Cultura digital

Por Marcus Tavares

Fala-se hoje a todo instante que vivemos na cultura digital. Cercados de tecnologias de informação e comunicação, as chamadas TICs, somos impactados em todas as relações e contextos, da casa ao trabalho. Mas o que realmente entendemos por cultura digital? Aliás, o que significa cultura digital para a categoria do magistério que enfrenta o desafio diário de lidar com crianças e jovens cada vez mais conectados às mídias? Esta foi a pergunta central da dissertação de mestrado da pedagoga Luciana Santos. Intitulada de Imaginário tecnológico de professores: ser professor em tempos de tecnologias digitais, a dissertação foi defendida no início de abril, no Departamento de Pós-Graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

Luciana ouviu 15 professores da rede pública estadual e particular de ensino do Estado do Rio de Janeiro. Analisando as falas, o dito e o não dito, a pesquisadora aponta que os educadores entendem a cultura digital na escola como suporte para simplesmente qualificar a “ilustração do conteúdo”. Segundo o estudo, os profissionais de ensino acreditam que, embora os estudantes tenham, de fato, uma familiaridade maior com as tecnologias, eles não são capazes de transformar informação em conhecimento. E, neste sentido, os educadores têm pela frente um novo papel: o da mediação do conhecimento.

Os professores reconhecem que a profissão docente passa por mudanças devido ao contexto de massificação das TICs. Mas não se sentem preparados e muito menos qualificados. “Na verdade, esta mudança parece ainda não ter saído dos discursos destes professores para a prática efetiva. Para tanto, eles demandam uma formação mais apropriada para assumirem a posição de mediadores na seara da cultura digital”, destaca Luciana, orientadora educacional do Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Acompanhe a entrevista:

revistapontocom – Por que estudar a relação entre professores e cultura digital?
Luciana Santos – Num primeiro momento, meu olhar estava na aprendizagem: quais seriam as especificidades desta em tempos de massificação do acesso aos meios digitais da comunicação e de intenso tráfego de informações? Entretanto, compreendi que, para chegar à aprendizagem, precisava passar pelo ensino. E, nesta vertente, o professor apareceu como um sujeito essencial de pesquisa, cujas questões giraram em torno da inserção das tecnologias na sala de aula. Nortearam o desenvolvimento do trabalho questões da relação professor, estudante e cultura digital. Por exemplo: de que forma o docente vem se aproximando das tecnologias, com as quais os alunos supostamente têm tanta familiaridade? O meu objetivo era captar a voz do professor. Queria que ele próprio me dissesse sobre suas impressões, sobre como vinha se sentindo ao exercer a docência nesse contexto, uma vez que, já há algum tempo, o educador vem sendo alocado como protagonista de inúmeras iniciativas de formação para a utilização das tecnologias em sala de aula.

revistapontocom – Provavelmente, para desenvolver a pesquisa, a senhora teve que conceituar a expressão cultura digital. A senhora partiu de qual definição?
Luciana Santos – A cultura digital diz respeito ao contexto contemporâneo das tecnologias digitais. Uma das abordagens do conceito enfoca a dinâmica das relações sociais, das práticas, das percepções e dos significados em torno do fenômeno e, não somente, seu aspecto tecnológico. Na perspectiva dessa vertente, é importante esclarecer que o advento da digitalização dos meios de comunicação não implica em profundas transformações tecnológicas e sociais, como uma espécie de revolução radical. Neste sentido, não se pode aludir a uma ruptura entre as tecnologias atuais e os meios de comunicação de massa. Muitos destes meios se encontram de forma maciça em nosso cotidiano, como é o caso da televisão, significativamente presente nos lares brasileiros e no envolvimento com as diferentes mídias, incluindo as digitais. De acordo com o professor André Lemos, um dos autores de referência da minha pesquisa, a cultura digital não seria um estado atual da evolução de tantos projetos anteriores, técnicos e tecnocientíficos. Para o autor, este fenômeno se caracteriza principalmente por uma nova e estreita relação com a sociedade, compondo um tipo de desenho sociotécnico, em que os sujeitos interagem intensa e amplamente através dos meios digitais, propiciando a circulação de informações sobre os mais diferentes aspectos e sustentando a formação dos agrupamentos sociais.

revistapontocom – É desta forma que os professores, entrevistados pela senhora, interpretam o conceito de cultura digital?
Luciana Santos – Muitos professores tentaram conceituar o fenômeno à luz da profissão docente. Por isso, a associação com a educação foi e é forte. A cultura digital foi entendida como um suporte para o processo de ensino e aprendizagem. Todos os professores que entrevistei destacaram o amplo acesso às informações como o grande marco das tecnologias. Neste quesito, eles acreditam que os alunos não estão conseguindo transpor o contato com informações em produção de conhecimento. Por outro lado, a cultura digital foi associada à linguagem. Uma forma de linguagem na qual os jovens seriam os protagonistas, pelo domínio que apresentam dos signos dessa cultura, enquanto o docente ainda precisa romper certas barreiras. Mais do que a questão do letramento digital, o que estes profissionais trouxeram como cultura digital relativo à linguagem teve a ver com os processos tecnológicos das ferramentas digitais.De acordo com a maneira como a maioria dos professores declarou se relacionar com as tecnologias, parece que eles concebem as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) como caixas pretas. Por sua vez, acreditam que os estudantes conseguem desvendá-las, descobrir o que tem dentro, ao dominarem os processos tecnológicos e a linguagem específica dos meios digitais da comunicação. Ou seja: os resultados da pesquisa indicam que o imaginário tecnológico partilhado por estes profissionais investigados apresenta aspectos do mito da digitalização, no interior do qual prevalece a percepção de que há um maior distanciamento entre gerações na conjuntura da cultura digital e a concepção de que os jovens são experts na utilização de tecnologias, frente a adultos pouco qualificados nesse âmbito.

revistapontocom – Esta visão seria de professores com mais tempo de carreira?
Luciana Santos –  A idade dos professores também foi um fator significativo para o que defini como utilização social das Tecnologias de Informação e Comunicação (o uso cotidiano), contexto no qual os docentes mais jovens, de fato, demonstraram maior proximidade com as tecnologias. Entretanto, quando a questão é inserir estes artefatos na sala de aula, envolvendo as tecnologias às práticas pedagógicas, a questão da idade não foi tão expressiva. Todos os professores investigados apontaram para uma distância entre a utilização social e o emprego das tecnologias na seara escolar. Além de questões como a precária infraestrutura da escola, formação insuficiente para o uso das tecnologias e a falta de tempo, o imaginário tecnológico parece ser também um fator que incide sobre a baixa utilização das tecnologias em sala de aula, uma vez que estes docentes, em sua maioria, se colocaram como menos especializados em tecnologias do que os alunos.

revistapontocom – Qual é o impacto desta interpretação dos professores na sala de aula?
Luciana Santos – Em sua maioria, os docentes qualificaram as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) como ferramentas de aprendizagem. Neste sentido, os aparatos tecnológicos foram entendidos como facilitadores desse processo, assumindo, na prática, uma função ilustrativa dos conteúdos. Na concepção destes professores, em decorrência de supostamente facilitar a aprendizagem, a cultura digital incidiu na perspectiva do ensino, qualificando-o, desde que saibam utilizar as tecnologias. Para os educadores ouvidos, as TICs conferem ao ensino um aspecto lúdico, contribuindo para aproximar alunos e professores. Por fim, uma das principais implicações da cultura digital no trabalho docente, apontada pelos professores, tem a ver com a mediação. Essa característica foi atribuída a outro lugar que o professor assume ou deve assumir na contemporaneidade. Deixando o papel do transmissor, do detentor do saber, o docente tem sido entendido como mediador, como facilitador da aprendizagem. Mesmo que essa condição não seja exclusiva do contexto da cultura digital, parece que, nos discursos desses profissionais, a ideia de mediação se adensa devido à existência de tecnologias digitais e devido à densa arena de informações desenhada na seara atual. Se o jovem que chega à sala de aula hoje, devido ao amplo acesso a informações, proporcionado pelas TICs, altera o lugar do professor, do centro do ensino para o mediador da aprendizagem, os próprios docentes entenderam que essa relação com as tecnologias é problemática. Desta forma, o estudante, no ponto de vista destes professores, não estaria conseguindo transpor a interação com as tecnologias em aumento do conhecimento, pois apesar do estreito contato com informações, as finalidades com as quais os alunos recorrem às tecnologias têm sido vistas, pelos docentes, como mais direcionadas ao entretenimento. Por isso, para os professores, caberia a eles intervir na interface estudantes/tecnologias, conduzindo estes a um melhor aproveitamento das informações. Ou seja, se por um lado, o aluno foi classificado como mais especializado tecnologicamente, por outro, no tocante as informações com vias a mediação tecnológica, o professor parece reassumir o centro. Apesar dessa concepção, outra perspectiva também surgiu. Enquanto para alguns docentes, na perspectiva da mediação tecnológica, as TICs foram concebidas como ferramentas que dependem de mediação para que o aprendizado se efetive, para outros, principalmente aqueles que partilham do mito da cultura digital (jovens experts em tecnologias em comparação aos adultos), parece haver uma ideia de que as tecnologias são capazes de alterar as relações cognitivas que estamos estabelecendo, condição que seria mais favorável aos jovens, considerações, portanto, contraditórias a noção de mediação. Em tempos de tecnologias digitais, a condição de mediadores da relação dos estudantes com as tecnologias e, em decorrência disto, com o conhecimento, revelou-se uma das principais marcas de mudança da função docente.

revistapontocom – Essa mudança então já está ocorrendo?
Luciana Santos – Na verdade, esta mudança parece ainda não ter saído dos discursos destes professores para a prática efetiva. Para tanto, eles demandam por uma formação mais apropriada para assumirem a posição de mediadores na seara da cultura digital. Ainda que o docente, nos discursos políticos, esteja sendo exposto como o cerne da questão, este profissional precisa ser apoiado com iniciativas mais completas de formação para o uso das TICs: não somente no que diz respeito ao contato e à capacitação técnica, mas também, com certa formação conceitual para as tecnologias. Além disso, os professores apontam que o não uso das TICs em sala de aula também ocorre devido a diferentes dificuldades, como a falta de suporte das esferas de nível macro da educação, a ambiência escolar que, por vezes, não favorece a utilização das tecnologias, a precária infraestrutura da escola, a carência de tempo para ingressar em iniciativas de formação continuada e para o preparo de uma aula que envolva as próprias tecnologias.

revistapontocom – A senhora acha que os professores têm uma visão distorcida do que seja a cultura digital? Essa visão traz que consequências para a sala de aula? 
Luciana Santos – Apesar de os professores não terem discordado da presença das tecnologias em sala de aula, duas perspectivas contraditórias surgiram de modo significativo. De um lado, certa resistência às TICs. Muitos deles percebem a própria relação cotidiana com as tecnologias atravessada pelo receio em se aproximar desses meios, pelo medo e preconceito. Por outro lado, numa postura de filiação, mesmo tendo sido pouco problematizada a relação entre tecnologias e educação, no sentido do entendimento de como a aprendizagem seria qualificada por meio das TICs, parece que, no imaginário de muitos desses professores, tem sido outorgada às tecnologias uma alta capacidade de resolução dos problemas da educação. Essa questão toca em um dos aspectos do mito da cultura digital: aquele que se refere às homilias de um mundo novo, a ser conquistado através da superação da condição humana. Na essência do mito, as tecnologias seriam a grande promessa para todos os males da humanidade. Não raro, esse ponto do mito vem atravessando o âmbito da educação: tanto em alguns discursos políticos quanto no imaginário desses docentes. Por isso, acredito que as iniciativas de formação para as tecnologias devem ser mais completas, abordando não somente a capacitação técnica para os meios, mas, principalmente, a formação conceitual. Para tanto, as iniciativas de formação devem garantir espaços de discussão, momentos em que o professor seja escutado.

Cine Literário


Por Marcus Tavares
Fotos – Ana Gomes 

A ideia de aliar literatura, cinema e escola já existe há quase dez anos, mas só agora ela parece, de fato, ganhar voo próprio. E tudo indica que a proposta veio para ficar. Pelo menos, o grupo que está à frente da empreitada já é reconhecido pela inovação, competência e responsabilidade. Trata-se do projeto Cine Literário, do Ponto Cine, primeira sala de cinema digital popular, localizada em Guadalupe, que tem a meta de difundir e democratizar o cinema, principalmente, o nacional, no dia a dia das pessoas.

O objetivo do Cine Literário é incentivar a leitura dos estudantes por meio do cinema e formar plateia por meio da literatura. Para dar conta da dobradinha, as dez escolas municipais do Rio que participam, inicialmente, do projeto já ganharam uma midioteca, com 50 livros de literatura brasileira e 50 filmes baseados nas obras literárias. O pacote ainda inclui um monitor de TV HD de 47”, um blu-ray player, catálogos sobre os títulos e DVDs do Ponto Cine, que trazem entrevistas com escritores, diretores, produtores e atores. A inauguração das midiotecas começa no dia 25 de abril e vai até 3 de maio.

Os estudantes estão ansiosos. Mas o sentimento não é de hoje. Na verdade, antes de receberem os materiais da midioteca, eles, com seus professores, participaram, no ano passado, de oficinas de catalogação de acervo, operação de equipamento, exibição e divulgação. As turmas também fizeram visitas técnicas à Biblioteca Nacional e ao Centro Técnico do Audiovisual (CTAv), do Ministério da Cultura.

As dez escolas participantes foram selecionadas a partir de indicações dos patrocinadores e por uma equipe formada por um produtor, um cineasta e um sociólogo. O critério de escolha se baseou na disposição da direção da escola em estabelecer a parceria, no engajamento dos professores e no grau de interação entre eles e os estudantes.

Segundo Adailton, diretor-executivo do Ponto Cine, o projeto prevê o envolvimento de mais 26 escolas no Rio e mais duas em Recife, duas em Brasília e duas em Florianópolis. Essas últimas seis também serão indicadas e servirão como projeto piloto para futura ampliação do Cine Literário nessas praças.

Na midioteca, há de tudo um pouco, como explica Adailton: “A lista vai dos clássicos aos populares, dos densos aos mais leves, como A Hora da Estrela, de Suzana Amaral, baseado no livro homônimo de Clarice Lispector; Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, adaptado da obra de Raduan Nassar; passando pelo adolescente Desenrola, de Rosane Svartman, baseado no livro homônimo de Juliana Lins; ao infantil Princesa Xuxa e o Mistério de Feiurinha, adaptado da obra de Pedro Bandeira, o Fantástico Mistério de Feiurinha. Primeiro selecionamos os títulos de filmes e livros a parti de alguns critérios, por exemplo: títulos regionalistas, urbanos etc. Mas depois vimos que casar filmes e livros não é fácil. São duas indústrias totalmente diferentes. Aí partimos para o que era possível”, destaca.

As sessões de exibição do filme, nas escolas, serão abertas para toda a comunidade escolar, sempre seguida de debate. Os relatórios das exibições serão postados pelos alunos no site do projeto. De acordo com Adailton, o projeto não tem o objetivo de fazer com que as leituras e as exibições dos filmes sejam utilizadas pela escola como conteúdos de trabalho ou objetos de avaliação.

“O que se pretende é incentivar à leitura e formar plateia para o cinema tendo como isca o entretenimento.  Sim, sonhamos ver um dia o audiovisual no currículo escolar. O mundo hoje é audiovisual, temos que alfabetizar e educar o olhar. E isso tem que estar na escola. Entendemos que o cinema é tão importante quanto arroz e feijão, porque cinema alimenta a alma das pessoas e fortalece a consciência de um país”, destaca.

Todo o material foi doado pelo Ponto Solidário e o Ponto Cine, que são co-realizadores do projeto, com os recursos dos patrocinadores do projeto: Fundação Vale, Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Chemtech e Statoil, por meio das leis federal (Rouanet) e municipal de incentivo à cultura (ISS).

Conheça as dez escolas participantes:

– Escola Municipal Acre
– Escola Municipal Manoel Bonfim
– Escola Municipal José Veríssimo
– Escola Municipal Maranhão
– Escola Municipal D. João VI
– Escola Municipal Thomé de Souza
– Escola Municipal Miguel Ramalho Novo
– Escola Municipal Getúlio Vargas
– Estação Conhecimento Engenhão
– Estação Conhecimento Vila Militar 

Trabalho infantil artístico

A Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados realizou, no dia 23 de abril, em Brasília, audiência pública para discutir a proposta que regulamenta o trabalho artístico para menores de 18 anos (PL 3974/12). O texto, de autoria do deputado Manoel Junior, muda a Consolidação das Leis do Trabalho, atribuindo à Justiça do Trabalho a competência de autorizar ou não o trabalho artístico de crianças e jovens. Atualmente, a autorização é dada pela Justiça Comum ou pelo Juiz da Infância e do Adolescente.

Calcula-se que, nos últimos cinco anos, a Vara da Infância, no Brasil, já concedeu cerca de 30 mil autorizações, sendo que muitas não tinham fins artísticos. Representante do Ministério Público do Trabalho, Thalma de Almeida, em entrevista ao site do Plenarinho, disse que as autorizações deveriam ser dadas para as exceções, mas muitos juízes autorizam menores a trabalhar sem a devida proteção e para qualquer atividade, como a que foi concedida a uma criança a vender castanha na beira de uma grande rodovia no estado da Paraíba.

As crianças que trabalham na TV
Leia a entrevista com a professora Inês Vitorino, da Universidade Federal do Ceará.

Segundo o deputado Manoel Junior, a Justiça Trabalhista está mais apta a conceder essa autorização. A mudança é defendida pelo Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil e pela Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho e do Ministério Público do Trabalho (Anamatra). A relatora do projeto, deputada Benedita da Silva (PT-RJ), lembrou que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) também remete ao Juiz da Infância e da Juventude a decisão de conceder ou não essa autorização. No entanto, há divergências entre os magistrados sobre a delegação dessa competência. “A Justiça Comum não estaria apta para analisar pelo ângulo da legislação trabalhista a questão da idade, quando começa um trabalho artístico, quando é profissional.”

De acordo com o advogado Carlos Nicodemos, membro do Conselho Nacional dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes, desde 2010, “não há o que se discutir em reconhecer a Justiça especializada da infância e juventude como competente para conceder as autorizações de participação em espetáculos públicos”.

Em texto publicado em seu blog, Nicodemos destaca que a condição da criança e do adolescente, enquanto sujeitos em peculiar processo de desenvolvimento humano, coloca a Justiça da infância com maior capacidade de fazer valer e prevalecer o interesse dos infanto-juvenis sobre qualquer outro. “Não é raro testemunharmos pais fazendo da participação das crianças e adolescentes em espetáculos públicos uma oportunidade de realizar um sonho do próprio pai ou da mãe e de alavancar as finanças familiares. É preciso fazer valer o interesse da criança e do adolescente. Desta maneira, acreditamos que, considerando a condição de prioridade absoluta da criança e do adolescente e de serem reconhecidos como sujeito de direitos em peculiar processo de desenvolvimento, tendo a prevalência do seu superior interesse sobre qualquer outro, é essencial que a Justiça Estadual, especializada para infância e Juventude seja o locus de decisão da participação dos brasileirinhos e brasileirinhas nos espetáculos públicos”.

Jovens e política

Como aproximar os jovens da política? Nos dias de hoje, trata-se de uma tarefa árdua. Uma boa dica é instigá-los a participar do projeto Parlamento Jovem Brasileiro, que completa a décima edição neste ano. Oferecido pela Câmara dos Deputados, o programa é uma oportunidade para que os adolescentes, de escolas públicas, técnicas e particulares, possam conhecer e experimentar, durante cinco dias, a jornada de trabalho dos deputados federais. O projeto de 2013 será realizado entre 22 e 27 de setembro, reunindo estudantes de todos os estados.

Para participar, o interessado tem que estar matriculado no 2º ou 3º anos do Ensino Médio ou no 2,º 3º ou 4º do Ensino Técnico (escola pública ou particular). O estudante tem que escrever um projeto de lei, a partir da realidade do país, observando os problemas que precisam de solução e propondo possíveis alternativas. Os projetos podem abordar temas nas áreas da agricultura, meio ambiente, saúde, segurança pública, economia, emprego, defesa do consumidor, educação, esporte e turismo.

As inscrições estão abertas até o dia 14 de junho. O projeto deve ser apresentado na secretaria da escola do estudante, com a ficha de inscrição e a documentação exigida. Há duas etapas de seleção: a primeira fica a cargo das secretarias de Educação de cada estado. A segunda será realizada por uma comissão da própria Câmara dos Deputados. Serão selecionados 78 estudantes de todo o Brasil por mérito dos projetos elaborados. O número de representantes por estado e pelo Distrito Federal é proporcional ao número de Deputados Federais.

Para mais informações acesse o manual do Parlamento Jovem 2013.

Respeito às crianças

 

 Por Marcus Tavares

A proposta é simples, mas desafiante: recontar para as crianças as notícias do mundo de hoje que são divulgadas pela mídia. O objetivo vem sendo colocado em prática há cerca de um mês pelo projeto Recontando – Jornalismo na medida das crianças. A ideia, da jornalista Simone Ronzani, é apresentar os fatos de uma maneira franca, direta e completa. “Não subestimamos a capacidade das crianças”, avisa.

Para Simone, recontar as notícias de uma forma mais contextualizada amplia o repertório de meninos e meninas, ávidos cada vez mais por informações que façam sentido. Neste processo de recontar, a linguagem audiovisual ganha espaço. As notícias são reescritas com ajuda de imagens jornalísticas e animações. O texto e o som são produzidos com o intuito de contribuir com o entendimento do telespectador/internauta criança. As pautas são discutidas por um conselho editorial de crianças, que tem voz ativa na definição e orientação das abordagens. Conheça o projeto em www.recontando.com

Em entrevista à revistapontocom, Simone fala mais sobre a proposta.

Acompanhe:

revistapontocom – De onde surgiu a ideia do Recontando? Qual é o principal objetivo?
Simone Ronzani – Um incêndio no estacionamento de um shopping de Niterói, na véspera do Natal de 2009, me fez dar meia volta com o meu filho, na época com quatro anos. O presente encomendado chegou mais tarde, mas, o Henrique quis saber, na hora, todas as informações sobre o ocorrido. Como eu só tinha as primeiras informações pelas rádios, no dia seguinte comprei o jornal da cidade e recontei a história, em detalhes, para ele. A partir de então, passei a observar e a estudar essa geração, a tão conhecida ‘Geração Z’. Constatei a necessidade premente que essas crianças têm de colher as informações de tudo com o que interagem de alguma forma. E esse é o nosso mote.

revistapontocom – As crianças não entendem realmente o que é ‘dito’ pelos adultos?
Simone Ronzani – Muitas coisas entendem, não podemos subestimar a capacidade delas. Mas, pelo caminho, algumas vezes, se perdem nos detalhes ou no geral. Só progressivamente a criança chega a uma visão global, completa e, por isso, a importância de uma abordagem detalhadamente simples e direta. Exercitando a associação dos fatos com contextualização, as crianças ampliam seus repertórios existenciais e cognitivos.

revistapontocom – Então, embora o acesso à informação de qualidade seja um direito de crianças, você acredita que os meios de comunicação, de uma forma geral, não vêm se preocupando com esta questão? Há um desrespeito à infância?
Simone Ronzani – O que vejo é que apostam na mesma fórmula há tempos. Esqueceram-se de perguntar às crianças sobre o que e como desejam saber. Existe um levantamento da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI), criada no Brasil pouco depois da promulgação da Constituição de 1988, que mostra exatamente isso. E, por isso, o Conselho Editorial Mirim faz parte da estrutura do Recontando. Nas reuniões semanais, as quatro crianças (todas de oito anos) assistem a episódios, debatem, criticam e recontam as histórias que viram. Deixam suas sugestões (e todas são acolhidas!). A cada reunião, a nossa linguagem vai se aprimorando.

revistapontocom – No mundo em que se exige cada vez mais que as crianças sejam autônomas e reflexivas, a mídia pouco vem se importando em se fazer entender por elas. Parece um cenário bem contraditório, não é mesmo? É possível mudar isso?
Simone Ronzani – É contraditório sim. O pressuposto na comunicação com as crianças mudou. As informações chegam até elas, independentemente do esforço que os pais façam pelo contrário. A questão agora é: o que fazer com essas informações? A proposta do Recontando é acolher essa superexposição e estabelecer um diálogo franco (e sempre cuidadoso) entre os dois mundos. É um começo, sem dúvida.

revistapontocom – Jornais/revistas tentam se aproximar deste público por meio de suplementos. Qual a avaliação que você faz deles? O recontando segue a mesma linha editorial?
Simone Ronzani – Toda tentativa de aproximação é válida, mas o foco deve ser sempre o sucesso dessa comunicação. A inovação do nosso formato preza pelo diálogo fluido das imagens animadas com a percepção, hierarquização e triagem das informações. O Recontando prioriza os direitos, expectativas e necessidades das crianças.  Pensamos, escrevemos, sonorizamos, desenhamos e animamos completamente focados nisso.

revistapontocom – Quais são os planos do Recontando?
Simone Ronzani – Recontar, recontar e recontar. Além do portal de notícias especialmente para crianças e das Oficinas de Recontação de jornalismo nas escolas, já estamos desenvolvendo um Projeto especial de facilitação pedagógica para as Escolas parceiras [as instituições interessadas podem entrar em contato por meio dos seguintes contatos: contato@recontando.com / simone.ronzani@recontando.com]. O caminho é longo e fecundo e este é só o começo.

Carta para Monteiro Lobato

Em comemoração ao aniversário de nascimento do escritor Monteiro Lobato, celebrado no dia 18 de abril, data em que se celebra também o Dia Nacional do Livro Infantil,  Artur Melo, fã dos personagens do Sítio do Picapau Amarelo, faz uma homenagem ao pai de Emília e Visconde de Sabugosa. Confira:

Por Artur Melo, 10 anos
Aluno do 5º ano do Ensino Fundamental, da Escola Sá Pereira


Prezado Monteiro Lobato,

Desde pequeno gosto muito de suas historias, quando nem sabia ler ainda, pois já via os filmes e minha mãe me contava um bocado de histórias. Uma vez eu ganhei todos os personagens em fantoches e um palco de teatro. Adorava chamar todos da família para fazer apresentações das cenas que eu via ou imaginava, no Sítio.

Quando fiz dois anos tive uma festa do Sítio, meu avô fez uma casa/Sítio da Dona Benta com quintal e tudo. A casa era grande, dava para as crianças entrarem nela, era feita de base de sucata e toda coberta de doces, as crianças entravam, brincavam e comiam.

E quando cismava com algum personagem… um dia resolvi ter uma canastra como a da Emília, foi um tal de catar sucatas, pedrinhas, insetos, tampas pecinhas de eletrônicos quebrados, juntava tudo em uma canastra de madeira; uma vez ganhei um saci de brinquedo, aquilo foi o máximo, fui correndo nas coisas do meu avô, peguei: peneira, garrafa, rolha, caneta e segui todas as instruções do Tio Barnabé para pegar saci, prendi o meu lá dentro, na garrafa.

Outra vez cismei que ia até a Lua na viagem ao céu. Nessa idade já tinha a minha própria caixa de ferramentas, consegui umas madeiras e comecei a fazer uma nave. Deu uma confusão danada porque peguei a bengala da minha bisavó, serrei para fazer uma alavanca.

Uma vez cheguei a ficar até quatro horas da manhã vendo o filme do Minotauro. Já estava maior e adorava ver a fuga do Rabicó e a Tia Nastácia enchendo a pança do Minotauro com bolinhos de chuva. Meus personagens preferidos são o Pedrinho, gosto das aventuras dele, mas também gosto bastante da Emília, do jeito com ela fala e age.

Obrigado pela sua mente criadora!

Um abraço do Artur

Todo dia é dia de índio

O Vídeo nas Aldeias acaba de lançar a coleção Cineastas Indígenas para Jovens e Crianças, um livro-vídeo para estudantes do Ensino Fundamental de todo país. Patrocinada pela “Convenção sobre a proteção e promoção da diversidade das expressões culturais”, da Unesco, a publicação traz um livro e uma seleção de seis filmes com temáticas voltadas para o público infanto-juvenil – realizados junto aos povos Wajãpi, Ikpeng, Panará, Ashaninka, Mbya-Guarani e Kisêdjê.

O livro está dividido em três partes. A primeira é dedicada a um breve olhar e discussão sobre os povos indígenas no Brasil; a segunda apresenta os grupos indígenas retratados nos filmes; e, na terceira parte, criamos uma série de jogos inspirados no universo indígena para crianças. Acesse o livro aqui.

A coletânea dos filmes reúne títulos consagrados nacional e internacionalmente como a vídeo carta “Das crianças Ikpeng para o mundo”, dos Ikpeng, e “Depois do ovo, a guerra”, dos Panará, assim como dois filmes inéditos, o “Mbya Mirim”, dos Mbya-Guarani e “No tempo do verão”, dos Ashaninka. “Akukusiã, o dono da caça”, dos Wajãpi, e “A história do monstro Khátpy”, dos Kisêdjê, completam a coleção. Acesse os filmes aqui.

Leia aqui a entrevista com Vincent Carelli, coordenador do Vídeo nas Aldeias

Veja o que não se deve fazer no Dia do Índio

“Acreditamos que, valorizando a diversidade, contribuímos para uma reflexão universal sobre as dificuldades que o planeta e seus habitantes enfrentam na atualidade, com o crescimento populacional, o aquecimento global, o esgotamento da água potável e seus recursos naturais. Cada vez mais, temos que aprender a conviver com os diferentes povos do planeta e sua crescente proximidade, pois, todos, aqui, não somos apenas vizinhos, mas dividimos a mesma casa”, destaca trecho da publicação

História

O projeto Vídeo nas Aldeias surgiu em 1987, com o objetivo de apoiar as lutas dos povos indígenas para fortalecer suas identidades e patrimônios territoriais e culturais, por meio de recursos audiovisuais e de uma produção compartilhada com os próprios povos. De lá para cá, o programa cresceu e hoje conta com um acervo de aproximadamente 70 filmes produzidos pelos índios, por meio de oficinas oferecidas pelo projeto nas 30 aldeias em que trabalha.

Álcool e jovens

Por Marcus Tavares

Antes de saírem à noite, eles se reúnem na casa de um dos integrantes do grupo. Bebem uma coisa aqui e outra ali. Prontos, partem para os barzinhos e baladas. Às vezes, a festa acontece em casa mesmo, no próprio quarto, com bebida liberada e farta e, dependendo, com o aval dos pais. A cena é mais comum do que se pensa e só reforça o que várias pesquisas vêm constatando: os jovens estão consumindo bebidas alcoólicas cada vez mais cedo e em maior quantidade.

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil aparece em terceiro lugar, na América Latina, no consumo de álcool entre os adolescentes. A pesquisa foi feita com estudantes do Ensino Médio e incluiu 347.771 meninos e meninas, de 14 a 17 anos, do Brasil, da Argentina, da Bolívia, do Chile, do Equador, do Peru, do Uruguai, da Colômbia e do Paraguai. Entre os brasileiros, 48% admitiu consumir álcool.

“A propaganda dirigida ao público jovem é mais intensa hoje e existem produtos desenvolvidos especialmente para essa faixa etária. Um exemplo são as sodas alcoólicas que, apesar de aparentemente fraquinhas, contêm teor alcoólico muito mais elevado do que a cerveja. Por outro lado – e outro motivo de grande preocupação –, alguns pais permitirem que os filhos bebam porque não vêem problema na bebida. A justificativa é que, afinal, todos os adolescentes bebem. Por isso, aceitam como normal o fato de os filhos começarem a consumir álcool cada vez mais cedo. Hoje, é comum os adolescentes se reunirem na casa de um deles para o “esquenta”, ou seja, para beber alguma coisa e chegar meio alcoolizados à festa. Se não for assim, parece que a festa não tem graça”, afirma Maurício Lima, coordenador do Ambulatório de Filhos de Mães-Adolescentes do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, em entrevista a Drauzio Varella.

“É importante destacar essa ideia de que, no Brasil, muitos pais acham normal os garotos de 14 anos beberem grandes volumes. Isso não acontece em países como os Estados Unidos, por exemplo, onde 21 anos é a idade mínima que a pessoa precisa ter para comprar bebida alcoólica, porque se chegou à conclusão de que o consumo precoce de álcool, além de aumentar o risco de acidentes, facilita o uso de outras drogas. E lá a lei não ficou só no papel. Seu cumprimento passou a ser rigorosamente acompanhado por fiscais que controlam a venda de bebida para menores. Nos últimos 20 anos, graças a essa fiscalização efetiva, caiu muito o número de acidentes relacionados com o “beber e dirigir” naquele país”, destaca Ronaldo Laranjeira, médico psiquiatra e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, em entrevista a Drauzio Varella.

Entrevista completa  acesse aqui

Audiência pública

No dia 9 de abril, o coordenador da Área Técnica de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas da Secretaria de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde, Roberto Tykanori Kinoshita, participou de uma audiência pública no Câmara dos Deputados, a pedido da Comissão de Seguridade Social e Família para discutir o consumo de álcool por adolescentes. Na ocasião, ele apontou que a melhor forma de reduzir a iniciação de adolescentes no consumo de álcool é interferir nos chamados “rituais de passagem” para a idade adulta.

Segundo Kinoshita, técnicas que interferem nesse processo, como discussão desses temas com grupos de jovens na escola e dentro das famílias, reduziram o consumo de álcool e outras substâncias em 30% nos países europeus. “Essas técnicas levam também a melhor desempenho escolar, menor índice de evasão, redução da violência nas escolas, e de gravidez na adolescência”, destacou.

Kinoshita afirmou que o Ministério da Saúde está discutindo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) estratégias para trazer essas técnicas para o Brasil. “Nossa expectativa é que no ano que vem já sejam amplamente divulgadas”, sustentou.

Escola e álcool

Há dois projetos em tramitação na Câmara dos Deputados que visam promover essa discussão na escola. Um determina a inserção de advertência nos livros didáticos distribuídos à rede pública de ensino para alertar crianças e adolescentes sobre os malefícios de bebidas alcoólicas, inclusive de cigarros e drogas. A medida está prevista no Projeto de Lei 4535/12. A argumentação da proposta se baseia em pesquisa realizada, em 2009, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com adolescentes do 9º ano do Ensino Fundamental. De acordo com a Pesquisa Nacional da Saúde do Escolar (Pense), 71,4% dos estudantes ouvidos já haviam experimentado álcool alguma vez. O projeto tramita em conjunto com o PL4468/12, que tem caráter conclusivo e será analisado pelas comissões de Educação e Cultura; de Seguridade Social e Família; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.

O segundo projeto – PL 4453/12 – obriga escolas públicas e privadas a ter atividades pedagógicas sobre prevenção ao consumo de drogas legais e ilegais. Segundo a proposta, os currículos de formação para professores também deverão incluir aulas sobre drogas com medidas de prevenção e intervenção. Além disso, o Ministério da Educação deverá divulgar, em seu portal na internet, práticas de prevenção de drogas adotadas em escolas estaduais e municipais e diretrizes do Conselho Nacional de Educação (CNE) e da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad). A proposta tramita em conjunto com o PL 434/99, que será analisado pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) e pelo Plenário da Câmara.

O poder da propaganda 

Restringir a propaganda de álcool é uma estratégia importante? Para Ilana Pinsky, integrante da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), sim. Em seu artigo A propaganda de bebidas alcoólicas no Brasil, ela afirma que estudos recentes mostram associações importantes entre a propaganda de bebidas alcoólicas e o consumo de álcool entre os jovens. Uma das pesquisas mais interessantes investigou por vários anos e comprovou o impacto que apreciar propagandas de cerveja aos 18 anos tinha sobre o consumo de álcool e o comportamento agressivo relacionado ao uso de álcool aos 21 anos. Outro estudo dirigindo-se à faixa etária dos 10-17 anos, identificou que muitosj jovens sentiram que as propagandas de álcool os encorajavam a beber, especialmente os meninos de 10-13 anos, que aceitavam as propagandas como realísticas. Acesse aqui o artigo na íntegra.

No Brasil, a propaganda de bebidas alcoólicas, no rádio e na TV, pode ser veiculada das 21 às 6 horas. No entanto, uma orientação do Conselho Nacional de Autoregulamentação publicitária, aprovada em 2008, indica aos anunciantes que tal propaganda deva ser veiculada somente entre 21h30 às 6 horas. Além disso estabelece uma série de pontos que deve ser atendida na produção do comercial, com o objetivo de proteger crianças e adolescentes e induzir o consumo responsável. Acesse aqui a resolução completa do Conar com relação às bebidas alcoólicas.

Curso virtual para os pais

Dividido em 19 módulos, o projeto Pais Conectados, realizado pela Universidade Federal de São Paulo, é uma forma de auxiliar os pais a evitar que crianças e adolescentes iniciem o uso e o abuso de substâncias psicoativas. Conheça o programa em: http://www.paisconectados.org/

Software corrige redações

Por John Markoff
Fonte: The New York Times – Folha de S. Paulo 

Imagine que, ao fazer um exame da faculdade, em vez de você receber sua nota do professor algumas semanas depois, você possa clicar no botão “Enviar” ao terminar o teste e receber de volta instantaneamente o resultado, tendo sua redação avaliada por um programa de computador. Agora imagine que esse sistema permita que você imediatamente refaça o exame para tentar melhorar a nota.

EdX, uma empresa sem fins lucrativos fundada pela Universidade Harvard e pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) para oferecer cursos on-line, lançou esse sistema e vai disponibilizar seu software automatizado de graça na internet para qualquer instituição que queira usá-lo.

O software utiliza inteligência artificial para avaliar as redações e respostas curtas por escrito, liberando os professores para outras tarefas. Embora os sistemas de notas automáticas para testes de múltipla escolha estejam disseminados, o uso da tecnologia para dar notas a redações ainda não recebeu apoio generalizado de educadores e tem muitos críticos.

Anant Agarwal, presidente da EdX, previu que o software de notas instantâneas seria uma ferramenta pedagógica útil, permitindo que os estudantes façam testes e escrevam redações várias vezes para melhorar a qualidade de suas respostas. “Os alunos nos dizem que estão aprendendo muito mais com o ‘feedback’ instantâneo”, disse o doutor Agarwal.

Mas os céticos dizem que o sistema automático não se compara a professores reais. Um antigo crítico, Les Perelman, chamou a atenção várias vezes ao criar redações absurdas que enganaram o software, fazendo-o dar notas altas.

“Minha primeira e maior objeção à pesquisa é que eles não fizeram um teste estatístico válido comparando o software com avaliadores humanos”, disse Perelman, diretor de redação aposentado e atual pesquisador no MIT. Ele faz parte de um grupo de educadores que circula uma petição contra o software de avaliação automática. O grupo já coletou quase 2.000 assinaturas.

“Vamos encarar a realidade das notas de testes automáticos”, diz uma parte da declaração do grupo. “Os computadores não sabem ler. Eles não podem medir os fatores essenciais da comunicação escrita eficaz: precisão, raciocínio, adequação de evidências, bom senso, posicionamento ético, argumentação convincente, organização significativa, clareza e veracidade, entre outros.”

A ferramenta de avaliação EdX exige que professores ou avaliadores humanos primeiro deem nota a cem redações. Então o sistema usa as técnicas de aprendizado mecânico para se treinar e ser capaz de dar notas a qualquer número de redações ou respostas quase instantaneamente.

O software vai atribuir uma nota dependendo do sistema de avaliação criado pelo professor e fornecerá um “feedback” geral, como dizer a um estudante se uma resposta tratava do assunto certo.

O doutor Agarwal acredita que o software se aproxima da capacidade de avaliação humana. “Há um longo caminho a percorrer no aprendizado mecânico, mas ele já é bom o suficiente e a vantagem é muito grande”, disse. “Descobrimos que a qualidade das notas é semelhante à variação encontrada de instrutor para instrutor.”

A EdX não é a primeira a usar tecnologia automatizada de avaliação, que data dos primeiros computadores “mainframe” dos anos 1960. Várias companhias oferecem programas comerciais para dar notas a respostas em testes escritos. Em alguns casos, o software é usado como um “segundo leitor” para verificar a confiabilidade dos avaliadores humanos.

A Universidade Stanford, na Califórnia, anunciou recentemente que vai trabalhar com a EdX para desenvolver um sistema educacional conjunto que incorporará a tecnologia de avaliação automática.

Duas start-ups fundadas recentemente por professores de Stanford para criar “cursos abertos de massa on-line” (Mooc, na sigla em inglês) também se dedicam a sistemas de avaliação automática.

No ano passado, a Fundação Hewlett patrocinou dois prêmios de US$ 100 mil destinados a aperfeiçoar um software que avalia testes de respostas curtas. Mark D. Shermis, professor da Universidade de Akron, em Ohio, supervisionou o concurso da Fundação Hewlett.Na opinião dele, a tecnologia -embora imperfeita- tem seu lugar no ambiente educacional.

Com classes cada vez maiores, é impossível para grande parte dos professores dar aos estudantes um “feedback” significativo sobre tarefas de redação, segundo Shermis.

Além disso, ele notou que os críticos da tecnologia tendem a vir das melhores universidades americanas. “Muitas vezes, eles vêm de instituições muito prestigiosas, onde o ‘feedback’ recebido pelos alunos é muito melhor do que uma máquina seria capaz de dar”, disse o doutor Shermis. “Falta a percepção do que acontece de fato no mundo real.”

Formas de mobilidade no espaço e-urbano

Por Maria Marta Avancini

De que maneira os dispositivos móveis e aplicativos afetam a mobilidade do saber e dos sujeitos no espaço digital? Este é o tema do segundo volume da série de livros digitais “e-urbano”, lançado no início de abril pelo Laboratório de Estudos Urbanos (Labeurb), ligado ao Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Nudecri) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O livro está disponível para consulta e download no site do Labeurb, clique aqui

No volume, intitulado “Formas de mobilidade do espaço e-urbano: sentido e materialidade digital”, pesquisadores e colaboradores do Labeurb analisam uma diversidade de temas e problemáticas relacionadas à mobilidade no espaço em rede digital, denominado e-urbano. O conceito busca compreender de que maneira o espaço urbano e o espaço digital se sobrepõem, se constituem e se significam mutuamente, explica a lingüista e organizadora da série, Cristiane Pereira Dias.

O eletrônico como discurso

Segundo Dias, o “e-” de eletrônico se tornou parte constituinte do espaço urbano. Pode-se perceber isso, por exemplo, por meio de uma série de palavras que fazem parte da urbanidade nos dias de hoje: e-book, e-learning, e-busines, e-gov, e-comércio, e-cidadania, e-compras circulam pelo social na evidência do sentido – ou seja, como se o eletrônico fosse um sentido natural para todos.

O conceito de e-urbano abarca as relações sociais, os sentidos, o funcionamento da ideologia, o político, as tensões, enfim, “o real dessa relação de mão dupla entre o eletrônico e urbano”, analisados a partir da perspectiva do discurso eletrônico, o qual leva em conta a discursividade, ou seja, o modo como os efeitos linguísticos materiais se inscrevem na história.

“Mais especificamente, interessa-nos a observação das duas vias: como o espaço digital se estrutura e funciona na relação com o urbano e, ao contrário, como o espaço urbano se significa na estrutura e no funcionamento do digital”, analisa Dias.

A mobilidade no mundo contemporâneo

Os nove artigos que compõem o segundo volume da série “e-urbano” abordam temas relacionados à mobilidade, discutindo, a partir de várias perspectivas, como nos movemos no espaço digital, como os sujeitos e saberes se constituem nele, a sociedade, a linguagem, os corpos e os sentidos.

Um dos enfoques são os dispositivos móveis e os aplicativos, que comunicam os percursos de usuários a sistemas de rastreamento e de regulagem digital (por exemplo, através do compartilhamento e de dados fornecidos pelos sujeitos em postagens ou ao acessar sites).  “O sujeito está cada vez mais conectado ao espaço digital (enciclopédias, redes sociais, blogs, sites, programas etc.) e seus percursos de saber são atravessados pelo e-urbano na formulação e na constituição de sentido”, analisa Dias, na apresentação do livro.

“Tudo isso produz uma mudança no que chamamos mobilidade, uma questão que está estritamente ligada à expansão e à urbanização do mundo, às formas de vida e às relações sociais”, conclui a lingüista.

A publicação faz parte do projeto e-Urbano, do Labeurb, coordenado por Dias, que o envolve toda a equipe de pesquisadores do laboratório, docentes da Unicamp e de outras instituições. O objetivo é discutir o espaço digital e o espaço urbano, buscando compreender como um influi e modela o outro.

O primeiro volume da série pode ser acessada aqui

A propaganda de bebidas alcoólicas no Brasil

Por Ilana Pinsky 
Psicóloga, pós-doutorada na Robert Wood Johnson Medical School (EUA) e integrante da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP

A propaganda de bebidas alcoólicas no Brasil é regulada pela lei n. 9,294, de 1996. Segundo essa lei, que também regulamenta os cigarros, entre outros produtos, bebida alcoólica é somente aquela com mais de 13 GL, ou seja, exclui cervejas e vinhos. A principal restrição que apresenta é a redução do horário de propaganda na televisão e no rádio permitindo propagandas de álcool entre 21:00 e 6:00 horas. No entanto, as chamadas, propagandas de uns poucos segundos, são permitidas a qualquer horário.A partir de 2000, uma nova lei (n.10.167), foi sancionada que praticamente proibiu qualquer propaganda de cigarro (exceto dentro dos locais de venda). Apesar dessa proibição não atingir as bebidas alcoólicas, o clima político parece ter se alterado um pouco, tanto que em janeiro de 2002 haviam mais de 50 projetos de lei propondo maiores restrições às propagandas de álcool.

No início de 2003, o governo pareceu mais consciente do que nunca sobre a importância de introduzir restrições mais profundas com a intenção de reduzir os problemas relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas. No que diz respeito às propagandas de álcool, o ministro da saúde propôs a inclusão das cervejas na restrição de horário de veiculação.

A cerveja possui papel de destaque entre as bebidas alcoólicas consumidas no Brasil. Dos cerca de U$ 106,000,000 gastos em propaganda de álcool na mídia em 2001, 80% foi em cerveja. Da mesma maneira, o consumo de cerveja representa 85% das bebidas alcoólicas consumidas. Apesar dessa quantidade ser muito menor se levarmos em conta apenas o álcool puro das bebidas alcoólicas, a cerveja certamente é uma bebida alcoólica e tem um papel importante em muitos dos problemas relacionados ao álcool, principalmente no que diz respeito aos jovens.

Os números de problemas associados ao álcool no Brasil não deixam dúvida quanto ao potencial devastador deste, principalmente junto aos jovens. Em acidentes com motoristas alcoolizados, episódios de violência relacionado ao álcool, intoxicação alcoólica, etc., os jovens têm uma participação importante e início cada vez mais precoce. As propagandas e marketing das bebidas alcoólicas no Brasil são parte integrante da criação de um clima normatizador, associando-as exclusivamente a momentos gloriosos, à sexualidade e a ser brasileiro, esquecendo-se dos problemas associados.

Restringir a propaganda de álcool é uma estratégia importante? Estudos recentes e utilizando metodologia avançada têm conseguido mostrar associações importantes entre a propaganda de bebidas alcoólicas e o consumo de álcool entre os jovens. Uma das pesquisas mais interessantes comprovou o impacto que apreciar propagandas de cerveja aos 18 anos tinha sobre o consumo de álcool e o comportamento agressivo relacionado ao uso de álcool aos 21 anos. Outro estudo dirigindo-se à faixa etária dos 10-17 anos, encontrou que gostar da propaganda e assistir a propagandas com maior freqüência associou-se com a expectativa de beber mais no futuro. Além disso, muitos dos jovens entrevistados sentiram que as propagandas de álcool os encorajavam a beber, especialmente os meninos de 10-13 anos, que aceitavam as propagandas como realísticas .

No entanto, qualquer pessoa que já tenha assistido a alguma propaganda de álcool na televisão brasileira, verifica a agressiva utilização da sexualidade nas propagandas, especialmente no caso da cerveja. Também é fácil verificar que os (muito) jovens são certamente alvos das propagandas, com temas evidentemente voltados a eles (ex: desenhos animados, festas rave, etc.). Além disso, as indústrias têm desenvolvido produtos voltados a essa faixa etária (os produtos “ice”, destilados misturados com refrigerantes ou sucos), e oferecido patrocínio a festas exclusivamente desse público-alvo (ex.: Skol Bits). Mas tão importante como as estratégias descritas acima, é a utilização do Brasil e de símbolos nacionais para a venda de álcool. Um exemplo bem recente e evidente dessa técnica ocorreu durante [a realização] Copa Mundial de Futebol, com a criação de uma tartaruga de desenho animado associada a uma marca de cerveja que foi denominada a “torcedora símbolo da seleção brasileira”. Algumas marcas de cachaça também têm se utilizado de características fortemente brasileiras, como o samba, para vender seus produtos.

Esse tipo de associação das bebidas alcoólicas com o que temos de mais característico no nosso país normatiza o álcool. Em especial, esse é mais um exemplo de como a propaganda do álcool mostra apenas uma face do uso do álcool, esquecendo ou associando à uma minoria de “pessoas problemáticas” sua importante contribuição para a morbidade, mortalidade e prejuízos sociais, inclusive no que se refere a criar um ambiente hostil e ridicularizador às mensagens e medidas de saúde pública.

Por que essa situação é importante? Um fator é a virtual inexistência de contrapartida da indústria do álcool no Brasil, no que se refere ao desenvolvimento de atividades sérias, coerentes e efetivas de prevenção ao abuso do álcool. Com exceção de uma atividade de pequenas proporções desenvolvida por uma das maiores indústrias de álcool no Brasil, a indústria como um todo não dá sinais de reconhecer sua responsabilidade social, nem para fins de relações públicas. Ou seja, a indústria das bebidas alcoólicas não assume e não se responsabiliza por qualquer tipo de problema relacionado ao álcool.

A indústria do álcool e da propaganda no Brasil não estão, nem de longe, desempenhando um papel responsável nessa situação. Medidas claras devem ser tomadas para lidar com esse importante problema de saúde pública.

Resolução do Conar – bebidas alcoólicas

BEBIDAS ALCOÓLICAS

Considera-se bebida alcoólica, para os efeitos da ética publicitária, aquela que como tal for classificada perante as normas e regulamentos oficiais a que se subordina o seu licenciamento. Este Código, no entanto, estabelece distinção entre três categorias de bebidas alcoólicas: as normalmente consumidas durante as refeições, por isso ditas de mesa (as Cervejas e os Vinhos, objetos do Anexo “P”); demais bebidas alcoólicas, sejam elas fermentadas, destiladas, retificadas ou obtidas por mistura (normalmente servidas em doses, cuja publicidade é disciplinada pelo Anexo “A”); e a categoria dos “ices”, “coolers”, “álcool pop”, “ready to drink”, “malternatives”, e produtos a eles assemelhados, em que a bebida alcoólica é apresentada em mistura com água, suco ou refrigerante, enquadrada em Anexo próprio (o Anexo “T”), e no Anexo “A”, quando couber.

As normas éticas que se seguem complementam as recomendações gerais deste Código e, obviamente, não excluem o atendimento às exigências contidas na legislação específica.

A publicidade submetida a este Anexo:

1. Regra geral: por tratar-se de bebida alcoólica — produto de consumo restrito e impróprio para determinados públicos e situações — deverá ser estruturada de maneira socialmente responsável, sem se afastar da finalidade precípua de difundir marca e características, vedados, por texto ou imagem, direta ou indiretamente, inclusive slogan, o apelo imperativo de consumo e a oferta exagerada de unidades do produto em qualquer peça de comunicação.

2. Princípio da proteção a crianças e adolescentes: não terá crianças e adolescentes como público-alvo. Diante deste princípio, os Anunciantes e suas Agências adotarão cuidados especiais na elaboração de suas estratégias mercadológicas e na estruturação de suas mensagens publicitárias. Assim:

  1. crianças e adolescentes não figurarão, de qualquer forma, em anúncios; qualquer pessoa que neles apareça deverá ser e parecer maior de 25 anos de idade;
  2. as mensagens serão exclusivamente destinadas a público adulto, não sendo justificável qualquer transigência em relação a este princípio. Assim, o conteúdo dos anúncios deixará claro tratar-se de produto de consumo impróprio para menores; não empregará linguagem, expressões, recursos gráficos e audiovisuais reconhecidamente pertencentes ao universo infanto-juvenil, tais como animais “humanizados”, bonecos ou animações que possam despertar a curiosidade ou a atenção de menores nem contribuir para que eles adotem valores morais ou hábitos incompatíveis com a menoridade;
  3. o planejamento de mídia levará em consideração este princípio, devendo, portanto, refletir as restrições e os cuidados técnica e eticamente adequados. Assim, o anúncio somente será inserido em programação, publicação ou web-site dirigidos predominantemente a maiores de idade. Diante de eventual dificuldade para aferição do público predominante, adotar-se-á programação que melhor atenda ao propósito de proteger crianças e adolescentes;
  4. os websites pertencentes a marcas de produtos que se enquadrarem na categoria aqui tratada deverão conter dispositivo de acesso seletivo, de modo a evitar a navegação por menores.

3. Princípio do consumo com responsabilidade social: a publicidade não deverá induzir, de qualquer forma, ao consumo exagerado ou irresponsável. Assim, diante deste princípio, nos anúncios de bebidas alcoólicas:

  1. eventuais apelos à sensualidade não constituirão o principal conteúdo da mensagem; modelos publicitários jamais serão tratados como objeto sexual;
  2. não conterão cena, ilustração, áudio ou vídeo que apresente ou sugira a ingestão do produto;
  3. não serão utilizadas imagens, linguagem ou argumentos que sugiram ser o consumo do produto sinal de maturidade ou que ele contribua para maior coragem pessoal, êxito profissional ou social, ou que proporcione ao consumidor maior poder de sedução;
  4. apoiados na imagem de pessoa famosa, adotar-se-ão as mesmas condicionantes dispostas no item 2, letras “a”, “b”, “c” e “d” do Anexo “Q” – Testemunhais, Atestados e Endossos;
  5. não serão empregados argumentos ou apresentadas situações que tornem o consumo do produto um desafio nem tampouco desvalorizem aqueles que não bebam; jamais se utilizará imagem ou texto que menospreze a moderação no consumo;
  6. não se admitirá que sejam elas recomendadas em razão do teor alcoólico ou de seus efeitos sobre os sentidos;
  7. referências específicas sobre a redução do teor alcoólico de um produto são aceitáveis, desde que não haja implicações ou conclusões sobre a segurança ou quantidade que possa ser consumida em razão de tal redução;
  8. não se associará positivamente o consumo do produto à condução de veículos;
  9. não se encorajará o consumo em situações impróprias, ilegais, perigosas ou socialmente condenáveis;
  10. não se associará o consumo do produto ao desempenho de qualquer atividade profissional;
  11. não se associará o produto a situação que sugira agressividade, uso de armas e alteração de equilíbrio emocional e
  12. não se utilizará uniforme de esporte olímpico como suporte à divulgação da marca.

4. Horários de veiculação: os horários de veiculação em Rádio e TV, inclusive por assinatura, submetem-se à seguinte disciplinação:

  1. quanto à programação regular ou de linha: comerciais, spots, inserts de vídeo, textos-foguete, caracterizações de patrocínio, vinhetas de passagem e mensagens de outra natureza, inclusive o merchandising ou publicidade indireta, publicidade virtual e as chamadas para os respectivos programas só serão veiculados no período compreendido entre 21h30 (vinte e uma horas e trinta minutos) e 6h (seis horas) (horário local);
  2. quanto à transmissão patrocinada de eventos alheios à programação normal ou rotineira: as respectivas chamadas e caracterizações de patrocínio limitar-se-ão à identificação da marca e/ou fabricante, slogan ou frase promocional, sem recomendação de consumo do produto. As chamadas assim configuradas serão admitidas em qualquer horário.

5. Cláusula de advertência: Todo anúncio, qualquer que seja o meio empregado para sua veiculação, conterá “cláusula de advertência” a ser adotada em resolução específica do Conselho Superior do CONAR, a qual refletirá a responsabilidade social da publicidade e a consideração de Anunciantes, Agências de Publicidade e Veículos de Comunicação para com o público em geral. Diante de tais compromissos e da necessidade de conferir-lhes plena eficácia, a resolução levará em conta as peculiaridades de cada meio de comunicação e indicará, quanto a cada um deles, dizeres, formato, tempo e espaço de veiculação da cláusula. Integrada ao anúncio, a “cláusula de advertência” não invadirá o conteúdo editorial do Veículo; será comunicada com correção, de maneira ostensiva e enunciada de forma legível e destacada. E mais:

  1. em Rádio, deverá ser inserida como encerramento da mensagem publicitária;
  2. em TV, inclusive por assinatura e em Cinema, deverá ser inserida em áudio e vídeo como encerramento da mensagem publicitária. A mesma regra aplicar-se-á às mensagens publicitárias veiculadas em teatros, casas de espetáculo e congêneres;
  3. em Jornais, Revistas e qualquer outro meio impresso; em painéis e cartazes e nas peças publicitárias pela internet, deverá ser escrita na forma adotada em resolução;
  4. nos vídeos veiculados na internet e na telefonia, deverá observar as mesmas prescrições adotadas para o meio TV;
  5. nas embalagens e nos rótulos, deverá reiterar que a venda e o consumo do produto são indicados apenas para maiores de 18 anos.

6. Mídia exterior e congêneres: por alcançarem todas as faixas etárias, sem possibilidade técnica de segmentação, as mensagens veiculadas em Mídia Exterior e congêneres, sejam “outdoors”, “indoors” em locais de grande circulação, telas e painéis eletrônicos, “back e front lights”, painéis em empenas de edificações, “busdoors”, envelopamentos de veículos de transporte coletivo, peças publicitárias de qualquer natureza no interior de veículos de transporte, veículos empregados na distribuição do produto; peças de mobiliário urbano e assemelhados etc., quaisquer que sejam os meios de comunicação e o suporte empregados, limitar-se-ão à exibição do produto, sua marca e/ou slogan, sem apelo de consumo, mantida a necessidade de inclusão da “cláusula de advertência”.

7. Exceções: estarão desobrigados da inserção de “cláusula de advertência” os formatos abaixo especificados que não contiverem apelo de consumo do produto:

  1. a publicidade estática em estádios, sambódromos, ginásios e outras arenas desportivas, desde que apenas identifique o produto, sua marca ou slogan;
  2. a simples expressão da marca, seu slogan ou a exposição do produto que se utiliza de veículos de competição como suporte;
  3. as “chamadas” para programação patrocinada em rádio e TV, inclusive por assinatura, bem como as caracterizações de patrocínio desses programas;
  4. os textos-foguete, vinhetas de passagem e assemelhados.

8. Comércio: sempre que mencionar produto cuja publicidade é regida por este Anexo, o anúncio assinado por atacadista, importador, distribuidor, estabelecimento varejista, bar, restaurante e assemelhado estará sujeito às normas aqui previstas, especialmente as contidas no item 5.

9. Salas de espetáculos: a veiculação em cinemas, teatros e salões levará em consideração o disposto no item 2, letra “c”.

10. Ponto de venda: a publicidade em pontos-de-venda deverá ser direcionada a público adulto, contendo advertência de que a este é destinado o produto. As mensagens inseridas nos equipamentos de serviço, assim compreendidos as mesas, cadeiras, refrigeradores, luminosos etc., não poderão conter apelo de consumo e, por essa razão, ficam dispensadas da “cláusula de advertência”.

11. Consumo responsável: este Código encoraja a realização de campanhas publicitárias e iniciativas destinadas a reforçar a moderação no consumo, a proibição da venda e da oferta de bebidas alcoólicas para menores, e a direção responsável de veículos.

12. Interpretação: em razão da natureza do produto, o CONAR, os Anunciantes, as Agências de Publicidade, as Produtoras de filmes publicitários e os Veículos de comunicação adotarão a interpretação mais restritiva para as normas dispostas neste Anexo.

Aprovado pelo Conselho Superior do CONAR em 18/02/08

Games X Cultura

Por Roger Tavares,
Pesquisador e professor universitário de Arte Tecnologia
Mantenedor do website Gamecultura, o game como forma de cultura

A atual discussão se jogos são cultura ou não se situa entre a comédia e a tragédia. De um lado a Ministra da Cultura do Brasil [Marta Suplicy] declara que alguns meios, como jogos e TV a cabo, não são cultura, e que revistas de quinta categoria são. Do outro lado, milhares de jogadores se sentem menosprezados porque consomem avidamente um produto que eles consideram cultural. No centro, instituições e associações querendo morder uma fatia dos 11 bilhões que devem ser injetados nesse mercado de consumo cultural com o Vale-Cultura. Mas, e a Cultura? Vai bem, obrigado? É possível pensar na Cultura sem esse mi-mi-mi todo, e procurar as razões pela quais nossa atual Ministra acha que jogos não pertencem a esse setor? Vamos, pelo menos, tentar?

Em dezembro de 2012, a presidente Dilma Rousseff sancionou o projeto do vale-cultura. A lei prevê que trabalhadores contratados em regime CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) que recebem até cinco salários mínimos (R$ 3.390 mil) vão poder receber um vale mensal de R$ 50 para gastar em eventos ou produtos culturais. O projeto, cujo texto da regulamentação está na Casa Civil, deverá começar no segundo semestre de 2013. A problemática entre games e cultura surgiu depois que a ministra, durante uma audiência na Assembleia Legislativa de São Paulo, no dia 19 de fevereiro deste ano, foi questionada pelo pesquisador e game designer Francisco Tupy sobre a inclusão de games no programa. “Eu não acho que jogos digitais sejam cultura”, respondeu a ministra.

A função deste texto não é então discutir se os jogos são cultura ou não, ainda mais porque defendo esse ponto de vista há 15 anos, em minhas aulas, meu mestrado e doutorado, e há oito anos em meu website, voltado exclusivamente para este assunto: jogos como uma das formas da cultura. Eu não tenho a menor dúvida que os jogos sejam não apenas cultura, mas uma das manifestações mais impressionantes da atual cultura humana, assim como foram séculos atrás a música, o teatro, a literatura, o cinema e tantas outras. Por isso eu escolhi trabalhar com jogos digitais, e não me arrependo mesmo em debates como este.A função desse texto é tentar entender porque uma pessoa capaz como um Ministro da Cultura não considera as formas contemporâneas de cultura dignas de investimento.

Iniciando pela figura pública da atual Ministra que vem sendo atacada como culpada, insensível e preconceituosa, entre outros. O seu currículo é de uma pessoa muito experiente: ex-ministra do Turismo, ex-prefeita de São Paulo, ex-apresentadora de televisão e ex-tantas coisas mais, incluindo, acredito, ex-sexóloga. Com esse currículo todo, não é possível desconhecer que TV a cabo ou jogos digitais são poderosos, e contemporâneos, disseminadores de cultura.

Mas os problemas do Vale-Cultura são tantos, que o que é considerado cultura ou não chega a ser irrelevante. Eu vou apresentar aqui apenas cinco deles, que considero os mais importantes neste momento do debate.

A questão do suporte e os tipos de cultura

I. Em primeiro lugar, nem livros, nem cinema, nem música, nada disso é Cultura. Esses são apenas alguns dos meios que podem ser usados, ou não, para se transmitir Cultura. Jogos digitais, óbvio, fazem parte desses meios. Não é possível separar ou qualificar a Cultura humana através dos suportes que as carregam. Eles são apenas isso: suportes. Cultura é o que sobra depois da sua experiência com esses suportes. É aquilo que muda alguma coisa em você. Se depois dessa experiência você se encontra do mesmo jeito, então foi um mero passatempo, você passou momentos bacanas, mas não conquistou cultura alguma.

Esse conceito de suporte, dele não ser a cultura em si, parece banal, mas é um grande problema, e um dos que está acontecendo neste momento, quando alguém, no caso um alguém que pode mudar o destino de uma nação, diz que livros são cultura e jogos não são. O suporte livros abrange desde as obras fundadoras do pensamento humano, até livros de contos eróticos auto elogiosos. O suporte jogo, ou especificamente o jogo digital ou game, vai de joguinhos bobos de explodir bolinhas (eu adoro!!!) até obras que mudaram a maneira do ser humano perceber o mundo, a Cultura e a si mesmo através dessa linguagem e tecnologia, como “Zelda”, “Myst” ou “Pac-Man”. Reforço o termo linguagem, pois embora os detratores dos videogames consigam enxergar apenas a sua tecnologia, esta é passageira, e o que sobra são as linguagens que ele consolida, como o Chiptunes, a Pixelart, e as narrativas não diegéticas. Em resumo: não é possível comparar, categorizar, ou justificar obras pelo seu suporte. Da mesma maneira que existem muitos jogos ruins, existem muitos livros, óperas e filmes igualmente ruins, ou piores.

II. É preciso também entender as diferenças entre Alta Cultura e Cultura Popular. A Alta Cultura representa os valores culturais considerados universais, inovadores, à frente de sua época, como as grandes sinfonias, o teatro de Shakespeare ou as tramas de Dostoiévski. Ninguém vai discordar do valor universal que essas obras têm para com a Cultura. Na verdade, o senso comum, e por vezes o elitismo superficial, costuma acreditar que apenas essas obras possam ser chamadas de “cultura”, e que por isso, a tal cultura normalmente é difícil e chata. Mas temos também o lado da Cultura Popular, como o artesanato, as manifestações folclóricas, músicas e comidas regionais que não tem esse valor universalizante, mas representam povos e comunidades em suas singularidades.

O problema começa a surgir quando adentramos o meio pantanoso da Cultura de Massas, aonde se encaixam os jogos digitais, séries televisivas, cinema hollywoodiano, música pop e outras manifestações igualmente importantes.

Os argumentos contra essa cultura são vários. Alguns as acusam de darem demasiada importância às emoções e sentimentos, assim como aos apelos de marketing para as massas, em detrimento da qualidade e da inovação. Um exemplo clássico são as minisséries televisivas baseadas em romances históricos, nas quais todo o conteúdo social e histórico vira um vago pano de fundo para as relações de amor e intriga entre as personagens. A partir desse ponto de vista, esta não poderia ser considerada Cultura porque em seu objetivo não se encontra o ser humano em si, e sim os lucros a partir de targets de mercado. Nesse escopo encontram-se muitos jogos e filmes, especialmente os “mais vendidos”, a maioria esmagadora construída em cima de franquias e propriedades intelectuais bem conhecidas. Mais do mesmo. Por outro lado, os argumentos a favor da Cultura de Massas, apontam a sua importância para a classe média, e que a Alta Cultura se estabelece como uma superioridade pomposa, e que nada garante que as pessoas que consomem esses produtos sejam mais ou menos cultas do que as que consomem os produtos representantes de outras culturas.

Aparentemente a senhora Ministra é uma dessas milhares de pessoas que não acredita que a Cultura de Massas possa ser considerada como Cultura, e no caso específico dos jogos, eu acredito que a culpa não seja dela. Mas de quem seria, então?

Jogos digitais não são bananas, laranjas, nem mesmo melancias

Independentemente do que se acha, ou deixa-se de achar dessa cultura intermediária, é certo que ela existe, e que é consumida por uma parcela considerável da classe média. O difícil nesse caso, e aí entra o terceiro problema dessa discussão do Vale-Cultura e os Games, que é confundir os produtos dessa cultura intermediária com produtos de entretenimento, como disse, com toda razão, a nossa ministra: “Isso é entretenimento”. E nesse ponto a ministra tem razão, e muita razão.

III. A embrionária indústria brasileira de jogos digitais, também quer morder um pedaço desse bolo de R$ 11 bilhões. O trabalhador pega o seu cartãozinho, vai na loja e pega um belo jogo de R$ 50 (sic!), ou talvez complete o valor com mais uns R$ 150 (?!?!?!) em algo que vai lhe proporcionar “horas de diversão”. Assim, na hora de alardear um jogo, a indústria diz que ele traz “horas de diversão”, “gráficos deslumbrantes”, e na hora de morder uma fatia do bolo do governo ele de repente vira Cultura? Se as pessoas ainda não sabem que jogos são Cultura, e “pessoas” envolve a senhora Ministra, então essa indústria tem uma parcela importante dessa culpa.

Ser divertido, ou ter uma certa quantidade de entretenimento, não exclui o potencial cultural de um produto desses. Potencial porque eventualmente o jogador pode parar na superfície divertida, e uma pessoa já conformada com essa superfície, não passa para as camadas de conteúdo diferenciadas, como inovação, tradição, qualidade, criatividade, crítica, conteúdo, etc. Na Cultura Popular pode-se pensar nas danças circulares, na Alta Cultura temos as óperas e o teatro, e na Cultura de Massas, filmes como os de Woody Allen ou o primeiro álbum do Led Zepellin, que mudou toda uma geração de roqueiros. Mas também, nada garante que os consumidores dessas culturas específicas também consigam acessar essas camadas de conteúdo. Para a Cultura se completar, não basta a fruição desta, deve haver também um certo esforço intelectual, o qual a internet tem facilitado bastante.

Outros meios são quase sempre divulgado como cultura, “Disco é Cultura” está escrito em alguns LPs aqui em casa. Os jogos, por sua vez, são divulgados como diversão, e de repente, eles começam a serem alardeados como cultura. Nesse caso, eu entendo perfeitamente a opinião da senhora Ministra, por mais preconceituosa que eu a considere. Ou seja: não adianta dizer que jogos “são cultura”, se a própria indústria que os faz não os mostra como bens culturais. Se os próprios jogadores que os consomem buscam esse entretenimento. Se quisermos que os jogos sejam entendidos como cultura, temos de falar e agir dessa maneira o ano todo, e não apenas em meio a editais, captação de recursos ou planos de governo. Os jogadores, por sua vez, têm de exigir mais conteúdo crítico em seus jogos, pois a indústria atende demandas deles. Eis o ovo e a galinha desse debate.

IV. Isso nos leva a um quarto ponto que diz respeito à pasta da Cultura. Não vou entrar aqui no mérito de nossos políticos, pois afinal fomos nós que os elegemos, e cada povo tem os representantes que merece. Mas existe um problema particular nessa pasta, que a diferencia um pouco das outras: a sensibilidade.

A pasta da Cultura não pode ser tratada apenas objetivamente, como uma quitanda que compra e vende bananas e laranjas. Cultura faz parte da formação de um povo, de uma nação, e em última instância, da humanidade. Ela não é comprada através de bens de consumo como televisão, livros ou CDs, que como já disse são apenas suportes. Cultura deve ser conquistada, e a ferramenta para isso é a Educação. Se o trabalhador quiser usar seus R$ 50 para comprar “revistas porcaria”, como disse a senhora Ministra, esse não é um problema dele, e sim um problema do país todo. Se alguém come laranja, banana ou melancia, aí sim o problema é dele. Mas se esse cidadão faz crescer uma indústria de revistas de quinta categoria, aí o problema me atinge também. Cultura não é um problema meramente administrativo, e nem pode ser solucionado com R$ 50, R$ 100, nem mil reais por mês. E resoluções como essas não podem ser tomadas por uma pessoa só, que aparentemente trata produtos culturais como um produto qualquer. É necessária uma comissão, pesquisas e estudos sobre o caso. Não apenas uma boa intenção, como a de movimentar um mercado.

V. Um quinto e último ponto, por agora, que esse sim eu considero o mais importante dessa questão toda é a criação do próprio Vale-Cultura. Eu, particularmente, não gosto dessa política de distribuição de dinheiro porque eu não acredito que essas políticas resolvam problema algum. O problema da Cultura, assim como a Educação, a Saúde, e outros, deve ser tratado na base, e não na ponta. Esses R$ 11 bilhões poderiam ser mais bem utilizados, digo mais uma vez, na minha humilde opinião, em outros programas de incentivo à cultura, na criação e divulgação de obras e espetáculos culturais, na criação de cargos apropriados, capacitação e condições melhores para agentes culturais, na criação de editais que prevejam atividades gratuitas, regulamentações diversas incluindo as open source e copyleft, ou até mesmo na renúncia fiscal de alguns impostos que incidam indiretamente sobre esses produtos, como importação de áudio digital, por exemplo. Existem tantas outras opções para utilizar esse dinheiro todo, que pessoas com muito mais propriedade do que eu podem sugerir, que eu fico realmente triste quando vejo um problema desses ser “resolvido” na forma de um mero cartão de alimentação. Quando se olha para o quadro da cultura no Brasil, e se “resolve” ele dando-se R$ 50 para cada trabalhador, recordo-me daquela piada infame na qual um criador de porcos cansado de levar multas da fiscalização sanitária, “resolve” o seu problema transferindo a sua responsabilidade para cada porco, ao dar-lhes vales refeições: “Agora cada porco almoça aonde quiser”, diz aliviado o pobre suinocultor, sem porco algum para cuidar.

Entretanto, embora eu não acredite no Vale-Cultura, mas como me parece ser um caminho sem volta, ele deve ser aberto a tudo que o beneficiado considera como cultura. Se cultura em sua base é o produto de criação do homem sobre a natureza, então livros, vídeos, fotos, calendários, jornais, gravuras, TV aberta e fechada, esculturas, pinturas, internet, cinema, ópera, e também os jogos e demais representantes da cultura digital não podem ficar de fora. No panorama complexo da Cultura Contemporânea, da pós-modernidade, das mídias digitais, das micronarrativas, da modernidade líquida, qualquer exclusão é pura censura.

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Artigo reproduzido do UOL jogos

Concurso vai selecionar melhores vídeos sobre uso da internet

O que é conectar-se com respeito?  Há liberdade de expressão na internet? O que você acha das formas de controle da internet na escola? A web muda a visão que as pessoas têm de sua cidadania? A Safernet Brasil está com inscrições abertas – até o dia 30 de abril – para o concurso Dia da Internet Segura 2013. Jovens dos 13 aos 21 anos estão convidados a produzir um vídeo de até dois minutos que dê conta de um dos seguintes temas: direitos e deveres online: conecte-se com respeito; e cidadania na internet: o que temos e o que queremos.

O concurso está dividido em duas categorias: adolescentes (dos 13 aos 17 anos) e jovens (dos 18 aos 21 anos). O primeiro lugar em cada categoria ganhará um tablet. Os 100 primeiros inscritos no concurso que preencherem o cadastro serão premiados com o serviço “protect total”, software de segurança oferecido pela GVT a clientes que utilizam internet banda larga, composto por Antivírus, Anti-Spyware, Firewall e Controle de conteúdo, com validade de três meses gratuitos.

Só serão aceitas inscrições individuais. Todos os vídeos enviados devem conter histórias inéditas, não podem ser cópias de outros vídeos. O participante poderá contar uma história real vivida pelo mesmo ou por outra pessoa, respeitando os direitos de uso da imagem e som de terceiros quando houver.

Mais informações no edital do concurso 

Sem internet

Por Marcus Tavares

Depois de terem lido, na Folha de S. Paulo, a experiência de um escritor que ficou sete dias sem acessar a internet, um grupo de alunos do Colégio José Leite Lopes – NAVE, no Rio de Janeiro, resolveu fazer o mesmo. A ideia do quarteto formado por Felipe Vieira, Lívia Pimentel, Thaynara Fernandes e Ágatha Rodrigues entusiasmou também um dos professores da escola: Daniel Gaivota, de Filosofia. “A experiência não foi nada fácil”, recordam os estudantes que têm, na escola, computadores com acesso à internet nas salas laboratório e na chamada área de convivência, onde podem navegar à vontade. A jornada começou no domingo, dia 31 de março.

Na Revista Sem Nome, uma publicação digital de notícias também criada e produzida pelos alunos, os participantes relataram o processo de abstinência. No meio do caminho, alguns desistiram.

Outros tentaram – e conseguiram – desviar o desejo para outras atividades e ações.  A proposta do grupo era chamar a atenção, de cada um dos participantes e de seus amigos, de como a internet é essencial na vida das pessoas e como elas estão cada vez mais dependentes.

“Dias antes da experiência começar, eu já estava a ponto de me jogar precipício abaixo. Tenho toda uma história de amor com o meu computador e principalmente quando ele está conectado à internet. (…) Resolvi me organizar pra não entrar em desespero em pleno domingo, um dia antes de a experiência começar (o que não significa que eu consegui me privar disso). Já era esperado que eu tivesse uma crise existencial no domingo, que se estendeu até a segunda e que eu procurei aliviar com a comida. Não adiantou muita coisa, mas me acalmou muitas vezes. E sim, eu exagerei na crise existencial, mas juro que senti algo muito próximo disso”, Ágatha Rodrigues.

“Estou indo para o colégio com uma aula meio planejada, mas sei que de última hora, não vou poder acessar instantaneamente alguma informação de que talvez precise. Por isso desenterrei os dicionários de filosofia que já estavam mofando.”, professor Daniel Gaivota..

“Todos receberam um caderno de campo onde, a princípio, fariam seus registros a cada três horas, mas ficou a critério de cada um fazer num intervalo maior ou menor. Boa parte desta trajetória postamos na nossa revista”, destacou o grupo, cujos alunos fazem parte do curso de Narrativas Digitais do NAVE.

Leia alguns relatos da semana sem web:
– Segundo dia
– Terceiro dia
– Quarto dia
– Quinto dia

E o que ficou desta experiência? Com a palavra os participantes:

“Quando fui convidada para participar, tenho que confessar que pensei bastante antes de aceitar. Foi uma decisão meio complicada. Pode parecer bobeira falando assim, mas a internet hoje em dia está tão penetrada na vida da humanidade que quando surge a proposta de ficar apenas uma semana sem a presença dela a gente para e pensa. É como se fosse uma das decisões mais difíceis de tomar. Para falar a verdade, não me arrependo de ter aceitado e conseguido ficar até o fim da experiência. Pude perceber e notar o quanto somos dependentes da tecnologia. Antigamente, as pessoas tinham livros de pesquisa em casa e aqueles cadernos enormes de telefone onde você encontrava qualquer número que quisesse. As pessoas interagiam mais umas com as outras e, quando queriam se falar, usavam telefone e não Facebook. Claro que com a chegada da internet muitas coisas ficaram mais acessíveis e fáceis, só que as pessoas acabam meio que se viciando naquilo de ficar na frente do computador fazendo suas coisas. Quando fiquei sem internet foi bastante complicado arrumar alguma coisa para fazer. Eu sempre pensava em algo divertido, mas quando eu ia ver… tudo precisava de internet. Pensei em ouvir música, mas precisaria do youtube. E quando tinha trabalho do colégio para fazer tudo ficava mais ainda complicado. Precisava pesquisar o conteúdo e acabava não tendo como fazer. A única ferramenta que eu tinha era o Google e não podia usá-lo. Achei um absurdo não ter um livro de pesquisa em casa. Quando eu queria o telefone de alguma loja ou restaurante, normalmente eu pegava na internet, não na lista telefônica. Depois dessa experiência podemos dizer que muita coisa mudou em mim. Consigo me ver um pouco menos dependente da internet, embora ela seja totalmente indispensável. Claro que ainda necessito dela para a maioria das coisas, mas também quando não a tenho, muitas vezes, consigo dar um jeito. Eu super recomendo a todos essa experiência. Com certeza vai ser produtiva. Tem muitas coisas para se fazer sem a internet. Eu gastei o meu tempo lendo, desenhando, cuidando da casa, pintando e saindo muito com os amigos. São coisas que ajudam bastante na hora da distração. Por mim, faria a experiência de novo, porque, de fato, foi muito bom” – Lívia Pimentel, 17 anos.

“Quando me prontifiquei a participar da experiência imaginei que seria fácil, achava que eu não teria problemas com essa privação. Mas durante os dias, para falar a verdade no primeiro dia, bateu aquela vontade de largar tudo e abrir o navegador. Afinal ficar numa sala cheia de computadores com acesso livre à internet, onde só eu não podia usufruir, foi um problema. Fiquei muito deslocada. Aí vi que eu estava absolutamente desconectada. Com o tempo, fui substituindo a viciante internet por outras ferramentas que foram desprezadas com o crescimento da web, como o dicionário, que foi uma grande vítima esquecida na prateleira de casa. Senti-me em retrocesso, mas de forma positiva e proveitosa, pois se eu usasse a web para pesquisa, eu iria desviar a atenção para outros assuntos, desfocando a principal razão do seu uso. Sem a internet, me senti mais focada. Pude terminar trabalhos em pouco tempo, estava mais produtiva. Porém, havia algo que eu não pude administrar bem: o contato com os amigos/conhecidos que só se comunicavam comigo via rede social ou e-mail. Isso foi uma das coisas mais chatas. Ainda mais quando eu me sentia perdida em assuntos gerados nesses locais, onde eu não podia “estar”. Ouvir algo como “você viu aquele link que te mandei?”, “você viu o tal vídeo muito engraçado, né?”. Não, eu não podia responder, eu não tinha visto. Comecei a perceber/vivenciar como meus pais se sentem às vezes numa conversa entre minha irmã e eu. Não vou negar que quando chegou o último dia, fiquei contando as horas para me conectar. Quando terminou, fui logo verificando o e-mail, abrindo a conta na rede social para recuperar toda informação e acontecimentos perdidos. A ansiedade que antes eu sentia não tinha valor algum. Comecei a mudar a concepção do uso que antes eu fazia da rede. Acho que, agora, posso usar melhor o tempo em coisas mais produtivas do que antes, quando eu perdia tempo atualizando status e mudando fotos” – Thaynara Fernandes, 17 anos.

“O período de preparação foi bem fácil e legal. Foi aquele momento em que a gente acha que vai ser muito bom e fácil. Mas quando começou fiquei desnorteado. Admito: me tornei muito dependente da internet, não consigo mais ficar um dia sem. A experiência em si é algo que eu acho que todo mundo deve fazer, pelo menos uma vez. Eu não consegui dessa vez, mas vou ver se tento de novo qualquer dia” – Felipe Vieira, 17 anos.