Direitos, valores e sociedade

Por Marcus Tavares

A liberdade de expressão está garantida na Constituição, assim como o acesso à informação. Mas não se tratam apenas de direitos que devem ser garantidos pelo Estado. É dever de toda a sociedade lutar, defender e reivindicá-los. Esta é a bandeira da organização Artigo 19, que está presente em vários países. No Brasil, o escritório fica em São Paulo. A revistapontocom conversou com Camila Marques e Karina Quintanilha, advogadas do Centro de Referência Legal, da Artigo 19.

Na entrevista que segue, elas explicam os desafios que o Brasil enfrenta para alcançar a ‘liberdade de expressão’. Mostram que, em alguns casos, é necessário encontrar um equilíbrio entre a liberdade de expressão e outros direitos, como o que defende as crianças. Falam também de dois temas polêmicos que envolvem a infância e a liberdade de expressão: a classificação indicativa e a propaganda abusiva. Segundo elas, a publicidade abusiva é toda aquela que se aproveita da vulnerabilidade do consumidor ou que viole valores sociais e morais do mesmo.

“Mesmo que se admita a existência de uma “liberdade de expressão publicitária”, é necessário primeiro avaliar os interesses da sociedade e verificar o que é mais importante: veicular a publicidade, garantindo a liberdade de expressão, ou proteger outros direitos e valores que podem ser prejudicados por ela. O que se busca ao regular a publicidade não é impedir seu exercício legítimo, mas definir parâmetros que estejam de acordo com os valores da sociedade. Quem deve definir os limites da regulamentação é, portanto, a própria sociedade, de maneira participativa e democrática, e não os publicitários e anunciantes isoladamente”, destacam as advogadas.

Acompanhe:

Camila Marques Karina Quintanilha revistapontocom – Qual é o objetivo da organização Artigo 19?
Camila Marques e Karina Quintanilha – A artigo 19 trabalha para que todos e todas, em qualquer lugar, possam se expressar de forma livre, acessar informação e desfrutar de liberdade de imprensa. Compreendemos que a liberdade de expressão está baseada em um tripé: direito de se pronunciar, liberdade de imprensa e direito de saber. Nesse sentido, o principal objetivo da organização é proteger e promover o direito à liberdade de expressão e acesso à informação, previstos pelo artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Este é o motivo para adoção do referido artigo como nome da organização. Para a Artigo 19, o acesso à informação é o oxigênio da democracia.

revistapontocom – A criação da Artigo 19 é uma prova de que a liberdade de expressão ainda não é um direito?
Camila Marques e Karina Quintanilha – A existência de uma organização de direitos humanos como a Artigo 19 comprova que a garantia desses direitos pelo Estado não depende apenas de previsão legal, mas também de políticas públicas efetivas construídas de forma participativa com a sociedade. Assim, podemos afirmar que a liberdade de expressão, sem dúvida, é um direito fruto da luta histórica da sociedade por direitos, porém cabe a todos e todas exercer o controle social do Estado para cobrar que esse direito seja efetivado de forma igualitária na sociedade.

revistapontocom – Quais são os desafios para se alcançar o pleno exercício da liberdade de expressão, nos três eixos citados: o direito de se pronunciar, liberdade de imprensa e o direito de saber?
Camila Marques e Karina Quintanilha – Para a Artigo 19, esses três eixos estão interligados, de forma que o pleno exercício da liberdade de expressão somente poderá ocorrer quando esse tripé – buscar, receber e difundir informações e ideias – esteja garantido. No Brasil, dentre os principais desafios para a realização plena da liberdade de expressão podemos citar: as barreiras impostas ao acesso à informação pública; violência contra jornalistas, comunicadores e defensores de direitos humanos; violência estatal e criminalização de protestantes; censura e vigilantismo na internet; a ausência de regulamentação e fiscalização para estimular o pluralismo e diversidade na mídia além de coibir o monopólio dos meios de comunicação e a apropriação desses meios por políticos; a criminalização dos meios comunitários de comunicação decorrente da ineficiência do Estado em garantir as outorgas; sanções criminais ou civis abusivas e desproporcionais por difamação contra aqueles que levantam a sua voz para denunciar violações a direitos humanos; acesso limitado à internet por grupos vulneráveis.

revistapontocom – Dos três direitos, talvez o que trata da liberdade de imprensa seja o mais conhecido, pois volta e meia entra no discurso das grandes corporações de mídia. Os outros: o direito de saber e o de pronunciar parecem que estão ligados mais ao cidadão e são poucos conhecidos. Correto?
Camila Marques e Karina Quintanilha – Como mencionamos anteriormente, tratam-se de dimensões diferentes da liberdade de expressão, mas que estão intrinsecamente ligadas entre si. Pode-se dizer que houve uma evolução na concepção da liberdade de expressão. Assim, a interpretação contemporânea desse direito mostra que a liberdade de expressão vai além de um direito individual, pois implica no reconhecimento da dimensão coletiva desse direito, já que toda a sociedade tem o direito de difundir, receber e propagar informações e ideias num ambiente de pluralismo e diversidade. Dessa forma, superamos a interpretação tradicional desse direito que implicava no entendimento de que liberdade de expressão significava apenas o direito de cada um dizer o que “lhe vier a mente” sem nenhum tipo de restrição. A concepção contemporânea da liberdade de expressão mostra que existe uma dimensão individual e coletiva desse direito, já que o direito de receber informações de fontes diversas e variadas está embutido na liberdade de expressão enquanto cidadão e cidadã. Além disso, ainda existe o direito de todos nós de ter acesso aos meios necessários para difundir qualquer tipo de expressão que tenhamos interesse em difundir. Infelizmente, o desconhecimento sobre esses aspectos da liberdade de expressão é uma realidade. Acreditamos que isso ocorre, principalmente, pois existe uma omissão do Estado em desenvolver políticas públicas que incentivem a disseminação de informações e educação sobre os direitos humanos.

revistapontocom – Se os cidadãos adultos muitas vezes não têm noção de tais direitos, o que dirá a infância ou a juventude. Pelo que vocês observam no dia a dia, crianças e adolescentes são considerados cidadãos com menos direitos?
Camila Marques e Karina Quintanilha – Realmente seria muito importante que o Estado se preocupasse desde os primórdios da educação infantil com a garantia desses direitos e a educação em direitos humano. Isso não quer dizer que crianças e adolescentes são considerados cidadãos com menos direitos, muito pelo contrário, as diversas legislações protetivas dos direitos das crianças e adolescentes mostram que existe um reconhecimento da sociedade da necessidade de garantir proteção especial para esse grupo.

revistapontocom – Há algum trabalho específico de vocês para crianças e adolescentes?
Camila Marques e Karina Quintanilha – A Artigo 19 acompanha desde os primórdios a discussão sobre a classificação indicativa no Conselho Nacional de Comunicação. Sobre esse assunto, apresentou Amicus Curiae – espécie de parecer jurídico – no Supremo Tribunal Federal (STF) para defender a constitucionalidade da classificação indicativa. Estamos envolvidos com algumas iniciativas no que diz respeito às medidas de proteção da criança e do adolescente frente aos conteúdos abusivos e violentos veiculados nos meios de comunicação. Recentemente acompanhamos as discussões decorrentes da Resolução 163 do Conanda a fim de mostrar que existem limitações legítimas à liberdade de expressão, como é o caso da limitação da publicidade comercial para proteger o direito das crianças e adolescentes.

revistapontocom – No Brasil, qualquer tipo de ação política e ou política pública que tente de alguma forma regular qualquer questão frente às crianças e aos adolescentes (por exemplo, a questão da classificação indicativa, como vocês mencionaram) é associada à censura e consequentemente à violação da liberdade de imprensa. Por que isto acontece?
Camila Marques e Karina Quintanilha – Não se trata apenas de um fenômeno nacional. A regulamentação da mídia é tema de grande debate e resistência por parte das grandes corporações em todo o mundo. No Brasil, a questão é ainda mais complicada devido ao histórico monopólio dos meios de comunicação que favorece economicamente e politicamente os setores comerciais. Esses setores fazem uso do argumento da censura para convencer a opinião de pública de que a regulamentação da mídia restringiria a liberdade de imprensa. Ocorre, no entanto, que o Brasil é um dos mais atrasados nessa questão e toda a população sofre com ausência de parâmetros claros para garantir que não haja monopólio na mídia e para que existam políticas públicas que garantam espaço para grupos minoritários e independentes nos meios de comunicação. A política de classificação indicativa, por exemplo, que está sendo implementada no Brasil, tem sido elogiada por outros países como um modelo de regulamentação de acordo com os padrões internacionais de proteção às crianças e liberdade de expressão. No entanto, essa política que tem como finalidade proteger as crianças de conteúdos ofensivos ou prejudiciais a sua integridade psíquica e formação intelectual está sendo contestada nesse momento no STF sob a alegação de que se trata de uma limitação ao direito à liberdade de expressão, apesar da Constituição Federal deixar claro a necessidade da proteção da criança e adolescentes a conteúdos veiculados na mídia. Quatro ministros do STF já se posicionaram contra a política de classificação indicativa em atendimento aos argumentos apresentados pelo setor comercial que tem interesse em veicular a sua programação sem nenhuma restrição de horário. Recentemente o processo entrou para a pauta de julgamento e caso não haja forte mobilização e pressão por parte da sociedade civil corremos sérios riscos de ver deslegitimada a política pública de classificação indicativa, o que representaria uma enorme perda para aqueles que lutam por uma regulamentação dos meios de comunicação em favor de maior pluralismo e diversidade na mídia de acordo com padrões internacionais que equilibrem o direito à liberdade de expressão frente a outros direitos como é o caso das crianças.

revistapontocom – Essa mesma discussão dos interesses comerciais também está presente na questão da publicidade, não é mesmo? Recentemente, o Conanda aprovou a resolução 163 que recomenda o fim da publicidade abusiva direcionada às crianças e o setor vinculou, novamente, à censura.
Camila Marques e Karina Quintanilha – A publicidade é uma prática comercial, destinada a promover a venda. Para isso, ultrapassa o discurso informativo e entra no campo da persuasão. Ao estimular o consumo por meio do convencimento, o discurso publicitário tem o poder de interferir na saúde, na segurança, na definição de valores culturais e educacionais de uma sociedade e de cada indivíduo, incluindo a formação de crenças e valores das crianças. Se uma sociedade está preocupada com o tipo de influência que a publicidade pode exercer na formação de valores e no exercício de outros direitos, regulamentá-la é perfeitamente legítimo. Ao proteger a opinião e a livre expressão do pensamento, a Constituição Federal teve a intenção de garantir a manifestação de ideias e convicções individuais ou da coletividade, mesmo que estas possam causar incômodo. Publicidade não se trata disso: seu fim não é expressar uma convicção ou uma informação, mas vender. O titular da liberdade de expressão como direito fundamental é sempre o indivíduo ou a coletividade, não as empresas. Publicidade abusiva é toda aquela que se aproveite da vulnerabilidade do consumidor ou que viole valores sociais e morais do mesmo. Nesse sentido, para analisar se a regulamentação da publicidade é legítima, é preciso ver se há interesse público em proteger outros direitos que podem ser colocados em risco pelo discurso publicitário. Mesmo que se admita a existência de uma “liberdade de expressão publicitária”, é necessário primeiro avaliar os interesses da sociedade e verificar o que é mais importante: veicular a publicidade, garantindo a liberdade de expressão, ou proteger outros direitos e valores que podem ser prejudicados por ela. O que se busca ao regular a publicidade não é impedir seu exercício legítimo, mas definir parâmetros que estejam de acordo com os valores da sociedade. Quem deve definir os limites da regulamentação é, portanto, a própria sociedade, de maneira participativa e democrática, e não os publicitários e anunciantes isoladamente. O discurso da liberdade de imprensa pode ser superado através de argumentos que mostram que o possível “dano” causado por programação veiculada em faixa inadequada ou publicidade comercial direcionada a crianças é potencialmente reforçado por quatro problemas: ele é provável (possivelmente com frequência diária), de grande impacto (trata-se de meios de comunicação de penetração nacional), de difícil mensuração imediata de efeitos e de difícil reparação posterior. Ainda, o direito nacional e internacional protege a integridade física e psíquica de crianças e adolescentes o que inclui a garantia do bem-estar social desses indivíduos que estão em plena formação e devem ser tratados pelo Estado e sociedade com especial cuidado e atenção para a defesa de sua saúde, segurança, valores culturais e educacionais, e não como um mercado consumidor em potencial. Por fim, vale reforçar que os titulares do direito à liberdade de expressão são sempre os próprios indivíduos ou a coletividade e não as empresas.

revistapontocom – No mundo de hoje, os ‘direitos de expressão’ são direitos de poucos?
Camila Marques e Karina Quintanilha – O direito à liberdade de expressão legalmente constituído é de todos e todas, porém o que vemos na prática é que poucas pessoas têm acesso aos meios que permitem a apropriação desse direito e, principalmente, grupos minoritários e vulneráveis acabam sofrendo censura e até mesmo violência quando buscam fazer uso da liberdade de expressão para manifestar as suas demandas ou reivindicar outros direitos.

Aventuras do avião vermelho

Estreia nesta quinta-feira (dia 11) o longa animado As aventuras do avião vermelho, de Frederico  Pinto e José Maia. Inspirada no clássico escrito por Érico Veríssimo, a obra conta a história de Fernandinho, um menino de 8 anos, que perdeu a mãe há pouco tempo, tornando-se um garoto solitário, sem amigos e com problemas de relacionamento com o pai e na escola.

Sem saber como lidar com a situação, o pai tenta conquistá-lo com presentes. Nada funciona até que ele dá para o filho um livro de sua infância. Encantado com a história, Fernandinho decide que precisa de um avião para salvar o Capitão Tormenta – aviador personagem do livro, que está preso no Kamchatka.

A bordo do Avião Vermelho e com seus brinquedos favoritos, Ursinho e Chocolate, que ganham a vida com sua imaginação, Fernandinho visita lugares inusitados, como a Lua e o fundo do mar, e percorre diferentes territórios – África, China, Índia, Rússia. Ao longo da jornada, Fernandinho descobre o prazer da leitura, a importância de ter amigos e o amor do pai.

Em entrevista à Folhinha, suplemento infantil do jornal Folha de S. Paulo, o diretor Frederico explica que a animação foi feita com lápis e papel. Cada segundo do filme é composto por 12 desenhos, que colocados em sequência dão ideia de movimento. Foram produzidas 50 mil ilustrações para produzir o animação. “Tentamos fugir do 3D, mostrar que é possível contar histórias com outras técnicas”.

Aula de inglês na tela

Aprender e desenvolver o vocabulário da Língua Inglesa. Na Escola Técnica Cícero Dias – NAVE, em Recife, as aulas do 3º ano do Ensino Médio não são de cuspe e giz. Pelo contrário, a ideia é estudar a língua estrangeira por meio da produção de curta metragens. Batizado com o nome Cicito de Ouro, o projeto surgiu no ano passado, fruto de uma parceria entre a professora da disciplina, Maruska Lacet, e o Departamento de Mídiaeducação da escola, que auxilia professores e desenvolve propostas na interface da mídia e educação.

Neste ano, o projeto ganhou mais ‘adeptos’. Os professores de Sociologia, História, Filosofia e Arte também participaram da elaboração dos roteiros dos curtas. Escolheram uma temática única: os jovens e seus conflitos. Divididos em grupos, as turmas produziram seis curtas.

“Os alunos se reuniram nos horários das aulas de Língua Inglesa para criar o roteiro. Concluída esta primeira etapa – e com um diário de bordo a mão – os ensaios começaram. Em seguida, vieram as filmagens e a edição, todos baseados num cronograma previamente estabelecido”, conta Maruska Lacet.

A produção envolveu 135 estudantes. Foi realizada em dois meses. “Tivemos a oportunidade de desenvolver diversas competências, como o planejamento, o cumprimento de metas e o trabalho interdisciplinar. Ter o nosso esforço reconhecido foi maravilhoso. E a emoção de saber que conseguimos transmitir nossa mensagem ao público foi extraordinária”, destacou o estudante Wulry Wagner.

Para o seu colega, Arthur Lira, o processo foi bastante trabalhoso, mas gratificante. “Depois da divisão dos grupos, foi iniciado o processo de criação de roteiro. Discutimos os figurinos, os cenários. Fomos à procura de locações, de atores e dos integrantes que ficariam responsáveis pela filmagem. Depois de um longo processo de produção e edição, o curta ficou pronto. Foi nessa hora, vendo tudo completo, que percebi como o trabalho é gratificante, mesmo com todas as brigas, surpresas e desavenças. Terminamos com um excelente curta que ganhou quarto prêmios. Esse foi um dos projetos que eu mais me dediquei, e com certeza, o que mais gostei de fazer”, destacou.

Veja os curtas premiados:

À procura de elogios

Da BBC Brasil

Ana Paula acaba de postar uma “selfie” clássica no Instagram: close no rosto, óculos escuros, sorrisão e dedos em riste com um “V de Vitória”. Resultado imediato: 101 curtidas e dezenas de comentários – “linda”, “diva”, “gata”, “musa”, “top”. Mas a boa repercussão não é fruto do ângulo escolhido em seu smartphone. A jovem está entre os milhões de brasileiros afeitos à autopromoção baseada em trocas nas redes sociais e acaba de aderir a uma novidade entre os usuários: a hashtag #trocoelogios.

A dinâmica é simples: Paula e seus amigos passam horas de seu dia comentando fotos de figuras populares, como Neymar, Valesca Popozuda e Mc Guimé. Por meio de hashtags, clamam por curtidas de outros usuários em suas publicações, prometem retribuí-las e, agora, também negociam frases positivas com quem elogia suas caras e bocas. A meta é acumular o maior número possível de interações positivas e “atestar” sua popularidade online.

O que isto significa? A alma do negócio nas redes sociais, dizem especialistas, chama-se “capital social”. O termo indica que a relevância digital de alguém será maior conforme a quantidade de curtidas e a qualidade dos comentários que ela arrecadar na internet.

É esta a corrida que leva Ana Paula e outros jovens a transformarem a visibilidade de seus ídolos em escada para a própria fama digital. Sempre de carona em perfis famosos, brasileiros já compartilharam mais de cinco milhões de vezes hashtags como #trocolikes e #sigodevolta só no Instagram.

Novidade, o escambo de adjetivos por meio da hashtag #trocoelogios vem rendendo variações curiosas, como #trocoelogiosinceros, #trocoelogiosnaultimafoto e #trocoelogiosnasduasultimas.

Fórmula fast food

Mutante a cada dia, o cardápio de estratégias para a multiplicação de fãs e curtidas lembra a fórmula “Peça pelo número” das redes de fastfood. São populares hashtags como #trocolikes10, #trocolikes20 e #trocolikes30: a numeralha indica o número de fotos que receberá curtidas caso o interlocutor cumpra o trato e retribua o “favor” da repercussão artificial de postagens.

“Peço elogios só para interagir com outros usuários do Instagram”, disse ao #SalaSocial a estudante Larissa, 16 anos, mais de 600 seguidores na rede – boa parte deles “negociada” por meio da sigla #SDV (ou “sigo de volta”). Larissa não vê problemas com a prática dos “elogios combinados”. “Eu gosto (de ver minhas fotos repercutindo). Acho normal.”

Recompensas

“Há estudos consolidados mostrando que a maneira como nós produzimos conteúdo nas redes sociais é regida por um sistema de recompensas”, explica Ana Freitas, especialista em tendências e comportamento em ambientes digitais. “Hoje posta-se assuntos pensando primeiro em popularidade e repercussão, e depois no conteúdo propriamente dito.”

Para Freitas, o fenômeno apenas reproduz no meio online aquilo que sempre aconteceu nas ruas, escolas ou encontros familiares. “As redes sociais são hoje um dos principais espaços de interação da molecada hoje em dia. A velha necessidade de ser aceito em diferentes grupos se mantém, só que agora no ambiente digital.”

Mas os “caça-likes” podem ser uma pedra no sapato para CEOs e executivos do Instagram, Facebook e Twitter. “Eles têm que quebrar a cabeça, né? Algoritmos existem para indicar quais conteúdos são mais importantes e quais são menos. Quando se subverte isso com pedidos de elogios ou likes, o algoritmo falha e dá visibilidade a tópicos que a princípio não mereceriam”, explica. “Daí a necessidade de uma ginástica para que estes serviços voltem a atribuir valor àquilo que circula por aí.”

Crianças atarefadas

Crianças atarefadas, jovens  deprimidos

Por  Michele Müller
Jornalista com especialização em neurociências

A depressão chega cedo e numa incidência cada vez maior. É hoje a causa principal de incapacidade entre adolescentes, segundo dados de 2014 da Organização Mundial da Saúde. O constante aumento de sintomas de distúrbios mentais nessa fase da vida foi comprovado recentemente em uma meta pesquisa envolvendo 6,9 milhões de jovens americanos. Psicólogos da Universidade de San Diego constataram que, com relação aos estudantes da década de 80, hoje os jovens apresentam 75% mais distúrbios de sono e 38% mais problemas de memória – manifestações que servem como um alerta para a saúde mental.

Uma das autoras do estudo, a pesquisadora Jean Twenge já havia concluído em outra análise divulgada em 2009, que o aumento da incidência de problemas psicológicos entre adolescentes vem crescendo de forma constante desde a década de 30. Autora de diversos livros de psicologia – entre eles o Generation Me (Geração Eu), sobre o comportamento dos jovens do século 21 – ela constatou que os estudantes hoje são mais instáveis e sentem-se muito mais isolados e insatisfeitos com a vida que as gerações de seus pais e avós.

Na análise de Twenge, esse declínio na saúde mental dos jovens é uma resposta ao crescimento da valorização do consumo e à busca quase obsessiva da sociedade atual pelo sucesso. Diante de objetivos de vida extrínsecos, que dependem do ganho financeiro e material, e cada vez mais longe dos intrínsecos, relacionados ao desenvolvimento pessoal e espiritual, os jovens sentem que têm menos controle sobre a própria vida. E o que seria a ansiedade, essa famosa vilã da saúde mental, se não a sensação de ter pouco domínio sobre o destino?

A fragilização da saúde mental, resistindo a tantos novos tratamentos que surgem no mercado, é certamente um reflexo de grandes mudanças ambientais; e o materialismo valorizado desde a infância é, sem dúvida, um deles. Mas o professor do Boston College e pesquisador em ciências biológicas Peter Gray, autor de Free to Learn (Livre Para Aprender) e Psychology (Psicologia), analisou a questão sob outro espectro. Investigador das raízes biológicas e antropológicas da educação, percebeu que a atividade mais importante da infância encontra-se em constante declínio nas últimas décadas – desde que o nível de ansiedade dos jovens começou a subir. Segundo ele, as crianças hoje têm muito menos tempo para brincar livremente que a geração anterior. E seus pais já tiveram menos que seus avós.

Esse tempo vem sendo preenchido com mais estudo, quantidade maior de lição de casa e atividades extra curriculares coordenadas por adultos, sem falar na televisão e, mais recentemente, nos jogos eletrônicos. A obsessão pelo sucesso levou os pais a valorizar cada vez mais as notas e avaliações, incentivar a competitividade e pressionar a criança a aprender cada vez mais em menos tempo. As escolas têm mais dias letivos e até mesmo o tempo médio de recreio vem diminuindo, sendo que muitas oferecem atividades assistidas com o intuito de “aproveitar melhor” o tempo livre das crianças.

Sem a liberdade de explorar o mundo sozinhas, longe da supervisão e julgamento do adulto, elas são privadas do meio mais eficaz que a natureza lhes deu de aprender e de praticar o autocontrole. Ao brincar independentemente, crianças fazem escolhas e vivem suas consequências, aprendem a criar e a seguir regras, resolvem seus próprios problemas e são constantemente desafiadas a segurar seus impulsos e a controlar seus medos. Sem a intervenção de um adulto, não existe método mais eficaz que a brincadeira para aprender a negociar com outros, a se defender de injustiças e a controlar a ira.

“Brincar é o meio primário para praticar e desenvolver habilidades sociais e cognitivas que são fundamentais para seu sucesso na cultura em que as crianças inseridas. Nada que fazemos, nenhum brinquedo, nenhum ´tempo de qualidade´ com os filhos, nenhuma atividade especial pode compensar a liberdade para brincar que estamos tirando das crianças. O que elas aprendem por meio de suas próprias iniciativas não pode ser ensinado de outra forma”, salienta Gray, em seu livro Free To Learn.

Existe uma necessidade maior de se preocupar com a segurança e hoje elas já não brincam nas ruas com independência. Somado a isso está o fato de que os adultos vêm perdendo a confiança nas próprias crianças. Com menos filhos e mais protetores que nunca, pais hoje controlam de perto as brincadeiras, privando-os de qualquer perigo de uma forma exagerada. Crianças são julgadas como irresponsáveis e incompetentes e, em nome da segurança, são privadas de desenvolver coragem e autoconfiança. “Perdemos de vista a maneira natural de criar os filhos”, lamenta o pesquisador.

Com menos tempo para praticar as capacidades que só a brincadeira livre desenvolve, os adolescentes estão despreparados para a independência e começam a viver as consequências da falta de empatia, incapacidade de lidar com conflitos e sentimento de pouco controle sobre o próprio destino. Fraquezas que podem comprometer a saúde mental e que hoje praticamente definem a geração que está deixando a infância.

Déficit de atenção?

Por Marcela Picanço
Atriz e roteirista

Alguns dados apontam que nos últimos anos os casos de Déficit de Atenção triplicaram entre nossas crianças. Eu estou entre uma dessas crianças. Com uns treze anos comecei a tomar um remédio com tarja preta chamado Ritalina, que pra mim, de fato fazia uma diferença enorme. Quando eu era criança fui chamada várias vezes de hiperativa, desconcentrada. Meus professores adoravam falar como eu me dispersava rápido. Engraçado, continuo assim, mas hoje tento usar isso ao meu favor. O remédio vai soltando doses ao longo do dia e pode durar até 8 horas. Tomava antes de ir para escola e ficar ligada na aula. Nunca fui boa em matemática, física, química, mas me esforçava o bastante pra não ficar de recuperação. Lembro que eu achava que o remédio fazia uma diferença significativa na hora de fazer uma prova. Eu realmente me transformava, durante 8 horas, em uma pessoa mais focada. O déficit de atenção é mais comum do que se imagina.

Assim que entrei na faculdade resolvi largar o remédio. Fui percebendo, ao longo dos anos, que eu não precisava dele para escrever uma boa redação, ou pra ler um livro que eu gostava, nem pra fazer prova de história. Não precisei do remédio para decorar um dos meus primeiros textos de teatro. Eu nem tomava o remédio pra ir pra aula de teatro e eu era uma pessoa igualmente focada nessas aulas. Foi aí que minha mãe resolveu perguntar à minha médica por que eu ficava concentrada nas coisas que eu gostava de fazer. Ela disse que isso era normal. Nas áreas que eu tinha mais habilidade, os sintomas não apareciam de modo que me atrapalhassem. Que doença engraçada, né? Mal do século, eu diria. A nossa sociedade está criando doenças para quem estiver fora do padrão de comportamento esperado.

Então, vi que o problema não estava em mim e nem na maioria das crianças que precisa tomar um remédio para entrar num padrão social. O problema está no nosso ensino totalmente precário, que se preocupa mais se o aluno vai passar em medicina do que se ele será um bom cidadão.É claro que em alguns casos específicos, o uso da Ritalina é de extrema importância e eficácia, mas acredito que, na maioria das vezes, o Déficit de atenção poderia ser tratado de outras formas. Estudei minha vida toda numa escola diferente, que se importava com a cabeça dos seus alunos e valorizava o que eles tinham de melhor, incentivando a arte, o esporte e a ciência. Lembro que as notas eram dividias em 40% de provas e os outros 60% eram de comportamento. Se você soubesse lidar bem com um grupo, participasse da aula, fosse educado e responsável, já era o suficiente pra passar de ano. E ninguém deixava de estudar, afinal queríamos ter notas boas. Depois fui pra uma escola que tinham tantos alunos que os professores não conseguiam gravar o nome nem dá metade deles. Nunca mais falamos em preconceito ou direitos humanos. Nunca mais falamos sobre ler livros sem ser por obrigação. Depois, mais tarde, os professores reclamavam que líamos pouco, mas como, se tínhamos tão pouco incentivo? Lembro que na minha outra escola ganhei gosto pela leitura quando eu ainda era bem pequena. Devorava livros e mais livros, afinal a gente tinha uma aula só de leitura.

Me mudei para essa nova escola porque eu precisava passar no vestibular, mas eu não via sentido nenhum em nada daquilo. Fui me sentindo cada vez mais idiota porque eu não conseguia ir bem em nenhuma matéria de exatas, mas falaram que pra passar no vestibular era preciso saber mais exatas do que humanas. Aumentei a dose do remédio Ritalina pra poder ficar pelo menos na média. Fico pensando quantas crianças vão ter que se sentir burras e diferentes e tomar um remédio tarja preta pra ficar na média na escola, pra ficar na média na vida, pra ser sempre medíocre porque a educação não nos dá a oportunidade de sermos brilhantes. No ensino médio os adolescentes são constantemente comparados, como em uma empresa, para que haja desde cedo um espirito de competição. Infelizmente essa competição é completamente injusta, pois as pessoas têm habilidades diferentes. Como já disse Albert Einstein “Todo mundo é um gênio, mas se você julgar um peixe por sua capacidade de subir em árvores, ele passará sua vida inteira acreditando ser estúpido” e é exatamente isso que nosso ensino faz.

A qualidade de uma escola é medida pelo número de aprovações que seus alunos têm no vestibular e não pela pessoa que ela está formando para o mundo. Como queremos ter profissionais mais dedicados se, desde pequenos, somos ensinados que se importar com o outro não é o que importa, mas sim ser sempre melhor que todo mundo? Infelizmente, nossa educação forma pessoas cada vez mais quadradas, que pensam dentro de uma caixinha. Não se permitem ir atrás das informações e nem na melhor forma de resolver problemas. As aulas de artes são totalmente técnicas e insuportáveis. Não nos dão oportunidade de sermos realmente quem queremos ser e crescemos adultos chatos, controladores e depressivos.

Infelizmente nosso comportamento é resultado da educação que tivemos e isso só vai mudar quando todas as áreas foram igualmente valorizadas nas escolas e entre os alunos. Cada vez teremos mais crianças com déficit de atenção. Principalmente agora com a tecnologia, que todas elas podem ter acesso rápido a tudo. Por que elas ficariam prestando atenção em uma aula chata? Por que elas ficariam prestando atenção em algo que elas podem aprender em um segundo procurando no Google? O nosso sistema educacional precisa mudar rapidamente, pois não podemos achar que o ensino pode continuar o mesmo de 20 anos atrás, onde não existia tanta informação com facilidade. As crianças estão perdendo o interesse na escola. Elas estão vendo o mundo de possibilidades que existe ao redor delas, vendo tudo que elas podem criar e transformar e os colégios continuam insistindo naquele velho formato. Todas as pessoas têm uma genialidade, mas o mundo insiste, por algum motivo que sejamos medíocres, dentro de um padrão. Não valorizam o aluno bagunceiro, nem o que vive no mundo da lua. Esses que no futuro provavelmente serão os adultos mais criativos. A nossa educação mata a nossa criatividade. Na escola não temos nenhuma oportunidade de nos mostrar e nem de crescer intelectualmente, pois quanto mais velhos ficamos, taxam de ridículo aquilo que fazemos de diferente, mas que se for estimulado, poderia ser genial. É triste a situação em que vivemos, mas já foram inauguradas escolas com uma proposta totalmente diferente de ensino, onde as matérias não são separadas, mas são aprendidas juntas, como se fosse uma só. Os alunos também não são separados por turmas de acordo com a idade, mas sim por habilidades que os alunos apresentam. Espero que esse realmente seja o futuro do nosso ensino e que não criemos mais doenças para fazer as crianças se sentirem anormais. “Somos todos folhas da mesma árvore”, esse era o lema da minha primeira escola. Ainda bem que aprendi assim.

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Contadores de histórias

Era uma vez um grupo de alunos incríveis da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Num belo dia esses alunos foram convidados para participar de um super projeto que salvaria o dia de muitas crianças. Com seus jalecos coloridos e suas sacolas repletas de livros infantis, esses super heróis chegam diariamente no hospital para transformar as fábulas e os contos de fadas em realidade para muitas crianças.

Desde 2008 o Projeto Alunos Contadores de Histórias/UFRJ tem ajudado a desenvolver um espaço que promove alegria e conhecimento, incentivando o hábito da leitura e ajudando a amenizar o sofrimento das crianças e adolescentes atendidas pelo Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira (IPPMG/UFRJ). Após o treinamento, o aluno dedica duas horas semanais, durante seis meses, à atividade de “contação” de histórias. Como as vagas são limitadas, divididas proporcionalmente entre os diversos cursos da universidade.

Uma nova turma será formada no próximo semestre. Quem é aluno da UFRJ e quiser fazer parte do projeto deve se inscrever. Nesta fase inicial, a inscrição garante uma vaga na palestra do dia 28/02/2015. A presença neste dia é obrigatória para continuar concorrendo às vagas do projeto. As inscrições para a palestra, que será realizada no campus do Fundão, podem ser feitas até 23h59 do dia 26/02/2015, no site http://inscricao.alunoscontadores.com.br/.

Autoavaliação

Por Marcus Tavares
Do site do Jornal O DIA

É fato: quando o ano termina, nós, professores, costumamos fazer uma autoavaliação mais profunda sobre o período. Afinal, qual foi o balanço? O saldo? Positivo ou negativo? Alcançamos nossos objetivos? Conseguimos promover o ensino e a aprendizagem? Quase sempre o fiel da balança tende a ficar para o lado positivo quando pensamos nos conteúdos, naqueles conhecimentos que apresentamos, mediamos e trabalhamos.

Mas o desafio maior, sem dúvida, são os valores, que, ao lado dos conhecimentos, são cada vez mais imprescindíveis de serem dialogados, vivenciados, experimentados e praticados na sala de aula – um microcosmo da sociedade. No complexo dia a dia em que vivemos, muitas vezes, tais valores são muito mais significativos do que os conteúdos disciplinares, de certa forma acessíveis a qualquer indivíduo com o advento das tecnologias digitais.

Praticar, vivenciar e experimentar valores como respeito, amizade, solidariedade, responsabilidade não são nada fáceis. Não gosto e não podemos rotular a geração atual – a complexidade e diversidade são tamanhas e heterogêneas – mas ela muitas vezes se apresenta na figura de jovens sabedores de seus direitos, mas descuidados de seus deveres. Talvez, isso aconteça, em parte, devido a todo um discurso de empoderamento desses adolescentes, que tudo podem e sabem. Não é bem assim. Esse empoderamento leva a uma confusão entre duas palavrinhas: autonomia e liberdade.

Certa vez li que autonomia é a liberdade comandada pela razão. Autonomia é obedecer ao mando da própria consciência, do autogoverno, sem desprender-se de uma ética, ou seja de limites, de ponderações. Em outras palavras é pensar no outro e refletir/medir as consequências, os impactos das ações.

Como instituição ainda presente e necessária, cabe à escola sistematizar e praticar tais valores. Um aprendizado que não começa e termina nela ou com ela. Pelo contrário. Mas que ganha intensidade e, sinceramente, muitas angústias. Às vezes, o sentimento é que pouco ou quase nada a escola contribuiu para esta reflexão. E, a meu ver, não que não tenha estabelecido estratégias e planejamentos, mas por um não entendimento/amadurecimento dos próprios estudantes. Coisas da idade? Pode ser. E se for, menos mal. Melhor acreditar assim para que, no próximo ano, possamos ampliar o diálogo.