Universidade das Crianças

Há oito anos, professores, pesquisadores e alunos dos cursos de Belas Artes, Ciências Sociais, Comunicação Social, Ciências Biológicas, Fisioterapia e Medicina, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), estão trabalhando em conjunto para responder aos questionamentos do público infantil. Trata-se do projeto Universidade das Crianças, que tem o objetivo de disseminar conceitos e descobertas da ciência. As perguntas das crianças são transformadas em programas de áudio e vídeos de animação. Para algumas delas, a ciência tem uma resposta. Para outras, não.

Neste sentido, pretende-se estimular nas crianças o “entendimento de que a ciência está em casa, no corpo, nas atividades diárias, enfim, na maior parte das vivências cotidianas. Os questionamentos do dia a dia têm um tratamento especial: são valorizados por sua simplicidade, por sua autenticidade e por representar para nós, professores pesquisadores e universitários, um combustível para a ciência que usualmente fazemos, a portas fechadas, dentro das academias”, destaca o grupo de trabalho no texto Universidade das Crianças: ciência para as crianças no rádio brasileiro.

De acordo com os participantes do projeto, o elemento fundamental da metodologia, que funciona como ponto de partida de todo o processo, é o saber anterior das crianças/suas indagações. Este conhecimento fragmentado é a matéria prima do  Universidade das Crianças. O mais importante não é o processo de transmissão de um conhecimento sistemático, mas a ampliação dos espaços de interação, por meio de oficinas, onde educando e educador se misturam. É um processo complexo, pois nele estão implicados vários elementos que se interagem.

Como funciona

Projeto de Extensão do Instituto de Ciências Biológicas e do Núcleo de Divulgação Científica da UFMG, a Universidade das Crianças funciona da seguinte forma: o grupo de professores/pesquisadores/estudantes visita uma unidade escolar, apresenta o projeto e conversa com as crianças. Durante alguns dias, as crianças/estudantes colocam em uma caixa lacrada suas dúvidas sobre o corpo humano e o meio ambiente. O grupo recebe o material, pesquisa e responde às questões de forma textual. De volta à escola, os temas são discutidos e rediscutidos com as crianças por meio de diferentes oficinas. Os textos de algumas respostas são então (re)editados, de forma a facilitar o entendimento das crianças. Por fim, perguntas e respostas são gravadas e se transformam em programas de rádio, que são veiculados na rádio educativa da UFMG Educativa (104,5 FM) e curtas de animação, disponibilizados no site do projeto.

Segundo os coordenadores do projeto, as crianças são entendidas como agentes que negociam constantemente seus posicionamentos. “Protagonistas de processos comunicativos, elas utilizam a linguagem sonora para também expressarem parte de seus desejos e de seus anseios. Nesse processo, dialogam tanto com os adultos quanto com seus pares e formulam redes próprias de conhecimentos, as quais muitas vezes não são aceitas pelos adultos. O entendimento que muitos adultos ainda defendem de uma infância aos moldes da época medieval, ou seja, de sujeitos incapazes de pensar, de construir conceitos e saberes, tende a prejudicar a viabilidade de diálogos e/ou discursividades por meio da radiodifusão. Ao se considerar a infância enquanto parte de um processo, ou melhor, de processos que não perpassam pela fixidez, mas que carregam a fluidez constante das mudanças históricas e culturais, o Universidade das Crianças propõe pensar a infância como um processo em constante construção.

Confira a produção
http://www.universidadedascriancas.org/

Já somos 244 milhões

Falado por 244 milhões de pessoas em todo o mundo, o português é a sexta língua mais expressiva do globo. É a quinta mais usada na Internet e a terceira nas redes sociais, como Facebook e Twitter. E as expectativas são otimistas. Calcula-se que nos próximos cinco a dez anos a Língua Portuguesa seja a língua de 300 milhões de pessoas. As estatísticas são do Instituto da Cooperação e da Língua, de Portugal. O assunto é tema da II Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial, que está sendo realizada esta semana em Lisboa, Portugal.

“Com uma população jovem em grande crescimento [nos países lusófonos], há uma previsão de um aumento significativo dos falantes dentro de cinco a 10 anos. A performance no mundo digital se deve a população jovem que fala português e cresce a cada ano”, explica Ana Paula Laborinho, presidente do Instituo da Cooperação e da Língua.

A conferência reúne importantes pesquisadores e especialistas da Língua Portuguesa. E antecede reuniões políticas e um conselho dos ministros dos Negócios Estrangeiros, durante o qual será adotado um Plano de Ação de Lisboa – à semelhança do Plano de Ação de Brasília, que em 2010 definiu a internacionalização da língua portuguesa como o objetivo comum dos países lusófonos.

O mapa dos portugueses

Falado nos cinco continentes, o português é a língua oficial de oito países: Angola (19,8 milhões de habitantes), Brasil (194,9 milhões), Cabo Verde (496 mil), Guiné-Bissau (1,5 milhões), Moçambique (23,3 milhões), Portugal (10,6 milhões), São Tomé e Príncipe (165 mil) e Timor-Leste (1,1 milhões). Contudo, só nos casos de Portugal e do Brasil é contabilizada toda a população como falante de português. Em Timor-Leste, por exemplo, apenas 20% dos habitantes falam português, enquanto na Guiné-Bissau são 57%, em Moçambique 60%, em Angola 70%, em Cabo Verde 87% e em São Tomé e Príncipe 91%, revelam os dados do observatório.

Por outro lado, é preciso contabilizar também as diásporas, que, todas juntas, ascendem a quase 10 milhões de falantes de português, incluindo os 4,8 milhões de emigrantes portugueses e três milhões de brasileiros, segundo dados de 2010. A língua portuguesa é ainda falada em locais por onde os portugueses passaram ao longo da História como Macau, Goa (Índia) e Malaca (Malásia).

Segundo o Observatório da Língua Portuguesa, o português é a língua mais falada no hemisfério sul, com 217 milhões de falantes em Angola, Brasil, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Entre as línguas europeias, o português surge como a terceira mais falada e um estudo da Bloomberg considera-o a sexta língua do mundo mais utilizada nos negócios.

Números da nuvem

Na Internet, a importância do português tem vindo a crescer, sendo hoje o quinto idioma mais utilizado, por 82,5 milhões de cibernautas, segundo o s
ite Internet World Stats. O número de utilizadores da Internet em português aumentou 990% entre 2000 e 2011, mas nesse ano ainda só representava 3,9% do total de cibernautas e 32,5% do total de falantes de português no mundo, o que permite antever que ainda tenha muito por onde aumentar.

Já no Facebook, o português é a terceira língua mais usada, por 58,5 milhões de utilizadores, a seguir ao inglês (359 milhões) e ao espanhol (142 milhões). Além disso, a língua portuguesa foi a que mais cresceu naquela rede social, com um aumento de mais de 800% entre 2010 e 2012. Também no Twitter, o português é a terceira língua mais usada, representando 12% do total detweets enviados, a seguir ao inglês (39%) e ao japonês (14%).

Todos estes números tenderão, no entanto, a mudar, à medida que muda o mapa do português no mundo. Segundo estimativas do Governo português, tendo em conta a evolução demográfica, até 2050 o número de pessoas no mundo a falar a língua de Camões deverá aumentar para 335 milhões.

Mudanças na Secretaria do Audiovisual do MinC

Por Marcus Tavares

O cineasta Leopoldo Nunes, que já havia ocupado outros cargos estratégicos no próprio Ministério da Cultura, como o de diretor de programação e conteúdo da TV Brasil, deixou, no dia 8 de outubro, o posto de secretário da Secretaria do Audiovisual do órgão. Em seu lugar interinamente está João Batista da Silva, que também acumula a Diretoria de Gestão de Políticas Audiovisuais.

Um dia antes, o site do MinC divulgou um relatório de sua gestão, iniciada em dezembro de 2012. Nele, o ex-secretário lista as ações realizadas e destaca a retomada dos editais Curta Criança e Curta Animação, “que tiveram grande repercussão e impacto para o setor audiovisual e para o seu público”. O MinC não se pronunciou sobre a sua saída.

Leia aqui o relatório

Procurado pela revistapontocom, Leopoldo, por e-mail, respondeu a algumas perguntas sobre a retomada dos editais, uma das últimas ações de sua gestão. Sobre sua saída, ele disse apenas que deixa a SAV para se dedicar a projetos “estratégicos de audiovisual para o país”.

Acompanhe:

revistapontocom – Depois de três anos, a Secretaria do Audiovisual, no final de sua gestão, retomou os editais curta criança. Qual foi o objetivo da SAV/MinC com esta ação?
Leopoldo Nunes – Fomentar produções livres voltadas para a infância. Digo livre, porque são obras originais, que podem vir a tornar-se série, longa, jogos, uma série de produtos desta larga cadeia. A produção comercial pode ser renovada a partir deste tipo de edital. De um programa similar surgiu, por exemplo, Meu Amigãozão. O fomento à produção é fundamental. Digo que é a ação mais ousada em política pública. Mas a Secretaria também apoia inúmeras ações, como festivais, mostras, encontros, editoração de DVD, difusão, parcerias com televisão, entre outras.

revistapontocom – Existem outras ações/encaminhamentos em relação à política de produção audiovisual para crianças, além dos editais, no âmbito da SAV/MinC?
Leopoldo Nunes – Não. Para 2013, optamos mesmo pela retomada do Curta Criança e do Curta Animação. O primeiro permite o uso de qualquer gênero, animação, ficção, documentário. E também permite exercitar narrativas mais longas, de até 15 minutos. O Animação é um desafio de 1 minuto em animação. É a síntese da síntese. Aqui consagrou-se como espaço da experimentação, da produção de obras originais, em formatos adequados para este fim. Já a obra formatada para o mercado, esta conta com diversos mecanismos de financiamento apropriados, como o Prodav e o Funcine.

revistapontocom – Pode-se dizer que há um consenso no MinC sobre a importância de se criar/estabelecer/promover uma política pública de produção audiovisual para as crianças?
Leopoldo Nunes – Há consenso. Este é um conceito de sociedade, ninguém pode ser contrário a isto. O futuro está no novo, na vida nova que, quanto mais educada e conhecedora dos saberes da humanidade, maiores as chances de ela cuidar melhor do mundo. O cinema é fascinante, assim como os jogos e outros brinquedos derivados da linguagem cinematográfica, da invenção do cinema.

revistapontocom – Recentemente, a Ancine, vinculada ao MinC, divulgou o Plano de Diretrizes e Metas para o Audiovisual. Há alguma referência ao público infantil?
Leopoldo Nunes – Não tenho certeza se há alguma menção específica ao filme infantil, mas toda a produção de longas e séries de TV contaram com os mecanismos de financiamento da Ancine. Além disso, do ponto de vista do mercado, o produto infantil está entre os mais viáveis, mais rentáveis, com maior longevidade e alto potencial de licenciamento de produtos.

revistapontocom – Como o senhor avalia historicamente a política/gestão da SAv/MinC frente à política de produção audiovisual para as crianças?
Leopoldo Nunes – Em termos de política pública, tudo começa sistematicamente na gestão de Orlando Senna/Gilberto Gil, quando eu era chefe de Gabinete da SAv. Mas a sociedade é muito mais avançada que o Estado ou governos. Não podemos esquecer O Grilo Feliz, de Walbercy Ribas, o primeiro, desenvolvido em precários PCs, em sua casa, depois distribuído pela Colúmbia. Tenho este filme como a máxima necessidade de expressão e um símbolo da genialidade do brasileiro em inventar. Há uma máxima no Piauí que diz: ou inventamos ou padecemos.

Lista dos habilitados

A Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura (SAv/MinC) divulgou nesta semana (terça e quarta, dias 29 e 30 de outubro), o resultado preliminar da fase de habilitação das propostas que concorrem ao edital Curta Criança 2013 e Curta Animação 2013. Os não contemplados têm cinco dias úteis para solicitar reconsideração.

Para o primeiro edital, cerca de 180 projetos foram pré-aprovados. Para o segundo, aproximadamente 120. Os autores não contemplados têm cinco dias úteis para solicitar reconsideração. O edital Curta Animação 2013 vai apoiar 40 obras, com R$ 15 mil para cada. Já o Curta Criança, serão 12, com investimento de R$ 60 mil.

Confira:

Habilitados animação 

Habilitados curta 

Qual é o papel da TV Universitária?

Do site da ABTU

Muito mais do que uma simples janela de exibição, a TV Universitária pode e deve ser espaço de experimentação e inovação. Este foi o consenso a que chegaram os integrantes da primeira mesa redonda do XIII Fórum Brasileiro de Televisão Universitário, realizado no dia 21 de outubro, na Universidade de Fortaleza. “Hoje a TV universitária é vista só como uma janela de exibição, mas as experiências compartilhadas aqui são uma prova de que esse tipo de modelo permite a elas buscarem recursos como produtoras e preservar seu DNA universitário na geração de conteúdo de interesse público de qualidade”, afirmou o presidente da Associação Brasileira de TVs Universitárias (ABTU) e mediador da mesa “A TV universitária no contexto ibero-americano”, Fernando Moreira.

Em sua apresentação Alberto Ferrer, diretor da Associação de Televisões Educativa e Culturais Ibero-americanas (ATEI), destacou que há iniciativas bem sucedidas na América Latina. “Argentina é um fenômeno a ser seguido. A Lei de Audiovisual permitiu a criação e manutenção de muitos centros de produção de conteúdo. As universidades se organizaram por regiões e estabeleceram polos de produção dotados de recursos que produzem uma grande quantidade de material científico e educativo”, disse.

Ele também destacou que ainda há países, como a Costa Rica, onde a luta para criar esses polos está sendo articulada e estimulou a cooperação. “É importante articular o espaço comum para as televisões universitárias Ibero-americanas, mas há muito para trabalhar, pois o cenário digital é de abrir espaço, mas isso depende de como trabalhamos juntos. Podemos estabelecer redes e fazer coproduções”, afirmou.

Para o Gerente Canal Zoom (Canal Nacional Universitário da Colômbia) German Perez, a TV universitária deve cumprir a função de levar para a audiência o que está sendo desenvolvido nas instituições de ensino superior, bem como criar conteúdos de interesse da comunidade.

Atualmente, o Zoom conta com um sinal via satélite que transmite pela TV à cabo e pelos canais comunitários, para todo o território colombiano. Tem uma programação especializada composta por produções de 43 universidades da Colômbia e conta com o apoio da Autoridade Nacional de Televisão, dos Ministérios da Cultura e Educação do SENA (escola técnica nos moldes do Senai). A programação do Zoom é totalmente produzida por instituições universitárias colombianas o que permite reconhecer a veia regional sob o olhar globalizado e inquieto do universitário do país.

O diretor do Sistema Universitário de Rádio e Televisão da Universidade de Guadalajara, Gabriel Torres Espinoza apresentou o modelo de trabalho realizado na instituição, que investe em televisão, rádio, cinema e livros, sendo responsável pela operação de dois canais de televisão, sendo um deles em Los Angeles, e oito estações de rádio de todo o país. São 5 horas diárias de notícias e mais 18 horas e 30 minutos de produção diária. “Somos quem tem o maior nível de produção no México. Produzimos infantil, esporte, documentário, programas especiais entre outras coisas”, disse.

Ainda segundo Gabriel, a Universidade de Guadalajara está muito dedicada a coprodução internacional e está sendo montada uma associação que se chama TV Morfosis, para estudar como a produção das tecnologias digitais vai modificar a forma como se produz e consome televisão. “Essa iniciativa nasceu de um evento que já realizamos anualmente e cujas palestras dão origem a um livro”, explicou.

O futuro do livro é o livro

A Editora Fiocruz está com inscrições abertas para o seminário ‘O futuro do livro é o livro’, que será realizado entre os dias 6 e 8 de novembro, na Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro. O evento é gratuito. A ficha de inscrição está disponível  aqui. As vagas são limitadas. O seminário, que celebra os 20 anos da Editora, ocorre em momento oportuno, quando muito se tem falado sobre o ‘fim’ do livro. Contrariando as previsões mais pessimistas, o mercado editorial se mantém firme, embora necessite cada vez mais investir em estratégias para compreender as necessidades e atender às expectativas do leitor contemporâneo. Discutir essas questões é o objetivo central do seminário, que reunirá nomes de peso de variados campos do saber.

Na conferência de abertura, o presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Renato Lessa, abordará a formação de autores e leitores no âmbito da valorização da cultura do livro. Novas tecnologias, acesso livre, a produção coletiva do conhecimento e o livro como bem cultural são outros temas que estarão em destaque durante o seminário (confira a programação completa).

O convidado internacional John B. Thompson, professor de sociologia da Universidade de Cambridge, falará sobre o estudo que originou o livro Mercadores de Cultura, recém-lançado em português pela Editora Unesp. Thompson parte do diagnóstico de que uma conjunção de pressões econômicas e tecnológicas vem forçando as editoras a alterar suas práticas e a refletir profundamente acerca do futuro dos livros. O pesquisador contextualiza historicamente esses desafios e analisa as transformações do mercado editorial, dissecando os papéis de publishers, agentes e livreiros, entre outros. A palestra do professor de Cambridge terá tradução simultânea.

O evento contará, ainda, com as presenças da presidente da ABL, Ana Maria Machado; do diretor de Avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes/MEC), Lívio Amaral; do secretário executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), José Castilho Marques Neto; e do presidente da Associação Brasileira das Editoras Universitárias (Abeu), João Canossa, também editor executivo da Editora Fiocruz. A Fiocruz também estará representada por seu presidente, Paulo Gadelha, e pela vice-presidente de Ensino, Informação e Comunicação, Nísia Trindade Lima.

Ao final do seminário, serão emitidos certificados aos participantes e haverá coquetel de lançamento de livros. Mais informações sobre o evento pelo e-mail editora20anos@fiocruz.br ou pelos telefones (21) 3882-9041 e (21) 3882-9039.

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Laboratório de Cultura Digital

Do Lab
labculturadigital.org

Com o objetivo de democratizar o acesso às tecnologias digitais e fomentar a cultura de rede foi lançado, nesta terça-feira, dia 29, no setor de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o Laboratório de Cultura Digital (Lab). O projeto visa mapear iniciativas culturais, inserir novos agentes e difundir a lógica de redes por meio da cultura digital. O evento foi realizado durante o Encontro Latinoamericano de Cultura Digital, que aconteceu em Curitiba.

“O projeto não é nenhuma novidade, apesar de o processo que queremos articular ser tão inovador”, disse João Paulo Mehl, coordenador de Cultura Digital do Lab e integrante do Coletivo Soylocoporti, referindo-se à trajetória dos Pontos de Cultura pelo Programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura, e dos ativistas de mídia livre nos últimos anos. A proposta é aprofundar os laços dessa rede que vem trazendo à tona a diversidade cultural do nosso país.

Núria Pons, coordenadora do Lab e vice-diretora do Setor de Educação da UFPR, saudou a todos pelo esforço de estarem presentes. “É preciso mapear as iniciativas culturais e levar o projeto para além da universidade”, destacou.

“Não aceitamos ser pasteurizados, padronizados, colonizados. Queremos romper os muros da universidade, do capital, o muro que impede que nossa diversidade cultural esteja na tela da televisão e nas ondas de rádio”, defendeu Mehl. Ele também ressaltou a importância da democratização da informação no Brasil, assim como foi feito na Argentina com a Lei de Meios.

Em linhas gerais o projeto tem a meta de formular e desenvolver de forma colaborativa tecnologias digitais livres. Com foco em Pontos de Cultura, agentes, organizações e redes culturais, o Lab vai disponibilizar sítios, sistemas de gestão do conhecimento, mapas culturais, ferramentas de democracia digital e de mobilização online.

Fará parte também das ações do Lab a realização dos Ciclos de Cultura Digital. Ambientes de intercâmbio de conhecimentos e de capacitação dos fazedores culturais, os Ciclos acontecem nas cinco regiões do país. A partir de oficinas, as ferramentas são experimentadas e podem ser aperfeiçoadas colaborativamente.

Games e aplicativos

Por Marcus Tavares

O Ministério da Justiça, por meio do Departamento de Justiça, Classificação, Títulos e Qualificação (Dejus), vai anunciar nesta semana, durante a programação do evento Brasil Game Show, em São Paulo, a criação do International Age Rating Coalition (IARC), entidade internacional que tem o objetivo de operar, por meio de um sistema digital on-line, uma classificação mundial de jogos e aplicativos digitais, contemplando as peculiaridades das legislações locais e favorecendo a dinâmica e agilidade do mercado. A ideia é facilitar o processo de obtenção de classificação indicativa dos produtos e orientar, com informações, pais e responsáveis. O IARC (Coalizão Internacional de Classificação Etária, em português) envolve a participação de 36 países. O Brasil agregou-se à ideia desde o princípio, passando pelo desenvolvimento do sistema, que contempla os critérios brasileiros, ao lançamento.

Por meio de um formulário online preenchido em poucos minutos e apenas uma única vez, o desenvolvedor obtém a classificação indicativa oficial, válida para todos os países participantes do projeto. No Brasil, a exigência da exibição da classificação indicativa nos jogos e aplicativos já existe de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente e com a Portaria do Ministério da Justiça nº 1.643/2012. Agora, será preciso se adaptar ao novo sistema.

As empresas que ainda não exibem deverão procurar o Ministério da Justiça para discutir, de acordo com suas capacidades técnicas, seu plano para regularizar a situação. As empresas e lojas virtuais – voltadas para o público brasileiro – que se recusarem a regularizar a situação – expondo os símbolos e informações da classificação indicativa brasileira nos jogos – serão denunciadas pelo Ministério da Justiça ao Ministério Público para as devidas providências. As empresas e lojas que já cumprem com a legislação deverão procurar o Ministério da Justiça para apresentar suas condições técnicas e discutir planos individuais de adequação à nova plataforma.

Classificação oficial

De acordo com o Dejus, o IARC terá cobertura em 36 países como sistema de classificação oficial, mas desenvolvedores de outros países também poderão usá-lo. Um desenvolvedor de qualquer país poderá acessar o sistema quando quiser lançar seu aplicativo em um dos 36 países, como Brasil e EUA. Assim, se o game for colocado à venda em loja virtual destinada ao público brasileiro, terá que trazer os símbolos e os descritores da classificação indicativa brasileira e, é claro, a partir dos critérios que estão no Guia Prático da Classificação Indicativa. 

O sistema IARC foi criado para ser implementado pelas distribuidoras de conteúdo digital (lojas de aplicativos, sistemas operacionais) e usado pelos desenvolvedores/empresas de jogos e aplicativos na hora em que forem lançar seus produtos.

Mais informação para os pais

O IARC foi criado para que o direito de pais e responsáveis em obter informação segura sobre os jogos/aplicativos a que seus filhos têm acesso seja preservado mesmo no novo cenário de distribuição digital e global de produtos. Os mecanismos anteriores de classificação, tinham como alvo poucos produtos vendidos em cartuchos, DVDs e congêneres – não eram ágeis ou abrangentes o bastante para lidar com o enorme volume de produtos digitais da realidade atual. Além disso, o ambiente digital torna possível a existência de lojas internacionais, sendo que o método tradicional se focava em produtos físicos locais. Assim, uma solução como o IARC não podia ser feita apenas por um país demandava uma parceria entre organismos de classificação de várias regiões. 

Como funcionará o sistema?

No momento de lançar um aplicativo, o desenvolvedor fará a classificação do seu produto, na plataforma do IARC, diretamente na primeira loja que escolher para comercializar seu jogo e ou aplicativo. Será gerada uma classificação para cada região participante do IARC. Tais classificações ficarão armazenadas no banco de dados do sistema. Ao registrar o aplicativo em outra loja, em qualquer lugar do mundo, a classificação já estará pronta no banco de dados e será simplesmente copiada, sem necessidade de se repetir o processo. Cada classificação é específica de sua região. Assim, as lojas no Brasil irão copiar e exibir apenas a classificação brasileira, nos moldes do Ministério da Justiça. 

Corda Bamba: cinema, literatura e infância

Por Marcus Tavares

Eduardo Goldenstein é o roteirista e diretor do filme infantil Corda Bamba, que acaba de estrear no circuito nacional. O filme, baseado no livro homônimo da escritora Lygia Bonjuga, traz uma estética e tempo bem diferentes dos que a criançada está acostumada a assistir no cinema. Trata-se de uma obra em que “a garotada precisa pensar com o filme, precisa se engajar no sonho da protagonista, a menina Maria”.

Segundo Goldenstein, é uma produção trata a criança com maturidade, apostando na potência das fábulas e na capacidade de compreensão. “A maneira de contar esta história, com tempos dilatados, o uso de sombras e cores, o mistério que ronda nossa personagem, isto tudo foi uma aposta que fiz, ousada talvez, mas confiando na inteligência do público infanto-juvenil”, destaca o diretor.

Em entrevista à revistapontocom, Eduardo relata todo o processo de produção, nos mínimos detalhes, destacando os desafios e os encantos de se trabalhar com, sobre a para a infância.

Acompanhe (fotos de Guy Gonçalves):

revistapontocom – Como foi roteirizar e dirigir um clássico da Lygia Bonjunga? Quais foram os desafios enfrentados na roteirização e direção? Você teve algum contato com a autora?
Eduardo Goldenstein – Este filme surgiu a partir de uma imagem que me veio repentinamente à cabeça: uma menina andando sobre uma corda bamba no alto de um prédio. Imediatamente lembrei-me da fonte desta imagem: ela foi construída no meu imaginário quando li o livro Corda Bamba, da Lygia Bojunga, aos 10 anos de idade. Foi uma leitura que marcou minha infância, uma história densa e dramática, na qual uma menina precisa visitar seu próprio passado para poder seguir adiante. Enviei um e-mail para a editora da Lygia (Casa Lygia Bojunga), identificando-me como um leitor (li vários de seus livros na época do lançamento, como Bolsa Amarela, Casa da Madrinha e Os Colegas). Falei sobre minha intenção de adaptar Corda Bamba para o cinema, um livro belíssimo repleto de imagens cinematográficas. Ela é muito ciosa de sua obra, e foi muito sincera me dizendo que não costuma liberar os direitos. Mas foi muito generosa também ao deixar a porta aberta para nos conhecermos e conversarmos. Foi um processo natural, pautado pelo afeto. Mostrei a ela o 1º tratamento do roteiro, ainda muito parecido com o texto original do livro. Senti que ela me deu liberdade para adaptá-lo, para torná-lo mais “cinematográfico”. A partir daí trabalhei sozinho no texto, um trabalho muito árduo e que envolveu uma grande dedicação. Pensei muito este filme, cena por cena, diálogo por diálogo. Como a imagem tem um poder muito forte sobre o imaginário, ela está lá, dada, na tela, procurei revelar apenas o necessário, de modo a trazer o espectador para dentro da história, mais propriamente para dentro da cabeça da protagonista, a menina Maria, e fosse montando com ela o fio de sua vida. Creio que no cinema trata-se muito mais de “sugerir” do que “explicar”. A literatura trabalha com descrições e diálogos. Ela precisa trazer o leitor para o mundo que está sendo criado. Mas no cinema, a imagem está lá, já é um mundo. Então precisamos deixar espaço para a imaginação do espectador, deixá-la penetrar aquele mundo, construí-lo com o decorrer do filme.

revistapontocom – O filme traz a temática da perda, do conhecimento e da busca de si. Temas nem sempre trabalhados em profundidade com as crianças no e pelo audiovisual. Por que investir nesta temática?
Eduardo Goldenstein – Por que são temas que fazem parte da vida, temas existenciais com os quais teremos de nos deparar, uns mais cedo, outros mais tarde. A obra da Lygia é muito pautada por temas existenciais, como morte, separação, opressões e preconceitos. E de como podemos lidar com eles de modo a construir possibilidades para nossas vidas. O que me atrai na obra dela é a maneira absolutamente madura com a qual ela se dirige ao público infanto-juvenil, sem qualquer concessão à infantilização ou superproteção. E ela consegue fazê-lo através de um universo lúdico e poético, pautado pelo lirismo. Procurei, ao expressar nas imagens que construí este lirismo, contar esta história trágica de forma delicada, sem carregar no melodrama (o que seria uma solução fácil e talvez maniqueísta). De fato, Corda Bamba é um filme muito diferente de tudo que está aí, de tudo que se oferece para o público infanto-juvenil brasileiro. Nem podemos compará-lo à produção infanto-juvenil brasileira, pois a triste constatação é que ela é praticamente inexistente. O que é uma pena. Temos uma literatura riquíssima para esta faixa, autores como Lygia Bojunga, Ruth Rocha, Ana Maria Machado, reconhecidos internacionalmente pela qualidade de suas obras. Mas o que parece é que ninguém tem olhos para isto. Sem falar de nosso folclore, lendas, da cultura popular. Temos alguns fóruns anuais no Brasil que vêm pensando o audiovisual para crianças, como o Comkids, o Festival Internacional de Cinema Infantil (Fici) e a Mostra Infantil de Florianópolis. São instâncias que pensam com seriedade e dedicação o audiovisual para crianças. Mas sinto que ainda é muito difícil colocarmos um produto como Corda Bamba no circuito exibidor. É um filme sensível que faz pensar e que vem agradando tanto as crianças quanto os adultos. Exibimos muito o filme em festivais antes de ele chegar ao circuito. Um fato que me chamou a atenção foi que após cada exibição muitas pessoas vinham me abraçar, me agradecer por um filme onde não existe violência, sangue, efeitos mirabolantes, sexo ou palavrões. Infelizmente o cinema se banalizou demais nos últimos anos e por conta de pressões de mercado tornou-se extremamente apelativo. Então as pessoas ficam agradecidas quando podem usufruir de uma história bem contada nas telas. O público sabe identificar quando tem diante de si uma obra de qualidade. Levar Corda Bamba para as telas não foi apenas um empreendimento estético, mas também político. Uma espécie de grito, de alerta. Um grito suave, poético, mas que vem ressoando.

revistapontocom – Penso que você optou por uma narrativa bastante poética e simbólica para descrever todo o contexto da história e da menina. O que exige do público uma atenção maior para com a narrativa, o que leva a uma reflexão mais profunda. E o próprio filme dá esse ‘tempo’ para o expectador pensar, refletir. É um pouco isso mesmo?
Eduardo Goldenstein – Sim, é isso mesmo. No caso desta história, um drama vivido por uma menina de 10 anos que passa por um bloqueio de memória por conta de um acontecimento trágico, o grande perigo na hora de transpor esta história para a tela era cair numa mera “ilustração” ou simplesmente na reprodução do livro. Ora, no livro a autora trabalha muito “dentro do pensamento” da Maria, a personagem principal. Acompanhamos o que se passa dentro da cabeça daquela menina. No cinema seria muito cômodo ter utilizado o recurso da voz “off”, mas simplesmente acho que isto iria tornar tudo muito literário. Por meio das imagens e principalmente das expressões e olhares da Maria, procurei colocar o espectador dentro da cabeça dela, de modo que pudesse ir remontando sempre junto dela os fragmentos de sua vida, até chegar ao momento trágico com força suficiente para poder revê-lo. Então no início do filme, assim como a Maria, não sabemos ao certo o que a fez ir morar com a avó. Seria algum acidente, algum problema com os pais? Isto não é revelado de início. Quando Maria começa a sonhar, tampouco podemos dizer com certeza se ela sonha ou se aquilo é real. Aos poucos vamos entendendo que ela está sonhando e começamos a sonhar com ela. Posso dizer que Corda Bamba é um filme-sonho (e a natureza do cinema é intrinsecamente ligada ao mundo dos sonhos e ao imaginário), e que ele respeita o tempo do inconsciente, onde as coisas não são tão claras, onde o real se mistura ao imaginário, aonde as formas vão se construindo e desconstruindo sucessivamente. Quando Maria começa a sonhar, as cenas surgem para ela a partir da sombra, da escuridão. Exatamente como acontece quando sonhamos. Ao atravessar a corda no alto do prédio, Maria nos revela uma coragem, mesmo dentro do sonho. Afinal, é preciso ter coragem para sonhar. E graças ao mergulho no sonho ela vai poder acessar seu inconsciente e seguir adiante. Corda Bamba é uma bonita fábula e é também um processo terapêutico, a cura pelo imaginário.

revistapontocom – Neste sentido, o filme ‘exige’ mais da garotada, certo?
Eduardo Goldenstein – Claro, a garotada precisa pensar com o filme, precisa se engajar no sonho de Maria. É um filme que trata a criança com grande maturidade, apostando na potência fabulatória, que para mim é a capacidade natural das crianças de criar fábulas e histórias, de fabular… Uma das grandes satisfações que tive com esta produção foi observar como as crianças mergulham no jogo com muita facilidade, como elas se identificam com a Maria, construindo uma empatia com ela, e abrem com ela as portas que a levam ao passado. Um pequeno espectador chegou a me perguntar: mas isso aconteceu de verdade? Isto é um verdadeiro prêmio para um realizador, tornar verdadeiro um mundo ficcional. A maneira de contar esta história, com tempos dilatados, o uso de sombras e cores, o mistério que ronda nossa personagem, isto tudo foi uma aposta que fiz, ousada talvez, mas confiando na inteligência do público infanto-juvenil.

revistapontocom – Para qual faixa etária ele se destina?
Eduardo Goldenstein – Nossa faixa etária primordial é dos oito aos 12 anos, principalmente pelo caráter simbólico da história, um rito de passagem da infância para a adolescência. Maria tem 10 anos, está justamente se despedindo da infância e tendo que encarar um novo modo de vida. Mas vejo que o público adulto também se envolve e se emociona bastante com nosso filme. A faixa da 3ª idade tem demonstrado uma ligação muito afetiva com Corda Bamba. Eu diria que é um filme para toda a família.

revistapontocom – E o processo de produção? Como foi realizado?
Eduardo Goldenstein – O filme foi realizado com recursos do Edital de Longas de Baixo Orçamento do Ministério da Cultura. Foi a 1ª vez que eles premiaram um projeto voltado para o público infanto-juvenil. Depois conseguimos captar mais recursos para a finalização do filme, junto à Lei do ISS/RJ. Captamos um total de R$ 1.400 milhão, o que para cinema não é muito. Planejei muito as filmagens. Trabalhei exaustivamente no roteiro. Posso dizer que a montagem do filme começou efetivamente no roteiro. Tudo que está lá foi filmado. Com exceção de uma cena que decidimos cortar na edição, tudo foi para o filme. Tivemos ainda excelentes colaboradores na equipe técnica e no elenco. Todos se engajaram com muita paixão no projeto. O que fez o filme alcançar um valor de produção muito maior do que o valor monetário efetivamente gasto. Desde o primeiro momento no qual decidi adaptar a história e levá-la para as telas, prometi a mim mesmo que iria cuidar deste material como se fosse uma pequena joia, uma daquelas caixinhas de música que damos corda e uma pequena bailarina começa a girar. Este afeto pautou todo o processo e certamente foi partilhado por todos que colaboraram para tornar este filme uma realidade.

revistapontocom – E quanto às dificuldades?
Eduardo Goldenstein – A maior dificuldade ao longo de todo o processo foi a colocação do filme no circuito exibidor. Não fosse pela parceira com a Copacabana Filmes, através da Carla Camurati e da Carla Niemeyer (a Copacabana é a produtora do FICI), não teríamos chegado ao circuito. Graças à tenacidade e sensibilidade delas conseguimos oferecer ao público este produto especial. O circuito exibidor é pautado pelo marketing e pelo poder midiático. No fundo me parece que eles nem se importam muito com a qualidade dos filmes, e sim com o tamanho da campanha, já que isso é que vai determinar o público da semana de abertura. Não conseguimos captar para a distribuição, apesar de termos tentado em várias instâncias. Então resolvemos lançar na guerrilha. É quixotesco mesmo, tentar colocar um filme infanto-juvenil, independente, brasileiro, no meio desta engrenagem gigantesca dos grande exibidores e dos blockbusters. Tivemos o apoio do Circuito Espaço (Adhemar de Oliveira e Patrícia Durães), que conseguem manter uma relação com a produção nacional e que desenvolvem ainda um belo Projeto Escola, o que nos permitiu construir um circuito para o filme. O Telecine também se interessou pelo filme e o adquiriu para exibição em sua grade de canais, concedendo-nos ainda a inserção de spots ao longo da semana de lançamento. É pelas frestas que atravessamos e pelas margens que vamos aos poucos construindo um público.

revistapontocom – Nos bastidores, como é trabalhar com crianças no set?
Eduardo Goldenstein – Foi tudo muito orgânico, muito natural. Se a criança entra no jogo, a veracidade da interpretação está garantida. E creio que conseguimos alcançar um resultado bem satisfatório com nossas crianças. A Maria foi interpretada pela Bia Goldenstein, minha filha. Desde que eu li a história para ela, quando ainda estava preparando o projeto, ela se identificou muito com a personagem, criou uma empatia por ela, uma vontade de protegê-la. E insistiu muito comigo para fazer a Maria. Relutei muito, o risco era enorme, mas a Bia conquistou o papel quando fomos fazer a primeira leitura do roteiro, com o elenco adulto já escolhido. Ainda não tínhamos encontrado nossa Maria, então minha esposa,Katya, que também produziu o filme, levou a Bia para esta leitura. Ela leu com muita compreensão, demonstrando um entendimento da história e já incorporando a Maria. Enfim, ela entrou no jogo. Ao terminarmos a leitura o elenco adulto, de forma unânime, apontou que nossa busca terminara ali, a Maria estava diante de nós. O Quico, primo da Maria, foi interpretado pelo João Madeira, filho do Augusto Madeira, que fez o Foguinho. Construímos uma verdadeira família. Este era o clima dominante no set. Uma família, como no circo. Preparamos as crianças ao longo de alguns encontros antes das filmagens, com exercícios de improvisação e laboratórios, deixando-os sempre muito à vontade. Não me preocupei tanto com o texto, preferi investir na construção de uma relação verdadeira entre os personagens. E realmente isto aconteceu. Fiquei muito satisfeito ao ver todo este afeto transposto para a tela.

revistapontocom – Qual era o seu objetivo ao criar o projeto do filme Corda Bamba? O que você realmente queira com o filme? Alcançou o objetivo?
Eduardo Goldenstein – Como eu já disse anteriormente, o filme chegou a mim, fui tomado por ele. Já tinha vontade de fazer um filme sobre o universo do circo, um documentário talvez. O circo tem um poder muito forte sobre nosso imaginário, ao mesmo tempo que diz tanto sobre a arte e os artistas – o trágico e o humor, o risco e a precariedade, o fascínio das cores e uma certa dose de melancolia. Quando Corda Bamba retornou do fundo da memória imediatamente percebi que ali estava o filme que estava procurando. Não foi algo planejado conscientemente, algo como “vou fazer um filme baseado num clássico da literatura infanto-juvenil brasileira”. O projeto nasceu do inconsciente mesmo, de maneira visceral e necessária. Procurei ser sincero e coerente ao longo de todo o processo e trazer para a tela uma visão singular da história. Outra preocupação que me pautou foi a de colocar o espectador dentro da cabeça da Maria, para que ele possa ir remontando junto a ela os fragmentos de passado que ela vai encontrando atrás de cada porta daquele grande corredor. Isto cria um suspense na narrativa, reforçado pelo jogo de luz e sombras e pelo ritmo dilatado das cenas. Assim como Maria, o espectador também quer saber o que aconteceu. Procurei ser claro sem ser didático, dar pistas em vez de explicações. É um filme denso, que exige a atenção do espectador, que o força a pensar. Fico muito satisfeito ao ver que ele se comunica bem tanto com as crianças quanto com os adultos. Cada espectador retira do filme aquilo que mais lhe interessa, que realmente o afeta. Exibimos o filme para alunos da Rede Estadual no Rio de Janeiro, dentro do programa Cinema Para Todos, e participei de debates após a sessão. Fiquei muito surpreso com o interesse e a qualidade das perguntas colocadas pelos alunos. Através das perguntas é possível medir a compreensão do público. Na semana passada fizemos uma sessão para alunos do Ceat, na faixa dos 10-12 anos, e mal tive tempo de responder a tantas perguntas. Acho que o filme tem um grande mérito, que é o de respeitar a inteligência das crianças. E o retorno que temos tido comprova que este objetivo foi alcançado.

revistapontocom – Os pais curtem também?
Eduardo Goldenstein – Sim, os pais curtem bastante, sinto que o filme os ajuda de certa maneira ao tocar em temas que são difíceis de serem abordados com os filhos. Após a exibição na Mostra Infantil de Florianópolis um pai emocionado veio falar comigo que sua filha tinha uma avó exatamente como a da história, com dificuldade de lidar com seus afetos e que achava que podia comprar tudo com dinheiro. No dia seguinte, ele nos presenteou com as memórias de Jung. No Rio, fizemos uma pré estreia no Centro Cultural Midrash, seguido de debate com uma psicóloga. O público predominante era de senhoras acima dos 60. Uma delas, muito emocionada após a projeção, nos relatou como é difícil para ela tocar no tema da morte de seu marido com a neta. E ainda temos toda a legião de fãs da obra da Lygia Bojunga, uma autora que marcou gerações de brasileiros. O retorno do público tem sido excelente, temos tido um ótimo boca-a-boca. Sinto que o filme tem sido muito bem acolhido, sinto também que existe uma demanda reprimida por este tipo de produto, um filme artesanal que conta uma história de maneira lírica e delicada. Infelizmente nosso mercado não está preparado para colocar este tipo de filme em suas prateleiras, então precisamos ir construindo nosso público. Temos oferecido sessões exclusivas para as escolas e para isso preparamos um material pedagógico com sugestões de atividades. Nossa parceria com o circuito Itaú e o Cine Espaço também se mostrou muito positiva, já que eles oferecem o programa Escola no Cinema, tocado há tantos anos com muita dedicação pela Patrícia Durães. Acho que as escolas podem aproveitar muito nosso filme. É uma oportunidade para se trabalhar com os alunos temas que raramente vem à tona no currículo oficial, mas que realmente fazem parte da vida de todos nós.

revistapontocom – Cinema infantil nacional praticamente não existe. Na cinematografia brasileira, nem 10% dos filmes destinam-se à infância. Destes, nem 10% se basearam na literatura infantil brasileira, referência mundial por sua qualidade. Como você avalia este cenário?
Eduardo Goldenstein – É um cenário quase inexistente, mas que vem demonstrando nos últimos anos uma certa vontade de ressurgir. No ano passado o jornal O Globo publicou uma matéria sobre a renovação do cinema infanto-juvenil brasileiro, na qual além de citar o Corda Bamba, apontou também para outras produções que já entraram em cartaz (Meu pé de laranja lima, do Marcos Bernstein) e outras que virão em breve, como “O Menino no Espelho”, do Guilherme Fiúza, baseado no livro do Fernando Sabino, e o “Pluft”, da Rosane Svartman, baseado na peça da Maria Clara Machado. São textos importantes que deverão elevar a qualidade da produção infanto juvenil brasileira.

revistapontocom – Mas como concorrer com os blockbuster americanos?
Eduardo Goldenstein – Precisamos aproveitar o riquíssimo material proveniente da nossa literatura, do folclore, da cultura popular. Temos ótimas histórias para serem contadas. Nunca vamos conseguir bater os americanos no campo deles, que é o campo da tecnologia e dos efeitos especiais. De fato, os filmes americanos se assemelham cada vez mais a uma montanha-russa. São tantos efeitos, explosões, tantos ângulos diferentes de câmera, que muitas vezes saímos do cinema ainda tontos. É um cinema sensorial, que, no entanto, não deixa espaço para a reflexão ou para a emoção. É claro que existem exceções, filmes como Toy Story, Up, Wall-e trazem belas histórias. Mas a regra geral parece ser cada vez mais entreter o público como num parque de diversões. Precisamos então contar nossas histórias, apostar na identificação do público com aquilo que é nosso, afirmar o patrimônio cultural brasileiro. O audiovisual é um recurso estratégico para a formação cultural de um povo, para a circulação de ideias, para a valorização da autoestima. Vivemos num mundo povoado de imagens e o acesso a elas é cada vez mais imediato. As novas gerações já nascem com diversas telas ao seu alcance. Mas o cinema ainda tem o grande privilégio de reter a atenção do público numa sala escura ao longo de duas horas. Este tempo é precioso, pois permite às crianças engajarem-se numa narrativa, construir articulações e darem um sentido à experiência fílmica. Precisamos de apoio dos entes públicos no desenvolvimento de uma política de incentivo à produção e distribuição de filmes brasileiros voltados para a infância e a juventude, já que a briga para colocar um filme em circuito é extremamente cruel para a produção independente nacional. O Brasil é um país gigantesco e tem uma cultura muito vasta, que merece e precisa ser vista em nossas telas. 

Audiovisual infanto-juvenil

Por Marcus Tavares

Dotar os cineclubes do Estado do Rio de Janeiro com as obras premiadas pelo Festival Internacional de Cinema Infantil (Fici). Apoiar os realizadores de longas infantis na participação em festivais infanto-juvenis bem como na dublagem das obras. Propor aos 13 canais infanto-juvenis da TV fechada, registrados na Ancine, a incorporação, na grade de programação, dos curtas infanto-juvenis nacionais premiados. Estes foram os três principais encaminhamentos firmados durante a abertura da 5ª edição Fórum Pensar a Infância, realizado pelo Fici, no dia 21 de outubro, no Oi Futuro, em Ipanema, Rio de Janeiro. O encontro teve o objetivo de discutir políticas públicas para o audiovisual infantil.

O primeiro encaminhamento foi anunciado por Julia Levy, superintendente do audiovisual da Secretaria de Estado de Cultura do Rio. À frente do projeto Cinema para Todos, que busca formar plateia, garantindo acesso gratuito a alunos e professores do Estado do Rio às salas de cinema, Julia afirmou que vai incluir a proposta da compra dos curtas e sua disponibilização nos cineclubes do Estado do Rio na edição 2014 do projeto.

O pedido de apoio à Ancine aos realizadores infanto-juvenis na participação de festivais específicos e na dublagem das obras partiu de uma reivindicação da diretora Rosane Svartman, presente na plateia. Convidada para o painel, Vera Zaverucha, diretora colegiada da Ancine, se comprometeu a levar e discutir a solicitação com seus pares e superiores. E foi a própria Vera que propôs à coordenação do Fórum Pensar a Infância promover uma reunião com os 13 canais infanto-juvenis da TV fechada para exibir os curtas infanto-juvenis que vêm sendo premiados em festivais brasileiros, com o objetivo de eles serem incorporados na grade dos canais. Carla Camurati e Carla Esmeralda, coordenadoras do Fici e do Fórum, se comprometeram na viabilização do encontro.

Cotas na TV Fechada

“Fico contente que em apenas uma rodada de conversas conseguimos avançar. Seria ótimo mudar tudo apenas numa canetada. Mas as coisas não acontecem assim. Portanto, estas pequenas ações representam muito para os realizadores que produzem para a infância”, destacou Camurati.

De acordo com Vera, como a lei da TV paga, número 12.495, promulgada em 2011, criou cotas para a produção brasileira e principalmente para a produção brasileira independente, a produção infantil brasileira deverá crescer nos próximos anos, o que poderá, inclusive, impactar positivamente a produção cinematográfica. “Para que cumpram com as cotas, os atuais 13 canais infanto-juvenis, registrados na Ancine, vão precisar de 2.300 horas de programação brasileira, sendo a metade de realização independente. Considerando que a produção pode ser reprisada, seriam necessárias mais ou menos 500 horas de novos produtos por ano. É uma produção muito grande”.

Fundo Setorial do Audiovisual: 53 projetos

Além das cotas, Vera também destacou os investimentos que o Fundo Setorial do Audiovisual, administrado pela Ancine, vem realizando na produção infanto-juvenil. Segundo ela, de 2008 a 2013, o fundo vem propiciando a realização de 53 projetos infanto-juvenis que ainda estão em fase de produção, envolvendo R$ 60 milhões, 20% do montante do fundo já investido. “Dezenove são obras de longa, apoiadas com cerca de R$ 23 milhões. Trinta e quatro são obras seriadas com R$ 37 milhões. Foram contempladas 35 produtoras, espalhadas por seis estados da federação”.

Na ocasião, Vera adiantou que é muito provável que em breve o Governo Federal anuncie linhas específicas de apoio do Fundo Setorial do Audiovisual. “Hoje temos linhas que contemplam a produção e distribuição. Estamos pensando em linhas de financiamento de desenvolvimento de projetos”. Com relação a uma linha específica para a produção infantil, Vera disse que, pessoalmente é a favor. “Infelizmente, do meu ponto de vista, não tem”, destacou.

Premiados

O Fórum contou ainda com a participação de Rodrigo Guimarães, gerente comercial da Rio Filme, que anunciou, para 2014, a criação de um projeto que terá o objetivo de levar os alunos da Prefeitura do Rio às salas de cinema. Cleide Ramos, presidente da Empresa Municipal de Multimeios da Prefeitura do Rio (MultiRio) e Silvia Rabello, presidente do Sindicato Interestadual da Indústria Audiovisual e do grupo Labocine, também estiveram presentes na mesa de abertura do encontro.

Antes do debate, a coordenação anunciou os filmes premiados. Categoria Histórias Animadas:
“Paleolito” de Ismael Lito; Categoria Histórias Curtas: “A História dos Meninos que Andavam de Noite” de Flávio Barone; e Categoria Teen: “Meu Amigo Nietzsche” de Fáuston da Silva.

História também comum

Por Artur Melo, 10 anos
Aluno do 5º ano do Ensino Fundamental, da Escola Sá Pereira


História também comum
Inspirada em “História Comum”, de Machado de Assis, em que um alfinete conta a sua história

Ele era pobre e negro, mas rico em idéias e bem vingativo. Minha sorte é que o que ele fazia não era para o mal, mas se ele resolver fazer algo ruim… quando o cão batesse no ferrolho, teria que disparar a bala, não tinha jeito, ele mandava, eu obedecia.

Uma vez, Django (personagem do filme de Tarantino) se meteu e me meteu em uma grande aventura, dei muitos disparos, acertei muitas pessoas, mas, verdade, elas não eram nada boazinhas, não. Também estavam acostumadas a matar, não apenas puxando o gatilho, matavam de raiva, de vergonha, de humilhação etc. Pois é, sei que posso me meter em atos violentos, mas não sou a única responsável por tanta violência, palavras e ações também são violentos. Quem nunca se sentiu, assim, ferido, todo machucado, porque uma pessoa fez ou falou algo que jamais deveria?

Uma vez, Django e seu parceiro estavam atrás de três irmãos, um tipo de gente bem ruim que, por exemplo, chicoteava os escravos. O tal parceiro estava “enrolando” o proprietário da fazenda enquanto Django procurava os tais. Encontrou dois deles que estavam prestes a chicotear uma escrava. Foi aí que Django falou uma frase digna, me sacou, e BANG, dei um tiro certeiro no coração de um deles, o outro veio para cima da gente. E aí, em vez de me usar novamente , meu dono pegou o chicote e lhe deu uma boa surra.

Seu parceiro se aproximou, perguntando:
– Cadê o terceiro irmão?
– Fugindo a cavalo no campo. Aponta Django.

Seu parceiro pega o rifle e BANG, acaba com o terceiro irmão.

Essa matança me deixou muito cansada. Você pode até achar estranho pois sou programada para matar, mas estou precisando de umas férias. Cheguei até a pensar em como seria a vida de uma arma de brinquedo, dessas que são usadas pelas crianças, quando brincam de polícia e ladrão e em outras batalhas.

Estava pensando nessas idéias e, de repente, por um descuido de Django, caí numa estrada bem conhecida, por  onde passam muitas pessoas e, agora, já não sei  por quem e para o que vou ser usada.

Elas (as crianças) no poder

Cerca de 300 crianças participaram, no dia 22 de outubro, da 8ª edição do Câmara Mirim, promovido pelo portal Plenarinho. Eles discutiram e votaram três projetos de lei selecionados entre as mais de 414 propostas inscritas neste ano, todas elaboradas por estudantes de 7 a 14 anos. Os três vencedores são os estudantes Maila Gabriela Miranda dos Santos, Eduardo Presswell Sandoval e Ana Clara Paim Silva.

Meio ambiente
Classificada em primeiro lugar, Maila Gabriela é aluna do 9º ano do Centro Integrado de Ensino Cremilda Oliveira Viana, escola pública da cidade mato-grossense de Primavera do Leste. Ela apresentou projeto relacionado ao meio ambiente. Pela proposta, o governo federal deverá ser responsável pela arborização das casas do programa Minha Casa, Minha Vida. “Esse projeto de arborização visa melhorias na qualidade de vida dos futuros moradores, por contribuir para amenizar os efeitos das altas temperaturas, além de deixar o ambiente mais bonito e agradável”, justificou Maila.

Cinema
Eduardo e Ana Clara obtiveram o segundo e terceiro lugares, respectivamente. Os dois alunos mineiros, da cidade de Belo Horizonte, estudam no Colégio Bernoulli, o mesmo de Gabriel Garcia Gomes Salles Teixeira, vencedor do Câmara Mirim 2012. Eduardo elaborou um projeto que obriga os cinemas de todo o País a dedicar uma tarde por mês à exibição de filmes para crianças carentes, previamente cadastradas. Uma parceria com o governo garantirá a distribuição de ingressos para a sessão, além do fornecimento de transporte e acompanhamento de servidores das secretarias de Educação.

Saúde
Já o projeto de Ana Clara prevê que os produtores de alimentos passem a informar no rótulo a quantidade de açúcar existente nos produtos. Ana Clara argumentou, em sua justificativa, que “essa é uma tentativa de avisar para a população o quanto há de açúcar nos alimentos, para que ela perceba que alguns não devem ser ingeridos em grandes quantidades, sob risco de causarem problemas sérios de saúde.”

Deputados mirins
O Câmara Mirim é um programa educativo promovido pelo portal infantil Plenarinho que simula uma sessão ordinária da Câmara dos Deputados. No dia do evento, alunos do ensino fundamental fazem o papel de deputados mirins e apresentam, debatem e votam três projetos de lei selecionados.

Padrinhos
As propostas dos deputados mirins poderão ser apadrinhadas por deputados e virarem projetos de lei de verdade. Em 2007, o então deputado Paulo Henrique Lustosa adotou um projeto apresentado no Câmara Mirim que proíbe o uso de pau-de-arara como transporte escolar. A proposta (PL 2561/07) tramita em conjunto com o PL 2397/07, que trata do mesmo assunto, e já foi aprovada pelas comissões técnicas da Casa. A matéria aguarda votação pelo Plenário.

Escola e estudantes

Já está na internet o Festival de Imagens do Ensino Médio, promovido pelo portal EMDiálogo. São 83 vídeos de estudantes de todas as regiões do Brasil que se inspiraram no tema “A escola, a aula e eu”. Foram selecionados 27 produções para a mostra competitiva. Como filme convidado, os internautas poderão conferir o curta “A hora do Recreio”. O filme, dirigido por Vinícius Mazzon e Néleio Spréa, aborda com inteligência e criatividade o movimento criado por crianças para barrar uma lei que quer proibir o recreio. A obra ganhou o prêmio de melhor filme da Mostra Internacional de Cinema de Florianópolis.

Os interessados também terão a oportunidade de conferir os filmes do Festival Arariboia Cine.
Em cada uma das mostras, será possível comentar/dialogar com os realizadores, deixando suas impressões sobre os vídeos e filmes. Somente na Mostra Competitiva o seu comentário, compartilhamento e voto valem pontos para os realizadores.Para votar e comentar é preciso estar logado no Portal EMdiálogo. Cada pessoa tem direito a um voto por filme. O anúncio dos vencedores será anunciado no dia 1º de novembro, último dia do festival.

http://www.emdialogo.uff.br/II-festival-imagens-emdialogo

Dia de soltar a voz

Por Marcus Tavares

No dia 17 de outubro, adolescentes brasileiros, em 25 cidades do país, vão soltar a voz pela democratização da comunicação. São as ações que marcam o DIA C – Dia da Juventude Comunicativa. A atividade, liderada pela Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Comunicador@s  (Renajoc), pretende mobilizar a sociedade pelo direito humano à comunicação. E chamar a atenção para a urgente necessidade de uma nova lei geral de comunicações, que substitua o atual Código Brasileiro de Telecomunicações. Com mais 50 anos, o código, de acordo com a Renajoc, aborda a comunicação sob a ótica do negócio, deixando de lado questões importantes como a democratização, a pluralidade de ideias e a diversidade. O documento legitima um histórico de concentração dos meios de comunicação nas mãos de pouquíssimos grupos comerciais, que juntos controlam 70% da mídia brasileira.

Em Lavras, em Minas Gerais, os jovens ocuparão uma praça pública realizando oficinas de grafite, jornal mural, apresentação de hip-hop, exposição de fotos e mídias táticas. Já em São Mateus, no Espírito Santo, o sitio histórico Porto de São Mateus será tomado por adolescentes com diversas atividades incluindo a produção de mídias artesanais, mostra de curtas e oficinas de desenho. Em Belém, no Pará, haverá roda de conversa, exibição de vídeos e debates. Vinte escolas da rede pública, em vinte cidades diferentes, que participam do projeto Mais Educomunicação, também estão preparando atividades dentro e fora do espaço escolar.

As ações buscam também colher assinaturas para o Projeto de Lei de Iniciativa Popular da Mídia Democrática, que visa regulamentar o funcionamento dos meios de comunicação, garantindo a pluralidade e a diversidade (www.paraexpressaraliberdade.org.br).

Para conhecer um pouco mais sobre o DIA C, a revistapontocom conversou com Reynaldo Azevedo, jovem comunicador da Renajoc, de 17 anos, que está à frente da mobilização nacional.

Acompanhe:

revistapontocom – Em que contexto surge o DIA C?
Reynaldo Azevedo – A data foi criada em 2009 como parte do processo de participação de adolescentes e jovens na Conferência Nacional de Comunicação. Desde então, esse é o momento em que a sociedade civil, em especial adolescentes e jovens, mostram sua cara e realizam diversas atividades de mobilização, articulação e proposição pelo direito humano à comunicação, não apenas para ter acesso, mas também para disseminar conteúdos produzidos por pessoas e comunidades. É preciso democratizar os meios de comunicação para garantir uma verdadeira democracia em nosso país. É por isso que a Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Comunicador@s (Renajoc) realiza, com um conjunto de organizações, no dia 17 de outubro, o Dia Nacional da Juventude Comunicativa, o chamado DIA C. Desde 2009, o projeto vem recebendo adesões de outras instituições e coletivos. Neste ano, contamos com a parceria do projeto Mais Educomunicação, do instituto C&A.

revistapontocom – O que está programado para a edição deste ano?
Reynaldo Azevedo – Com o objetivo de realizar ações sobre o direito humano à comunicação e colher assinaturas para o Projeto de Lei da Mídia Democrática, vamos promover múltiplas atividades, como rodas de conversa em escolas, igrejas, centros comunitários, intervenções urbanas com grafite, flashmob, pendurar cartazes gigantes com frases de impacto, bicicletada e passeatas.

revistapontocom – De que forma os jovens participam das atividades?
Reynaldo Azevedo – Os adolescentes que já integram as atividades ajudam a pensar e a construir a ação. Quem não puder participar diretamente das ações pode assinar o projeto de lei de iniciativa popular para a mídia democrática ou até mesmo mobilizar uma ação em suas cidades. A Renajoc está super-receptível para ajudar quem tiver interesse em fazer alguma coisa. São muitas pessoas envolvidas, concretizando o DIA C, em regiões, estados e municípios diferentes. O DIA C está programado para acontecer em 25 cidades do país. Esperamos que dessas ações possam surgir vários horizontes para conquistarmos o direito humano à comunicação e disseminar essa temática. Para orientar os jovens interessados, a Renajoc produziu um manual de orientações para o DIA C.

revistapontocom – Os adolescentes que participam das ações têm ideia do tamanho do desafio de defender o direito humano à comunicação no Brasil?
Reynaldo Azevedo – Sem dúvida. Trata-se de um grande desafio. Democratizar a comunicação envolve diretamente a garantia e conquistas dos nossos direitos. Hoje os meios de comunicação do Brasil estão nas mãos de 11 famílias. Essas famílias decidem o que vamos ler nos jornais e revistas, ouvir nas rádios e assistir nas TVs. São elas também quem decidem quais produtos serão anunciados e entrarão nas nossas casas sem pedir licença. Democratizar a comunicação é tirar as concessões públicas de uso dos meios de comunicação das mãos dessas poucas e milionárias famílias e garantir que as pessoas, movimentos, grupos, organizações sociais possam participar da produção desses meios de comunicação. Um exemplo são as rádios comunitárias, que prestam um serviço social levando notícias locais às comunidades e que muitas vezes são consideradas piratas e precisam fechar as suas portas. Quando essas rádios fecham suas portas é porque o direito de veicular notícias para aquela comunidade ficou restrito a esses grandes aglomerados familiares que dominam a comunicação no Brasil. Democratizar a comunicação é mudar esse cenário.

Mídia e educação na Finlândia

 

 

 

 

 

Good Media Literacy: Mídia-Educação de qualidade
Diretrizes da política nacional 2013-2016
Ministério da Educação e Cultura, Finlândia, 2013

Por Ilana Eleá
Pesquisadora e Doutora em Educação

O Ministério de Educação e Cultura da Finlândia acabou de divulgar as orientações governamentais para a promoção da Mídia-Educação para o triênio 2013-2016. Uma das prioridades da política pública é fortalecer o espaço da Mídia-Educação nos currículos escolares. Inclusão social, cidadania ativa, pensamento crítico, criatividade e auto-expressão são palavras chaves da proposta. De acordo com o governo, o letramento para a mídia e o desenvolvimento de competências tecnológicas passam a compor o corpo da prática escolar, alargando, neste sentido, o conceito de letramento como requisito para participação e inclusão na sociedade.

O documento Mídia-Educação de qualidade: diretrizes da política nacional 2013-2016 traz logo na primeira frase a provocação: Mídia-Educação (Media Literacy) é o letramento de hoje. O texto reforça que todos nós precisamos de habilidades mídia-educativas em nossos diferentes papeis na sociedade, como cidadãos, consumidores, trabalhadores e estudantes.

As diretrizes foram construídas a partir dos princípios levantados pela Convenção sobre os Direitos das Crianças e são apresentadas na introdução do texto. Importante lembrar que a Convenção destaca o entendimento de que crianças e adolescentes são sujeitos ativos. Essa atividade também se manifesta na relação que crianças e adolescentes estabelecem e nutrem com as mídias: eles usam mídia para jogar, para se dedicar aos seus hobbies, experimentar e vivenciar diversas emoções, aprender algo novo e participar em diferentes comunidades.

O projeto do governo pretende assegurar que cada criança e adolescente tenha/aprenda pré-requisitos para o acesso e participação na sociedade da informação. Competências mídias-educativas são vistas como elementos importantes para participação e inclusão na sociedade. A interação entre gerações é entendida como vital. Adultos possuem papel-chave na promoção qualificada do letramento para a mídia entre crianças e adolescentes.

O documento pretende ser útil para representantes do governo, sociedade civil, setores de mídia, enfim para todos que estão engajados no trabalho prático da Mídia-Educação. Segundo o governo finlandês, é necessário integrar diferentes setores da sociedade, incitar colaborações entre seus diferentes atores. Tanto os envolvidos com o sistema educacional e escolar, com o setor cultural juvenil, com agências de bem-estar social e setores de saúde, quanto os representantes de consumidores e do setor de mídia são incitados a participar do debate e da tomada de decisões em torno do tema. Fica claro o entendimento de que o campo de Mídia-Educação tem se expandido na Finlândia. O foco hoje não recai apenas na Educação Infantil, no Ensino Fundamental, Médio ou Superior, mas também no dia a dia das bibliotecas e das áreas que representam o setor cultural e juvenil.

O segundo capítulo do documento enfatiza o valor da Convenção sobre os Direitos da Criança para a Mídia-Educação. Segundo o texto, os seguintes princípios da Convenção são especialmente relevantes para a Mídia-Educação: 1 – Os interesses das crianças devem ser levados em considerados prioritários nas decisões públicas; 2 – Crianças têm o direito de participar e expressar seus pontos de vista de acordo com sua idade e maturidade; 3 – A criança tem o direito de crescer e se desenvolver no seu ritmo individual; 4 – Crianças precisam ser tratadas com equidade. As orientações também reiteram que as crianças têm o direito de: receber informação, produzir informação e se expressar, se familiarizar com a vida cultural e artística e receber proteção.

No terceiro capítulo, o texto aborda o estado atual da Mídia-Educação na Finlândia. É possível ter uma noção geral do que as autoridades públicas, ONGs, escolas, universidades, institutos independentes e fundações têm feito para promover a Mídia-Educação no país. É interessante notar a relevância positiva da inclusão de iniciativas mídias-educativas nas bibliotecas do país.

Em relação à política educacional, o documento destaca a reforma na Educação Básica, iniciada em 2012, que ao renovar o currículo das escolas, ainda em curso, estabelece a Mídia-Educação como competência transversal a ser desenvolvida nas salas de aula. O letramento midiático é entendido como parte de uma concepção estendida de leitura e escrita, letramento que deve ser construído ao longo dos anos da Educação Básica. O texto informa ainda que, de acordo com o Conselho Nacional de Educação, será criado um centro nacional de excelência para a utilização das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) em ambientes digitais de aprendizagem.

De fato, o contexto promovido pelo país, no âmbito das ações de Mídia-Educação, é animador. O documento destaca o lançamento de editais para financiamento de projetos que envolvam a temática. Lembra que o  tema integra ações de políticas públicas para a juventude e projetos nacionais, como o Lukuinto (the Joy of Reading), coordenado pela Universidade de Oulu (2012-2015), que incorporam novas práticas de leitura trazidas pelas novas tecnologias em suas abordagens.

Reforça que há uma série de organizações e ONGs ativas que também trabalham com o tema. Podemos destacar: Mannerheim League for Child Welfare, Center for School Clubs, Save the Children Finland, The Finnish Parents League, Koulukino – School Cinema Association. Ao mesmo tempo em que o setor de mídia também tem se envolvido: empresas públicas e privadas oferecem plataformas online para instituições educacionais, conteúdo para jogos educativos, provem material educacional para suporte didático, fazem parcerias com escolas. Em relação ao campo da pesquisa, pode-se dizer que das 10 universidades que oferecem cursos em cultura, arte e pedagogia, oito estão envolvidas com pesquisas relacionadas à Mídia-Educação. A Universidade de Lapland e a Universidade de Tampere têm sido especialmente ativas nesse intento. O texto revisita, ainda, as iniciativas adotadas pela União Europeia e reforça o papel da Unesco.

O capítulo 4 aborda tendências e desafios para a Mídia-Educação. Por um lado é sabido que a mídia tem sido parte fundamental da infância e juventude na Finlândia. Crianças são envolvidas em atividades sociais que incluem leitura, escrita, audiência, gravação e jogos utilizando mídias desde muito cedo, em uma relação que parece começar aos três anos de idade. Por outro, a presença na internet também inclui desafios como a publicidade incorporada em conteúdos voltados para o público infantil, cyberbullying, pornografia e representações sociais que precisam ser analisadas criticamente.

Na visão do Ministério da Educação Finlandês, a Mídia-Educação deve primar por princípios que defendam a equidade e pluralismo e propiciar oportunidades para que professores, educadores e adultos se tornem mais e mais letrados em mídia. Iniciativas sistemáticas em longo prazo, transparência, cooperação e incentivo a pesquisa são fundamentais.

Um grupo de especialistas foi nomeado para monitorar e avaliar as ações do Ministério para a promoção de uma Mídia-Educação de qualidade entre 2013 e 2016, sendo designado para atualizar, em 2017, as demandas e necessidades do país na construção de uma sociedade cada vez mais letrada em mídia. As diretrizes definem metas e ações centradas em quatro pontos: mídia-educação no cotidiano focada em crianças e adolescentes; estruturas sustentáveis; parcerias e redes; e envolvimento  do país em atividades globais. No apêndice, o leitor poderá encontrar como tais metas serão convertidas em ações, assim como verificar as agências e atores sociais pensados para serem os executores das mesmas.

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Nos dias 8 e 9 de maio de 2014, será realizada em Tampere, Finlândia, The International Conference on Media Education Futures. A chamada de trabalhos está aberta. Os interessados têm até o dia 30 de novembro de 2013 para enviar suas propostas. Mais informações no site: http://www.uta.fi/cmt/mediaeducationfutures/index.html

Distrito Federal proíbe fabricação e venda de armas de brinquedo

As lojas de Brasília estarão proibidas de vender armas de brinquedos a partir do ano que vem, sob pena de multa de R$ 100 mil e fechamento do estabelecimento. A lei, do governo do Distrito Federal, foi publicada no dia 28 de setembro e tem de ser regulamentada nos próximos 120 dias. Após esse prazo, os comerciantes terão mais seis meses – até julho de 2014 – para retirar os produtos das lojas. Também está proibida a fabricação deles no DF. A lei veta não apenas brinquedos que imitam armas de verdade, mas também os que disparam bola, espuma, luz. A regulamentação servirá para tirar dúvidas sobre o que vale ou não vale. A proibição não inclui armas de pressão, como de ar comprimido e paintball, uma vez que a venda desses produtos já é restrita e controlada pelo Exército.

A subsecretária de Proteção às Vítimas de Violência do Distrito Federal, Valéria Velasco, disse que o objetivo da lei é “prevenir assaltos e conscientizar as crianças”. Segundo Valéria, um projeto em 11 escolas da periferia do Distrito Federal neste ano recolheu, em um mês, 502 armas de brinquedo. Em troca, os alunos ganharam livros e gibis. “As crianças entenderam o espírito e devolverem até espadas. Nosso objetivo é envolver o comércio e a sociedade nesse debate, para mostrar que existem brinquedos que incentivam a cidadania.”

A lei institucionaliza a criação de um programa para recompensar as crianças que devolverem os brinquedos e também cria a semana do Desarmamento Infantil. Em 2005, o Inmetro editou uma resolução que regulamenta a fabricação dessas armas de brinquedo. As peças fabricadas no Brasil devem ser de cor branca ou tons fluorescentes, para evitar semelhança com as armas de verdade.

O que você, leitor da revistapontocom, acha desta medida?

No Painel do Leitor, do jornal Folha de S. Paulo, publicado no dia 10 de outubro, a professora Dalva Ananias da Silva, de Macatuba, São Paulo, disse que ela e seus alunos são contra a medida.  “Meus alunos do quinto ano da Escola Municipal Waldomiro Fantini leram e discutiram em sala de aula reportagem publicada em “Cotidiano” sobre a proibição, pelo governo do Distrito Federal, da comercialização de armas de brinquedo. Queremos lembrar ao governador Agnelo Queiroz que, além das armas de brinquedo que estão sendo proibidas, há muitos jogos eletrônicos violentos. Eles também serão proibidos? Somos contra essa lei no DF, pois acreditamos que ser ou não violento depende do ambiente em que vivemos e da “conscientização” da nossa família”.

Opine, faça seu comentário abaixo.

Cinema Infantil de Vitória da Conquista

Após a exibição de 25 curtas-metragens vindos de várias partes do país, contemplando cerca de três mil crianças da rede municipal de ensino, com idade entre 5 e 12 anos, a 4ª Mostrinha de Cinema Infantil de Vitória da Conquista foi encerrada no dia 11 de outubro. A última sessão do evento trouxe para os alunos um elemento-surpresa: a exibição do curta-metragem Menino do Cinco, protagonizado pelo ator Thomas Oliveira, de 12 anos, presidente do júri infantil da edição deste ano.

Em seguida, Thomas e seis alunos de escolas municipais de Vitória da Conquista anunciaram os filmes premiados. Em terceiro lugar: A história dos meninos que andavam de noite, de Flávio Barone. Em segundo, Quadrinhos – guia prático, de Humberto Avelar. E em primeiro lugar: Joãozinho de carne e osso, dirigido por Paulo Vespúcio.

Já o melhor curta-metragem baiano, na opinião do júri, foi a animação O homem que cantou as aves do sertão, dirigida por Patrícia Moreira, estudante do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb).

“É muito bom ver a qualidade dos filmes aqui apresentados”, disse ao público a curadora da Mostrinha, Marialva Monteiro, que pela terceira vez foi a responsável por selecionar os filmes que compuseram a programação. Marialva recomendou aos professores que conversem com seus alunos sobre o que acharam dos filmes a que assistiram. “É muito importante ouvir a opinião da criança”, explicou.

“A Mostrinha é um projeto muito querido, pelo qual temos muito carinho e afeto. Trabalhamos para possibilitar isso a vocês”, disse a coordenadora do evento, Raquel Costa.

Segundo a coordenadora do Programa Janela Indiscreta Cinevídeo Uesb, Milene Gusmão, as expectativas, para a próxima edição da Mostrinha, são de que o evento aumente seu alcance. “Concluímos com a esperança de fazer a próxima Mostrinha maior, com a participação de mais escolas e mais crianças”, afirmou.

Milene adiantou, inclusive, que, em 2014, a 5ª edição já será realizada em outro lugar: o Cine Madrigal, antigo cinema que havia sido desativado. O imóvel recentemente foi adquirido pela Prefeitura.

A Mostrinha de Cinema Infantil de Vitória da Conquista acontece desde outubro de 2010. O evento é realizado pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, por meio da Pró-Reitoria de Extensão e do Programa Janela Indiscreta Cinevídeo Uesb, com a correalização da Prefeitura de Vitória da Conquista, por meio da Secretaria Municipal de Educação.

Debate

Por Contardo Calligaris
Artigo publicado na Folha de S. Paulo

Para (ou Contra) o Dia das Crianças

Na semana retrasada, em Buenos Aires, uma criança de seis anos foi autorizada a mudar de nome e de gênero no registro de identidade argentino. Ela tinha nascido menino, Manuel, e declarava ser menina e princesa desde os 18 meses. A criança passa a se chamar agora Luana, nome que ela já tinha escolhido dois anos atrás.

Leia a matéria publicada no jornal Clarín.

Ela se vestirá de menina, brincará com as meninas e, na escola, frequentará o banheiro feminino. Esse detalhe não é irônico: pouco tempo atrás, nos EUA, uma criança transgênero da mesma idade de Luana, Coy Mathis, teve que recorrer à Justiça para obter o direito de frequentar o banheiro feminino de sua escola.

Simpatizo com os juízes norte-americanos e argentinos, porque sua decisão não foi fácil. Simpatizo ainda mais com os pais de Luana, de Coy e de todas as crianças pequenas que hoje são reconhecidas como transgênero.

Imagino o drama dos pais. Eles podem 1) proibir e coagir para tentar estancar a identificação com o outro sexo, 2) permitir e deixar a coisa se desenvolver sem vaiar e sem aplaudir ou, ainda, 3) tomar as dores de suas crianças e defender o direito de elas mudarem de gênero. Qual é a escolha certa?

Concordando ou não com a escolha dos pais de Luana e Coy, para apreciar sua coragem, basta se lembrar de que poucas décadas atrás ainda se prendia a mão esquerda atrás das costas das crianças canhotas na hora de elas aprenderem a escrever.

Qual será o próximo passo desses pais? Em tese, tentarão contrariar a puberdade administrando à filha o hormônio feminino que ela não produz. Mesmo assim, o corpo de Luana e Coy se tornará mais masculino do que elas esperam, e chegará a hora de recorrer à cirurgia estética e, por exemplo, implantar seios e depilar o corpo inteiro a laser. Quando?

Um recente artigo de Margaret Talbot, numa “New Yorker” deste ano (http://migre.me/giGK1), conta a história de Skylar, criança transgênero de menina para menino, que começou a testosterona e removeu os seios aos 16 anos.

Talbot também mostra que, sobretudo nos EUA, cresce fortemente o número de crianças pequenas que pedem para mudar de gênero.

Ora, a diferença de gênero é muito menos binária do que estamos acostumados a pensar, e acredito mesmo que haja espaço para um terceiro e um quarto gênero. Mas acho sintomática a diminuição progressiva da idade das crianças consideradas transgênero. Sintomática de quê?

Para autorizar uma mudança de sexo, psicólogos e psiquiatras recorrem a critérios sobre os quais é inevitável que se discuta até não poder mais. Mas, de qualquer forma, sejam quais forem os critérios, alguém acha que possamos aplicá-los em crianças de seis anos?

O que significa que um menino, aos dois anos, declare que ele é menina ou princesa? Mesmo que ele não desista nunca dessa ideia, ainda assim ele tem vários destinos possíveis. Talvez, no futuro, ele acorde a cada dia num corpo que lhe repugna, e sua vida só se resolva se ele se transformar concretamente em mulher. Mas uma outra possibilidade (de novo, entre várias) é que, no futuro e durante a vida inteira, ele esconda sua feminilidade e faça dela uma grande fantasia erótica.

A segunda via não é a repressão da primeira: é outra aventura, totalmente. Quem decidirá, diante de uma criança de seis anos, se ela é candidata à primeira ou a segunda via? Ou a outra via ainda?

É preciso idealizar loucamente a infância para incentivar ou satisfazer o desejo de mudar de gênero manifestado por uma criança de seis anos.

Pouco tempo atrás, a uma criança que dissesse suas vontades, só se respondia “cresça e depois a gente conversa”. De repente, hoje, parece que o próprio fato de uma criança falar seja garantia da qualidade (“verídica”) do desejo que ela expressa (talvez por isso, aliás, não saibamos mais o que fazer quando as crianças dizem que preferem dormir tarde, estudar outro dia etc.). Será que nos esquecemos de que uma criança inventa, finge, mente, que nem gente grande, se não mais?

Sábado é Dia da Criança. Ótimo –que seja um dia em que as crianças possam fazer uma ou outra besteira que lhes der na telha e em que os adultos gastem um dinheiro em presentinhos.

Mas péssimo se o Dia das Crianças for a celebração canônica da infância, que é um ídolo moderno especialmente perigoso. Perigoso? Sim. Espero que não seja o caso de Luana e de Coy, mas as primeiras vítimas de nossa idealização da infância são sempre as próprias crianças.

Toca aí DJ

Por Marcus Tavares

A tia faz o bolo. Os docinhos ficam por conta da avó. As bebidas na geladeira. Os salgadinhos fritos na hora. Ah, sim, e as bolas? Bem, é só chamar a garotada e tudo fica pronto para a hora da festa. Som ligado, comida e bebida. Pronto: agora é só deixar a criançada se reunir e brincar à vontade. Aniversário assim é coisa do passado, de álbum de família. Hoje, na maioria das grandes cidades brasileiras, festa infantil é sinônimo de espetáculo que se adequa aos diferentes gostos e bolsos. O número de casas de festas se proliferou nos últimos anos. Lucro certo para dar assas a imaginação das crianças e, principalmente, sem dúvida alguma, dos pais das crianças.

Impressiona ver e sentir o quanto a comemoração do aniversário dos cidadãos de primeira viagem se transformou, nas últimas décadas, num grande e disputado evento, com uma programação extensa, requintada e cheia de etiquetas. A cada hora um show, uma apresentação, uma atividade, muitas vezes com direito a teatrinho, karaokê, mágica, palhaços, animadores e, sem esquecer, é claro, a um miniparque de diversões. Barraquinhas de cachorro-quente, pipoca, algodão doce e sorvete compõem o cenário. A mesa do bolo, com todos os enfeites é algo cinematográfico. Um mundo de sonho, no qual os personagens dos desenhos animados ganham vida – ao vivo e a cores – para espanto, admiração e alegria das crianças. Foi-se o tempo que os personagens se contentavam em aparecer apenas nos copos, pratos, guardanapos, chapéus ou no grande painel da mesa do bolo.

Isso sem esquecer, é claro, dos flashes e das câmeras das filmadoras e dos celulares, atentos a cada reação das crianças. Tudo perfeitamente registrado e documentado em áudio e imagem, que logo se transforma num DVD ou capa de jornal e ou revista, distribuído para os familiares e amigos.

Além da agenda lotada, o que vem chamando a atenção é a trilha sonora das festas infantis. Você já reparou nisso? Para começar, as festas contam com a figura dos DJs, que, ao que parece, não têm muito trabalho. As músicas que tocam são praticamente as mesmas das baladas. Transformação que vem ocorrendo desde os anos 90.

Quem não se lembra, por exemplo, da dança da garrafa? Bebês e crianças descendo, descendo na boquinha da garrafa. E pensar que nas décadas anteriores, os hits eram do Carequinha, Toquinho e Vinícius de Moraes, com o famoso e inesquecível Lá vem o pato. Quanta mudança, não?

Silvia Düssel Schiros que o diga. Ela não esquece um episódio que aconteceu há nove anos. “Quando minha mais velha, que hoje tem 12 anos, tinha três anos, fui a um aniversário em uma casa de festa. Enquanto o “DJ” – Dj para festa de três anos? – tocava Xuxa e similares, ainda estava suportável. Mas aí ele passou para o cantor Latino, “Festa no apê”,  aquela do bundalelê, bem alto. Fui comentar com ele: ‘Cara, é festa de criança, essa música não está adequada’. Ele me olhou com cara de espanto e não trocou. Fui comentar com outras mães que tinha reclamado – a mãe da aniversariante estava junto. Elas também me olharam com cara de espanto. Tenho a impressão de que as pessoas perderam o senso crítico”.

Cristiane Chiofalo, dona de um buffet de festas, em São Paulo, não tem dúvidas. Ela diz que está cada vez mais preocupada com o nível/compromisso das mães. “Nossa casa se recusa a tocar algumas músicas, assim como toda a parafernália de transformar a festa em um show. Mas, em contato com os pais, percebo o quanto estas crianças estão desamparadas de limites”.

Inconformada, Chiofalo vem trabalhando contra a maré, contra os modismos. Nos últimos aniversários, ela resolveu tirar todos os eletrônicos da festa e convidar os pais a brincarem com seus filhos. “É chocante que a maioria dá um jeitinho de se omitir. E continuam delegando, inclusive a brincadeira entre eles e seus filhos, para que outras pessoas cuidem. Enfim, estou tentando não julgar e, sim, refletir sobre tudo isso. Mas é difícil. A realidade tem se apresentado como a descrita no livro A sociedade dos filhos órfãos, de Sergio Sinay. A obra fala dos pais que abandonam suas responsabilidades básicas frente aos filhos, com as desculpas de excesso de trabalho ou de falta de resistência ao trabalho árduo de educar as crianças. Consequentemente, esses responsáveis acabam terceirizando tudo: educação, alimentação, lazer e, inclusive, as festas”.

No ano passado, Claudia Olsieski da Cruz acabou se rendendo ao mundo das festas, por insistência do filho que tinha o sonho de comemorar o aniversário como a maioria dos amigos da sua idade. Mas enfrentou dificuldades na hora de fechar o contrato. “Fiz questão que o gerente da casa de festas colocasse no papel que não iria tocar nada de funk e ou pagode. E que o som deveria permitir que as pessoas conversassem sem berrar. Perguntaram-me se eu era evangélica. Tive que explicar que não se tratava de religião, mas simplesmente de gosto musical. A insistência dele em manter esses ritmos só terminou quando falei em procurar outro lugar para a festa. Mas, maldição, esqueci de colocar o techno na lista dos proibidos”.

Na direção de apresentar outros gêneros musicais e autores, Aline Pierote, mãe de dois meninos, de três e seis anos, sempre procura tocar as músicas dos Saltimbancos, Arca de Noé, de Vinicius, Casa de Brinquedos e composições de Hélio Ziskind. “É isso que eles escutam quando estão no carro ou em casa. Mas fico sem saber como agir quando vamos a festas infantis e eles ouvem o repertório adulto, na minha opinião inadequado. É espantoso como o ritmo dessas músicas agrada a meninada. Eles cantam sem ter noção do que estão falando. O meu mais velho, no dia seguinte, estava no banho cantando sexy lady (PSY, Gangnam Style). Penso que não há como blindar nossos filhos. Eles eventualmente vão ter acesso a esse “conteúdo”. E nosso papel como pais é orientar, explicando que há vários tipos de música, deixar clara nossa preferência, restringir o máximo possível o que não nos agrada e, principalmente, dar o exemplo”.

Lia Vasconcelos concorda com Aline Pierote: não há como blindar os filhos. “Aqui em casa, as meninas escutam Palavra Cantada, Pequeno Cidadão, Adriana Partimpim, Saltimbancos, Arca de Noé, mas minha mais velha, de quatro anos, vira e mexe canta: ‘pi, pi, piradinha, ela tá maluca, fora da casinha’, ‘alek, lek, lek’, ‘show das poderosas’. Eu pergunto: ‘mas onde você ouviu isso?’. E ela: ‘a professora de ginástica olímpica canta, a amiga dela canta… E ela aprende rapidinho”.

E como. Ao que parece os grandes hits de hoje são Naldo e Anitta. A máxima, inclusive, é brincar de danças da cadeira ao som de ‘PRE-PARA’ em alto e bom som. A ‘festa’ continua.

Feira do livro de Frankfurt

Em seu discurso de abertura na Feira do Livro de Frankfurt, o escritor Luiz Ruffato fez uma pesada crítica sobre as desigualdades sociais brasileiras. Entre outras questões, falou do passado escravagista, da violência, da população carcerária e da homofobia. Leia a íntegra do discurso a seguir:

“O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século 21, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.

O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro –é a alteridade que nos confere o sentido de existir–, o outro é também aquele que pode nos aniquilar… E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.

Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.

Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, artistas plásticos, cineastas, jornalistas, escritores.

Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania –moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade–, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém…

Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios –o semelhante torna-se o inimigo.

A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.

Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.

Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.

E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.

O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais –ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.

A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.

Mas, temos avançado.

A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.

Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, e sim privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.

Nós somos um país paradoxal.

Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo –amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão de obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.

Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos…

Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?

Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro –seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual– como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora.”