Infância e comunicação


Por Marcus Tavares

A quantas anda a relação entre a infância e a comunicação no Brasil? O debate faz parte da agenda pública do país que criou o Estatuto da Criança e do Adolescente, considerado uma das leis mais avançadas do mundo no que se refere à proteção dos direitos da infância e da adolescência? De que forma o Estado, os meios de comunicação e a sociedade se colocam frente à discussão? Quais são os impasses que impedem o avanço positivo da interface infância/comunicação?

No início do mês de março deste ano, a ANDI – Comunicação e Direitos, organização da sociedade civil, realizou, em Brasília, o Seminário Internacional Infância e Comunicação: Direitos, Democracia e Desenvolvimento. Reunindo especialistas nacionais e internacionais, o encontro trouxe informações e estudos que ajudam a responder tais perguntas. E mais do que isso: mostrou experiências que podem servir de modelo para que o Brasil construa o seu próprio caminho, de forma contundente e consequente.

Em entrevista à revistapontocom,  Veet Vivarta, secretário executivo da ANDI, avalia o contexto em que se encontra a discussão entre infância e comunicação no país. Aponta quais são os obstáculos. Questiona a atuação do Estado e das empresas de comunicação e analisa o papel desempenhado pela sociedade neste cenário.

Acompanhe:

revistapontocom – Na interface infância e comunicação, qual é a defesa da ANDI?
Veet Vivarta – A ANDI reconhece a importância que os meios de comunicação têm no processo de socialização de crianças e adolescentes. Refiro-me a todos os meios de comunicação, daqueles mais recentes, baseados numa linguagem transmídia, até os mais antigos, que ainda têm uma grande presença na realidade brasileira. A influência destes meios de comunicação – que gera aspectos positivos e também inadequados, comprometendo muitas vezes o desenvolvimento integral das crianças – exige uma reflexão da sociedade. Defendemos uma aproximação entre os direitos das crianças e dos adolescentes, os estatutos e legislações nacionais e internacionais e o universo da mídia, trazendo e promovendo uma convergência em benefício das crianças.

revistapontocom – Quais são os obstáculos para que haja, de fato, esta aproximação?
Veet Vivarta – Uma série de democracias vem avançando na construção desta aproximação por meio do estabelecimento de mecanismos legais e de instrumentos de referência para a organização do setor e para a instrumentalização de políticas públicas na área. Mas no Brasil nem os princípios básicos estão estabelecidos. Poderíamos utilizar o referencial internacional que já existe e está à nossa disposição. Por aqui, o que vem sendo seguido e colocado em prática, na maior parte das vezes, é fruto do desenho dos movimentos do mercado, que nem sempre coincide com os interesses das crianças e dos adolescentes. Não podemos aceitar que as regras do jogo sejam estabelecidas apenas pelo mercado. Cabe ao Estado, à sociedade e aos diversos setores interessados no tema discutir e debater, estruturando o alicerce do relacionamento entre a criança e a comunicação. No entanto, o tema da comunicação no país muito pouco avança frente ao que já avançamos em relação aos direitos da infância. Na época da Assembleia Constituinte, por exemplo, houve uma grande mobilização da sociedade civil em torno da redação e aprovação do Artigo 227 da Constituição Federal, estabelecendo a criança e o adolescente como prioridades absolutas para família, para o Estado e a sociedade. Tempo depois, foi aprovado o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) que regulou, deu concretude ao Artigo 227. A Constituição garantiu o princípio de ordenamento e, em seguida, foi preciso uma legislação específica para trazê-lo para a prática de forma ampla. Isto não aconteceu com os artigos da Constituição que tratam especificamente da comunicação no país [artigos 220 ao 224]. Até hoje não temos uma legislação que dê conta de organizar o cenário que está estabelecido pela Carta Magna. A comunicação está muito bem conceituada na Constituição como bem e serviço público. Mas não avançamos na prática. Pergunto: por que até hoje o Congresso Nacional não conseguiu ter o mínimo de eficiência para se movimentar e dar uma reposta à Constituição nestes artigos. Conseguimos com os direitos das crianças e adolescentes, mas não no campo da comunicação. Certamente a resposta está nos interesses envolvidos neste processo.

revistapontocom – O senhor se refere aos interesses políticos e das empresas de comunicação?
Veet Vivarta – Certamente. Uma abordagem democrática no campo da comunicação para o Brasil significa rever e modernizar o contexto vigente, que encontra atores que se beneficiam de um cenário mal regulado. Um cenário que acaba de ser retratado na publicação Brasil, o país dos trinta Berlusconi, lançada em janeiro deste ano, pela ONG Repórteres Sem Fronteira. Ao revelar que dez principais grupos econômicos, de origem familiar, continuam repartindo o mercado da comunicação no Brasil, fica claro que a mistura de grupos políticos partidários e de comunicação no controle desse campo tão estratégico compromete não só a qualidade de uma comunicação que, por definição, deveria ser democrática e independente, como também vulnerabiliza a própria democracia brasileira. Os interesses de grupos de comunicação que estão vinculados a representantes do Executivo e a parlamentares, nas três esferas de governo, que foram eleitos pela população e que deveriam, portanto, manter independência para legislar em nome do bem público, comprometem qualquer tentativa de redefinir o cenário. Estamos numa situação trágica, rodando em círculos. Até mesmo boas ações pontuais que chegam ao Congresso Nacional, mas quase sempre acabam sendo engavetadas. Não tramitam, pois acabam tocando nos interesses já estabelecidos pelos políticos e grupos de comunicação.

revistapontocom – A quem caberia reivindicar e exigir tais mudanças? Caberia à sociedade?
Veet Vivarta – Você tocou na questão. Esta resposta vale um bilhão. Sem dúvida, é determinante que a sociedade se mobilize em torno desta agenda. Nos países em que este tema avançou, a sociedade civil teve e cumpriu um papel importante. Por outro lado, a sociedade sozinha não resolve. Em vários países, é o conteúdo/enfrentamento técnico que contribui para o avanço do debate. E, neste sentido, não precisamos inventar a roda. Organismos internacionais, por exemplo a Unesco, vêm produzindo um trabalho muito importante nesta área, trazendo consultores e documentos para compartilhar com especialistas brasileiros com o objetivo de promover um debate que seja pautado por uma questão técnica e não, como costuma acontecer, por afinidades/interesses ideológicos. Debate ideológico que, muitas vezes, é polarizado de tal forma que desvia o foco da discussão – resultado que, talvez, seja mesmo buscado por parte desses atores. Essa polarização é bastante comum no Brasil. Acompanhamos muitas vezes a acusação, por parte do mercado, de que o governo pretende instituir a censura. Outras, temos representantes do governo ou dos partidos da base aliada afirmando que a regulamentação da mídia é a única forma de combater o que não gostam/aprovam nos meios de comunicação. Este tipo de discussão polarizada nos debates da comunicação envieza e desvia o debate. Debate que poderia organizar a discussão e encaminhar soluções para a interface entre comunicação e sociedade, entre comunicação e infância. É preciso organizar o debate por princípios técnicos e esclarecer os conceitos que estão na mesa, enfatizando os déficits que temos em relação a este tema. Déficits que comprometem a democracia.

revistapontocom – O Estado então tem um papel decisivo?
Veet Vivarta – O Governo não pode se eximir de participar desta discussão, assim como as empresas. Temos visto sinais muito ambíguos. Uma vez se anuncia a disposição no avanço, como o Governo Lula fez ao convocar a Conferência Nacional de Comunicação, a Confecom, em 2009. Em outro momento, grupos empresariais anunciam iniciativas de autorregulamentação em seu campo de atuação. Mas isso tudo não avança. Essa preocupação não pode ser creditada a um grupo político partidário específico. Não é possível dizer que o PT é o único partido, a única tonalidade política no Brasil, a se preocupar com o assunto da comunicação. Se formos olhar o Governo do Fernando Henrique Cardoso (PSDB), vamos reconhecer que o ex-ministro das comunicações, Sérgio Motta, chegou a desenvolver uma matriz de um projeto de regulação dos meios de comunicação altamente madura. No ano passado, o próprio Instituto Fernando Henrique Cardoso promoveu um debate sobre estas questões e publicou um livro sobre mídia e democracia. Não dá para acreditar, portanto, como fazem alguns críticos, que as duas maiores forças políticas do país, no sentido que estiveram ocupando os postos de comando em Brasília, estão interessadas em dar um golpe na mídia, com o objetivo de trazer a censura de volta. Diante da grave realidade brasileira neste campo, estas são preocupações, ou deveriam ser, de qualquer governante comprometido com a modernização e democratização do país.

revistapontocom – O senhor falou da importância da sociedade neste processo. Mas será que a sociedade percebe este cenário ‘dominador’ dos políticos e das empresas de comunicação?
Veet Vivarta – Primeiramente, é bom destacar que não partilho do princípio que a mídia brasileira é ruim. Temos um cenário que é bastante diversificado. Na média geral, temos, tanto na mídia impressa quanto na eletrônica, bons conteúdos, sejam de entretenimento ou jornalístico. Não é um cenário perfeito, mas encontro, em relação aos nossos países vizinhos, uma produção interessante. Não acho que a população deva ter uma visão negativa da mídia, mas é preciso, sim, uma visão crítica. E neste sentido concordo que essa visão crítica não está disseminada. Mas há avanços. Lembro-me do debate em torno da Classificação Indicativa, entre 2006 e 2007. Na época, o Datafolha fez uma pesquisa que mostrou que os pais reconheciam a importância de um instrumento que organizasse os conteúdos transmitidos pela TV. A sociedade percebeu que não caberia apenas à família. Deveria haver regras para a veiculação dos conteúdos. Hoje, o debate em torno da publicidade voltada para as crianças também vem crescendo e envolvendo cada vez mais a sociedade. Não vejo um cenário definido. Temos grupos mais e outros menos conscientes. Mas, na média, creio que a sociedade está mais atenta ao tema, pensando mais sobre os assuntos. Se isso vai se transformar em um movimento mais ativo, de mudanças nas regras do jogo, não saberia dizer. Mas sinto que há um nível de preocupação ampliado em torno de algumas questões.

revistapontocom – No início de março deste ano, a ANDI promoveu, em Brasília, o Seminário Internacional Infância e Comunicação. Os debates realizados contribuíram de que forma para o debate destas questões?
Veet Vivarta – Em linhas gerais, o seminário mostrou que há muitos grupos preocupados com o tema. O nível de resposta dos convidados de dentro e fora do Brasil foi expressivo. Fiquei surpreso com o interesse e a participação. Imaginávamos que havia uma demanda reprimida em torno destas discussões, mas não esperávamos um retorno tão positivo, uma presença tão comprometida. Percebemos também o quanto a preocupação em torno da infância/comunicação está disseminada em vários países e continentes e o entendimento de que cabe ao Estado o ordenamento deste campo. Um bom exemplo vem do Comitê dos Direitos da Criança da ONU, criado para acompanhar o cumprimento da Convenção sobre os Direitos da Criança, que definiu como tema de debate para 2014 a interface entre a criança e a comunicação. O órgão pretende organizar e elaborar recomendações aos Estados no sentido de proteger e promover os direitos das crianças no setor da comunicação. Ou seja: é uma preocupação que vem crescendo, no âmbito da qual também se reconhecem a importância de uma postura pró-ativa por parte dosetor privado quanto a iniciativas de autorregulação,  da presença e participação da sociedade civil e da construção de uma abordagem técnica para essas questões. Creio que o evento também conseguiu reunir a academia, os órgãos multilaterais e a sociedade civil. Mas embora estivessem representados, o Governo e as empresas não estavam presentes da forma como a ANDI considera ser a mais adequada. O Ministério das Comunicações, por exemplo, fez falta. É difícil compreender que um evento que foca em temas tão fortemente vinculados à pasta não contou com uma representação à altura do debate. O mesmo pode ser dito dos grandes grupos de mídia. Foi uma oportunidade desperdiçada que poderia ter promovido um diálogo ainda maior, amplo e diversificado. Entretanto, não é a primeira vez que isso acontece: quando se propõe um debate que necessariamente irá tocar em aspectos relacionados à regulação dos meios, geralmente o resultado é parecido. Parece que o simples sentar à mesa gera incômodos, o que não me parece ser nada saudável para a democracia brasileira.

revistapontocom – Neste sentido, a infância não é vista como prioridade absoluta?
Veet Vivarta – A infância não é vista como prioridade no Brasil. Falo por mim e pelos depoimentos, estudos e conceitos que foram emitidos no seminário. Para Frank William La Rue, relator das Nações Unidas para a Liberdade de Opinião e Expressão, presente ao encontro, não há como garantir liberdade de expressão, na contemporaneidade, se você somente privilegia os interesses comerciais. Não é possível organizar um ecossistema midiático pautado por princípios democráticos tomando em consideração apenas os interesses das empresas. Eles devem ser contemplados. Mas se passam a dominar os demais, temos aí um grave comprometimento.

revistapontocom – Objetivamente, o que falta para criar uma interface saudável entre a infância e a comunicação no Brasil?
Veet Vivarta – Não acho que a resposta seja tão simples. Existem alguns princípios básicos já estabelecidos por organismos internacionais, como a Unesco e o Unicef. Também temos as experiências de alguns países que fizeram este debate há 20 anos e avançaram. Para que as empresas, sociedade e governo possam começar a garantir de forma concreta os direitos da infância frente aos meios de comunicação no Brasil, o primeiro passo seria sentar à mesma mesa para discutir o marco regulatório da relação entre infância e comunicação. É claro que podemos avançar por partes, mas não é o modelo ideal e saudável. Poderíamos seguir o exemplo do Uruguai. O nosso vizinho convidou formalmente os escritórios da Unesco e do Unicef para mediarem um debate público, envolvendo diversos setores da comunicação e infância, com o objetivo de definir pontos para o desenvolvimento de um projeto de lei na área. Neste caso, a Unesco e o Unicef agiram como um articulador, um mediador, trazendo as experiências internacionais, sem fazer valer a polarização do debate ou o interesse de um ou de outro grupo envolvido no tema. O país conseguiu chegar a uma proposta inicial que já foi entregue ao presidente. Não é uma proposta perfeita, mas chegou-se a um consenso. Entre eles, podemos destacar: a proteção contra conteúdos audiovisuais que possam ser danosos para as crianças e o incentivo à produção de conteúdos que contribuam para o desenvolvimento saudável das crianças, por meio de novas formas de financiamento da produção audiovisual.

revistapontocom – O cenário brasileiro frente à infância/comunicação é animador?
Veet Vivarta – O cenário não é animador no sentido de resultados concretos. Ainda estamos longe de avançar na reorganização do nosso ecossistema midiático, mas é animador no sentido de ver que diferentes setores estão entendendo que se trata de uma questão crucial. Quais são as respostas que vamos dar? Não sei. É um desafio de grande proporção. Há exemplos inspiradores, como o do Uruguai e, mais recentemente, do México, cujo novo presidente surpreendeu a sociedade ao enviar ao parlamento nacional um projeto com características bastante maduras, que visam enfrentar a concentração de propriedade no campo da comunicação e da telecomunicação.

Acesse aqui os conteúdos apresentados por alguns painelistas durante o Seminário Infância e Comunicação 

Observatório midiaeducação

Por Marcus Tavares

Um programa que abre canais e possibilidades para que o estudante do Ensino Médio seja responsável pelo seu aprendizado, apto a desenvolver projetos com sucesso, acreditando na capacidade de realização. Isso tudo permeado pela descoberta e análise crítica dos meios de comunicação, como funcionam e impactam o dia a dia das pessoas. Assim pode ser descrito o objetivo do projeto Idade Mídia, proposta de trabalho que é desenvolvida, desde 2002, no Colégio Bandeirantes, em São Paulo.

Coordenado pelos professores Marina Consolmagno e Alexandre Sayad, o Idade Mídia é um curso optativo oferecido pela escola aos alunos do segundo ano do Ensino Médio, que tem o objetivo de promover o entendimento dos meios de comunicação e propor que os estudantes sejam produtores da informação, do conteúdo que desejam. Entre algumas realizações, destacam-se: a publicação de um blog, revista impressa lançada sempre no final do ano e a produção de notas para o site do jornalista Gilberto Dimenstein, colunista da Folha de S. Paulo.

“É um curso que tem certas dinâmicas e conteúdos que sempre se repetem, por serem pré-requisitos para a realização dos objetivos propostos, mas também é dinâmico, pois a cada ano procuramos atender, à medida do possível, expectativas e interesses dos alunos. Em alguns anos, demos mais ênfase para a fotografia. Em outros, a literatura foi um interesse dominante da turma. Tentamos valorizar e trabalhar com o perfil da cada turma”, esclarece Marina.

Segundo Alexandre, não se trata só de uma educação para/pelos/com os meios, mas sobretudo da produção da própria comunicação e intervenção do estudante no chamado ecossistema comunicativo da escola. “Essa é uma maneira de fazê-lo sentir-se, como protagonista, parte da escola e da educação. De apropriar-se das questões da escola, do mundo, da vida”, completa Alexandre, jornalista, que, hoje, também acumula o cargo de secretário executivo da Rede de Comunicação Educação e Participação (Rede CEP), em entrevista concedida para a jornalista Cristiane Parente.

Para o professor, numa época em que os meios de comunicação estão cada vez mais acessíveis e difundidos, os projetos de mídia em sala de aula são uma maneira, dentre tantas que existem, de realizar uma educação que desperte o interesse do jovem e faça sentido. “É parte da realidade da vida dos estudantes. Por que não trazê-la para dentro do ambiente de aprendizado? É uma chance de ouro para reposicionar a escola como espaço importante de aprendizagem e ensino e assim torná-la relevante ao estudante. Isso se traduz, em médio prazo, na redução da evasão escolar”, destaca.

E não só isso. Nestes dez anos, o diálogo entre educação e comunicação tem proporcionado aos ex- estudantes um caminho de boas descobertas. “Não tenho notícia de um ex-aluno que não tenha realizado algum projeto pessoal ou profissional do qual não se orgulhe. Todos construíram com autonomia o que, nas suas percepções, consideravam sucesso. Nisso eu incluo os 30% de estudantes da periferia da cidade [que fazem jus a bolsa de estudo] e os 70% que tiveram a sorte de poder estudar sem bolsa na escola”.

Raíra Venturieri, ex-aluna do Colégio Bandeirantes, atualmente na graduação do curso de Jornalismo, sabe exatamente o valor do Idade Mídia. Segundo ela, que participou do projeto em 2005 e mais tarde foi monitora, a maturidade, responsabilidade e análise crítica, tão necessárias para a vida, foram conquistas potencializadas com as aulas. “Vivenciamos muitas experiências, trocas e reflexões”, conta.

Para Alexandre, a fala de Raíra reitera a importância do projeto, a importância que o conhecimento dos meios de comunicação é essencial na vida, seja qual for a carreira que o estudante de Ensino Médio pretenda seguir. “Mais do que nunca, é preciso saber lidar com a mídia, pois somos todos produtores de comunicação. Dez anos foram suficientes para criar não só um projeto que envolve comunicação, mas um modelo de educação que procura dialogar com o jovem e as grandes questões que cercam o aprendizado hoje”, destaca Alexandre.

Qual é o segredo do projeto Idade Mídia? De acordo com a professora Marina Consolmagno, ele está no desenvolvimento e incentivo da capacidade de expressão, da escrita, do relacionamento, da construção de redes e da ousadia de tentar coisas novas e criativas.

Na avaliação de Marina e Alexandre, implantar, nos dias de hoje, um projeto de mídia nas escolas é menos complexo. A realidade de dez anos atrás era outra. “Muitos professores não entendiam que estávamos diante de uma era em que a informação seria commodity, em que o aluno muito possivelmente poderia estar mais bem informado que o professor sobre determinado assunto. Fui muitas vezes mal compreendido ou mesmo tratado como um lunático quando já falava sobre esse tema. Hoje esse discurso é praxe: há mais elementos no cotidiano que o fazem ser mais facilmente entendido”, afirma Alexandre.

Neste sentido, o Idade Mídia pode dar certo em qualquer escola. “Depende apenas da autonomia que o projeto tenha”, avisam os professores.

Para eles, são fundamentais a liberdade e a confiança. Ao longo dos dez anos, Marina e Alexandre contam que sempre tiveram independência para que os estudantes sempre fossem os condutores do processo e do produto. Afirmam que a direção da escola em nenhum momento fez exigências ou tentou impedir alguma prática. “Essa relação de confiança é fundamental e, na minha visão, possível de ser construída em outros locais. Creio que o Idade Mídia possa inspirar outros projetos que se baseiem em seus princípios e objetivos, na sua essência. Assim ele se torna flexível a vários ambientes, não precisa ser replicado exatamente igual”, explica Alexandre.

Em março de 2012, Alexandre lançou o livro Idade Mídia – a comunicação reinventada na escola (Aleph Editora), onde relata toda experiência do projeto no Colégio Bandeirantes, um caminho, um processo, os erros e os acertos. A publicação revela de que maneira o Idade Mídia foi entendido e sensibilizou cada um dos alunos, fazendo diferença na vida deles.

Na concepção dos coordenadores, o Idade Mídia mostra que quando a educação coloca o jovem no centro do aprendizado e produtor do seu próprio conhecimento, a escola se reinventa. “Nunca ninguém perguntou o que o estudante quer viver na escola, o que ele deseja aprender, qual a escola que ele sonha. As políticas públicas em educação são sempre baseadas no ego dos educadores e gestores ou nas demandas da economia, mas jamais tem o estudante no centro. O livro detalha partes do processo que servem de ruptura de limites e ampliação de repertório para os estudantes. É importante que qualquer projeto de mídia apresente a possibilidade de se sonhar com o novo e de também criar estratégias para transformar esse sonho em realidade”, conta Alexandre.

De acordo com a professora Marina, o Idade Mídia ouve o aluno e cria oportunidades de intensa participação. Neste sentido, os jovens são incentivados a tomar decisões, negociando o tempo todo. Mas, ao mesmo tempo, afirma a professora, os educadores exercem o seu papel de orientadores, apontando caminhos, propondo discussões, estabelecendo metas e prazos, “afinando conceitos”, convocando os alunos a assumirem tarefas e responsabilidades.

Saiba mais
– Site do programa Idade Mídia
– Entrevista Jornal e Educação
– Blog do livro Idade Mídia

Prêmio Zilka Sallaberry de Teatro Infantil

Por Marcus Tavares

É exatamente nos bastidores que o teatro infantil carioca vem mostrando a sua força. O caminho entre a coxia e o palco ainda enfrenta uma série de entraves, quase sempre relacionados à falta de patrocínio e investimentos, mas revela um cenário cada vez mais profissional e de qualidade, à altura de um público exigente de crianças. De acordo com dados do Centro de Pesquisa e Estudo do Teatro Infantil (Cepetin), o ano de 2012 registrou um número elevado de boas montagens. Cerca de 150 delas foram pré-indicadas ao Prêmio Zilka Sallaberry de Teatro Infantil, que busca valorizar e reconhecer as produções na área. Os vencedores da última edição foram conhecidos no dia 26 de março, no Teatro Oi Casa Grande.

O prêmio de melhor espetáculo ficou com a produção As três Marias, da diretora Maria Vidal. Mouhamed Harfouch, que interpretou o Capitão Nemo na peça Algumas das aventuras das 20.000 léguas submarinas, levou o prêmio de melhor ator. Debora Lamm conquistou o prêmio de melhor atriz por sua atuação em Coisas que a gente não vê. E Duda Maia e Lúcio Mauro Filho venceram na categoria direção teatral, com Uma peça como eu gosto.

“Os profissionais que subiram hoje no palco para receber o prêmio e mesmo os indicados são profissionais já reconhecidos em todo o país e não falo apenas dos artistas e atores, mas dos técnicos, dos produtores. É gente muito compromissada. Trata-se de uma prova cabal do quanto o teatro infantil brasileiro está fortalecido. Acho que essa riqueza das grandes produções do teatro convencional está, agora, chegando ao teatro infantil. E quando digo riqueza não é necessariamente dinheiro, mas a riqueza de grandes profissionais olhando para o teatro infantil como um gênero que merece ser bem produzido para um público que merece ver espetáculos de qualidade. É um momento especial de reafirmação do teatro infantil”, declarou o diretor e ator Lúcio Mauro Filho. Para a diretora Duda Maia, a qualidade nas produções teatrais infantis é fruto do reconhecimento dos adultos da espontaneidade e franqueza das crianças. “Não digo que o público infantil é uma plateia cada vez mais exigente, que vem se qualificando. Não. Digo que ela é exigente por si só. Já nasceu assim. E talvez a gente esteja se dando conta disso. A criança quando gosta, gosta. Quando não, fala”.

Ganhadora do prêmio de melhor texto, pelo trabalho em Coisas que a gente não vê, a dramaturga Renata Mizrahi disse que não encontrou dificuldades em escrever o roteiro da peça. “Não acho difícil escrever para as crianças. O difícil mesmo é colocar uma peça em cartaz. Escrevi o texto quando dava aula de teatro para crianças e observava que muitas tinham carência de afeto. A peça é um recado para os pais, mostrando a importância do ser em vez do ter. Acho que talvez a mistura de texto, música e rima tenha encantado os jurados. A montagem fala de uma coisa muito importante sem ser panfletária”.

Sem clichês. Esta também foi a opção adotada pelo ator Mouhamed Harfouch para interpretar o Capitão Nemo na peça Algumas das aventuras das 20.000 léguas submarinas. Ao receber o prêmio de melhor ator, Mouhamed disse que ficou a principio preocupado em interpretar um personagem negativo e de certa forma triste que fala coisas “chatas” para as crianças. Mas resolveu não poupar sentimentos e se basear em estereótipos. “Foi uma alegria ver as crianças atentas, interessadas e grudadas na história. Sem dúvida alguma, teatro infantil é coisa de gente grande. Estou muito orgulhoso”.

Presente ao evento, a atriz Nathalia Timberg destacou a importância do teatro infantil para a constituição de conhecimentos e valores das crianças: “Há uma preocupação de se fazer um teatro de qualidade porque é um teatro que tem o objetivo de formar o público infantil. É importante que se mostre espetáculos bem feitos. Este prêmio é um estímulo para que isso aconteça. Felizmente, não se vê mais o teatro infantil como uma brincadeirinha, é algo de grande responsabilidade, pois está ligado à formação de palco e plateia. Temos um país em que a formação está na base de todas as carências”.

Para Carlos Augusto Nazareth, um dos responsáveis pela criação do Prêmio Zilka Sallaberry, a premiação, que completa sete anos, foi decisiva para uma nova fase de produção teatral infantil na cidade do Rio de Janeiro. Segundo ele, a qualidade das montagens vem melhorando ano a ano, mas ainda faltam muitos obstáculos para que a área possa se afirmar competitiva e de alta qualidade. “Precisamos manter esta conquista e avançar muito mais. Temos muitos desafios. São necessários investimentos, patrocínios e uma ação governamental que incentive e apoie a produção teatral infantil. A continuidade dos projetos é fundamental”.

Veja outros vencedores:

Cenário – Carlos Alberto Nunes por Algumas das aventuras das 20.000 léguas submarinas
Figurino – Leonam Thunder por Três Marias
Iluminação – Anderson Ratto por A estranha história de Maria Cecília
Música – Wladimir Pinheiro por A borralheira
ProduçãoA borralheira
Prêmio Especial – Ana Barroso e Mônica Biel pelo trabalho dos personagens Lasanha e Raviolli
Menção HonrosaA estranha viagem de Maria Cecília pelo processo de construção da peça

Um dia de crocodilo

Por Artur Melo, 10 anos
A
luno do 5º ano do Ensino Fundamental, da Escola Sá Pereira

Um dia de crocodilo

Em um dia como outro qualquer, eu estava a caminho da escola quando fui surpreendido pela Bruxa Mapocã, que, em um segundo, me transformou em um crocodilo poroso, o maior crocodilo do mundo, fiquei, então, com sete metros! Tudo que um menino, fã de crocodilos, poderia sonhar. Mapocã tinha mesmo uma obsessão de transformar bicho em gente e gente em bicho.

Assim que ela jogou o feitiço, comecei a dormir, e isso demorou umas 9 horas. Quando acordei, comecei a me achar estranho e só depois de meia hora, percebi a transformação. Confesso que achei bem legal, apesar de adorar ser um menino, mas como sabia o que fazer para tirar o feitiço, achei melhor aproveitar um pouco a vida de crocodilo.

Foi então que percebi: precisava de água, por perto sabia da Casa de Espanha, fui para lá. No clube, é claro, veio um segurança tentar me impedir de entrar, mas o devorei rapidamente, toda essa transformação me deu mesmo uma fome danada. Todas as pessoas que estavam no clube viram a cena e ficaram apavoradas, não era para menos, mas não sei por que resolveram agir normalmente, me ignorando. Eu, que já não estava mais com tanta fome, não fiz nada com elas, e fui direto para a piscina.

Preciso dizer que com este feitiço tive duas sortes: primeiro em me transformar em um animal que eu adoro, segundo, por não ter perdido totalmente a minha consciência de menino, fiquei meio confuso das ideias, mas consegui voltar ao meu normal e ainda contar esta história.

Na piscina, encontrei um tubarão, sabia que ele era o espião da bruxa, que já andava meio biruta e, sem querer, o transformou em animal. É claro que eu queria deixar Mapocã “na mão”, vá que ela me transformasse numa tartaruga, “Deus me livre” de tão lerda… Além do mais, a barriga já estava roncando novamente, não pensei duas vezes: devorei o tubarão. Comi primeiro as barbatanas, depois a cauda, em segundos lá se foi o tubarão espião, eta bichinho sem sabor…

Aos poucos fui me cansando da vida de crocodilo, resolvi ir atrás da bruxa. Vocês devem estar achando estranho o que eu disse no começo desta história: “que sabia me livrar do feitiço.” Descobri num livro de bruxaria e vou contar, vá que encontrem com a Mapocã por aí e se transformem numa coisa indesejada. É o seguinte: misture no próprio caldeirão da bruxa um pouco do sangue dela com olho de sapo.

Lá fui eu, devagar, me arrastando para casa dela. Livre de seu espião, foi fácil dar uma bela mordida, uma mordida fatal, guardei um pouco do sangue na própria boca e só a abri quando me aproximei do caldeirão, deixando o sangue escorrer. Agora, faltava o olho de sapo, olhei ao redor, nos tantos vidros, e achei! Joguei logo no caldeirão, que começou a borbulhar, soltando aquela gosma para todo lado. Foi aí que uma nuvem de fumaça se formou e produziu um som aterrorizante. Esperei quieto, num canto, até que tudo se acalmasse. Depois, bebi rápido, de uma vez só, me transformando em mim mesmo novamente. Fui para casa, meio zonzo, mas com o estômago pesado de tubarão.

Resenha de livro

Por Nilza Alves

Hoje, a crescente exposição da vida íntima e privada nos diversos meios de comunicação e a forte presença da imagem na relação que os indivíduos estabelecem com o mundo, com o outro e consigo apontam para uma subjetividade radicalmente próxima do olhar do outro e inserida num regime de visibilidade onde as tecnologias de informação e de comunicação têm um papel fundamental.

“Como alguém se torna o que é?” Para responder a pergunta central de Nietzsche no ápice de uma cultura onde a intimidade é o espetáculo, a pesquisadora argentina Paula Sibilia, graduada em antropologia e comunicação – atualmente professora do curso de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense – dedicou-se a pesquisar as novas práticas autobiográficas, ou “confessionais”, de exposição pública da vida privada na Internet. Em O show do eu – a intimidade como espetáculo (Editora Nova Fronteira), livro originado de sua tese de doutorado na Escola de Comunicação da UFRJ, Sibilia analisa uma forma específica de se conectar, ou seja, a escrita de si, autobiografia que se torna digital, instantânea e multimídia, da qual o Orkut, o MySpace, o Facebook e os blogs são alguns dos exemplos mais visíveis.

Neste livro, a autora nos mostra de que maneira cresceu o interesse da sociedade do espetáculo pela privacidade de famosos e pessoas comuns, através de veículos como biografias, blogs na internet e reality shows na televisão,

Mas qual a origem desse novo fenômeno? A tese central do livro aponta que a passagem do século XX para o XXI foi marcada por um deslocamento do eixo central que alicerça a experiência de si, implicando fortes mutações nas formas com que nos construímos como sujeitos. Assim, em vez daquelas subjetividades tipicamente modernas, pacientemente elaboradas no silêncio e na solidão do espaço privado (um tipo de caráter introdirigido), proliferariam de maneira crescente as personalidades alterdirigidas, voltadas não mais para “dentro de si”, mas para “fora”, visando à captação dos olhares alheios em um mundo saturado de estímulos visuais.

Ao longo de nove capítulos sobre as diferentes dimensões do “eu” na internet – o eu narrador, o eu privado, o eu visível, o eu atual, o eu autor, o eu real, o eu personagem e o eu espetacular – a autora alinhava experiências de subjetividade nas quais as dimensões “íntimas” e “confessionais” são pensadas como “alterdirigidas”.

Neste aguçado e fluido ensaio, Sibilia traça diálogos entre os grandes pensadores contemporâneos da individualidade, como Nietzsche, Freud, Foucault, Certeau, Marx, Benjamin, Debord, Deleuze, Lejeune, McLuhan, Eco, Bergson etc. Também vozes de “celebridades instantâneas”, como Bruna Surfistinha e Cleber Bambam encontram espaço aí, indicando que não só a maneira como vemos o mundo e como este nos vê está mudando, mas também a forma como enxergamos a nós mesmos. Afinal, o que leva alguém a querer expor todos os detalhes da sua vida, se em outras épocas lutava-se por preservar a própria privacidade de toda intromissão alheia? Que estratégias são utilizadas para atrair os olhares? O que há de tão atraente na vida privada de uma pessoa para despertar a curiosidade de outra que nem mesmo a conhece? E, principalmente, o que torna alguns mais interessantes do que outros, num momento em que cresce a impressão de que a maioria tem tão pouco a dizer ? De onde vem essa necessidade constante de tornar pública nossa intimidade, de tornar nebulosa a fronteira da privacidade, enfim, de mostrar ao mundo como, o que, quando, onde e por que estamos vivendo?

Sob uma perspectiva histórica, Sibilia contextualiza o novo momento e analisa a origem dessa necessidade de publicização do “eu”. É certo que os sujeitos e suas produções revelam um ser e estar no mundo. Assim, Sibilia mostra como esta nova subjetividade se dá no ato de se fazer visível e de expor a intimidade na busca da aprovação alheia. Com essa pesquisa, aponta que essas novas práticas resultam signi?cativas. Após a leitura, somos levados a concluir que, por trás dos panos, “O show do eu” contemporâneo ainda tem muito a revelar.

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Nilza Alves  é Mestre em Educação (UFF) e graduada em Comunicação Social e História (UFF). Pesquisadora do Observatório Jovem (Educação/UFF)

Liberdade, propriedade e cultura na sociedade informacional

Por Sérgio Amadeu da Silveira 
Professor da Universidade Federal do ABC, doutor em ciência política, membro do Conselho Científico da Associação Brasileira de Pesquisadores de Cibercultura (ABCiber) e representante da sociedade civil no Comitê Gestor da Internet no Brasil.


Existe uma relação social historicamente determinada entre as práticas da liberdade, da cultura e da propriedade? Essas três noções podem ser observadas sociologicamente tanto como ação quanto como instituição que se alteram de sociedade para sociedade em cada período histórico. Além disso, as concepções de liberdade, cultura e propriedade tendem a ser bem diferentes, a depender da perspectiva filosófica, ideológica ou da visão de mundo daqueles que refletem sobre cada uma delas ou sobre sua inter-relação.

O arranjo liberal, no mundo industrial, enfatizou a superioridade da propriedade em relação à liberdade e a cultura. As correntes marxistas poderiam concordar com a visão liberal apenas no ponto de partida, ou seja, a apropriação da riqueza produzida determinaria, em última instância, as concepções de liberdade e as práticas culturais de uma dada sociedade. Mas, para os marxistas, a necessária justiça na distribuição da propriedade exigia a limitação da liberdade de iniciativa e implicaria em uma cultura distinta. O arcabouço jurídico e a cultura seriam fortemente influenciados e, para alguns intérpretes, até determinados pelas relações de propriedade.

Outras correntes do pensamento ressaltaram a primazia da liberdade. Esta seria a resposta de uma certa perspectiva nômade e implicaria em um cultura da mudança e da incorporação constante de fragmentos simbólicos de diversos povos. A propriedade não implicaria em um direito maior e muito menos em uma liberdade suprema. O olhar antropológico reforçou a desconfiança na superioridade ontológica da propriedade e relatou a cultura de povos que construíram outras noções e práticas daquilo que denominamos propriedade e liberdade.

Um olhar atento sobre a evolução do capitalismo industrial permitirá observar a intensa mercantilização do conjunto de práticas sociais baseadas na construção da propriedade como um direito maior. A própria perspectiva da liberdade negativa implicava, principalmente, na ausência de coerção do Estado sobre a propriedade e a liberdade de apropriação. Mas as demais liberdades, de expressão, pensamento e criação, entre outras, pareciam poder se constituir sem contradição com a supremacia da apropriação privada de tudo.

Quando a expansão da industrialização atingiu em cheio a cultura, a partir do século XIX, podemos notar o início das práticas discursivas a respeito do papel imprescindível da propriedade para a criação. Desse modo, a criatividade e a existência de expressões culturais fortes dependeriam de garantias rígidas para a apropriação privada dos produtos culturais. As legislações de copyright e direitos do autor buscavam consolidar essa visão. A criatividade só poderia proliferar com todo o seu potencial se a liberdade criativa fosse acompanhada de um sistema de proteção do criador. Todavia, quando olhamos mais profundamente as dinâmicas dessa proteção, encontramos no topo da cadeia de apropriações os intermediários da indústria cultural e somente como elo inferior o criador.

A ideia dominante do capitalismo industrial era de que a propriedade da criação deveria ser protegida da liberdade de uso pelo público tornado consumidor de produtos culturais. A proteção da propriedade seria a fonte ou base maior da criação. Todavia, existia um mal-estar com a proposição de tratar os bens culturais como coisas plenamente e irrestritamente privatizáveis. É bem conhecida a comparação que Thomas Jefferson fez, no início do século XIX, das ideias com a chama de uma vela1. Ao permitir que outra vela se ilumine com o mesmo fogo, a chama da primeira vela não se apaga. Para muitos, fossem liberais, conservadores ou socialistas, a propriedade sobre ideias ou sobre suas expressões era algo questionável. Tanto é que, até o momento, em nenhum país do mundo, a propriedade sobre uma música, um texto ou uma imagem é ilimitada no tempo.

A chamada proteção de uma obra artística ou de uma expressão cultural sempre foi temporalmente limitada. Por pressões constantes dos intermediários da criação e da crescente indústria cultural, esses limites foram sendo estendidos. Hoje, nos Estados Unidos, uma obra só entra em domínio público 95 anos após a morte do autor. No Brasil, isso ocorre 70 anos após o seu criador ter falecido. Isso quer dizer que a criação deve voltar à sua dimensão comum, cultural, após ter sido controlada e explorada privadamente por muitos anos. Desse modo, as leis também protegem o chamado domínio público e restringem a propriedade, ou seja, impõe uma barreira no tempo à apropriação privada das expressões culturais. Qual a relação do domínio público com a liberdade de criação? Estaria o criador desprotegido quando sua obra vai para o domínio público? Ele perderia sua liberdade?

O termo proteção pode ser caracterizado como demasiadamente ideológico, uma vez que podemos definir o período em que uma obra não pode ser retrabalhada e recombinada por diversos outros criadores como um período em que existe um cerceamento da liberdade de criação e não uma proteção. Embora, toda a lógica discursiva aponte para o direito do autor, a existência dessa proteção após sua morte não tem nenhuma relação com o criador, nem com o incentivo para que alguém continue a criar. Na verdade, com a expansão dos limites temporais das leis de copyright e de direitos do autor, o capitalismo industrial protege primordialmente as corporações e modelos de negócios baseados em uma série de intermediários que ganham com as obras de catálogos.

Uma arqueologia do discurso sobre a criação cultural no mundo industrial permite encontrar a estranha omissão da completa dependência histórica, na propriedade sobre a música, das tecnologias de gravação. Antes delas, o criador poderia vender partituras ou executar músicas em espetáculos de variada dimensão, mas tinha pouco interesse em ser “dono” da música. A possibilidade de vinculação da música a um suporte físico que poderia ser ouvido em outro tempo e espaço viabilizou a propriedade sobre a música. O autor se tornou dono.

As tecnologias digitais desvincularam o texto do papel, a música do vinil e o filme da película. As criações culturais foram multiplicadas em milhões de cópias sem desgaste do original e sem a necessidade dos antigos suportes físicos. Caíram os custos e as barreiras para os criadores disseminarem e compartilharem suas criações. Simultaneamente, aumentaram as dificuldades para a indústria cultural controlar as cópias e as recombinações, uma vez que as tecnologias digitais são tipicamente tecnologias de compartilhamento de bens imateriais, intangíveis. Assim, a intensa digitalização dos bens simbólicos trouxe novamente o debate sobre o caráter comum, coletivo, social, das criações. Alguns pensadores, como James Boyle, comparam as atuais tentativas de ampliar o tempo de cerceamento das expressões culturais, visando impedir sua entrada em domínio público, aos cercamentos das terras comunais que ocorreram na Europa a partir da dissolução do mundo feudal.

A liberdade de recombinar bens simbólicos é a base da criatividade. A internet não reduziu nem destruiu a criatividade. Ao contrário, nunca se viu tamanha profusão de criações. Não há nenhum indicador de que a diversidade cultural tenha se reduzido com a ampliação do compartilhamento de bens simbólicos nas redes digitais. A propriedade sobre ideias pode ter sido um importante modo de viabilizar ganhos no mundo industrial e, certamente, ainda ensejará diversas formas de ganhar dinheiro no cenário informacional. Entretanto, está longe de ser a fonte da criação. Tudo indica que o bloqueio à liberdade de compartilhamento é que pode reduzir a inventividade existente nas redes.

Assim como Jack Valenti, em 1982, então presidente da Motion Picture Association of America, tentou impedir que a Sony pudesse comercializar o gravador de videocassete (VCR) para evitar que as pessoas pudessem copiar vídeos em suas casas, atualmente a indústria da intermediação da cultura quer tentar retirar da internet algumas de suas liberdades basilares, a liberdade de copiar e de recombinar conteúdos online. Essa postura obscura desconhece as características mais marcantes da cibercultura, que são as práticas recombinantes e as reconfigurações dos inventos tecnológicos. Por recusar a perspectiva de dependência, no caso dos sistemas de propriedade sobre ideias, das tecnologias de armazenamento e disseminação de bens imateriais, considera que a criminalização e enrijecimento das práticas cotidianas da cibercultura serão suficientes para manter os modelos de negócios erguidos no mundo industrial.

Aproximadamente 50 milhões de pessoas, ou seja, 51% dos internautas brasileiros, fizeram download de músicas em 20112. Apostar na criminalização de práticas baseadas no compartilhamento parece ser um ato completamente descabido. Não parece razoável considerar ações cotidianas de milhões de pessoas como atos criminosos. A legislação decopyright e de direitos do autor foi criada para apoiar a edificação do mundo industrial no terreno da cultura. No cenário informacional, é mais que evidente que precisamos de outras leis. A liberdade de expressão, de criação e de compartilhamento estão sendo cada vez mais afetadas pelo agigantamento das leis de propriedade intelectual. Lei Sarkozy (França), Lei de Sinde (Espanha), Anti-Counterfeiting Trade Agreement (Acta), as frustradas tentativas de aprovação do Stop Online Piracy Act (Sopa) e do Protect IP Act (Pipa) (Estados Unidos), são a maior prova de que as leis de direito do autor e decopyright estavam se transformando em letra morta. São leis e tratados de ameaça contra a liberdade de compartilhar arquivos digitais.

Fonte – Site Com Ciência

Notas
1 Thomas Jefferson to Isaac McPherson: “He who receives an idea from me, receives instruction himself without lessening mine; as he who lights his taper at mine, receives light without darkening me.”
2 Veja pesquisa do CGI.br sobre o uso da Internet no Brasil: http://cetic.br/usuarios/tic/2011-total-brasil/rel-int-10.htm

Narrativas

De acordo com vários estudiosos a contação de histórias é um valioso auxiliar na pratica pedagógica de professores da Educação Infantil e anos inicias do Ensino Fundamental. As narrativas estimulam a criatividade e a imaginação, a oralidade, facilitam o aprendizado, desenvolvem as linguagens oral, escrita e visual, incentivam o prazer pela leitura, promovem o movimento global e fino, trabalham o senso crítico, as brincadeiras de faz-de-conta, valores e conceitos, colaboram na formação da personalidade da criança, propiciam o envolvimento social e afetivo e exploram a cultura e a diversidade.

A citação acima que defende a promoção da contação de histórias na educação é das professoras Linete Oliveira de Souza e Andrezza Dalla Bernardino, da Universidade Nove de Julho (Uninove), São Paulo. Ela consta do trabalho A contação de histórias como estratégia pedagógica na educação infantil e ensino fundamental, publicado na revista de educação Educere er Educare (volume 6, número 12 jul/dez, 2011).

De acordo com as professoras, o desenvolvimento infantil se dá num processo criado pela própria criança a
partir das interações que vivencia, sendo assim, a literatura infantil em especial a contação de histórias na educação infantil e ensino fundamental, como atividade interativa e pedagógica mediada pelo educador contribui para este desenvolvimento.

“Além disso, a história permite o contato das crianças com o uso real da escrita, leva-as a conhecerem novas palavras, a discutirem valores como o amor, família e trabalho, e a usarem a imaginação, desenvolvem a oralidade, a criatividade e o pensamento critico, auxiliam na construção da identidade do educando, seja esta pessoal ou cultural, melhoram seus relacionamentos afetivos interpessoais e abrem espaço para novas aprendizagens nas diversas disciplinas escolares, pelo seu caráter motivador sobre a criança”.

Em comemoração ao Dia do Contador de Histórias, celebrado no dia 20 de março (a data foi criada em 1991, na Suécia, com o objetivo reunir os contadores e promover a prática em todo mundo), a revistapontocom indica a leitura, na íntegra, do artigo das professoras. Acesse aqui e avalie.

Teste de fidelidade

Por Marcus Tavares
Do Observatório da Imprensa 

Em outubro de 2005, o Ministério Público Federal e seis entidades da sociedade civil organizada moveram uma Ação Civil Pública contra a emissora Rede TV! por veicular o programa Tarde Quente, apresentado pelo humorista João Kleber.

Foram as seguintes instituições que entraram com a ação civil pública: Coletivo Intervozes; Ação Brotar pela Cidadania e Diversidade Sexual (ABCDS); Associação da Parada do Orgulho dos Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros de São Paulo; Associação de Incentivo à Educação e Saúde de São Paulo (AIESSP); Centro de Direitos Humanos (CDH); e Identidade – Grupo de Ação pela Cidadania Homossexual.

Na época, o programa encabeçava a lista de reclamações da campanha “Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania”, criada pela Câmara dos Deputados. A crítica que se fazia era em torno do quadro “Teste de Fidelidade”, em que maridos ou esposas assistiam, no palco, a um vídeo em que a fidelidade do parceiro era testada por atrizes e atores sedutores. De acordo com a ação, o quadro violava direitos humanos, exibia cenas de agressões entre os casais e trazia pitadas de discriminação contra homossexuais. As denúncias vinham sendo apuradas três anos antes e o Ministério Público tentava acordar um Termo de Ajustamento de Conduta com a Rede TV! para suspender a exibição das ‘pegadinhas’. Não houve resultados.

Inédita no Brasil, a ação pedia a cassação da concessão pública sob a responsabilidade Rede TV! e o pagamento de uma indenização à sociedade por dano moral coletivo no valor de R$ 20 milhões – 10% do faturamento bruto anual declarado pelo canal, que deveriam ser creditados para o Fundo de Defesa de Direitos Difusos, que financiava projetos de promoção dos direitos humanos. A ação pedia ainda a suspensão imediata do programa e requeria, como direito de resposta aos ofendidos, a exibição, no mesmo horário, durante 60 dias, de uma programação sobre direitos humanos, com custos arcados pela emissora.

Direitos humanos

O que parecia impossível, frente à realidade e ao lobby histórico e conhecido das emissoras comerciais de tevê, aconteceu: a liminar da juíza federal Rosana Ferri Vidor, da 2ª Vara Federal de São Paulo, foi favorável, suspendendo por 60 dias a veiculação do programa Tarde Quente, permitindo sua exibição apenas a partir do dia 5 de janeiro do ano subsequente e somente depois das 23h30.

Segundo a juíza, os quadros apresentados pelo humorista João Kleber destacavam atitudes claramente depreciativas, preconceituosas e deturpadas de estereótipos de minorias, tais como os homossexuais, idosos, mulheres, pessoas com deficiência física e crianças.

Eis alguns trechos do despacho/resolução da juíza:

“Não se trata de humor lúdico, mas visa alcançar o riso daquele que o assiste através do escárnio. Escárnio, no dicionário Aurélio, remete ao verbete “zombaria”, que tem como definição ‘a manifestação intencional, malévola, irônica ou maliciosa, por meio do riso, de palavras, atitudes ou gestos, com que se procura levar ao ridículo ou expor ao desdém ou menosprezo uma pessoa, instituição, coisa etc., e até os sentimentos.

“(…) Tal pedido não implica a interferência na liberdade de expressão da emissora ou dos produtores do referido programa, uma vez que as liberdades individuais devem ser exercidas por cada um de modo a não interferir na esfera de liberdade do outro. São como linhas paralelas, que devem seguir sem se atingirem. A partir do momento em que uma fere a outra, ou seja, que um indivíduo usa de sua liberdade de modo que interfira na esfera dos direitos dos outros, havendo provocação, o Estado juiz deve interferir.

“(…) Difere a interferência do Estado de modo a reconduzir a atuação de um indivíduo de volta à sua esfera de atividade que não agrida a sociedade, da censura, que é a atuação estatal que fere a liberdade do indivíduo que atua dentro de sua esfera, sem atingir a de outrem.

“(…) A reiteração da demonstração desse tipo de comportamento, em meio de comunicação de massa, cria, em quem assiste à banalização dessa atitude, além da convicção de que não existe um erro em agir-se dessa forma. Efetua ‘deseducação’ da sociedade. Tal não se pode admitir, ainda mais em horário em que milhões de crianças e adolescentes têm acesso a essas informações.

“(…) As emissoras de televisão, ao se utilizarem de concessão estatal para o exercício de suas atividades, devem ter como vetor de orientação na consecução de seus objetivos, não só o lucro fácil, mas também a consciência de formação educacional, moral e cívica da população que a assiste.”

O que aconteceu? A emissora não acatou a decisão judicial por duas vezes consecutivas. Resultado: a Justiça Federal e a Anatel suspenderem de imediato as transmissões. Cortaram o sinal. Pressionada pelos anunciantes que saíram prejudicados pelo fato de seus comerciais não terem sido veiculados, a Rede TV! acabou assinando um acordo com o Ministério Público e as instituições, se comprometendo a veicular, durante 30 dias úteis – de 5 de dezembro a 13 de janeiro de 2006 – uma série de programas sobre direitos humanos, que seria produzida pelas seis entidades que entraram com a Ação Civil, caracterizando o direito de resposta daqueles que foram violados e desrespeitados.

A emissora teve de destinar R$ 200 mil para financiar tal produção e depositar uma multa de R$ 400 mil para o Fundo de Defesa de Direitos Difusos. A Rede TV! também assegurou não mais ofender as pessoas nem violar os direitos humanos em sua programação e atender à classificação indicativa do Ministério da Justiça. Em contrapartida, a ação principal, que pedia a cassação da emissora e o pagamento de danos morais, foi retirada.

Tudo com dantes

Na história da TV brasileira, foi, se não estou enganado, a primeira vez que um canal de TV aberta teve seu sinal retirado do ar por determinação da Justiça. A atuação da sociedade também foi inédita no sentido de unir esforços em torno de uma reivindicação que tinha como alvo a programação da TV aberta. Um bom exemplo de participação cidadã.

Mas passados sete anos, parece que todo este fato não existiu. Ficou para trás. Foi com tamanha surpresa que acompanhei, no inicio de março, as chamadas da programação da Rede TV! anunciando a volta do quadro “Teste de Fidelidade”, agora, como programa. O mesmo apresentador também voltou. João Kleber foi a quase todos os programas da emissora, falando do “grande sucesso”, ressaltando que era um “programa revolucionário para a época” e que, nos dias de hoje, continuaria ‘líder de audiência’.

Há três semanas no ar – é exibido de sábado para domingo, às 0h30 – o programa registrou média de três pontos no Ibope, ocupando a vice-liderança no horário. Para a emissora, esta é prova do tal “sucesso”, de que o povo curte “polêmica” – expressão utilizada pela chamada do canal. Para quem sabe que a TV aberta está praticamente em 100% dos domicílios brasileiros e que a TV fechada ainda é privilégio de poucos (a previsão é de que até o final deste ano o número de assinaturas chegue aos poucos 16 milhões), o sucesso, às vezes, é pura e simplesmente falta de opção.

A lógica da atual versão do Teste de Fidelidade é a mesma da antiga: plateia, cenário e roteiro, com suspense, trilha musical, sedução, exibição, sensualidade, texto sensacionalista e muita, muita briga e xingamento no palco… Nada mudou. Está certo que o programa é exibido às 0h30, num horário bem avançado. Mas o que garante que ele não possa vir a ser apresentado mais cedo? O programa, de acordo com a classificação indicativa, não é recomendado apenas para menores de 14 anos. Portanto, pode vir a ser exibido a partir das 21 horas, sem nenhum questionamento.

Feito histórico

Frente aos reality shows brasileiros da TV aberta, qual é o problema do Teste de Fidelidade? Você, com certeza, deve fazer esta pergunta. Afinal, todos têm, em sua estrutura, a polêmica, a baixaria, o sexo, o barraco e estão aí, não é mesmo? Não defendo a censura e ou uma sanha regulatória do conteúdo da programação brasileira de tevê. Mas defendo a construção da participação cidadã neste processo, neste diálogo. Defendo a escuta da sociedade, que precisa de espaços qualificados para o debate dessas questões.

Sem esses espaços e debates, muitas vezes a sociedade não consegue enxergar problemas no conteúdo que a radiodifusão (que são concessões públicas) lhe oferece. Há um convencimento geral, embrulhado com magia e publicidade pelas emissoras, de que tudo o que é apresentado/exibido pela TV é normal, de boa qualidade e gratuito. Neste sentido, o que a sociedade poderia reivindicar? Vende-se, e em certos casos é verdade, que a mídia é parceria e muitas vezes parte da solução para muitos problemas que a sociedade enfrenta. Como poderia então a sociedade criticá-la? No máximo, o que lhe cabe, avisam os canais, é mudar de canal.

Mas no caso aqui em questão estamos diante de um fato concreto em que a sociedade conseguiu uma façanha, conseguiu se posicionar, fazer valer a sua voz, contando com o apoio legal da Justiça. Valeu a pena? Sim. Este feito histórico, que muitos não querem trazer à tona ou simplesmente esqueceram, destaca e reitera o quanto a sociedade pode e deve fazer valer seus princípios e anseios. Pode e deve reivindicar. Infelizmente, a volta do Teste de Fidelidade caracteriza uma profunda falta de criatividade, inovação, ética e respeito da emissora. Entre a falta de memória e a falta de ética, eis o Teste de Fidelidade.

Resenha de livro

Por Ilana Eleá

O livro Media and digital literacies in secondary school, lançado pela editora Peter Lang, dentro da série “Novas tecnologias e epistemologias digitais”,  foi apresentado no My Media Playground, seminário bianual de Mídia Educação, realizado em fevereiro de 2013, em Tampere, na Finlândia. A obra se baseou na pesquisa de pós-doutorado de Reijo Kupiainen, professor adjunto de mídia e educação do Departamento de Educação da Norwegian University of Science and Technology e da Universidade de Aalto.

Com a proposta de investigar os “encontros” entre as práticas de usos de mídia que jovens trazem para a escola e como a própria instituição escolar tem se estruturado para recebê-las, Kupiainen realizou um estudo etnográfico em uma turma de Ensino Médio de uma escola pública finlandesa. Nesse país, mídias e letramentos digitais não compõem uma disciplina específica, mas são trabalhadas de forma interdisciplinar. O sistema escolar finlandês, celebrado como um dos melhores do mundo por avaliações internacionais, define, como um dos principais objetivos para o século XXI, o aprimoramento de habilidades para o exercício da cidadania, o que inclui a formação para o uso responsável de serviços digitais e a constituição de consumidores críticos e produtores de conteúdos criativos.

Para o autor, o espaço da escola pode ser visto como duplicado por apresentar tanto ambientes formais quanto informais de aprendizagem. Se jovens estão produzindo curtas-metragens, escrevendo fanfictions, fotografando e escrevendo blogs na escola, tais práticas podem ser estudadas como produções criativas de mídia por jovens – fruto de novas formas de aprendizagem. O foco está nos significados que especialmente crianças e jovens atribuem aos seus usos cotidianos de mídia.

A escola, na qual o estudo se realizou, conta com 400 estudantes e 40 professores. O pesquisador permaneceu na instituição durante um ano letivo, acompanhando, de 3 a 10 horas por semana, uma turma de estudantes com 14 e 15 anos de idade, observando especificamente as aulas de finlandês e de artes visuais.

Caderno de campo manuscrito, entrevistas semi-estruturadas audio gravadas, câmeras de vídeo e de foto foram utilizadas, procedidas de um survey sobre usos de mídia. Para evitar tradicionais dicotomias entre online/offline, mundo real/virtual e espaço físico/ciberespaço, Kupiainen optou pela abordagem que denomina como connective ethnography. Por esta, a etnografia não se limita a observação do espaço físico da escola, mas inclui o acompanhamento online de blogs de estudantes, seus canais no You Tube e perfis em redes sociais. O autor defende a posição das teorias de letramento socioculturais, pelas quais os letramentos digitais são entendidos como práticas sociais plurais, podendo apenas ser entendidos se situados em contextos sociais, culturais e históricos (Lankshear and Knobel, 2006).

Kupiainen apresenta uma discussão teórica sobre o conceito de espaço escolar que abriga estratégias e táticas. Estratégias e táticas são entendidas, por Michel de Certau (1984), como correspondentes às forças de produção e de consumo. Estratégias seriam lógicas de administração interna de instituições, como as empregas pelas escolas ao definir tempos, vigilâncias, disciplinas e como as utilizadas pelos professores para o ensino. Já as táticas seriam relativas ao universo da resistência, que podem ser representadas pelas práticas de alunos a burlar regras estabelecidas. O uso de telefone celular em sala de aula é citado como exemplo. Faz parte da estratégia escolar restringir o uso, assim como da tática de alunos encontrar meios para burlar tal regra. São tensões entre estratégias e táticas relativas à área de mídia e educação que o autor se propõe a investigar durante a pesquisa.

Durante a observação,ficou claro que os telefones celulares são um dos meios mais utilizados no cotidiano dos alunos, mas os professores não exploram suas potencialidades, como câmera e microfone, para atividades escolares ou tarefas para casa. O livro ainda parece ter mais peso, até por parecer mais apropriado para aulas que têm duração de 45 minutos. O espaço escolar não parece desenhado de forma apropriada para abraçar projetos de mídia e de mídia e educação. A falta de tempo seria um dos problemas.

Pensar a produção criativa de mídia por jovens também ganha relevo no livro. O modelo de Andrew Burn e James Durran (2007) privilegia um padrão de produção que dá conta dos aspectos cultural, criativo e crítico. Mas será que a facilidade e o sem número de rápidas publicações favorecidas pela plataforma 2.0 da web estão oferecendo uma quantidade de produtos de mídia sem qualidade? Para alguns estudiosos, como Andrew Keen, estamos diante de uma ‘floresta digital de mediocridade’, não havendo mais espaço para obras de arte.

Para Kupiainen, os jovens não estão preocupados em criar obras de arte, mas em ter diversão e colaborar com seus amigos, o que deve ser visto com um grande avanço. Isso não quer dizer que a crítica em relação à mediocridade deva ser desprezada. O autor finlandês apresenta observações sobre produção de mídia por jovens em três contextos: práticas baseadas na comunidade escolar, práticas extraescolares e práticas baseadas no currículo escolar.

Com reflexões teóricas acompanhadas de descrições etnográficas detalhadas, Kupiainen apresenta um livro essencial para quem quer problematizar práticas de mídia na escola e na vida dos jovens de hoje.

Marco regulatório

Por Natália Mazotte
Fonte – Knight Center for Journalism in the Americas

No final de fevereiro, o governo brasileiro anunciou que não encaminharia a “implantação de um novo marco regulatório” das comunicações antes do término do mandato da presidente Dilma Rousseff. O tema é controverso e costuma gerar uma forte polarização entre os que acreditam que uma nova legislação favoreceria a desconcentração do setor das comunicações e os que enxergam tal proposta como um caminho para o retorno da censura.

Para João Brant, especialista em regulação e políticas de comunicação pela London School of Economics and Political Science e integrante do coletivo Intervozes, a sensibilidade do tema tem impedido um debate amplo e aberto, gerando entendimentos equivocados de setores da sociedade. “A preocupação com a ingerência no conteúdo dos meios de comunicação é absolutamente válida e precisa existir, o que não se pode é, em nome dessa preocupação, abrir mão do debate e da busca por soluções”, ressaltou.

Embora a proposta concreta, um anteprojeto de lei para substituir o atual modelo – vigente desde 1962, ainda não esteja na mesa de discussões, uma plataforma formada por entidades da sociedade civil estabeleceu diretrizes para “democratizar as comunicações no Brasil”. Em entrevista ao Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, Brant comenta alguns pontos destas diretrizes, defende a urgência na aprovação de um novo marco e explica por que considera a falta de pluralidade da mídia brasileira, que levou a ONG Repórteres sem Fronteiras a publicar relatório intitulado “Brasil, o país dos 30 Berlusconis“, um entrave à liberdade de expressão no país.

Como você avalia a decisão do governo de adiar o encaminhamento do novo marco regulatório neste mandato?
João Brant – Essa é uma pauta histórica, aliás, é pré-histórica. Desde a década de 70 falamos da necessidade de um novo marco regulatório. No governo Fernando Henrique houve propostas nesse sentido, mas foi no governo Lula que criou-se uma expectativa de que isso pudesse avançar. Não houve nenhum movimento público efetivo até a 1ª Conferência Nacional de Comunicação, em 2009, que foi o momento em que o governo aceitou chamar os diferentes setores sociais para discutir o tema e construir propostas. Em 2010, foi formado um grupo de trabalho que formatou um anteprojeto de lei a partir do resultado da Conferência e o entregou ao Paulo Bernardo, ministro das Comunicações. Ele informou que até o segundo semestre de 2010 faria uma consulta pública, que nunca aconteceu. E então a proposta foi ficando cada vez mais de lado e chegamos a este ponto onde o governo atual anuncia este adiamento. Embora haja um reconhecimento claro de várias entidades da necessidade desse novo marco regulatório, o governo alega não ter tempo pra isso. Isso reflete a opinião de dois grupos. Um que não vê o tema como uma prioridade política estratégica e outro que não está disposto a enfrentar o debate público, que certamente não será tranquilo e fácil, pois há muitos interesses envolvidos.

Temos uma legislação antiga para o setor de comunicações, que data de 1962, e de lá pra cá as tecnologias comunicacionais avançaram muito. Há necessidade e é eficaz regulamentar este setor num tempo de mudanças aceleradas dos meios de comunicação?
João Brant – Não há dúvida. A necessidade de um novo marco regulatório passa pela questão da atualização tecnológica, que é importante, mas passa sobretudo pelo dever de dar concretude a valores constitucionais democráticos. A atual legislação não vê o pluralismo e a diversidade como valores fundantes do sistema de comunicação. Todas as democracias consolidadas têm feito um esforço de atualização dos seus marcos regulatórios. O fato de você ter um conjunto de avanços tecnológicos não supera a imprescindibilidade de medidas para impedir a concentração e garantir a diversidade e o pluralismo, além do respeito aos direitos humanos, neste setor. Embora a internet seja considerada uma tecnologia que cria as condições para o exercício da liberdade de expressão, ela não traz em si a superação da urgência de um novo marco regulatório.

O que é mais urgente modificar nesta legislação de 1962?
João Brant – Mais urgente é entender como lidar com a concentração dos meios de comunicação. Quando eu falo em concentração, penso em três medidas de enfrentamento. A primeira é relacionada ao setor comercial privado, onde temos um cenário em que a principal emissora do Brasil detém 45% da audiência e 73% das verbas publicitárias, bastante concentrado em termos de arrecadação. A segunda está relacionada à ampliação do setor público e comunitário, já que o sistema brasileiro marginaliza as emissoras comunitárias e as públicas ainda são bastante incipientes. E a terceira diz respeito ao pluralismo interno, ou seja, a desconcentração a partir da garantia de acesso de produções regionais e independentes às TVs comerciais, coisa que o mundo inteiro já regulou. É algo que está previsto na Constituição, mas na TV aberta ainda está muito longe de acontecer.

Mas quando se fala em regular o conteúdo transmitido pelas emissoras, não corremos o risco de criar condições para uma ingerência em suas linhas editoriais?
João Brant – Na linha editorial não, o que afeta é a diversidade e o pluralismo dessas emissoras. O que a Constituição protege, sobretudo, é a liberdade de expressão e a manifestação de opinião. Essa liberdade hoje está sufocada no Brasil e um dos motivos é que os meios de comunicação privados não dão espaço para que esta diversidade apareça. O discurso da liberdade de imprensa é usado, na verdade, como escudo para dar suporte a medidas que diminuem a liberdade de expressão. Essa liberdade não é dos donos dos veículos, e sim do conjunto da sociedade. Os meios de comunicação hoje refletem a diversidade e a pluralidade de ideias da sociedade brasileira? Se a gente responde não, e eu respondo que não, a pergunta seguinte é o que fazer. O que todos os países que enfrentaram essa pergunta fizeram foi buscar ampliar o pluralismo e a diversidade sem criar um tipo de controle que acabe afetando a liberdade de expressão e a linha editorial. É uma equação que não é trivial, mas está posta pela Relatoria Especial para a Liberdade de Expressão da OEA, está na pauta da ONU e da Unesco. Então não faz sentido que o Brasil se recuse a discutir essas medidas se justamente os órgãos que têm a função de defender a liberdade de expressão apontam essa regulação como necessária. A preocupação com a ingerência no conteúdo dos meios de comunicação é absolutamente válida e precisa existir, o que não se pode é, em nome dessa preocupação, abrir mão do debate e da busca por soluções.

As empresas de mídia lidam com a difusão de ideias e valores. Quando se fala, nasdiretrizes para democratizar as comunicações, em “princípios que garantam o equilíbrio no tratamento de notícias e a diversidade de ideias e pontos de vista”, por exemplo, o novo marco poderia abrir espaço para o cerceamento à livre circulação de informações?
João Brant – Este ponto foi tirado de uma regulação do Reino Unido e, nas diretrizes brasileiras, está diretamente ligado à concessão pública de rádios e televisões, não diz respeito a meios impressos. A concessão pública é dada a um limite de atores que ocupam o espectro público, então é preciso preservar, sim, uma pluralidade interna e o equilíbrio de ideias e pontos de vista. É exatamente esse o debate no Reino Unido, e eles vão mais além, cobrando a devida imparcialidade. O órgão regulador do Reino Unido interfere no conteúdo? Não, mas ele faz avaliações constantes e pode apontar problemas em casos em que só um ponto de vista sobre determinado assunto tenha sido abordado. O Brasil é diferente do Reino Unido, mas por que aqui uma medida é entendida como censora e no Reino Unido é entendida como parte de um sistema de regulação democrático dos meios sob concessão pública? A minha avaliação é que essa questão precisa ser enfrentada. Precisamos o tempo inteiro saber quais são os antídotos para evitar que uma medida de regulação democrática se torne antidemocrática. Mas, de novo, as armadilhas do caminho não podem nos fazer deixar de caminhar.

Você poderia citar alguns exemplos destes antídotos?
João Brant – Por exemplo, se houver uma avaliação de que uma emissora não deu espaço adequado a determinado ponto de vista, o que deve se fazer não é multar a emissora, e sim dar espaço a esse ponto de vista. A Constituição brasileira prevê o direito de resposta, só que a regulamentação do direito de resposta foi derrubada com a lei de imprensa. Então utilizar o direito de resposta para agregar outros pontos de vista é um caminho, pois está se buscando ampliar a liberdade de expressão, e não restringi-la.

As diretrizes do novo marco também falam da criação de Conselhos de Comunicação, nacionais e locais, o que alguns críticos dizem que, sob o argumento do controle social, servirão de instrumentos para a censura. Como você responde a isso?
João Brant – Controle social é uma expressão que deixou de ser usada porque era má compreendida. Todo serviço público está sujeito a controle social e isso é desejável em todas as esferas, saúde, educação. etc. A ideia de que meios de comunicação sob concessão pública não respondem ao interesse público e à sociedade é uma visão extremamente conservadora. Há também uma confusão de que esse conselho nacional de comunicação ficaria avaliando previamente o conteúdo dos veículos. A ideia do conselho é estabelecer diretrizes ao órgão regulador do setor. Não há porque o Brasil não ter, a necessidade está posta e países como EUA, Inglaterra, Canadá, Portugal, França e Espanha possuem um órgão regulador que é exatamente o garantidor da liberdade de expressão. Para garantir a independência, o conselho seria multissetorial e trabalharia diretrizes gerais para o órgão regulador brasileiro. Isso garante que ele não seja capturado pelos interesses privados. O que vemos no modelo regulatório do Brasil hoje são agências reguladoras que se dizem independentes, mas são capturadas por interesses específicos. Um conselho supervisor do órgão regulador evita qualquer tipo de captura, seja por parte do governo, da iniciativa privada ou da sociedade civil.

Como as diretrizes propostas à regulação brasileira estão situadas em relação às regulações de outros países da América Latina?
João Brant – As nossas diretrizes estão em linha com o que promovem as democracias consolidadas. Esse conjunto de pontos reflete exatamente como essas democracias estão trabalhando estes assuntos. O anteprojeto brasileiro ainda não está na mesa, então não temos como discuti-lo.

Mas você considera que países como Argentina e Venezuela melhoraram a diversidade de seus meios de comunicação com seus marcos regulatórios ou acabaram saindo do monopólio privado para entrar no monopólio estatal?
João Brant – A Argentina é um caso bem diferente da Venezuela. É um país que aprovou seu marco regulatório em 2008, que foi considerado bastante avançado pela Relatoria para a Liberdade de Expressão da ONU e que está sendo implementado em um ritmo lento ainda. Ao enfrentar a desconcentração dos meios privados, este marco foi alvo de várias liminares de grupos que são contra a aplicação da lei. A Argentina é uma boa referência, mas ainda não conseguiu materializar todos os princípios da lei. Ao fazer isso, tomará um passo importante e se tornará um exemplo interessante pro restante da América Latina. A Venezuela está há mais tempo nessa briga e tem bons exemplos e outros que não são aplicáveis ao Brasil. Há também muito mito e má informação no caso venezuelano. Quem conhece a Venezuela sabe que a mídia privada crítica, que ataca o governo, faz isso todo dia em horário nobre sem sofrer censura. O que houve lá foi uma polarização do debate que levou a um conjunto de medidas que não precisamos adotar no Brasil. Algumas pessoas perguntam se a não-renovação da concessão da RCTV representa uma medida que ameaça a liberdade de expressão. Eu diria que não, em princípio. A ideia de não renovar concessões de emissoras que ferem o interesse público é comum, os EUA enfrentaram a não-renovação de mais de cem emissoras. A questão que se precisa analisar é se há, de fato, um interesse genuíno em usar essa faixa de frequência para ampliar a pluralidade e a diversidade de vozes, e isso eu não tenho condição de analisar neste caso. A impressão que se tem, vendo de fora, é que o país tem um sistema de comunicação polarizado, mas isso é fruto de dois lados que se digladiam. A saída que o governo adotou para enfrentar os ataques dos meios privados foi fortalecer os meios estatais. Não é o ideal, mas eu entendo perfeitamente que isso tenha acontecido na Venezuela por conta do seu histórico local.

A imprensa brasileira tem sofrido uma censura velada, realizada pelo próprio Poder Judiciário, como ocorreu no caso do jornalista Lúcio Flávio. De que forma o novo marco influenciaria esse tipo de questão?
João Brant – Quanto mais definidas em lei estiverem as questões da defesa da liberdade de expressão, mais instrumentos teremos para evitar a censura judicial. Também é preciso dizer que, no caso específico do Lúcio Flávio, quem provocou o Judiciário foi uma organização de mídia poderosa no Pará. É um caso em que donos de veículos de comunicação usam sua força para calar vozes independentes. E encontram respaldo no Judiciário. Quem aciona a Justiça para calar vozes dissidentes são poderes políticos e econômicos.

“Ser diferente é normal” faz todo sentido

Por Leandro Barbosa
Estudante – ex-aluno do Colégio Estadual José Leite Lopes – NAVE 

Três amigos saem para se divertir e realizar seus sonhos em uma aventura cheia de emoções. Clichê? Talvez. A história é batida, mas os personagens fazem a diferença. Essa é a aventura de Stallone (Ariel Goldenberg), Márcio (Breno Viola) e Aninha (Rita Pook) que, juntos, fogem da instituição em que vivem, voltada para portadores de síndrome de down, e vão atrás de seus desejos.

Stallone quer ver o mar, Marcio quer voar e Aninha busca um marido pra se casar. Como os três trabalham na videolocadora da instituição, são amantes incondicionais de filmes. Inspirados pelo filme “Thelma e Louise”, eles fogem com o carro do dono do instituto (Lima Duarte).

Stallone é o líder do trio, pois é o único que sabe dirigir. Durante a aventura, os três passam por diversas situações, desde furtar um posto de gasolina com armas de brinquedos, a participar de um casamento em que eles não fazem a mínima ideia de quem está se casando.

O filme é o primeiro a ter protagonistas com síndrome de down. E deu muito certo. A espontaneidade dos atores contribui para a maravilhosa experiência do telespectador, que garante risadas com as tiradas de Márcio e Stallone. A campanha #VEMSEANPENN na internet também ajudou bastante na divulgação do filme. No vídeo, que tem quase um milhão e 500 views no youtube, é contada a história de Ariel Goldenberg (Stallone), que sonha conhecer e assistir ao filme ao lado do ator Sean Penn. Diversos artistas se solidarizam e divulgaram a campanha. No fim, Ariel conheceu seu ídolo.

Como ex-aluno do ensino médio técnico na área de roteiro (estudei no Colégio José Leite Lopes – NAVE), tento sempre observar todos os detalhes de um filme. Aprendi, com um antigo professor, a assistir aos vídeos sempre com “olhos de produtor”.

Com isso, nunca mais olhei um filme da mesma maneira, pois sempre me atento aos mínimos detalhes e imagino como tudo aquilo foi gravado.

Assistindo aos “Colegas”, não foi diferente. Apesar de o final não ter me agradado tanto, o roteiro do diretor e roteirista Marcelo Galvão foi muito bem escrito. Não é à toa, ganhou o prêmio de melhor roteiro do Festival de Paulinia 2008. A qualidade técnica do filme é inquestionável, com uma fotografia “vintage” e boas locações, combinando bem com o estilo do filme. O ponto alto sem dúvida foi a atuação dos atores, que deram um show de interpretação, arrancando boas gargalhadas minhas e do público presente. A trilha sonora é emocionante, ao som de Raul Seixas, que, como cover, até fez uma participação especial no filme.

“Colegas” é sem dúvidas tocante, levando o público a crer que as diferenças são apenas barreiras criadas pela própria mente do ser humano. O público do Brasil aplaude de pé. Mais do que nunca a frase “ser diferente é normal” faz todo sentido.

A criança nas tiras cômicas

Por Marcus Tavares

Quem é que nunca deu uma boa gargalhada ao ler as tiras cômicas da Mafalda, Charlie Brown ou do Calvin? Famosas em todo o mundo, essas tirinhas de humor, chamadas de Kid strips, trazem como característica e tema central a criança e o seu universo. O assunto é objeto de estudo do professor da rede estadual de ensino de São Paulo, Márcio Antônio Gatti. Doutorando em Linguística pela Unicamp, Gatti vem mapeando como se dá a representação das crianças nas kid strips.

“Trata-se de um estudo ainda em andamento, portanto as conclusões são preliminares. Mas já é possível dizer que as crianças são constituídas, nas tiras cômicas, de modo heterogêneo, que essa constituição contribui sensivelmente para o efeito de humor da tira, seja simplesmente pelo fato de mobilizar um estereótipo e trabalhar com os dissabores que podem surgir daí, seja pelo fato de a criança ser estereotipada e possibilitar com essa estereotipia o seu uso como um veículo de discursos velados”, destaca.

Em entrevista à revistapontocom, o professor analisa a produção e quais são os possíveis impactos que as tiras exercem nos leitores.

Acompanhe:

revistapontocom – Qual é a representação da criança nas tiras cômicas analisadas pelo senhor?
Márcio Antônio Gatti – Primeiramente é necessário compreender que a criança, no humor, assim como outros grupos sociais, categorias de indivíduos ou etnias (como o bêbado, o caipira, o judeu, o português…), é estereotipada. Isso quer dizer que circulam imagens já, de alguma maneira, cristalizadas, não só no humor como em outros domínios também. A suposta “burrice” da loira ou do português, muito presente nas piadas e em outros textos humorísticos, aponta para imagens pré-concebidas que podem ter ancoragem no modo como a própria sociedade (ou uma parte dela) percebe uma categoria de indivíduos, embora tais estereótipos se materializem mais explicitamente no humor. No caso da criança, portanto, as imagens que circulam pelo humor são potencializações dessas imagens e ideias que estão também em outros campos do saber humano. O que é diferente quando falamos de estereótipos de criança que circulam no humor é justamente uma certa complexidade que não é tão facilmente visível em estereótipos de outros grupos sociais. Assim, a criança pode ser malvada, indolente (os meninos na escola, por exemplo), pouco propensa à higiene, imaginativa. Porém há uma imagem que perpassa, de algum modo, vários desses textos humorísticos: a da criança como um ser incompleto, e essa incompletude pode facilmente ser associada aos outros estereótipos de criança que se veiculam nas tiras.

revistapontocom – Essa representação da criança surge de que contexto? E o que ela provoca?
Márcio Antônio Gatti – As tiras cômicas são textos humorísticos. Devem ser, portanto, encaradas como tais. Veicular imagens como essas tem, obviamente, um objetivo básico, que é o de provocar o riso no leitor. Agora, por que rimos dessas imagens, por que essas imagens surgem e não outras são perguntas que podem ter respostas de diversos outros fatores. Dizer, simplesmente, que a criança é incompleta, ou que, a partir disso, vive num mundo de imaginação, pode não ter nenhuma graça. Mas colocá-la numa narrativa curta (como a das tiras ou das piadas) em que essa imaginação sofre alguma ruptura, ou que, por conta dela, haja alguma confusão, pode provocar o riso. Tem a ver com as técnicas, também, que estão associadas aos próprios gêneros típicos do humor. Rimos do inesperado, do inusitado. E isso está ligado ao reconhecimento dos estereótipos pelo leitor. No caso das tiras cômicas com crianças, acredito que o riso está ligado não só ao fato de percebermos um estereótipo num gênero que seja tipicamente do humor, mas também a um não reconhecimento de si naquele discurso. O adulto ri daquilo porque percebe uma ingenuidade que não é mais dele, que não pertence a ele, que é do outro. Ou ainda quando percebe que a criança estereotipada da tira faz coisas, diz coisas que ele próprio não pode fazer ou dizer, porque a ele se proíbem certas coisas (como numa ditadura falar mal da conjuntura política ou falar de temas tabus ou ser grosseiro com as pessoas…). Quanto ao surgimento dessas representações, ele pode ter origem no próprio modo como se constituiu a ideia de infância. Ocorre que para a civilização como a conhecemos, é inconcebível que adultos e crianças tenham o mesmo tipo de comportamento, sejam da mesma “categoria”. Por outro lado, embora tenhamos separado paulatinamente o mundo adulto do mundo infantil, continuamos, por exemplo, a explorar as crianças quando julgamos necessário (no trabalho, na guerra…). Há, pois, uma maneira complexa de se conceber a infância: como toda categoria humana ela não é natural e simples. Vista dessa forma, a infância, como um objeto histórico, provoca diversas interpretações, diversos tipos de indagações, suscita uma série de debates, pesquisas. Além do mais, ela é sempre discursivizada pelo outro, pelo adulto, que a interpreta e, de acordo com suas convicções, seus objetivos, sua ideologia, produz uma imagem de criança, que não necessariamente é aquela que a criança produziria. Em suma, a criança por não ser agente do discurso sobre ela própria, permite que se façam interpretações sobre si diversas, que se produzam diversos estereótipos, pois não reivindica uma imagem “correta”. Enfim, acredito que seja precipitado afirmar que um estereótipo seja um retrato da realidade, esteja calcado na realidade. Há, obviamente, traços estereotípicos que são facilmente associados às crianças reais, como a imaginação, por exemplo, mas há outros, como a sagacidade, que não. Mas isso não quer dizer que as crianças não sejam sagazes, pode ser que sejam de outras formas, diferentes do padrão adulto.

revistapontocom – Essa representação da infância é a visão (velada ou não) que os adultos/a sociedade têm das crianças?
Márcio Antônio Gatti – De fato, não me preocupei muito com isso, porque não sei se podemos colar prontamente uma representação estereotípica a uma visão social sobre um grupo, uma categoria de indivíduos. Seria como dizer que a criança é assim nas tiras porque a sociedade a vê dessa forma. Não sei se é só isso. Creio que não. A infância é um período da vida que é complexo e que permite uma série de imagens estereotipadas. Mas é verdade, também, que há uma ideia mais ou menos predominante de que a criança é um ser em desenvolvimento, que necessitaria de cuidado, de educação escolar etc. O que, obviamente, é absolutamente correto, para a nossa sociedade. Isso não que dizer que a criança não seja um sujeito, que seja apenas uma massa de modelar, um corpo vazio, que não tem protagonismo porque é um indivíduo em desenvolvimento. Essa incompletude típica da infância é que pode ser aproveitada (e efetivamente é, em muitos textos) pelo humor. Porque ele precisa de certas condições para ser o que é. No sentido dessa imagem predominante do ser incompleto, o humor faz com que a criança, justamente por isso, possa dizer as coisas que diz, porque não teria responsabilidade sobre o seu dizer.

revistapontocom – Num mundo em que se defende cada vez mais os direitos das crianças, essas tiras não seriam rotuladas de politicamente incorretas?
Márcio Antônio Gatti – Não vejo dessa forma, não me parece que essas tiras sejam politicamente incorretas. Talvez algumas piadas que tenham como protagonistas crianças sejam exemplos mais próximos do politicamente incorreto. Mas essas tiras com as quais venho trabalhando, acredito que não são. Podemos perceber, por exemplo, que nessa busca pelo riso, o discurso das tiras constitui crianças ingênuas, mas sagazes ao mesmo tempo, que lidam com categorias do mundo adulto com alguma incorreção, mas que sabem muito bem de outras coisas. Um exemplo emblemático disso é uma tira em que o irmão de Mafalda, Guile, depois de saber por sua irmã que o dia estava nublado e que, portanto, não haveria sol, diz “palece mentila, um seviço público”. É um modo de constituir a identidade da criança que tanto se aproxima da imagem da ingenuidade, quanto se distancia dela, não coincide com ela. Porque não saber que o sol não é um serviço público estaria ligado à ingenuidade, mas “resmungar” de um serviço público que falharia, permite-nos inferir que ele sabe que os serviços públicos falham e não deveriam. O que não pode estar relacionado com o estereótipo da ingenuidade. Riríamos dessa mistura de imagens, não especificamente de um rebaixamento da criança. Desse modo, acredito que a sobrevida desse material está garantida, pelo menos por algum tempo, porque não há jamais unanimidade sobre qualquer categoria humana. Onde há controvérsia, pode haver humor.

revistapontocom – Essas tiras, em sua grande maioria, são produções estrangeiras, não? Por que fazem tanto sucesso no nosso país?
Márcio Antônio Gatti – Acredito que seja meio banal recorrer ao mundo globalizado para explicar isso. Mas isso tem um pouco de verdade. A civilização que consome esse tipo de quadrinho é semelhante em muitos aspectos, não dá para separar países, nesse caso, porque a infância, para essa civilização, é um “fato” universal. Por isso, talvez, façam tanto sucesso por aqui. No Brasil, não conheço materiais que tenham se constituído como as grandes séries de tiras estrangeiras (Peanuts, Mafalda, Calvin e Haroldo). Há, é verdade, a Turma da Mônica que também pode se constituir num excelente material de análise. Mas não tenho me dedicado a ela por alguns motivos, principalmente pelo público que seleciona e pela sua relação menos direta com o humor. Como pesquiso humor, recortei um universo de textos que são tipicamente gêneros do campo humorístico, voltados mais claramente para um público adulto (o que não quer dizer que a Turma da Mônica não seja uma material interessante, muito longe disso!). Por aqui há exemplos mais modestos de tiras com personagens infantis, como aquelas produzidas por Angeli, que têm como protagonista o garoto Ozzy e que foram produzidas na década de 1990. Uma outra forma de explicar o sucesso dessa tiras é que o humor trata de certos temas que têm algum aspecto controverso. Nesse caso, a infância (ou os estereótipo disponíveis sobre ela) facilita a mobilização desses temas. A criança é um dos veículos que permitem tratar desses temas.

revistapontocom – O senhor não concorda que de uns tempos para cá crescem também tiras que enaltecem as crianças e colocam os adultos em posição inferior? Principalmente quando o assunto é tecnologia, como se as crianças fossem mais espertas e rápidas?
Márcio Antônio Gatti – Os textos em geral têm cada vez mais tomado a informática, a tecnologia como tema. Não me lembro agora de ter visto alguma tira em que esse tema esteja presente. Mas concordo que não há nenhum absurdo em fazer humor com isso. É inclusive, creio, parte do mesmo processo: constituir a criança como aquele que sabe mais do que parece que saiba. Lembro, por exemplo, de uma propaganda de um banco que um menino de cerca de cinco anos é que resolvia os problemas de informática da casa, era o técnico da casa. Tem a ver, também, acredito, em associar a informática às novas gerações. Dizer que elas dominariam com mais facilidade que as antigas. Isso de rebaixar o adulto também está presente nas tiras mais antigas, Mafalda é um exemplo clássico, quando a protagonista detecta, em várias tiras, a submissão de sua mãe, é também uma espécie de rebaixamento do adulto, não só da categoria adulto, mas das relações que se estabelecem nessa categoria. Em Calvin e Haroldo, também há uma espécie de rebaixamento do mundo adulto, principalmente de sua rigidez.

revistapontocom – O que levou o senhor a fazer esta pesquisa? Qual foi a conclusão do estudo?
Márcio Antônio Gatti – Trata-se de um estudo ainda em andamento, portanto as conclusões são preliminares. Mas já é possível dizer que as crianças são constituídas, nas tiras cômicas, de modo heterogêneo, que essa constituição contribui sensivelmente para o efeito de humor da tira, seja simplesmente pelo fato de mobilizar um estereótipo e trabalhar com os dissabores que podem surgir daí, seja pelo fato de a criança ser estereotipada e possibilitar com essa estereotipia o seu uso como um veículo de discursos velados. Dá para perceber que o estudo do estereótipo é, basicamente, o que vem se constituindo como um eixo de minha pesquisa. Nesse sentido, também trabalho para constituir um modo mais apropriado de tratar o estereótipo nos estudos discursivos. Desse modo, venho me dedicando também a sua teorização. O trabalho com o estereótipo, de alguma forma, também foi o que me levou a desenvolver essa pesquisa. É perceptível em diversos textos humorísticos que eles são elementos importantes na constituição dos efeitos de sentido que ali são constituídos. Mas há um jogo muito claro de depreciação ou de enaltecimento de algum grupo. No caso das crianças isso não ocorre de forma tão clara. Estudar esse processo de estereotipagem, de alguma maneira, contribui para perceber o funcionamento de certos domínios discursivos, como o humor. Além disso, como a criança é uma categoria muito estudada, observar os discursos sobre ela e seus funcionamentos (o que não deixa de ser outra motivação para o trabalho) é sempre importante para a sociedade e para outros estudos que venham a ser constituídos sobre a infância e a criança.

Regulamentação

Por Carlos Castilho
Do Observatório da Imprensa

O secular dilema entre liberdade de expressão e direitos individuais começa a ser discutido num novo contexto, particularmente no caso da relação entre empresas de comunicação e a infância e adolescência. É o que foi possível vislumbrar nas entrelinhas dos debates ocorridos durante o Seminário Internacional Infância e Comunicação – Direitos, Democracia e Desenvolvimento, que reuniu especialistas brasileiros e estrangeiros em Brasília entre os dias 6 e 8 de março deste ano.

As esperanças despertadas pelo evento estão, paradoxalmente, na ausência de resoluções normativas. Para quem acompanha as polêmicas na relação imprensa/infância, a evolução positiva ocorre na medida em que os protagonistas, notadamente as organizações não governamentais ligadas ao problema, começam a se dar conta que ocorreram mudanças irreversíveis no relacionamento entre crianças e adolescentes e a mídia, no seu sentido amplo.

Soluções do tipo regulamentação, autorregulamentação ou desregulamentação total começam a ser vistas como alternativas para situações específicas em vez de normas gerais para aplicação indiscriminada, independente das características particulares de cada contexto social, político, econômico e cultural.

A maioria dos participantes do evento organizado pela ANDI, Ministério da Justiça e Secretaria Nacional dos Direitos Humanos seguia a linha tradicional do debate centrado nos prós e contra da regulamentação da mídia quando a psicóloga Maria Dolores Souza, diretora do Conselho Nacional de Televisão do Chile, apresentou uma pesquisa sobre hábitos de crianças e adolescentes menores de 16 anos que coloca em questão o enfoque oficial sobre a regulamentação, autorregulamentação ou desregulamentação dos programas de televisão aberta e por cabo.

A pesquisa mostra que os aparelhos de TV e os computadores já não estão mais na sala de estar, mas nos quartos das crianças e adolescentes. E que pouco menos da metade do público com menos de 16 anos assiste a qualquer programa televisivo, em qualquer horário, pela internet. Mais ainda, que os sistemas de bloqueio de canais pornográficos são facilmente anulados por códigos que circulam pela Web e que são passados de criança para criança pelas redes sociais e chats.

A pesquisa é bem mais ampla e detalhada, mas destaco apenas esses dados para sinalizar que o crescimento da internet alterou o rumo das discussões sobre as políticas públicas na questão mídia/criança/adolescentes. A nova realidade digital mudou o eixo das preocupações de uma abordagem generalista para um enfoque específico e contextualizado.

Até agora havia a necessidade de políticas globais, tipo uma para todos, porque era impossível customizar as relações entre produtores e consumidores de conteúdos informativos pela falta de ferramentas apropriadas. O programa da Xuxa podia ser recomendado para uma determinada faixa de audiência porque era um mesmo programa num mesmo horário para milhares de crianças. Na Web, uma criança pode assistir a qualquer programa (novo ou velho) da Xuxa ou similares, em qualquer horário, independente da escolha de outras crianças.

Começamos a sair de uma era de grandes decisões, com códigos e normas para aplicação em grandes conglomerados humanos, para o tempo das microdecisões orientadas para grupos sociais definidos e em contextos específicos. A nova realidade evita abordagens generalistas como as que sempre entravaram o debate sobre liberdade de expressão e direitos individuais. Quando prevalece a regulamentação, surgem injustiças para casos particulares. Quando a liberdade de escolha é total e absoluta, cria-se o espaço para abusos inomináveis.

As microdecisões eram impossíveis até a popularização da internet porque não havia canais de comunicação que permitissem contatos personalizados entre um grande número de pessoas. Com as redes sociais e outras ferramentas de comunicação personalizada, as mães de um condomínio, por exemplo, já podem trocar ideias e fixar uma atitude comum diante dos filhos. Os meios de comunicação também podem produzir programas para nichos de públicos infantis usando a WebTV, coisa inviável há 15 anos.

A grande dificuldade da nova conjuntura é que ela vai exigir muita reflexão e participação das pessoas. Até agora todo mundo cobrava um código, leis e normas das autoridades. Depois íamos dormir tranquilos achando que o problema estava resolvido e, caso surgissem problemas, estes eram culpa de quem não aplicou direito as regras estabelecidas. A partir de agora teremos que estudar cada situação para aplicar as normas mais adequadas.

Isso vai exigir também a participação direta dos principais envolvidos, como no caso, as crianças e adolescentes para que eventuais deliberações tenham como base o consenso e não a imposição. É uma mudança complexa e nada fácil porque implica a mudança de comportamentos, crenças e valores entranhados em nossa cultura.

Fomos educados para seguir comportamentos dicotômicos tipo bom ou mau, bonito ou feito, justo ou injusto, legal ou ilegal. Não estamos acostumados a analisar e discutir situações intermediárias porque estas, geralmente, exigem o exame de situações particulares e específicas. Acontece que a avalancha informativa deflagrada pela internet tornou possível conhecer muitos ângulos de um mesmo problema, o que complica qualquer decisão que não leve em conta os detalhes.

Qualquer tipo de regulamentação interfere na liberdade de expressão e vice-versa. Continuar discutindo a questão nos seus aspectos gerais ou normativos vai sempre levar a um beco sem saída, salvo quando o contexto específico em que está localizada a questão for discutido pelos interessados. Quando este aspecto é tomado em consideração, o problema muda de natureza porque deixa de ser uma responsabilidade de um ente longínquo como tribunais, governo ou polícia para se transformar num assunto da comunidade de pessoas envolvidas.

Foi esta perspectiva que começou a ser vislumbrada nas intervenções e conversas no Seminário Internacional Infância e Comunicação. Não é a resposta que muitos esperam, mas tem o mérito de explorar novas alternativas evitando soluções do tipo “mais do mesmo”, com pequenas variantes.

Alô, alô, marciano

No dia 10 de março, comemora-se o Dia do Telefone, aparelho que hoje exerce muito mais do que a simples função de meio de comunicação via voz. Que o digam as crianças e os jovens. Há algumas semanas, a revistapontocom solicitou a professora Amália Araújo, da sala de leitura, do Ciep Agostinho Neto, que instigasse os alunos da escola a debater a importância do telefone e projetar como seriam os modelos do futuro.

Em um trabalho conjunto com a professora Vera Lucia de Abreu Figueiredo, Amália trabalhou com alguns alunos da turma 1501. Eles fizeram um resgate histórico do aparelho e da sua função e debateram o lugar do telefone nos dias de hoje. “Perguntei se eles conseguiam imaginar como poderia ser o telefone daqui a algum tempo. Alguns falaram de telefones que projetam na parede, de robôs que fariam as ligações, de telefones no pulso ou só na orelha. Também falamos sobre pessoas que imaginavam as coisas no futuro. Conversamos sobre Júlio Verne e Leonardo da Vinci. Depois disso tudo, a professora Vera foi para sala de aula com eles para que eles desenhassem o telefone de amanhã”, contou Amália.

Veja abaixo alguns desenhos produzidos pelos alunos:

 

 

Cadastro de avaliadores

O Secretário Nacional de Justiça, Paulo Abrão, anunciou, na semana passada, durante o Seminário Internacional Infância e Comunicação, em Brasília, que o governo vai criar, até junho, um Cadastro nacional de avaliadores, com integrantes da sociedade civil, para ampliar os mecanismos de classificação indicativa das obras a serem exibidas na mídia. Abrão participou do painel Classificação indicativa: fortalecendo padrões democráticos na garantia dos direitos da infância.

“Vamos criar um Cadastro nacional de avaliadores voluntários. Capacitados e treinados para isto, os avaliadores poderão ampliar a participação da sociedade civil na classificação indicativa das obras”, disse Abrão, complementando que, por ano, cerca de 11 mil obras são avaliadas.

Presente ao encontro, o relator da ONU para a Liberdade de Opinião e Expressão, Frank La Rue, ratificou a importância da classificação de conteúdos, sobretudo diante da ampliação do acesso às novas mídias. “O que nós queremos, com a regulação, é proteger a infância, não estamos falando de limitar o conteúdo de mensagens de comunicação, mas de regular um horário”.

Marta Mauras, socióloga e vice-presidente do Comitê da ONU sobre os Direitos da Criança, lembrou que a Convenção sobre os Direitos da Criança reconhece que o desenvolvimento das crianças pode ser determinado pela comunicação de massa e, neste contexto, a mídia tem um papel fundamental. Mauras afirmou que o Estado tem o dever de ajudar as famílias na proteção destes conteúdos. Ela reiterou, porém, que, apesar de 23 anos da Convenção, o conhecimento sobre os direitos humanos e da infância em geral é escasso, não só entre a população, mas também entre editores e diretores de veículos de comunicação.

Literatura infantil

Seria a literatura infantil uma literatura de segunda classe? Para o escritor espanhol Gonzalo Moure, que participou do 2º Congresso Iberoamericano de Língua e Literatura Infanto-juvenil (Cilelij), realizado pela Fundação SM, na Colômbia, no início do mês de março, parece que sim. Segundo ele, há razões para ignorá-la devido às limitações e orientações que o segmento segue: “Somos como pássaros dentro de gaiolas”, cujas grades limitam e condicionam, aprisionando e impedindo o crescimento da área.

Para Moure, há na literatura infantil muita intenção moralizante, quando não uma função pedagógica. Há uma preocupação em “formar” as crianças. “Na vida cotidiana, poucas vezes somos capazes de nos dirigir às crianças de forma horizontal sem tentar ensinar. A literatura infantil não é infantil nunca e a juvenil poucas vezes é juvenil. São os adultos, possuidores de valores humanos e humanísticos firmes, que escrevem para eles e este “para” é o pecado original da literatura infanto-juvenil”.

De acordo com o escritor, essa prática se reflete em obras literárias de cunho pedagógico, com livros destinados à prevenção e que não abordam assuntos considerados tabus, como sexo e religião. “O editor, disfarçadamente ou conscientemente, publica tais livros. E o escritor se submete a essa exigência”.

É esse aprisionamento que faz com que a literatura infanto-juvenil seja vista ou classificada como um subgênero literário, explica Moure. Em sua avaliação, o mundo é ainda muito polarizado, entre o bem versus o mal. “Se ela não se desprender do maniqueísmo imperante, será sempre um subgênero”.

O que seria, então, a verdadeira literatura? “A verdadeira literatura não responde a nada nem a ninguém. Ela recria o mundo sem se importar se o resultado final é correto ou incorreto”, define Moure, destacando que não há receitas ou fórmulas.

Em sua análise, a literatura infanto-juvenil não deve ter nenhuma obrigação. Tem de ter apenas qualidade e liberdade. Não se deve pedir nada da literatura, só que ela agrade e emocione. “Devemos ensinar a perguntar e não ensinar o que já sabemos. A revolução na educação/literatura vai se dar por aí”.

Fonte – Jornais Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo

Reforma no Ensino Médio

 

Uma reforma no Ensino Médio deve levar em consideração os meios digitais, defende a presidenta da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), Amábile Pacios. Em audiência pública, no dia 12 de março, na Comissão Especial de Reformulação do Ensino Médio, Amábile disse que a etapa do Ensino Médio precisa de “uma mudança muito radical para o qual o país, nem na escola pública e nem na particular, está preparado”. A mudança envolve uma aprendizagem aberta, com integração de conteúdos, intermediada pela tecnologia.

A comissão especial foi criada em maio do ano passado com o objetivo de apresentar uma proposta de alteração da legislação atual até o final deste ano.  Além das audiências, a comissão deve agendar seminários a nível estadual e nacional. Nesta terça-feira, dia 12, foi discutido o ensino privado. O segmento representa 15% das matrículas em ensino médio no país, de acordo com dados da Fenep.

De acordo com Amábile, a preocupação não deve ser apenas a integração das disciplinas – discutido em 1996 para a elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (PCNEM), já disponíveis para a adoção pelas escolas  –  mas uma maior integração com os conteúdos digitais. As tecnologias “mudam a função dos professores. O aluno está com o conhecimento nas mãos, sem barreiras. E na internet, as disciplinas são integradas”.

Para a deputada Professora Dorinha Seabra (DEM), a reestruturação dessa etapa do ensino está ligada à formação dos professores. “O retalhamento do currículo é algo presente na formação do professor. Nas universidades eles aprendem pouco do que vão aplicar em sala de aula. É possível constatar que muitas vezes os conteúdos que os alunos não sabem, não são dominados pelos professores”.

Segundo o Censo da Educação Básica de 2011, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mais de 8,4 milhões estudantes estão no ensino médio público ou privado.

Fonte – Agência Estado

 

 

 

 

 

 

O Gorila Zumbi

Por Artur Melo, 10 anos
A
luno do 5º ano do Ensino Fundamental, da Escola Sá Pereira

Um dia, numa noite tenebrosa, raios e trovões aterrorizavam o céu. Em um cemitério, um gorila zumbi saiu do túmulo, ele era horrível. Partes do seu corpo eram sem pele, e isso fazia aparecer os seus ossos. Tinha cicatrizes espalhadas pelo corpo todo, sem contar o sangue que saia pelo nariz, boca, olhos e orelhas.

Neste dia, ele estava escalando a parede do cemitério, já era cerca de uma da manhã, quando avistou na rua escura um pobre trabalhador, que estava cansado, pegando o rumo de casa. O gorila não achou o homem tão apetitoso, porque era tão magro, mas tão magro, que não seria tão saboroso… Seu prato preferido era uma pessoa nem tão magra, nem tão gorda, nem tão alta, nem muito baixa, ele gostava das pessoas razoáveis, sem nenhum tipo de exagero. Mas, o mais importante, o coração precisava ser grande, bem grande – não era grande de bondade, bondade era uma coisa que não interessava a ele, era grande de tamanho mesmo. Além de gostoso, o gorila se sentia mais cheio de energia cada vez que deliciava um coração fresquinho, deve ser porque o coração é um órgão que pulsa sem parar, e enquanto pulsa estamos vivos, mas se parar… É isso! Cada coração comido o gorila zumbi se sentia mais vivo.

Bem, o fato é que, depois de escalar o muro, ele foi às pressas atrás do trabalhador, mesmo magricelo, era o que tinha e, em menos de cinco segundos o coração dele, que era bem grande até, de tamanho e de bondade, já estava dentro da barriga do zumbi, que voltou a dormir tranquilamente em seu túmulo. E assim acontece em todas as noites tenebrosas como aquela.

Esse aí, queridos leitores, tem muitos corações, mas é como se não tivesse nenhum…

A obesidade na mídia

Do site ComCiência

Por Simone Pallone de Figueiredo
Jornalista, pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, da Universidade Estadual de Campinas (Labjor/Unicamp) e doutora em política científica e tecnológica pela Unicamp.

A situação do sobrepeso e da obesidade no mundo hoje se apresenta como um quadro alarmante, de índices crescentes em praticamente todos os países, que independe do estágio de desenvolvimento e até mesmo da condição socioeconômica das populações. Atinge ricos e pobres, homens e mulheres, famosos e anônimos em maior ou menor proporção. Uma preocupação grande das autoridades e profissionais da classe médica gira em torno das crianças e adolescentes, numa previsão de acirramento da situação nos anos próximos, aumentando os riscos de doenças que são apontadas como decorrentes ou associadas ao excesso de peso, de óbitos precoces e dos custos para os indivíduos e para a saúde pública.

Esse quadro tem sido apresentado como uma epidemia, sendo a obesidade assim tratada e difundida por médicos e outros profissionais da área da saúde – psicólogos, nutricionistas, enfermeiros, professores de educação física –, além de autoridades governamentais responsáveis pelos cuidados da população e pela manutenção dos sistemas de atendimento à saúde. A ideia de epidemia é disseminada também pela mídia, atingindo um público amplo.

Jornais, revistas, programas de TV e rádio de todo o mundo têm trazido o tema para os seus noticiários e pesquisadores têm examinado como e com que frequência o tema aparece nos veículos. Em um trabalho publicado em 2007, Natalie Boero, socióloga da San José State University, Califórnia, EUA, apresentou uma análise do The New York Times, um exemplo de como a imprensa tem disseminado o aumento das taxas de sobrepeso e obesidade.

A pesquisadora analisou 751 artigos sobre obesidade publicados no jornal, com o objetivo de mostrar como a mídia ajudou a apresentar a obesidade como uma epidemia no período de 1990 a 2001. Em primeiro lugar, ela ressaltou a importância dada pelo jornal ao tema. O número de artigos sobre obesidade ultrapassou os que tratavam de cigarros e hábito de fumar (544), sobre Aids (672) e poluição (531). Os artigos analisados tratavam de obesidade, gordura, tamanho do corpo, e apareceram em uma grande variedade de contextos, entre os quais saúde, perda de peso, crianças, beleza, produtividade no trabalho, saúde pública, discriminação e economia.

Além de uma reflexão sobre uma epidemia biomédica, a mídia, segundo a pesquisadora, teve um papel importante na construção da ideia de epidemia e, fazendo isso, confiou fortemente no discurso de gordura, moralidade, risco e ciência que há tempos designa a obesidade como uma entidade médica ou epidemia americana. A valorização da magreza como padrão de beleza a ser perseguido também foi tratada no estudo.

Outros jornais e revistas têm destacado os riscos desse aumento do peso das populações, as doenças associadas, os custos, quem são os mais atingidos, que medidas os médicos, pesquisadores, indivíduos e governos têm tomado na direção de conter ou controlar a chamada epidemia. É normal que a imprensa faça isso, em se tratando de tema tão relevante, afinal é seu papel prover a informação e compreensão necessárias para que as pessoas sejam capazes de pensar criticamente sobre os temas científicos que afetam diretamente as suas vidas (Nelkin, 1987).

Buscando encontrar resultados como os de Boero quanto à colaboração da imprensa na construção de ideia de epidemia da obesidade, realizei um estudo sobre o jornal Folha de S. Paulo, no período de 1998 a 2008. Foram encontrados 563 textos, mas a amostra acabou sendo reduzida a 305 porque vários desses textos faziam parte de uma mesma reportagem (retrancas) e outros poucos – notas sobre eventos ou lançamento de livros – foram descartados.

A análise das matérias publicadas tentou provar, em primeiro lugar, que há uma insistência da imprensa em divulgar o tema obesidade no jornal, pelas mais variadas razões: interesse público, interesse do grupo de atores envolvidos na indústria da saúde em divulgar a questão ou pelo interesse do veículo em atrair a atenção dos leitores e vender mais jornais, e de atrair mais anunciantes e ampliar suas relações com os dois grupos. Também fazia parte dos objetivos saber se a obesidade foi veiculada e tratada como doença/epidemia, mesmo que o veículo trate de aspectos variados sobre a questão – causas, consequências (efeitos físicos, psicológicos, econômicos), tratamentos, pesquisas, novos medicamentos, mercado. Por último, se as fontes procuradas para tratar do tema pertenciam às mesmas áreas científicas, permanecendo no âmbito das ciências da saúde, enfatizando, desta forma, o discurso predominante, que reforça a autoridade do campo científico da medicina, reafirmando a legitimidade da autoridade médica para tratar do assunto.

Dos resultados obtidos, a editoria que contemplou o maior número de matérias foi “Cotidiano” (41%); o ano que teve mais matérias sobre obesidade foi 2003 (41) e a notícia foi o gênero jornalístico mais encontrado (41%). Mas os resultados mais relevantes para o fim deste trabalho são os relativos às fontes consultadas, à caracterização da obesidade e à atribuição de responsabilidade.

Para a grande maioria dos textos, as fontes mais ouvidas foram profissionais da área da saúde – 120 médicos e 30 de outras profissões –, com destaque para médicos ou cientistas de instituições públicas (87 matérias), fontes essas que podem ser caracterizadas como autorizadas ou institucionais. Os profissionais do setor privado (33) foram o segundo grupo mais consultado como fonte de informação. Dentre os entrevistados, 31 eram estrangeiros da área da saúde, ligados a universidades ou instituições de pesquisa. Notou-se uma recorrência aos representantes das sociedades médicas, que pode ser justificada pela confiabilidade da fonte. Por serem presidentes dessas sociedades, esses médicos são investidos de uma autoridade reconhecida pela classe.

Entre as fontes governamentais nacionais encontradas nos textos, as privilegiadas foram o Ministério da Saúde, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Internacionalmente, foram ouvidas ou citadas a OMS (Organização Mundial da Saúde), FDA (Food and Drug Administration) e CDC (Centers for Disease Control and Prevention). Foram poucos os nomes que representaram a classe política.

Em relação à caracterização da obesidade, as matérias que atribuíram caráter epidêmico representaram cerca de 18% da amostra, ainda que uma proporção muito maior de tais notícias (33%) tratassem da obesidade como doença. Aproximadamente 21% das matérias consideraram que a obesidade causa ou agrava outras doenças, e 4% apenas a associaram a outras doenças, sem atribuir relação de causa ou consequência. Uma parte consideravelmente menor das matérias (7%) caracterizou a obesidade como resultado de comportamentos inadequados – hábitos alimentares errados ou sedentarismo; consequência de fatores ambientais (3,6%); e estigma social (4,6%).

As matérias analisadas propunham vários tipos de tratamentos, entre os quais a opção de mudança de hábitos alimentares/reeducação alimentar, dieta, prática de exercícios físicos, uso de medicamentos, cirurgia de estômago, psicoterapia e a combinação de uma ou mais dessas opções (o mais indicado pelos endocrinologistas). A sugestão do tratamento para combater a obesidade com o uso de medicamentos apareceu em todos os anos analisados, sendo que em 2007 houve um maior número de indicações para esse tipo de tratamento (8), sendo uma vez aliado à prática de exercícios. Não é de se admirar que esse seja o ano em que foi liberada a comercialização do Acomplia (rimonabant) no Brasil, substância que atua na área do cérebro e ajuda na regulação fisiológica do equilíbrio energético, ingestão de alimentos e metabolismo de lipídios e glicose, promovendo assim emagrecimento. Esse foi também o ano em que o medicamento foi retirado do mercado em todo o mundo, após a verificação de que usuários do mesmo apresentaram o dobro de chances de desenvolver problemas psiquiátricos – ansiedade e depressão, por exemplo.

O tratamento pela cirurgia bariátrica teceu maior número de referências nas matérias analisadas no ano de 2000 (4). Nos demais anos o procedimento foi sugerido de uma a duas vezes. Esse procedimento é recomendado para pessoas que tenham IMC (Índice de Massa Corpórea) igual ou maior que 40 kg/m2, ou acima de 35 kg/m2 que apresentem alguma doença associada, como diabetes mellitus, por exemplo. Esse tem sido o principal – ou último – recurso para obesos mórbidos perderem o excesso de peso.

Apesar de o controle social sobre a obesidade se concentrar fortemente nas mãos do profissional médico, e, por conseguinte, a responsabilidade pela sua ocorrência ou solução, há, além do próprio indivíduo, outros atores que exercem influência sobre o processo de medicalização e também são responsabilizados tanto pela condição quanto pelo controle ou “cura”. Tais atores são as autoridades públicas, ligadas ou não ao setor da saúde, os laboratórios farmacêuticos, a indústria alimentícia, academias de ginástica, as seguradoras, entre outros.

Porém, parte da responsabilidade é atribuída ao próprio indivíduo. Tanto nos consultórios médicos quanto pelos meios de comunicação, a medicina responsabiliza o indivíduo pela manutenção da sua saúde, da longevidade e de seu bem-estar. Nessa visão, o controle das doenças não estaria subordinado apenas ao uso de determinados medicamentos ou a idas regulares ao médico, mas também ao comportamento adotado por cada um em relação à vida.

Mas as matérias da Folha centraram a responsabilidade nos profissionais médicos ou cientistas, como os principais sujeitos ou grupos capazes de solucionar ou dar as diretrizes para a solução da epidemia da obesidade. Os médicos sugerindo um diversificado leque de opções de tratamentos, e os cientistas (muitos são médicos também), a maioria da área de ciências biológicas, que no desenvolvimento de suas pesquisas cotidianamente têm gerado resultados que sugerem as possíveis causas da obesidade e seu tratamento, seja à base de medicamentos ou intervenção genética, ou outro tipo de tecnologia.

Ao longo do trabalho foi possível confirmar as hipóteses formuladas. De fato, a Folha de S. Paulo divulgou o tema com uma constância capaz de convencer o leitor de que a epidemia é uma realidade, um fato inquestionável, segundo a opinião das autoridades científicas e médicas. A obesidade é vista e tratada como doença/epidemia, mesmo que o veículo trate de aspectos variados sobre a questão – causas, consequências (efeitos físicos, psicológicos, econômicos), tratamentos, pesquisas, novos medicamentos, mercado. A grande maioria dos textos tratou da obesidade como doença (33,11%) e epidemia (17,7%). Em decorrência disso, os outros assuntos foram tratamentos e opiniões médicas a respeito da questão.

Entretanto, vale destacar que, em relação à epidemia da obesidade, há um “outro lado”, que também foi mostrado pela Folha de S. Paulo em suas matérias ao longo do período estudado. Trata-se de um conjunto de notícias e reportagens que desafiaram a corrente principal que alerta sobre o risco do aumento da obesidade no mundo. Neste bloco de notícias, o alerta é exatamente o contrário, para o alarmismo quanto ao que se diz sobre a epidemia, identificando-o com uma ideia de atendimento ao mercado, de preconceito contra uma condição que deve simplesmente ser aceita e que o é por muitos obesos que não se consideram doentes, levam uma vida normal, mas acreditam que devem ser mais respeitados em sua condição de seres humanos, cidadãos, profissionais.

Referências:
– Natalie C. Boero. “All the news that’s fat to print: The american ‘obesity epidemic’ and  the media”Qualitative sociology 30 (2007): 1, 41-61.
– Dorothy Nelkin. Selling science: How the Press Covers Science and Technology, New York: W.H. Freeman and Co, 1987.

Qual é o lugar da imagem?

Qual é o papel da imagem na sociedade dos dias de hoje? O professor Etienne Samain, do Instituto de Artes, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), tenta responder à questão no livro que acaba de organizar: Como pensam as imagens (Editora Unicamp). A publicação conta com a colaboração de dez autores brasileiros e estrangeiros. Em entrevista ao Jornal da Unicamp, o professor diz que o livro solicita que o leitor olhe o universo das imagens – artísticas em particular – não apenas como atos e fatos, mas como um território de revelações e de questionamentos sobre sociedades e culturas. “Como antropólogo, acabei entendendo que as imagens são refúgios de memórias, de inquietações, de promessas e de desejos. Elas devem ser utilizadas, desdobradas para pensar o mundo”, conta Samain.

De acordo com o professor, o livro é dividido em três partes. A primeira faz uma abordagem epistemológica, trazendo a proposta de entender as imagens de outra maneira, de pensá-las não mais e apenas na sua essência, mas de encará-las em termos fenomenológicos e prospectivos. As outras duas partes do livro são, por sua vez, tentativas metodológicas, imersões poéticas e propostas heurísticas de se aproximar da imagem concreta para ver e descobrir como ela pode nos conduzir a pensar o nosso mundo.

A revistapontocom transcreve, abaixo, parte da entrevista concedida pelo professor ao jornalista Manuel Alves Filho, do Jornal da Unicamp.

Clique aqui e confira na íntegra

Jornal Unicamp – Para os leigos, é simples aceitar que as imagens nos fazem pensar. Entretanto, não parece tão trivial acolher a ideia de que as imagens pensam, como afirma o título do livro. Afinal, como as imagens pensam?
Etienne Samain – De fato, é ainda bastante simples entender que as imagens nos fazem pensar e que carregam e veiculam pensamentos. É mais difícil acolher a ideia de que as imagens, sem nós, humanos, são capazes de pensar. Temos, deste modo, que pular as cercas de nosso entendimento nato e descobrir sem arrogância que as imagens têm uma vida própria, que elas conversam e dialogam entre si. Desvendar não diretamente o que elas pensam, mas como elas pensam e, sobremaneira, o que se recusam a dizer.

Jornal Unicamp – As imagens presentes no livro estimulam o leitor a fazer esse exercício?
Etienne Samain – As imagens do livro são tentativas de aproximação do assunto. Tentam dizer como as imagens nos fazem pensar e como pensam entre elas. A imagem da capa, que mostra um tipo de borboleta conhecida como corujão, é um bom exemplo. Vista com asas abertas, não há dúvida de que se trata de uma borboleta. Com asas fechadas, entretanto, ela se parece com uma coruja (e até como uma cobra). É um recurso de camuflagem, para se proteger de predadores. Essa imagem é uma metáfora para o livro inteiro. Semelhantes a imagens, as borboletas viajam, vão e vêm, passam. São diversas, transitórias; são leves, sem “consistência verdadeira”, pensamos. São voláteis e volúveis, não são “sérias”, não têm “peso” com relação às palavras. Eis o que acontece quando nossa razão perdeu sua imaginação.

Jornal Unicamp – O senhor disse que a imagem ainda não tem o mesmo relevo da escrita. Todavia, há um adágio popular que diz que uma imagem vale mais que mil palavras. Como explica essa aparente contradição?
Etienne Samain – As pessoas reconhecem que a imagem é importante e que ela é reveladora. Ao mesmo tempo, a imagem é capaz de esconder o que pensa. Tem discursos múltiplos em torno dela. O adágio é importante para a relevância da imagem. De um lado, a imagem é muito verborrágica, fala demais, confunde. Por outro, é muda, esconde. No mundo de hoje há uma saturação de imagens. Estamos afogados por elas, entretanto, muitas imagens são medíocres. Com isso, somos privados de outras imagens. Temos que saber escolher ou criar imagens capazes de expressar o ser humano, os seus destinos de maneira concreta. Não se trata de gerar um objeto simpático. Trata-se de uma imagem com peso de provocação, de tomada de posição.

Jornal Unicamp – Atualmente, gerar e manipular imagens são procedimentos corriqueiros, graças às tecnologias como os telefones celulares e os programas de computador. Como o senhor vê o emprego desses recursos?
Etienne Samain – Há um aspecto potencialmente positivo, pois temos suportes cada vez melhores para produzir imagens. Entretanto, tudo depende do valor de uso que faremos dessas potencialidades. As máquinas nos proporcionam enormes vantagens, mas precisamos ver o que vamos retirar delas. Quando eu falo de “uso”, estou me referindo a um “valor”, a uma virtualidade de reflexão sobre o mundo a partir das imagens. Atualmente, há uma enorme banalização das imagens e, o mais grave, uma ocultação de gritantes realidades. As imagens também abafam.