Cineop

Foi realizada, entre os dias 13 e 17 de junho, a 8ª Mostra de Cinema de Ouro Preto (Cineop), que neste ano abordou os seguintes temas: no eixo histórico, o cinema brasileiro entre o golpe de 1964 e o AI 5; no eixo da preservação, o lugar do audiovisual em tempos de compartilhamento; e no eixo da educação, as experiências e estudos ligados à produção audiovisual com cineastas, professores e estudantes. “A Cineop se dedica a levantar questões e reflexões sobre o Brasil cinematográfico que deve ser preservado. Não importam os embates sociopolíticos, as determinações discursivas, as representações nos meios midiáticos”, discursou Raquel Hallak, uma das coordenadoras do evento. Mais de 55 profissionais do audiovisual, da educação e da área da preservação estiveram presentes. A revistapontocom esteve presente ao evento e traz, abaixo, algumas notícias e reflexões para os leitores.

Confira:

Carta de Ouro Preto
Integrantes da Rede Kino divulgam documento que aponta para a urgência de políticas públicas de produção audiovisual para crianças e adolescentes

MinC retoma editais voltados para a infância
Diretor da Diretoria de Gestão de Políticas Audiovisuais, da Secretaria de Audiovisual do Ministério da Cultura (MinC), João Batista da Silva, anuncia intenções da pasta.

“A escola é ineficiente, mas imprescindível”
Secretário da Secretaria de Articulação com os Sistemas de Ensino do Ministério da Educação (MEC), Binho Marques, analisa o papel da escola na atualidade. 

O lugar do cinema com o advento da ‘multidão equipada’
Professor Cézar Migliorin, da Universidade Federal Fluminense (UFF), reflete sobre a produção em série de imagens audiovisuais pelos cidadãos.

Estado, audiovisual e educação
Leia o texto apresentado pela professora Rosália Duarte, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

“Se não está na internet, não existe para o jovem”
Especialista e consultor em arquivística audiovisual, o australiano Ray Edmondson afirma que o propósito da preservação é o acesso.

Do sítio para a cidade

Por Artur Melo, 10 anos
Aluno do 5º ano do Ensino Fundamental, da Escola Sá Pereira
É a Emília quem vai contar…

Essas férias foram diferentes, ao invés do Pedrinho vir para o sítio nós fomos até a cidade. Para não esquecer nadica de nada e para ninguém contar de outro jeito, resolvi acrescentar essa aventura em minhas memórias.

Faltava uma semana para as férias então eu, é claro, tive uma grandessíssima ideia: ligar para o Pedrinho, desta vez, a gente é que iria para a cidade. Todos concordaram, só que, detalhezinho, eu não contei para a Tia Nastácia nem para a Dona Benta. A estraga-prazeres da Narizinho foi logo perguntando:

– Você contou para a vovó?

– Claro. Como sou super esperta, falei que tinha contado tudo tim tim por tim tim, mas que a vovó não queria saber de despedidas. Narizinho caiu na mentira e acreditou. Aquela boba acredita mesmo em tudo o que eu falo.

Então, quando passou a semana, nos reunimos bem cedinho no quintal: eu, Saci,Visconde e Narizinho, acertamos os últimos detalhes para o encontro com o Pedrinho e jogamos o pó de pirlimpimpim. Rapidamente, lá estávamos na cidade, em frente à casa de Pedrinho.

Foi aquela animação o encontro e logo perguntei ao Pedrinho onde nós iríamos passear. Pedi para ir ao centro da Cidade. Adorei aquele lugar, tinha todo o tipo de coisa no Saara, minha canastrinha ficaria lotada de novidades e bugigangas… Mas os chatos da Narizinho e do Visconde ficaram me segurando para me impedir de entrar nas lojas. Visconde só queria saber de conhecer a Biblioteca Nacional, o Teatro Municipal, já a Narizinho só pensava em conhecer um Shopping, comprar roupas para ficar igual as meninas da cidade. E o saci estava empenhado em perturbar a vida dos outros que passavam por perto. Roubou charuto de um homem que estava num restaurante, fez um vento  levantar a saia de uma mulherona, saiu correndo com o apito do guarda municipal, desarmou a barraca do camelô. E eu? Tive que me conformar com duas bonequinhas de plástico e umas bombinhas de São João…

O tampo foi passando e a saudade do sitio começou a apertar, então Pedrinho teve a ideia de ir ao Jardim Zoológico, na Quinta da Boa Vista, lá poderíamos ver vários tipos de bichos e muita natureza, assim faríamos de conta que estávamos no Sítio. Chegando na Quinta, Pedrinho viu um menino andando de skate e foi logo querendo brincar. Ele se apresentou, era Artur o seu nome. Ficaram amigos, trocaram seus brinquedos favoritos para brincar, o skate e o estilingue. Enquanto isso, eu e Narizinho fomos espiar uma casa linda e muito grande. Disseram que era a casa da Família de um rei Fujão, que veio para o Brasil correndo do Napoleão.

Ah, como eu queria voltar no tempo. Sou uma Marquesa!! Não era justo que conhecesse a Quinta só agora que essa família todinha já bateu as botas. O Visconde ficou radiante quando soube que era um museu, o danado foi correndo, nem esperou a gente. Ah, uma máquina do tempo resolveria esse problema… De repente, um barulho enorme veio lá do Zoológico e todos corremos pra lá. Era o saci, fazendo traquinagem, resolveu dar nó justo na tromba do elefante, que lhe deu uma patada e ele caiu desmaiado.

A confusão estava armada, precisávamos resolver o problema antes que os guardas chegassem. Para atrasar a chegada dos guardas, abri minha canastrinha e comecei a jogar umas bombinhas, assim eles se distraiam, Enquanto isso, Pedrinho e Artur resolviam o problema da tromba. Primeiro tentaram escalar o elefante e desatar o nó, mas o bicho começou a se agitar e os dois foram longe. Eles não desistiram, ficaram pensando, pensando… até que surgiu uma ideia:

– É simples, pegamos um bocado de amendoim e mostramos para o elefante. Aposto que ele ficará tão animado, que sacudirá a tromba até conseguir desatar o nó. Disse o Artur.

Deu certo!! Logo, logo, o elefante mandou pra dentro aquele monte de amendoim e até fez uma festinha para os dois. Saci, aquele cara de pau, acordou, como se nada tivesse acontecido.

No final desta confusão, e com o cheirinho do amendoim, estávamos com uma fome de leão, e bastante cansados. Foi quando o Artur propôs que fôssemos a sua casa, que era bem pertinho, fazer um lanche. Chegamos e tivemos uma baita surpresa: Sua avó, que parece uma Tia Nastácia na cozinha, estava fazendo bolinhos de chuva! Comemos, rimos, brincamos um pouco, nos divertimos… mas… esses bolinhos de chuva aumentaram ainda mais a nossa saudade do Sítio, a esta hora, a vovó já devia estar muito preocupada. Resolvemos, então, nos despedir e com um pouco do pó de pirlimpimpim voltar para o Sítio.

Acabo aqui esta memória e não acreditem se o Visconde se meter a besta de contar tudo de outro jeito!

O Brasil nas ruas

O Brasil nas ruas é o tema do momento. As passeatas e manifestações em todo o país têm ocupado cada vez mais o espaço da mídia, bem como o dia a dia de todos os cidadãos. Algumas cenas já entraram para a história. Há quem diga que o país já não é o mesmo. Nas redes sociais, há inúmeras avaliações e reflexões. A opinião pública vai sendo construída e desconstruída a cada novo post, vídeo e foto. O debate já chegou também às escolas e, inclusive, às rodas de conversa de meninos e meninas. Em casa ou na escola, eles também querem saber o que está acontecendo. Querem entender e opinar. A revistapontocom abre aqui um espaço para escutar os leitores. Afinal: o que dizer para as crianças?

Para iniciar o debate, publicamos aqui a opinião da psicopedagoga Andrea Garcez, doutoranda em Educação pela PUC-Rio, e da professora Rita Ribes, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Leia e participe. Envie também o seu comentário.

Andréa Garcez, doutoranda em educação pela PUC-Rio  – Acho que devemos dizer que as pessoas estão se unindo para lutar por melhores condições de vida e um futuro melhor para o país. E que isso é muito importante. Uma parte (pequena, ainda bem) não entende que é possível fazer isso sem violência, sem quebrar tudo, colocar a vida das pessoas em risco. É preciso dizer que muitas vezes a polícia também não sabe como agir, porque uma das coisas pelas quais também temos que lutar é por uma polícia melhor. É bom esclarecer que muitas vezes a televisão e o jornal não mostram as coisas como realmente aconteceram. Devemos, portanto, sempre desconfiar e tentar ver o outro lado da história. Penso que as crianças podem e devem acompanhar o que está acontecendo porque é um momento histórico e muito bonito. Escrevendo aqui agora me lembrei do filme “A culpa é de Fidel”, da cena em que os pais levam as crianças para uma passeata para aprender cidadania.

Rita RIbes, professora da Uerj – Importante dizer às crianças que a história não começa quando elas nascem – nem quando nasceram seus pais e avós. E que o mundo em que elas nasceram foi tecido também pelas lutas e não-lutas de seus pais e avós. Importante dizer que se deve brigar com unhas e dentes e choros por um mundo melhor, mas que “um mundo melhor” não significa a mesma coisa para todas as pessoas. Um mundo melhor para as crianças que já tem uma casa cheia de brinquedos pode ser ter ainda muito mais casas e brinquedos. Um mundo melhor para a criança que vive na rua pode ser passar a ter uma casa, um brinquedo, um olhar que a perceba no mundo. São dois desejos de melhorar o mundo que não necessariamente se afetam. Mais que dizer às crianças, é importante SER COM as crianças: construir práticas de justiça social que se imponham à indiferença, ao preconceito e à arrogância. Fora isso, não há nada que esteja acontecendo no mundo que não afete as crianças sobre o que as crianças não tenham algo a dizer (Walter Benjamin falou isso há um século!!!). Talvez seja mais o caso de ouvi-las, de despirmos de nossa pedagógica e colonialista arrogância de achar que somos nós, adultos, “quem” sempre tem algo a dizer e que “tem que” dizer.

Ser jovem não é fácil

Por Laidslau Dowbor é professor da PUC-SP, economista e consultor de várias agências das Nações Unidas. A presente nota se apoia no estudo mais amplo A Economia da Família, http://dowbor.org/2013/05/economia-da-familia.html/ 

Eu tinha vinte anos. Que ninguém me
diga que é a mais bela idade da vida.
Paul Nizan, Aden, Arabie

O transporte numa cidade como São Paulo é sem dúvida caótico. Anos de poder de empreiteiras e montadoras articuladas com políticos fisiológicos a seu serviço nos deram muitos viadutos, túneis e ruas paralisadas por sete milhões de veículos. A apropriação da política urbana pelos sucessivos malufismos gerou uma estagnação do transporte coletivo. O Paulistano perde uma média de duas horas e quarenta minutos no trânsito por dia. E na ausência de transporte de massa decente, quem mora na Capela do Socorro acorda às 5 da manhã para chegar na hora ao emprego, volta para casa às 9 e adormece no sofá vendo bobagens. Vida de família?

Não tenho aqui a pretensão de explicar a juventude, nem de dar conselhos sobre os movimentos. Mas o contexto dá para delinear. Há tempos ajudei a organizar um livro para as Nações Unidas, Cities for Children, ou seja, cidades para crianças. Recusaram o título que eu propus inicialmente, que era “Administrando as Cidades como se as Crianças fossem Importantes”(nota 2). A realidade é que crianças e jovens representam um terço da população, mas as políticas urbanas foram organizadas para a faixa etária superior, e para as elites. Não se trata de 20 centavos, trata-se de um saco cheio generalizado com o caos urbano gerado, que transtorna a qualidade de vida das pessoas, e dos jovens em particular.

Não é tão difícil assim colocar-se no lugar do jovem. Sai da escola sem nunca ter visitado uma empresa, uma repartição pública, uma organização da sociedade civil. A separação radical entre as fases de estudo e do trabalho, produz uma geração de jovens desorientados, à procura da sua utilidade na vida. Se cruzarmos esta situação com as dinâmicas do trabalho, a ausência de perspectivas torna-se muito forte, a não ser em alguns grupos privilegiados. Na realidade, no processo produtivo onde os conhecimentos passam a desempenhar um papel preponderante, em vez de estudo e trabalho serem etapas distintas da vida, devem crescentemente constituir um processo articulado onde aquisição de conhecimentos e a sua aplicação produtiva devem enriquecer-se permanentemente. Isto se organiza.

Sentir-se inútil numa fase da vida em que o jovem chega disposto a fazer e acontecer, gera sem dúvida um sentimento de profunda frustração. Poder fazer uma coisa útil parece constituir um favor, alguém “deu” um emprego. Uma pesquisa nos Estados Unidos mostrou que no conjunto, o who you know (quem você conhece) tornou-se um fator mais importante de avanço profissional do que o what you know (o quê você conhece, as suas competências). O mundo para o jovem passa a ser visto como um universo opaco e fechado, gerando desânimo e passividade, e frequentemente revolta e violência.

Esta tendência tem de ser colocada numa perspectiva mais ampla. As nossas crianças e os nossos jovens são criados num referencial de família muito frágil: com os dois pais no trabalho, o trabalho distante da casa, casais frequentemente separados, o silêncio no binômio sofá-televisão: constrói-se assim muito pouco balizamento entre o bem e o mal, muito pouco sentido de vida. Nos Estados Unidos apenas 25% dos domicílios têm pai, mãe e filhos. O joy-stick basta? A grande solução apresentada seria o tempo integral da criança na escola, em nome da educação, mas liberando os pais no horário completo.

Um outro universo que contribuía muito para a construção de valores era a rua, a vizinhança. Ali, não era ainda o mundo¸ mas também já não era a família, ali a criança e o jovem testavam a sua presença social, delimitavam gradualmente os valores da amizade, o peso das rivalidades, construíam os seus espaços de sociabilidade. Hoje, nenhuma mãe em sã consciência diz à criança que vá brincar na rua. Fica sossegada quando as crianças estão sentadas no sofá, comendo salgadinho, e vendo “vale tudo por dinheiro”. Porque na rua é o perigo, são as drogas, as gangues, os acidentes de carro, o medo. Não inserimos mais as crianças no mundo, buscamos apenas protegê-las. E quando chega o momento inevitável de sua inserção, desabam sobre elas desafios difíceis de suportar.

Os pais perdidos entram em intermináveis discussões sobre se devem ser mais permissivos, ou colocar mais limites, sorrir ou gritar, e terminam, quando têm dinheiro, lamentando-se com o analista. O analista pode sem dúvida ajudar quando os problemas são individuais, mas não resolverão grande coisa quando se trata de um processo socialmente desestruturante.

A escola pequena, de bairro, frequentada por pessoas que convivem de uma maneira na escola, e de outra nas ruas da vizinhança, mas pertencendo ao mesmo tecido de relações sociais, era outro espaço de construção de referências. Boa parte disto subsiste no interior. Nas grandes cidades, e frente a uma construção escolar onde se buscam absurdas economias de escala (quanto maior, mais barato), gera-se um universo de gente que só se encontra na escola. Os universos sociais do local de residência e do local de estudo só se cruzam eventualmente. Na própria classe média, é patético ver mães que passam horas no trânsito para levar uma criança a brincar com outra no outro lado da cidade, porque já não aguenta a solidão em casa. E no outro lado da cidade, o coleguinha terá os mesmos videogames, o mesmo “vale tudo por dinheiro” na televisão. Se juntarmos os efeitos de desestruturação do referencial familiar, da ausência do referencial de vizinhança, e da perda da presença social local da escola, e acrescentarmos o cinismo dos valores martelados horas a fio na televisão, que valores queremos que eles tenham?

Os pais ficam indignados: eles bebem, eles fumam, eles se drogam, eles transformam o sexo numa aeróbica banalizada, eles não vêm sentido nas coisas…O que é que nos fizemos para dar sentida às suas vidas? Todos nós estamos ocupados em ganhar a vida, em subir nos degraus absurdos do sucesso¸ como é que as crianças vão entender o nosso sacrifício como útil?

A compreensão de que se matar de trabalho para construir uma vida sem sentido, ainda que com a garagem que ostenta um belo carro, e entulhada de esteiras de ginástica e outras relíquias de entusiasmos consumistas passageiros, sem tempo para fazer as diversas coisas que poderiam ser agradáveis, ou belas, – filtra gradualmente para dentro das nossas consciências, ainda que continuemos todos a correr sem rumo. Será que os nossos filhos realmente não vêm o absurdo das nossas próprias vidas? E que rumo isto aponta para elas? A verdade é que a vida reduzida a uma corrida individual pelo sucesso econômico, com a ilusão de que tendo sucesso, e por tanto dinheiro, compraremos o resto, é uma absurda ilusão que nos levou à civilização de guetos de riqueza e miséria que hoje vivemos.

É significativo que em muitos lugares jovens, e até crianças, às vezes com apoio dos professores – outra classe á procura do sentido do que ensina – estão arregaçando as mangas e começando a tomar iniciativas organizadas. Vimos na Itália um movimento de crianças pela recuperação das praças. Um filme-reportagem feito pelas próprias crianças mostra a passeata, a negociação com a prefeitura, e o resgate progressivo de praças transformadas em estacionamento, para que voltem a ter água, árvores, espaço para brinquedos e jogos, uma dimensão de estética, de lazer, de convívio. Em muitas cidades já há câmaras-mirins, e não se podem aprovar projetos de espaços públicos sem o aporte do interesse organizado das crianças. Em muitos lugares, foram organizados trajetos seguros, acompanhando as principais rotas das crianças entre as escolas e lugares de lazer, parar melhorar a sua mobilidade e sentimento de liberdade na sua cidade: a tecnologia é simples, são aqueles passinhos pintados na calçada, semáforos, algum reforço de policiamento. O que estas experiências têm em comum, é o sentimento, por parte das crianças, de estarem recuperando o seu direito à cidade, à cidadania.

Em Valparaíso, vimos uma experiência de crianças de rua que, com o apoio de uma ONG, passaram a resgatar os espaços vazios de um bairro, a organizar as suas próprias bandas de música, eventos culturais, a ponto que hoje as seis escolas formais do bairro se associaram ao projeto, e desenvolvem atividades de resgate dos espaços públicos, fazem aulas sobre meio-ambiente melhorando o próprio entorno, estudam ciências sociais melhorando o ambiente social do bairro. Aqui também, a cidade é deles, e fazer uma coisa útil e prazerosa não é o resultado de um emprego que lhes “dão”, mas de uma iniciativa que lhes pertence.

O que isto aponta, na realidade, é a necessidade de evoluirmos de uma visão em que a organização social se resume a um Estado que faz coisas para nós, e de empresas que produzem coisas para nós, para uma visão em que a sociedade organizada volta a ser dona dos processos sociais, e articula as atividades do Estado e das empresas em função da qualidade de vida que procuramos. A expansão das organizações da sociedade civil, a força do terceiro setor, as políticas de desenvolvimento local e em particular do bairro, o resgate das funções sociais do Estado, o surgimento da responsabilidade social e ambiental das empresas, a crítica às grandes corporações da especulação financeira, do monopólio de produtos farmacêuticos, de comercialização de armas, o próprio surgimento muito mais amplo da noção de que um outro mundo é possível, pertencem todos a um deslocamento profundo de valores que estamos começando a sentir na sociedade em geral.

Como indivíduos, podemos melhorar a nossa casa, batalhar o estudo para os nossos filhos, comprar um carro melhor. Mas as mudanças sociais dependem de organização social. O sentimento de desorientação é sentido como sofrimento individual, mas as raízes e as soluções são mais amplas.

Nota
Cities for Children, ideias sobre como poderiam ser organizadas as cidades se levássemos em conta as crianças. Sheridan Bartlett et al., Cities for Children, Earthscan, London 1999 www.earthscan.co.uk

As duas máscaras do anonimato

Por Carlos Bezerra
Professor de Filosofia do NAVE – Colégio Estadual José Leite Lopes

Por razões óbvias, nenhum ser humano é capaz de manter um sorriso por muito tempo. A máscara de Guy Fawkes, porém, sorri ad nauseaum. Desenhada por David Lloyd para a graphic novel “V de Vingança”, escrita por Alan Moore, sua imagem saiu dos quadrinhos para as telas do cinema e, delas, para a história recente da Internet. Adotada pelo grupo hacktivista Anonymous, disseminou-se e globalizou-se. Não é apenas uma marca para os princípios, ideais e práticas mais ou menos congruentes dos grupos que a adotam. Simboliza, também, um aspecto compartilhado no seu modo de atuação: o anonimato.

É ao menos curioso que, em uma sociedade como a nossa, orientada pelo ideal da fama, o anonimato faça tanto sucesso. Em uma época em que conquistá-la virou sinônimo de ficar famoso, em que não é mais preciso crescer para aparecer, a atitude do anonimato sugere um estranho desinteresse. Para essa civilização do espetáculo, é difícil entender por que alguém se daria ao trabalho de produzir e publicar algo e não assiná-lo; e mais conturbador ainda seria perguntar-se por que voltaria a fazê-lo, mesmo depois que a opinião pública reconhecesse seus trabalhos.

Conclusões desse gênero são um equívoco porque, ao menos no âmbito público, em que há disputas políticas (saudáveis ou não) como panorama para a formação de gostos e opiniões da população, a ação anônima não tem como ser desinteressada. Mesmo quando solidária, tem fundamento em um trançado jogo político de influências que, a princípio, é praticado por agentes identificáveis, com nome, sobrenome, CPF, endereço. Quando uma celebridade, coma mais honesta generosidade, doa determinada quantia para uma instituição de caridade e pede para que se a mantenha no anonimato, pode ter em mente situações que visa evitar para o seu próprio bem ou para o bem da instituição. O anonimato pode ser uma forma de evitar a transmutação do altruísmo privado em egoísmo público, à medida que uma doação identificada, sem os devidos cálculos midiáticos, pode ser interpretada como uma tentativa de autopromoção.

Por outro lado, o anonimato pode ser conveniente para uma série de práticas criminosas ou, ao menos, questionáveis.Trata-se de um problema presente no mito do anel de Giges, o anel da invisibilidade, narrado pelo filósofo grego Platão no livro II de sua obra magna, A República. Giges, um simples pastor, encontra, junto a um cadáver, um anel de ouro. Descobre que, se girar seu engaste para dentro da mão, fica invisível; se virá-lo para fora, visível. Por meio de tal poder, em pouco tempo aproxima-se do círculo de confiança do rei, seduz sua esposa e, com a ajuda desta, mata-o. Dentre outros poderes promovidos pela invisibilidade – como o acesso a informações secretas, privadas e, até mesmo, íntimas – Giges tinha o poder do anonimato. Ou seja: Giges não poderia apenas ampliar sua compreensão dos fatos, mas também atuar sobre os mesmos de modo anônimo. Ao contrário dos demais, quando conveniente, poderia agir sem ser identificado. Em tais condições, pode-se chegar ao ponto de se utilizar o anonimato para forjar uma identidade, como colocar alguém em apuros com o intuito prévio de ser identificado como seu salvador.

O mito do anel de Giges também é oportuno para o tema do anonimato porque se encontra no seio de uma discussão sobre a justiça e o homem justo. Para Gláucon, um dos interlocutores e antagonistas de Sócrates no diálogo platônico, parece que “ninguém é justo por sua vontade, mas constrangido”, já que a justiça não seria “um bem para si, individualmente, uma vez que, quando alguém julga que lhe é possível cometer injustiças, comete-as” (360c). Essa concepção “pessimista” da natureza humana permitiria legitimar as ações de Giges, na medida em que sustenta que são consequências, e não princípios, os elementos determinantes de uma ação. A garantia da impunidade transformaria qualquer homem em um Giges: o desaparecimento de sua identidade, seu corpo, seu nome, equivaleria ao desaparecimento de seus escrúpulos. Rebanho de resignados, lobos em peles de cordeiro: no mundo criado por Gláucon, o anel de Giges é mais do que um mito, é um sonho. O sonho de consumo da impunidade, dos atos sem más consequências para seu agente, enfim, dos consequencialistas inconsequentes.

As noções de anonimato e impunidade entrelaçam-se porque uma condição necessária para uma punição precisa é a possibilidade de identificar aquele que se pretende punir. É claro que existem métodos de punição que podem alcançar um agente anônimo. Eles trazem, entretanto, o provável “efeito colateral” de atingir pessoas não envolvidas, como a situação em que um diretor suspende uma festa na escola por um ato de vandalismo cujo autor não é identificado. Ademais, tais medidas são imprecisas, pois o infrator anônimo talvez não tivesse planos de ir à festa. É, portanto, improvável uma situação em que se puna única e infalivelmente um infrator anônimo sem identificá-lo.

Além disso, é válido fazer uma breve digressão aqui e lembrar que, por outro lado, a identificação não é condição suficiente para a punição. Pode ser pitoresco e distante da realidade social e política brasileira, mas um indivíduo pode ser notoriamente identificado como responsável por uma série de crimes e, ainda assim, não receber punição alguma ou correspondente. Em lugares em que isso acontece, costuma-se tomar a impunidade não como o estado de alguém impune, mas como uma espécie de condição cultural, moral e jurídica pela qual um grupo social pode, em alguma medida, agir com o caráter de Giges, mesmo sem seu anel. Somente um contexto bastante curioso poderia conceder a indivíduos sem o artefato mágico daquele simples pastor da longínqua Lídia um poder equivalentemente mágico (ou magicamente equivalente).

Um contexto de impunidade é, portanto, uma condição na qual um ou mais grupos sociais se encontram favorecidos à prática de atos cultural, legal ou moralmente condenáveis sem uma punição equivalente.Tais práticas não estão necessariamente vinculadas ao anonimato, tampouco são necessariamente sigilosas. Com efeito, os casos mais alarmantes são aqueles absortos de cinismo, em que as infrações são cometidas a olhos vistos. Por outro lado, entende-se, aqui, que um estado de impunidade pode ocorrer fora de um contexto de impunidade. Imagine-se, por exemplo, que o reino em que vivia Giges contava com um sistema jurídico bastante avançado, cidadãos virtuosos e forças coercivas competentes. Mesmo em um contexto avesso à corrupção, em posse do anel mágico, o pastor poderia engendrar um estado de impunidade para si.

Tais características da impunidade enquanto estado de alguém podem levar à enganosa conclusão de que ela seja algo necessariamente ruim e que o anonimato, por ser um modo de obtê-la, também o seja. Contudo, nenhuma das duas afirmações pode ser generalizada, já que em todos os casos deve-se levar em consideração questões que, até o momento, foram deliberadamente postas de lado: por que recorrer ao anonimato como garantia de impunidade? Em que contexto isso ocorre? Quem pune? Como pune? Por que pune? Em suma: a punição pode ser injusta e participar de um amplo sistema político e cultural de dominação e controle igualmente injusto. Há, portanto, uma relação de legitimidade e ilegitimidade entre anonimato, impunidade e dominação. Assim,parece que, quanto mais ilegítimo for o poder coercitivo, maior a legitimidade da desobediência e, portanto, do anonimato como garantia de impunidade. Mas esta é outra conclusão que não pode ser generalizada.

O filme A vida dos outros, de Florian Henckel von Donnersmarck, oferece um exemplo bastante rico. Nele, um grupo de intelectuais da outrora Alemanha Oriental,na tentativa de contornar a censura do Partido Socialista e a repressão da Stasi, sua polícia secreta (análoga ao DOPS durante os anos da Ditadura Militar), articula o envio anônimo e ilegal de um artigo sobre a elevação na taxa de suicídios no país para o lado da Alemanha Ocidental. A riqueza do exemplo está em oferecer duas espécies de censura, diante das quais, historicamente, recorre-se ao anonimato: de um lado, a censura oficial, regulada pelas leis de um Estado que não apenas controla, mas reprime a liberdade de expressão e para o qual a publicação dentro e fora de suas fronteiras seria inconveniente; de outro, a censura dos costumes, uma vez que o suicídio, ao menos nos países ocidentais, consiste em um tema culturalmente silenciado. O silêncio do debate público, em contraste com a necessidade de um grupo de expressar sua indignação diante do regime, teria levado aquelas pessoas à busca do anonimato e da impunidade. O anonimato pode ser uma forma de resistência a regimes e costumes considerados injustos e, portanto, a modos injustos de punição, ao menos para aqueles que ainda sustentam, sem cinismos, alguma ideia de dignidade humana.

Todavia, com o auxílio de pelo menos dois preconceitos, essa mesma conclusão pode conduzir a consequências nefastas. O primeiro deles, imediatista e, talvez por isso mesmo, bastante pop nos dias atuais, é a certeza de que toda forma de resistência é, desde já, legítima. Roubar, sequestrar, violentar, torturar, matar (inclusive “inocentes”) seriam práticas aceitáveis diante de uma repressão que, em alguns casos, também rouba, sequestra, violenta, tortura e mata. O segundo preconceito, talvez mais imediatista ainda, é a certeza de que a resistência obtém validade para seus próprios fins puramente porque combate a permanência de um grupo dominante com fins distintos. O fato de ser contra um poder vigente não torna mais afins ou homogêneos grupos que lhe ofereçam resistência. Em uma ditadura militar, por exemplo, é possível que haja um grupo de resistência cuja finalidade é instaurar um real Estado democrático de direito e, no mesmo tempo e lugar, um grupo que tenciona outro modelo de ditadura.

Todos esses detalhes com relação às justificativas em torno da indignação que leva à desobediência, da desobediência que leva à busca da impunidade e, finalmente, desta que leva ao anonimato, impedem a conclusão de que o anonimato seja, apenas por si mesmo, um recurso digno de admiração. Pelo contrário: nas situações em que se justifica, o anonimato surge como um recurso incontornável, um preço a se pagar para a viabilidade de práticas e enunciados arbitrariamente proibidos, criminalizados,punidos e ilegitimamente instaurados. É uma forma de revelar escondendo, transgressão pela qual se consegue dizer e fazer somente porque se oculta aquele que diz e faz[1].

O anonimato não é, por si mesmo, signo de inteligência, tampouco signo de sua aliança com aquilo que é verdadeiro ou justo. De forma análoga, pode ser signo de virtudes ou de vícios, de coragem, de covardia ou até mesmo de temeridade. Mais que um poder, o anonimato é um potencializador, tal como o anel de Giges: não apenas proporciona novos modos de ser e agir, mas atualiza e amplia aqueles até então dados e reprimidos. Piores do que o mau e o mal são o mau e o mal sem identidade, figuras cada vez mais possíveis e presentes no terrorismo contemporâneo.

A princípio, anônimos não podem ser identificados. Contudo, é fundamental que sejam identificadas as duas máscaras do anonimato: aquela permitida pela responsabilidade e aquela que permite a irresponsabilidade. Graças à primeira, encontram-se caminhos legítimos para a liberdade; à segunda, caminhos ilegítimos ou apenas o sorriso pernóstico de quem tenta infundir superioridade a uma carcaça de tolice e covardia. Tais limites devem ser constantemente examinados e revisados. O maior risco do culto ao anonimato não são os resultados imediatos de sua prática leviana, suas pretensas conquistas, mas o medo do anonimato, que também se camufla e cujas respostas se encontram em andamento.

[1] E, nesse ponto,o anonimato pode ser pensado, inclusive, a partir de seu potencial estético, na medida em que viabiliza experiências de deslocamento sobre os discursos fixados e permitidos. O anônimo, ao dizer o que não pode ser dito, põe a linguagem em movimento, denuncia a sedimentação inorgânica dos significados, o sufocamento de palavras e vozes.

Cinema infantil nacional em Florianópolis

Começa nesta sexta-feira, dia 28 de junho, a 12ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, uma referência brasileira na defesa do cinema infantil para crianças e adolescentes. A exemplo de todos os anos, o evento traz uma mostra competitiva de curtas voltados para a garotada. Este ano estão na disputa 73 trabalhos. Há também exibição de longas metragens nacionais e internacionais, oficinas e debates sobre infância e o audiovisual, que vão integrar o seminário educação e audiovisual e o 9º encontro nacional de cinema infantil. A mostra de 2013 ainda vai prestar uma homenagem a Manoel de Barros, considerado um dos maiores poetas de língua portuguesa. Ganhador de dois Jabutis, o mais importante prêmio literário brasileiro, ele tem mais de 20 livros publicados.

Acesse o site do evento

Veja os trailers dos curtas

Na programação internacional, destacam-se a exibição do filme Os Contos da Noite, do diretor francês Michel Ocelot; o bate-papo com o diretor Heiki Ernits, do longa Lott e o segredo da pedra da lua, uma produção da Estônia e Letônia, bem como o documentário Tenho 11 anos, de Genevieve Bailey. A obra reúne crianças de onze anos de quinze países. Elas fazem um retrato global da humanidade numa idade crucial – pequenos cidadãos que não são mais crianças, ainda não são adultos e se preparam para herdar um mundo que muda rapidamente como eles. As crianças revelam obsessões e preocupações públicas que motivam suas vidas. O fllme faz, ao mesmo tempo, uma investigação das similaridades e distinções entre culturas e um relato íntimo desses jovens.

“Nosso objetivo é que as crianças consigam ver a sua infância na tela. Aliás, esse é o tema da mostra deste ano: a infância brasileira na tela do cinema. As crianças precisam ver para ter orgulho da nossa cultura, conhecer a nossa diversidade cultural e crescer com este sentimento de se sentir incluída na imagem”, explica a coordenadora da mostra, Luiza Lins, em entrevista à Rádio Estadão.

Cinema nacional na tela e em debate

Além dos 73 curtas nacionais voltados para a infância, o evento vai exibir também longas, como Meu pé de laranja lima, de Marcos Bernstein, Cocoricó conta filmes, de Fernando Gomes, e a pré-estréia do filme História antes de uma história, de Wilson Lazaretti, do Núcleo de Animação de Campinas.

No seminário educação e audiovisual, que será realizado nos dias 8 e 9 de julho, serão exibidos os filmes Sementes do nosso quintal, de Fernanda Heinz Figueiredo, e A educação proibida, documentário de German Doin, que vai conversar com o público logo após a exibição. Haverá ainda um debate sobre o ensino de audiovisual na escola, como o secretário municipal de Educação de Florianópolis, Rodolfo Joaquim Pinto da Luz, Carla Dozzi, coordenadora geral de Cultura e Educação, do Ministério da Cultura; Fabiana Marcello, da UFRGS, Maria Angélica Santos, do Programa de Alfabetização Audiovisual, Porto Alegre e Patrícia Durães, do Clube do Professor – Cinespaço. A coordenação ficará a cargo da professora Mônica Fantin. A mostra ficará em cartaz até o dia 14 de julho.

Globalização na tela

Será realizada, em outubro, no Rio, a terceira edição brasileira do Festival de filmes Globale. Quem quiser participar já pode enviar seus filmes. As inscrições serão encerradas no dia 16 de agosto. A edição carioca do festival, que acontece também na Alemanha, Uruguai, Colômbia e Polônia, não impõe restrições quanto ao gênero, formato, duração e ano de lançamento. As obras também não precisam ser inéditas.

saiba mais no site do evento

De acordo com a coordenação, o material audiovisual deverá abordar temas relacionados aos processos de globalização a partir dos seguintes eixos: cidade global, conflitos socioambientais, identidades e desigualdades, e grandes poderes.

Festival

O Globale nasceu em Berlim (Alemanha), em 2003, como festival de cine documentário social e político. É realizado até hoje com o propósito, inclusive, de que as sedes do festival sigam multiplicando-se de forma a criar uma rede. Atualmente acontece também em outras duas cidades da Alemanha, em Montevidéu (Uruguai), desde 2009, em Varsóvia (Polônia), desde 2010, e, em 2011, o globale chegou a Bogotá (Colômbia) e ao Rio de Janeiro (Brasil).

O Globale Rio é um festival sem fins lucrativos, não competitivo e que, portanto, não entrega prêmios nem cobra taxas de inscrição. O evento é organizado por um coletivo que trabalha de forma solidária e só é possível com a colaboração ativa dos realizadores dos filmes, do público e dos espaços parceiros.

Objetivos

Os objetivos da mostra são: aproximar o público de obras que, através da linguagem audiovisual, sensibilizem, denunciem e informem sobre aspectos da realidade que geralmente são ignorados ou distorcidos pelas grandes corporações midiáticas; gerar espaços de intercâmbio, reflexão e debates críticos sobre os processos de globalização e identificar seus impactos e suas consequências para/sobre a vida das pessoas; e atingir um público diversificado e com ele discutir, elaborar e executar projetos e soluções para os problemas que a globalização nos coloca. 

Inscrições abertas

Estão abertas as inscrições da segunda edição do Prêmio artes digitais e aplicativos educacionais, que integra o 5º Simpósio Hipertexto e Tecnologias na Educação, que acontece em novembro deste ano, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O objetivo do projeto é incentivar a produção de aplicativos educacionais e estimular a exposição de obras de arte digital com fins educativos. As inscrições vão até o dia 30 de agosto e devem ser realizadas exclusivamente no site do Simpósio Hipertexto.

O valor da taxa de inscrição para cada trabalho é de R$ 50 e cada participante poderá submeter até quatro projetos: dois para cada categoria do prêmio. Os trabalhos inscritos que não forem selecionados no ranking dos dez melhores receberão gratuitamente uma inscrição para participação no evento na modalidade “ouvinte” com direito a certificação.

O prêmio é divido em duas categorias: arte digital e aplicativos educacionais. Podem concorrer desde projetos nas áreas literária, plástica, musical, fotográfica e cinematográfica até aplicativos digitais voltados para a educação, todos mediados por dispositivos computacionais como desktops, laptops, tablets ou smartphones. Haverá prêmios em dinheiro para os dois primeiros colocados que ganharão também hospedagem no Recife durante o 5º simpósio.

Os dez melhores trabalhos farão parte da exposição Artes Digitais e Tecnologias Educacionais, montada no Centro de Convenções da UFPE durante o evento. Os projetos selecionados terão seu potencial de mercado avaliado por empresas de tecnologia do Porto Digital, além de serem alvos de institutos de arte convidados para o evento. Além disso, terão o direito de participar livremente do 5º Simpósio Hipertexto e do 1º Colóquio Internacional de Educação com Tecnologias.

Simpósio Hipertexto

Com o tema Aprendizagem móvel dentro e fora da escola, o Simpósio Hipertexto é dirigido a professores, alunos e pesquisadores. Além de conferências, mesas-redondas e as sessões de comunicação e pôsteres digitais, também estão programadas atividades multiculturais e lançamentos de livros. O público interessado poderá participar do Simpósio Hipertexto como apresentador de trabalho ou como ouvinte. As inscrições para ambas as categorias já estão abertas.

Os interessados em participar do evento como apresentadores de trabalho têm até o dia 30 de agosto. Nesta categoria é possível efetuar inscrição nas modalidades: sessão de comunicação (pesquisadores e estudantes de pós-graduação) e; pôsteres digitais (exclusivo para estudantes de graduação). Haverá premiação para o melhor pôster apresentado entre os alunos de graduação.

Mais Informações
– Website: www.simposiohipertexto.com.br
– Email: contato@simposiohipertexto.com.br

“Se não está na internet, não existe para o jovem”.

(fotos da mostra: Universo Produção)

Por Marcus Tavares

Especialista e consultor em arquivística audiovisual, o australiano Ray Edmondson, ao ministrar a palestra de abertura da 8ª edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto, no dia 14 de junho, frisou que os arquivos e museus em todo mundo, que têm sob administração conteúdos audiovisuais, devem aproveitar ao máximo as possibilidades da internet para se aproximar dos adolescentes. “Vivemos na era da satisfação imediata e para muita gente, especialmente os jovens, se não estiver na internet, não existe. É preciso mostrar a eles a história, o passado. Temos que construir, em paralelo à preservação, uma sensibilização cultural sobre a importância dos acervos audiovisuais”.

Segundo Ray, é necessário entender que o propósito da preservação é o acesso. Diz ele que a preservação pela preservação não tem sentido. “É o acesso que justifica o investimento público nos arquivos, embora o acesso permanente não seja possível sem a preservação”.

Diante das novas potencialidades oferecidas pela internet, Ray destaca que as instituições de guarda dos conteúdos audiovisuais podem desenvolver um trabalho mais amplo. São, na verdade, entidades que também fazem parte de uma indústria cultural e que, portanto, devem ser tão criativas quanto as demais que integram o grupo.

“Um bom arquivo é um arquivo acessível. Ele deve estimular e atender o acesso externo: responder a estudiosos, pesquisadores, programadores e outras pessoas com demandas específicas de acesso ao acerto e de aconselhamento. Mas ele também deve ser empreendedor, procurando interagir ativamente com o público em formas que sejam adequadas a seu acervo e missão. Isso pode ser feito através da apresentação de filmes, programas de televisão e de rádio; da criação de produtos para venda a partir de itens do acervo; ou através da oferta de materiais que podem ser baixados ou vistos na internet; da manutenção de páginas no facebook ou youtube, e de um portal interativo”.

Na opinião de Ray, a preocupação com a preservação dos conteúdos audiovisuais passa por um posicionamento responsável e ético, não muitas vezes praticado/pensado pelas políticas públicas governamentais, de garantir o acesso de toda produção às futuras gerações, que desconhecem boa parte do que já foi produzido. “Daí, repito, a importância da sensibilização cultural que os arquivos devem promover. Se os governos não enxergam a importância desta questão, é preciso educar o público neste sentido”.

Neste sentido, é urgente pensar em investimentos e qualificação técnica de pessoal para preservar conteúdos em suportes analógicos bem como os próprios artefatos em que se encontram. “O que atualmente conhecemos como acervos patrimoniais permanecerão conosco ainda por muitas décadas e é bom que tenhamos consciência de seu valor enquanto artefato, em vez de atentar apenas para seu conteúdo”.

E se de um lado a revolução digital facilita e promove um maior e melhor acesso, essa mesma tecnologia digital não é para sempre. De acordo com o estudioso, o acervo salvo em digital é, provavelmente, mais caro e complexo de administrar ao longo do tempo. Sua obsolescência é muito mais rápida.

“Ao contrário do que se fala e pensa, o digital não é para sempre. Preservação é frequentemente um termo mal empregado. Algumas vezes é um eufemismo para fazer uma cópia ou para armazenamento adequado. Mas ela é muito mais do que isso. De acordo com a definição da Unesco, preservação é o conjunto de operações necessárias para perenizar o acesso a um documento no maior grau de sua integridade. Dependendo do material que nos ocupa, isso pode envolver uma série de ações diferentes, como conservação, restauração, copiagem, armazenamento e manutenção. Isso é particularmente verdade no caso de documentos digitais, em que a conservação passiva efetivamente não é uma opção: os arquivos digitais precisam estar em constante manutenção e atualização, caso contrário poderão se perder. A preservação é uma tarefa que não termina nunca. Nada foi preservado – apenas está sendo preservado”, finaliza Ray que acaba de defender seu doutorado pela Faculdade de Artes e Design da Univesidade de Canberra, com a tese National film and sound archive: the quest of identity – factors shaping the uneven development of a cultural institution.

Estado, audiovisual e educação

(fotos da mostra: Universo Produção)

Por Rosália Duarte
Rede Kino de Cinema e Audiovisual

Falo em nome da Rede Kino, que reúne profissionais de educação e de cinema e audiovisual  em torno do ensino, da pesquisa e de experiências de formação estética audiovisual e difusão do cinema em ambientes educacionais. Agradeço, em nome da Rede, a presença de todos, em especial a dos representantes do Ministério da Educação e da Cultura e à organização do CINEOP.

Queria começar minha fala apresentando uma situação hipotética. Suponhamos que constatássemos que crianças e jovens brasileiros passassem toda sua vida escolar sem terem lido, em algum momento, algumas das principais obras da literatura brasileira ou sem ter sequer sabido da existência de Manuel de Barros, Maria Clara Machado, Cecília Meirelles, Carlos Drumonnd de Andrade, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Ariano Suassuna, Clarice Lispector entre tantos outros autores que contribuíram e contribuem para a formação de nossas culturas e nossas identidades. 

Suponhamos, também, que essas mesmas crianças fossem leitoras assíduas de livros estrangeiros, escritos para adultos, cuja composição estética e narrativa seguissem um padrão linguístico e estético limitado, redundante, empobrecedor e simplificador da realidade. Ficaríamos, certamente, muito preocupados com a formação social, cultural e intelectual de nossas crianças.

Nosso contato com crianças e jovens, em situações de pesquisa e de ensino, tem nos levado a constatar que uma situação muito semelhante a esta que descrevi, hipoteticamente, em relação à literatura, acontece com o acesso delas à produção audiovisual. A imensa maioria de nossas crianças e jovens têm contato permanente com materiais audiovisuais endereçados a sua faixa etária, produzidos fora do Brasil. Além disso, assistem a filmes de longa-metragem, na tevê e em DVDs, no mínimo duas vezes por semana, o que significa que veem pelo menos 100 filmes por ano, a maioria estrangeiro, alguns deles infanto-juvenis, mas grande parte dirigida a adultos. Nossas crianças e jovens não conhecem obras importantes da cinematografia brasileira e muitos deles talvez nunca tenham ouvido falar delas. Crescem vendo cotidianamente apenas filmes realizados nos EUA, principalmente os que são produzidos dentro do mesmo padrão estético e narrativo.

As crianças conhecem e apreciam a linguagem audiovisual, nascem e crescem em contato com ela e aprendem, muito rapidamente, a compreender seus códigos e seus sistemas de significação. Não absorvem, indiscriminadamente, o que veem e não são massinhas de modelar; crianças pensam, dialogam e constroem hipóteses a respeito do que veem. Suas hipóteses e conceitos são testados e reconfigurados na relação com novos objetos de conhecimento. Essa relação não é direta, é sempre mediada pelos signos das culturas nas quais estão inseridas, ou seja, linguagem e pensamento são intrinsecamente relacionados. Significa dizer que a capacidade de operar em diferentes linguagens, como a linguagem matemática, a linguagem das ciências naturais e das ciências humanas e a linguagem da arte oferece possibilidades muito maiores de complexificação do pensamento do que o acesso puro e simples à informação. Esse é talvez um dos pressupostos que norteia a configuração do Exame Nacional do Ensino Médio e a reforma proposta para o ensino nesse nível de escolaridade, que apontam para mudanças significativas na educação brasileira.

O reconhecimento da intrínseca relação entre linguagem e pensamento é, também, uma das razões pelas quais o estado brasileiro vem investindo, fortemente, na alfabetização e no letramento em linguagem escrita, em especial, a partir da década de 1980, quando foram instituídas políticas públicas de acesso à literatura de qualidade, de formação de leitores, de formação do gosto estético e, mais recentemente, em políticas que assegurem a alfabetização na idade certa.

Mas, ao que parece, essa preocupação não alcançou ainda a linguagem audiovisual. Jesus Martin-Barbero, pesquisador latino-americano, disse, há muitos anos atrás, que a América Latina não entrou na modernidade pelas mãos dos livros, mas pelas mãos do audiovisual e que isso, ao contrário do que supõem os europeus, não nos desmerece, apenas nos diferencia culturalmente. No entanto, seguimos compartilhando a crença etnocêntrica na existência de uma hierarquia natural entre linguagem escrita e linguagem audiovisual, e talvez por isso estejamos investindo menos do que deveríamos na ampliação do conhecimento dessa linguagem nos espaços educacionais e no acesso das crianças à produção audiovisual de qualidade.

Entendemos produções de qualidade, nesse contexto, como aquelas que respeitam, acompanham e contribuem para a formação estética, social, afetiva, intelectual e ética das crianças. O que não quer dizer, em nenhuma medida, que estejamos falando de produções didáticas ou educativas em sentido estrito. Para nós, qualidade também está relacionada a diversidade, condição básica para a existência de qualquer forma de expressão. Nossas crianças seguem tendo acesso apenas a mais do mesmo, o que configura uma experiência estética limitada, face às quase infinitas possibilidades de expressão em linguagem audiovisual.

O que nos impede de criar políticas públicas de audiovisual voltadas para a formação audiovisual das crianças? Marcus Tavares, professor de audiovisual da rede FAETEC, do Rio de Janeiro, se colocou esta pergunta em um estudo realizado recentemente. Ouvindo gestores públicos, profissionais de cinema, produtores, professores e formuladores de políticas públicas de educação e de audiovisual, levantou algumas hipóteses acerca dos impasses  enfrentados na formulação de uma política pública de audiovisual para crianças.

Um dos impasses já foi mencionado aqui: a falta de reconhecimento do direito das crianças ao acesso a uma produção audiovisual que contribua para o desenvolvimento delas, em todas as esferas em que este se processa. Outro obstáculo diz respeito ao pouco interesse dos produtores brasileiros em produzir para crianças, que está relacionado a fatores econômicos, em parte pela ausência de políticas de incentivo à produção especificamente voltada para esse público, incluindo programas para televisão. E outro obstáculo diz respeito à ausência de participação direta da área de Educação nas discussões sobre produção e distribuição de cinema e audiovisual no país.

Seria tolice afirmar que temos receitas para a superação desses impasses, mas gostaríamos de apresentar algumas propostas que talvez possam contribuir com a discussão.Achamos importante que o Ministério da Cultura, através da Secretaria de Audiovisual, institua linhas específicas de incentivo à produção audiovisual para crianças, com avaliação da qualidade do que seria produzido.

Esperamos que possa ser configurado um vínculo mais estreito e direto entre as políticas de incentivo à produção de cinema no país e a difusão dessa produção nas escolas públicas. É preciso instituir, nos editais, que os filmes financiados diretamente ou através de renúncia fiscal deverão ter cópia disponibilizada para todas as escolas públicas do país, em plataforma específica e adequada à infraestrutura tecnológica de todas as regiões.

É importante, também, que a produção audiovisual brasileira, fruto de editais públicos, integrem tecnologias assistivas, como audiodescrição e legendagem em português e LIBRAS. 

Esperamos que a CAPES inclua em sua política de formação continuada de professores estratégias e cursos especificamente voltados para a formação estética audiovisual e para o acesso ao cinema.

Incorporamos, também, algumas propostas do grupo técnico de assessoramento à elaboração da política pública de audiovisual para a infância [instituído há dois anos, na Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis]:– Estabelecimento de parceria entre a Secretaria do Audiovisual (SAv) do Ministério da Cultura (MinC), Ministério da Educação e representantes de outros ministérios interessados, com vista ao desenvolvimento de um plano de ação para a elaboração de uma política pública de audiovisual voltada para a infância.

– Criar e ou fomentar um portal na internet de referência e compartilhamento sobre o audiovisual brasileiro voltado para a infância. Portal que reúna o mercado, os pesquisadores e consumidores.

– Incentivar, promover e apoiar junto à mostras, festivais e fóruns a criação e ou continuidade de programas de oficinas sobre questões artísticas e técnicas. Promovendo com isso, inclusive, a aproximação do público infantil com criadores, produtores e diretores de filmes.

– Desenvolver acordos internacionais de intercâmbio de formação e especialização na área profissional de produção audiovisual para crianças.

– Criar espaços municipais voltados prioritariamente para a exibição do cinema infantil.

– Viabilizar a produção de conteúdos audiovisuais por crianças de escolas públicas de todo país, por meio da criação de editais e de novos Pontos de Cultura específicos para este fim, com a possibilidade de suas produções serem vinculadas na tevê pública.

– Estimular e apoiar projetos de cineclubes escolares.

– Estimular mostra competitiva de curtas escolares

– Estimular a produção de documentários sobre e para a infância.

– Criação de um selo, a exemplo do Prêmio de Qualidade da Ancine, para as iniciativas de produção e de difusão de conteúdo de qualidade para infância e juventude do país. 

O lugar do cinema com o advento da multidão equipada

(fotos da mostra: Universo Produção)

Por Marcus Tavares

Desde que foi criado, em 2005, o YouTube vem ocupando cada vez mais tempo e espaço na vida das pessoas. Dados da empresa contabilizam que são postadas na plataforma, a cada minuto, 100 horas de vídeo. Mais de seis bilhões de horas são assistidas a cada mês. Isso representa, aproximadamente, uma hora para cada pessoa na Terra e 50% a mais do que o número registrado no ano passado.

A análise feita pelo professor Cézar Migliorin, da Universidade Federal Fluminense (UFF), ao participar da mesa Cinema, política, estética e pedagogia, no dia  16 de junho, durante a 8ª Mostra de Cinema de Ouro Preto, talvez explique os dados apresentados acima. Segundo ele, o mundo contemporâneo convive hoje com a chamada multidão equipada, uma geração que, de posse de tecnologias de comunicação, produz quantidade incessante de imagens baseadas em registros e experiências. De acordo com Migliorin, são marcas registradas de um novo ethos da sociedade contemporânea, que a constitui e é constituída por ele.

Na opinião do professor, para pensar essas novas formas de ‘estar no mundo’, os cineastas estão frequentemente usando tais imagens. “Se antes os diretores precisavam estar no lugar da vida das pessoas, hoje existe outra camada de mundo, de produção incessante, que, por sua vez, está vinculada à estratégia de mercado, às estratégias tecnológicas das grandes empresas, aos modos de controle, a formas de engajamento da atenção”, destacou.

Como exemplo desta produção, Migliorin citou o filme Fragmentos de uma Revolução, obra composta de imagens feitas por anônimos. “É impressionante o que essa multidão equipada nos permite ver. Talvez a conexão mais forte que eu tenha tido com o Irã, em toda a minha vida, foi a partir deste filme, onde o cineasta operou com as imagens feitas por essa multidão equipada. O que me parece essencial é que isso [essa produção] é constituinte. É essencial pensar como essas imagens e informações estão operando na vida das pessoas. No Rio de Janeiro, grandes fenômenos culturais surgiram por conta de imagens compartilhadas. Se pensarmos, por exemplo, o que aconteceu com o funk, a dança do passinho e com as expressões estéticas ligadas à favela, vamos ver que muito do que foi desenvolvido foi pautado pelas imagens produzidas pela multidão equipada”.

Migliorin diz que essas imagens produzidas constituem, portanto, uma forma de estar no mundo e que, portanto, estão no campo estético e político ao mesmo tempo. “Essa produção da multidão equipada provocou [vem provocando] uma mudança do estatuto da imagem nos dias de hoje. O cinema foi tocado por uma grande virada, digamos assim, estética e política, nos últimos anos. Aqui não cabe a pergunta se esta profusão, potencializada pelo compartilhamento, é bom ou ruim, se representa um avanço ou um retrocesso”, informou.

Segundo Migliorin, é preciso dialogar com estas imagens. A questão que se coloca, hoje, é como agenciar e tomar posições das imagens dos outros? Com operar com as imagens alheias?

“A escola é ineficiente, mas imprescindível”, diz representante do MEC

(fotos da mostra: Universo Produção)

Por Marcus Tavares

“A escola é ineficiente, mas imprescindível”. A frase é do secretário da Secretaria de Articulação com os Sistemas de Ensino do Ministério da Educação (MEC), Binho Marques. Ao participar da mesa O Estado brasileiro, o audiovisual e a educação em tempos de compartilhamento, realizada durante a 8ª Mostra de Cinema de Ouro Preto, Marques disse que a escola ainda preserva, nos dias de hoje, o mesmo molde da escola do século XIX, na qual se considera como a única detentora e transmissora de conhecimento.

Segundo o secretário, tal postura coloca o país em uma situação delicada, uma vez que o crescimento brasileiro, no contexto internacional, pode ser interrompido pela falta de um sistema de educação consistente. “Nem os programas sociais do Governo têm ou terão sustentabilidade sem investimento na educação”.

Em sua análise, Marques indicou três fatores que reiteram um novo lugar para a escola: a cultura digital que vem criando uma escola sem muros, na qual o estudante é produtor de conhecimento e a linguagem audiovisual assume importância; a existência de outros ambientes educativos fora da escola, que são precisam estar articulados; e a função de mediador do professor do século XXI.

“Isto tudo pode parecer bastante complexo, mas, se formos observar, isso que está sendo dito [e defendido] já está sendo desenvolvido em projetos pilotos no Brasil. A nossa intenção é transformar esses projetos em política pública”.

Marques frisou que o Governo Federal vem investindo recursos na Educação. Investimento que deve, segundo ele, passar pela melhoria salarial dos professores e por uma mudança de cultura na e da escola.

MinC retoma editais voltados para a infância

(fotos da mostra: Universo Produção)

Por Marcus Tavares

Ao participar da mesa O Estado brasileiro, o audiovisual e a educação em tempos de compartilhamento, realizada, no dia 14 de junho, durante a 8ª Mostra de Cinema de Ouro Preto, o diretor da Diretoria de Gestão de Políticas Audiovisuais, da Secretaria de Audiovisual do Ministério da Cultura (MinC), João Batista da Silva, anunciou algumas intenções da pasta. Entre elas: a retomada de editais para produção de curtas voltados para a infância, a exemplo dos editais Curta Criança e Curta Criança Animação, interrompidos em 2009/2010. O anúncio, segundo o diretor, será realizado, oficialmente, durante a Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, que acontece de 28 de junho a 14 de julho.

Outra iniciativa envolverá estudantes que participam do programa Ciência sem fronteiras, na área da comunicação. Será incentivada a produção de pequenas obras audiovisuais realizadas pelos alunos participantes do projeto, como trabalho de conclusão do curso.

Mais um projeto é ampliar, até o ano que vem, o número de espaços de exibição de cinema. Nesta perspectiva, José Roberto da Silva disse que se o Brasil tivesse um espaço de exibição em pelo menos uma biblioteca de cada município, seria um grande avanço. “E neste sentido, estamos, cada vez mais, em conversação com o Ministério da Educação. Sempre procuramos dialogar com o MEC, já que ele está diretamente voltado para o público de crianças, adolescentes e professores”, destacou o diretor.

Com relação à importância da preservação dos materiais audiovisuais, José Roberto afirmou que é urgente, “bem como óbvio”, pensar em políticas públicas nesta direção. Segundo ele, grupos/instituições que pensam a questão da preservação, como a Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA), deveriam estar representados no Conselho Consultivo da Secretaria do Audiovisual do MinC, e até mesmo do Conselho Superior de Cinema. O diretor se colocou à disposição para fazer as pontes necessárias.

Carta de Ouro Preto

(fotos da mostra: Universo Produção)

Por Marcus Tavares

Na noite do dia 17 de junho, os integrantes da Rede Latino-Americana de Educação, Cinema e Audiovisual (Rede Kino), que participaram do V Fórum da Rede Kino, realizado durante a 8º Mostra de Cinema de Ouro Preto, a exemplo dos anos anteriores, divulgaram a Carta de Ouro Preto (leia abaixo), que, em linhas gerais, aponta para a urgência de políticas públicas de audiovisual para crianças e adolescentes.

História

De acordo com a atual coordenadora da Rede Kino, professora Adriana Fresquet, da UFRJ, o projeto da rede foi criado em 2008, por iniciativa da professora Inês Teixeira, da UFMG. Desde então, a rede tem como meta reunir, virtualmente e presencialmente, iniciativas universitárias, escolares e do terceiro setor na área de cinema e educação do Brasil e da América Latina.

“Neste sentido, a Rede Kino quer se estabelecer como um espaço plural das diferenças. Não queremos moldar um discurso, um modo de entender o cinema, uma teoria, um enunciado ou do fazer audiovisual. Nossa marca é do encontro, do diverso, do incompleto e do inacabado, onde aprendemos, ensinamos e dialogamos. Nossa ideia é promover diálogos que sirvam de parâmetros e pontos de partida para inspirar exercícios, projetos, estudos e ações”, explica a professora.

Segundo Fresquet, a Rede Kino quer, portanto, contribuir para “este momento histórico em que se observa a necessidade de se reinventar a escola”. De transformar uma escola que ainda investe e aposta na transmissão, repetição e reprodução do conhecimento.

No encontro deste ano, professores, pesquisadores e estudantes apresentaram diferentes ações e projetos na relação cinema e educação. O evento contou, inclusive, com participantes do Chile, Argentina, Equador e Colômbia. O chileno Ignacio Agüero, diretor do documentário Cem crianças esperando um trem, exibiu, debateu e descobriu que a obra inspirou, na Argentina, o desenvolvimento de alguns projetos educativos. “É desse diálogo que estou falando, desta possibilidade de trocas e experiências que a rede pode e quer fomentar”, frisa Fresquet.

Carta de Ouro Preto 2013

Os integrantes da Rede Latino-Americana de Educação, Cinema e Audiovisual – Rede Kino, presentes na 8ª Mostra de Cinema de Ouro Preto – Cineop, de 12 a 17 de junho de 2013, ocasião em que realizamos o V Fórum, reafirmamos a educação como um direito e enfatizamos a necessidade de articulação da educação com a criação cinematográfica e demais linguagens audiovisuais, por meio de práticas que ampliem as possibilidades de acesso à diversidade da produção de todas as regiões do Brasil e América Latina objetivando aprofundar a experiência cinematográfica e audiovisual dos estudantes de escolas públicas, em especial crianças e jovens.

A educação nos fala de futuro e a preservação daquilo que tem a ver com o passado. Acreditamos na possibilidade de conhecimento do futuro a partir da memória que parece derivar da capacidade poética/política de estabelecer um vínculo que ilumina ambos os termos, encurtando sua distância. Algo assim como a superposição de duas temporalidades. Ouvimos o som de um trem que já chegou, mas que vem chegando.

Neste V Fórum, procuramos encurtar algumas distancias entre as temporalidades que remontam aos tempos de chumbo, mas também a tempos de flores, de iniciação de projetos audiovisuais em escolas, universidades, ONGs, comunidades, aldeias indígenas, instituições socioeducativas,  asilos, hospitais, orfanatos e casas geriátricas… como gesto político e poético de justiça social dirigidas a refletir hoje. Por isso, neste ano, colocamos em diálogo algumas páginas das memórias de infâncias durante a época da ditadura com o que isto constitui como potencia de invenção de um outro tempo.

E o que é a educação senão uma presentificação do passado e do futuro? O vazio que existe entre esse amanhã e hoje é o lugar que nos ocupa, onde nossa capacidade de memória e invenção precisa desafiar a incompletude, sempre convite para o fazer da educação e das artes. Reduzimos também a distancia dos espaços entre os povos brasileiros, argentinos, chilenos, equatorianos, colombianos… Começamos a visualizar a materialidade da rede Latino Americana de Educação, Cinema e Audiovisual.

Escolher populações em situações de risco, aldeias e projetos sociais para promover experiências audiovisuais na América Latina foi o objetivo das várias mesas, nas quais compartilhamos a realização de projetos educacionais e demos visibilidade a potencia do gesto criativo quando se produz o encontro de uma criança, um professor (também criança) com o cinema. Estas experiências de longa data nos permitem identificar a força revolucionária e de resistência que há nas ações/coisas/vivências do passado. Elas parecem cristalizar ou revelar uma energia que vira pelo avesso os modos esgotados de ser, estar e fazer.

Neste ano o Ministério de Educação e o Ministério de Cultura estabeleceram um primeiro diálogo na tentativa de criar um espaço de interlocução que possa se abrir à interação com as ideias e projetos do público, fundamentalmente composto por cineastas, preservadores, arquivistas educadores e pesquisadores de cinema e educação visando políticas públicas.

Identificamos a urgência de políticas públicas de audiovisual orientadas para os realizadores interessados em produzir especificamente para crianças e adolescentes. Dessas políticas precisam surgir produções que respeitem, acompanhem e contribuam na formação estética, social, afetiva, intelectual e ética dos estudantes.

Afirmamos também a necessidade de incluir a participação direta da área de Educação nas discussões sobre produção e distribuição de cinema e audiovisual no país. Por isso, gostaríamos de apresentar algumas propostas para contribuir com a discussão.

Estreitar o vínculo entre as políticas de incentivo à produção de cinema no país e a difusão dessa produção nas escolas públicas. Deve-se instituir nos editais que os filmes financiados diretamente ou através de renúncia fiscal tenham cópia disponibilizada para todas as escolas públicas do país, em plataforma específica e adequada à infraestrutura tecnológica de todas as regiões. Essa produção precisa integrar tecnologias assistivas, como audiodescrição e legendagem em português e LIBRAS.

Esperamos que a CAPES inclua em sua política de formação inicial e continuada de professores estratégias e cursos especificamente voltados para a formação estética audiovisual e para o acesso ao cinema.

Propomos, também, a composição de um grupo técnico de assessoramento à elaboração de políticas públicas de audiovisual para a infância e adolescência. Sugerimos o estabelecimento de parcerias entre a Secretaria do Audiovisual (SAv) do Ministério da Cultura (MinC), Ministério da Educação e representantes de outros ministérios interessados, como um primeiro passo para o desenvolvimento de um plano de ação para todos os níveis de ensino.

Criar e fomentar um portal na internet de referência e compartilhamento sobre o audiovisual brasileiro para todos os níveis de ensino. Portal que reúna o mercado, os pesquisadores e consumidores.

Incentivar, promover e apoiar junto a mostras, festivais e fóruns a criação e continuidade de programas e oficinas sobre questões artísticas e técnicas, promovendo com isso, inclusive, a aproximação do público com criadores, produtores e diretores de filmes.

Desenvolver acordos internacionais de intercâmbio de formação e especialização na área profissional de produção audiovisual com e para estudantes.

Criar espaços municipais, estaduais e federais voltados prioritariamente para a exibição do cinema infanto-juvenil.

Viabilizar a produção de conteúdos audiovisuais por estudantes de escolas públicas de todo país, por meio da criação de editais e de novos Pontos de Cultura específicos para este fim, com a possibilidade de suas produções serem vinculadas na televisão pública.

Produzir e apoiar projetos de cineclubes escolares.

Promover mostras e festivais de curtas escolares.

Incentivar e fomentar a produção de documentários sobre, para e com estudantes (crianças, adolescentes e adultos) dentro e fora da escola.

Criação de um selo, a exemplo do Prêmio de Qualidade da ANCINE, para as iniciativas de produção e de difusão de conteúdo de qualidade para infância e juventude do país.

Agradecemos à Cineop como um dos fóruns nacionais dos encontros da Rede Kino para discussão, compartilhamento de experiências e encaminhamento de ações conjuntas nos âmbitos das relações entre cinema, educação e cultura.

Ouro Preto, 17 de junho de 2013.
Rede Kino

Histórias: o denominador comum do humano

Por Marcus Tavares

Contar para encantar. Contar para divertir. Contar para promover a leitura. Contar para ensinar. Contar para aprender. Os motivos podem ser muitos, mas uma coisa é certa: ninguém é o mesmo depois que conta ou ouve uma história. A palavra também é nosso alimento. É desta forma que Benita Prieto apresenta o livro Contadores de Histórias – um exercício para muitas vozes (Sesc Rio/Prieto Produções), que organizou e lançou em 2011. A publicação reúne textos de diversos autores e artistas sobre as inúmeras possibilidades da contação de histórias, que a transformaram numa obra instigante e bastante reflexiva.

Presidente do Instituto Conta Brasil e coordenadora da Red Internacional de Cuentacuentos, Prieto acredita que o ato de contar histórias precisa ser resgatado nas famílias, pois é uma das formas de religar a sociedade com o passado, com as origens e consigo mesma. Em entrevista à revistapontocom, ela define que o ato de contar histórias é a mais bela forma de comunicação do ser humano.

Acompanhe os principais trechos da entrevista:

revistapontocom – Hoje temos uma série de seminários sobre contação de histórias. Por que se fala tanto nisso? Descobriu-se a sua importância? Mas contar histórias não é uma ‘prática’ milenar, desde a origem do homem?
Benita Prieto – O ato de contar histórias está presente em todas as sociedades. Afinal é dessa maneira que se passavam conhecimentos e se preservava o saber antes da escrita. Atualmente, ainda temos muitos povos pelo Brasil e pelo mundo onde a transmissão acontece pela voz dos contadores de histórias. Acontece que a vida de hoje tem afastado muito as pessoas, pois são tantos estímulos incríveis que nos fazem ficar cada vez mais isolados. Acredito que contar histórias esteja tão presente nesse século XXI, em centros urbanos, pois é uma forma de nos religar com o passado e, também de estarmos juntos, olhos nos olhos, trabalhando nossa imaginação.

revistapontocom – É preciso, é necessário, é possível aprender a contar histórias?
Benita Prieto – É uma ação inerente aos humanos. Todos nos sabemos e podemos contar histórias. Claro que se pensamos como uma atividade artística terá que haver um preparo do contador. Existem muitos cursos livres por todo o país. E se há o desejo de enveredar por esse caminho o interessado tem que ler muito para criar um bom repertório de histórias, além de trabalhar a voz, o corpo, pois quando contamos todo o nosso ser tem que estar vivo e presente na narração. Embora, essa seja uma atividade que podemos fazer por toda a vida, hoje é necessário formar jovens contadores de histórias, já que a geração que vem fazendo esse trabalho está envelhecendo e não podemos deixar que todo esse esforço para construir uma rede nacional e internacional de contadores de histórias seja perdido.

revistapontocom – Não há estatísticas, mas escritores, professores e pesquisadores vêm afirmando que contar histórias tornou-se uma prática pouco comum no cotidiano das famílias. Você concorda com esta constatação? Por quê?
Benita Prieto – Concordo sim. Vejo isso nas famílias que frequento. É muito raro que se contem, por exemplo, as histórias de família que são tão importantes para saber de onde viemos, quais são as nossas origens. A partir dessas conversas repletas de histórias, ao redor de uma mesa, será mais fácil ter tolerância, algo que anda em falta nos dias de hoje. Tem aquele ditado que diz “é conversando que a gente se entende”, pois contando histórias de família a gente se conhece. E essa prosa familiar pode levar também as histórias populares, aos causos, aos livros lidos.

revistapontocom – No século XXI, a mídia sabe o valor da narrativa. O ‘Era uma vez’ ganha sons, imagens e interatividade. Estamos diante de um novo tempo de contar e consumir histórias? Há vantagens neste processo? Isso não acaba substituindo aquela cena do século passado da avó contando histórias para seus netos?
Benita Prieto – Uma coisa não mata a outra. Existe espaço para a coexistência, pois assim é com todas as outras manifestações artísticas. Também haverá a integração quando crianças contarem para os mais velhos histórias incríveis que encontraram no universo digital. Na verdade são apenas novos suportes para a leitura. O livro continuará a existir e ganhará a função que deveria ter mesmo, um prazer estético. E as novas tecnologias trarão, além daquela literatura baseada no texto, formas de escrever que ainda estão sendo descobertas e que, com certeza, vão nos surpreender pela interatividade, criatividade. Como sou formada em Engenharia Eletrônica e uma apaixonada pelo mundo digital, acho que nossa função é ajudar o usuário na descoberta de que a leitura está presente nesses equipamentos que são extremamente poderosos e devem ser usados com todo o seu potencial.

revistapontocom – Ao mesmo tempo que a mídia se apropria do ato de contar histórias, pode-se afirmar que há uma homogenização nas histórias que são contadas, quando pensamos no cinema e na TV, por exemplo?
Benita Prieto – O problema atual é que nosso olhar está sempre sendo manipulado pelo cinema americano e pelas TVs abertas, que ainda têm uma força muito grande de penetração na sociedade brasileira.Não há um espaço para a leitura crítica, mas isso tende a mudar com a internet e a convergência de mídias. Vamos escolher que histórias ver, quando assistir e inclusive interagir com elas. Os jovens de hoje já estão ficando livres dessas amarras e preferem estar na internet a ficar parados em frente à televisão. Eu acho isso fantástico. É a liberdade de escolha sem manipulações.

revistapontocom  – Contar histórias pressupõe o ato de o outro ouvir. Você acha que a sociedade atual sabe ‘exercitar’ essa função de ouvir o outro?
Benita Prieto – Infelizmente não. Vivemos um momento histórico de muitos estímulos positivos e negativos. Isso é uma função importante da contação de histórias. Ela ajuda na concentração, aguça a escuta.

revistapontocom – Ao perceber a criança, nos dias de hoje, como produtora de cultura, a contação de histórias assume outra perspectiva?
Benita Prieto – É fundamental entender esse novo mundo digital que é bem diferente do mundo que vivemos em nossa infância. E que influencia todo o comportamento atual e as formas de relação. No entanto, a essência é a mesma e a criança vai iluminar nossos olhos com uma visão que vem dela, pela experiência que está desenvolvendo. Temos apenas que estar atentos para promover um diálogo.

revistapontocom – Parece que essas crianças também estão querendo contar suas histórias, não? Há espaço para isso?
Benita Prieto – Criança contando história é uma delícia. O espaço infelizmente ainda é pequeno, pois o local onde elas mais poderiam se expressar é a escola, que sabemos como anda no Brasil. Outra vez tenho que falar que as novas tecnologias podem ser muito importantes para que essas crianças descubram sua forma de contar histórias. Vi um vídeo de uma menininha francesa contando uma história que era fascinante. E isso aconteceu porque havia uma mãe atenta que permitiu e estimulou que essa criança se expressasse.

revistapontocom – O escritor Alberto Manguel, em um de seus últimos livros, diz que a “linguagem é o nosso denominador comum”. Neste sentido, contar histórias é …
Benita Prieto – A mais bela forma de comunicação do ser humano.

Festival ComKids Prix Jeunesse

Saiu a lista dos vencedores da 6ª edição do Festival ComKids Prix Jeunesse Iberoamericano. Participaram da disputa 86 produções audiovisuais, digitais e interativas vindas de Brasil (29 finalistas),  Argentina (21), Colômbia (16),  México (sete), Chile (seis), Espanha (quatro),  Uruguai,  Cuba e  Portugal (cada um com um finalista). Sete produções contempladas são do Brasil.

Além do júri formado por profissionais e especialistas do setor, a premiação contou com um júri infantil, parceria do ComKids com o Colégio Miguel de Cervantes de São Paulo, que permitiu que um grupo de alunos participasse da avaliação de algumas das produções participantes.

Entre os prêmios para os vencedores, estão passagens para Munique (Alemanha), para acompanhar o Prix Jeunesse Internacional, o Prêmio Especial do Sesc TV, o Troféu Cartoon para a categoria games e Troféu Portal Comkids para a categoria digital e interativa.


Sesc premia filme cubano

Participando pela primeira vez do  ComKids Prix Jeunesse Iberoamericano Brasil 2013, o SescTV concedeu o Prêmio Aquisição  ao filme de ficção La Luna en el Jardín, produzido em Cuba pelos diretores Yemelí Cruz e Adonoe Lima. O filme será exibido na programação do canal em data ainda não definida.

Confira lista com os premiados do festival.

Categoria 12 a 15 anos – ficção

1° lugar: Pedro e Bianca – episódio entre nascer e morrer, a gente cresce – BRASIL – direção: Flavio Mendonça e Roberto Moreira – uma produção de Fundação Padre Anchieta em parceria com a Secretária de Educação de São Paulo. Canal exibidor: TV Cultura São Paulo
2° lugar: Presentes: Mariana – ARGENTINA – Direção: Luz Lopez Mañe, Pablo Destito, Pablo Gilles – uma coprodução Mulata Produções e Canal Encuentro
3° lugar: A ltima reunião dançante- BRASIL – direção: Lisandro Santos – Uma coprodução da Cartunaria Desenhos e RBS TV

Categoria 12 a 15 anos – não ficção

1° lugar: Leve-me para sair- BRASIL – direção: José Agripino – Produção Coletivo Lumika
2° lugar: Cuentos de viejos –  COLÔMBIA – direção: Marcelo De Mattei, Carlos Smith – coproduçao Hierro Animacion e Senãl Colômbia
3° lugar: Vivir juntos – episódio: Escuela  – Episódio premiado realizado na COLÔMBIA por –  Direção Marcela Rincón – Produção: Fosfenos Media –  RTVC -Senãl Colômbia – a série é uma coprodução entre COLÔMBIA, ARGENTINA, URUGUAI E EQUADOR.

Categoria 7 a 11 anos – ficção

1º lugar: El Mundo Animal de Max Rodriguez – COLÔMBIA – Senal Colômbia
2º lugar: Família Imperial – 7 de setembro – BRASIL – TV Futura
3° lugar: La asombrosa excursión de Zamba a la Casa Rosada- Argentina  Pakapaka

Categoria 7 a 11 anos – não ficção

1° lugar: Migrópolis – COLÔMBIA – direção: Karolina Villaraga – coprodução Hierro Animación e Señal Colômbia
2° lugar: Disque Quilombola – BRASIL – direção: David Reeks, com produção de Gabriela Romeu – empresa produtora: Estdio Veredas – Canal Exibidor: TV Brasil
3° lugar: La Lleva Internacional – episódio: Providencia – Direção: Claudia Bautista Arias – Produção: Ministério de Cultura de Colômbia e Señal Colômbia – a série é uma coprodução entre COLÔMBIA, ARGENTINA, MÉXICO E REPÚBLICA DOMINICANA.

Categoria – 6 anos ficção e não ficção

1° lugar: De cuento en cuento – Episódio: La invitación  – ARGENTINA – Direção: Makena Lorenza – coprodução Banda Aparte e canal Pakapaka
2° lugar: O Pequeno Monstro –  BRASIL- direção: Nildo Ferreira e Kaue Nunes – Produção: Instituto Oficinas Querô
3° lugar: Jugando con el agua – episódio: Nieve – ARGENTINA – direção: Juan Manuel Costa – Produção: Canal Pakapaka

Júri Infantil – 7 a 11 anos – não ficção
Empatados

– Con qué sueñas Episódio Trinidad Anwandter Díaz – CHILE  – Direção: Paula Gómez Vera, uma produção Mi Chica Produciones, canal exibidor – TVN – TV Nacional do Chile
– Dibuje Maestro   Episódio: David Peralta, Ver sin ver –  ARGENTINA  –  direção:  Christian Remoli   – coproduçao Coala Contenidos e Pakapaka
– TV Piá – episódio: Ecologia – BRASIL  – direção:  Dilea Frate – coproduçao: Piá Comunicaçoes e Serpente Filmes – Canal exibidor TV Brasil

Mídia nas escolas

Por Júnia Azevedo

O Midrash Centro Cultural, localizado na Zona Sul do Rio de Janeiro, abriu suas  portas, no final de maio, para um debate com estudantes, pais e educadores sobre o uso de novas tecnologias na escola. Para o encontro, foram convidados três estudantes: Luíza Aveburg, 11 anos, da Escola Eliezer Max; Daniel Ferreira, 14 anos, presidente do Grêmio Estudantil do Colégio Teresiano; e Jonathan Caroba,  17 anos, ex-aluno do Colégio Estadual José Leite Lopes/NAVE. E para dialogar com eles, a professora Regina de Assis, consultora em Educação e Mídia e ex-secretária Municipal de Educação e da Empresa Municipal de Multimeios da Prefeitura do Rio (MultiRio), e o jornalista Marcus Tavares, editor da revistapontocom. Juntos, eles discutiram os alcances e limites do que vem sendo realizado nas escolas, apontando caminhos e perspectivas para a integração construtiva das mídias à educação e à cultura dos estudantes e professores.

Regina abriu o encontro apresentando informações da pesquisa sobre o uso das Tecnologias de Informação e Educação, recém divulgada pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (Nic.br). A professora contou, por exemplo, que 86% das crianças pesquisadas possuem perfil em alguma rede social. Dessas, 69% fornecem seu sobrenome. Outro resultado do estudo é que 37% dos pais creem que não é provável que os filhos tenham problemas na internet.

Redes sociais

Depois da apresentação dos dados da pesquisa, os estudantes falaram um pouco sobre a relação que estabelecem com  as mídias, em especial com a internet e as redes sociais. Luíza Aveburg, a mais nova do grupo, de 11 anos, que está no 6º ano do Ensino Fundamental, disse que hoje tem noção do que representa ter um perfil no Facebook, mas entende que nem sempre foi assim: “As crianças mais novas não têm ideia do risco que correm. Eu mesma já recebi pedidos de amizade de pessoas estranhas. Lembro de uma que entrou, disse que eu era muito bonita e começou a fazer um monte de perguntas, como, por exemplo, onde eu morava”.

Daniel Ferreira, de 14 anos, presidente do grêmio estudantil de seu colégio, lembrou que é comum uma pessoa criar um perfil falso e se passar por outra. “É muito fácil um adulto mal intencionado se passar por uma criança”, alertou.

Os três estudantes contaram que eles, no dia a dia, se comunicam muito mais pelas redes sociais, como Facebook. É nesta rede que meninos e meninas marcam seus encontros, se falam e trocam dúvidas sobre lições escolares. Passar e-mail e telefonar são coisas do passado, avisam. Segundo eles, se um pai quiser saber da vida do filho, é só entrar na rede social.

 O evento, por Jonathan Caroba

A iniciativa foi mais do que interessante e deixou em evidência a necessidade de  acontecer uma conversa franca e direta entre alunos, pais e professores. Percebeu-se que quando a liberdade tecnológica é concedida cedo demais, o jovem torna-se mais disperso no que diz respeito à internet. Tem menor capacidade de foco ao fazer um estudo online, leva os problemas das redes sociais para a sala de aula e prioriza o contato via internet, menosprezando o convívio social.

É claro que, se usadas de maneira correta, a rede social, a internet e a comunicação através da rede podem, sim, ajudar no desenvolvimento do aluno na escola. A grande problemática, muito discutida entre pais, estudantes e professores durante a palestra, é o modo significativo e efetivo de inserção dessas novas tecnologias no ambiente de ensino.

Os estudantes falaram muito sobre a importante missão do professor de incentivar, aconselhar e fazer com que o estudante seja não só um bom cidadão, mas também um bom profissional. De maneira objetiva, o bate-papo abordou diversos temas, deixando as discussões em aberto, discussões que podem e devem ser levadas para as salas de aula, para as conversas entre pais e filhos e para as redes sociais. 

Mídias na educação

Regina citou o filósofo Michel Serres, autor do livro “Polegarzinha”, ao afirmar que a geração de adultos hoje é neta da escrita e filha do livro. E acrescentou: “Já esses adolescentes e jovens de hoje são bisnetos da escrita, netos do livro e filhos da internet”. O grupo discutiu, então, se as mesmas estratégias pedagógicas utilizadas antigamente para educar continuam válidas. Regina e Marcus citaram experiências recentes, como as das “Flipped Classrooms”, que englobam o uso da tecnologia para alavancar o aprendizado em sala de aula. Esse tipo de prática inclui aulas por vídeo e troca de informações pela internet. Nesse modelo, primeiro os estudantes levam os temas a serem estudados para casa, antes de discuti-los em sala de aula. Eles pesquisam nos livros e na internet, interagem com os colegas e, só depois, levam os resultados para a sala de aula, quando, então, interagirão com os professores. O grupo concluiu que essa era uma boa proposta, mas que precisa ser bem estudada, pois possui prós e contras.

Marcus e Regina citaram também o trabalho que vem sendo realizado pela ONG educacional The Khan Academy, que oferece uma coleção gratuita de mais de 3.800 vídeos na internet, com lições de matemática, história, medicina e saúde, finanças, física, química, biologia, astronomia, economia, ciência da computação, entre outras matérias.A Khan Academy possui mais de 200 milhões de videoaulas gratuitas. Regina alertou que a introdução das mídias integradas aos currículos e aos projetos pedagógicos das escolas precisa ser realmente bem feita. “O que importa é conhecer e saber como as linguagens das mídias audiovisuais, digitais e impressas impactam sobre os processos de construção de conhecimentos e valores dos estudantes”.

Surgiram alguns exemplos de práticas interessantes, como os benefícios da troca de informações entre pessoas de estados diferentes. Segundo os dois especialistas, como os alunos do país estão submetidos aos mesmos conteúdos, entender como cada um aprende em sua região, com certeza seria muito benéfico para o processo de construção de conhecimento e de valores.

Transtorno de atenção

Outra questão discutida pelo grupo foi a interdisciplinaridade. A questão foi colocada pelos pais que participaram do bate-papo. Será que os jovens entendem por que devem estudar determinada matéria? Será que as distintas matérias “conversam” umas com as outras para ampliar e aprofundar os conhecimentos? Os alunos veem o uso prático dessas disciplinas na vida? “Acho importante estudar todas as matérias. No Ensino Fundamental não temos maturidade ainda para decidir a profissão que teremos quando adultos. É fundamental esse conhecimento amplo, para podermos ter no futuro a capacidade de escolher”, afirmou Jonathan Caroba, de 17 anos.

O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) também foi abordado pelos próprios estudantes. “Tem gente que usa isso como desculpa para não se esforçar. Eles falam: meu psicólogo disse que eu tenho transtorno de atenção, nem adianta estudar”, contou Daniel Ferreira. Os outros estudantes concordaram. Todos tinham casos semelhantes para contar.

A importância do espaço físico da escola também foi abordada. Sabe-se que é possível aprender em casa, com a família, com a televisão, com os celulares e a internet. Então, ainda é necessário ir à escola para aprender? Por que vamos ao colégio? Luíza lembrou-se de situações dentro de sua escola judaica onde convive com colegas católicos: “Acho legal essa troca. Com eles eu aprendo coisas que talvez nunca soubesse”, explicou Luíza, revelando a necessidade do espaço da escola para socializar e aprender a dividir. Regina acrescentou que a escola é o lugar ideal para a sistematização de conhecimentos e a convivência construtiva com uma variedade de pessoas e situações socioculturais.

O diálogo funciona mais do que a proibição

Em relação ao uso da internet em casa, o grupo reiterou a importância do diálogo com os pais. “Criança é curiosa. Se o pai proíbe alguma coisa, aí é que a gente vai querer saber. Por que ele proibiu? É melhor dizer o porquê: ‘Filha, é perigoso entrar aí porque entra vírus na máquina’”, explicou Luíza.

Em vez de proibir, os educadores devem explicar porque um site é inadequado e não confiável. Mas o diálogo tem que ser uma via de mão dupla, pois, frente a tantas novidades, os adultos também precisam estar abertos para conhecer melhor as novas mídias, de forma a serem capazes de avaliá-las criticamente.

Segundo os estudantes, os pais precisam estar mais próximos das escolas, para não passarem exemplos equivocados. Eles contaram que é bastante comum os alunos, no meio da aula, receberem ligações e mensagens dos pais por meio dos celulares: “Professor, vou ter que atender, é minha mãe!”.

No final do encontro, foi ressaltada também a importância de a universidade se colocar nesta discussão, procurando capacitar melhor os professores. “A universidade ainda ensina para os séculos XVIII e XIX. É urgente rever esses processos, pois já estamos no século XXI, que oferece ricas oportunidades de acesso e democratização de conhecimentos”, destacou Regina de Assis.

O debate, realizado no dia 27 de maio, encerrou o ciclo de palestras com especialistas das áreas de comunicação, educação, nutrição e psicologia. Nos outros eventos, realizados nos dias 6 e 20 de maio, estiveram presentes também o jornalista André Trigueiro, a publicitária Nádia Rebouças, a nutricionista Luciana Ayer e a psicóloga Laís Fontenelle. Os temas abordados, respectivamente, foram obesidade infantil e consumismo na infância. Os três encontros foram realizados pelo Midrash em parceria com o Instituto Alana, organização sem fins lucrativos, que trabalha em várias frentes para encontrar caminhos transformadores que honrem as crianças.

Resenha de livro

Por Luiz Antônio Coelho
Diretor do Departamento de Artes & Design da PUC-Rio  

O livro As crianças e os desenhos animados (Editora NAU), de Adriana Hoffman Fernandes, lançado este ano, nos traz uma pesquisa realizada há dez anos (finda em 2002), mas muito atual porque a frequência de uso da televisão pela criança não deve ter mudado tão drasticamente desde então. Se mudou por causa de outras tecnologias, não terá mudado tanto no que se refere aos impactos apontados por Adriana. E muito daquilo que Adriana coloca em relação à TV, pode ser levado ao uso do computador e dos novos gadgets que conhecemos. Parece-nos que hoje, talvez, o computador ganhe da TV na disputa pela audiência e atenção da criança e do jovem mais pelo menu de possibilidades, que inclui a própria programação televisiva. Mas ainda tem os jogos eletrônicos, redes sociais ou comércio eletrônico.

A escolha feliz de buscar a relação da criança com a TV em séries de animação é um ponto a se destacar no trabalho. O tipo de animação enfocado por Adriana possui uma característica, que é a de gerar um modelo de texto que, por sua natureza específica, não tem compromisso com a representação realista, seja ela em sua feição imagética e sonora (na captação de um referente exterior do que chamamos de realidade através do processo de fotográfico tradicional), seja ela na busca pela narrativa e/ou na lógica de causa e efeito do documentário. Essa liberdade dá margens a “voos” interpretativos. Não que a animação não possa ser realista, pois a tecnologia permite e os objetivos do animador são aos mais variados: ele tanto pode fazer documentário via animação como optar por fantasia chamada adulta; pode optar pela lógica narrativa aristotélica quanto pela história sem princípio, meio e fim; pode querer buscar a aparência do real ou a imagem vanguardista. De qualquer maneira, a animação caracteriza-se, de modo geral e classicamente, como um tipo de representação e narrativa livres de amarras realistas. No caso das séries examinadas por Adriana, há momentos em que a identificação com as personagens ocorre por questões do tratamento realista dado ao tema, como o de Ginger. Mas certamente não é o caso de Dragon Ball, Sakura ou Os Simpsons, que se afastam da matriz narrativa realista que nos legou o romance literário.

O resultado aqui é que as histórias relacionam-se com a criança pelo imaginário e não pelo compromisso com a realidade; a “lógica” da fantasia prevalece. Assim, a meu ver, Adriana verifica no discurso de seus sujeitos a construção da subjetividade, da identidade grupal e da cultura da faixa etária enfocada sob interação com esse tipo de texto, cujos resultados estão mapeados e analisados no livro.

Um segundo ponto que gostaria de ressaltar é o do letramento televisual, na relação Educação/Comunicação. Adriana nos evidencia que num contexto de mídias audiovisuais, não há como prescindir desse letramento na escola e também em outros mediadores como a família, a religião ou, os grupos sociais que se frequenta. O que me leva a outro ponto, que é o do multiletramento.

Não estamos mais vivendo num contexto de dez anos atrás, quando Adriana terminou sua pesquisa. Vivemos a fusão tecnológica, e aqui cito Henry Jenkins (2006), e o que Gilles Lipovestky e Jean de Srroy chamaram de “telosfera” (2009).[1]

Eu acrescentaria que não podemos mais falar neste ou naquele meio de comunicação com fez McLuhan (1994), ao identificar o meio com a tecnologia. O imbricamento de tecnologias faz com que hoje o telefone não seja mais só telefone; a TV não seja mais só TV, rádio, vídeo, games e mesmo o computador não é representado pela mesma tecnologia de dez anos atrás. Nem o livro ou o jornal são os livros, jornas ou revistas de alguns anos atrás. Hoje temos de adaptar nosso vocabulário e pensar na mediação, no processo, e não em um meio individualizado com implicações inscritas em uma tecnologia singular. Aqui o termo “mediação” vai ganhar uma acepção diferente daquela trazida por Barbero ou Orozco-Gomes, conforme o texto de Adriana. Aqui ele quer dizer “fusão de antigas mídias”.

Daí que a realidade nos exige, e não apenas da criança ou do mestre, um desempenho com a mediação tecnológica que compreende o que chamamos de multiletramento. Isso acontece e precisa acontecer sem o que o mundo passa a não mais fazer sentido para o “iletrado tecnológico”. Ele torna-se um excluído e não consegue funcionar neste cenário. Fujo aqui das expressões muito usadas para estes casos de “analfabeto funcional ou analfabeto tecnológico”. O conceito tradicional de um indivíduo analfabeto pode implicar a ideia de que ele não funciona em determinado contexto social porque não domina a linguagem verbal escrita. Na realidade, as pessoas funcionam através dos conhecimentos que carregam; conhecimentos que são das mais variadas naturezas e origens; podem ser de natureza livresca ou não; podem advir das mídias visuais ou da experiência de vida. O analfabeto apenas não decodifica um tipo de linguagem, mas, com certeza, domina outras linguagens. Temo que o termo “analfabeto” possa trazer muito preconceito em relação à capacidade humana.  Uso “iletrado” porque nos dá uma ideia mais precisa de um simples desconhecimento de código e não de interação social.

O livro de Adriana chama, portanto, a atenção para algo que é atual hoje como era em 2002: a necessidade de compreendermos a construção da realidade pelo viés da mídia. Temas como o da passividade versus construção da realidade a partir dos textos veiculados na televisão, ou o do incremento da violência no comportamento do jovem associado à televisão pela Teoria dos Efeitos se repete em relação aos videogames, filmes ou vídeos veiculados na telosfera.

Para entendermos ou até discutirmos o tema precisamos também nos tornar interatores (afastando a noção da passividade do termos receptor/espectador), isto é, leitores em um novo concerto de mídias.

Embora Adriana não adote a metodologia clássica da Análise de Discurso de Pêcheux (1988, 1990 e 1994) ou Orlandi (1994, 1996 e 1999), recupera o relato como matéria de análise, enquanto espaço de criação, reforço de sentido e socialização. Parte de moldura teórica consistente como Orozco-Gomes, Canclini, Martin-Barbero ou Beatriz Sarlo, entre outros.

Seu texto é um presente para mestres, pais e para quem queira abordar o tema fascinante da relação da Educação com a Comunicação.

BIBLIOGRAFIA

– FERNANDES, Adriana Hoffmann. AS CRIANÇAS E OS DESENHOS ANIMADOS. Mediações nas produções de sentidos. Rio de Janeiro: Nau Editora, 2012.
– 
JENKINS, Henry. Convergence Culture: Where Old and New Media Collide. New York: New York University Press, 2006.
– 
LEVIN, Thomas Y., FROHNE, Ursula and WEIBEL, Peter. CTRL [SPACE]: Rhetorics of Surveillance from Bentham to Big Brother. Cambridge: MIT Press, 2002.
– 
LIPOVETSKY, Gilles e SERROY, Jean, 2009. A tela global. Porto Alegre: Sulina.
– 
McLUHAN, Marshall, Understanding Media: The Extensions of Man. New York: McGraw-Hill, 1964. Reprint, with an introduction by Lewis Lapham, Cambridge, MA: MIT Press, 1994.
– 
ORLANDI, E. P. (org.) Gestos de leitura – Da História no discurso. Campinas: Editora da UNICAMP, 1994.
– 
_______. Interpretação. Petrópolis, RJ: Vozes, 1996.
– 
_______. Análise do discurso – Princípios e procedimentos. Campinas: SP: Pontes, 1999.
– 
PÊCHEUX, M. Les Vérités de la Palice. Paris: Maspero, 1975. Tradução brasileira: Semântica e discurso. Campinas: UNICAMP, 1988.
– 
_______. O discurso – estrutura ou acontecimento. Campinas: Pontes, 1990.
– 
_______. Ler o arquivo hoje, 1985, In: ORLANDI E. P. (org.) Gestos de leitura – Da História no Discurso. Campinas: Editora da UNICAMP, 1994.

[1]
Ver também LEVIN, Thomas Y., FROHNE, Ursula and WEIBEL, Peter. CTRL [SPACE]: Rhetorics of Surveillance from Bentham to Big Brother. Cambridge: MIT Press, 2002.

 

Tecnologia contribui para o aprendizado de alunos no Piauí

Do Portal Globo Educação

O Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) do município de José de Freitas, no Piauí, era um dos mais baixos do Brasil: 3,2 nas séries iniciais (o indicador pode variar de 0 a 10). A história começou a mudar em 2009, com a implantação do projeto ‘Aprendendo com Tecnologia’, realizado pelo Ministério da Educação (MEC) em parceira com a empresa Positivo Informática e apoio da Secretaria de Estado da Educação (Seduc) do Piauí. As escolas receberam lousas interativas, 
netbooks e infraestrutura moderna, com isso, alunos e professores ganharam um estímulo extra para aprender. Após quatro anos, os resultados não poderiam ser melhores, conta Jacquelane Cruz, coordenadora do projeto na Seduc.

“Acompanhei a implantação desde o início e vi a mobilização das pessoas. É com grande satisfação que constatamos o desempenho dos alunos melhorando. Em 2012 nosso Ideb chegou a 4,7 pontos, alcançado a média nacional. Os professores também estão mais motivados. Eles tiveram que correr atrás para aprender a mexer com a tecnologia, muitos não tinham sequer computador em casa. Foram oferecidas mais de 8.000 horas de formação para os docentes e todo ano temos oficinas pedagógicas”, explica a coordenadora.

O projeto é realizado em nove escolas do município e atende estudantes do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental. Entre os recursos pedagógicos implantados estão as Mesas Educacionais, que estimulam os alunos a trabalharem em grupo, e o Aprimora, que combina atividades interativas multimídia, sugestões para professores, avaliações periódicas e relatórios de desempenho dos alunos nas disciplinas de Matemática e Língua Portuguesa. Ana Ribeira, professora da Escola Agripina Portela, uma das participantes do projeto, conta que viu a necessidade de se aprimorar para poder ajudar os alunos.

“Eu usava pouco o computador até começar o projeto, mas, quando vi que poderia ser interessante para mim e para os alunos, me doei ao laboratório. Aprender Matemática com a ajuda de imagens é muito bom para os alunos, e os exercícios de Português também são excelentes. Alguns professores são mais acomodados, mas a maioria procura se qualificar”, ressalta.

Professores buscam qualificação em tecnologia da educação

Criados em um mundo com computadores, celulares e jogos eletrônicos, os alunos de hoje geralmente “sacam” muito mais de tecnologia do que seus professores. Na tentativa de se qualificar, os docentes procuram cursos como os oferecidos pelo grupo planetapontocom, que há 10 anos desenvolve soluções em tecnologia para educação. No curso ‘Por Dentro dos Meios’, professores e gestores escolares estudam a evolução das formas de comunicação ao longo da história da humanidade e são levados a compreender a importância de incluir novos métodos, meios e linguagens no seu trabalho em sala de aula. De acordo com Silvana Gontijo, presidente do planetapontocom, é importante preparar os professores para o desafio que estamos vivendo na educação.

“Cada vez mais a tecnologia está incorporada no cotidiano. A internet, as redes sociais, tudo isso muda a forma como as pessoas se relacionam, como elas pensam, como interagem… Logo, isso não pode ser ignorado na área da aprendizagem”, explica a presidente.

O curso é realizado a distância e não tem custo para os professores. Quem paga são as redes de ensino públicas ou privadas interessadas em qualificar os profissionais. Com duração de 80 horas e 9 semanas, ele é dividido em cinco módulos: Nova Sociedade e Novas Educações; Instrumentos para pensar, se expressar e educar; Ecologia cognitiva e novas interfaces; Planejamento da comunicação nas ações educativas; e Gestão de projetos de mídiaeducação. “Cerca de 1700 professores já fizeram o curso e 40 mil alunos foram impactados pelo que os docentes aprenderam. Devemos abrir uma nova turma em agosto”, adianta Silvana.

Centro de Estudos Avançado (CEA), em Santo Antonio de Platina, no Paraná, também oferece formação para os docentes interessados em aprender a lidar com as TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação). Segundo o professor Nelson Mascaro, a ideia surgiu da necessidade de ajudar os docentes a utilizar a tecnologia na sala de aula.

“As disciplinas de informática e tecnologias em sala de aula são exigidas em alguns concursos públicos. Então, foi proposto o curso que tem grande procura hoje em dia. A tecnologia é a facilitadora e não o objetivo. Na parte teórica o professor deverá rever conceitos de educação, repensar a nova escola a partir da Lei de Diretrizes e Bases, repensar o ambiente escolar e o ambiente social em que sua escola está inserida. Somente após questionamentos profundos sobre estes assuntos é que o professor poderá elaborar um plano de ação e encontrar na tecnologia ferramentas que facilitam o maior objetivo que é educar. Há uma transição entre a parte teórica e a parte prática do curso que é o reconhecimento do domínio de diversas tecnologias e linguagem que o aluno possui e que o distanciam do professor. Usamos aplicativos gratuitos para tabletssmartphones e notebooks que podem ser baixados gratuitamente pela internet. Para este curso aprender significa fazer”, ressalta o professor.

O professor deve ter o seu próprio notebook para fazer o curso e o custo é de R$ 400, com turmas de 20 alunos. Escolas e empresas interessadas em oferecer as aulas para seus professores também podem contratar a equipe do CEA. Mais informações por meio do telefone (43) 3534-3349 ou e-mail contato@cursocea.com.br

Universidades disponibilizam conteúdos online

Para estimular o uso da tecnologia na educação e incentivar o relacionamento entre professores, alunos e comunidade, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) lançou no dia 29 de abril o 
Portal e-Unicamp. Os vídeos, animações e aulas de diversas disciplinas podem se tornar uma ferramenta útil para a comunidade escolar, como explica a professora Vera Nisaka Solferini, coordenadora associada do grupo gestor de tecnologia educacional da Unicamp.

“O conteúdo pode ser baixado livremente. Temos muito material, principalmente, para alunos do Ensino Médio. Acho que a tecnologia na educação ainda sofre preconceito porque as pessoas lembram da educação a distância de antigamente, ou seja, ficou associada a um ensino de baixa qualidade. O ambiente virtual é novo, tem outra linguagem, que precisamos aprender a usar. A escola deve mudar, ninguém aguenta ficar sentado durante horas ouvindo o professor falar, precisamos de outras estratégias, aí que entra a tecnologia, tornando  processo de aprendizado mais interativo”, ressalta a professora.

A Unicamp e a Universidade de São Paulo (USP), que lançou o portal e-Aulas em 2012, seguem os passos de instituições internacionais como Harvard, Yale, Columbia, Massachusetts Institute of Technology (MIT) e Princeton, que já disponibilizam seus conteúdos na internet.

I Cúpula de Jornalismo Responsável

Por Mário Augusto Jakobskind
Do Observatório da Imprensa 

Em vários países da América Latina tem estado na ordem do dia discussões sobre jornalismo e o tipo de jornalismo que vem sendo praticado neste continente. A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), que reúne o patronado midiático das Américas, apresenta com muita frequência nos meios de comunicação os seus conceitos, que para muitos analistas estão mais voltados para a liberdade de empresa do que da imprensa propriamente dita.

Outros tipos de conceitos sobre o tema são praticamente ignorados pela grande mídia, cujos responsáveis tentam evitar o debate. E quando se coloca a discussão, a resposta tem sido sistematicamente o ataque com o falso argumento de que os defensores do debate sobre o tema tolhem a liberdade de imprensa, quando acontece exatamente o contrário.

O debate está aberto e prossegue, lamentavelmente sem que os leitores, ouvintes e telespectadores brasileiros tenham acesso a conceitos não defendidos pela SIP.

Nesse sentido, até agora sem nenhuma divulgação pela grande mídia brasileira, será realizada, nos dias 19 e 20 de junho, na cidade equatoriana de Guayaquil, a I Cúpula de Jornalismo Responsável, atividade que, segundo os organizadores, procurará ressaltar o papel dos comunicadores na era contemporânea e em tempos de transformações no continente.

Sem cerceamentos

O anúncio da realização da Cúpula, divulgado pela Telesul, foi feito pelo presidente do Equador, Rafael Correa, que ressaltou a importância do evento na luta pela verdadeira liberdade de expressão.

E em seu pronunciamento, além de criticar o que considera “ditadura midiática”, que “tanto mal faz a nossa democracia”, Correa assinalou, entre outras coisas, que a Cúpula, organizada pela Secretaria Nacional de Comunicação da Presidência equatoriana pretende “falar sobre o verdadeiro jornalismo” assegurando que isso seria impossível “sem uma imprensa responsável”.

Entre os temas a serem debatidos destaca-se o da responsabilidade social do jornalismo, os jornalistas e a construção da democracia, além da emergência das novas tecnologias de informação e comunicação, bem como a formação de jornalistas para os meios digitais.

Quando tomarem conhecimento da realização da I Cúpula de Jornalismo Responsável, os defensores da “liberdade de imprensa” na ótica da SIP, se não silenciarem sobre o evento, procurarão caracterizá-lo apenas com uma peça de propaganda do Estado, no caso equatoriano.

Faz parte da rotina do senso comum a crítica a tudo o que seja impulsionado ou organizado por qualquer Estado. E isso acontece não apenas entre os defensores do receituário neoliberal do Estado mínimo, como também de grupos críticos a qualquer tipo de ação estatal, inclusive não diferenciando um Estado democrático de outro autoritário do gênero Pinochet, por exemplo.

Eis um tema que pode gerar discussões, não só entre jornalistas e comunicadores de um modo geral, mas também entre os receptores da informação, ou seja, todos os cidadãos leitores, ouvintes e telespectadores com um mínimo de sensibilidade e que não aceitam as verdades absolutas impostas pela mídia tradicional que prefere ignorar fatos a arriscar questionamentos.

O próprio conceito de jornalismo responsável merece, claro, uma discussão aprofundada, sem cerceamento das informações necessárias para que o receptor tire a sua conclusão. Informações sobre a I Cúpula de Jornalismo Responsável podem ser de grande utilidade nesse sentido. O próprio debate e apresentação de temas contraditórios são também de utilidade.