Carta aberta a Papai Noel

Por Artur Melo, 10 anos
Aluno do 5º ano do Ensino Fundamental, da Escola Sá Pereira

Querido Papai Noel,

Um dia desses a minha mãe leu um livro com a sua história, a Semente do Nicolau [de Chico Alencar]. Vi como tudo começou. Vi que você era um menino muito generoso, que gostava de dividir com as outras crianças os brinquedos que ganhava. Gostava mais de ver a alegria das crianças brincando com os seus brinquedos do que brincar com eles. O tempo foi passando e você foi recebendo cartas e mais cartas.

Descobri que antigamente as cartas que você recebia eram muito bonitas, falavam sobre amor, sobre gentileza, sobre o cuidado com as pessoas, com os animais, com a terra etc. Eu não sabia disso. Hoje em dia, você só recebe cartas de crianças pedindo coisas, dificilmente recebe cartas bonitas como as de antigamente, que você guarda até hoje em seu baú.

Não sei se você se lembra de mim. Eu já escrevi várias cartas bonitas, me chamo Artur Lobão de Melo e, sem saber, que você se entristece de receber cartas que só pedem, eu já escrevia cartas bonitas, deve ser por isso que você já até me respondeu a uma delas. Você se lembra? Ah! Eu gostaria de saber se alguma das minhas cartas foi para o seu baú de lembranças inesquecíveis.

Eu acho, Papai Noel, que é legal ganhar presente de Natal. Eu adoro! Mas as pessoas não podem se esquecer, como está acontecendo, do Nascimento de Jesus, o que é essencial do Natal. E aí, Papai Noel, eu me lembro, porque li na Bíblia, que Jesus ensinava muitas coisas boas para as pessoas, como amar a todos, até os nossos inimigos. É muito difícil isso! Eu acho que o dia do Natal é para a gente se lembrar junto, todo mundo, de tudo o que ele ensinou. Eu também fiquei pensando que você, Papai Noel, tem a ver com Jesus e dá presente no Natal porque ele disse que quando as crianças riem Deus também ri, eu li na Bíblia. E toda criança fica feliz e ri quando ganha um presente.

Um beijo do Artur

Natal: consumo ou celebração?

Por Lais Fontenelle

Todo final de novembro, quando as luzes e os enfeites nos anunciam que o Natal se aproxima, fico pensando no significado dessa data – a segunda que mais gera lucro aos lojistas, perdendo em vendas somente para o Dia das Mães. Será que estamos comemorando o Natal com nossas famílias de forma sustentável? Será que temos passado valores humanos para nossas crianças ao comemorar um Natal onde os presentes são o mais importante da festa? Gostaria de compartilhar essa reflexão para que nós, adultos, possamos repensar o sentido que temos dado ao Natal.

Na minha família, sempre que um neto vinha ao mundo, minha avó – de quem herdei os olhos e o nome! – bordava um saco de Papai Noel com o nome do bebê que havia nascido. Era como um ritual de boas vindas da família, do qual guardo belas recordações. Nossa reunião no dia 24 de dezembro não era somente para trocar presentes, que preenchiam os sacos bordados pela vovó, mas para celebrar conquistas e afetos compartilhados ao longo daquele último ano. É verdade que a troca de presentes sempre fez parte da festa, mas a magia envolvida na celebração era, sem dúvida, muito mais importante e interessante, para nós crianças, do que os presentes em si.

Esperávamos na janela do quarto pelo trenó do bom velhinho enquanto os adultos arrumavam os sacos embaixo da árvore. E, mesmo aquelas netas mais velhas ou mais céticas como eu, que não acreditavam no Papai Noel, entravam na brincadeira e, quando aparecia algo mais brilhante no céu, diziam: “lá vem ele!”. Era uma verdadeira farra. Hoje, me parece que os presentes são o que mais importam nessa data.

Atualmente, as famosas cartinhas de Natal entre as crianças trazem listas sem fim dos últimos lançamentos de brinquedos anunciados incessantemente pela publicidade na TV – que convida nossos filhos a um consumo exagerado.

Acredito que há uma luz no fim do túnel quando vejo a poesia das crianças que conseguem, se bem conduzidas por um adulto, endereçar como pedido de Natal nas suas cartinhas coisas como paz, borboletas, alegria – e isso vi em murais de escolas. Chegar nesse ponto, no entanto, requer diálogo entre adultos e crianças já que, sem dúvida, o mais fácil é mesmo listar os últimos lançamentos de brinquedos…

Na semana passada, li um texto de uma organização inglesa que discutia o significado das cartinhas endereçadas ao Papai Noel, além de trazer dicas aos pais de como fazer um Natal mais humano e menos materialista. Essa é uma tarefa difícil nos dias de hoje, onde o consumismo impera entre adultos e crianças e os bens materiais nos servem não somente como ingressos sociais, mas como uma forma de demonstração de afeto.

Na minha cartinha de Natal, se eu pudesse, pediria ao Papai Noel que plantasse a sementinha dessa discussão na cabeça de todos os cuidadores de crianças – sejam eles pais, avós ou educadores. Será que não conseguimos conjuntamente lutar contra esse convite exagerado à compra de presentes e realizar uma festa natalina que envolva também outros tipos de troca? Deixo aqui algumas dicas… Uma ideia bacana é pensarmos em presentes feitos em casa e junto com as crianças. Receitas, recortes, desenhos e colagens são bem-vindos. Podemos também doar brinquedos e roupas usados para que os novos cheguem. Desejo que, nesse Natal, as famílias consigam repensar a forma como lidamos com o consumo, para que nossas crianças possam listar desejos mais significativos ao querido Papai Noel.

Boas festas!

Lego e criatividade

Alunos de dez escolas públicas e privadas do Rio de Janeiro, na faixa dos 10 aos 15 anos de idade,  participaram, no dia 8 de dezembro, na unidade do Serviço Social da Indústria (Sesi) de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, da fase regional do torneio First Lego League  (FLL), que ocorre desde 2004 no Brasil e há 20 anos nos Estados Unidos. No Rio, ele é promovido desde 2008.

A First é uma organização não governamental norte-americana, criada em 1989, que desenvolve programas inovadores com ênfase em matemática, ciência e tecnologia para jovens. Anualmente, mais de 2 mil alunos participam dos torneios de forma direta e indireta.

Nesta etapa da competição, os 15 times formados, representando dez escolas, apresentaram projetos  com o tema Soluções para Idosos, que ajudam a tornar essas pessoas mais independentes e conectadas. Os projetos utilizam o brinquedo Lego (peças de encaixe com diferentes formatos para montagem de objeto) e a robótica como ferramentas. Das dez escolas participantes, duas são da Rede Sesi (Serviço Social da Indústria), localizadas em  Jacarepaguá e Nova Iguaçu.

O Sesi participa  desde 2010 do torneio. A entidade é pioneira na utilização de Lego na educação profissional e na educação básica, que é o foco da competição deste ano, disse à Agência Brasil o gerente do Sesi/Senai de Jacarepaguá, Marcelo Gonçalves.

“A gente usa o Lego na parte de automação e robótica, como  também na parte de matemática, lógica e, inclusive, em ciências como biologia onde, por meio dos kits Lego, nossos professores montam  simuladores da respiração, do batimento do coração. Então, o Lego tem auxiliado muito os estudantes em todas essas ciências”, disse. Gonçalves destacou que muitos projetos elaborados pelos alunos auxiliam pessoas com deficiências, além de estimular os estudantes a aprender de forma mais lúdica.

A responsável pelo evento no Rio de Janeiro, Sueli Abreu, informou à Agência Brasil que além de construir um robô, os alunos têm de fazer pesquisa sobre o tema que produza conhecimento para aplicar nas comunidades onde estão inseridos.”E tem a questão das equipes. Há um envolvimento pedagógico das escolas. Não é um simples torneio de robótica. Ele envolve mais que isso”.

Os vencedores da etapa no Rio de Janeiro participarão da competição nacional, programada para março de 2013. Serão avaliados, entre outros aspectos dos projetos, o espírito de competição e a harmonia das equipes, design,  inovação e processo de pesquisa.

Sueli disse que, atualmente, o jovem está cada vez mais voltado para o esporte e para atividades ligadas à diversão, ao lazer e, por isso, o torneio First Lego League enfatiza o valor da escola e do aprendizado. “A gente quer que a escola e  valores como estudo, aprendizado, ciência, possam ser tão divertidos como o jogo de futebol ou qualquer outra coisa que os jovens gostem. Que a aprendizagem possa ser um esporte para eles”.

Por meio da competição, a ONG americana quer estimular também a atuação dos alunos em profissões como medicina, engenharia, além de áreas sociais. Sueli disse que  muitos projetos idealizados pelos estudantes brasileiros tiveram a pesquisa  patenteada.

É o caso de uma bengala para cegos, apresentada no ano passado, que foi doada para o Instituto Benjamin Constant de educação para cegos, unidade do Ministério da Educação que está sediada no Rio de Janeiro. A bengala tem um sensor na ponta. Ao se aproximar de algum objeto, ela emite um som e treme, ajudando, dessa forma, o cego a se locomover e a evitar obstáculos.

São Paulo já teve sua etapa regional da competição. Depois do Rio de Janeiro, as cidades de Salvador, Uberlândia, Caxias do Sul e Guarujá  também sediarão o evento.

O design do humano

Por Marcus Tavares

Os objetivos são muitos e envolvem questões tanto profissionais quanto pessoais, ligadas à constituição de valores do ser humano, muitas vezes esquecida, como o simples ato de agradecer o próximo. Esta é apenas uma das ricas aprendizagens vivenciadas no dia a dia da disciplina Projeto Básico Planejamento, do curso de Design da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Disciplina que poderia ser chamada de encontros. Encontros que inspiram mudanças no ser, no ter e no relacionamento com as pessoas.

No dia 1º de dezembro, na tenda montada ao lado do Solar Grandjean de Montigny, no campus da PUC-Rio, os cerca de 40 alunos, matriculados neste semestre, apresentaram os trabalhos de conclusão do semestre. Em dupla, das 9 às 21h30, mostraram o processo de aproximação, envolvimento, diálogo e construção dos produtos criados por eles para a escola pública, mais especificamente para o dia a dia da sala de aula do professor.

Formação humana, design, criatividade e escola: mas afinal que história é essa? A cada semestre, os alunos do 2º período do curso de design são instigados por um quarteto de professores – Ana Branco, Luiz Vicente, Luciana Grether e Socorro Calhau – a cumprirem uma agenda detalhada de trabalho, cujo relatório final não deixa nada a dever a um estudo de campo de um mestrado ou doutorado.

A dinâmica começa da seguinte forma: cada aluno tem que percorrer quatro escolas da rede pública municipal de escolas do Rio de Janeiro, conhecendo a experiência de quatro diferentes educadores. Num segundo momento, os estudantes, já em dupla, escolhem um dos educadores com quem mais se identificam. Os universitários então marcam quatro encontros com a escola, com o objetivo de observar o dia a dia da sala de aula do professor. A intenção é descobrir de que forma eles podem ajudar, por meio da criação de um produto, a prática do educador. “Produto não, produto é resultado da produção industrial em série. É protótipo. E espero que assim seja sempre”, corrige a professora Ana Branco. Tem razão. Trata-se de uma construção de um protótipo único, diferente, pessoal e que tenha usabilidade, aplicabilidade na prática interativa entre professor e aluno.

A princípio, quatro encontros parecem ser poucos, mas, na prática, é tempo suficiente para que os universitários se envolvam com a professora e, é claro, com os estudantes.  Aliás, “não há opção de não se envolver”, avisa Amanda Lourenço, professora do Colégio Santos Anjos, na Cruzada São Sebastião, no Leblon, Rio de Janeiro, que foi este ano escolhida por uma das duplas.



Na observação feita na sala de aula, os estudantes recolhem as palavras ditas, repetidas e que fazem parte do contexto do professor. Contabilizam, no total, cerca de 200 palavras. Depois, com a ajuda do time de educadores da PUC, elaboram frases a partir da montagem das palavras. As frases são apresentadas aos professores das escolas. Estes, por sua vez, têm de selecionar uma frase, a frase que definiria o trabalho com a turma. A sentença final torna-se, então, o briefing, o espírito do trabalho do professor, no qual os universitários devem concentrar toda a energia de ação criativa e afetiva.

E como essa afetividade transborda. “Agradeço a experiência de viver o projeto, pois mostrou que criatividade não tem limites. Ser desafiado a questionar cada detalhe e agradecer todos os dias por um aprendizado novo gerou em mim um sentimento de ter fé de que sou capaz de me tornar não somente um bom profissional, mas também um ser humano melhor. Assim como os alunos da professora Amália, termino esse semestre feliz, pois aprendi a falar e a não desistir”, disse, emocionado, Antonio Duarte, ao apresentar, ao lado de Maria Miranda, o projeto.

A frase “Turminha gosta de música, livro, filme e origami que ajuda falar e não desistir”, escolhida pela professora Amália Araújo, responsável pela Sala de Leitura, do Ciep Agostinho Neto, localizado no Humaitá, foi o ponto de partida para o trabalho de Antonio e Maria. Como combinado anteriormente, os estudantes têm de criar cerca de 20 experimentos para serem utilizados pelos professores. Ao elaborarem e observarem o impacto dos protótipos na sala de aula, os alunos recriam, identificam a usabilidade e a pertinência ou não da ideia.

Depois, a partir do jogo do quente ou frio, onde o professor indica que tipo de experimentos mais lhe agradou no sentido de contribuir para sua prática, os universitários definem um caminho mais focado e iniciam novamente o processo de criação e aplicabilidade de protótipos. Um processo de idas e vindas, de não desistir, de encontrar uma boa solução.

“Nesta etapa final, construímos cenários para ajudar os alunos a falarem, montando suas histórias. Desenvolvemos um suporte em origami na forma triangular, feito de acetato transparente. Junto dele, produzimos também um conector do mesmo material na forma retangular. Para que as crianças criassem suas narrativas, foram feitas também ilustrações dos personagens do folclore brasileiro, tema recorrente na maioria das aulas da professora Amália”, explica Antonio e Maria.

Em paralelo, os universitários têm uma agenda a cumprir na faculdade, participando de oficinas oferecidas pelo curso. Bambu, tecido, arame são alguns deles. O que se aprende pode ser replicado.

Todo passo a passo tem de ser escrito, documentado e analisado pela dupla. Ao longo do semestre, os professores da disciplina vão trocando experiências e dialogando com os estudantes. Ao final, um relatório deve ser entregue com toda a evolução. No dia da apresentação, todo o processo é descrito. Mais importante do que o protótipo, que é doado para a professora da escola, é o processo que é valorizado.

“Os alunos saem prontos para qualquer desafio. E mais do que isso: é uma nova forma de pensar o papel do designer neste mundo descartável e de consumo. Os estudantes têm de pensar, observar e produzir um protótipo que faça sentido e tenha, de fato, usabilidade e pertinência para o trabalho do professor, isso faz toda diferença”, explica a professora Socorro Calhau.

Ganham os alunos. Ganha a educação. Para a professora Amália, que já foi escolhida três vezes para participar da proposta, a aproximação da universidade é bem interessante. No primeiro momento, ela confessa que estranhou a interface entre design e sala de aula. Mas logo percebeu a riqueza e a importância do projeto. “Fico feliz de participar e de ver surgirem protótipos personalizados, destinados à sala de aula. E além disso tudo, é um grande trabalho, um grande exercício de escuta do outro”.

Cinema e educação

Estão abertas as inscrições para o VI Encontro Internacional de Cinema e Educação da UFRJ, que vai acontecer entre os dias 11 e 14 de dezembro, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Voltado para alunos e professores, bem como profissionais que atuam no eixo cinema-educação, o evento tem o objetivo de ampliar e aprofundar os diálogos entre cinema e educação, convocando especialistas na área para discutir acerca de temáticas relevantes.

Participam da edição deste ano Verónica Guzzo e German Guzzo, produtora e diretor, respectivamente, do filme La Educación Prohibida; Luiza Lins, coordenadora do Festival Internacional de Cinema Infantil de Florianópolis; Consuelo Lins, diretora do filme Babás; e professores da UFRJ.

“Neste ano, escolhemos para discussão, dois filmes cujos diretores disponibilizaram todo o conteúdo na rede, partilhando seu trabalho e facilitando o livre acesso. Dessa forma, se faz necessário que os filmes sejam assistidos previamente ao evento, já que, como estão disponíveis gratuitamente para todos, optamos por não transmiti-los, aproveitando esse tempo para aprofundar os debates. Para assistir os filmes, acesse: Babás e La Educación Prohibida“, avisa a coordenação.

Simultaneamente ao Encontro, vai ocorre também a Mostra da Faculdade de Educação no MAM, e a Mostra Mirim Internacional de Minutos Lumière, onde serão apresentados filmes da categoria “Minutos Lumière”, da autoria de crianças e jovens em idade escolar de todo o mundo.

Programação e inscrição clique aqui

Classe Hospitalar

 

Por Maria Alice de Moura Ramos
Professora assistente da Universidade Federal  do  Estado  do  Rio de Janeiro (UniRio)
Doutoranda em Educação da Faculdade Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF)

Em março deste ano, como professora do Departamento de Fundamentos da Educação na área da Educação Especial, da Universidade Federal do Estado do Rio (UniRio), apresentei, como projeto de extensão, a implantação da Classe Hospitalar no Hospital Universitário Gaffrée e Guinle, instituição universitária da UniRio. O projeto foi aprovado e o atendimento já vem sendo feito com objetivo de atender crianças e jovens internados na enfermaria pediátrica.

Classe Hospitalar não é nenhuma novidade para a cidade do Rio de Janeiro. O município é pioneiro e referência neste atendimento, data de 1950, quando foi criada a primeira classe, no Hospital Jesus, em Vila Isabel. Hoje, temos 11 espaços. No Brasil, oficialmente, há 141 hospitais que oferecem a oportunidade de crianças e jovens prosseguirem com seus estudos.  Mas o que é Classe Hospitalar? Como funciona este atendimento? Qual é a proposta? Este é o objetivo deste pequeno texto.

A educação dentro do contexto hospitalar é reconhecida pela área da saúde como um dos remédios que ajudam na recuperação da criança doente. Sabe-se que mesmo em ambiente hospitalar tanto a criança quanto o adolescente continuam em pleno processo de desenvolvimento, necessitando de uma educação comprometida não só com a sua formação acadêmica, mas também com sua inclusão social.

A escola na contemporaneidade tem o compromisso de estar onde a criança está. E quando aparece no espaço do hospital representa a normalidade dentro de um quadro de doença que se apresenta “como uma ruptura de um fluxo do cotidiano, uma ameaça súbita a um mundo tomado como suposto” (LIRA, 2005. p. 62). Se a criança não estivesse no hospital, onde ela estaria? Certamente na escola!

Embora esta modalidade de ensino esteja vinculada com a Política Nacional de Educação Especial, sua proposta pedagógica deve contemplar crianças e adolescentes de todas as características biopsicossociai, não limitando o atendimento apenas às crianças  com alguma deficiência. O objetivo da Classe Hospitalar é um atendimento pedagógico educacional que favoreça as crianças e os jovens hospitalizados a dar continuidade à construção do seu conhecimento, trabalhando articuladamente com a equipe hospitalar, com a família, e com a escola de origem do educando, de modo a promover o seu ingresso ou retorno à escola. A proposta da Classe Hospitalar é fazer com que a criança compreenda que a escola ali presente faz com que ela consiga continuar agente de sua constituição de conhecimentos e valores.

Temos consciência que a hospitalização representa um momento de fragilidade vivido tanto pela criança doente quanto por sua família. A presença do atendimento educacional traz para a criança a normalização do seu cotidiano, preenchendo de forma produtiva as horas vazias de sua hospitalização, resgatando, não só sua escolarização, mas também a manutenção da sua autoestima, da alegria de viver, de modo a encorajá-la a agir criativamente diante deste momento inesperado da sua doença.

As práticas educativas implementadas em espaços hospitalares não diferem, em seus objetivos básicos, das realizadas em qualquer escola. A diferença, se é que podemos destacar alguma, está nas ações pedagógicas selecionadas pelo professor, com base em seus saberes pedagógicos construídos ao longo de sua formação. Cabe a ele elaborar um planejamento não alienado ao contexto da criança, calcado no lúdico e, especialmente, voltado para a continuação do processo de aprendizagem já iniciado. Pensando as práticas educativas, é preciso logo de início compreender que cada dia de trabalho numa Classe Hospitalar é totalmente diferente do outro, devido ao movimento de internações, saídas para exames, visitas etc.

O planejamento deverá, por este motivo, estar sempre voltado para um grupo de alunos novos e com atividades que tenham início, meio e fim naquele dia. Se possível, o professor deverá ter um olhar investigativo, tentando descobrir alguma dificuldade apresentada pelo aluno que está atendendo, de modo a gerar uma orientação que possa facilitar a aprendizagem, em algum momento, não alcançada. Já no caso de internações recorrentes e/ou prolongadas, a atenção estará mais focada a um planejamento mais detalhado, preferencialmente em contato com a escola de origem do aluno, com vistas a proporcionar a continuidade da vida acadêmica do estudante.

Não podemos esquecer que as mídias também podem e devem estar presentes nas Classes Hospitalares como em qualquer escola. Quando a criança recebe o atendimento no leito, por não poder sair para o espaço específico da classe, esse atendimento pode ser feito com um notebook, tablet etc. As crianças atendidas podem entrar em contato com a sua escola e colegas através da internet. Entre 2003 e 2010, trabalhei na Classe Hospitalar Jesus que mantinha um convênio com a IBM, pelo qual recebia computadores, planejados para serem utilizados por crianças de 3 a 6 anos, com jogos educativos. As crianças adoravam.

Para a criança, o hospital é o lugar desconhecido onde não pode fazer nada do que gosta. Tem que ficar quieto o tempo todo, sem brincar, muitas vezes sem sair da cama. É o lugar da falta, onde sente saudades dos familiares, da casa, da escola, dos colegas, dos brinquedos e brincadeiras. A realidade vivenciada por uma criança dentro do espaço hospital é inesquecível para ela. O estado emocional é abalado tornando-a, na maioria das vezes, insegura. A escola no espaço hospitalar aparece para transformar o paciente/aluno em aluno/paciente, pois o objetivo é desafiar a criança cognitivamente.

Assim, a Classe Hospitalar passa a ser um lócus de ações e transformações educativas. Os próprios pais ficam, num primeiro momento, surpresos com o desempenho dos filhos, pois os julgavam incapazes de produzir qualquer coisa. No segundo momento, a experiência de sucesso dos filhos nas atividades escolares, leva-os a acreditar numa capacidade como a de qualquer outra criança. A partir dessa constatação, os pais passam a falar mais na volta à escola, ou até se animam em matriculá-lo, quando ainda não o fizeram. Compreendem que não há necessidade de interromper o vínculo da criança com a escola, por conta da doença, ou seja, não devem ficar a espera de uma recuperação total para a inserção da criança num espaço escolar.

O fato de a criança se mostrar capaz significa para os pais uma esperança no futuro, conseguem projetá-lo propagando a linguagem da saúde, na busca de saberes fundamentais para a construção do conhecimento, mesmo estando hospitalizados.

Temos que dar visibilidade às leis que garantem esse tipo de atendimento. O professor que conhece os direitos de seus alunos é sem dúvida um profissional mais envolvido e responsável com a sua prática educativa. Para tanto, é preciso formar profissionais da educação conscientes de que sua prática deve buscar estratégias para dar atenção à diversidade de público atendido fora dos muros da escola, melhor dizendo, é preciso (trans) formar a formação que se tem. O conhecimento desta modalidade de ensino dentro e fora dos espaços acadêmicos, bem como do direito assegurado por lei, é, certamente, um desafio para todos os envolvidos com educação.

De Nova Friburgo para o Brasil

A ideia é simples: escrever roteiro, reunir amigos, interpretar, gravar e editar séries audiovisuais para emissoras de tevê por assinatura. Porém, um caminho é árduo. Mas possível. Pelo menos, é o que revela um grupo de cerca de cem pessoas que faz parte da equipe Telemilênio. Talvez, você ainda não conheça o projeto. Uma questão de tempo, segundo o coordenador, Victor Neves. As 15 séries produzidas já foram transmitidas para mais de 160 cidades brasileiras, dos estados de Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.

Recursos financeiros? Eles vêm do próprio bolso dos participantes, na grande maioria, marinheiros de primeira viagem, que aprendem na prática o ofício da produção audiovisual. “A carência de programação audiovisual é enorme. Depois que produzimos alguns capítulos, visitamos algumas emissoras. Já na primeira visita, fechamos parceria. Meses depois procurei outra emissora em uma cidade vizinha. Quando me dei conta tínhamos parcerias em todo o Estado do Rio”, explica Victor.

As parcerias não envolvem ajuda financeira só espaço na programação, o que para os integrantes é uma boa vitrine. A equipe produz conteúdo e o canal cede espaço na grade. Para aliviar o orçamento, os produtores firmam convênios com lojas e estabelecimentos, para a oferta do figurino e locações, por exemplo. “Não temos um levantamento de quanto é o custo de cada episódio. Cada integrante cobre os próprios gastos, como transporte e alimentação. Como já possuo equipamentos, levo todos para o local de gravação e iniciamos o trabalho. Quando precisamos comprar algo especial, recorremos à famosa “vaquinha” onde cada um ajuda com um pouco. Porém, são casos raros”, destaca Victor.

As séries que já foram ao ar são publicadas na internet.
Confira mais sobre este projeto na página do facebook.
https://www.facebook.com/equipetelemilenio

Crianças conectadas



O programa Contraponto da TV da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) discutiu, na última semana de novembro, a relação das crianças com a internet. O programa foi pensando a partir do levantamento do Comitê Gestor da Internet no Brasil, divulgado em agosto deste ano, que mostra que a maioria dos pais acredita que os filhos usam a internet com segurança, e do teor das denúncias que chegaram à Central Nacional de Denúncias contra Crimes Cibernéticos, mais da metade são sobre pornografia infantil.

Neste cenário, tramita no Congresso Nacional um projeto de lei que estabelece direitos e deveres na internet. Para discutir o tema, foram convidadas as professoras Regina de Assis, consultora em educação; Mariângela da Silva Monteiro, do Departamento de Psicologia da PUC; e Claudia Hernandez, do Colégio de Aplicação da Uerj.

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