Educação em Direitos Humanos

Fomentar a Educação em Direitos Humanos, capacitando profissionais da área do magistério: este é o objetivo do curso de extensão Educação em Direitos Humanos, que está com inscrições abertas até o dia 30 de agosto. Criado pelo Núcleo de Educação em Direitos Humanos e pelo Núcleo Interdisciplinar de Ações para Cidadania da Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o módulo será ministrado a partir de setembro. As inscrições são gratuitas.

Há 30 vagas. Serão formadas quatro turmas: duas para profissionais vinculados à Educação Especial e Educação Infantil, e outras duas para os docentes do Ensino Fundamental e Médio. A coordenação está a cargo das professoras Miriam Krenzinger  e  Erika Jennifer Pereira. As aulas acontecerão duas vezes por semana, das 13h30 às 17h30, no campus da Ilha do Fundão. A carga horária total é de 80 horas. Inscrições pelos seguintes emails: nedhufrj@hotmail.com;  nedh@pr5.ufrj.br

Confira o conteúdo programático:
• Diagnóstico de demandas e estratégias para promoção da Educação em Direitos Humanos no local de trabalho.
• Conhecimentos  sobre direitos humanos e a sua relação com os contextos internacional, nacional e local.
• Construção de estratégias didático-pedagógicas da Educação em Direitos Humanos no ambiente Escolar.
• Afirmação de valores, atitudes e práticas sociais que expressem a cultura dos direitos humanos.
• Elaboração de projeto de intervenção no espaço escolar.
• Formação de um saber cidadão, capaz de se fazer presente em níveis cognitivo, social, ético e político.
• Desenvolvimento de processos metodológicos participativos e de construção coletiva.
• Elaboração de material sobre Direitos Sociais, Acesso à Justiça e Mediação Escolar a ser utilizado na matriz curricular.
• Criação e ampliação das redes sociais em favor da promoção, da proteção e da defesa dos direitos humanos.
• Redes Intersetoriais de proteção e da defesa dos direitos humanos.
• Direitos Humanos e o Projeto Político Pedagógico.
• Currículo disciplinar e os Direitos Humanos no Ambiente Escolar: desafios interdisciplinares.
• Avaliação e mecanismos de monitoramento dos projetos de intervenção.
• Fortalecimento de práticas individuais e sociais em favor da promoção, da proteção e da defesa dos direitos humanos.
• Criação de projetos de intervenção e material didático- pedagógico da Educação em Direitos Humanos.

Jovem e consumo midiático

A Rede Brasil Conectado, grupo formado por pesquisadores de universidades de todo o país, lançou, no dia 12 de agosto, o Questionário da Pesquisa Nacional Jovem e Consumo Midiático em Tempos de Convergência. O estudo mapeia o consumo dos meios de comunicação, com ênfase em plataformas digitais, para investigar as práticas, fluxos e rituais de jovens entre 18 e 24 anos na internet e pretende reunir as respostas de milhares de pessoas. O questionário envolve perguntas sobre o uso de redes sociais, dispositivos móveis e aplicativos, visando comparar resultados das diferentes regiões, a fim de conhecer a diversidade brasileira.

A página do questionário estará disponível no endereço eletrônico da Rede Brasil Conectado: www.redebrasilconectado.com.br

A Rede é coordenada pela professora Nilda Jacks, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e conta com equipes em 26 estados mais o Distrito Federal. A pesquisa foi iniciada em 2012 e já mapeou as práticas de consumo cultural e midiático de jovens da classe C, bem como suas atividades no Facebook. O questionário que será lançado é a última etapa da investigação que pretende construir um mapa das relações entre os jovens e a mídia.

Os resultados da pesquisa serão amplamente divulgados em 2015. Informações:http://redebrasilconectado.wordpress.com

Tecnologias móveis

Por Cris Rowan Favoritar
Terapeuta ocupacional pediátrica, bióloga, palestrante e escritora
Publicado no Brasil Post – The Huffington Post

A Academia Americana de Pediatria e a Sociedade Canadense de Pediatria afirmam que crianças de 0 a 2 anos não devem ter nenhuma exposição à tecnologia, crianças de 3 a 5 anos devem ser limitadas à uma hora de exposição por dia e crianças e adolescentes de 6 a 18 anos devem ser restritas a duas horas por dia (AAP 2001/13, CPS 2010).

Crianças e jovens usam de quatro a cinco vezes a quantidade de tecnologia recomendada, provocando consequências graves e, em muitos casos, colocando suas vidas em risco (Fundação Kaiser 2010, Active Healthy Kids Canada 2012). Aparelhos eletrônicos móveis (telefones celulares, tablets, jogos eletrônicos) aumentaram muito o acesso e uso de tecnologia, especialmente por crianças muito pequenas (Common Sense Media, 2013).

Como terapeuta ocupacional pediátrica, convoco pais, professores e governos a proibir o uso de todos os mobiles para crianças com menos de 12 anos. Seguem dez razões, todas apoiadas em pesquisas, para justificar essa proibição. Para ter acesso às pesquisas com referências, procure o Zone’in Fact Sheet no site zonein.ca.

1. Crescimento cerebral acelerado
Entre 0 e 2 anos de idade, o cérebro da criança triplica de tamanho, e ele continua em estado de desenvolvimento acelerado até os 21 anos de idade (Christakis 2011). O desenvolvimento cerebral infantil é determinado pelos estímulos do ambiente ou a ausência deles. Já foi comprovado que o estímulo a um cérebro em desenvolvimento causado por superexposição a tecnologias (celulares, internet, iPad, TV) é associado ao déficit de funcionamento executivo e atenção, atrasos cognitivos, prejuízo da aprendizagem, aumento da impulsividade e diminuição da capacidade de se autorregular, por exemplo, acessos de raiva (Small 2008, Pagini 2010).

2. Atraso no desenvolvimento
O uso de tecnologia restringe os movimentos, o que pode resultar em atraso no desenvolvimento. Hoje uma em cada três crianças ingressa na escola com atraso no desenvolvimento, o que provoca impacto negativo sobre a alfabetização e o aproveitamento escolar (HELP EDI Maps 2013). A movimentação reforça a capacidade de atenção e aprendizado (Ratey 2008). O uso de tecnologia por menores de 12 anos é prejudicial ao desenvolvimento e aprendizado infantis (Rowan 2010).

3. Obesidade epidêmica
Existe uma correlação entre o uso de televisão e videogames e o aumento da obesidade (Tremblay 2005). Crianças às quais se permite que usem um aparelho digital no quarto têm incidência 30% mais alta de obesidade (Feng 2011). Uma em cada quatro crianças canadenses e uma em cada três crianças americanas são obesas (Tremblay 2011). 30% das crianças com obesidade vão desenvolver diabetes, e os obesos correm risco maior de AVC e ataque cardíaco precoce, resultando em grave redução da expectativa de vida (Centro de Controle e Prevenção de Doenças, 2010). Em grande medida devido à obesidade, as crianças do século 21 talvez formem a primeira geração da qual muitos integrantes não terão vida mais longa que seus pais (Professor Andrew Prentice, BBC News 2002).

4. Privação de sono
60% dos pais não supervisionam o uso que seus filhos fazem de tecnologia, e 75% das crianças são autorizadas a usar tecnologia no quarto de dormir (Fundação Kaiser 2010). 75% das crianças de 9 e 10 anos têm déficit de sono em grau tão alto que suas notas escolares sofrem impacto negativo (Boston College 2012).

5. Doença mental
O uso excessivo de tecnologia é um dos fatores responsáveis pelas incidências crescentes de depressão infantil, ansiedade, transtorno do apego, déficit de atenção, autismo, transtorno bipolar, psicose e comportamento infantil problemático (Bristol University 2010, Mentzoni 2011, Shin 2011, Liberatore 2011, Robinson 2008). Uma em cada seis crianças canadenses tem uma doença mental diagnosticada, e muitas tomam medicação psicotrópica que apresenta riscos (Waddell 2007).

6. Agressividade
Conteúdos de mídia violentos podem causar agressividade infantil (Anderson, 2007). A mídia de hoje expõe as crianças pequenas cada vez mais violência física e sexual. O game “Grand Theft Auto V” retrata sexo explícito, assassinato, estupros, tortura e mutilação; muitos filmes e programas de TV fazem o mesmo. Os EUA classificaram a violência na mídia como Risco à Saúde Pública, devido a seu impacto causal sobre a agressividade infantil (Huesmann 2007). A mídia informao uso crescente de restrições físicas e salas de isolamento para crianças que exibem agressividade descontrolada.

7. Demência digital
O conteúdo de mídia que passa em alta velocidade pode contribuir para o déficit de atenção e também para a redução de concentração e memória, devido ao fato de o cérebro “podar” os caminhos neurais até o córtex frontal (Christakis 2004, Small 2008). Crianças que não conseguem prestar atenção não conseguem aprender.

8. Criação de dependência
À medida que os pais se apegam mais e mais à tecnologia, eles se desapegam de seus filhos. Na ausência de apego parental, as crianças podem apegar-se aos aparelhos digitais, e isso pode resultar em dependência (Rowan 2010). Uma em cada 11 crianças e jovens de 8 a 18 anos é viciada em tecnologia (Gentile 2009).

9. Emissão de radiação
Em maio de 2011 a Organização Mundial de Saúde classificou os telefones celulares (e outros aparelhos sem fios) como risco de categoria 2B (possivelmente carcinogênico), devido à emissão de radiação (OMS 2011). Em outubro de 2011, James McNamee, da Health Canada, lançou um aviso cautelar dizendo: “As crianças são mais sensíveis que os adultos a uma série de agentes, porque seus cérebros e sistemas imunológicos ainda estão em desenvolvimento.” (Globe and Mail 2011). Em dezembro de 2013 o Dr. Anthony Miller, da Escola de Saúde Pública da Universidade de Toronto, recomendou que, com base em pesquisas novas, a exposição a frequências de rádio seja reclassificada como risco de categoria 2A (provavelmente carcinogênico), não 2B (possivelmente carcinogênico). A Academia Americana de Pediatria pediu uma revisão das emissões de radiação de campo eletromagnético de aparelhos de tecnologia, citando três razões relativas ao impacto sobre as crianças (AAP 2013).

10. Insustentável
O modo em que as crianças são criadas e educadas com a tecnologia deixou de ser sustentável (Rowan 2010). As crianças são nosso futuro, mas não há futuro para crianças que fazem uso excessivo de tecnologia. É necessária e urgente uma abordagem de equipe para reduzir o uso de tecnologia pelas crianças. As Diretrizes de Uso de Tecnologia para crianças e adolescentes, vistas abaixo, foram desenvolvidas por Cris Rowan, terapeuta ocupacional pediátrica e autora de Virtual Child; o Dr. Andrew Doan, neurocientista e autor de Hooked on Games; e a Dra. Hilarie Cash, diretora do Programa reSTART de Recuperação da Dependência da Internet e autora de Video Games and Your Kids, com contribuições da Academia Americana de Pediatria e da Sociedade Pediátrica Canadense, no intuito de assegurar um futuro sustentável para todas as crianças.

 

Criança, a alma do negócio

Criança, a alma do negócio é o filme da semana da revistapontocom



Criança, a alma do negócio
mostra como no Brasil o público infantil se tornou alvo preferencial da publicidade. As crianças são bombardeadas por mensagens que estimulam o consumo e que falam diretamente com elas.

Dirigido pela cineasta Estela Renner e produzido por Marcos Nisti, o documentário promove uma reflexão sobre como a sociedade de consumo e as mídias de massa impactam na formação de crianças e adolescentes. E mostra uma realidade difícil de acreditar: crianças que preferem ir ao shopping a brincar, conhecem marcas pelo logotipo, e apesar de terem uma vasta coleção de brinquedos e jogos se encantam mesmo é por um pequeno bonequinho de plástico.

Publicidade infantil

Desigualdade, violência, paz, consumo e política. Com o objetivo de dar vez e voz às crianças e jovens, a revistapontocom inaugura mais um espaço neste sentido: o Fala Jovem. Neste espaço, vamos publicar textos escritos por crianças e jovens sobre diversos assuntos. A ideia é promover a ‘fala’ destes cidadãos e ao mesmo tempo possibilitar que os adultos conheçam e ouçam suas histórias, sentimentos, comentários, avaliações sobre temas do nosso cotidiano. O texto de hoje é do jovem Felipe Vieira, de 18 anos. Em pauta: o consumo, a propaganda e a infância.

 

Da Laranja Mecânica à publicidade infantil
Por Felipe Vieira

Analisar a obesidade infantil como um problema social é de grande importância. É preciso entender que o problema não gira apenas em volta da criança que “quer comer” e do pai/mãe que “deixa comer”. Existem outros fatores que merecem ser identificados. Entre eles, a influência da propaganda. O filme Muito Além do Peso, de Estela Renner fala exatamente deste assunto, trazendo a opinião de pais, médicos, especialistas, funcionários do governo, publicitários e das próprias crianças. O longa deixa explícito a influência negativa da publicidade quando é utilizada de forma abusiva, parte de uma engrenagem de um sistema muito maior.

No filme, em um determinado momento, a entrevistadora pergunta o que as crianças preferem: água ou refrigerante. Todas respondem em metonímia: “Coca-­Cola”. É claro que isso acontece de forma inconsciente, mas o fato chama a atenção. A publicidade da Coca-­Cola, que não era e nunca foi direcionada exclusivamente às crianças, acabou atingindo cada uma delas de alguma forma. Segundo o documentário, dados revelam que a obesidade infantil está mais presente no grupo de crianças que assiste à televisão por um número maior de horas por dia.

Mais interessante ainda é quando um publicitário diz que as crianças são indivíduos que fazem parte da sociedade e que, por isso, devem ter direito à escolha. E que o pai que não consegue estabelecer limites no consumo dos seus filhos é um “incompetente”.  Os absurdos nessa declaração ultrapassam os níveis aceitáveis.

A criança está sob a tutela de responsáveis legais exatamente porque ela ainda não possui discernimento e senso crítico apurado para fazer escolhas que terão impacto direto sobre a própria vida. Alguém em sã consciência deixa um menino de nove anos votar nas eleições presidenciais? Não. Por que então esse mesmo menino poderia ser visto como um consumidor em potencial? Ele deve ser mais consumidor que cidadão?

Sim, o Estado deve permitir o consumo e a venda, porque, realmente, não cabe a ele decidir o que os indivíduos fazem ou não com o próprio corpo, mas também é papel do Estado informar sobre os estragos que esse consumo pode fazer e isso inclui regular a publicidade, não permitindo abusos de empresas que se aproveitam da inocência da criança para induzi-la a consumir algo.

Uma propaganda da marca de batatas fritas industrializadas Ruffles resume esse abuso em alguns segundos. No comercial, exibido no filme, um adolescente é submetido a um teste pelo qual cientistas descobrem no que ele pensa na maioria do tempo. Resultado: mulheres e sexo. O mesmo teste é feito com uma menina, de mesma idade. Descobrem que ela pensa, na maioria do tempo, em sapatos, maquiagens e afins. Assim que acabam os testes, os dois adolescentes são submetidos a uma espécie de “educação mental”, onde são treinados a associar seus prazeres à batata Ruffles.

O que impressiona é que essa ideia é utilizada como algo positivo pelas empresas, mesmo sendo um absurdo abusivo. Em uma cena do aclamado Laranja Mecânica, de Kubrick, o personagem Alex é submetido a um “tratamento” para diminuir seu instinto violento. Todas as vezes que ele assiste à cenas de violência ele é induzido a sofrer dor. Guardadas as devidas proporções, essa é a mesma lógica do comercial da Ruffles.

Os adolescentes não ESCOLHERAM consumir, foram induzidos porque o consumo foi associado a coisas boas. Alex não escolheu deixar de ser violento, ele simplesmente passou a evitá-la porque ela passou a ser associada à dor. Alex e as crianças e adolescentes foram adestrados. Não tiveram escolha. A partir do momento em que se adestra um ser humano, ele passa a agir de acordo com regras. Deixa de ser um ser humano pensante. Transforma-se num robô, comandado exclusivamente por fatores externos, sem reflexões sobre suas ações e os impactos que elas podem causar.

Um outro entrevistado no documentário diz que todos somos capazes de fazer boas escolhas. Porém, não há como fazer boas escolhas se, simplesmente, não existem as boas opções ao alcance. Não existe forma de competir de igual para igual com o poder televisivo e da propaganda abusiva. É preciso romper com essa cultura do consumo, do fast food, das comidas prontas. Mas, antes,é preciso romper com a cultura do livre ­abuso publicitário, em especial às crianças, porque a primeira coisa depende da segunda. Não há como chegarmos a uma sem a outra.

Até 1929, o liberalismo econômico era a maior maravilha do novo mundo. Depois da Grande Depressão, descobriram que não era bem assim. Viram que era preciso regulação, intervenção. Analogamente, quantas crianças com problemas de saúde vão ser necessárias para que as empresas e o próprio cidadão se deem conta de que é preciso vetar o abuso publicitário?

Info-ricos e info-pobres

Por Marcos Fabrício Lopes da Silva
Professor da Faculdade JK, jornalista, poeta e doutor em Estudos Literários
Publicado originalmente no Observatório da Imprensa

A tecnologia não está distribuída igualmente entre os povos. Segundo informa a professora de bioquímica Glaci T. Zancan, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), no artigo “Educação científica: uma prioridade nacional”(São Paulo em Perspectiva, 2000), apenas 15% da população da Terra fornece todas as inovações tecnológicas do mundo. Mais da metade da população mundial está apta a adotar essas tecnologias para produção e consumo e o restante corresponde a regiões tecnologicamente excluídas. Para a professora, “é hoje reconhecido que a tecnologia é mais excludente que o capital e, juntamente com a ciência, define o futuro de um povo”. A capacidade tecnológica de uma economia depende não só de suas próprias inovações, mas também da capacidade de adaptar as tecnologias desenvolvidas em outros lugares, de acordo com Jeffrey Sachs, professor de comércio internacional pela Universidade de Harvard, em A new map of the world (2000): “Today’s world is divided not by ideology but by technology”. Isto é, o mundo de hoje é dividido não pela ideologia, mas pela tecnologia.

Em termos midiáticos, uma medida interessante em prol da democratização da tecnologia diz respeito à expansão da informação em escala global. Vejamos, por exemplo, o mercado da TV a cabo no Brasil. O país convive com uma política excludente de difusão informativa a partir da preservação de um mercado nacional de TV a cabo, cuja programação se oferece em pacotes a um preço muitíssimo superior ao que pagam usuários de outros países. A respeito, alertava o músico Otto, em TV a cabo: o que dá lá é lama (1998): “Acabo de cair no dezesseis a cabo, acabo me tornando usuário a cabo/do doze por cinquenta e sete é um assalto”. O acesso à TV paga é um privilégio só alcançado até agora por cerca de 17 milhões de assinantes. Número que poderia subir se os pacotes fossem mais baratos.

Uma das principais vantagens da TV paga em relação à TV aberta é a variedade de conteúdos. Além disso, o menor tempo dedicado à propaganda se configura como outro fato de vantagem. Existe uma nobre expectativa do consumo da TV paga no tocante à busca por mais noticiários com análise crítica dos assuntos nacionais e internacionais, além de acesso a filmes, documentários e programas culturais que não se encontram, com frequência, na cadeia de programação da TV aberta. Outro notável benefício proporcionado pela TV a cabo se refere ao dinamismo tecnológico que a estrutura, revelam Murilo César Ramos e Marcus Martins no artigo “A TV por assinatura no Brasil: conceito, origens, análise e perspectivas”(Intercom, 1995). Os pesquisadores ressaltam que a “TV por assinatura, em conclusão, é hoje, no cenário das comunicações brasileiras – após décadas de indefinições quanto à sua entrada no mercado nacional – a face mais visível do que chamamos aqui de convergência e que é chamado também, em outras circunstâncias, de multimídia ou super-estradas da informação”.

Censura econômica

Uma TV por assinatura, quando restrita em seu alcance público, limita o acesso e as possibilidades de circulação de informação, além de restringir o acesso a meios e fontes diversificados. De natureza excludente, práticas desse tipo levaram o comunicólogo argentino Aníbal Ford a criticar a divisão do mundo entre “info-ricos” e “info-pobres”, neologismos que, por sua vez, se referem àquelas pessoas providas ou desprovidas do direito da informação. Sabemos que a cidadania passa pelo exercício pleno do direito à comunicação. O direito à comunicação não pode ser exercido em sua integralidade se o acesso aos meios se restringe a poucas mãos. A comunicação pode ser concebida como o espaço do diálogo, do encontro, da construção do consenso desde a diferença. A cidadania requer o exercício integral do direito à comunicação. Por isso, a midiatização é um dado mais importante em uma sociedade que está marcada pela pobreza e, sobretudo, pela desigualdade.

O sistema gambiarra de televisão se expande na medida em que os mecanismos formais de acesso se tornam restritos e onerosos abusivamente. Em oposição a tamanha violência simbólica, Cidinha da Silva, no livro Cada tridente em seu lugar (2007), revela: “Você sabe que às vezes o pessoal da favela faz gato não é só pela falta, mas também pela revolta? Você imagina o que é no inverno só ter água quente pro banho se esquentar a gás ou a lenha, porque não há energia elétrica? Andar a favela inteira com as suas sacolas de lixo debaixo do braço até o asfalto porque caminhão coletor não sobe o morro? A moçada então, não perdoa. Esperança desacreditada, fermentada pela falta de perspectiva, vira revolta.” A escritora mostra, com contundência, o que motiva a existência da TV a gato: “Assim como um vivente tem direito à água potável, tem também direito à programação televisiva de qualidade. Para obtê-la, no Brasil, é preciso pagar uma assinatura. Suponhamos que você possa pagar. Ocorre que a empresa prestadora do serviço acha que o lugar onde você mora não é digno dele. E você, além de perguntar-se onde mora a lógica capitalista da empresa, faz o quê? Os meninos fazem gato.”

O restrito acesso à programação veiculada pela TV a cabo afronta o texto constitucional em seu artigo 220: “A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição.” A censura econômica se coloca como impeditivo para a livre comunicação. Estar fora da TV por assinatura é ficar excluído dos principais fluxos de informação. Desconhecer os conhecimentos divulgados naquela modalidade de comunicação informacional é amargar uma nova ignorância.

Cinemundo: inscrições abertas

Já estão abertas as inscrições para a Mostra Rumos do VI Festival CineMundo que será realizado, em paralelo, com o II Seminário Internacional: formação, público e mercado audiovisual, na Caixa Cultural, no Rio de Janeiro, entre os dias 16 e 23 de agosto. Trata-se de uma mostra competitiva de curtas. Os interessados têm até o dia 21 de julho para se inscrever.

De acordo com o edital, poderão ser inscritos curtas-metragens produzidos a partir de janeiro de 2012. O vídeo deve ter no máximo 15 minutos, incluindo os créditos. As produções devem ter sido realizadas por jovens – dos 15 aos 29 anos – de escolas livres, projetos de formação em audiovisual e universitários. Podem ser inscritas obras documentais, ficcionais, experimentais, dentre outras, desde que estejam dentro dos limites de tempo/ tamanho/resolução e em acordo com a mostra proposta.

Regulamento e ficha de inscrição disponíveis no site 

O II Seminário Internacional: formação, público e mercado audiovisual busca promover o diálogo entre várias vertentes do campo audiovisual, projetando o tema da formação, através do intercâmbio de estudos, projetos, linguagens, produzindo o diálogo entre diferentes atores, como estudantes universitários, produtores, professores, profissionais de mercado. Além de todo contexto formativo, promoveremos a exibição de curtas-metragens com o objetivo de divulgar dentro do próprio Seminário a realização de seus participantes, difundindo assim o conteúdo de curtas, longas, bem como o processo de criação de games e seus respectivos modelos e linguagens.

Zica e os seus camaleões

Zica é uma menina como outra qualquer. Bem, mais ou menos. Ela tem como bichos de estimação três camaleões. Não é a jovem mais bonita da sala de aula, muito menos o ‘patinho feio’ que almeja ser princesa. Zica é feliz como é e entende que as pessoas são diferentes. Às vésperas dos 15 anos, está preocupada com a qualidade de vida. Cheia de atitude, acredita que a arte pode mover montanhas. Por isso, faz uso dela para mostrar sua visão peculiar de mundo do jeito que seu coração manda: grafita suas paredes, escreve, desenha, pinta e compõe músicas com seu inseparável violão. “A Zica nasceu em uma livraria, onde observando livros de arte, ilustração, quadrinhos e grafites, comecei a vislumbrar uma personagem que fosse multiartista. Estava em uma dessas megalivrarias que também vendem CDs, DVDs, Action Figures”, explica o ilustrador e diretor de animação Ari Nicolosi, criador da personagem.

A ideia deu frutos e muitos. Zica e os camaleões virou série de TV, que acaba de estrear na TV Brasil. Em breve, na TV Cultura. Ainda no segundo semestre de 2014, será exibida em outros canais da América Latina. Mas não é só isso: a personagem também já lançou um livro de contos, O Quadrado, um CD, reunindo todas as músicas prediletas de Zica e está prestes a protagonizar um game. Zica e os camaleões surge como um projeto transmídia, voltado para o público infanto-juvenil. “Se você fizer um check list dos principais conceitos de transmídia, verá que a Zica trafega bem por todos: a identificação com o público jovem gera vontade de compartilhar sua visão de mundo. A audiência pode mergulhar nas extensões da narrativa. Ela é plausível em qualquer plataforma”, explica Sérgio Lopes, produtor executivo.

Ari Nicolosi

Sérgio Lopes

O projeto – assinado pela Cinema Animadores e Conteúdos Diversos – passou por diversas consultorias em eventos nos últimos quatro anos. Especialistas em transmídia, como Mark Warshaw (da série Smalville) e Jesse Cleverly (consultor inglês que trabalhou no Fiction Lab da BBC) deram dicas que foram aplicadas no desenvolvimento da série.

A revistapontocom conversou com o criador da série Ari Nicolosi e Sério Lopes, produtor executivo.

Acompanhe:

revistapontocom – O que vocês pretendem com este projeto?
Ari Nicolosi Falar de verdade com os jovens sobre assuntos pertinentes que façam parte, de fato, do universo, da realidade deles. Já foi colocado pelo próprio público que já assistiu aos episódios que as histórias levantam questões que levam à reflexão. Questões relacionadas à sustentabilidade, consumismo, empreendedorismo, identidade, autoconhecimento, personalidade, mudanças, atitude. Enfim, questões relevantes para quem está em transição, em transformação. Adoraríamos abrir um canal de diálogo, através da série, com o público-alvo.

revistapontocom – É uma série que dosa, portanto, o ‘politicamente correto’ e o entretenimento?
Ari Nicolosi Sim, existe essa preocupação, pois sabemos da responsabilidade de colocar um conteúdo num veículo de massa. O que abordamos pode ter consequências. Conversamos muito durante a construção do roteiro sobre os caminhos que a história poderia tomar e que leituras ela poderia gerar. Mas também colocamos um tom de realidade. Por exemplo, a Zica não é perfeita nem dona da verdade. Ela erra, pisa na bola, mas procura reconhecer e consertar.

revistapontocom – De onde surgiu a história da Zica e os camaleões?
Ari Nicolosi –A Zica nasceu em uma livraria, onde observando livros de arte, ilustração, quadrinhos e grafites, comecei a vislumbrar uma personagem que fosse multiartista. Estava em uma dessas megalivrarias que também vendem CDs, DVDs, Action Figures. O local tinha todos os elementos para dar vida a essa personagem, que imaginei na figura de uma garota. Achei que uma menina teria uma pegada mais condizente com a minha ideia. Comecei ali mesmo a pensar que traço teria essa menina-adolescente. Que faria sua arte trancada no seu quarto, ao lado de um animal de estimação bem exótico. No início, era uma iguana, que acabou virando os três camaleões. Mas a essência dessa personagem era encontrar os seus iguais, falar com eles, dividir suas histórias, suas experiências de vida.

revistapontocom – Houve alguma pesquisa junto aos jovens para criar as histórias?
Ari Nicolosi – O projeto começou a ganhar espaço quando ganhamos, no AnimaTV, os recursos para produzir um piloto. Na ocasião, foi feita um grupo focal com 160 crianças. Saímos do encontro com um resultado bem satisfatório e entendemos mais sobre o projeto, seu público e a relação entre eles. Depois, quando iniciamos os trabalhos para a primeira temporada, reunimos um pequeno grupo de jovens cheias de opinião para selecionarmos assuntos, temas pertinentes.

revistapontocom – O que difere Zica de outros ‘conteúdos’ também voltados para o público infanto-juvenil?
Ari Nicolosi – A Zica tem uma característica de ser fora do padrão dos meios que frequenta. Ela não se incomoda com isso. Não é o “patinho feio” que almeja ser a princesa ou a garota mais bonita e popular da escola. Ela é feliz como é e entende que as pessoas são diferentes. Está mais preocupada em ser verdadeira, legítima, honesta consigo mesma. E desta forma, vivendo meio que na contramão. E, do seu jeito, ela acaba sendo bem popular. É uma proposta também diferente das séries norte-americanas. Temos um tom de humor, timming e estilo gráfico diferentes. Conceitualmente, a série é da própria Zica: são suas histórias, seu jeito de contar essas histórias, seu design, suas músicas. A ideia é que a série é feita por uma menina de quase 15 anos e seus amigos para outras meninas e meninos que estão passando ou vão passar pelas mesmas coisas.

revistapontocom – A série de TV está no ar na TV Cultura e TV Brasil. Além disso, deve estrear também em outros canais da América Latina. As histórias são universais?
Ari Nicolosi –Sim, as histórias e os personagens. Fora uma ou outra questão muito regional, a Zica poderia viver e fazer as coisas que faz em quase qualquer lugar do planeta.

revistapontocom – Série de TV, livro, game… O projeto é ousado, no sentido, de ser lançado em diferentes plataformas. Como isso foi construído, idealizado?
Ari Nicolosi – A Zica tem no seu DNA algo naturalmente transmídia. O conteúdo que ela é capaz de produzir – textos, histórias, desenhos, animações, games, músicas – pode ser explorado em diversas mídias. Qualquer superfície branca, vazia, seja no mundo real, digital ou virtual, é um lugar para ela partir do zero e chegar a algum resultado. E claro, uma coisa pode levar a outra, pode começar em uma mídia e continuar em outra e terminar em uma terceira.

Sérgio Lopes – O Ari Nicolosi é um criativo que já pensa seus projetos de maneira transmídia e isto facilita o planejamento para as diversas plataformas. Se você fizer um check list dos principais conceitos de transmídia, verá que a Zica trafega bem por todos: a identificação com o público jovem gera vontade de compartilhar sua visão de mundo e a audiência pode mergulhar nas extensões da narrativa. Ela é plausível em qualquer plataforma, pois é uma garota conectada que interage nas redes sociais, utiliza celular e todos os aplicativos que fazem parte da vida adolescente. Sua turma de amigos (e inimigos) permitem histórias paralelas e spinoffs [outros produtos] da série. Ela tem grande interesse por música e literatura. A série já começa, então, com um livro de contos (O Quadrado) de “sua autoria” e um CD com suas músicas, além do game que está em fase de desenvolvimento.

revistapontocom – Quais são os riscos de criar um projeto transmídia deste porte no Brasil?
Sérgio Lopes – Projetos de entretenimento têm um risco natural. Ninguém sabe se fará sucesso e cairá no gosto do público. Hoje já se consegue minimizar este risco com técnicas que eliminam alguns fatores subjetivos. No caso do entretenimento transmídia, o primeiro risco é não trabalhar a “verdade do personagem” nas diversas extensões e forçar a presença dele em plataformas que não são adequadas. Outro risco é a falta de maturidade do mercado para esta disciplina. Ainda se foca muito no sucesso da TV para haver interesse das outras plataformas e um bom projeto transmídia não deveria depender do conceito antigo de blockbuster. Hoje, você pode começar um sucesso pelo game ou pelo livro antes de chegar à TV, mas tudo fica mais fácil se isso já fizer parte de uma estratégia e não do acaso. O licenciamento se beneficia muito quando um projeto é transmídia, mas a visão corrente é esperar fazer sucesso em mídia de massa para licenciar. A parte legal também fica mais complexa, pois a propriedade intelectual se fragmenta com os direitos das emissoras de TV, distribuidora em cinema, editora de livro ou de música e licenciamento de cada atividade. A falta de planejamento diminui a rentabilidade dos investidores.

Revisitando a Guerra de Tróia

 

Por Artur Melo, 10 anos
Aluno do 6º ano do Ensino Fundamental, da Escola Sá Pereira

 

Algumas perguntas sobre Tróia – para quem não conhece essa bela história ou já conhece e gosta dessa cultura.
Dedico para a minha professora de História, Joana.

Bem, vamos começar pelo Aquiles, o maior e melhor guerreiro desta história. Ele não gostava de seu rei Agamenon, porém lutava pela Grécia. (E você, leitor? Já pensou nisso? Lutaria pelo seu povo, mesmo não gostando de seu rei?). Agamenon era muito poderoso e ambicioso e queria conquistar tudo. Quando seu irmão, Menelau, lhe contou que Páris, filho do rei de Tróia, roubou a sua esposa, Helena, ele logo quis atacar Tróia.  O rei Agamenon carregou 1000 navios com guerreiros para o ataque e partiu.

Aquiles não queria ir. Mas sua mãe lhe contou que se ele não fosse, seria um homem desconhecido. Seu nome seria esquecido. Mas se ele decidisse ir, seu nome seria lembrado por muito, muito tempo. Só que ele não voltaria mais. Aquiles resolveu ir. (Será que ele entendeu o recado da sua mãe quando ela disse que ele não voltaria mais?).

Quando Aquiles e seus homens chegaram à praia, perto da cidade de Tróia, fizeram uma carnificina e a dominaram. O rei de Tróia soube do ataque e se preparou também. Sabia que Agamenon iria atacar em seguida. Seu filho, Páris, disse que lutaria com Menelau por Helena.

Quando o dia chegou, Menelau estava massacrando, vencendo, Páris. Ele logo então correu para o lado de seu irmão, Heitor, que conseguiu matar Menelau. Enfim: estava declarada a guerra de uma vez por todas entre os gregos e os troianos, que ainda conseguem fazer com que os gregos recuem para a praia.

Ah, eu não posso esquecer da praia. Com toda essa confusão, os gregos capturam a prima de Páris e Heitor: Briseida. Ela ficou na cabana de Aquiles e eles começaram a namorar. Por alguns motivos, Aquiles não estava mais querendo atacar os troianos. Ele e seus homens – os mirmidões, considerados melhores guerreiros que havia na Grécia – não foram guerrear na primeira batalha. Mas um dia, os troianos resolveram atacar a praia, onde os gregos estavam. Aquiles não quis se envolver. Porém, sem que ele soubesse, seu primo vestiu a armadura de Aquiles e chamou os mirmidões. Eles foram, acreditando que fosse Aquiles.

No meio da batalha, Heitor pensou que estivesse lutando com Aquiles e o matou. Quando tirou o capacete do morto e viu que não era Aquiles foi aquele silêncio total. Os troianos, então, decidiram voltar para seu território, mas Heitor sabia que o verdadeiro Aquiles iria atrás dele. E foi isso mesmo que aconteceu. Aquiles, sozinho, foi até Tróia duelar com Heitor e o matou.

Alguns dias de trégua se passaram, após o funeral de Heitor, tempo suficiente para os gregos arquitetarem um plano infalível para derrotar de vez os troianos. Os troianos foram à praia e não viram ninguém, apenas um cavalo de madeira que o rei resolveu levar para dentro de Tróia (vocês teriam outra ideia para ultrapassar as muralhas de Tróia?).

À noite, quando todos já tinham dormido, Aquiles e diversos homens saíram de dentro do cavalo e abriram a porta de Tróia para outros guerreiros entrarem. Os gregos fizeram uma carnificina. Aquiles foi atrás de sua dama, que conseguira escapar. Alguns outros troianos importantes também conseguiram fugir por uma passagem secreta, mas antes disso, Páris foi procurar a tal prima, Briseida. O problema é que antes de Aquiles ou Páris encontrá-la, Agamenon a encontrou. Sem pestanejar, ela pegou um punhal e enfiou na garganta do rei (Briseida foi certeira. O que teria acontecido se as mulheres também tivessem participado dessa guerra? Já pensou?).

Aquiles chegou, encontrou a dama. Enquanto se falavam, Páris viu a cena e fechou o calcanhar dele. Depois, com mais outras fechadas, Aquiles morreu. (Será que Aquiles morreu por amor? Será que se não tivesse se apaixonado teria se descuidado? Logo ele, o maior guerreiro dessa história?) Páris e Briseida fugiram. É por isso que uma parte do nosso corpo é apelidado de calcanhar de Aquiles, ou seja, representa uma parte frágil da nossa humanidade.

Quando sinto que já sei

Quando sinto que já sei é o filme da semana da revistapontocom

Sob a direção de Antonio Sagrado Lovato, Raul Perez e Anderson Lima, a obra – que acaba de estrear no You Tube, reúne depoimentos de pais, estudantes, educadores e profissionais de diversas áreas sobre a necessidade de mudanças no modelo convencional de escola – de carteiras enfileiradas, aulas de 50 minutos e avaliações quantitativas.

Sete projetos educacionais em sete cidades do Brasil são retratados no documentário: Âncora (Cotia – SP), Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (Curvelo – MG), Projeto Gente (Rio de Janeiro – RJ), Educação Científica da AASDAP (Natal – RN), Escola Livre Inkiri (Piracanga – BA), EMEF Presidente Campos Salles (São Paulo – SP) e Araribá (Ubatuba – SP). Outros três projetos foram visitados e completam o escopo da pesquisa.

O filme apresenta novas abordagens e caminhos para uma educação mais próxima da participação cidadã, da autonomia e da afetividade. Entre os entrevistados estão o educador e idealizador da Escola da Ponte (Portugal) José Pacheco; o neurocientista Miguel Nicolelis; a pedagoga e idealizadora da Casa do Zezinho, Tia Dag, e o educador Tião Rocha.

As filmagens começaram em 2012 e, no ano passado, o filme arrecadou R$ 49,7 mil com a ajuda de mais de 480 pessoas em uma campanha de financiamento coletivo no site Catarse. Em dezembro, uma prévia do documentário foi exibida no evento “Diálogos sobre educação”, realizado pela representação do Brasil na Unesco, em Paris (França).

Jovens para a cidadania global

Por Zélia Schervier
Mestre em Educação pela Universidade de Brasília e doutora em política internacional pela Universidade de Barcelona, é pesquisadora no Núcleo de Políticas Públicas da UnB

O Brasil tem conseguido tirar milhares de cidadãos do patamar da miséria, em processo de inclusão social pela distribuição de renda mínima considerado uma virtude política. Alguns programas, como o de saneamento no semiárido brasileiro, são exemplo para nações que buscam se desenvolver, o que atrai países como a Etiópia. Ou seja, o Brasil pode fazer a ponte entre o futuro e a carência de algumas regiões do mundo. Mas, talvez, a maior contribuição tenha sido, até agora, a inclusão de crianças nas escolas e a recente aprovação, pelo Congresso Nacional, de um Plano Nacional de Educação, para até 2020.

Temos que reconhecer que esses avanços se devem, pelo menos em parte, aos esforços das Nações Unidas e de organizações internacionais atuantes que exortam os governos a serem mais responsáveis. Estamos falando dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), programa que tem impulsionado o desenvolvimento na área da educação pública, inclusive nos países desenvolvidos, por meio, por exemplo, do Programa de Educação Digital.

Se o programa dos ODM, com pontos práticos a serem seguidos pelos Estados, tem o seu fim em 2015, para o período que se inicia em 2016, as Nações Unidas já têm elaboradas as metas para as políticas globais de meio ambiente e de educação no pós-2015. Como orientação mundial para o desenvolvimento sustentável, temos as pautas resultantes do encontro Rio+20, com a proposta de uma economia verde, que busca o fim da pobreza em todo o planeta, a construção da segurança alimentar com agricultura sustentável e um sistema sanitário com água para todos. No entanto, esses objetivos não poderão ser realizados se não educarmos os jovens para os problemas com os quais eles terão que se confrontar no Brasil e no exterior.

O secretário-geral das Nações Unidas lançou em 2012 o Programa Iniciativa de Educação Global, buscando implementar a cidadania global, por intermédio de uma educação pautada nas necessidades de cada país e orientada para os desafios de uma comunidade global. A educação com qualidade terá o objetivo de formar cidadãos que saibam atuar nos níveis local, nacional e global de forma responsável. A ação coletiva pode ser de ordem ambiental, como o combate à poluição; de ordem social, quando precisamos de iniciativas para a saúde pública; ou de ordem financeira, quando o país necessita reforçar as suas reservas por meio da economia de cada cidadão.

O Brasil tem iniciativas para a educação internacional, com os programas de intercâmbio de bolsistas para períodos de estudos em universidades no exterior. Mas isso é uma gota d’água no oceano da cidadania global, que deve ser pensada de forma participativa.

Precisamos sair rapidamente de uma era em que a educação é vista como processo seletivo e de acesso ao emprego para a sociedade do conhecimento, na qual o saber pode ser adquirido fora da escola física, sem paredes e sem fronteiras. Isso não quer dizer que todos os países devem seguir a mesma dieta de conhecimento.

Enquanto alguns países em conflito buscarão assegurar a assimilação de valores como a paz e a solidariedade, outros, como o Brasil, preocupados com a corrupção, deverão reforçar, por exemplo, a ética e as boas práticas da responsabilidade social, o ensino de valores para a vida e a preservação da cultura local.

Se as questões ambiental e humana são pilares fundamentais para a continuidade da nossa civilização, o Brasil pode contribuir com uma educação que reforce os valores de ética e participação igualitária. Temos pela frente a enorme responsabilidade de pensar e propor práticas inovadoras para, por meio de uma perspectiva inclusiva e global da cidadania, garantir o desenvolvimento sustentável e duradouro: uma educação para a soberania e o empoderamento de grupos sociais vulneráveis. Para isso, necessitamos refletir a prática da educação internacional e educar cidadãos visionários em instituições que empoderem as comunidades, irradiando criatividade e expandindo a sua ação para o mundo.

Conheça a Rebrinc

Por Desirée Ruas
Consciência e Consumo

Gabriel vem da capital de Rondônia, Cristhiane da cidade baiana de Teixeira de Freitas, Leo de Florianópolis e Raquel de Brasília. Em São Paulo, os quatro se juntam a outras pessoas que têm o mesmo objetivo: fortalecer a Rede Brasileira Infância e Consumo, Rebrinc. O 6º Encontro da Rede, realizado nos dias 25 e 26 de julho, reuniu cerca de 50 pessoas de todas as regiões do Brasil, no Centro de Eventos São Luís, na capital paulista.

Para todos, vale o esforço para participar dos debates e da troca de experiências com pessoas que atuam pela mesma causa. Com a missão de “sensibilizar, mobilizar e articular pessoas e organizações para a promoção e a defesa dos direitos de crianças e adolescentes frente ao consumismo e às relações de consumo”, a Rebrinc nasceu em junho de 2013, data da primeira reunião do grupo. Há pouco mais de um ano, a Rede Brasileira Infância e Consumo vem sendo construída de forma horizontal e colaborativa. Por ter uma estrutura sem hierarquia, as decisões são tomadas em conjunto, em encontros periódicos realizados em São Paulo. O principal compromisso é fortalecer as ações individuais que já eram realizadas anteriormente pelos membros e dar visibilidade à causa da proteção da infância frente aos apelos do mercado. Grupos de trabalho, sendo eles Comunicação, Educação, Alimentação, Políticas Públicas e Vínculos Humanos Essenciais, também planejam ações próprias para levar o problema crescente do consumismo na infância a famílias, meios de comunicação, escolas, governo e mercado.

Fazem parte da Rebrinc pais, mães, educadores, médicos, nutricionistas, jornalistas, publicitários, artistas, advogados, membros de instituições ligadas à infância, ao meio ambiente e ao direito do consumidor, centros de pesquisa e universidades. A cada dia, novos membros entram no debate sobre infância e consumo por meio do grupo da Rede Brasileira Infância e Consumo no Facebook que possui mais de 600 membros. No sexto encontro presencial, o grupo discutiu, além de temas ligados à infância e ao consumo, questões operacionais e o planejamento das próximas ações da Rede.

Atores da Rebrinc

Também integrante da Rede, Mariana Sá, de Salvador, diz ter encontrado a sua turma. “A Rebrinc é a congruência de diversos atores de disciplinas e atuações diferentes com um mesmo interesse: uma infância mais bacana.” Mariana é  uma das criadoras do Movimento Infância Livre de Consumismo, Milc, e, para ela, “os atores da Rebrinc suprem necessidades do Milc como estudos, pesquisas, advocacy, produção de documentários, realização de eventos e de articulações nacionais.” Ativo na Internet e fora dela desde março de 2012, o Milc defende o envolvimento de mães e pais no debate sobre a  publicidade infantil e sobre a relação entre mídia e infância.

Leo Nogueira Paqonawta, pedagogo, mestre e doutorando em Educação, acredita no poder do coletivo para mudar a atual realidade. “Faço parte da Rebrinc porque unidos somos mais fortes na defesa dos direitos da criança, em especial frente à sua relação com a publicidade e a propaganda, assim também na proteção da infância como espaço/tempo especial na formação do ser humano”, conta o autor do site Descobrincante, que reúne textos sobre os direitos da infância na escola. Defensor de uma mídia democrática e responsável, Leo utiliza instrumentos de comunicação em seu processo educativo com seus alunos em Florianópolis, que produzem conteúdos que refletem sobre a realidade em que vivem.

Acostumada com a dinâmica da comunicação mercadológica, a publicitária e consultora, Nádia Rebouças, do Rio de Janeiro, defende mudanças na forma como o mercado vem atuando. Ela acredita na importância de uma rede sobre infância e consumo nos dias de hoje porque chegou a hora de mudar. Ela conta que “cada mudança vai passando por um processo de amadurecimento na sociedade e que, às vezes, nem percebemos, mas de repente tem uma massa crítica que se coloca a favor dessa mudança. Caminhamos para isso nos últimos anos porque o consumismo cresceu avassaladoramente e até as crianças foram se transformando em objeto e em mercadoria e avançou o ativismo pela causa.” Para ela, mais discussão e maior enfrentamento fazem parte do processo até a mudança. “A sociedade e o planeta não suportam mais”, desabafa com relação ao consumismo.

Uma das criadoras da campanha Põe no Rótulo, a advogada Cecília Cury, também está na Rede. Ela acredita “na urgência de se garantir espaço para o consumo consciente, especialmente quando consideramos as reais necessidades das crianças.” Preocupada com a saúde do seu filho, Cecília se uniu a outras mães na campanha #poenorotulo, criada em fevereiro deste ano, na Internet, por um grupo de famílias de alérgicos com o objetivo de divulgar a necessidade da rotulagem correta de alimentos alérgenos, como leite e soja, dentre outros.

Regina de Assis, consultora com experiência em educação e mídia, também atua na Rebrinc. Regina acredita que a Rede Brasileira Infância e Consumo é importante para o país “pois é tecida na rica diversidade de seus representantes, que trabalham comprometidos com os direitos das crianças brasileiras de viverem livres do consumismo”.

Para o grupo que compõe a Rebrinc, culpar os pais pelo consumismo infantil representa uma visão injusta e simplista do problema já que as famílias estão em desvantagem na relação aos múltiplos apelos do consumo sobre as crianças que são muito vulneráveis a tais mensagens. “É preciso repensar a pressão do consumo sobre a infância porque além de produtos e serviços, a publicidade e os outros conteúdos da mídia vendem valores e modos de agir e pensar nem sempre construtivos”, enfatiza Desirée Ruas, do Movimento Consciência e Consumo, de Belo Horizonte.

Nos planos da Rede Brasileira Infância e Consumo estão a promoção de ações de combate ao consumismo como feiras de troca de brinquedos, realização de debates sobre consumo e alimentação saudável, o incentivo a políticas públicas que priorizem o tema e estímulos para uma infância mais simples e menos materialista, dentre outros. Na discussão que a Rebrinc vem estimulando com pais, escolas e todos os interessados, entram temas como obesidade infantil, adultização da infância e erotização precoce, estímulo à violência, distorção de valores, o papel da escola e o entendimento da responsabilidade conjunta  da família, da sociedade e do Estado em assegurar a garantia dos direitos das crianças e dos adolescentes, incluindo mantê-las “a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”, como determina o artigo 227 da Constituição Federal.

Liberdade de expressão

Durante o encontro da Rebrinc em São Paulo, as advogadas da organização não governamental Artigo 19, Camila Marques e Karina Quintanilha, falaram sobre a diferença entre os conceitos de liberdade de expressão e liberdade de expressão comercial. “A liberdade de expressão é um direito do indivíduo e não de empresas e restrições legítimas podem acontecer para a defesa de outros direitos”, explicou Camila. A classificação indicativa de conteúdos audiovisuais que existe hoje no país foi citada como um exemplo de um parâmetro criado com o objetivo de proteger crianças e adolescentes. A apresentação contribuiu para o debate da legitimidade de ações que buscam traçar limites à comunicação mercadológica dirigida à criança. Como defende o jurista Dalmo Dalari, em seu artigo “Publicidade danosa à criança”, publicado originalmente no Jornal do Brasil, “o controle da publicidade dirigida à criança vincula-se à questão da liberdade de comércio e não à liberdade de expressão, que é um direito fundamental da pessoa humana. Essa distinção é essencial, pois retira a base jurídica dos que, interessados prioritariamente no comércio, tentam sustentar a alegação de inconstitucionalidade das normas legais e regulamentares que fixam diretrizes para a publicidade dirigida à criança”.

Quintal de … brinquedos

O Dia das Crianças ainda está longe, mas que tal preparar a criançada para uma forma diferente de comemorar, para sempre, o dia delas? Já está funcionando o site Quintal de Trocas, focado na troca de brinquedos, jogos, livros e fantasias. Por meio de um mecanismo gratuito, é possível escolher o item a ser trocado utilizando filtros de idade, brinquedo e ou marca. Todas as peças são acompanhadas de fotos e uma descrição detalhada do estado em que se encontram. O objetivo é promover o consumo compartilhado e, ao mesmo tempo, combater o consumismo.

A atriz e fundadora do Quintal de Trocas, Carol Guedes, sentiu a necessidade de um espaço virtual para realizar o consumo compartilhado quando teve a oportunidade de participar de uma feira de trocas de brinquedos promovida pelo Instituto Alana, em São Paulo. O site já contabiliza 30 mil visitas e cerca de 1200 cadastros. A expectativa agora, de acordo com a fundadora, é encontrar parceiros que estejam dispostos a apoiar o trabalho.

Educação para paz na escola

Por Nei Alberto Salles Filho
Ccoordenador do Núcleo de Educação para a Paz da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG)

Escolas públicas e privadas têm, entre suas demandas atuais, a questão das múltiplas formas de violência. Desde a violência direta das incivilidades (falta de respeito, grosseria) até a violência estrutural (desigualdades sociais) que perpassa as relações humanas, interpessoais e intergrupais, o cotidiano das convivências Escolares pede novas formas de intervenção.

Apontaremos algumas reflexões da Educação para a paz nas Escolas. Antes, é importante reafirmar que a Educação não se limita mais à mera instrução. No século 21, a única Educação possível é aquela que entende o Aluno como ser humano, com suas possibilidades, limites, diferentes realidades e suas contradições.

Nesse contexto, crescem os projetos relacionados à Educação para a paz nas instituições Escolares. Tais projetos têm alguns pontos a destacar. Primeiro, são considerados como um “tema transversal”, ou seja, não são fragmentados em uma “aula” de paz. É um movimento da Escola, pensado desde a equipe de gestão, explicitado no projeto pedagógico, declarando que a Escola, dentro da comunidade, assume o desafio do enfrentamento às violências, valorizando as convivências, entendendo que as relações humanas são essenciais para o aprendizado curricular e dos elementos da Educação integral, como cidadania crítica, ética, solidariedade e respeito.

O segundo ponto dos projetos de Educação para a paz é o foco em uma pedagogia dos valores humanos. As relações não violentas dependem de valores de convivência sólidos, claros e construídos no coletivo. Insistimos que não basta falar de valores, é necessário vivê-los no cotidiano da Escola. Valores universais precisam ser refletidos e dialogados no dia a dia e não tomados como “cartilha”. Construir ou reconstruir valores é fundamental.

Aliás, o diálogo é o elemento chave que mostra a terceira dimensão da Educação para a paz nas Escolas, que é o entendimento pedagógico do conflito. Se conflitos são inerentes às relações humanas, entendidos como espaço onde pessoas ou grupos têm perspectivas diferentes, podemos dizer que os conflitos são traços marcantes das instituições educacionais, devido à diversidade da sociedade. Em Educação, os conflitos precisam ser pensados como oportunidades de crescimento. Assim, práticas restaurativas e mediação de conflitos passam a figurar na agenda educacional atual.

Igualmente importante, o quarto ponto é entender que projetos de Educação para a paz não podem ser pensados apenas como o contrário às violências maiores na Escola. É um erro supor a Educação para a paz como antídoto milagroso para a violência, assim como outro erro é acreditar que desenhar pombinhas brancas e cantar belas músicas algumas vezes ao ano terão algum efeito. Paz não é o apenas o contrário de guerra ou de violência agressiva. Paz é o fortalecimento de situações positivas e saudáveis de convivência, expressa por uma civilização educada, crítica e consciente, que aos poucos substitui situações não desejadas por valores e atitudes desejadas, ou seja, mais respeitosas, solidárias, responsáveis – em uma palavra, humanas.

Se a humanidade foi tão fecunda para aprender tantas formas de violência, podemos aprender igualmente a não violência. As instituições educacionais são muito importantes nesse caminho!

Mestrado em audiovisual

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) informou que estão abertas, até o dia 31 de agosto, as inscrições para o concurso de  seleção de bolsistas para a realização de mestrado nos Estados Unidos na área de produção cinematográfica, com vistas à formação de roteiristas (2015-2016), denominado Master of Fine Arts (MFA).

Acesse o edital nº 45/2014

Aqueles que cumprirem os requisitos descritos no edital tem até a data limite para enviar os documentos necessários. Serão concedidas até três bolsas de estudo com duração de até dois anos. Os selecionados receberão mensalidade, anuidade e taxas acadêmicas da universidade norte-americana, auxílio seguro-saúde e deslocamento. O resultado está previsto para ser divulgado em outubro deste ano e o início das atividades nos EUA em agosto e setembro de 2015.