Capacidade de concentração está cada vez menor

Por Paula Adamo Idoeta
Da BBC Brasil

Você já se distraiu de uma tarefa para checar seu perfil nas redes sociais? Ou perdeu uma conversa na mesa do restaurante porque estava respondendo mensagens no smartphone? Para Larry Rosen, professor da Universidade Estadual da Califórnia e pesquisador da chamada “psicologia da tecnologia”, você não está sozinho: a capacidade média de concentração dos participantes de suas pesquisas é de apenas 3 a 5 minutos. Depois disso, eles se distraem, sem conseguir terminar seus estudos ou trabalhos.

O problema tende a se acentuar à medida que nos tornamos cada vez mais inseparáveis de tablets e smartphones – e as consequências podem ser ruins para nossa capacidade de ler, aprender e executar tarefas. “Se ficamos trocando de tarefa, nunca passamos tempo o bastante para nos aprofundarmos em nenhuma delas. Três minutos certamente não bastam para estudar”, diz Rosen, autor de livros sobre o impacto social da tecnologia. Sua próxima obra, em conjunto com um neurocientista, se chamará justamente The Distracted Mind (A Mente Distraída, em tradução livre).

Em entrevista à BBC Brasil, ele sugere técnicas simples para “reprogramar” o cérebro a reconquistar essa habilidade de prestar atenção. E, no caso de adolescentes, não adianta vetar a tecnologia – mas sim estimulá-la em horas certas.

Confira:

BBC Brasil – Nossa capacidade de concentração está diminuindo?
Larry Rosen – Certamente está cada vez menor, e em diversos níveis. Pesquisas mostram que nossa concentração média é de 3 a 5 minutos antes que acabemos nos distraindo, no estudo ou no trabalho. A maioria dessas distrações é tecnológicas – alertas de mensagem, e-mails etc. Culturalmente, seguimos essa tendência. Até TV mudou. Em programas de TV dos anos 1980 e 1990, o tempo de cada cena era muito maior do que é nos programas atuais, que se adaptaram à nossa atenção mais curta. Revistas também fazem reportagens cada vez mais curtas.

BBC Brasil – Isso é um problema?
Rosen – Se ficamos trocando de tarefa, nunca passamos tempo o bastante para nos aprofundarmos em nenhuma, e tudo fica superficial. Três minutos certamente não bastam para estudar, por exemplo. O segundo problema é que, terminada a distração, não voltamos imediatamente à tarefa que interrompemos. Precisamos de um tempo para lembrar onde estávamos. No caso de um livro, temos de reler alguns parágrafos, realocar nosso cérebro.Em uma pesquisa com estudantes universitários, tiramos seus telefones, os dividimos em três grupos – de uso leve, moderado e extremo – e medimos sua ansiedade. Os usuários leves tiveram pouca alteração em seus níveis de ansiedade; os moderados rapidamente ficaram ansiosos, até que esses níveis caíram. Mas as pessoas que usavam muito seus smartphones ficavam mais e mais ansiosas. E neste último grupo estavam justamente as crianças e os jovens adultos. Temos de ensiná-los a evitar essa ansiedade.

BBC Brasil – Será um reflexo disso o fato de as pessoas lerem pouco ou não terminarem leituras?
Rosen – Muitas pessoas já não conseguem mais ler integralmente, elas passam o olho. Percebo isso como professor: ao mandar um e-mail aos alunos, que respondem com dúvidas. Mas essas dúvidas estavam respondidas no e-mail original. Daí eles dizem, ‘desculpe, eu só li as primeiras linhas’. Tudo fica mais superficial, mas também mais estressante. Quanto mais trocamos de tarefas, mais damos para o nosso cérebro monitorar.

BBC Brasil – Estudos mostram que isso vem afetando o desempenho de estudantes/profissionais. Há exagero nesta avaliação?
Rosen – Em outra pesquisa, assisti a estudantes durante seus estudos. Pedíamos que eles estudassem matérias importantes, para ver como se concentravam. E vimos que eles só conseguiam manter sua atenção por uma média de 3 minutos. O interessante é que os que conseguiam se concentrar mais tinham notas melhores na escola, e não apenas naquela matéria que estavam estudando. Ou seja, se concentrar melhora o desempenho, na escola, no trabalho e até nos relacionamentos pessoais.

BBC Brasil – Como recuperamos esse poder de concentração?
Rosen – É possível aprender técnicas simples para aumentar a capacidade de focar e não se distrair. Imaginemos, por exemplo, a hora do jantar de uma família comum. Hoje em dia, todos jantam tendo seus celulares consigo. A sugestão é, no início do jantar, que todos possam checar seus celulares por um ou dois minutos. Mas depois têm de silenciá-los e virar seu visor para baixo, para não ver as mensagens chegando. Após 15 minutos marcados no relógio, todos recebem permissão para checar o telefone novamente, por um minuto. À medida que a família se acostuma com isso, aumenta-se gradualmente esse período de 15 para 20 e 30 minutos. E assim cria-se tempo para conversas familiares ininterruptas por 30 minutos, seguido de um minuto para checar o celular. É uma forma de treinar o cérebro a não se distrair, e isso é essencial.

BBC Brasil – É uma reprogramação do cérebro?
Rosen – Você está reprogramando a parte química envolvida no estresse do seu cérebro. Porque o que começamos a ver é: se impedimos as pessoas de checarem seus celulares ou dispositivos tecnológicos, elas ficam ansiosas, (o que produz) alterações químicas.

BBC Brasil – É como um vício?
Rosen – O engraçado é que não é um vício – se fosse, teríamos sensação de prazer ao checar nosso celular. E a maioria não está obtendo prazer, apenas tentando reduzir a ansiedade e a sensação de não saber se está perdendo algo (na internet ou nas redes sociais).

BBC Brasil – O que podem fazer os professores que querem recuperar a atenção de seus alunos?
Rosen – Em geral, eles terão de usar a própria tecnologia, seja permitindo que os alunos usem seus próprios dispositivos ou trazendo dispositivos à aula. Por exemplo, com vídeos curtos, que costumam atrair os estudantes. Aqui nos EUA, algumas escolas particulares também têm usado mais tecnologias, como iPads e Apple TV, na sala de aula. Isso certamente torna a educação mais atraente.Em escolas que proíbem os aparelhos móveis, os estudantes os levam escondidos e ficam trocando mensagens debaixo da carteira. É melhor, então, que os professores os deixem checar em determinados momentos – por exemplo, a cada meia hora por um ou dois minutos. Se você veta o uso da tecnologia, os estudantes vão ficar o tempo todo pensando no que estão deixando de ver (no celular), nos comentários que a sua foto no Instagram estará recebendo. E, assim, não vão prestar atenção na aula de qualquer maneira.

BBC Brasil – Há vantagem no fato de estarmos fazendo diversas tarefas ao mesmo tempo?
Rosen – Em geral, não – a tentativa de fazer muita coisa junta impacta seus relacionamentos. Se você tenta falar com seu marido ou mulher à noite e cada um está vidrado em seu celular, que conversa vai ter? Se você está com seus amigos num restaurante, mas fica no celular, que interação fará com eles? E fico pensando como será quando as pessoas começarem a usar o Google Glass – você vai achar que (seu amigo) está olhando para você, mas ele estará, na verdade, olhando para o que estiver aparecendo nos óculos.

BBC Brasil – Mas tem gente que pode ter uma performance melhor nesse novo ambiente de estímulo constante?
Rosen – Pesquisas mostram que uma parcela bem pequena das pessoas é capaz de funcionar bem nesse tipo de ambiente. Não vi pesquisas de longo prazo a respeito disso, mas imagino que isso seja algo estressante. E no longo prazo isso não é bom para o corpo.

BBC Brasil – As pessoas conseguem definir regras, limitando o próprio uso da tecnologia?
Rosen – Eu costumava enlouquecer com meu feed no Twitter, até decidir checá-lo uma vez só por dia. Uma das regras que recomendo é: tire seu celular ou notebook do quarto uma hora antes de ir dormir e não se permita checá-los até o dia seguinte. Hoje, nossos estudos mostram que a maioria dos adolescentes e jovens adultos dorme ao lado dos seus telefones e acorda no meio da noite para checá-los. Isso é péssimo para o seu cérebro, que precisa de blocos longos e consistentes de sono. E também prejudica o aprendizado. Acho que isso ainda vai piorar, até que as pessoas percebam o efeito negativo sobre sua saúde. E daí começarão a pensar: será que eu realmente preciso checar meu feed de Twitter 20 vezes por dia? Será que realmente preciso estar em sete redes sociais diferentes? Mas no momento estamos tão empolgados com a tecnologia que somos como crianças em uma loja de doces: queremos experimentar tudo.

Natal das dádivas

Por Lais Fontenelle
Psicóloga do Instituto Alana

Todo final de Novembro quando as luzes e as decorações das cidades e suas casas nos anunciam que o Natal se aproxima fico pensando no real significado dessa data, a segunda que mais gera lucro aos lojistas, perdendo somente em vendas para o dia das mães. Será que estamos comemorando o Natal com nossas famílias de forma sustentável? Será que temos passado valores humanos para nossas crianças ao comemorar um Natal onde o presente é o mais importante da festa? Gostaria de compartilhar aqui essa reflexão para que nós adultos, que temos a capacidade de transformar a forma como temos celebrado essa data junto com nossos pequenos, possamos repensar o real sentido que temos dado ao Natal.

Na minha família toda vez que nascia um novo neto minha avó de quem herdei não somente os profundos olhos, mas, também o nome bordava um saco de papai Noel com o nome do novo bebê que havia nascido. Esse parecia ser um ritual de boas vindas da família, da qual guardo belas recordações, que se reunia toda noite de 24 de Dezembro não somente para trocar presentes, que preenchiam os sacos bordados a mão pela vovó, mas para celebrar conquistas e afetos compartilhados ao longo daquele último ano.  Não posso negar que a troca de presentes sempre fez parte dessa festa, mas a magia envolvida na celebração era, sem dúvida, muito mais importante e interessante, para nós crianças, do que os presentes em si.

Esperávamos na janela do quarto pelo trenó do bom velhinho enquanto os adultos arrumavam os sacos embaixo da árvore. E mesmo aquelas netas mais velhas ou mais céticas como eu, que não acreditavam no Papai Noel respeitavam os outros e quando aparecia algo mais brilhante no céu diziam: “Lá vem ele!” e assim corríamos para sala para abertura coletiva dos presentes. Uma verdadeira farra.  Hoje me parece que os presentes são o que mais importam nessa data religiosa e comemorativa que parece também ter sido mercantilizada, infelizmente. Atualmente as famosas cartinhas de Natal entre as crianças trazem listas sem fim dos últimos lançamentos de brinquedos anunciados incessantemente pela publicidade na tv -que convida nossos filhos a um consumo exagerado. Esse ano parece que o hit de pedidos foi o Ipad mesmo para crianças bem pequenas.

O trânsito na cidade, a excitação para ver as decorações e a imposição da compra de um número quase sem fim de presentes seja para familiares, amigos secretos ou conhecidos sempre me incomodou muito sem contar o desperdício de comida e o lixo de embalagens gerado no dia seguinte das comemorações. Mas, acredito que a saída para reversão desse tipo de celebração, nada sustentável, também se encontra na poesia das crianças que conseguem, através de uma mediação bem conduzida e com diálogo aberto por um adulto, endereçar como pedido de Natal na suas cartinhas algo como paz, borboletas, alegria e muito mais coisas poéticas do que materiais como vi em alguns murais de escolas. Mas, isso requer muito diálogo entre adultos e crianças senão, sem dúvida, o mais fácil de ver listado são os últimos lançamentos de brinquedos, excessivamente anunciados em todos os canais e locais de convivência com a infância como coloquei acima.

No Natal passado li um texto interessante que vale resgatar e trazia um manifesto de uma organização Inglesa que discutia o significado da cartinha endereçada ao Papai Noel pelas crianças, além algumas dicas aos pais de como fazer um Natal mais humano e menos materialista- o que se mostra uma difícil tarefa nos dias de hoje onde o consumismo impera entre adultos e crianças e os bens materiais nos servem não somente como ingressos sociais, mas como uma forma de demonstração de afeto. Já esse ano vi outra manifestação linda acontecer e o mais bacana é pensar que fiz parte dela. Foi lançada pela Rebrinc (Rede Brasileira sobre Infância  e Consumo)  da qual faço parte junto com muitos outros “ativistas” uma campanha natalina chamada Natal das Dádivas que traz a ideia de uma maior presença de coisas importantes na vida do que os presentes em si. Que tal curtir e compartilhar? Acesse aqui.

E para fechar minha reflexão gostaria de dizer que na minha cartinha de Natal gostaria, portanto de endereçar um pedido não ao Papai Noel, mas sim aos adultos cuidadores de crianças, sejam eles pais, avós ou educadores. Será que não conseguimos conjuntamente lutar contra esse convite exagerado a compra de presentes e realizar uma festa natalina que envolva outro tipo de troca que não seja somente de presentes? Deixo aqui algumas dicas e para as outras conto com a imaginação de todos nós. Uma ideia bacana é pensarmos em presentes feitos em casa e junto com as crianças. Receitas, recortes, desenhos e colagens são bens vindos. Podemos também doar coisas para que as novas cheguem, pois brinquedos que para nossos filhos não tinham mais graça, podem se tornar novidades enormes para seus novos donos. Espero, portanto que nesse Natal as famílias consigam repensar a forma como temos lidado com o consumo nos dias de hoje para que nossas crianças consigam listar desejos mais humanos e honestos ao querido Papai Noel. Boas festas!

Inscrições abertas

O Instituto Patricia Galvão, em parceria com a Fundação Ford, recebe inscrições, até o dia 14 de março de 2014, para o concurso “A mulher brasileira quer se ver nas propagandas na TV”, que visa premiar as melhores abordagens audiovisuais de 1 minuto sobre o tema. O objetivo da iniciativa é dialogar com estudantes de Comunicação Social, mas a convocatória está aberta a todos os interessados.

Como fonte de pesquisa, o instituto disponibilizou, em sua página na internet, a pesquisa “Representações das mulheres nas propagandas na TV”, que mostra de maneira contundente a insatisfação da população (mulheres e homens) com as formas como as mulheres são apresentadas atualmente na publicidade televisiva.

Clique aqui e acesse o regulamento do concurso.

Os desconectados

Do Unicef Brasil

O Brasil tem 6 milhões de adolescentes sem acesso à internet. O número corresponde a 30% dos brasileiros entre 12 e 17 anos. Entre as meninas e meninos que vivem nas zonas rurais, a taxa de exclusão é ainda maior: chega a 52% dos indivíduos nessa faixa etária. A renda familiar também tem impacto no acesso. Entre os adolescentes de famílias com renda familiar de até um salário mínimo mensal, a taxa de exclusão é de 52%. A escolaridade é outro filtro de acesso à rede. O índice de exclusão entre os jovens que estudaram somente até o quinto ano é de 56%. Os dados constam de pesquisa nacional coordenada pelo Unicef que contou com o apoio do Google. A pesquisa servirá de base para uma campanha do Unicef voltada para adolescentes sobre o uso seguro da internet.

Acesse aqui a pesquisa na íntegra

Foram entrevistados pelo Ibope Inteligência 2.002 adolescentes entre 12 a 17 anos em 150 municípios em todas as cinco regiões geográficas brasileiras. Com isso, foi assegurada uma amostra representativa para identificar a diversidade de situações, seja pelo local de moradia (urbano/rural ou região geográfica do país), situação de renda, gênero, raça/cor ou escolaridade.

Para o coordenador do Programa Cidadania dos Adolescentes do Unicef no Brasil, Mário Volpi, “a pesquisa confirma que as desigualdades sociais se refletem também no acesso à internet, uma vez que os adolescentes mais pobres e com menos escolaridade são os mais excluídos na internet”.

O estudo mostra também que, enquanto os adolescentes das famílias de maior renda têm acesso à internet em suas casas, os de menor renda precisam pagar para estar conectados. Escolas e centros públicos gratuitos ainda não representam uma alternativa de acesso, já que menos de 10% dos adolescentes que usam a internet citam esses espaços com uma opção.

Em relação ao uso seguro da tecnologia, um total de 48% dos meninos e 31% das meninas já encontrou pessoalmente alguém que só havia conhecido pela internet. O compartilhamento de informações pessoais, a exposição de situações de seu cotidiano, fotos e a permissão de acesso livre a qualquer pessoa aos seus dados são fatores que tornam o adolescente vulnerável às pessoas que queiram manipular essas informações para constrangê-los ou assediá-los.

A pesquisa mostra que os adolescentes se sentem mais discriminados na vida real do que na internet. Enquanto 14% dos adolescentes revelaram já ter sofrido algum tipo de discriminação na vida real, quando perguntados se já haviam sofrido algum tipo de discriminação na internet, o percentual foi de 6%. Entretanto, quando perguntados se já presenciaram situações de discriminação ou assédio de outras pessoas na internet, 14% disseram ter visto alguém sendo abordado insistentemente por pessoa desconhecida; 10% informaram ter visto alguém ser abordado com conteúdo sexual ou pornográfico.

Do total, 27% dos entrevistados revelaram ter visto pessoas sendo discriminadas por causa de sua raça/cor e 22% disseram ter visto alguém ser desrespeitado por gostar de alguém do mesmo sexo.

Para os adolescentes brasileiros, a internet é uma grande biblioteca, um lugar para fazer amizades, um caminho para o avanço profissional e um local que possibilita contato com outros povos. Quanto ao apoio dos pais ou responsáveis para o uso seguro da internet, 54% dos entrevistados afirmaram contar com algum acompanhamento desses adultos e 46% afirmaram não ter ninguém acompanhando o que fazem na internet.

Mídia na escola e a leitura do mundo



Por Graça Caldas e Vera Regina Toledo Camargo
Do site ComCiência

A leitura da palavra é necessariamente precedida de uma leitura do mundo. A aprendizagem da leitura e da escrita equivale a uma “releitura” do mundo. (Paulo Freire) . Todo o conhecimento é uma resposta a uma pergunta (Gaston Bachelard).

Discutir leitura e leitores é um desafio permanente dos educadores, mas também dos comunicadores. Numa sociedade imagética, tecnológica, em que os estímulos da mídia e do mundo audiovisual dominam o cotidiano da escola e da sociedade, mais do que nunca é essencial a atuação conjunta de comunicadores e educadores para uma leitura crítica do mundo. As mídias sociais possibilitam e ampliam o acesso à informação. Mas o simples acesso, sem apropriação, cognição, não gera sentido, aprendizado e reflexão.

Pesquisas recentes mostram que as pessoas leem cada vez menos e, quando leem, pouco entendem (Retrato da Leitura, 2011). A mesma pesquisa constata que até mesmo nas leituras obrigatórias da escola houve uma redução. De quem é a responsabilidade? Professores, pais, alunos? Como despertar o interesse pela leitura e motivar a sociedade em geral para o universo do conhecimento?

Questões dessa natureza fazem parte de múltiplas pesquisas e projetos governamentais. Entretanto, as respostas variam entre encontrar motivações para o ato de ler, criar hábitos e transformar a leitura, o aprendizado em um ato político, cidadão. Nesse sentido, o uso da mídia na escola pode contribuir efetivamente para a re-leitura do mundo.

O uso da mídia na escola, no entanto, embora crescente, nem sempre é acompanhado da leitura crítica da palavra. Não são poucos os projetos de mídia na escola implementados pela Associação Nacional dos Jornais (ANJ), Associação Nacional de Revistas (Aner) ou pela Associação Nacional de Rádio e TV (Abert). Pesquisas acadêmicas sobre essas práticas demonstram que não raras vezes os caminhos trilhados são equivocados. Mais do que formação de leitores críticos e analíticos, esses projetos parecem estar mais preocupados com formação de novos leitores, novos consumidos desses veículos.

Qual seria, então, o desafio? O uso da mídia na escola transformou-se em panaceia para tentar resolver os problemas da escola. Mas que práticas pedagógicas são adotadas? Como a mídia é usada na necessária interface com os conteúdos programáticos? Estariam os professores preparados para usar a mídia de forma crítica, analítica, como um ponto de partida para fomentar debates, reflexões? Por outro lado, estariam os jornalistas e os pesquisadores da área de comunicação preparados para atuar nas escolas junto com os educadores? Como explica Freire (1979, 1989) o ato da leitura é, sobretudo, um ato político.

Entendemos que os educadores e os comunicadores devem trabalhar em conjunto. Só assim, unindo os conhecimentos específicos, será possível uma atuação competente para que o uso da mídia na escola possa, de fato, ser utilizada como ferramenta/ instrumento complementar ao aprendizado, possibilitando a inadiável contextualização dos conteúdos curriculares com o mundo real, para que adquiriam significado.

A dicotomia entre teoria e prática é outro fantasma presente no mundo acadêmico, em que professores e alunos procuram estabelecer as conexões para dar sentido ao processo de aprendizado. A educomunicação pode colaborar, e muito, para o processo de aquisição de novos conhecimentos favorecendo a apropriação de conteúdos.

Cultura de mixagem e da convergência de mídia

O desafio atual é re-pensar o processo educativo e cultural da escola e os conhecimentos advindos da interface com a mídia, seja ela a tradicional ou as novas mídias. Nesta intersecção, estamos assistindo a ascensão de um novo modo de ser e de pensar de uma geração que, após anos de influência direta da televisão e da utilização de diferentes aparelhos eletrônicos de comunicação, apresenta nova possibilidade de aprendizado.

A escola não pode mais colocar-se na condição de transmissor de conhecimento. Os pífios resultados desse processo continuam sendo registrados por pesquisas nacionais e internacionais (Pisa, Prova Brasil, Enem). O aluno, por sua vez, tem dado fartas demonstrações de que não é um receptor passivo. Educadores e educandos vivem uma nova realidade e precisam atuar juntos, de forma colaborativa, para que o conhecimento seja de fato vivenciado, apropriado.

O momento exige movimento, transformação de práticas pedagógicas. E a escola não pode ficar alheia a essa nova cultura, tão presente na vida das pessoas. Trata-se de uma nova cultura de aprendizado. Babin & Kouloumdjian (1989) anunciam o nascimento dessa nova cultura e a intitulam mixagem. É quando a imagem invade o texto do livro. É a interpenetração de várias linguagens: a escrita, o audiovisual e o som. Não são excludentes, mas denotam pluralidade e fusão. O conhecimento é cada vez mais inter, multi, transdisciplinar, exigindo posturas polivalentes e abertas.

As novas tecnologias e os recursos múltiplos dos meios de comunicação estão disponíveis. Os alunos desafiam, o tempo todo, o conhecimento enciclopédico dos professores em tempo de mediação, de articulação, de contextualização. É urgente pensar sobre o emprego de tecnologias, de aparelhos eletrônicos, de múltiplas mídias no cotidiano das salas de aula, modelando progressivamente um outro comportamento intelectual. Isto, naturalmente, sem abrir mão do livro didático, da literatura, da poesia, da realidade, cuja riqueza e dinâmica se entrelaçam com os conteúdos pedagógicos para darem sentido à escola, à vida.

O cenário é de convergências de mídias, que abriga vários suportes midiáticos e permite a re-construção do conhecimento, com novas informações a partir de observações e ações, possibilitando a transformação dos educadores e dos educandos. Neste sentido, o receptor que até pouco tempo tinha um papel passivo, hoje pode, ao receber ou buscar uma informação, influenciar, modificar e ser também agente produtor de mensagens. Essas ações alteram e alteraram nossa forma de agir, de pensar e de nos relacionarmos com a comunidade e com o próprio meio, reestruturando as relações interpessoais com a sociedade (Camargo, 2011).

Dentro dessa realidade, pode-se observar que os mais jovens se integram melhor ao audiovisual e às novas tecnologias, enquanto muitos indivíduos ainda mantêm certa resistência e incapacidade de aproximá-las do universo cotidiano. A partir deste contexto acreditamos na importância de novas aprendizagens e vivências. Para aqueles educados no sistema mais tradicional, essa nova cultura é um elemento estranho; porém, para os jovens que nasceram dentro dela, é tão natural como o ato de respirar. Os mediadores desses processos são os educomunicadores. Resta aos “antigos” adaptar-se à nova realidade ou sucumbir a ela.

Educomunicação como prática pedagógica

Um projeto utilizando essa metodologia de prática pedagógica e pesquisa foi realizado em duas escolas municipais de Hortolândia como parte do projeto Tecnologias e Mídias Interativas na Escola (Time). Possibilitamos aos estudantes a construção de seus suportes de comunicação e de divulgação a partir das suas escolhas dos conteúdos, ligados ao currículo da escola, e o desenvolvimento de atividades que conduziram a uma reflexão sobre os impactos da tecnologia da informação e da comunicação. Houve adesão das professoras e os objetivos do projeto foram alcançados. Essa experiência foi transcrita para um livro eletrônico.

A educomunicação (Barbero, 1987; Kaplun, 1998 e Soares, 200,2007, 2011), é uma vertente no universo de ensino-aprendizagem que envolve um novo perfil profissional, conhecedor, de um lado, tanto da área da comunicação quanto da educação e, por outro, imerso nas transformações políticas que podem ser propiciadas pela escola e pelos efeitos da comunicação . Na educacomunicação o uso da mídia na escola pode se dar de duas formas. A primeira delas pela leitura crítica da mídia e a segunda pelo uso das ferramentas da comunicação no processo de aprendizado. Um é complemento do outro.

Para a leitura crítica da mídia e do mundo é necessário um leitor atento, um leitor que não se limite à leitura de um veículo, mas de vários, para que possa comparar os conteúdos, as abordagens e as linguagens para só então fazer sua própria leitura de cenário de forma ampla, contextualizada e não fragmentada, ideologizada. Aprender sobre o mundo editado pela mídia, ler além das aparências e compreender a polifonia presente nos enunciados da narrativa jornalística não é tarefa fácil, mas desejável para a leitura crítica da mídia (Caldas, 2006, p.122).

No uso das ferramentas da mídia (rádio, tv, jornal, revista, mural, mídias sociais), o aluno pode partir da leitura das mídias do universo em que vive para re-elaborar suas próprias leituras a partir da construção viva desse universo. Ao relatar uma história de seu bairro, de sua comunidade, de seus habitantes, passará a ter voz e conhecer novas possibilidades de diálogo. Dessa forma, ganha voz e transforma-se em um sujeito de sua própria história.

Nas ações educativas, o uso de recursos diversos da informação, principalmente dos meios de comunicação de massa, deve acima de tudo favorecer no alunado o desenvolvimento do espírito crítico, criando um diálogo produtivo e politicamente emancipado, e ainda ampliar sua capacidade de expressão. As áreas de intervenção no campo da educomunicação são as pesquisas e as práticas. As pesquisas são feitas por meio de investigações que problematizam a educação e a comunicação; e as práticas são realizadas por meio da educação para a comunicação, do planejamento e da gestão da comunicação.

Camargo (2011) evidencia isso ao afirmar que uma das áreas mais instigantes que se desenvolvem hoje no campo das ciências da comunicação é aquela que pressupõe colaboração estreita e efetiva entre duas disciplinas: a comunicação e a educação. Numa época em que as fronteiras disciplinares e as barreiras departamentais são destituídas com o objetivo de promover a convergência no campo teórico, a troca de experiências no campo universitário e a colaboração no campo da prática profissional, essas duas disciplinas convergem para o desenvolvimento da fecunda intersecção.

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Graça Caldas é jornalista, doutora em ciências da comunicação pela ECA/USP e tem pós-doutorado em política científica (DPCT/IG/Unicamp). É pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, professora no Mestrado em Divulgação Científica e Cultural (Labjor/Unicamp) e líder do grupo de pesquisa do CNPq “Comunicação, Educação, Ciência e Sociedade”. 

Vera Regina Toledo Camargo é doutora em comunicação com pós-doutorado em multimeios. É pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, professora no Mestrado em Divulgação Científica e Cultural (Labjor-Unicamp) e líder do grupo de pesquisa do CNPq “Comunicação, Educação, Ciência e Sociedade” .

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Referências

– Babin, Pierre; Kouloumdjian, Marie France. Os novos modos de compreender: A geração do audiovisual e do computador. Edições Paulinas: São Paulo, 1989.
– Barbero, Martin, J. (1987). “De los medios a las mediaciones”. Comunicación, cultura y hegemonia. México: Editoral Gustavo Gili, 1991.
– Caldas, Graça. “Mídia, escola e leitura crítica do mundo”. Revista Educação e Sociedade, 2006, v.27. p. 117, 130.
– Caldas, Graça; Camargo, Vera Regina Toledo. “Comunicadores e educadores”. Jornal Correio Popular. Editora de Opinião, 28 de agosto de 2013.
– Camargo, Vera Regina Toledo. “A construção da cultura midiática no universo educacional: linguagens e diálogos”. In: Tecnologias e mídias interativas na escola: projeto Time. Abreu, João Vilhete (org). Campinas, SP: Curt Nimuendajú, 2011.
– Freire, Paulo. A importância do ato de ler em três artigos que se completam. 23 a edição, SP: Autores Associados, 1989.
– Freire, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.
– Kaplún, Mário. Una pedagogia de la comunicación. Madri: Editorial de la Torre, 1998.
– Soares, Ismar de Oliveira. Educomunicação: o conceito, o profissional, a aplicação: contribuições para a reforma do ensino médio. São Paulo: Paulinas, 2011.
– ________________________. “A mediação tecnológica nos espaços educativos: uma perspectiva educomunicativa”. Comunicação & Educação, São Paulo, Ano XII, n.1, jan/abr 2007.
– ________________________. “ Educomunicação: um campo de mediações”. Comunicação & Educação, São Paulo, (19): 12 a 24, set./dez. 2000.

Quem vê tanta imagem?

Por Pedro Doria
Publicado no Observatório da Imprensa

Há uma cena memorável num dos últimos episódios da primeira temporada de Mad Men. Don Draper, o gênio da publicidade ainda em plenos anos 1950, explica para dois executivos da Kodak o valor do carrossel de slides. “Nostalgia, em grego, quer dizer a dor de uma antiga ferida”, ele diz, sua voz suave. A sala, escura, é iluminada apenas pelo projetor. Na parede, fotos de família giram. “É uma fisgada no coração, tem muito mais poder do que apenas memória.” A tecnologia digital vem mudando nosso cotidiano de tantas maneiras distintas, e vivendo um dia após o outro frequentemente não nos damos conta. Fotografias, por exemplo, mudaram de significado.

Por que fotografamos? Não a foto profissional, o registro jornalístico ou artístico. Fotos de família servem para quê? A resposta imediata que surge é: para lembrar. Abra um álbum de fotos com mais de vinte anos. Ninguém passa rápido pelas imagens. Cada uma desperta uma emoção. Como sugere Don, é mais que memória. Por alguns segundos somos preenchidos pelas emoções daquele momento. Revivemos um pouco.

As fotos dos anos 60 são, quase sempre, em preto e branco. O corte quadrado não era raro. Nítidas. Na década seguinte, perdem essa nitidez mas ganham cor. É, graças à tecnologia de fixador do tempo, uma cor que amarelou, ressaltou o vermelho, perdeu o azul. Conforme avançam os 80 e os 90, as cores se estabilizam e a nitidez volta. O fluxo, aí, se interrompe. Tínhamos, talvez, umas cem fotos de toda a infância. Quem sabe, 300. Como era caro fotografar. É o que tiramos por mês. Ou por semana.

Qualidade precária

Fotografias significavam nostalgia. Na semana passada, o site Buzzfeed pôs no ar um divertido filmete, explicando fotografia em filme para a garotada moderna. Precisávamos pensar: um filme de 24 poses obrigava cada pessoa com a câmera na mão a se concentrar. É preciso definir que imagem, afinal, merece ser registrada. Ir à loja buscar as fotos reveladas e ampliadas era sempre uma experiência carregada.

Fotografias digitais não entraram de repente em nossas vidas. Foi um processo lento. As primeiras câmeras já estavam à venda no mercado em finais do século. Eram, porém, máquinas caras, com um ou dois megapixels, lentes ruins, baixa qualidade. Não temos registros amadores do Onze de Setembro. Nem em Nova York as câmeras digitais andavam por todos os bolsos.

A primeira década do século 21 foi dominada por câmeras fotográficas digitais que melhoraram incrivelmente de qualidade. Os chips de captação aumentaram sua capacidade, fidelidade. Ao mesmo tempo, as lentes, que fazem a real diferença, sofisticaram-se.

Se passamos a tirar mais fotos com as digitais, ainda assim elas não eram onipresentes. Já há câmeras no celular faz vários anos. Mas câmeras decentes não fazem muito tempo e elas vêm, mais ou menos, no mesmo passo que chegam os smartphones. É uma tríade radical: câmera no celular conectado à internet. Sempre no bolso. Não há registros amadores do Onze de Setembro, o enforcamento de Saddam Hussein foi filmado com qualidade precária e divulgado vários dias depois, a prisão de Muamar Kadafi é nítida e estava online numa questão de horas.

Narrativa no caos

Tiramos muito mais fotografias. Não é mais registrar a viagem de férias ou o momento exato em que o filho sopra a velinha. É o almoço. Uma careta. Bate outra para ver se fica melhor. E uma terceira. Jogamos no Facebook, no Instagram. Alguns likes e comentários depois, perdeu-se no esquecimento. Talvez para sempre. Se os princípios econômicos valem, no momento em que aumentou a oferta, a demanda arrefece. Talvez o excesso de fotografias faça com que percam seu valor.

Ou talvez não.

Na verdade, ainda é cedo para dizer. Talvez esta aqui, mesmo, seja uma coluna nostálgica. Com uma pitada de ludita. E as dezenas milhares de fotografias que tiramos anualmente ainda terão seu valor emocional. Talvez novas profissões surjam: o editor de imagens, por exemplo. Capaz de criar uma narrativa no caos. Ora, pois. Quem sabe?

 

Tecnologia para deficientes visuais



Já está disponível para download em smartphones o aplicativo CPqD Alcance, desenvolvido com recursos do Fundo para o Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações (Funttel), gerido pelo Ministério das Comunicações. O objetivo da ferramenta é facilitar o uso de dispositivos móveis por pessoas com deficiências visuais.

Disponível para smartphones com tela sensível ao toque baseados no sistema operacional Android, a aplicação do CPqD utiliza recurso de narração automática por síntese de voz para facilitar o acesso do usuário às principais funções do aparelho. Essas funções são representadas por ícones na tela touchscreen do smartphone. Na medida em que a pessoa desliza o dedo sobre a tela, uma voz sintetizada informa a função correspondente àquela área. Com mais um toque, o usuário tem acesso à função: realizar e receber ligações, enviar e receber mensagens de texto (SMS), consultar o histórico de ligações, o nível de bateria, a data e hora e a lista de contatos telefônicos, entre outras.

Além dessas funções básicas, o sistema oferece também algumas funções avançadas, como despertador (com lembrete de voz), localização e auxílio ao deslocamento, tocador de música e leitor de arquivos de texto, por exemplo. O objetivo é dar mais autonomia e privacidade à pessoa com deficiência visual.

O foco inicial do projeto são as mais de 6,5 milhões de deficientes visuais ou com grande dificuldade permanente de enxergar existentes no Brasil, de acordo com o Censo 2010 do IBGE. Mas a aplicação pode beneficiar também outros usuários de smartphones, como pessoas com baixo letramento ou pouco familiarizadas com tecnologia – como idosos, por exemplo.

Para fazer o download gratuito do CPqD Alcance, basta acessar a loja Google Play, no próprio aparelho, e procurar pelo aplicativo.

Fonte – Ministério das Comunicações

Como anda a sua reputação digital?

Por Marcus Tavares

Há cerca de dois anos, entrevistei o consultor sênior do Grupo Conectt, Cacau Guarnieri, sobre reputação digital.  Naquela época, o termo estava começando a ser socializado. Hoje, mais do que nunca reputação digital ganha dimensões maiores, ainda mais em tempos de redes sociais cada vez mais populares, como Facebook.

“Reputação digital é a reputação atribuída à nossa persona virtual, que pode ser traduzida por meio do que publicamos na web, dos nossos avatares ou dos produtos que oferecemos na grande rede”, diz Cacau. Para o consultor, crianças e jovens já estão inseridos neste sistema e devem ficar atentos.

Acompanhe a entrevista:

O que é reputação digital?
Cacau Guarnieri – É a reputação atribuída a nossa persona virtual. Nossa representação na web, que pode ser por meio de conteúdos publicados, avatares, serviços e produtos oferecidos pelos internautas que repercutem e avaliam as nossas ações dentro do ciberespaço.

Como a reputação digital é construída? Para qual finalidade ela serve?
Cacau Guarnieri – A reputação digital é construída sempre pelo “outro”. Por exemplo: quando colocamos uma avaliação positiva para um vendedor no mercado livre estamos ajudando a construir sua reputação digital (que pode ser positiva ou negativa). O mesmo acontece quando damos estrelas para um determinado vídeo no YouTube ou recebemos o comentário de alguma pessoa em nosso blog. A reputação digital serve para gerar valor e feedback para as nossas ações na web. É por meio da reputação digital que criamos referências e segurança quando precisamos delas dentro do caos de informação ou de ambientes que demandam relações baseadas na confiança – como os de comércio digital.

Reputação digital é algo novo?
Cacau Guarnieri – Não. A construção de reputações digitais existe desde a criação da web. A diferença é que hoje temos um número bem maior de usuários e relações no ciberespaço, além de contarmos com ferramentas e estratégias que facilitam a construção e registro de uma reputação digital.

O que significa a reputação digital para o dia-a-dia do mundo contemporâneo?
Cacau Guarnieri – Valor, feedback e segurança. A sociedade está preparada para esta realidade? C.G. – Na verdade, a sociedade está entrando em um período de grande transformação. A web participativa e colaborativa, também chamada de web 2.0, é apenas o início. A reputação digital está inserida no contexto desta transformação, faz parte dela. É um processo.

De que forma as crianças e os jovens de hoje vivenciam esta questão?
Cacau Guarnieri – Como em outras questões específicas do mundo digital: com muita naturalidade. As crianças e os jovens já estão inseridos nesse mundo de reputação digital por meio das comunidades, redes de relacionamento e games que participam. Porém, é importante destacar que a reputação digital pode ser construída de forma construtiva ou de forma extremamente destrutiva. Assistimos a casos da utilização de redes de relacionamento, como o Orkut, para ações bastante destrutivas de reputações. Neste caso, são ataques ou bullying que partem do digital e repercutem no real, no físico, e devem ser tratados como problemas de comportamento e educação. O meio digital amplifica e facilita o ataque e o anonimato do agressor. Devemos ficar atentos a isso. Acredita que a preocupação das pessoas com relação à reputação digital vai crescer ainda mais.

Por quê?
Cacau Guarnieri – Sim. Acho que existe uma atenção crescente, principalmente nas relações na web que demandam vínculos de confiança. E cada dia que passa estas relações tornam-se mais presentes na web participativa.

Fórum global em mídia e gênero

Entre os dias 2 e 4 de dezembro, tomadores de decisão de diversas organizações de mídia, atores da sociedade civil, governos, agências da ONU e defensores dos direitos humanos se reuniram, em Bangkok, na Tailândia, para avaliar as tendências sobre desigualdades de gênero na mídia, e formular soluções coletivas e criativas para reduzir disparidades de gênero.

De acordo com a reunião da plenária final do Fórum, os documentos resultantes da conferência poderão receber contribuições. Os interessados têm até o dia 15 de dezembro para fazer suas considerações, que devem ser enviadas para os seguintes e-mais: a.grizzle@unesco.org e ej.karklins@unesco.org. As versões finais dos documentos com as alterações sugeridas serão divulgadas no dia 17 de dezembro.

Acesse aqui os documentos para consulta (em inglês)

Segundo o relatório da consulta temática Addressing Inequalities – Post 2015 Development Agenda, “a discriminação por gênero e a recusa aos direitos das mulheres e meninas mantêm-se como os maiores e mais difundidos condutores de desigualdades no mundo de hoje”. Na área de mídia e gênero, as estatísticas indicam tendências preocupantes na representação de mulheres trabalhando em conteúdos de mídia, no quadro de funcionários e nos cargos de gerência.

Baseando-se nessas estatísticas, a Unesco e seus parceiros organizaram o fórum global como parte de um esforço mais amplo e contínuo para empoderar mulheres e reduzir as desigualdades de gênero, dando o potencial de ambos elementos para avançar no desenvolvimento econômico e social. O Fórum Global em Mídia e Gênero foi organizado pela Comissão Nacional do Reino da Tailândia , Unesco e a Universidade Thammasat.

Escola e Facebook: parceiros?

Por Marcus Tavares

O professor Dilton Ribeiro do Couto vem pesquisando o que muitos profissionais da educação se perguntam todos os dias: é possível trabalhar com as redes sociais na sala de aula? É possível aprender e ensinar com o outro, por exemplo, no Facebook?  Como se faz isso? O tema foi objeto de estudo de sua dissertação de mestrado que deu origem ao livro, lançado este ano: Cibercultura, juventude e alteridade: aprendendo-ensinando com o outro no Facebook (Paco Editorial, 2013).

Membro do Grupo de Pesquisa Infância, Juventude, Educação e Cultura, do Departamento de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), e, hoje, doutorando do mesmo programa, Dilton concedeu uma entrevista para a revistapontocom.

A partir de seu trabalho, o professor apontou caminhos que a escola e os professores deveriam – e podem – trilhar para estabelecer uma melhor diálogo na sala de aula, com vistas ao sucesso escolar, a práticas metodológicas e pedagógicas inovadoras e de acordo com o contexto da cibercultura.

Acompanhe:

revistapontocom – Por que podemos crer que o Facebook, assim como outras plataformas de mídia, pode, de fato, auxiliar as práticas de ensino?
Dilton Ribeiro do Couto – O Facebook não foi criado com o objetivo de atender às necessidades das instituições educacionais. O que vem ocorrendo é o desejo, cada vez maior, de professores e estudantes pela utilização das redes sociais para aprender-ensinar com o outro. Estou me referindo a um aprender-ensinar potencializado pelas redes sociais e que encoraja a participação simultânea de muitos usuários geograficamente dispersos. A possibilidade que as mídias digitais apresentam para que o internauta possa, ao mesmo tempo, ser receptor e emissor de informação, é o que permite a dinamicidade dos processos interativos online. Defendo que pensar educações na/com a cibercultura não implica em meramente planejar práticas educativas no Facebook, mas de se apropriar desta interface para ampliar os canais comunicativos entre estudantes e seus professores.

revistapontocom – Neste sentido, de que forma o Facebook pode auxiliar a escola?
Dilton Ribeiro do Couto – Um dos pontos favoráveis das redes sociais na internet é o fato de romper com o tempo/espaço. Isso significa que, de praticamente qualquer lugar do mundo e a qualquer momento do dia, temos a oportunidade de interagir com outros internautas. Em função disso é que percebo o quanto podemos aprender-ensinar com o outro a partir das práticas sociais que ocorrem no Facebook e que criam vínculos sociais e afetivos entre os internautas. Na minha pesquisa de mestrado, intitulada “Cibercultura, juventude e alteridade: aprendendo-ensinando com o outro no Facebook”, adotei a rede social como campo empírico. O objetivo do trabalho foi compreender como os jovens se apropriavam das informações que circulavam na interface. Uma ocasião em especial me chamou atenção durante a pesquisa e que traz algumas reflexões importantes sobre os processos de ensinar-aprender que podem se desenvolver na internet. A partir de uma reportagem compartilhada no Facebook sobre a relação entre fósseis e a evolução do ouvido dos mamíferos, um grupo de jovens estudantes das ciências biológicas apresentou uma dinâmica interessante de troca de ideias. No debate em questão, uma das jovens, que na época cursava o doutorado na Alemanha, apresentou ao grupo o porquê da discordia dela sobre algumas das informações apresentadas na reportagem. Para isso, ela apoiou-se nas contribuições teóricas de um artigo chinês, também compartilhado aos demais participantes da conversa. O que, a meu ver, tornou o diálogo muito interessante foi a criação de uma rede entre os jovens para discutir a veracidade das informações da pesquisa. Tudo isso só foi possível pela comunicação mediada pelo computador, que permitiu que sujeitos geograficamente dispersos pudessem se encontrar e interagir a partir de várias fontes de pesquisa compartilhadas pela internet.

revistapontocom – Nos dias de hoje, é normal professores e alunos serem ‘amigos’ no Facebook. Essa relação contribui para uma maior aproximação e, portanto, para o ensinar e aprender?
Dilton Ribeiro do Couto – As redes sociais fazem parte do nosso dia a dia, dos nossos cotidianos. Estamos nos comunicando intensamente através de diversas redes sociais e a popularização delas é prova disso. Aproximar redes sociais e escola poderia se constituir como um caminho interessante para que professores e estudantes se conheçam melhor. Eu não consigo mais compreender a internet como algo estanque da realidade, como uma espécie de mundo virtual paralelo, uma vez que os processos comunicacionais hoje são cada vez mais mediados pelas tecnologias digitais em rede. Vale ressaltar que a cultura digital não é vivida apenas nas interfaces digitais. Portanto, não há porque desconsiderá-la nas práticas pedagógicas. Percebi durante o meu trabalho de mestrado que as pessoas faziam uso da internet para estreitar ainda mais os laços sociais no dia a dia, ao mesmo tempo em que usavam a internet para marcar e agendar encontros pelos diversos espaços físicos da cidade. Portanto, a cibercultura em sua fase atual se dá na relação entre o espaço eletrônico e o espaço físico, possibilitando a interconexão entre os internautas e a intensa recepção e emissão de informação que pode ser produzida por esses usuários a partir de qualquer dispositivo com acesso à internet. De forma alguma eu acredito que o Facebook substitua as relações presenciais, mas não há como negar que ele é mais uma possibilidade de fortalecer os vínculos sociais e afetivos entre estudantes e entre estudantes e seus professores.

revistapontocom – Mas essa relação aluno e professor, via Facebook, não pode virar uma espécie de controle dos professores sobre seus alunos? Não é raro acontecer problemas entre alunos e professores/alunos e escolas pelo que é publicado nas redes sociais. Muitas vezes, os alunos se utilizam da plataforma para fazer bullying e ou criticar a escola e professores.
Dilton Ribeiro do Couto – Essa espécie de controle dos professores sobre seus estudantes no Facebook é facilmente contornada. Afinal, sempre haverá a possibilidade de excluirmos ou ocultarmos certos usuários de nossa lista de amigos. Conforme eu já mencionei, estamos cada vez mais utilizando as redes sociais nos processos comunicacionais contemporâneos e as relações que mantemos nos espaços físicos é potencializada nos ambientes eletrônicos (e vice-versa). Em função disso, mesmo excluindo ou ocultando certos usuários de nossa lista, os conflitos nas relações presenciais certamente ainda persistirão. Acredito que seja imprescindível uma relação dialógica em sala de aula para evitar que repercussões negativas ocorram nos espaços eletrônicos. Ao mesmo tempo em que uma relação respeitosa no Facebook poderá contribuir para aproximar e fortalecer os vínculos afetivos entre os usuários nos espaços físicos.

revistapontocom – Diante de um caso de bullying e ou crítica à escola qual deveria ser o papel da escola, dos professores?
Dilton Ribeiro do Couto – No meu entendimento, é fundamental o diálogo entre os envolvidos na prática do bullying. Não acredito em manuais de como os professores devam usar a internet na relação com seus alunos, porque as dinâmicas das redes sociais não comportam manuais e guias de como fazer. Acredito, sim, que há inúmeras formas de se fazer. É por conta disso que as redes sociais precisam virar pauta de discussão na escola, propiciando que, estudantes e professores, estejam implicados nos inúmeros desafios do ensinar-aprender em tempos de cibercultura.

revistapontocom – Mas pelo que parece essa discussão – redes sociais, bullying, limites, professores e alunos – não está tão presente quanto deveria nas escolas. Se é tão necessária, por que não acontece?
Dilton Ribeiro do Couto – É indiscutível a necessidade da escola se aproximar do universo da cibercultura e promover debates, com os estudantes e seus professores, que possibilitem repensar as dinâmicas sociais dentro do espaço da sala de aula. Se muitas escolas pouco ou nada conversam sobre o tema das redes sociais, possivelmente, é pela dificuldade em compreender e se apropriar do fenômeno da cibercultura. Seria interessante conhecer as aprendizagens que estão se constituindo nas redes sociais, permanecendo atentos às novas formas de aprender das crianças e dos jovens. No meu entendimento, seria preciso refletir sobre a potencialidade das tecnologias digitais nos processos de ensinar-aprender, como muitos professores já estão se propondo a fazer, e já evidenciando que isso vem se constituindo como um verdadeiro desafio, porque implica na reconfiguração dos modos de ensinar e aprender ainda pautados pelo ritmo intenso dos materiais impressos. As tecnologias digitais, por si só, não são capazes de transformar e ressignificar a troca de conhecimentos em sala de aula. Diante disso, o nosso desafio é entender qual é o papel da educação em meio às novas práticas contemporâneas que hoje também ocorrem no ciberespaço e que alteram a relação dos jovens com a informação e o conhecimento.

revistapontocom – O que levou você a pesquisar a relação entre o Facebook e jovens? Quais foram suas conclusões?
Dilton Ribeiro do Couto – Muitas são as possibilidades de produzir e compartilhar arquivos através das redes. São justamente essas dinâmicas de interação, de colaboração, que fazem das redes sociais um lugar fértil para se conhecer as marcas das juventudes contemporâneas. Sem sombra de dúvida, essas diversas marcas expressas pelos jovens no ciberespaço vêm sendo objeto de estudo de inúmeras pesquisas. As redes sociais da internet podem propiciar que as diferentes vozes dos estudantes sejam ouvidas e interpeladas, criando vínculos mais estreitos entre todos os envolvidos nos processos de ensinar e aprender, de forma que os limites físicos das salas de aula sejam rompidos, garantindo assim que professores e estudantes encontrem espaços de troca nas interfaces digitais. Pensar sobre o uso do Facebook na prática pedagógica também me ajuda a entender como a educação poderia se apropriar do fenômeno da cibercultura e construir, com a juventude, novas estratégias em sala de aula para abarcar as manifestações culturais que ocorrem diante das informações que circulam livremente nas/pelas redes sociais. Com o trabalho, percebi que parece urgente repensar os processos educacionais à luz das práticas da cibercultura.  Defendo que um dos caminhos para se pensar educações na/com a cibercultura seria descobrir as potencialidades dessas práticas nos processos comunicacionais contemporâneos, que abarcam o desejo e a necessidade dos usuários de se sentirem como produtores de cultura. Diante do exposto, quais seriam os desafios a serem pensados na prática pedagógica para criar nos estudantes o desejo e a necessidade da produção e emissão de novos saberes? Como romper com a lógica unidirecional dos saberes, promovendo novas abordagens pedagógicas, com os estudantes, nas redes digitais? E como pensar o papel do professor no contexto das dinâmicas comunicacionais da cibercultura, quando os saberes agora se intensificaram e se ampliam pelas diversas interfaces digitais? Para isso, talvez, seja preciso construir processos de ensino-aprendizagem em espaços que propiciam a interação entre os sujeitos, como, exatamente, ocorre no Facebook.

Mandela para crianças

Em homenagem a Nelson Mandela, a revistapontocom publica, abaixo, algumas páginas do livro Mandela: o africano de todas as cores, editado pela Pequena Zahar. A publicação, voltada para crianças e jovens, conta a história do homem que liderou a resistência contra o apartheid na África do Sul e, depois de passar 27 anos preso, foi eleito o primeiro presidente negro do país.

A edição traz palavras-chave, mapa e cronologia da vida do líder para que o leitor compreenda detalhes da trajetória de Nelson Mandela. Além dos desenhos, uma seleção de fotos históricas, como Mandela treinando boxe, ajuda a visualizar as condições sociais dos sul-africanos em meados do século 20. O texto é de Alain Serres e as ilustrações de Zaü.

Veja as imagens:

O ensino da linguagem computacional



Por Marcus Tavares

Há três anos, um time de profissionais do Departamento de Informática da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) vem investindo na promoção do projeto Scalable Game Desing Brasil, uma versão brasileira do projeto americano, idealizado por Alexandre Repenning, da Universidade do Colorado, que tem o objetivo de promover pesquisas e práticas na área do raciocínio computacional, auxiliando o ensino de computação nas escolas. No Rio, três escolas participam da proposta: o Colégio Universitário Geraldo Reis (Coluni), da Universidade Federal Fluminense (UFF), a Escola Nova da Gávea e a Escola Americana.

“Ter de aprender a programar é equivalente a ter de aprender a ler e escrever para realizar tipos mais tradicionais de comunicação social. Por isto, o PoliFacets, nossa proposta tecnológica, está sendo desenvolvido para explorar modos e meios de ‘comunicação via software. A programação é a técnica que se precisa dominar para poder fazer isto com maior liberdade de expressão”, explica a coordenadora do programa no Brasil, professora Clarisse Sieckenius de Souza.

Em entrevista a revistapontocom, Clarisse conta que o trabalho desenvolvido nas escolas têm ensinado aos professores e pesquisadores da equipe da PUC-Rio “o que é” uma boa tecnologia de apoio, capaz de promover e sustentar o ensino-aprendizado do chamado alfabetismo computacional, necessário para expressar ideias e realizar uma participação social por intermédio de software. O grupo trabalha para oferecer, em 2015, ferramentas do projeto de forma gratuita para as escolas interessadas:

Acompanhe a entrevista:

revistapontocom – A proposta do trabalho, aqui no Brasil, tem alguma especificidade?
Clarisse Sieckenius de Souza – O projeto Scalable Game Design Brasil teve início em 2010 e deverá ser concluído em 2015. Nosso objetivo é desenvolver tecnologia de apoio ao ensino-aprendizado de raciocínio computacional em escolas de Ensino Fundamental e Médio no Brasil. Ao contrário de outras iniciativas, não optamos por desenvolver um ambiente de programação com características especiais, tal como é o caso do AgentSheets, que usamos em nosso projeto, do Scratch, do Alice, do Greenfoot e outros assemelhados. Esta lista, por si só, mostra quantas opções já existem, todas elas apresentando características excelentes que podemos explorar usando-as de forma combinada ou não. Então a primeira especificidade do projeto no Brasil, comparativamente ao projeto matriz – o Scalable Game Design nos Estados Unidos (Universidade do Colorado) – é não estarmos desenvolvendo uma evolução do AgentSheets ou do AgentCubes, que são os ambientes de programação usados no projeto Scalable da matriz, nos EUA. Nosso investimento está totalmente voltado para o desenvolvimento de tecnologia que revele e explore coisas que tais ambientes constroem, mas não revelam. Por exemplo, o AgentSheets permite aos seus programadores construir jogos e simulações. Porém, ele não oferece boas ferramentas de análise e exploração de como estes jogos estão construídos, sobre as relações de causa e efeito entre o que está programado e o que os jogadores (ou executores de simulações) experimentam. É o que nossa tecnologia faz. Trata-se tecnicamente de um sistema de documentação ativa “em torno” e “a respeito” de programas criados por professores e aprendizes, onde mostramos facetas de significação e expressão utilizadas pelos respectivos autores para comunicar o que tinham (têm) em mente. O sistema que desenvolvemos se chama PoliFacets e pode ser visitado – numa versão beta, ainda em desenvolvimento – no site:www.serg.inf.puc-rio.br/polifacets. O SGD matriz, nos Estados Unidos, tem também um ambiente em torno dos projetos desenvolvidos com o AgentSheets ou o AgentCubes. Chama-se “Scalable Game Design Arcade” scalablegamedesign.cs.colorado.edu/arcade/ mas ressaltando a “especificidade” de que estamos falando, sublinho aqui algumas diferenças. A pesquisa que fundamenta o projeto americano tem mais de 15 anos de tradição e é bastante centrada na atividade de design e programação de jogos e simulação, em si. Também já contabiliza milhares de professores e alunos participantes. Aqui no Brasil, não apenas somos iniciantes, mas também focamos na programação como uma nova linguagem para novas e importantes modalidades de expressão social. Queremos ressaltar a variedade de formas e meios de programação que podem resultar na comunicação eficiente de uma ideia através de software. Software é esta nova linguagem. Ter de aprender a programar é equivalente a ter de aprender a ler e escrever para realizar tipos mais tradicionais de comunicação social. Por isto, o PoliFacets, nossa proposta tecnológica, está sendo desenvolvido para explorar modos e meios de ‘comunicação via software’. A programação é a técnica que se precisa dominar para poder fazer isto com maior liberdade de expressão.

revistapontocom –  Qual a avaliação que o grupo faz deste trabalho?
Clarisse Sieckenius de Souza – Ficamos muito felizes e altamente estimulados ao constatar o que já alcançamos nestes primeiros anos de projeto. Somos um grupo de pesquisa bastante especializado, atuando na área de Interação Humano-Computador, em um Departamento de Informática, localizado na Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio). Somos também um grupo interdisciplinar, fortemente influenciado por teorias e paradigmas das Ciências Humanas e Sociais. É muito gratificante termos encontrado um objeto de pesquisa que tem inclusive forte componente teórico, mas que se traduz em uma tecnologia concreta através da qual podemos – por nossa vez – comunicar, através de software, ideias e oportunidades para este ‘alfabetismo computacional’ que, junto com muitos outros grupos pelo mundo, estamos ajudando a promover. Já trabalhamos com três escolas, atingindo cerca de oitenta alunos. Formamos até aqui vinte professores, dentre os quais nove capitanearam turmas de alunos nas escolas parceiras. Todos nos ensinaram e continuam a nos ensinar “o que é” uma boa tecnologia de apoio, capaz de promover e sustentar o ensino-aprendizado deste alfabetismo computacional, necessário para expressar ideias e realizar uma participação social por intermédio de software.

revistapontocom – Como os estudantes vêm respondendo?
Clarisse Sieckenius de Souza – Nossa observação nas escolas é a de que os estudantes respondem com muito entusiasmo. E querem mais, o que é natural. Este é um grande desafio para tecnologias computacionais. Temos de sustentar uma evolução continuada de competências em programação de software, alinhada aos objetivos do Ensino Fundamental e Médio. Daí a importância de ouvirmos todos os atores presentes neste cenário, ao longo de todo o nosso esforço de desenvolvimento tecnológico. É uma conversa, muito interessante, uma troca de ideias, por vezes até uma troca de sonhos.

revistapontocom – Em que medida este trabalho impacta (ou não) o dia a dia da escola, a ‘formação’ dos estudantes e os professores?
Clarisse Sieckenius de Souza – Esta pergunta será melhor respondida pelos diretores, coordenadores e professores das escolas parceiras. Uma diretriz que procuramos seguir com rigor é a de deixarmos ampla margem para que cada escola se aproprie, da forma que mais lhe convém, da proposta do projeto. Cada uma delas, de fato, interpretou e explorou a oportunidade de parceria conosco de maneira totalmente diferente das demais. O resultado é uma grande riqueza de dados empíricos que nos ensinam apenas uma parcela (mas que já é excelente prenúncio) do verdadeiro desafio de apoiar o ensino com tecnologia. Saber perceber, conseguir entender e poder valorizar a imensa diversidade dos contextos em que a tecnologia se instala é um objetivo tão importante quanto ambicioso. Mas, é o que temos perseguido.

revistapontocom – O projeto funciona em quais escolas?
Clarisse Sieckenius de Souza – Até aqui trabalhamos com três escolas parceiras. A pioneira foi uma escola pública – o Colégio Universitário Geraldo Reis (Coluni), da UFF, pioneiro deste projeto no Brasil. De 2010 a 2012, acompanhamos o trabalho de seis turmas, com quatro professores envolvidos. Tendo começado primeiro, o Coluni é também a primeira escola a atingir um estágio de autonomia, no qual cabe à própria escola decidir como integrar a experiência adquirida (no período em que foram acompanhados de perto pela equipe de pesquisa) ao seu projeto pedagógico. Nosso papel é aprimorar constantemente a tecnologia para atender tão bem quanto possível às demandas da escola autônoma. As duas outras escolas – Escola Nova da Gávea (ensino particular) e Escola Americana do Rio de Janeiro (ensino internacional) – iniciaram parceria conosco no ano passado. Já contabilizamos, em cada uma das duas, três turmas de alunos envolvidos com diferentes atividades que utilizaram o combinado de tecnologias de nosso projeto, AgentSheets (ambiente de programação) e PoliFacets (ambiente de exploração de facetas de significação e expressão em programas). A cada início de ano decidimos com os professores que atividades serão desenvolvidas no âmbito de nossa parceria. De modo geral, a novidade a cada ano é o amadurecimento e aprimoramento do PoliFacets, que é em última análise a tradução concreta do resultado de toda a nossa pesquisa. Este sistema está na sua segunda versão, com muitas funcionalidades implementadas. No entanto, temos várias demandas dos nossos parceiros (e de outros professores que passaram por nossos workshops de treinamento), apontando para melhorias que ainda devemos e planejamos implementar.

revistapontocom – O objetivo do projeto está sendo alcançado? Quais são os desafios?
Clarisse Sieckenius de Souza – Resumindo o que já foi dito, o objetivo do projeto está sendo plenamente alcançado. Acho que um dos segredos deste sucesso até aqui é termos insistido em seguir uma abordagem qualitativa, trabalhando em profundidade em contextos de extensão menor. Isto nos permite nos ‘embrenharmos’ em questões difíceis de uma atividade tão complexa quanto o ensino-aprendizado, tentando entender mais e melhor uma grande variedade de aspectos que a tecnologia inevitavelmente afeta. Estamos convencidos de que um salto para mais quantidade de escolas, professores e alunos, não poderá ser dado antes de a nossa tecnologia traduzir adequadamente a forma como contemplamos a diversidade de que falamos acima e de como são sempre os professores e os alunos aqueles que realizarão o grande projeto de alfabetismo computacional nas escolas. Nosso papel é o de sermos facilitadores e instrumentadores do processo.

revistapontocom – Quais são as perspectivas do projeto para 2014?
Clarisse Sieckenius de Souza – Em 2014 trabalharemos muito próximos aos professores, mais focados nos aspectos de usabilidade e comunicabilidade da nossa proposta tecnológica. Queremos saber como ‘arrematá-la’ para que seja uma ferramenta estimulante e útil num cenário novo de relação com a informática nas escolas. Nosso objetivo é disponibilizar, em 2015, uma versão do PoliFacets para uso livre e gratuito de escolas interessadas. A decisão sobre como a tecnologia será acessada ainda não está decidida, mas é parte da nossa pauta até a conclusão do projeto. No momento, o PoliFacets pode ser acessado publicamente em www.serg.inf.puc-rio.br/polifacets . Professores e alunos de escolas participantes do projeto têm acesso a uma área reservada, que apoia diretamente suas atividades, em segmentos separados para indivíduos, turmas e instituições. Ao final de cada período de atividade, são escolhidos projetos das escolas participantes para ‘a vitrine do PoliFacets’, onde qualquer interessado pode apreciar o que a tecnologia é e exemplos do que as escolas vêm fazendo. Este projeto conta com o apoio financeiro de várias instituições. A Faperj e o CNPq apoiam projetos de pesquisadores de nosso Grupo de Pesquisa em Engenharia Semiótica (Serg). Além destes a CAPES apoia alunos de pós-graduação cujas teses e dissertações tratam de partes do projeto. A AMD é a principal patrocinadora do projeto, no âmbito das empresas privadas. Além dela a AgentSheets, Inc. – produtora do ambiente de programação que usamos – oferece licenças de uso, gratuitamente, para todas as escolas parceiras. Todo este apoio é fundamental para a realização do projeto que, do ponto de vista de pesquisa, ainda se beneficiou e beneficia de parcerias com a Universidade do Colorado e a Universidade Federal Fluminense.

Séries americanas são sintoma de quê?

Resenha escrita por Rafael Magalhães Angrisano
Mestrando em Estudos de Linguagens. Especialista em Imagens e Culturas Midiáticas e graduado em Comunicação Social. Texto publicado na revista Estudos em Jornalismo e Mídia, da Universidade Federal de Santa Catarina.

François Jost dá início ao livro em tom de lamento. A queixa se justifica pelo fato de as pesquisas francesas que se remetem às séries americanas serem escassas. Apesar disso, o autor enxerga uma mudança de cenário. Para ele, as séries são menos televisuais do que os telejornais, já que costumam ser consumidas também por meio de TV de recuperação (DVD, streaming, etc.) e, por esse motivo, acabam se elevando ao estatuto de obra (seriam substitutas da sétima arte?) da mesma forma que os filmes. Esse fato, de algum modo, mostra o respeito adquirido pelas séries na academia, em que os pesquisadores não temem mais demonstrar interesse por esse objeto.

O intuito do autor com a reflexão exposta na obra é compreender o que mantém firme a relação dos telespectadores com a ficção televisual. Por que o interesse? O que ocasiona o consumo? A principal pergunta se expressa no título do livro: Do que as séries americanas são sintoma?

Uma resposta simplória e comum a essas indagações, segundo o próprio Jost, relaciona-se com os segredos de fabricação das ficções televisuais. Essa é uma justificativa pela qual as séries norte-americanas superam as francesas em popularidade. No entanto, isso não seria suficiente para explicar por que determinadas ficções nos cativam e outras nos deixam indiferentes. Outra resposta recordada pelo autor é explicitada em uma passagem de Umberto Eco, que fundamenta o sucesso das séries na repetição e na serialidade: as séries acarretam um movimento nostálgico nas pessoas; elas nos fazem lembrar da época em que pedíamos aos nossos pais para que nos contassem infinitas vezes nossa estória favorita.

A hipótese desenvolvida no trabalho é a de que o sucesso das séries norte-americanas é fomentado mais pelo ganho simbólico proporcionado aos telespectadores do que pelos procedimentos de fabricação, que são apenas uma soma de códigos. A questão a ser feita é por que as séries fazem sucesso, refletindo sobre os bens simbólicos que elas vendem, em detrimento da tentativa de encontrar uma resposta no “como” elas são produzidas. O que as séries dizem de seus telespectadores? Qual a familiaridade com a ficção? Esses questionamentos e a hipótese sustentada levaram o autor a se interessar particularmente por pesquisar as séries de maior audiência.

Após os apontamentos iniciais, no segundo tópico do livro, Jost nos conduz a um raciocínio que visa compreender a familiaridade do público com as séries norte-americanas. São citadas três vias que preenchem a ficção de realidade e a realidade de ficção como possíveis válvulas que instigam a identificação ficcional com o nosso cotidiano. A primeira via de acesso à ficção seria a “atualidade”, composta por duas faces, a “dispersão” e a “persistência”. A dispersão é a credibilidade ficcional ocorrida pela aparição e desaparição de acontecimentos que vemos no mundo dos medias, uma despressurização da ficção e sua absorção pela realidade. A persistência, aqui, possui o sentido de real que persiste, são os acontecimentos que persistem e entram nas tramas, sempre recordados. Como em alguns exemplos citados, temos o fatídico 11 de setembro de 2001, presente nas séries 24 e Prison Break.

A segunda via de acesso à ficção é chamada pelo autor de “universidade antropológica”. O termo se refere à exploração do que há de humano em nós, ao contrário de modelos psíquicos estáveis e dicotômicos, como “bom” e “mau”.

A terceira via é a que melhor resume as séries norte-americanas, a “midiatização”, sintetizada na seguinte passagem: “No mundo das séries, a verdade surge sempre através das imagens: imagens da atualidade que a TV despeja, ou imagens índices que confundem […]” (JOST, 2012, p. 32).

O terceiro capítulo da obra é uma ponderação acerca da nossa relação com os heróis televisuais. De acordo com o autor, em pesquisas sérias, sempre é registrada a correlação dos telespectadores com os heróis como a causa do sucesso ficcional. Jost se apoia em N. Frye, e seu critério aristotélico da elevação dos personagens, na tentativa de buscar uma possível explanação para o pressuposto. São cinco modos ficcionais para compreensão das séries: o primeiro é o “mítico”, no qual os heróis são, por natureza, superiores aos seres humanos. O segundo é o “romanesco”, em que os heróis estão um grau acima dos homens e de seu ambiente. No terceiro e quarto casos, temos o modo “mimético alto”, em que o herói se parece conosco, mas possui habilidades raras, e o modo “mimético baixo”, no qual o herói é igual ao ser humano. Por último, o modo “irônico”, com heróis inferiores aos nossos olhos.

Segundo Frye, com o tempo, na literatura, passamos de forma gradual das ficções elevadas para as baixas. Para Jost, o mesmo se pode dizer dos seriados norte–americanos. Essa alteração causa a impressão de maior realismo, pois nos identificamos com os heróis, com suas relações e com suas famílias.

Na quarta parte do livro, Jost relata sobre a conectividade entre o realismo e a sede de saber dos indivíduos. O realismo, para muitos, é a principal razão de sucesso das séries norte-americanas em comparação com as séries francesas. Não se deve confundir realismo com a tentativa de copiar de modo idêntico o nosso mundo. O realismo está relacionado à impressão de reconhecimento causada no sujeito fruidor. “O que seduz o telespectador não é, portanto, encontrar a cópia exata do nosso mundo, mas, sim, e sobretudo, um modo de narração, um discurso, com o qual ele está habituado.” (JOST, 2012, p. 42).

De acordo com Hamon, citado pelo autor, o discurso realista é “ostentatório do saber”. Ele possui a necessidade de ser o mais transparente que puder, realizando um apagamento do autor para ocasionar no receptor o sentimento de que o relato é uma janela para o real. O aporte de cognição de uma série realista se desdobra em três domínios do saber: o enciclopédico, o saber-fazer (seriados como Law & Order e House, nos quais as práticas profissionais são o foco) e o saber-ser (seriados como Ugly Beth e Desperate Housewives, em que os eixos são as personalidades das personagens e comportamentos possíveis em definidas situações).

A criação de um personagem realista tem seu alicerce na vinculação de três papeis (o privado, o profissional e o social). Alguns exemplos de séries e os três papéis são citados no livro: séries centradas na vida privada: Ugly Beth, Sex and City; séries em que o eixo é a vida profissional: House, CSI; séries focadas na sociedade: Prison Break, 24 Horas. Encerrando o capítulo, Jost afirma que o excesso de modelos representacionais da encenação realista faz com que a transparência se perca nos protagonistas das ficções televisuais, ou mesmo em candidatos a programas de reality shows, que caem na mesma lógica.

Finalizando seu fio condutor reflexivo, Jost fala sobre verdades, mentiras e transparência nos seriados e onde encontrá-las. A mentira é considerada algo referencial na sociedade, dentro das séries norte-americanas, como, por exemplo, em Mentalist e Prison Break. O enigma de hoje na ficção é o segredo que oculta o verdadeiro. O acesso ao real está condicionado ao talento do herói de desvendar o âmago interior do outro. “[…] A transparência não pode vir se não de outro lugar como a verdade. Daí a considerar que todas essas séries são o sintoma de uma ideologia que reina no mundo de hoje, a ideologia da transparência, não há se não um passo que eu vou transpor” (JOST, 2012, p. 66).

Mas, afinal, essas séries são mesmo sintoma de nossa época? Consideramos que Jost realizou uma reflexão arguta e competente sobre o assunto. Para o autor, os seriados americanos consolam os sujeitos a partir dessa lógica do verdadeiro e do transparente que permanece camuflado, já que vivemos em sociedades democráticas que perdem definitivamente sua transparência. De modo real, essas séries refletem a nossa vida e o nosso mundo, dando-nos uma compensação simbólica.

Referência Bibliográfica
JOST, F. Do que as séries americanas são sintoma? Porto Alegre: Sulina, 2012

Virei Viral

Está em cartaz até o dia 6 de janeiro, no Centro Cultural do Banco do Brasil, a exposição Virei Viral, que traça uma trajetória do fenômeno da viralização, desde a circularidade da tradição oral ao momento atual de hipertextualidade de informação. A narrativa da exposição trata da palavra falada de mitos, provérbios e histórias como a gestora da memória social. E chega à palavra fluida que se aloja na nuvem binária paradoxalmente amorfa, leve e pesada. Misturando história, cultura, arte e design a exposição apresenta um recorte multifacetado da cultura de compartilhamento. Vídeoinstalações, histórias que correm e a voz de artistas contemporâneos que versam sobre e através das novas tecnologias geram um espaço para reflexão, fruição e experimentação.

No site da exposição, você confere detalhes, bem como alguns vídeos dos debates e ações que já aconteceram na programação do evento.