Por trás dos Sonhos

Por Marcus Tavares

O menino vive buscando justificativas para fugir da escola. Um dial, ele encontra o motivo perfeito: a garota mais bela que ele já viu. Mas ela mora em um circo e ele não tem dinheiro para entrar. O menino embarca na grade aventura de crescer. Esta é a sinopse do curta Sonhos, de Haroldo Borges, que ganhou o Prêmio de Melhor Filme do júri da Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis deste ano.

Rodado no sertão da Bahia, o filme fez sua estreia na própria Mostra. Para o diretor Haroldo Borges, o prêmio é o reconhecimento do trabalho de toda uma equipe, de uma produção baiana, de uma produção nordestina. “E isso representa muito”, comemora.

Por e-mail, o diretor concedeu uma entrevista à revistapontocom, revelando um pouco mais sobre a produção do curta, de sua carreira e da tarefa de produzir no Brasil audiovisual para o público infantil.

Acompanhe:

revistapontocom – Foi o seu primeiro trabalho audiovisual com crianças e sobre crianças? Como você chegou ao projeto?
Haroldo Borges – Somos um coletivo de realizadores, a Plano 3 Filmes, e nos apaixona contar histórias onde a criança seja a protagonista. Já realizamos outros filmes para esse público, todos eles com carreira em festivais e difusão em escolas da rede pública, cineclubes e pontos de cultura, entre eles “Meninos” que foi o único sul-americano que participou do Pangea Day, evento transmitido dos estúdios da Sony para todos os continentes. Teve ainda o “Piruetas”, que integra o Programa Curta Criança, do Minc/TV Brasil, bem como o “Pequeno”, que também está rodando muitos festivais agora, entre eles o festival infantil Divercine no Uruguai, o Festival de Cinema Infanti (FICI), no Brasil, e o Festival de Cine para Ninos y no tan Ninos, no México.

revistapontocom – Como foi o processo de produção do curta Sonhos?
Haroldo Borges – “Sonhos” foi contemplado pelo Fundo de Cultura do Estado da Bahia. Filmamos todo o projeto em um pequeno povoado no sertão da Bahia, chamado Quicé. O filme foi rodado em sete dias. O protagonista é vivido pelo ator Jonas Laborda, que tem uma história muito particular: ele é palhaço. Sua família é toda de circo. Seu pai é palhaço, seu avo é palhaço. Sua história é tão curiosa que estamos desenvolvendo um documentário sobre sua vida “Jonas e o circo sem lona”. O ator que vive o pai de Jonas, no curta, é Cícero, também palhaço. E o circo que aparece no filme é na realidade o circo onde Cícero vive.  Quem dá vida ao personagem da garota é Uerla Cardoso, uma atriz encantadora, que em breve estará em muitos filmes por aí. E tem também o AC Costa, um ator baiano já consagrado nacionalmente.

revistapontocom – De onde surgiu essa história? Quem escreveu o roteiro?
Haroldo Borges – A escrita do roteiro foi compartilhada com Paula Gomes, que é produtora do filme. A história surgiu de uma longa pesquisa que realizamos em 2006, onde visitamos 35 circos itinerantes, para realizar um primeiro curta que tinha o circo no centro da história. De lá pra cá, nos aprofundamos no tema. Dessa experiência surgiram muitas histórias para contar.

revistapontocom – Como é gravar com crianças e sobre crianças?
Haroldo Borges – É sempre um aprendizado e muito enriquecedor para ambos os lados. A criança mantém os nossos sonhos de infância vivos, além de sempre aportar algo que é muito particular do seu universo na proposta do filme. Às vezes é uma brincadeira ou uma forma de falar muito regional. Poder aproveitar essa espontaneidade dá uma verdade ao filme que é muito bonita.

revistapontocom – A sua direção quis enfatizar o quê da história?
Haroldo Borges – A própria história! O trabalho da direção é fazer todos os elementos funcionarem em conjunto a serviço da história.

revistapontocom – O curta Sonhos representa o quê pra você?
Haroldo Borges – O sentido da vida!!!! (risos) O cinema faz parte de mim. Fazer cinema é contar histórias. O filme traz a vida, o maravilhoso e o fantástico muitas vezes escondem o terrível e o desesperador. É preciso estar atento e preparado para aprender com todas as experiências.

revistapontocom – Produzir cinema no Brasil …
Haroldo Borges – É uma grande aventura. O cinema digital salvou minha vida! Antes, no tempo do negativo, fazer cinema era impossível e agora, com o digital, é muito difícil, progredimos muito não? (risos). Temos hoje também a lei da obrigatoriedade de conteúdos: um outro ponto importante.

revistapontocom – E produzir cinema no Brasil com temática infantil…
Haroldo Borges – É necessário. É muito importante a realização de obras representativas da nossa cultura, da nossa identidade, para que nossas crianças se reconheçam e não nos enlatados em que são empurradas a consumir. Minha infância foi vivida nos anos 80. Assistia a todas as aventuras dos super-heróis dos Estados Unidos. Não existe nenhum problema em assistir à produção estrangeira, mas como existia apenas isso minhas memórias e lembranças hoje estão relacionadas com uma cultura estrangeira. Mas algo anda muito mal quando uma geração ou duas ou até três trazem suas lembranças mais afetivas relacionadas às culturas estrangeiras.

revistapontocom – Neste sentido, o que vem por aí? Mais filmes com e sobre crianças?
Haroldo Borges – Vem ai “Jonas e o Circo sem Lona”, vivido pelo nosso protagonista de o Sonhos. Trata-se do nosso longa-documentário que esse ano apresentamos um primeiro corte do filme no DocsBarcelona e no ano passado esteve no DocBuenosAires e no DocMontevideo. Com um personagem infanto-juvenil muito carismático, estamos apostando no seu êxito com esse público. Aguardem.

Criança: público prioritário

Por Marcus Tavares

Conjugar as palavras infância, cultura e política pública não é uma das tarefas mais fáceis. Muitas vezes, nem fazem parte do dicionário das gestões municipais e estaduais do Brasil. A autora, atriz e diretora Karen Acioly conhece bem essa história. Ela vem fazendo esta costura junto à Prefeitura do Rio de Janeiro, para manter as atividades do Centro de Referência Cultura Infância, que acaba de completar dez anos. Localizado no Teatro Municipal do Jockey, na Zona Sul do Rio, e ligado à Secretaria Municipal de Cultura da cidade, o espaço, ao sabor das mudanças e perspectivas políticas, vem contribuindo para a qualificação e difusão da produção cultural para o público infantil. Produção que privilegia a diversidade, a originalidade e a utilização de diferentes linguagens, respeitando a inteligência das crianças.

“As ações são desenvolvidas em três frentes”, explica Karen. Segundo ela, o Centro investe na pesquisa de linguagem, na investigação do processo de trabalho de uma produção cultural para a criança, que pode estar ligada, por exemplo, ao teatro, à dança, à arte circense, às artes plásticas ou, simplesmente, à escuta musical. Neste sentido, o Centro promove, sempre de forma gratuita, oficinas, debates, encontros e formação, como as atividades do Café com os mestres, no qual especialistas produtores e diretores culturais falam sobre o processo de criação das obras. Há ainda o projeto Experiências Criativas, onde os participantes vivenciam a metodologia de trabalho de diferentes diretores e autores “numa espécie de circuito criativo”. Todos os alunos têm aulas com cada diretor, trabalhando temas e autores distintos. Ao final, são apresentadas ao público cenas selecionadas pelos próprios alunos e mestres. Além de Karen Acioly, estão no corpo docente os diretores e autores teatrais Lucia Coelho, Caique Botkay, Miguel Velhinho, Paulo Reis, Mônica Alvarenga e Ana Teixeira.

Mais de 560 espetáculos encenados

A difusão deste e de outros trabalhos consiste na segunda frente de ação do Centro. Continuamente, o espaço recebe propostas de projetos culturais para serem encenados no próprio Teatro Municipal do Jockey. Karen e sua equipe avaliam a pertinência e a contribuição de cada proposta. Aquelas que caem no senso comum de oferecer o lúdico pelo lúdico às crianças, sem um aprofundamento teórico e estético, e as que enxergam o público infantil como simples expectador do amanhã, e não como cidadão do mundo de hoje, são deixadas de lado.

Parte dos espetáculos encenados compõe o projeto chamado Altamente Recomendável Escola. “Quarenta sessões dos melhores espetáculos de nossa programação são especialmente apresentadas, no Teatro do Jockey, para essa galerinha das escolas municipais receber novos conhecimentos e criar novas ideias”, conta Karen.

De acordo com a diretora, trata-se de uma galerinha que cresceu assistindo aos espetáculos e que hoje já possui um olhar diferente, crítico e estético frente ao que é ofertado pelo espaço e pelo mercado. “Não somente as crianças, mas os pais também. Não escolhem mais um espetáculo por escolher, mas a partir de um repertório diverso. Isso é crítica, estética. Isso é refinamento da produção e visão artística, o que faz diferença”, acrescenta e comemora. Numa cidade em que há pouco espaço para produção cultural infantil, o Centro já contabiliza cerca de 560 espetáculos encenados. “É ou não é um golpe de sorte?”, brinca Karen.

Catálogos reúnem memória da produção cultural da infância brasileira 

Como terceira frente de ação está o trabalho de resgate da memória da produção cultural brasileira voltada para a infância. A equipe já produziu o I Catálogo Livre do Teatro Infantil que reúne uma base de dados de grupos, companhias e instituições dedicados à produção cultural para o público infantil. Para celebrar os dez anos, nos dias 3 e 4 de agosto, será lançado, no Teatro Municipal do Jockey, o segundo volume (II Catálogo Livre – Cultura Infância), que traz a história de alguns profissionais brasileiros que se dedicam à produção cultural para as crianças. “O trabalho de memória também conta com o portal Conexão Infância, aberto à colaboração de todos, inclusive das crianças, com o objetivo de promover a pesquisa, a memória, bem como a fruição e circulação dos bens culturais. Tem a função de criar novos espaços para a infância e todas as conexões transversais que possam vir a partir dela”, explica.

Quem for ao teatro conferir o lançamento do segundo volume do catálogo, também terá a chance de visitar uma exposição de fotos que resgata e retrata os dez anos da história do Centro. Nas palavras do artista Gustavo Bicalho, da Artesanal Cia de Teatro, um Centro que, na verdade, é “um espaço onde as produções para as crianças ocupam o lugar de destaque, não sendo relegadas ao segundo plano – como acontece na maioria das vezes”.

Em depoimento ao portal Conexão Infância, Bicalho destaca: “Quem conhece o espaço sabe o trabalho que lá é realizado. Pena que é sempre tudo muito difícil e batalhado. Sempre me pergunto até quando a cultura vai continuar sendo tratada como um “artigo” de segunda necessidade. Quantas vezes todo o trabalho construído pelo Centro já não foi ameaçado? Torço muito pela continuidade do espaço. Acho fundamental não só que ele continue a existir, mas que possa ampliar cada vez mais suas atividades. O Brasil é um país que trata o teatro para a infância e juventude com seriedade. Não podemos ser ingênuos achando que é melhor em outros países. Por isso mesmo, acho que temos um grande potencial para sermos referência nessa área. O Centro pode ocupar o espaço de promover e divulgar o que produzimos no país”.

Pequenos leitores, futuros poetas

Para celebrar os 100 anos de nascimento do poeta e artista Vinicius de Moraes, a TV Escola promove, mais uma vez, o concurso Pequenos Leitores, Futuros Poetas – 2013. A proposta é simples: inspire-se no universo de Vinícius de Moraes para criar seus próprios versos. Faça um poema a partir da frase de Vinicius: “O material do poeta é a vida”. Reúna um grupo de no máximo quatro pessoas e prepare um vídeo de até dois minutos. Poste no Youtube e envie para: tvescola.videos@mec.gov.br

É preciso enviar também os dados do autor do poema, da equipe produtora do vídeo e da sua escola (Nome, e-mail, telefone e endereço). A escola do vídeo mais acessado vai receber a visita da nossa equipe para uma reportagem exclusiva que será exibida no quadro TV Escola na Estrada da 10ª Semana de Poesia. Os criadores do melhor vídeo eleito pelo júri podem arrumar as malas, pois vão embarcar numa viagem pela cidade que inspirou o poeta Vinicius de Moraes: o Rio de Janeiro. As inscrições seguem até o dia 16 de agosto.

Clique aqui e leia o regulamento 

 

 

 

 

 

Anima Mundi chega à 21ª edição

Começa no dia 2 de agosto, no Rio de Janeiro, a 21ª edição do Anima Mundi. Mostras competitivas e informativas exibem curtas e longas de animação dos mais diversos gêneros, vindos de todo o mundo. O Estudio Aberto traz oficinas instantâneas e gratuitas de animação para o público. O Papo Animado apresenta ao vivo os grandes nomes da animação internacional. E o Anima Forum reúne os profissionais da animação para debates, palestras, workshops e negócios. A edição carioca estará em cartaz até o dia 11 de agosto.

Como é de praxe, a revistapontocom traz abaixo todos os curtas animados que participam da seção Anima Multi, que pretende realçar as melhores animações produzidas com a qualidade multiplataforma: trabalhos que se distinguem por sua independência de formato, nos quais a mensagem resiste a variações de formatos e tamanhos de tela. Trabalhos interativos, introduções de videogames, teasers, episódios ou pilotos de séries de animação e (por que não?) curtas de animação tradicional são só alguns exemplos de formatos que podem ser inscritos nesta abrangente competição. O importante é que o trabalho seja capaz de estabelecer, com a linguagem da animação, uma comunicação consistente e atraente para todos os tipos de mídia.

Os 20 curtas selecionados concorrem ao Prêmio do Júri Oficial e do Público, que poderá ver e votar através da web. Os interessados em participar da votação deverão se cadastrar no site do Anima Mundi. O prazo vai até o dia 10 de agosto. O resultado sai no dia seguinte. O escolhido pelo voto popular ganhará R$ 2 mil, troféu e certificado.

Aliança global pela alfabetização midiática

Do escritório da Unesco do Brasil

Organizações de mais de 80 países concordaram em juntar forças e promover juntas mudanças por meio da Aliança Global para Parcerias em Mídia e Alfabetização Midiática (Global Alliance for Partnerships on Media and Information Literacy – GAPMIL). A GAPMIL é um esforço inovador na promoção da cooperação internacional para garantir que todos os cidadãos tenham acesso à mídia e a competências de informação. Esta iniciativa pioneira foi lançada durante o Fórum Global para Parcerias em Mídia e Alfabetização Midiática (Media and Information Literacy – MIL), que aconteceu entre 26 e 28 de junho de 2013, em Abuja, Nigéria. O fórum tratou do tema “Promoção de Mídia e Alfabetização Midiática como Meios de Diversidade Cultural”.

O evento reuniu cerca de 300 pessoas de mais de 40 países Palestrantes e participantes discutiram, acordaram e adotaram um compromisso e plano de ação para a GAPMIL, o qual foi preparado anteriormente ao evento por meio de uma convocatória global de interesse a um debate online com três meses de duração. Foi estabelecido um comitê mediador formado por 11 pessoas, duas de cada região do mundo, incluindo seis mulheres (uma delas representante juvenil) e cinco homens.

Clique aqui para ver mais detalhes sobre o compromisso e plano de ação da GAPMIL (pdf em inglês)

As sessões buscaram destacar a ligação entre a MIL, o diálogo intercultural e a educação jornalística, abrindo uma oportunidade aos participantes de discutirem sobre como a educação jornalística e a MIL contribuem com o diálogo intercultural. As instituições educacionais de jornalismo foram encorajadas a integrar a MIL e as competências interculturais em seus planejamentos pedagógicos.

Um aspecto importante desse debate envolveu a reflexão sobre possíveis diretrizes editoriais sobre reportagens interculturais, que farão parte de um capítulo do futuro livro sobre política e diretrizes estratégicas em MIL. As sessões também serviram para promover a publicação recém lançada pela UNESCO, “Alfabetização midiática e informacional: currículo para formação de professores”. O plano de ensino sobre jornalismo intercultural for particularmente destacado para beneficiar os educadores de jornalismo presentes.

Os participantes solicitaram o acesso a competências em MIL para todos os cidadãos e uma ampliação complementar de abrangência territorial para possibilitar a implantação de mais plataformas de mídias comunitárias como rádio, televisão, jornais, bibliotecas e reportagens investigativas sobre eventos, de forma que os cidadãos possam se empoderar mais com informações necessárias para tomar decisões e engajar no intercâmbio intercultural.

Notou-se a crescente influência das mídias sociais nas sociedades, especialmente entre nossos jovens. Os participantes recomendaram às autoridades que aproveitassem esses potenciais positivos de empoderamento cívico, e também mencionaram os riscos de promover iniciativas nacionais em MIL. Os desafios de infraestruturas básicas como energia e banda larga para a internet foram ressaltados. Como afirmou um dos palestrantes, Cecile Coulibaly, da Associação Internacional de Bibliotecários e Documentalistas Francófonos:  “É bom que estejamos discutindo sobre mídia, alfabetização midiática e informacional e sobre questões interculturais. Às vezes, temos a impressão de que a mídia é diferente das bibliotecas. Eu acho que devemos todos sentarmos juntos e refletir sobre como devemos educar as pessoas para serem informadas. Devemos reunir nossas experiências/habilidades para criar programas nacionais que possam ajudar os cidadãos em todos os níveis sociais para evitar que sejam dominados pelo excesso de informação nas redes sociais, que sejam desinformados, que sejam dominados por anúncios de propaganda, que desviam a atenção e podem direcioná-los ruma a segregações e conflitos”.

Organizações interessadas podem se candidatar para fazer parte da Aliança Global em MIL pelo link (em inglês): Complete survey to be associate with Global Alliance on MIL.

É da nossa conta 2013

Crianças e adolescentes do Brasil elaboraram propostas pelo fim do trabalho infantil e pelo trabalho adolescente protegido. A ação integra a Campanha É da Nossa Conta que foi lançada no dia 13 de junho, em Salvador. Uma outra etapa ocorreu em São Paulo, nos dias 24, 25 e 26 de junho, com oficinas e debates sobre a questão com agentes públicos do semiárido brasileiro.

As propostas apontam possíveis caminhos para um Brasil sem trabalho infantil e com trabalho adolescente protegido, principalmente no contexto dos megaeventos, como Copa das Confederações, Copa do Mundo, Olimpíadas e datas festivas do País. As propostas vindas dos jovens acrescentaram conteúdo à estrutura da campanha, divididas nos pilares Reconheça, Questione e ParticipeO objetivo, agora, é que até o fim da campanha, em dezembro, o debate continue para que sejam fomentadas novas ideias. As 12 propostas jovens consolidadas em debates por redes sociais e em encontros presenciais são:

Reconheça
1. Vamos fazer com que as pessoas vejam as consequências do trabalho infantil doméstico. É um trabalho duro que tira a infância de milhares de crianças e adolescentes, principalmente das meninas. E pior: elas ficam mais expostas a maus tratos e a exploração sexual.
2. Queremos ter palestras e oficinas nas escolas de todo o país explicando o que é trabalho infantil e trabalho adolescente desprotegido e falar do trabalho aprendiz. Muita gente não sabe.
3. Não compre produtos nas ruas e nos sinais de trânsito, você não está ajudando os meninos e meninas que estão lá. Se você faz isso, só está contribuindo para a exploração deles.
4. Se na cidade já é difícil combater o trabalho infantil, imagine no campo? Queremos fazer caravanas para cidades do interior do Brasil e conversar com crianças e adolescentes como nós. Vamos fazer vídeos e mostrar como é a vida deles para que todos saibam e possam ajudar.

Questione
5. Precisamos quebrar o tabu de que trabalho infantil “ajuda” as famílias. É trabalho de meninos e meninas que deveriam estar na escola, sendo crianças e adolescentes. Dizer que “melhor estar trabalhando que roubando” ou “que já está encaminhado na vida” é uma ilusão.
6. Sabemos que a ligação da escola com a comunidade cria laços mais fortes com as famílias. Queremos fortalecer ainda mais esses laços entre família, escola e comunidade. Todos são responsáveis por nós.
7. Frases como “você só estuda?” “Não faz mais nada na vida?” não podem ser estimuladas. Estudar, ser criança e adolescente é um direito de todos nós.
8. Queremos a criação de um espaço para tirar as crianças das ruas e reintegra-las à escola. Um espaço que acolha esses meninos e meninas mostrando outras possibilidades e com investimento do governo e empresas. Todos podem ajudar.

Participe
9.Queremos centros de apoio em escolas e instituições para encaminhamentos e denúncias sobre trabalho infantil e trabalho adolescente ilegal. Os adultos também precisam denunciar. Discar 100 é uma forma.
10. Precisamos de mais escolas em tempo integral com esporte, lazer e cultura. Mais tempo nas escolas estudando e praticando esportes é menos tempo na rua.
11. A escola precisa ser mais legal. Queremos escolas mais democráticas, abertas e participativas.
12. E para terminar, pedimos que olhem mais para o Estatuto da Criança e do Adolescente. Ele foi feito para ser cumprido. O que está lá é nosso direito e também o direito de milhares de meninas e meninos que estão trabalhando.

Como aconteceu?
As propostas foram recebidas de 13 a 31 de maio pela página do Facebook do Promenino. Além disso, as ONGs Viração e Cipó foram responsáveis pela mobilização com jovens de São Paulo e das regiões Norte e Nordeste.

Fonte da foto da capa – cidade bairro ong uniao © Christopher Jones – Fotolia 700

A experiência de (re)descobrir o cinema



Por Marcus Tavares

Volta e meia o cinema é objeto de estudo das escolas de Educação Básica. Conhecer a história, a influência e as características da sétima arte sempre atraem crianças e jovens, rendendo interessantes projetos interdisciplinares que aguçam a criatividade de alunos e professores. Que o diga a turma do 5º ano do Ensino Fundamental da Escola Sá Pereira, no Rio de Janeiro. No ano passado, os estudantes fizeram uma incursão pelo mundo do cinema. Da invenção às técnicas, os alunos também descobriram a importância da luz na formação da imagem, bem como as características do olho humano, exercitando a imaginação, a escrita e a leitura.

“O nosso ponto de partida foi exatamente o livro Como fazíamos sem, de Bárbara Soalheiro. Partimos dele para refletir com as crianças como era a vida sem tantos objetos. Pensando na necessidade do homem em se comunicar através das imagens, desde os tempos da pré-história, elegemos, dentre tantas possibilidades, a história do cinema. A nossa ideia era fomentar o desejo e a curiosidade pela linguagem cinematográfica, trazendo reflexões sobre o predomínio da imagem, desde o aparecimento da fotografia até a invenção do cinema”, explica a coordenadora pedagógica Rita de Oliveira.

A proposta de resgatar a história do cinema estava ligada ao projeto que a escola havia escolhido para desenvolver no ano passado: O Bicho Inventor. Ao final de cada ano, o corpo docente da Sá Pereira se reúne, discute e define qual tema será trabalhado no ano seguinte por todos os segmentos de ensino. Dinâmica que conta também com a participação efetiva dos responsáveis dos estudantes. Não se trata de uma decisão unilateral da escola. Os pais são convidados a dialogar e a opinar.  Inclusive, são eles que criam o samba-enredo que a escola coloca na rua, todos os anos, como primeiro movimento de apresentar à comunidade escolar o assunto que será pesquisado e aprofundado durante o ano letivo. Em 2012, o samba vencedor, O Carnaval das Invenções, foi de autoria do pai Leo Tucherman.

Com o bloco na rua, o projeto deslancha. Tudo devidamente documentado nos cadernos dos alunos, uma espécie de diário de bordo em que eles registram o que vivenciam. Envolvidos com o estudo sobre a cinematografia, as crianças se inspiraram em diferentes filmes para personalizar as capas dos cadernos. As aventuras de Tintin foi retratado pela menina Lia Buarque de Holanda Baltar na capa de seu caderno. Recheados de fotos e ilustrações, os cadernos das crianças foram reunindo também muitos, muitos textos, onde os estudantes exercitavam a criação de roteiros e personagens.

As atividades

Para dar conta disso tudo, Lia e sua turma participaram de diversas atividades ao longo do ano. Para começar, assistiram ao filme A Invenção de Hugo Cabret, leram o capítulo O Bicho Inventor, do livro História das Invenções, de Monteiro Lobato. Saíram da escola e foram visitar a exposição que estava em cartaz, na época, Chaplin e sua Imagem. A programação levou o grupo a pesquisar sobre a origem das imagens. Chegaram à fotografia. Voltaram ainda mais no tempo e chegaram ao praxinoscópio, às projeções do fenacistoscópio, à câmera escura. Refletindo sobre a necessidade de o homem registrar suas histórias e façanhas, chegaram às artes rupestres.

A partir dos suportes, construíram uma espécie de árvore genealógica de inventores relacionados à imagem: de Da Vinci a Thomas Edison. De Joseph Nicéphore Niepce a Louis-Jacques Daguerre. De Muybridge aos irmãos Lumière, que se fossem vivos receberiam aplausos dos meninos e meninas.

“Irmaõs Lumière, vocês nem imaginam a maravilha que é o cinema hoje em dia. Se não fossem vocês nunca as pessoas iriam ver a beleza que é o cinema. Hoje em dia o cinema mudou muito, hoje não precisa tirar foto rapidamente, é só filmar e pronto. Sabia que existem filmes em 3D? Uma pena que vocês não estejam aqui para ver”, escreveu o aluno Artur Melo, em seu caderno.

“Tínhamos em mente também apresentar o trajeto e o impacto causado por essa nova tecnologia que era o cinema. Assim como conhecer um pouco mais da linguagem que registra, em som e imagem, acontecimentos que integram povos e territórios e é um valioso instrumento de comunicação, transformação e discussão”, explica Rita.

Não foi à toa, que os estudantes discutiram o poder e a influência da imagem, bem como a importância do som, da música e da cor nos filmes. Da sala de aula, eles visitaram o Labo Cine, empresa carioca especializada em copiar, restaurar, revelar e produzir efeitos especiais em curtas e longas. A atividade fez ponte com o cinema nacional. A turma conheceu um pouco da história da cinematografia brasileira: fases, número de salas, equipamentos e filmes famosos. Tiveram acesso também a produções nacionais voltadas para as crianças, como o filme O Cavalinho Azul, de 1984, de Eduardo Escorel, baseado na peça homônima de Maria Clara Machado. Viram o filme depois de ter lido o livro, o que possibilitou a interface entre literatura e o cinema.

Interface que também chegou à Feira Moderna, evento anual da instituição que busca exercitar com e entre os alunos experimentos e descobertas na área da ciência.  A turma decidiu pesquisar alguns conceitos da física óptica, como a importância da luz na formação da imagem.

“O estudo da óptica ampliou a percepção das crianças em relação ao desenvolvimento da invenção do cinema. Na verdade, todo este tema surgiu depois que tivemos uma palestra de uma oftalmologista em nossa escola. Ela mostrou aos estudantes como o olho humano funciona. Foi bem legal. A Feira Moderna reuniu então essas descobertas. Além disso, em parceria com as aulas de arte, os estudantes também construíram brinquedos ópticos, aprendendo mais propriedades e características da luz”, conta Rita.

Integração escola/comunidade

A coordenadora explica que o processo de produção do projeto, cercado de muita pesquisa e estudo por parte dos professores e da coordenação pedagógica, se dá no cotidiano, no próprio processo, onde uma atividade puxa outra. O que orienta, na verdade, é o que a comunidade escolar vai sinalizando, apresentando, trazendo. Neste sentido, alguns conteúdos são privilegiados. “São escolhas que fazemos”, enfatiza Rita.

Tarefa fácil? Absolutamente. É um trabalho, muitas vezes, bem cansativo, no sentido de que as ações têm de fazer sentido, têm de ser instigantes, com o objetivo de constituir conhecimentos e valores nos alunos. Que o digam as professoras que ficaram à frente de todas as atividades: Bianca Oliveira Fernandez, Denise Barros de Abreu Morais e Elenilde Viegas.

Segundo elas, a prática diária exige dedicação e comprometimento da equipe da escola. O que é enriquecido, e muito, destaca Rita, pela presença ativa dos pais. “Como conhecem o projeto desde o ano anterior e acompanham cada passo que damos por meio do informativo da escola, produzido e distribuído toda semana, e do fórum dos pais, no site da instituição, eles sugerem atividades. A ida ao Labo Cine foi indicação de um pai de aluno que trabalha lá. A palestra da oftalmologista foi feita por uma mãe de um ex-aluno. Contamos ainda com a presença do animador Marcos Magalhães, do Anima Mundi, pai de dois estudantes nossos, que fez uma palestra sobre animação. Essa integração é muito importante”.

Integração que, na visão dos pais, faz muita, muita diferença. Para Wladimir Weltman, pai do aluno Francisco Weltman, a parceria é uma maneira de os responsáveis estarem presentes na educação dos filhos. “Os pais participam ao longo de todo o ano. A escola sempre coloca os responsáveis a par das atividades, dos projetos. Para os alunos é bem bacana. Eles se sentem seguros. Sabem que podem contar conosco para qualquer problema na escola, que está sempre aberta ao diálogo. Isso é muito bom. Isso dá segurança para os estudantes, para nós, pais, e para a própria escola, que se sente apoiada. Todo mundo está neste processo. Uma coisa normal para os nossos filhos, o que não acontecia na minha época”, opina.

Para finalizar o projeto, a garotada ainda visitou o Instituto Moreira Salles para conferir a exposição William Kentridge: Fortuna, que apresentou obras do artista sul-africano, que transitam pelo universo do cinema, escultura, gravura e performances.

“A linguagem cinematográfica trouxe informações significativas sobre a importância da imagem e fomentou discussões, pesquisas, aprendizados e o desejo de querer saber mais. Os filmes e a literatura tiveram um destaque especial em nossas tardes. Nossos pequenos autores mostraram-se grandes leitores! Com suas muitas ideias criaram histórias, brincaram com a imaginação! Assim, chegamos ao fim e aqui compartilhamos um pouco do nosso roteiro de trabalho e esperamos ter contribuído para que estes queridos meninos e meninas inventem, cada vez mais, novas cenas em suas vidas”, destaca o relatório do projeto, disponível no site da escola.

Sobre educação e audiovisual

Por Gilka Girardello
Professora do Centro de Educação da UFSC

Este ano a programação voltada a educadores da Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis teve uma intensidade especial – e olhem que a Mostra sempre deu muita atenção à educação. Qualquer pessoa que tenha estado no cinema do Centro Integrado de Cultura nos dois dias frios em que aconteceu o Seminário Educação e Audiovisual, 8 e 9 de julho, pode confirmar isso. Acho que essa intensidade teve muito a ver com os dois ótimos documentários de longa-metragem sobre Educação que foram exibidos. Os dois são filmes novos, que já chegaram anunciados pela propaganda boca-a-boca  e via internet entre educadores e cineastas.

O primeiro filme, A Educação Proibida, do jovem diretor argentino Germán Doin, é fruto da cultura participativa da internet, foi produzido por crowdfunding, está disponível na rede e já teve mais de 8 milhões de visualizações. Quarenta educadores de oito países da América Latina dão depoimentos criticando a educação tradicional, seu autoritarismo e conformismo, e defendendo uma educação mais humana e amorosa. Os depoimentos são entremeados por cenas de ficção em que jovens de uma escola tradicional protestam contra a educação entediante e repressora que recebem.

Os depoimentos são preciosos, e o filme é um material riquíssimo para animar debates, principalmente entre o pessoal ligado à Educação. E será que existe alguém que não tenha nada a ver com a Educação? Só por isso já teríamos de agradecer a German Doin pelos anos em que percorreu o continente de câmera a tiracolo, atrás de experiências educativas diferenciadas.

No debate com o diretor, no CIC, algumas pessoas da plateia questionaram o fato de o maior alvo das críticas no filme serem os professores – que o filme retrata muitas vezes como autoritários – sem dar tanta ênfase aos outros graves problemas que atingem as escolas. Também foi problematizada a predominância de depoimentos masculinos no filme, principalmente considerando que a maioria dos educadores são mulheres. Mas muita gente aplaudiu a escolha do tema, a variedade das linguagens, seu processo colaborativo de produção e distribuição, e a ênfase do filme na importância do amor no dia-a-dia das escolas. O filme rendeu um debate quente e oportuníssimo sobre o sentido da educação, atravessado por tensões éticas, estéticas e políticas, mostrando o poder de um bom filme para ajudar um coletivo a pensar.

No dia seguinte, foi a vez de o filme Sementes do Nosso Quintal comover a plateia. Depois que as luzes acenderam, no debate, muitas pessoas disseram que não queriam que o filme acabasse , para não terem que sair de dentro do seu encanto. Que encanto era esse? O da infância, certamente, mas também o do cinema.

Se o filme anterior apontava o que falta à educação, este celebrava uma experiência educativa feliz e inspiradora. A diretora paulista Fernanda Heinz Figueiredo, também trazida pela Mostra ao cinema do CIC, contou que passou quatro anos fazendo o filme no “quintal mágico” da instituição de educação infantil que ela própria frequentou quando criança – a veterana Te-Arte, de São Paulo.

Essa intimidade explica a absoluta naturalidade das crianças filmadas, como se a câmera fosse invisível, nos permitindo um acesso privilegiado às conversas e brincadeiras das crianças que passam suas manhãs em um espaço cheio de árvores, patos, passarinhos e lagartixas, entre os tambores rituais da cultura popular e concertos-surpresa de piano e clarinete.

Closes demorados e uma atenção paciente aos detalhes – aos olhos e às mãos das crianças, principalmente – nos ajudam a ver melhor o que elas estão pensando, fazendo e sentindo naquele lugar que é tão rico e ao mesmo tempo tão distante do consumismo. A câmera segue as crianças bem de pertinho em suas estripulias e trabalhos pelo quintal, fazendo com que de certo modo o fio narrativo das sequências seja construído por elas mesmas.

A sensibilidade da direção parece inspirada pela “pedagogia orgânica da simplicidade”, que, segundo a estudiosa Dulcília Buitoni, sintetiza a proposta educativa da escola, criada pela figura rara de Terezita Pagani.  A presença impressionante dessa mulher atravessa o filme do início ao fim, e faz com que Sementes do Nosso Quintal seja também uma homenagem a uma grande professora brasileira. Isso tem um papel importantíssimo, numa época em que tanto precisamos dar valor e visibilidade às referências admiráveis de educadores brasileiros.

Muita gente que trabalha com crianças vê todos os dias cenas inspiradoras como as que o filme mostra. Mas o que Fernanda Heinz fez é mostrá-las por meio de uma obra de arte, que assim nos toca e mobiliza ética e esteticamente, que assim nos ajuda a olhar de um jeito renovado e singular para as coisas à nossa volta.

Em resumo, Sementes do Nosso Quintal é um testemunho do valor do cinema – da arte do cinema – para nos ajudar a ver o que está na nossa frente. E não é por isso mesmo que defendemos a presença do cinema de qualidade na vida das crianças?

Conheça os filmes selecionados

A coordenação do Festival Internacional de Cinema Infantil – FICI – divulgou a lista de títulos selecionados para o 6º Prêmio Brasil de Cinema Infantil, que integra a 11ª edição do festival. Ao todo, 24 curtas-metragens nacionais concorrem ao prêmio, que pretende estimular a produção brasileira de filmes direcionados ao público infantil e juvenil, em três categorias: Histórias Curtas, Teen e Histórias Animadas. Veja a relação completa dos selecionados.

A mostra Histórias Curtas, de filmes de ficção, conta com seis títulos: “A história dos meninos que andavam de noite”, de Flávio Barone; “A nobre e breve história do beijo”, de Eid Buzalaf; “Com os pés na cabeça”, de Tiago Scorza e Gabriela Liuzzi Dalmasso; “Joãozinho de carne e osso”, de Paulo Vespucio; “Pequeno”, de Ernesto Molinero; e “Retrato da Lua”, de Diego Lopes e Claudio Bitencourt.

A mostra Teen, destinada ao público jovem, exibirá os curtas “A última reunião dançante”, de Lisandro Santos; “Destimação”, de Ricardo de Podestá; “Meu amigo Nietzsche”, de Fáuston da Silva; “Por Ela”, dirigido por Rafael Jardim; “Quadrinhos – Guia prático”, de Humberto Avelar; “Souvenirs de verão”, de Luíza Carneiro e Marina Erlanger”; e “Menino do Cinco”, de Marcelo Matos de Oliveira e Wallace Nogueira, vencedor do 40º Festival de Gramado.

Já a mostra Histórias Animadas, dedicada ao cinema de animação, exibirá 11 produções. “Bobibó”, de Antonio Sodré Schreiber, “João, o galo desregulado”, de Camila Carrossine e Alê Camargo, e “Xí! Comeram o lanche da vovó!”, de Alan Nóbrega, estão entre os concorrentes.

A escolha dos vencedores do Prêmio Brasil de Cinema Infantil é feita por um júri formado exclusivamente por crianças, e o melhor filme de cada mostra é contemplado com R$ 5 mil em serviços de laboratório oferecidos pelo Grupo Labocine. O FICI acontece entre outubro e novembro em diferentes cidades brasileiras, como Aracaju (SE), Salvador (BA), Natal (RN), Rio de Janeiro e Niterói (RJ). 

Confira a programação oficial

Já estão abertas as inscrições para o V Encontro Brasileiro de Educomunicação, que deve acontecer entre os dias 19 e 21 de setembro, no espaço do Memorial da América Latina, em São Paulo. O evento é promovido pela ABPEducom, pelo NCE/USP e pelo curso de Licenciatura em Educomunicação, da USP.

Mesas Redondas, painéis e oficinas compõem o programa, agregando-se um Cineclube Educomunicativo com o propósito de debater filmes de interesse para a educação. Enquanto nas Mesas Redondas será possível um contato com autoridades públicas e representantes de organismos de caráter nacional, nos painéis, serão privilegiados os relatos das mais recentes pesquisas elaboradas por concluintes dos cursos de Especialização Mídias na Educação (MEC) e Educomunicação (ECA/USP).

No V Encontro, serão homenageados dois educomunicadores latino-americanos recentemente falecidos: Juan Diaz Bordenave, especialista na área da gestão da comunicação nos espaços educativos e Pablo Ramos, um dos mais importantes promotores da educação para a comunicação no continente. Durante o evento, será realizada também a assembléia geral da recém-criada ABPEducom. A programação contará com a “cobertura educomunicativa”, promovida por adolescentes e jovens.

Inscrições
no site 

—- CONFIRA A PROGRAMAÇÃO —

DIA 19/09
19h – Sessão de abertura
Homenagem a de Juan Díaz Bordenave – Paulo Dias Rocha
Homenagem a Pablo Ramos – Eliany Salvatierra Machado
Exposição – Inauguração de pôsteres e fotos sobre práticas educomunicativas no Brasil
Prêmio Mariazinha Fuzari

DIA 20/09
Manhã – das 9h às 12h30 – Mesa Redonda I – Educomunicação midiática e políticas públicas
Tarde – das 13h30 às 15h

– Painel 01 – Educação e liberdade de expressão – os desafios da atualidade
Mediadora: Prof. Dra. Maria Cristina Castilho Costa, CCA – ECA/USP.
– As questões sobre a classificação Indicativa – Profa. Dra. Mayra Rodrigues Gomes, CCA – ECA/USP.
– O politicamente correto e o debate sobre liberdade de expressão – Jornalista Nara Lya S.Caetano Cabral.
– Censura e internet – os casos Anne Frank e Xuxa Meneguel – Profa. Dra. Barbara Heller, UNIP/SP.

– Painel 02 – A formação superior do profissional para o âmbito da educação midiática
Mediadora: Prof. Dra. Liana Gottlieb, Faculdade Cásper Líbero.
– O projeto da ECA para a formação do licenciado em educomunicação – Roseli Figaro, CCA-ECA/USP.
– O projeto da UFCG par a formação do bacharel em educomunicação – Danielle Andrade Souza, UFCG.
– O projeto da PUC/RJ para a formação do licenciado em mídia e educação – Rosália Duarte, PUC/RJ.

– Painel 03 – Educomunicação midiática no ensino básico
Mediador: Prof. Dr. Richard Romancini, NCE-ECA/USP
– Aproximações ao conceito da educomunicação no fazer educativo do Colégio Dante Alighieri – Valdenice Minatel, Colégio Dante Alighieri.
– Aproximações ao conceito de educomunicação no fazer educativo do Colégio Visconde de Porto Seguro – Savina Allodi, Colégio Visconde de Porto Seguro.
– Educomunicação em 140 caracteres: análise do uso da rede social Twitter por alunos e professores da SME/SP – Patrícia Lopes, Lato sensu Mídias na Educação – ECA/USP.

– Painel 04 – Educomunicação midiática no ensino infantil
Mediador: Prof. Dr. Claudemir Viana, NCE- ECA/USP.
– Produção midiática nas escolas de educação infantil – Prefeitura de São Paulo – Marcelo A P dos Santos, SME- São Paulo.
– Educomunicação no ensino infantil – Kamila Regina de Souza, UDESC.
– Olhares atentos: o exercício do olhar educomunicativo na educação infantil – Paula Fernanda Catarino, Lato sensu Mídias na Educação-ECA/USP.

– Painel 05 – Educomunicação midiática e audiovisual
Mediadora: Claudia Mogadouro, ABPEducom.
– A produção audiovisual com, para e por crianças e adolescentes na América latina – Eliany Salvatierra Machado, UFF.
– Bem-te-vi, o filme – uma experiência transcultural pelos cinco continentes- Ariane Porto, UNICAMP.
– Ver o mundo, ver a mídia: a experiência do Cineduc -Bete Bullara, CINEDUC- RJ.

Tarde – das 15h15 às 16h45

– Painel 06 – Mídia e educação: metodologias e abordagens
Mediador: Eduardo Monteiro , NCE-ECA/USP
– Proposta curricular da UNESCO para a alfabetização midiática
– Os estudos culturais como referência para os programas de mídia e educação – Maria Orofino, ESPM/SP.
– Práticas de mídia e educação – Alexandre Le Voci Sayad, Media Education Lab.

– Painel 07 – Produção midiática na educomunicação socioambiental
Mediadora: Luci Ferraz, ABPEducom.
– Uma experiência no programa Jovem Sustentável da Fundação Alphaville – Ricardo Jesus Santana, Lato sensu Educomunicação, ECA-USP.
– Programa de Educomunicação socioambiental do Ministério do Meio Ambiente – Débora Menezes– MMA.
– O vídeo na prática da educação ambiental dos índios guaranis em SP – Márcia Coutinho Ramos Jimenez, Programa Nas Ondas do Rádio, SME-SP.

– Painel 08 – Leitura educomunicativa da mídia
Mediadora: Profa. Roseli Fígaro, CCA ECA-USP.
– A sexualidade na grade horária da TV Globo – André Ortega Filho
– Funk e Hedonismo – Leandro Corte Falcão

Tarde e noite – das  15h15 às 21h15
Oficina de Práticas Educomunicativas I
– Cinemação, com celular – Marcílio Rocha Ramos, UFBA.
– Oficina de Leitura crítica de comunicação – Prof. Dra. Roseli Fígaro, CCA-ECA/USP.
– Cobertura educomunicativa – Viração, Nas Ondas do Rádio, Imprensa Jovem e FUNDHAS.

Tarde e noite – das 15h15 às 18h15
– Cineclube educomunicativo I
Coordenação: Claudia Mogadouro, NCE – ECA/USP.
Eliany Salvatierra, UFF e NCE-ECA/USP.

Tarde e noite – das 17h00 às 18h30

– Painel 09 – Educomunicação, juventude e a cultura da paz
Mediador: Prof. Ricardo Alexino, Lic. Educomunicação-ECA-USP.
– Cultura de paz: trabalhando a convivência através da educomunicação – uma experiência no CEU Parque São Carlos – Renata Oliveira Queiroz, Lato sensu Mídias na Educação-ECA/USP.
– Educomunicar para a diversidade – um estudo sobre a homofobia na escola pública – Raphaela Secco Comisso, Lato sensu Educomunicação-ECA/USP.
– Identidade negra entre os muros da escola: o processo educomunicativo em prol da construção de histórias de vida digitalizadas – Paola Prandini, NEIMBE e  AfroEducação.

– Painel 10 – Educomunicação midiática: games para a cidadania
Mediador: Maria Izabel Leão, NCE-ECA/USP e Jornal USP.
– A aprendizagem no século XXI: a utilização de games no processo ensino-aprendizagem – Leandro Ferreira de Oliveira, Lato sensu Mídias na Educação-ECA/USP.
– Advergames: uma reflexão educomunicativa sobre os efeitos da publicidade por meio dos jogos online – Tiago Soarez Lato sensu Educomunicação-ECA/USP.
– Jogos digitais educomunicativos com adolescentes – Carlos Eduardo Lourenço e Francisco Tupy, NCE-ECA/USP.

– Painel 11 – Interdisciplinaridade criativa: na mídia, na escola e na esfera pública
Mediadora: Tatiana Gianordoli, ABPEducom
– Produção de mídias por jovens e crianças nos processos educativos: Nas Ondas do Rádio e Imprensa Jovem – Carlos Lima – PMSP – Secretaria de Educação.
– A educomunicação nas ações comunicativas dos projetos interdisciplinares da rede SESI-SP – Mariluci do Carmo de Andrade, Lato sensu Mídias na Educação-ECA/USP e Rita Zanin, Lato sensu Mídias na Educação-ECA/USP.
– O parlamento estudantil na construção de uma esfera pública escolar, na perspectiva da educomunicação – Delcimar Bessa-Ferreira, Lato sensu Educomunicação-ECA/USP.

Noite
18h40 – Assembleia da ABPEducom – Coordenação Claudemir Viana – Secretário geral da ABPEducom.

DIA 21/09
Manhã – das 9h às 12h30 – Mesa Redonda II: Educomunicação midiática: fundamentos e processos

Tarde – das 13h30 às 15h

– Painel 12 – Educomunicação midiática na formação de professores
Mediador: Prof. Dr. Adilson Citelli, ECA/USP.
– Educomunicação e cidadania comunicativa: formação de educomunicadores para o projeto Mais Educação, no Rio Grande do Sul (parceria entre a UFSM e a SEDUC/RS) – Rosane Rosa – UFSM, e ABPEducom.
– Contribuição da UFPR para a formação de educomunicadores – Rosa Maria Cardoso Dalla Costa, UFPR.
– Cultura digital na educação: práticas e materiais de apoio para educadores – Adriana Silvia Vieira, CENPEC.

– Painel 13 – Para expressar a liberdade: por uma lei da mídia democrática
Mediadora: Daniele Próspero,  ABPEducom
– Campanha nacional por uma lei da mídia democrática – Maria Mello – Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação.
– O marco regulatório da Internet no Brasil – Sérgio Amadeu da Silveira – UFABC.
– Articulação da Sociedade pela democratização da comunicação – Sergio Gomes – OBORE.

– Painel 14 – Mediação Tecnológica no Espaço educativo
Mediador: Marciel Consani, NCE-ECA/USP
– Práticas educomunicativas na Informática Educativa – Jane Reolo, SME-SP.
– O laptop educacional na construção do afeto – a escola municipal Padre Miotti como estudo de caso – Marcos Ramos, Lato sensu Mídias na Educação-ECA/USP.
– A educomunicação e o professor orientador de informática educativa – POIE- Michele Marques Pereira Lato sensu Educomunicação-ECA/USP.

Tarde – das 13h15 às 18h15
Oficinas de Práticas Educomunicativas II
– Oficina de animação – Marta Russo
– Oficina de Leitura crítica de comunicação – Prof. Dra. Roseli Fígaro – CCA-ECA/USP
– Cobertura educomunicativa – Viração, Nas Ondas do rádio, Imprensa Jovem e FUNDHAS.
– Cineclube educomunicativo II
Coordenação: Claudia Morgadouro e Eliany Salvatierra.

Tade – das 15h15 às 16h45

– Painel 15 – Educação midiática e consumo
Mediadora: Thais Chita, NCE-ECA/USP
– Leitura crítica da publicidade infantil, Prefeitura de Louveira – Ana Flavia de Luna Camboim, Lato sensu Educomunicação-ECA/USP.
– Mídias, consumismo Infantil e educomunicação – Edilaine Ribeiro Lato sensu Mídias na Educação-ECA/USP.
– A experiências do Instituto ALANA na pesquisa e no advocacy em torno da relação entre criança e consumo – Laís Pereira, Instituto ALANA. 

– Painel 16 – Inclusão de práticas educomunicativas em projeto pedagógicos
Mediadora: Maria Cristina Mungioli, CCA-ECA/USP.
– Práticas educomunicativas no projeto Jornal na Educação da ANJ – Cristiane Parente, Jornal e Educação-ANJ.
– Práticas educomunicativas no projeto marista de educação – Emerson Aparecido de Souza, Lato sensu Mídias na Educação-ECA/USP.
– Práticas educomunicativas previstas no material de apoio do sistema salesiano de educação – Antônia Alves, NCE-ECA/USP.

– Painel 17 – Práticas educomunicativas e pedagogia de projetos
Mediadora: Silene Lorenço, ABPEducom.
– Formação midiática por meio da pedagogia por projetos, em escolas públicas    do Estado de São Paulo – Vagner Manaf, Lato sensu Mídias na Educação-ECA/USP.
– Estudo comparado de práticas educomunicativas Viração e Idade Mídia, Bruno Ferreira, Lato sensu Educomunicação-ECA/USP.
– O uso pedagógico de recursos midiáticos: a interface estudantes surdos e aprendizagem – Adriana Aparecida Mafra da Silva, Lato sensu Mídias na Educação-ECA/USP.

Tarde e noite – das 17h às 18h30

– Painel 18 – Alfabetização midiática na perspectiva da educomunicação
Mediadora: Cláudia Lago, NCE-ECA/USP.
– Práticas educomunicativas na (trans)formação do jovem receptor – Daniela Passato Majori, Lato sensu Educomunicação-ECA/USP.
– A Produção de mídia na escola: espaços de colaboração – Regina Célia Fortuna Broti Gavassa, Lato sensu Mídias na Educação-ECA/USP.
– Olhar o outro, olhar a si mesmo com a fotografia – Ângela Maria R. Sencio, Lato sensu Mídias na Educação- ECA/USP. 

– Painel 19 – A atuação dos Educomunicador em uma sociedade midiática: experiências com guias e manuais.
Mediadora:  – ABPEducom
– Mudando sua escola, melhorando sua comunidade, melhorando o mundo (UNICEF). Marina Rosenfeld, Assoc. Cidade Escola Aprendiz
– O espaço de atuação do Educomunicador em uma sociedade midiática educomunicação em movimento – Jose Luiz Adeve, Fundação Tide Setubal.
– Ensinar e aprender – Maurício Silva, Licenciatura em Educomunicação-ECA/USP. 

– Painel 20 – Educação à distância: qual o espaço da educomunicação?
Mediadora: Luci Ferraz – NCE- ECA/USP
– Educação sem distância – Romero Tori – Poli/USP
– Educação a distância na formação midiática de professores – Sônia Setti – UFPE
– Processos dialógicos na web – Vani Kenski, UNIVESP

Cinema Infantil de Florianópolis

Cobertura da revistapontocom dos primeiros dias da 12ª Mostra de Cinema Cine Infantil de Florianópolis:

– Entrevista com a coordenadora Luiza Lins.
– Encontro do cinema Infantil, com Beth Carmona, Karen Acioly e Evandro Salles.
– Adiada a divulgação dos editais Curta Criança.
– Audiência atenta e esperta, com João Pedro.
– Homenagem ao poeta Manoel de Barros.
– Lançamento do Guia de produção para cegos e surdos, do projeto Filmes que voam.
– Municípios do interior do país carecem de políticas públicas de audiovisual.

Ensino no sistema prisional

Por Marcus Tavares

Por preconceito e desconhecimento, a educação prisional brasileira, dever do Estado e direito dos cidadãos, vai sendo promovida à margem do dia a dia da sociedade. Ao que parece, a educação transformadora, que poderia contribuir para a ressocialização dos detentos, é negligenciada. Considerado por muitos como privilégio e não como direito, o ensino no sistema prisional apresenta deficiências e uma série de problemas. O principal deles: o acesso. Segundo dados do relatório Educação nas prisões brasileiras, de 2009, apenas 18% da população carcerária do país estudam. No Rio, dos 35 mil detentos, somente 5,6 mil internos frequentam as aulas das escolas prisionais, localizadas nas próprias instituições. De acordo com Maria do Socorro Martins Calhau, coordenadora do projeto Do Cárcere à Universidade, uma das linhas de ação do projeto de extensão da Faculdade de Educação da Uerj, faltam escolas, incentivo, apoio, comunicação, respeito e cumprimento do direito à Educação.


“Infelizmente, esse tema não é caro à sociedade, pois não se discutem as questões de Justiça e Direitos, mas, em vez disso, se cultiva a vingança. Nós que trabalhamos no sentido de defender o direito dos detentos à educação queremos que eles cumpram a pena, que se aplique a lei. Eles têm, sim, que pagar pelo crime, mas têm, por outro lado, o direito de mudar de vida, de estudar. Depois de eles pagarem pelo que fizeram, de acordo com o que prevê a legislação, o que farão? Essa ideia de que os presidiários ficam pouco tempo na prisão é errônea. Estão lá jovens, negros e pobres, em sua maioria, esquecidos pela família, pelo Estado, privados de liberdade e de educação durante décadas. Neste sentido, sabemos que a educação é libertadora, é transformadora dentro e fora das grades. Não defendemos o crime, mas o direito à educação, a oportunidade de redesenharem suas vidas”, avisa Socorro.

O projeto Do Cárcere à Universidade tem o objetivo de promover ações que auxiliem os estudos dos detentos no ensino superior. Hoje, qualquer interno pode se inscrever no vestibular oferecido, por exemplo, pela Uerj. Num levantamento realizado em 2011, a instituição contabilizava 17 estudantes do sistema prisional. “Número pequeno por conta do preconceito, da falta de comunicação e de um apoio jurídico, que poderia auxiliar os interessados nos estudos. Os que são aprovados têm direito aos estudos, mas, por estarem no regime fechado, não podem frequentar. Apenas os que cumprem regime semiaberto vão às aulas, não sem muita dificuldade e burocracia do Estado. O ideal seria termos um corpo jurídico que fizesse uma revisão no processo para ver se aquela pessoa já pode progredir para o regime semiaberto, uma vez que se encontra aprovado. Eis a nossa meta”, destaca Socorro.

O estudo Educação nas prisões brasileiras comprova o que Socorro afirma. O levantamento revela que 95% dos detentos brasileiros são pobres ou muito pobres. 65% são negros. Aproximadamente, dois terços cometeram crimes que não envolveram violência. Somente 8,9% cometeu homicídio. 60% são jovens, com idade entre 18 e 29 anos. Cerca de 8% são analfabetos e 70% não completou sequer o Ensino Fundamental. A taxa de reincidência é alta: gira em torno de 50 a 80%.

“Daí a necessidade de apoiar aqueles que decidem investir o tempo nos estudos. Primeiro, por uma questão de direito. E segundo por uma questão de sabedoria. É talvez a única chance que têm de transformar suas vidas”, frisa Socorro.

Nos bastidores

Vanusa Melo, professora de Língua Portuguesa, faz coro às palavras de Socorro. Militante na área, Vanusa conhece como ninguém a realidade diária de uma escola de ensino prisional. Há cinco anos, ela leciona no Colégio Estadual Anacleto de Medeiros, que fica no presídio Evaristo de Moraes, o conhecido Galpão da Quinta, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Neste ano, ela atende 35 alunos, matriculados no 6º, 7º e 8º anos do Ensino Fundamental.

“O presídio em que trabalho é o chamado seguro de vida, pois encarcera homens que, por algum motivo, solicitaram ou lhes foi determinado pela Secretaria de Administração Penitenciária que recebessem proteção de vida. Isso significa que muitos casos têm relação com crimes de natureza sexual, mas isso não é uma exclusividade, há várias outras situações, incluindo, por exemplo, sujeitos que têm problemas com criminosos ligados a facções do chamado crime organizado. Não sabemos o tipo de crime cometido, a menos que perguntemos ou que falem espontaneamente. Mas eu prefiro não lidar com essa informação no meu trabalho de professora. Até porque seria um pouco complexo pensar na ideia de gravidade de alguns delitos”, explica.

No dia a dia da sala de aula, Vanusa vem tentando trabalhar com diferentes linguagens. Em 2010, promoveu uma oficina de literatura. No ano seguinte, começou um projeto embrionário de cineclube. E no ano passado deu início ao projeto Cartas para Romeu, com os alunos do 8º ano e da 1ª série do Ensino Médio.

“O projeto surgiu quando resolvi exibir o filme Cartas para Julieta. A ideia era conversar sobre a importância do gênero ‘carta’, que estava trabalhando nas aulas de português. Além disso, alguns alunos solicitavam assistir a filmes que não tivessem temática social. Conjuguei as duas coisas, um pouco a contragosto, não porque não costume trabalhar temas diversos, mas porque achava o filme apenas razoável. Acho que é um filme que pretende falar de amor e destino, mas limitado nessa proposta. Em compensação, tem uma bela fotografia. Quando terminei a exibição, que foi bem silenciosa – o que me chamou atenção, porque é muito comum que os alunos passem o tempo da exibição fazendo pequenos comentários, geralmente descritivos –, todos os estudantes, homens com idade entre 24 e 60 anos, estavam bastante emocionados, alguns com os olhos marejados”.

Vanusa viu que aquela experiência não poderia passar em branco. Lembrando-se do enredo do filme e das atividades de leitura que já tinham realizado com a seção cartas de leitores ao “Doutor Alberto Godim”, psicanalista que responde às cartas na Revista de Domingo, do Jornal O Globo, a professora propôs ao grupo um projeto no qual cada estudante assumisse o papel de conselheiro, a exemplo de Godim.

“Propus que ensaiássemos uma vez com uma carta fictícia e que depois usássemos cartas reais, feitas por meus alunos da escola privada onde trabalhava. Toparam. Fiz então a proposta aos alunos da escola particular, uma turma de 2ª série do Ensino Médio, que, nas aulas de Redação, estava também estudando o gênero carta. Não se tratou exatamente de uma coincidência. Os programas de Português em séries diferentes muitas vezes coincidem. De um lado, tinha adultos encarcerados, com experiências de vida complexas e nem sempre exposta. De outro, jovens estudantes de uma escola privada da classe média do Méier”.

O resultado foi bem interessante. Os estudantes da escola privada escreveram cartas para os detentos, expondo suas angústias e questões. Em resposta, os internos trouxeram suas próprias experiências, ressaltando a importância de os jovens revisitarem, de uma forma transformadora, suas vidas e os problemas com seus familiares e com sua própria escola.

Mas a atividade não parou por aí. Num segundo momento, Vanusa estabeleceu nova ponte. Desta vez, com seus amigos, de diversas formações. Propôs, via Facebook, que cada um colaborasse mandando uma carta para cada ‘Romeu’, para cada interno.

“Expliquei o processo e recebi 14 cartas de homens e mulheres, todos dispostos a colaborar com a ideia e curiosos por receber a resposta. Essa novidade deixou os alunos ainda mais empolgados. Para alguns, tratava-se de um contato real com o mundo externo, especialmente para aqueles que não recebiam visitas. Um deles trocou correspondência com uma interlocutora que se queixava da idade avançada que a impedia de ser mãe. Ela se sentia triste, pois já tinha engravidado e tivera um aborto espontâneo. Não tinha um companheiro com quem dividir o sonho e isso dificultava tudo. Meu aluno tratou de pesquisar a possibilidade de tratamentos alternativos, pediu a esposa, que o visita com frequência, que levasse material sobre tratamento por acupuntura. Muito bacana”.

O trabalho com as cartas começou em julho de 2012 e ainda está em andamento, mas agora como atividade extraclasse, pois Vanusa não leciona mais para a antiga turma de 8º nem para a turma de 1ª série. A professora pretende repetir o trabalho com as atuais turmas.

Segundo ela, todos os envolvidos experimentaram conhecer ideias de universos ignorados ou conhecidos superficialmente. “Quanto a mim, fica fortalecida a ideia de que é nas práticas voltadas para o real e para a interação com o mundo, sobretudo na escola dos privados de liberdade, que está o maior sentido da escola. De outra forma, fica impossível pensar em práticas educacionais relacionadas à liberdade. Para os sujeitos do mundo tido por livre, espero que fique o encontro com ideias de internos do sistema penal, ideias não vinculadas ao crime, para, quem sabe, evidenciar a certeza de que ninguém é uma coisa só o tempo todo”, finaliza.

‘O cinema jamais foi mero entretenimento’

Por Marcus Tavares

Na área dos estudos de cinema e educação, Marília Franco é referência. Professora assistente do Departamento de Cinema, Rádio e TV da Escola de Comunicações e Artes da USP, Franco, há mais de 40 anos, defende o lugar ‘valioso’ que o cinema tem na constituição de conhecimentos e valores dos cidadãos. É dela a seguinte frase: “O cinema jamais foi, é ou será mero entretenimento”.

No intervalo da 8ª Mostra de Cinema de Ouro Preto, realizado em junho deste ano, Marília Franco, pesquisadora e especialista em linguagens audiovisuais e educação, conversou com a revistapontocom. Falou sobre o mundo contemporâneo, o papel do audiovisual e da escola nos dias de hoje.

Acompanhe:

revistapontocom – Qual é o lugar que o cinema ocupa nos dias de hoje?
Marília Franco – Acho que o lugar do cinema mudou completamente nos últimos 40 anos, quando eu comecei a trabalhar na área de cinema e educação. Houve uma mudança radical em todo o sistema de comunicação audiovisual no mundo. Hoje as gerações já nascem informatizadas. Não temos mais um espectador, mas, sim, um usuário de mídia que interage imediatamente, tanto repassando quanto comentando qualquer tipo de informação, nem que seja no Twitter ou no Facebook. Ou seja: houve uma grande mudança no ato de espectar. Mas como sempre digo: o cinema jamais foi, é ou será mero entretenimento.  Quando me formei em cinema e comecei a trabalhar, cunhei uma frase dizendo: qualquer filme é educativo. Fui duramente criticada. Mas até hoje acredito nisto. Naquela época, precisava qualificar teoricamente o que dizia. Foi o que fiz ao longo desses anos e hoje reafirmo: o que é educativo não é o filme, o cinema. Educativo é o momento de conexão entre o espectador e o filme. O que pode resultar dessa interação vai depender do estado do espectador, do momento psicológico e emocional em que ele está. Pode ser uma descoberta de si, da vida ou do meio social. É isso que é educativo, aliás, transformador. Isso, na verdade, vale para qualquer outra linguagem artística.  A única certeza que você tem é que você sofre um processo de transformação em maior ou menor grau. Um filme é sempre novo. Ele é renovado a cada novo acontecimento de espectar, até mesmo para aqueles que criaram a obra. A alma do homem e da sociedade são revisitadas e reinterpretadas em cada exibição, mesmo que haja apenas um espectador solitário num quarto anônimo de hotel. As grandes e eternas obras cinematográficas, quanto mais antigas possam ser ou futuristas pareçam, tem um tom de obra filosófica audiovisual, pois nos dão estímulo para pensar e compreender o passado e o futuro.

revistapontocom –  Neste sentido, pode-se dizer que a escola já trabalha nesta direção?
Marília Franco O cinema, assim como as demais linguagens artísticas, vem se colocando na escola. O problema é quando se tenta disciplinar a entrada dessas linguagens na escola, tornando-as parte de uma linha de montagem.  A escola não modificou seus métodos de ensino. Ela ainda pensa no ensino e não na aprendizagem.. Temos uma grade curricular, que é, literalmente, uma grade que aprisiona o aluno. Além disso, a instituição escolar tem uma metodologia de avaliação que não está preparada para o diferente. Uso sempre um exemplo: será que o professor de história de Cecília Meireles aprovaria o conhecimento dela sobre os inconfidentes lendo o Romanceiro da Inconfidência ou respondendo às perguntas da prova? A escola está muito mais preparada para aceitar que a Cecília Meireles coloque o conhecimento e a sensibilidade dela nas respostas da prova do que qualquer outra coisa. Neste sentido, ainda há escolas formais que desdenham do que eu chamo de educação sensível, através das linguagens das artes. Um contrassenso, pois quando se oferece, na escola, a oportunidade dos alunos experimentarem as expressões sensíveis/estéticas, uma outra forma de se estabelecer o contato entre o ser humano e o mundo, se propicia um grande momento revelador para o aluno.  A escola, principalmente para os adolescentes, se modifica. É recorrente como o conjunto de alunos rotulados de indisciplinados ou negligentes muda de atitude. Os grupos passam a perceber (ou a sentir) a escola de outra forma.

revistapontocom –  Os estudantes, por meio das artes, percebem um novo mundo?
Marília Franco Sim. Perceba: quase todas as expressões artísticas são coletivas. E, neste momento, os jovens se dão conta de que precisam se organizar hierarquicamente a partir da necessidade da produção. Não se trata de uma hierarquia imposta por uma estrutura de fora da dinâmica do grupo. Eles descobrem isso de dentro para fora. Isto surge, na verdade, de forma intuitiva. E a intuição não é algo ingênuo, primário, de primeira instância. O intuitivo tem muitos níveis. A estrutura daquilo que você imaginou, produziu, elaborou pode ser chamado de intuitivo,  mas é altamente constituído de conhecimento. Digo isso, pois cada pessoa – cada estudante – tem um desenvolvimento cognitivo particular, como uma impressão digital. Cada um tem um caminho absolutamente único. A escola massificada, moderna, baseada na linha de montagem, não privilegia isso. Ela tenta formar de maneira homogênea diferentes pessoas. Quando você introduz as linguagens estéticas e oferece essa possibilidade de contato e redescoberta, os alunos se redimensionam como seres humanos.

revistapontocom – Esse discurso do poder das linguagens artísticas não é novo. A academia vem discutindo isso há algum tempo. Por que esse debate não chega à escola?
Marília Franco Parte da academia vem discutindo isso, você quer dizer. Chega à escola por meio dos professores. São eles que estão fazendo e trazendo a inovação, não é a escola como instituição. Ela ainda é opressiva. Quem faz a escola é a burocracia da secretaria de educação. É preciso que essa escola institucional entenda que já saímos de um paradigma de um uso do conhecimento, na base da acumulação e repetição, uma característica da indústria de linha de montagem. Hoje você não tem mais que acumular certos dados. Pois muitos estão ao alcance da ponta do dedo. Você precisa entender conceitualmente as coisas. Quando precisar delas, basta consultar na web. O paradigma acumular/repetir está sendo substituído pelo de selecionar/ articular. No mundo contemporâneo é preciso que você saiba selecionar, num universo gigantesco de conhecimento que tem na ponta do dedo, qual é a informação que você precisa para desenvolver seu raciocínio. E mais do que isso: saber como articular essa informação com as demandas que estão sendo solicitadas a você. Há uma mudança radical de postura diante do conhecimento e do uso do conhecimento. A escola vem se adaptando muito lentamente a este novo paradigma.  Ainda está no mundo moderno e não no contemporâneo. Só que as novas gerações operam no mundo contemporâneo. O meu neto não tem nem quatro anos e tem o tablet como quintal. Isso vem chegando à escola, como disse, por meio dos professores e, lógico, dos estudantes. Mas precisamos compreender que se trata de um processo histórico.  As duas instituições sociais que mais demoram a se modificar são a Justiça e a Educação. Elas precisam absorver profundamente as mudanças da sociedade para organizar essa mudança em leis e métodos de transmissão/troca de conhecimento. Recorrendo ao fazer audiovisual, a transformação não se dará por meio de um corte seco, não acontecerá da noite para o dia. Ela vem se dando como uma fusão.

revistapontocom – Enquanto esta fusão não acontece…
Marília Franco Os professores vão tentando ter jogo de cintura para driblar a burocracia das secretarias de educação e os jovens vem ganhando, cada vez mais, voz e vez no mundo fora dos muros da escola. A voz das crianças e dos jovens pode ser uma voz protagonista no mundo contemporâneo. Na escola é uma voz calada. O aluno tem que sentar, ficar quieto e ouvir o professor. Ele tem poucas oportunidades de emitir o seu pensamento. E quando é permitido, deve fazer não em voz alta, mas de preferência por meio da escrita e em português correto. Se ele resolver escrever um rap na prova, a escola, como um todo, não vai aprovar. Ela ainda não está preparada para lidar com isso. Os professores estão. Alguns vão aceitar o rap e darão uma boa nota, mas a escola… É melhor ela não tomar conhecimento. Fico surpresa que a escola dos dias de hoje, por exemplo, ainda não fale sobre o aparelho cognitivo do aluno. Quando falo sobre isso com meus alunos, há um certo espanto. Pergunto sempre a eles: “O conhecimento funciona onde? Na alma? Na estratosfera? Do pescoço para cima?”. Explico então que a construção do conhecimento tem um fundamento fisiológico. Temos um aparelho cognitivo que opera a construção do conhecimento dentro do nosso corpo.  Por que é recomendado ministrar aula de Matemática no início do período das aulas? Porque é o momento em que o fluxo cerebral está mais alerta, está mais propenso à racionalidade da Matemática.  Se começarmos a dar nomes aos bois e a observar como as coisas funcionam, vamos descobrir que o mundo, fora dos sentidos, não existe para ninguém. Só reconhecemos o mundo a partir daquilo que vemos,  ouvimos, cheiramos e sentimos o gosto. Os sentidos são a matriz  fisiológica da construção do conhecimento. Então temos que começar a integrar esse fundamento para a construção de  Projetos político- pedagógicos.

revistapontocom – No século XXI, precisamos da escola?
Marília Franco A escola formal sempre terá um lugar importante na sociedade. O que é necessário entender é que ela não é nem pode ser um quartel. Tem que ser uma casa em que o conhecimento esteja abrigado, onde se proporcione ao individuo uma disciplina, uma concentração, um silêncio, permitindo que ele se volte para dentro de si e desenvolva, antes de tudo, o autoconhecimento. 

Os Três Mosqueteiros

Por Artur Melo, 10 anos
Aluno do 5º ano do Ensino Fundamental, da Escola Sá Pereira

Não se sabe como, mas os Três Mosqueteiros vieram parar aqui no Rio, no século XXI. Chegaram e ficaram meio tontos querendo saber quem era o Rei desse lugar. Eles estranharam as roupas, a movimentação da cidade, as pessoas andando e mexendo em seus celulares, os veículos, enfim estranharam quase tudo. Então, Athos resolveu perguntar para uma mulher que passava por ali:

– Dama, onde está o Rei deste país? Nós somos os Mosqueteiros do Rei!!!

– Rei??!! Hahaha… Aqui, não se tem um há muito tempo, a única coisa que temos é a presidenta Dilma.
– O que é uma presidenta?
– Ora é a pessoa que comanda o Brasil, que inclui o Rio, onde nós estamos agora.
– Mas como essa tal presidenta conseguiu assim poderes reais?
– Não, ela não tem poderes reais. Não deveria ter. São as pessoas que moram aqui, que escolheram a Dilma para organizar, comandar, este país.
– E onde está essa mulher?
– Na casa dos Presidentes, num lugar meio longe daqui.
– E qual é esse lugar?
– É Brasília.

Quando a dama se animou e já ia explicar aos mosqueteiros esse negócio de eleição, voto, foi se dando conta de que não estava falando com homens daquele tempo, mas,  sim, personagens de uma história muito conhecida. Ela foi ficando tonta, confusa e, antes que desmaiasse, Phortos, já irritado, foi interrompendo, e agradecendo:


– Tá, muito obrigado, mas agora temos que ir. E sai puxando Athos e Aramis.

Espertos como eram, não foi nada difícil descobrir um jeito de chegarem à Brasília, logo estavam em um ônibus rumo à capital. Pelo caminho, foram apreciando as cidades, as pessoas, a natureza. Assim que desceram do ônibus, se envolveram em um tumulto de gente vestida de branco. Acharam muito estranho. Seriam os súditos da presidenta? – pensaram, mas continuaram a andar com o grupo. Andaram, andaram. As pessoas começaram a estranhar homens vestidos daquela maneira. No início, pensaram que fossem fantasias para a manifestação, mas depois viram que não. Eles eram estranhos mesmo. Até que alguém perguntou:

– Quem são vocês? O que fazem aqui?
– Nós somos os Mosqueteiros do Rei. Como estamos sabendo que aqui só tem presidenta, viemos dispostos a servi-la, explicou Aramis.

Um homem que estava ouvindo a conversa, interrompe e fala:

– Aí, meu irmão, vocês perderam a viagem. A Dilma não está precisando de gente para servi-la, não, está precisando é ouvir a multidão. Queremos falar com a presidenta “pra ajudar toda essa gente que só faz sofrer”[1]. Ela está cercada de políticos corruptos, uns ladrões, um tipo de gente vândala que rouba o dinheiro de todos nós! – disse Django [2] – um negro muito forte e corajoso, que estava muito enfezado, por ali.

Então, os mosqueteiros se juntaram rapidamente e falaram uns com os outros:

– Políticos corruptos? Isso está parecendo mesmo sinônimo de gente ruim.
– Devem ser súditos traíras ou guardas vendidos, como aqueles do Cardeal.
– Então, nosso dever é ajudar a essas pessoas e combater os tais corruptos.
– É isso!! Vamos!!

A essa altura, todo povo já sabia quem eram eles e começou a gritar: “Um por todos e todos por um!” Chegaram na enorme Casa Branca, combateram todos os guardas, como se fossem aqueles odiosos do Cardeal, invadiram a casa e quando estavam prestes a falar com a Dilma… A presidenta fecha o livro que estava lendo (Os três Mosqueteiros) e eles voltam para a história.


[1] Legião Urbana. Faroeste Caboclo.
[2] Personagem inspirado no filme Django, escrito por Tarantino.

Mídias na escola

Por Pedro Henrique França
Webmaster e roteirista

Um aluno se depara com a Matemática a todo instante, basta olhar para uma tabela de preços, a numeração do ônibus ou as placas de trânsito. A Língua Portuguesa também é bem corriqueira na vida de qualquer pessoa, seja na comunicação oral e escrita. O mesmo pode se dizer da Física, presente nos fenômenos naturais que, muitas vezes, passam despercebidos, como a gravidade e a refração da luz. Tudo aquilo que cerca o aluno e o cotidiano dele fazem parte do dia a dia da escola, ou quase tudo.

Uma coisa é certa, nos dias de hoje, a mídia também integra esse cotidiano dos estudantes tanto quanto a Matemática, a Língua Portuguesa, a Física e as demais áreas de conhecimento. É uma condição natural da vida contemporânea. Nas grandes metrópoles, alunos de várias classes sociais passam mais tempo online do que dormindo. Sem falar no tempo gasto com a programação dos canais de TV e com os recursos digitais portáteis mais e mais polivalentes.

E, ao contrário do que se pensa, isso não é, de todo, ruim. Não é abominável a ideia de que o aluno esteja usufruindo dos meios de comunicação e de sua linguagem durante boa parte (enquanto ainda saudável) do seu dia. Pode-se dizer que a TV e a internet arrombaram as portas das casas de fora para dentro e levaram a comunicação do mundo exterior para o quarto de cada aluno. O que vai fazer a diferença é o uso que o jovem faz dessa ferramenta poderosa.

Nos tempos de hoje, o desafio do professor é integrar o conteúdo disciplinar que os alunos precisam aprender com as ferramentas que eles têm à disposição. A esmagadora maioria dos alunos guarda no bolso um celular com múltiplos recursos, que, em vez de ser aproveitado, é proibido.

Mas algumas escolas da rede pública de ensino do Rio de Janeiro vêm incentivando o uso de tais tecnologias. Bem, pelo menos, foi o que eu constatei na minha breve experiência em sala de aula. Durante o primeiro semestre deste ano, ministrei oficinas de mídia para três turmas, do 7º ao 9º anos do Ensino Fundamental, da Escola Municipal José Emygdio de Oliveira, localizada em Oswaldo Cruz, Zona Norte do Rio.

O convite partiu da simpática coordenação da escola em virtude do programa Mais Educação, do Ministério da Educação (MEC), que incentiva escolas com baixo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) a convocarem técnicos de diversas áreas de formação para ministrarem oficinas, em tempo extracurricular, com o objetivo de incentivar a permanência do aluno em tempo integral na escola. No meu caso, como técnico em roteiro de mídias digitais, formado pelo Núcleo Avançado em Educação (NAVE), Colégio Estadual José Leite Lopes, fui convocado para as oficinas de Mídia e Informática.

Meu trabalho era ensinar os alunos uma maneira construtiva de usar as mídias como método de aprendizado. Lembrando que o aprendizado vai muito além das paredes da escola. Mídia serve para a formação tanto quanto qualquer outra matéria da escola. Envolve conhecimento e cidadania. Envolve ética, no contexto do papel do jornalismo, a capacidade de persuadir através do discurso que a publicidade demanda. Envolve a arte de contar uma história através dos olhos do outro. Bem como o trabalho de pesquisa e cultura geral.

Foi um período curto, mas intenso. As oficinas me deram a oportunidade de trocar ideias sobre política, pedagogia, psicologia e vários aprendizados de cultura geral que os estudantes, conforme me garantiram, vão levar para o resto da vida. Também aprendi muito. E descobri que, no fim das contas, dentro da sala de aula, o professor se torna aluno. Aos professores, fica o apelo: não lutem contra a participação da mídia na vida estudantil. Aprendam a usá-la a favor da educação. Alunos: aprendam que a internet vai além das redes sociais, a televisão, além das novelas e os celulares não só servem para ficar ouvindo música por aí e tirar fotos no espelho para postar no Facebook. Esse pode ser o grande diferencial que a educação brasileira tanto carece.

Educação, uma pauta pouco relevante

Por Rolf Kuntz
Jornalista

Educação é um dos assuntos menos valorizados na imprensa brasileira e isso foi comprovado, mais uma vez, na primeira semana de julho. Sobram motivos para cuidar do assunto, mas, na falta de qualquer outro, bastaria a importância econômica desse fator para justificar uma atenção maior.

Neste ano, haverá de novo escassez de mão de obra qualificada, segundo os economistas da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Eles insistem nesse tema há alguns anos e já apontaram até uma questão mais grave e até assustadora: a escassez de trabalhadores meramente qualificáveis, isto é, em condições de receber treinamento na empresa. Também sobraram, no começo do mês, oportunidades para tratar do tema – desperdiçadas ou ignoradas na maior parte das publicações. As exceções foram o jornal Valor e a revista Veja.

O Senado aprovou na terça-feira (2/7) a aplicação de 75% dos royalties do petróleo na educação e de 25% na saúde. A presidente Dilma Rousseff havia proposto 100% para o setor educacional, mas estaria disposta a aceitar a fórmula aprovada pelos senadores, segundo informaram os jornais no dia seguinte. Também na quarta-feira (3), um enorme volume de informações sobre o panorama educacional em dezenas de países foi divulgado pela OCDE, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. Esse clube é formado por 34 países. São desenvolvidos, na maior parte, e alguns emergentes. O relatório apresentou novas estatísticas do grupo e de alguns países de fora, incluído o Brasil. Sem mais nada, esse documento já renderia uma bela matéria. Mas a maior parte dos pauteiros e editores deveria estar muito ocupada para se interessar pelo assunto.

Padrões de qualidade

Um pouco mais de atenção teria valido a pena. Com a decisão do Senado, as manifestações de rua (houve cobranças de melhores política para educação e saúde) e os novos números da OCDE, a imprensa poderia ter apresentado um material suculento e relevante. Afinal, a deficiência educacional é uma das principais desvantagens do Brasil diante dos concorrentes estrangeiros. É no mínimo tão importante quanto os transportes e a tributação. Além disso, um detalhe muito especial deveria ter chamado a atenção de mais jornalistas, se fossem mais atentos a certas peculiaridades da economia brasileira: por que a indústria, apesar do baixo nível de atividade, tem demitido tão poucos trabalhadores?

O alto custo das demissões é só uma parte da resposta. A falta de mão de obra de qualidade também é parte da explicação, como o pessoal da CNI já indicou mais de uma vez. Se o setor voltar a crescer de forma significativa, quem tiver demitido o pessoal mais preparado terá de enfrentar uma dura competição para preencher os quadros. Em outras palavras, o baixo desemprego no Brasil é explicável, em parte, por uma deficiência do país, embora seja apresentado pelo governo como indício de uma situação privilegiada.

Outros fatores, como as mudanças demográficas, também são relevantes para explicar a situação do emprego, mas, no caso da indústria, a qualidade da mão de obra tem importância especial. Em países com melhores padrões educacionais, empresas podem demitir e recontratar pessoal muito mais facilmente, porque a oferta de mão de obra com boa escolaridade é muito maior

Boa formação

O diário Valor distinguiu-se na edição de quinta-feira (4/7) pela página dedicada ao material da OCDE, enriquecido com entrevistas de estudiosos brasileiros de questões educacionais. Além de confrontar e destrinchar dados estatísticos, a matéria apresentou uma bela análise qualitativa da educação brasileira. De modo geral, o texto confirmou as opiniões negativas sobre as prioridades da política educacional – pouca atenção das autoridades aos níveis fundamental e médio – e a respeito da qualidade do ensino. Reforçou, além disso, um argumento há muito tempo sustentado pelos críticos mais atentos: mais dinheiro para a educação pode ser importante, mas boa gestão e boas escolhas poderiam proporcionar resultados muito melhores com os recursos já disponíveis. Fala-se muito sobre dinheiro, em Brasília, e quase nada sobre a eficiência na definição dos objetivos e na execução dos programas.

Além do mais, o material da OCDE proporciona uma excelente oportunidade para comparações internacionais com base nos dados mais novos. Autoridades brasileiras costumam confrontar dados nacionais de diferentes momentos para mostrar a evolução estatística do quadro educacional. Raramente cuidam de comparar os dados brasileiros com os de outros países, como se isso fosse irrelevante ou até injusto.

Mesmo quando comentam o desempenho de estudantes brasileiros em provas internacionais, procuram ressaltar a melhora da classificação, embora os representantes do país continuem quase no fim da fila. Em suma, gostam de comparar o Brasil com o Brasil, esquecendo um detalhe vitalmente importante: no mercado global, o Brasil tem de competir com outros países, justamente aqueles com políticas educacionais mais inteligentes e mais eficazes.

No fim de semana, a Veja saiu com duas páginas sobre os números da OCDE e a política brasileira. A maior parte da imprensa continuou longe do assunto. Tudo bem, o desastre do Grupo X, um dos grandes temas da semana, ainda renderia bom material, assim como os esforços da presidente para salvar sua proposta de plebiscito. Mas as grandes questões de longo prazo valem um pouco mais de atenção. Educação é uma dessas questões. Não se prepara uma geração tão facilmente quanto se constrói uma rodovia. Mas uma boa formação ajudará, em alguns anos, a construir estradas muito melhores e a produzir bens de qualidade superior para ser transportados por esses caminhos.

V Colóquio imaginário e educação

Será realizado, entre os dias 28 e 30 de agosto, na UFF, o V Colóquio Imaginário, Cultura e Educação. O colóquio tem o objetivo de promover, a partir de uma abordagem plural, discussões e reflexões sobre as práticas simbólicas que, em diversos âmbitos sociais, organizam a sociedade e a cultura dos grupos e sobre os modos pelos quais essas imagens são apropriadas pela educação, possibilitando o diálogo entre pesquisadores, docentes e estudantes de instituições brasileiras e estrangeiras que se dedicam às investigações dos temas em pauta.

acesse o blog do evento e participe

De acordo com a organização do colóquio, a conferência de abertura será realizada pelo professor José Carlos de Paula Carvalho, da USP. Haverá também outra duas: É possível “Educar” a imaginação?´, palestra conferida pela professora Maria Cecília Sanchez Teixeira (USP); e Educar a criança nova. Uma leitura mitocrítica das aventuras de Pinóquio de Carlo Collodi, palestra dos professores Alberto Filipe Araújo (Universidade do Minho/Portugal) e Joaquim Araújo Machado (Universidade Católica Portuguesa/Porto /Portugal);

Cinema infantil: em cartaz há doze anos

Por Marcus Tavares

Conheci Luiza Lins, coordenadora da Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, em 2004, no Rio de Janeiro, por ocasião da realização da 4ª Cúpula Mundial de Mídia para Crianças e Adolescentes. Uma pessoa vibrante e que estava disposta a criar pontes e redes para promover a mostra de cinema infantil em Florianópolis, já na terceira edição. Sua empreitada tinha um só objetivo: oferecer às crianças, inclusive seus filhos, produção audiovisual brasileira infantil.

Hoje, ela faz questão de avisar que o caminho não foi fácil e ainda não é. Mas quem conhece o projeto reconhece que ele cresceu, sendo capaz de levar cinema infantil para as famílias de dentro e de fora da ilha, transformando-se numa verdadeira política pública de defesa e promoção do cinema infantil nacional.

No terceiro dia de mostra deste ano, no saguão do hotel, onde estavam hospedados parte do júri oficial, ela conversou comigo. Passados nove anos, a mesma pessoa vibrante estava lá. Mais madura. Com certeza, mais consciente de seu papel. Mas não menos entusiasmada e sensível. Logo no início da entrevista, ao citar o homenageado da mostra deste ano – o poeta brasileiro vivo Manoel de Barros – seus olhos enchem de água. “A inspiração dele me comove”, diz sorrindo.

Silêncio.

Em seguida, pergunto a ela como é produzir a mostra durante doze anos. O sorriso desaparece. Tendo que a cada nova edição provar a importância do projeto, muitas vezes para os mesmos dirigentes de órgãos públicos, com o objetivo de levantar recursos para a realização do festival, confessa que a burocracia cansa.

Não reivindica privilégios, mas não entende como alguns setores do poder público ainda não se deram conta da proposta e de seu impacto. O custo de realizá-la, se comparado com outros eventos culturais brasileiros, é baixo. Irrisório, diriam alguns, dado a capilaridade do projeto. “Com R$ 600 mil já consigo realizar a mostra”, diz, completando que boa parte do recurso é investida no transporte das crianças das escolas públicas para o cinema.

Os números impressionam: são cerca de 17 dias de evento, onde centenas de milhares de crianças vão ao cinema (no ano passado foram 140 mil) assistir aos curtas e longas infantis nacionais (na bagagem já passaram na tela cerca de 550 obras). Na programação, há ainda encontros com especialistas e gestores públicos dos municípios vizinhos, no qual incentiva a realização de mostras regionais, com a distribuição gratuita dos curtas. Dos 293 municípios de Santa Catarina, 140 foram atendidos na edição de 2012.

No meio da entrevista, o celular de Luiza toca. Pede desculpas e atende como se fosse alguém da equipe de produção da mostra. Fornece todas as informações da programação da tarde de domingo. Explica que o preço do ingresso, nos finais de semana, custa R$ 2,00, o que inclui pipoca, sorteio e o direito de votar no filme que mais gostou. “O número do meu celular está no site da mostra. Acho que é muito importante atender ao telefone, ter esse contato com o público. Temos que ser educados. Precisamos ser educados”, explica.

Não é por falta de profissionais que Luiza atende. Sua equipe, durante a mostra, é composta por 50 pessoas. Curioso que boa parte não está ali por acaso. São jovens profissionais da área de comunicação. Há doutorandos, pesquisadores e produtores que também focam o seu trabalho na área da infância. Mas, na prática, a equipe é muito maior. Luiza conta com uma rede de amigos. Que o diga Naiara, amiga de longa data e professora de português da rede municipal de ensino de Florianópolis. Naiara é vizinha de Luiza. “Muro com muro. Se algo acontece na recepção das escolas, fico sabendo. Ela é um ótimo termômetro para saber como andam as coisas. Para quem é detalhista como eu… nada me escapa”.

Parece que não mesmo. Além de realizar a mostra ao longo dos doze anos, Luiza se lançou também na produção de curtas infantis. “Talvez, com medo de não ter filmes infantis para a mostra. Talvez, como iniciativa de dar o exemplo”, explica. Por um ou outro motivo, Luiza acaba de lançar o terceiro filme – O sumiço da coroa – de uma trilogia que resgata a história da comunidade da Lagoa da Conceição, um dos bairros da ilha. “Sou um pouco idealista”, conta. Um pouco? Além da mostra, dos curtas, Luiza envolveu-se com associações e fóruns de cinema pelo Brasil. Participa sempre de outros encontros nacionais e internacionais, buscando novidades para o seu evento.

O celular toca novamente. E a cena se repete. Dessa vez, ela explica como se chega ao teatro, local de exibição dos filmes. Lembra novamente do valor do ingresso e justifica: “de segunda a sexta, é gratuito, quando as exibições dos filmes são reservadas aos estudantes: 500, na parte da manhã, 500, à tarde. 500 vêm da escola pública. Os demais da escola particular”. Desliga. “Mas por que é cobrado o ingresso?”, pergunto.

Não titubeia: “uma forma de valorizar a produção nacional, o cinema para as crianças. Se for de graça, as pessoas acabam não valorizando”.  E avisa que o passaporte de R$ 2 está congelado há anos. O dinheiro arrecadado é para as despesas de rotina da mostra. Ela conta que na única vez que estabeleceu parceria com uma empresa comercial teve que ter voz ativa e pé firme para não aceitar a contrapartida exigida: a exibição do comercial do produto que ia de encontro aos valores de defesa e proteção da infância. Na ocasião, foi ameaçada de perder a cota de patrocínio. Não se intimidou e bancou a sua decisão: não exibiu o comercial. Acabou que a empresa honrou o compromisso. Sorte de ambos. Mas depois dessa, Luiza não quis correr novo risco/desgaste. Nada de patrocínios e ou apoios comerciais.

Com 12 anos nas costas, diz que está na hora de estabelecer limites na jornada. Torce para que surjam outras Luizas “idealizadoras e que sejam persistentes”. Sinal de quem está prestes a aposentar? De jeito algum. Tem a sensação de que, mesmo “velhinha”, estará  sempre à frente da mostra, mas deseja que a proposta frutifique cada vez mais.

O telefone toca pela terceira vez.
De um lado, as mesmas perguntas.
Do outro, a mesma simpatia.
E olha que ainda faltam 14 dias para a mostra terminar.

Cinema, literatura e imaginação

Por Marcus Tavares

A noite de abertura da 12ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, realizada no dia 28 de junho, foi dedicada ao poeta brasileiro Manoel de Barros, de 97 anos. Nas palavras da coordenadora Luiza Lins, a poesia dele retrata as crianças e a natureza, as brincadeiras de pés descalços, as frutas tiradas das árvores e os animais. “Tudo o que a gente é mais tarde vem da infância. Acho que essa frase do Manoel de Barros sintetiza muito que a mostra acredita: que todas as experiências da infância são determinantes para formar o adulto”, discursou.

Além de exibir o documentário As árvores de Manoel, de Fabio Hacher, inspirado no livro O menino do mato, do próprio Manoel de Barros, a mostra contemplou o poeta com o Prêmio Amigo do Cinema Infantil, recebido pela bisneta do artista, Stella Barros.

“É uma homenagem legal. Meu bisavó é especial, pois ele enxerga a vida de um jeito diferente das outras pessoas. Enxerga a vida com mais felicidade,mais energia. Acho que ele sente e vive como criança”, contou Stella Barros, de 11 anos, para a revistapontocom.

Segundo Stella, o poeta, que vive no Mato Grosso do Sul, ainda escreve. Tem algumas dificuldades para andar e enxergar, mas não deixa de pensar e escrever suas histórias. A poesia preferida de Stella é Meu avó.

Meu avô dava grandeza ao abandono.
Era com ele que vinham os ventos a conversar
Sentava-se o velho sobre uma pedra nos fundos do quintal
E vinham as pombas e vinham as moscas a conversar.
Saía do fundo do quintal para dentro da casa
E vinham os gatos a conversar com ele.
Tenho certeza que o meu avô enriquecia a palavra abandono.
Ele ampliava a solidão dessa palavra.

“Penso um dia, quem sabe, fazer um documentário sobre a vida dele. Seria bem bacana”, avalia Stella, que nesta edição assumiu a função de repórter-mirim da mostra.

Audiência atenta e esperta

Por Marcus Tavares

Olhos atentos grudados na tela. O menino João Pedro de Campos da Silva, de 11 anos, estava, na tarde do dia 29 de junho, no Teatro Governador Pedro Ivo, local de exibição dos curtas da 12ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis. Decidido a passar o dia vendo filmes, ele deixou de lado a tarde de sábado com os amigos na pista de skate. Sozinho, saiu de casa, pegou o ônibus e chegou ao teatro. “Sabe, eu gosto muito da mostra. Venho desde o meu primeiro ano de idade. É legal. Curto ver os filmes e depois conversar com as pessoas da produção. Tenho muitas curiosidades de como se faz as animações, como o roteiro vira filme”, conta.

Sem nenhuma timidez e bastante seguro, ele pergunta ao diretor Fábio Toagashi Toma, do curta Trupz, de onde ele tirou a ideia do roteiro. E ainda conta como ele cria seus personagens no computador. “Tenho um software no qual você pode criar personagens, dá vida a eles. É muito interessante. Gosto também de desenhar e produzir as minhas histórias, ou seja os meus filmes. Sou um ótimo desenhista de mangá. Você conhece? Fiz um curso. Outro dia gastei uma resma de mil folhas para produzir uma animação”.

O vídeo, assim como as 4.500 fotos digitais, se perderam. Estavam guardadas no seu Iphone. “Quebrou. Minha mãe está tentando consertar. Mas acho que não tem mais jeito. Tenho que fazer tudo de novo. Pena que havia fotos bem legais, inclusive dos meus irmãos mais jovens”.

Embora goste bastante de cinema, João Pedro garante que vai seguir a carreira de advogado. O bate-papo com os diretores, segundo ele, é uma boa oportunidade para praticar o diálogo, a conversa, o ”discurso”. Discurso pronto quando se pergunta a ele o que é um bom filme para criança. “É aquele claro, objetivo, no qual o roteiro está bem escrito, sem ser redundante”. Redundante? Como assim? “Por exemplo, quando o texto do filme diz que o carro é azul e a cena mostra o carro azul”, explica.

Em sua análise sobre as edições da Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, João Pedro avalia que as produções têm melhorado bastante. “Elas estão mais inteligentes, exigindo que as crianças pensem mais”, avisa o pequeno cinéfilo, estudante do 6ª série da Escola Virgilio dos Reis Várzea.

Ponto para os produtores.