontocom – Qual deveria ser o perfil do próximo secretário de educação do município do Rio de Janeiro?
Jorge Najjar – Que ele seja da área de educação. Tem crescido uma ideia muito perversa de que o problema da educação é de gestão, sequer de gestão escolar. E aí o que se faz: em vez de nomear educadores como secretários, empossam gestores. É o caso do Estado do Rio de Janeiro. O atual secretário não é educador, não quer ser e com orgulho fala que não é. São gestores que estão dando o tom da educação. Isso é o fim do mundo. Portanto, que o próximo secretário de educação seja uma pessoa da área, que goste, conheça e queira trabalhar com educação. Não é isso que eu vejo em muitos lugares. E mais ainda: que o próximo prefeito não veja a Educação como gasto e problema, mas como investimento e solução. Já tivemos na cidade do Rio de Janeiro candidatos/prefeitos que recebiam o apoio de muitos professores exatamente porque tinham, de fato, um projeto para a educação. A educação não era algo que vinha a reboque, mas estava à frente do projeto político.

“Educação pública é política de Estado e não de governo”

Educação: o que eu quero para minha cidade? Este é o slogan da campanha da revistapontocom. Conheça a proposta e participe. Abaixo, você confere a entrevista com a ex-secretária municipal de Educação do Rio, professora Regina de Assis.

As entrevistas aqui publicadas não traduzem a opinião da revistapontocom. Sua publicação obedece ao propósito de promover o debate da política pública municipal de educação, no Brasil, com ênfase no Rio de Janeiro, e de refletir as diversas tendências de pensamento. O espaço está aberto a todos os interessados em se manifestar.

Por Marcus Tavares

“Não temos, hoje, uma política pedagógica. Este é o principal desafio que a educação municipal do Rio de Janeiro tem pela frente e que deve contar com a ajuda e participação valiosa da universidade. Trata-se de uma oxigenação, uma parceria necessária que precisa ser realizada no âmbito da secretaria de educação”. A avaliação é de Regina de Assis, professora e ex-secretária municipal de Educação do Rio de Janeiro, no período de 1993 a 1996.

Ex-membro do Conselho Nacional de Educação e ex-presidente da Empresa Municipal de Multimeios da Prefeitura do Rio de Janeiro (MultiRio), Regina destaca que a política pedagógica do município do Rio vem retrocedendo, fato que se iniciou com a forma pela qual foi introduzida a política de ciclos na rede.

Membro do conselho consultivo do Observatório Europeu de Televisão Infantil (Oeti) e do conselho diretor da World Summit on Media for Children Foundation, a professora, que hoje trabalha como consultora em Educação e Mídia, traça uma análise dos últimos 20 anos da política pública educacional do Rio, fazendo sua interpretação de fatos polêmicos.

Acompanhe:

revistapontocom – Como a senhora avalia a atual política educacional da secretaria municipal de educação do Rio?
Regina de Assis –
Do que eu tenho conhecimento, do que chega a mim, por meio dos professores, a educação só não está pior por causa deles. Isto porque os professores são um coletivo de profissionais responsáveis, com uma tradição de qualidade no trabalho que desempenham. Infelizmente, as últimas gestões da secretaria municipal de educação não correspondem ao que a rede de escolas necessita. As duas secretárias que assumiram a pasta depois de minha gestão, de 1993 a 1996, [Carmem Moura, de 1997 a 2000; e Sônia Mograbi, de 2001 a 2009], indicadas por mim, não seguiram o conselho que dei para ambas. Na época, sugeri a elas que organizassem uma equipe multidisciplinar e heterogênea com quadros e profissionais de fora e de dentro da rede municipal. Orientei que elas chamassem pesquisadores das universidades cariocas que já tivessem demonstrado algum tipo de trabalho valioso em relação à educação pública ou que tivessem desejo de desenvolver esse trabalho, com olhar acadêmico, trazendo a contribuição de autores, teóricos e pesquisadores antigos e contemporâneos para dialogar com os problemas da rede. Ambas era professoras de carreira, o que o filósofo Gramsci chamaria de intelectuais orgânicas, aqueles constituídos pelo e no mesmo grupo social. Eram professoras que tinham passado por todos os graus da carreira, desde professora de sala de aula até os cargos de coordenadora pedagógica, diretora e coordenadoras das Coordenadorias Regionais de Educação (CREs). Elas conheciam as entranhas da rede e já tinham trabalhado na minha equipe quando assumi a secretaria. Dei este conselho no sentido de contribuir com a rede e porque eu já tinha passado pela experiência. Como professora universitária, quando assumi o cargo, fiz questão de organizar uma equipe equilibrada com profissionais da rede e de fora dela. Convidei pessoas muito valiosas da PUC, da UFRJ, da Uerj e da UFF. Elas fizeram muito pouco neste sentido, convidando, em alguns casos, profissionais de outros estados, de competência questionável no que diz respeito ao conhecimento da Rede Municipal de Escolas do Rio. Do meu ponto de vista, ao longo do tempo em que elas foram administrando a rede, foi sendo criado um corporativismo, criando uma endogenia na análise e encaminhamento da solução de problemas pedagógicos, que se mostrou prejudicial. A rede estava se fechando dentro da própria rede, sem ouvir outras opiniões, sem ter a participação de pessoas que tivessem experiências de pesquisa ou que estivessem bem atualizadas em relação a diferentes teorias que pudessem fazer a diferença. Os consultores chamados para apoiar as ações, em boa medida, eram retrógrados, não tinham experiência com a rede pública, eram extremamente teóricos e incapazes de fazer um bom diagnóstico do que estava acontecendo. Era necessária uma oxigenação. Em 2001, voltei à prefeitura do Rio. O prefeito Cesar Maia havia me convidado para assumir novamente a secretaria. Mas sugeri, mais uma vez, que a pasta fosse ocupada por algum profissional da rede. Assumi a Empresa Municipal de Multimeios da Prefeitura do Rio (MultiRio) que tinha sido criada para elaborar produtos e estratégias para apoiar o trabalho do professor. A oxigenação oferecida pela MultiRio para a secretária [Sonia Mograbi] também foi, infelizmente, negada e recusada muitas vezes. Inclusive, dificultaram o nosso trabalho que devia ser articulado e conjunto, para benefício de toda a Rede.

revistapontocom – Nos últimos vinte anos, pode-se dizer que a gestão da senhora foi a melhor?
Regina de Assis –
Acho que isso cabe aos professores e pesquisadores avaliarem. Mas posso dizer, com segurança, que a nossa gestão foi, sim, um divisor de águas na forma como o trabalho de educação pública municipal foi encarado. Isto porque trouxemos uma oxigenação que não existia. Partimos de uma visão que respeitava profundamente a prática e a história da rede, mas também trouxemos teorias e práticas que possibilitaram uma transformação para melhor. Um exemplo disso: durante a minha gestão, o governo federal estava implantando o Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), em 1994/95, que tinha o objetivo de avaliar, naquela época, as redes das capitais de Estados brasileiros e não as dos municípios. Fui ao MEC e solicitei a inclusão da cidade do Rio na avaliação. Fomos avaliados em Língua Portuguesa como uma das melhores médias brasileiras. Atribuo isso ao fato de as pesquisas desenvolvidas na PUC, UFRJ e Uerj terem sido usadas e discutidas na rede. Levamos para os professores os resultados das pesquisas acadêmicas que indicavam as dificuldades das crianças na leitura e na escrita, diagnosticando possíveis causas e apontando novas formas de trabalho para os docentes. Curiosamente, a média em Matemática foi baixa. Tínhamos poucas pesquisas acadêmicas neste sentido.

revistapontocom – A senhora se arrepende de ter indicado as suas duas sucessoras?
Regina de Assis –
Não me arrependo porque tinha esperança e confiança em ambas e porque acredito na força e no valor dos professores da rede municipal do Rio. Se elas falharam em momentos importantes durante a execução da responsabilidade que lhes foi atribuída – sem ter a humildade de compartilhar suas dificuldades, com profissionais experientes – há que se lamentar, pois quem sofreu as consequências foram milhares de professores, estudantes e suas famílias. O fato de eu ter indicado ao Prefeito eleito as duas profissionais da rede só funcionaria bem se elas tivessem tido a grandeza e a clarividência de entender que é preciso trazer cabeças que pensam diferente para enriquecer um processo de construção de uma política educacional.

revistapontocom – E como a senhora avalia a atual gestão?
Regina de Assis –
O retrocesso piorou. As duas que me sucederam ainda eram professoras e da rede pública. A atual secretária não era e não é uma profissional da área da educação, mas, sim, da administração. Ela tem uma cabeça muito voltada para números, metas, resultados. Para ela, o processo pouca importa. Pelo que sei, ela tem obrigado professores a trabalhar com projetos e produtos produzidos por instituições paulistas e de Brasília. Produtos de má qualidade, muito inferior ao que era produzido pela MultiRio e pela própria rede municipal, pelas escolas. É necessário avaliar o que funcionou e funciona bem para aperfeiçoar o que leva anos para ser criado e desenvolvido, sem adotar a famosa e prejudicial “política de terra arrasada”, ou seja destruir para começar, mal, tudo outra vez. Isto é uma irresponsabilidade com os professores, estudantes, suas famílias e nós, os cidadãos, que pagamos os impostos, que devem garantir uma educação pública de qualidade. É necessário entender que Educação Pública é política de Estado e não de Governo, que muda de quatro em quatro anos.

revistapontocom – Mas o que leva a senhora a fazer tais afirmações?
Regina de Assis –
O desrespeito total da atual gestão com os professores no sentido de não reconhecer a capacidade instalada na rede. Lá atrás, em 1993, foi desse reconhecimento que foi possível fazer um trabalho, um diálogo entre a rede e a universidade e que gerou o Núcleo Curricular Base, a MultiEducação, documento que foi referência inclusive para a formulação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil e para o Ensino Fundamental, das quais fui a relatora, durante os anos 1996/2000, em que participei do Conselho Nacional de Educação, e dos Parâmetros Curriculares de Educação, via MEC. Atualmente, não temos nem a rede representada nem as universidades. Há, sim, uma turma de burocratas que trabalham em favor de seus próprios interesses e que desconhecem e repudiam a historia de êxito da educação municipal do Rio, prestando assim um grave desserviço à cidade e à rede como um todo. Têm acontecido coisas muito graves, que já são, inclusive, do conhecimento do Ministério Público. Na internet, há várias denúncias.

revistapontocom – Por exemplo?
Regina de Assis –
Desperdício de dinheiro público. Há pouco tempo foram publicados milhares de livros pela secretaria municipal de Educação/Multirio que tiveram que ser recolhidos em seguida. Livros caros que não receberam uma revisão cuidadosa e necessária e que foram, portanto, retirados de circulação. Outro grave problema relatado por professores: com o objetivo de fazer com que o Rio fique bem na foto da Prova Brasil, a secretaria tem excluído do exame alunos com baixo desempenho. A atual secretária tem ordenado a retirada de alunos de determinadas turmas, para que não sejam avaliados pelas provas, segundo informações dos professores. Isso é desonesto. Em vez de articular a rede com uma proposta pedagógica, compram-se produtos, elaboram-se apostilas com o objetivo de treinar alunos para as provas, isso tudo sem ouvir os professores. Os profissionais são obrigados a cumprir tarefas e a alcançar metas que atendam às expectativas das avaliações externas em curso. A avaliação interna e externa é de extrema importância. Só que a avaliação é intrínseca ao processo de educação. Antes de falar em avaliação, você tem que definir a proposta pedagógica. Avaliação não é um apêndice externo. Devemos ser avaliados, mas não temos que transformar o trabalho de política educacional, que não pode ser político/partidária, na busca de resultados, no treinamento de professores e alunos para responder questões de prova. É uma vergonha o que está acontecendo no Brasil inteiro, não só no Rio de Janeiro, fruto também de uma orientação econômica e política que muitas vezes se preocupa mais com o resultado do que com o processo. Se há áreas que precisam prestar atenção no processo para atingir um bom resultado são as de educação e a saúde. Você não consegue uma cura, se não conhece o processo pelo qual o doente está passando. Não existe doença, existem doentes. Não adianta justapor a avaliação como carro-chefe de uma gestão porque isso não traduz o que foi feito. O resultado pode ser totalmente fictício. Por conta disso, temos professores totalmente cansados, desanimados e desrespeitados, me valendo do título do romance do escritor Dostoiévski, humilhados e ofendidos [a obra narra personagens perseguidos por conta de sua condição social e econômica, no entanto resistentes à hipocrisia e a fala de humanidade de seus ofensores]. Humilhados na sua capacidade profissional e ofendidos na forma como são tratados, não consultados. A atual gestão faz tábula rasa como se toda a história da política municipal de educação do Rio se resumisse a aprovação automática, que não era para ter existido, foi uma equivocada política de implantação dos ciclos.

revistapontocom – Por que foi equivocada?
Regina de Assis –
A implantação começou na gestão seguinte da minha, com as três primeiras séries do primeiro segmento do Ensino Fundamental. Mas foi mal aplicada. O projeto foi realizado com um pequeno grupo de escolas e o que se descobria, o que se avaliava, não era socializado para a rede toda. A secretária seguinte [Sonia Mograbi], quando assumiu a pasta, criticou duramente a condução da aplicação da proposta por sua antecessora [Carmem Moura], mas também não conduziu bem o processo. Ela fez a mesma coisa ou pior. Ela resolveu acatar uma determinação do prefeito [Cesar Maia] de que devia ampliar o ciclo para a rede toda. Na época, falei tanto com ela quanto com o prefeito, como ex-secretária, conhecendo a rede e sabendo a complexidade, que não deveria ser universalizado o ciclo em toda a rede. O ciclo deveria ser aplicado em um conjunto de diferentes escolas por amostragem. Os resultados deveriam ser socializados, discutidos e, aí sim, gradualmente, o sistema poderia ser implementado, primeiro da 1ª a 5ª séries e depois da 5ª a 9ª séries. A política de ciclos deu certo? Não. Tínhamos uma rede enfraquecida por conta da endogenia e os professores não tinham sido bem orientados. A questão pedagógica de como ensinar com êxito e como ter êxito nas práticas pedagógicas ficaram em segundo plano. Os professores não foram acompanhados e cobrados na medida de suas capacidades.

revistapontocom – Foi o que levou a aprovação automática?
Regina de Assis –
Sim. Este cenário gerou uma grande confusão não só para os professores, como também para a população em geral e, principalmente, para os pais dos estudantes. A aprovação automática foi muito utilizada pelos oponentes durante a campanha eleitoral de uma maneira desonesta, pois não informaram corretamente que o trabalho com o ciclo não significa aprovação automática. Pelo contrario, o que o regime de ciclo traz é um trabalho muito maior em relação à avaliação do que o regime seriado. Se os professores estivessem mais bem informados, eles teriam orientado as famílias, os pais e os jornalistas que cobriam o assunto. No final de 2008, a rede estava enfraquecida. Havia uma espécie de cansaço, de marasmo. Os professores se sentiam desestimulados. Alguns saíram da rede e outros começaram a contar tempo de serviço, desistindo da luta. Entra então a atual secretária que agrava o problema. O que acontece? Um retalhamento da rede.

revistapontocom – Da sua gestão aos dias de hoje não houve nenhum avanço na educação do município do Rio?
Regina de Assis –
O que na pratica esteve na mesma direção e isso talvez tenha sido a maior progresso foi o cuidado com a estrutura física da rede, a melhoria das escolas. Outro avanço, embora não possa ser considerado extraordinário, é o salário dos professores. Melhorou, mas ainda deixa a desejar. Mas, por exemplo, o Plano de Carreira, apresentado à Câmara dos Vereadores em 1995, até hoje não saiu do papel por questões político-partidárias. Nada mais. O que vemos, hoje, é um retrocesso. Não temos uma política pedagógica. Este é o principal desafio que a educação municipal do Rio tem pela frente e que deve contar com a ajuda e participação valiosa da universidade.

revistapontocom – Qual deve ser o perfil do (próximo) secretário de educação do Rio?
Regina de Assis
– Ele ou ela tem que ter conhecimento específico da área. Precisa ser educador, sim. Se não tem experiência em gestão, procure se assessorar. Procure conhecer as leis, a LDB, a Lei Orgânica Municipal e as Diretrizes Nacionais para a Educação Básica e para a Educação de Jovens e Adultos. Procure ler e entender, mas seja fiel, leal aos seus ideais, como educador brasileiro. Procure ser capaz de diagnosticar esses problemas que estamos discutindo e se cercar de profissionais competentes. Existem profissionais competentes na rede, nas universidades e na iniciativa privada. Não se pode cair na endogenia ou seguir na improvisação perversa atual. Não vejo nenhum problema de o secretário (a) ser um professor de carreira da rede. Ele (a) precisa, sim, ter autoconfiança e humildade. Com autoconfiança, ele (a) pode expandir suas capacidades ao máximo. E com humildade, reconhecer seus limites, aquilo que não conhece e não pode fazer sozinho.

“Em educação, só dinheiro não basta”

Educação: o que eu quero para minha cidade? Este é o slogan da campanha da revistapontocom. Conheça a proposta e participe. Abaixo, você confere a entrevista com a ex-secretária municipal de Educação do Rio, professora Terezinha Saraiva.

As entrevistas aqui publicadas não traduzem a opinião da revistapontocom. Sua publicação obedece ao propósito de promover o debate da política pública municipal de educação, no Brasil, com ênfase no Rio de Janeiro, e de refletir as diversas tendências de pensamento. O espaço está aberto a todos os interessados em se manifestar.

Por Marcus Tavares

“De um modo geral, quando alguém chega ao poder, pega a experiência anterior, embrulha num pacote, coloca numa prateleira, na qual nenhuma escada consegue alcançar, e começa tudo outra vez. (…) Historicamente, no que diz respeito à secretaria municipal de educação do Rio, algumas administrações foram deixando de lado boas experiências. (…) O sucesso da área se deve a poucos, mas importantes, ingredientes. E um deles é a prioridade do governante à área”. As ideias são de Terezinha Saraiva, professora e a primeira secretária municipal de educação do Rio (1975-1979), pós-fusão dos antigos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro.

Trabalhando hoje como consultora da Fundação Cesgranrio, onde é responsável pelo projeto Apostando no Futuro, e escrevendo semanalmente para o jornal Folha Dirigida, Terezinha Saraiva nos recebeu na sede da Cesgranrio. A entrevista da professora reitera que os problemas e os desafios da política pública educacional da cidade de hoje se assemelham aos de ontem, quando, ela diz, que havia uma prioridade maior para a educação.

Acompanhe:

revistapontocom – A senhora foi a primeira Secretária de Educação e Cultura do município do Rio de Janeiro, após a fusão em 1975. Qual era a realidade daquele tempo?
Terezinha Saraiva – Com a fusão dos dois estados – Guanabara e Rio de Janeiro, o município do Rio herdou encargos, problemas e uma tradição em educação, menos os recursos orçamentários para arcar com a responsabilidade que, espontânea e determinadamente, assumiu. As finalidades da Secretaria Municipal de Educação e Cultura foram determinadas pelo Decreto Municipal nº 15, de 23 de junho de 1975. Embora o Decreto criando a secretaria fosse de junho, começamos a trabalhar desde 15 de março de 1975. Como não havia local para receber a Prefeitura e suas Secretarias, provisoriamente, trabalhamos em locais cedidos. Durante quase quatro meses, 52 pessoas trabalharam comigo, de manhã à noite. Ali, estabeleceu-se a política educacional do Município e a filosofia de trabalho; foram traçadas as grandes linhas de ação para o quadriênio, estabelecendo-se metas a serem atingidas a curto, médio e longo prazos. Ali, traçaram-se os critérios que embasariam todas as ações e das quais nunca nos afastamos. Ali, desenhou-se a estrutura básica e orgânica da Secretaria; surgiu a nova concepção dos Distritos de Educação e Cultura e definiu-se o número desses órgãos da administração descentralizada, debruçando-nos sobre o mapa do município, guardando coerência com as 20 Regiões Administrativas de então. Ali, foram traçadas a filosofia e a estratégia da supervisão escolar e da orientação educacional; foram concebidas as Classes de Adaptação para o atendimento aos alunos de 6 e 7 anos, que necessitassem de um atendimento específico antes de se incorporarem às turmas de 1ª série, com vista a diminuir a repetência. Traçou-se a política de capacitação de recursos humanos. Definiu-se a estratégia para o desenvolvimento da Educação Moral e Cívica; para a integração com o ensino particular; para a educação alimentar e para a educação física e religiosa; para o atendimento ao aluno portador de necessidades especiais; para a expansão da pré-escola, como requisito indispensável ao desenvolvimento global da criança. Decidimos, como primeira ação, realizar o Censo Escolar, que nos daria um quadro real da demanda para o Ensino Fundamental e a pré escola do Rio. Quando o prefeito Marcos Tamoyo foi convidado para ser Prefeito do Município do Rio de Janeiro, telefonou-me, imediatamente, para ser sua Secretária de Educação e Cultura. Nós éramos amigos desde o Governo Carlos Lacerda, no qual ele fora Secretário de Obras e eu, de Educação e Cultura. Ao aceitar o convite do prefeito, disse-lhe que eu só tinha três coisas a pedir: prioridade total para a educação; o direito de escolher toda a equipe técnica da secretaria, e que meu trabalho não sofreria qualquer influência política partidária. Ele me respondeu, com seu jeito peculiar de concordar: “Tá na mão”. E assim foi, durante os quatro anos em que fui secretária de Educação e Cultura. Tive total apoio do prefeito e de todo o secretariado. Ao final da administração, março de 1979, cumprimos as metas estabelecidas para curto e médio prazos. Uma única, a longo prazo, não se concretizou: a criação de Centros Pré-Escolares.

revistapontocom – Passados 30 anos, qual é a avaliação que a senhora faz da política pública municipal de Ensino do Rio?
Terezinha Saraiva – Acho que a preocupação principal de qualquer Secretário Municipal de Educação tem que ser a qualidade do ensino. Há uma série de fatores internos e externos que influi na qualidade de ensino e no baixo desempenho escolar. São fatores que, ao longo das décadas, foram acumulando problemas. Para mim, dentre os internos, o principal diz respeito à formação dos professores, uma responsabilidade dos Cursos Normais e das Universidades. Não aceito quando culpam a criança, sobretudo a oriunda do meio desfavorecido, por sua reprovação ou dificuldade de aprendizagem. A questão está na formação do professor. A culpa não é do docente, mas do curso que o prepara. Desde a década de 1960, quando a escola pública abriu-se, acertadamente, para as classes menos favorecidas, verificamos que os Cursos de Formação de Professores não estavam preparando, adequadamente, os profissionais de ensino para lidar com este novo perfil de aluno. Os professores, de modo geral, não conhecem seus estudantes. Em vez de levarem seus alunos ao sucesso; os professores, por conta do nível socioeconômico e cultural das crianças, abaixaram o nível de ensino. Na administração do Prefeito Marcos Tamoyo conseguimos melhorar um pouco esta formação, por meio de Cursos de Educação continuada, dados pela própria secretaria. As administrações seguintes também lutaram por isto. Mas é uma busca contínua e é preciso dar continuidade. Mais do que isso: é necessário que os Cursos de Formação de Professores repensem seus currículos. Na minha época, não conseguimos nos aproximar das universidades. Vejo que este diálogo, ao longo do tempo, melhorou muito. Não acompanhei de perto algumas administrações que me sucederam, mas posso afirmar que alguns secretários de educação do Rio trabalharam e trabalham muito para melhorar a qualidade do ensino oferecido e o desempenho dos alunos. Com relação aos demais fatores internos e externos, podemos citar os salários dos professores, as condições de trabalho do profissional, a estrutura física das escolas e os investimentos na educação.

revistapontocom – Por que há uma impressão de que pouco avançamos na educação?
Terezinha Saraiva – Estou um pouco afastada, não sei se podemos dizer que a política educacional do município do Rio piorou. O que se faz necessário é que haja continuidade, independente de mudanças de governo. Considero que a atual gestão da secretaria municipal de educação está desenvolvendo uma correta política educacional. Recursos não faltam. De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), os municípios devem aplicar 25% em educação. Além disto, o Rio recebe recursos do FUNDEB. Falando em investimento, quero dizer que, na administração do Prefeito Marcos Tamoyo chegamos a aplicar, em educação e cultura, 52% do orçamento, além dos recursos do salário educação, que consegui que o governo estadual, daquela época, repassasse para o município, uma vez que assumia, integralmente, a responsabilidade com o antigo ensino de 1º grau e a pré-escola. Hoje, o Congresso discute a aplicação de 10% do PIB. É ótimo. Mas uma observação: dinheiro não basta. Se tiver mais, melhor. Em paralelo com os recursos, é necessário uma eficiente gestão da secretaria e das escolas e que se priorize a pasta. O brasileiro, infelizmente, tem a péssima mania de não dar continuidade ao que ele encontra. De um modo geral, quando alguém chega ao poder, pega a experiência anterior, embrulha num pacote, coloca numa prateleira, na qual nenhuma escada consiga alcançar e começa tudo outra vez. Ou recomeça com um novo nome, para dizer que a obra é dele ou abandona completamente. Acho natural que cada pessoa que chegue imprima sua proposta de trabalho. Mas as coisas boas devem ser mantidas. Historicamente, no que diz respeito à secretaria municipal de educação do Rio, algumas administrações foram deixando de lado boas experiências. Acho que é preciso que as pessoas entendam que quatro anos de gestão é muito pouco. Além desta boa gestão administrativa e de recursos, é fundamental que o governo, seja municipal, estadual ou federal, priorize a educação. Priorizar não é esquecer o resto. O sucesso da área se deve a poucos, mas importantes, ingredientes. E um deles é a prioridade do governante à área. Depois de Marcos Tamoyo creio que nenhum prefeito tenha conferido prioridade à educação. Posso citar o prefeito César Maia, em dois momentos, quando estavam na secretaria as professoras Regina de Assis e Sônia Mograbi e o atual Prefeito Eduardo Paes. Não há como: o Executivo tem que dar prioridade à educação. É uma decisão política. Assim como se faz necessário conferir prioridade à saúde. Há uma frase que sempre digo e que se tornou bem conhecida: quem administra sem critérios não explica nem seus acertos; quem administra com critérios, explica até os seus erros.

revistapontocom – E a senhor acha que, historicamente, os prefeitos do Rio administram com critérios ou sem critérios?
Terezinha Saraiva – Não posso afirmar com segurança, mas acho que os políticos dificilmente governam estabelecendo critérios, pois há muitas injunções políticas.

revistapontocom – E a sociedade? Onde ela está? Ela não poderia pressionar mais os governantes?
Terezinha Saraiva – Hoje não é apenas o educador que se preocupa com a educação, mas vários profissionais. Creio que a sociedade também está mais atenta. Poderia estar mais, mas avançamos neste quesito também. A população está mais participativa. A sociedade está consciente da importância da educação, sabe que educação é prioritária. Se alguém se apresenta como candidato e não tem uma plataforma para educação, dificilmente será eleito.

Educação e política

Silvana Gontijo
Presidente do planetapontocom

As campanhas para prefeitos e vereadores dos cerca de cinco mil municípios brasileiros já começaram. O que será que cada candidato pretende fazer pela educação brasileira? Sim, porque todo mundo sabe que o maior obstáculo ao pleno desenvolvimento do Brasil é a qualidade da Educação e a falta de inovação. Se é assim, que tal começarmos a sonhar com a educação que queremos para nossas crianças e jovens?

Sonhe e responda à questão que nós, do planetapontocom, nos colocamos a cada dia: Educação: o que eu quero para minha cidade? Você pode enviar sua resposta para o nosso e-mail (revistapontocom@planetapontocom.org.br) ou publicá-la diretamente na nossa página no Facebook. Vale enviar também vídeos, áudios e artigos.

Nosso compromisso é suscitar essa questão e promover um debate nacional sobre soluções e caminhos para a educação brasileira, seja ela pública ou particular. Nosso compromisso é apoiar a todos os interessados em superar os entraves do crescimento do país através da educação de qualidade.

Nosso compromisso nesse momento é, além de informar com qualidade, abrir espaço para nossos leitores e dar-lhes voz. Assim, a partir de hoje, vamos publicar edições especiais da revistapontocom sobre eleições municipais e políticas públicas de educação.

Se você quiser promover um debate com os candidatos de seu município, entre em contato conosco (revistapontocom@planetapontpocom.org.br), repassaremos todas as dicas e os caminhos e mais: abriremos um espaço específico para a sua cidade.

Participe! Precisamos de políticas públicas que reflitam as nossas aspirações, implementadas por gestores comprometidos com as causas públicas e, acima de tudo, decentes. Acredite nos seus sonhos eles podem ser o começo da mudança que precisamos para uma sociedade mais justa, humana e desenvolvida.

Fique por dentro

Por Marcus Tavares
Editor da revistapontocom

De que forma a revistapontocom pode contribuir com o debate sobre educação, às vésperas de novas eleições municipais em todo o país? Embora a revistapontocom esteja voltada para a discussão mais específica de midiaeducação, me fazia esta pergunta. Há cerca de um mês, eu e Silvana Gontijo, presidente do planetapontocom, resolvemos lançar a campanha Educação: o que eu quero para a minha cidade? A ideia é dar voz e vez aos brasileiros se pronunciarem sobre o que pensam e o que desejam para o dia a dia de suas cidades, com foco na educação. Não apenas na educação dita formal, conduzida pelas secretarias municipais de educação, mas na educação no seu contexto mais amplo, que envolve todos os setores e cidadãos. A proposta é colocar a educação na pauta do dia de nossos leitores e de tantos outros que conseguirmos alcançar, instigando a reflexão e a consciência do poder do voto, do cidadão.

Resolvemos também promover uma série de entrevistas sobre política e educação com professores, pesquisadores, especialistas, estudantes, pais e, é claro, candidatos à prefeitura. Por estarmos sediados na cidade do Rio de Janeiro, optamos por discutir a realidade específica do município do Rio de Janeiro, mas com a intenção de que nossa ação seja replicada em tantas outras cidades do país.

A partir desta semana, vamos iniciar a publicação do material. Na lista dos entrevistados, estão: Ana Maria Monteiro, diretora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Janaína Menezes, diretora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), Jorge Najjar, diretor da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF) e Rosana Glat, diretora da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Vamos ouvir também os candidatos à Prefeitura do Rio, bem como as ex-secretárias de educação do município do Rio de Janeiro, como Carmem Moura, Mariléa da Cruz, Regina de Assis e Terezinha Saraiva.

Queremos também publicar as opiniões do educador Flexa Ribeiro, da Academia Brasileira de Educação (ABE); de Lia Faria, ex-secretária de Educação do Estado do Rio; de Suzana Gutierrez, diretora do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do RJ (Sepe); de Victor Nótrica, presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Educação Básica do Município do Rio de Janeiro; de Wanderley Quêdo, presidente do Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro e Região (Sinpro); e de José Adilson Priori, da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime-Rio).

Professores da rede municipal de ensino do Rio, bem como funcionários, estudantes e suas famílias, também ganharão espaço na revistapontocom. Gostaríamos ouvir as opiniões, as sugestões e os apelos de quem convive diretamente com as mais de mil escolas.

Você, caro leitor, poderá acompanhar cada entrevista, opinar e comentar. Poderá também sugerir outros nomes de entrevistados, bem como perguntas direcionadas a cada um deles. Sua contribuição é muito valiosa para a revistapontocom. Escreva para nós. Esperamos que o material o ajude a refletir sobre a educação de sua cidade. Uma responsabilidade de todos nós.

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