Dia do Cordel

Da Revista Brasileiros

Comemora-se no dia 1º de agosto o Dia do Poeta do Cordel. Você sabe o que é a poesia de Cordel? Está aí uma boa oportunidade para conhecer esta arte tão rica e presente no Brasil. A Literatura de Cordel pode ser considerada uma das mais eficazes formas virais de se disseminar a literatura em tempos antigos. Presente na Península Ibérica desde o século XVI, os poemas, que eram expostos e comercializados em barbantes e cordéis (daí o nome), foram trazidos para o Brasil através dos portugueses e ganharam força inicialmente na Região Nordeste. Ali o formato se espalhou e ganhou novos estilos, sendo vendidos principalmente nos mercados e feiras populares.

Os temas dos versos e quadras, no Brasil, eram os mais variados, desde prosas cotidianas até feitos de personagens de nossa cultura popular, caso do cangaceiro Lampião, muitas vezes retratado nos poemas. Para celebrar a data, a Fundação Casa de Rui Barbosa mantém um  site dedicado ao tema. O acervo de literatura de cordel, com mais de 9.000 folhetos, está disponível na base de dados do portal da Fundação por meio de suas referências catalográficas, que podem ser consultadas por índices, como o de autor, título, assunto, local de publicação, editora/tipografia, data, gênero literatura de cordel.

Acesse o acervo

Deste total, cerca de 2.340 folhetos dos autores relacionados em poetas e cantadores, poderão ser acessados em versão digital, com suas versões originais e variantes. O site está inserido na seção conteúdos digitais deste portal. Podem ser consultadas também as biografias de poetas e a bibliografia sobre cordel disponível no acervo da Fundação, com 400 referências, dentre artigos, livros, recortes, teses e dissertações. O acesso é gratuito e livre, sem necessidade de inscrição on-line. O projeto tem o patrocínio da Petrobras e o apoio da Faperj.

Crianças e celulares

Usar a Internet todos os dias é um hábito comum a 81% das crianças e adolescentes brasileiros que possuem acesso à rede. Essa intensidade de uso, que registrou um crescimento de 18 pontos percentuais em relação a 2013, foi constatada na pesquisa TIC Kids Online Brasil 2014, conduzida pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), por meio do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br).

Veja a apresentação dos resultados

“O uso mais intenso da Internet por crianças e adolescentes deve ser comemorado, mas com ressalvas. Se por um lado, a rede é um ambiente que permite a ampla troca de conhecimento e proporciona as mais diversas oportunidades, também é um espaço que oferece riscos. É necessário que os jovens desenvolvam habilidades para o uso crítico e seguro da Internet”, considera Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br.

Realizada entre outubro de 2014 e fevereiro de 2015, a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2014 está baseada no referencial metodológico da rede europeia EU Kids Online, liderada pela London School of Economics. Foram entrevistadas 2.105 crianças e adolescentes usuários de Internet com idades entre 9 e 17 anos em todo o território nacional. O mesmo número de pais ou responsáveis dos jovens selecionados (2.105) foi entrevistado para identificar as experiências dos filhos como usuários de Internet.

Perfil de uso da Internet

Outro destaque da terceira edição da TIC Kids Online Brasil é a mobilidade: 82% das crianças e adolescentes afirmaram usar a Internet pelo celular. Em 2013, essa proporção era de 53%. O acesso à Internet por meio dos tablets segue em expansão: dos 2% registrados em 2012, subiu para 16% em 2013, e alcançou 32% em 2014. A sala ou espaço coletivo da casa ainda é o local de acesso mais comum (81%), seguido pelo próprio quarto (73%).

Riscos on-line e habilidades para o uso seguro da rede

A privacidade e proteção dos dados pessoais também foram analisadas pela pesquisa. Entre as crianças e adolescentes presentes nas redes sociais, 52% possuem perfis públicos, o que representa um crescimento de 10% em relação a 2013. No que diz respeito às habilidades para garantir a privacidade na Internet, 45% declaram saber desativar a função que mostra sua localização e apenas 28% afirmam saber mudar preferências de filtro.

A TIC Kids Online Brasil revela que, em relação ao cyberbullying, 15% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos reportaram ter sido tratados de forma ofensiva por alguma pessoa na Internet. Entre as crianças e adolescentes de 11 a 17 anos, 10% afirmaram que alguém utilizou informações pessoais de forma que as desagradou, enquanto 21% declararam ter recebido mensagens de ódio contra grupos de pessoas.

A divulgação da pesquisa acontece em paralelo ao lançamento da campanha “Internet sem Vacilo”, promovida pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância – Unicef, Google e Safernet, com a realização de debate e publicação de vídeos que buscam conscientizar sobre o uso seguro da rede. As ações também integram os eventos comemorativos aos 25 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente, celebrado no dia 13.

Para mais informações sobre a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2014, clique aqui.

Internet sem vacilo

Internet sem Vacilo é uma campanha online do Unicef para tornar a internet um ambiente mais seguro para adolescentes e jovens. Com humor e em comunicação direta com adolescentes, a campanha procura orientá-los para que usem a rede de forma criativa e consciente, minimizando riscos e aproveitando todo o potencial positivo das ferramentas digitais.

As peças da campanha contam com a ilustre participação de JoutJout e Pyong Lee, youtubers conhecidos do público juvenil. Com esta iniciativa, o Unicef convida youtubers, adolescentes e jovens a refletir sobre o seu comportamento online, discutir sobre os riscos e as oportunidades da internet para a sua vida, conhecer e divulgar as peças da campanha, produzir e compartilhar conteúdo inteligente e inovador, sem vacilo!

Como parte da ação, também foi lançado um concurso de vídeos e memes sobre os seguintes temas: cyberbullying (humilhação, ofensa e ameaça por meio da Internet) e sexting (troca de mensagens e imagens íntimas); privacidade; amizade e relacionamentos online; busca com segurança e preconceito e intolerância na rede.

Podem participar jovens de 15 a 25 anos que moram no Brasil. As peças devem contribuir para a reflexão sobre os riscos e oportunidades da internet na vida dos adolescentes e estimular meninas e meninos a adotar um comportamento positivo, inteligente e saudável na rede.

Leia o regulamento

As peças selecionadas serão divulgadas nas plataformas online do Unicef. Os autores das peças selecionadas participarão de uma visita à sede do Google Brasil em São Paulo e gravarão um programa no Youtube Space em São Paulo. Os custos com viagem e hospedagem são de responsabilidade do Unicef.

Para participar, crie um vídeo ou meme, publique nas redes sociais com a hashtag #InternetSemVacilo, marque a fanpage do UNICEF Brasil (se publicar no Facebook) e envie um link da peça publicada para o e-mail: comunicacao@unicef.org, com seus dados pessoais, até o dia 17 de agosto de 2015.

O concurso é individual e as peças devem ser inéditas. Você pode obter mais informações sobre os temas da campanha assistindo aos vídeos, vendo os memes, fazendo o quiz e lendo o guia Internet sem Vacilo, disponíveis no site: www.internetsemvacilo.org.br.

Faça parte do júri

Estão abertas as inscrições para assistir, votar e participar dos debates do comKids – Prix Jeunesse Iberoamericano 2015, que traz à cena produções audiovisuais e interativas de qualidade produzidas na América Latina, Ibero América e em países de língua portuguesa para o público infantojuvenil. A inscrição é gratuita e deve ser feita no site do comKids até o dia 8 de agosto.

O evento acontecerá entre os dias 17 e 21 de agosto, no Sesc Consolação e no Goethe-Institut em São Paulo. Podem se inscrever produtores, roteiristas, diretores, gestores culturais, educadores, desenvolvedores de mídias digitais, entre outros profissionais dedicados a pensar e trabalhar com as infâncias e as juventudes.

As categorias do Festival se dividem em: Audiovisuais e Interativas, as mesmas acolhem produções de televisão, cinema, apps e sites. As audiovisuais estão divididas em: até 6 anos ficção; até 6 anos não ficção; 7 a 11 anos ficção; 7 a 11 anos não ficção; 12 a 15 anos ficção; 12 a 15 anos não ficção.

A nova categoria audiovisual Conteúdos Curtos foi criada para atender produções de até 3 minutos e 59 segundos de duração. As categorias interativas receberão inscrições de apps e sites pensados especialmente para crianças e jovens. Elas visam atender ao crescente cenário de produções interativas que vêm trazendo produções interessantes, mesclando interatividade, educação, entretenimento e cultura para esse público.

Votação

Durante o Festival, os finalistas serão exibidos em sessões das categorias da competição. Logo após a exibição, haverá debate e votação para cada uma das categorias. O Festival é um espaço de premiação e também de formação, troca e criação de rede profissional. Todos os interessados em ver, participar dos debates e/ou votar devem fazer a inscrição no site até dia 8 de agosto.

Os primeiros lugares de cada uma das categorias receberão troféu, e os segundos e terceiros lugares vão ganhar certificado. Os primeiros lugares das categorias audiovisuais serão premiados com uma passagem para o Prix Jeunesse Internacional 2016 em Munique, na Alemanha. As categorias interativas e conteúdos curtos ganharão prêmio a ser informado em breve. Nessa edição do Festival, os conteúdos feitos por crianças foram acolhidos, serão exibidos em sessão especial e estão fora da competição.

Os 109 finalistas das categorias audiovisuais e interativas foram selecionados por um grupo de pré júri internacional e podem ser vistos aqui. Para se inscrever, acesse este link.

Câmera escondida

Do Observatório da Imprensa
Por Maura Oliveira Martins

Há um formato televisivo que, mesmo não sendo exatamente novo, tem sido bastante explorado em várias emissoras: os quadros jornalísticos (pois assim se anunciam) que, por meio de uma encenação feita por atores contratados, documentada por câmeras escondidas, buscam flagrar as reações de pessoas comuns frente a situações que supostamente testariam os valores morais destes indivíduos. Há, pelo menos, três quadros atualmente no ar que se sustentam nesta premissa: “Vai fazer o quê?”, do Fantástico, na Rede Globo, “Aqui se faz, aqui se ganha”, noPrograma do Gugu, na Rede Record, e um terceiro quadro no programa CQC , da Bandeirantes.

As propostas dos quadros se fundamentam basicamente na mesma ideia: a de que as pessoas são mais autênticas e espontâneas quando não sabem que estão sendo observadas. Quando sabemos que estamos sob o escrutínio do outro, vestimos, quase que automaticamente, nossas melhores facetas – ou acionamos os comportamentos e posturas que imaginamos serem o que o outro espera de nós. A pauta oferecida pelos quadros, portanto, é a suposta revelação daquilo que verdadeiramente se é. A ideia de que se trata de um “teste de solidariedade”, como várias vezes se fala, é justamente a de capturar o bem (ou o mal) daquele que ignora o fato de estar sendo filmado.

Bastante parecidos, os quadros diferem em suas especificidades, que refletem a natureza das emissoras e dos respectivos programas que os veiculam. Ou seja: no quadro do programa do Gugu, a narrativa da reportagem faz jus ao estilo popularesco da atração e apela aos sentimentos do espectador. Por exemplo, ao narrar a cena em que uma atriz idosa, carregada de sacolas, fica na beira de uma escadaria à espera de alguém que a ajude, o texto em off lido pela repórter,acompanhado de uma trilha dramática, diz: “A cena é de cortar o coração. Os maus bocados de nossa vovó não chamam muito a atenção de quem passa por ali.” Já o quadro do Fantástico, comandado pelo experiente repórter Ernesto Paglia, é mais sutil na sua abordagem, adequando-se ao padrão Globo.

Um tom mais agressivo e juvenil

Em comum, os quadros exploram uma visão simplória de ética e moralidade, equivalendo a índole da pessoa enfocada ao fato de cumprir (ou não) aquilo que as câmeras esperam dela. Na leitura rasa feita pelos quadros, é um bom cidadão aquele que age conforme o “roteiro” prescrito pelo programa – não por acaso, no quadro do programa do Gugu, o participante que cumpre este papel é convidado a ir ao palco do apresentador para concorrer a prêmios. Em mensagem gravada e veiculada por meio de um tablet, Gugu parabeniza o indivíduo pela ação solidária e por fazer um mundo “mais humano”. No quadro do Fantástico, os “aprovados” no teste de solidariedade também são congratulados por meio da visibilidade na principal emissora do país. Não por acaso também, os rostos dos que fazem o esperado é exibido; os dos que tomam outras atitudes é desfocado – certamente porque não autorizaram a exibição, o que também reitera a noção moral da “vergonha” daqueles que não se encaixam nas reações esperadas.

Esta moralidade simplória, por outro lado, adequa-se perfeitamente ao discurso televisivo, que normalmente enfrenta dificuldades para tratar de temas complexos. Por exemplo: um dos episódios do quadro do Gugu mostra uma criança sozinha, desagasalhada, em um ponto de ônibus. O quadro testa quantos parariam para oferecer um casaco ao menino. Engraçado que as mesmíssimas imagens serviriam para uma outra matéria (que seria igualmente redutora da realidade) que denunciasse a insegurança e o perigo que correm as crianças, visto que elas podem ser abordadas por qualquer um que passe na rua. O mesmo solidário, nesta abordagem simplista, passaria a algoz – basta mudar o discurso.

Já no CQC o tom é mais agressivo e juvenil, típico do programa. Num dos quadros exibidos, pega-se carona nos recentes episódios dos que “fizeram justiça com as próprias mãos” – os casos de assaltantes que foram presos a postes, agredidos e assassinados. No quadro, atores em pleno centro de São Paulo simulam a mesma situação: um suposto assaltante é amarrado na frente de uma galeria por dois homens raivosos em razão de ter roubado um celular. Uma mulher, que representa a assaltada, se junta ao grupo e afirma que a agressão é equivocada, pois aquele não era o assaltante.

O discurso de que há “humanos” e “não-humanos”

O resultado do quadro, comandado pelo repórter Erick Krominski, é interessante. Didaticamente, ele explica a diferença entre justiça e vingança, e entrevista aqueles que se manifestaram e se juntaram à horda de agressores. Faz perguntas aos enfezados que, no calor da situação, reagem como podem: alguns dizem que se juntaram à massa porque queriam “ver uma treta”; outros repetem frases do senso comum do estilo “fez, tem que pagar”. Mas me chamam mais a atenção certos questionamentos feitos pelo repórter aos intempestivos transeuntes: “Você não acha que seria melhor se a consciência geral fosse de não bater, e sim de procurar provas?” Ou esta pergunta: “Ele era inocente. Você acha que pode bater no cara só você achando que é o cara mesmo?”

Ou seja, na perspectiva de instigar uma reação mais “humana”, como diz Erick Krominski, as perguntas feitas no quadro silenciam seus outros sentidos: e se ele fosse culpado? E se houvesse provas? Isto me remete a um texto memorável da jornalista Eliane Brum, no qual discute a morte por linchamento de Fabiane Maria de Jesus, que foi confundida com um retrato falado divulgado em uma fanpage de Facebook. Parte da repercussão desta morte se deu pelo fato de que ela era inocente – o que deixa subentendida uma certa legitimidade ao ato caso não fosse. Este trecho merece reflexão: “É no discurso, às vezes subliminar, às vezes explícito, que é reeditado cotidianamente o pacto histórico de que há uma categoria de brasileiros que podem ser mortos – ou que ao menos seu assassinato seria justificável.”

Eu continuaria: na lógica da câmera escondida – e, mais especificamente, no sentido dado pelas emissoras às imagens capturadas – esconde-se um discurso de que há “humanos” e “não-humanos”, boas ou más pessoas. Isto não deixa de ser uma maneira de subestimar o público, ao oferecer a ele – e ajudar a perpetuar – uma visão de mundo redutora e profundamente maniqueísta.

Interface cérebro-máquina

Um sensor como os utilizados em videogames mais modernos, que permitem ao usuário usar o próprio corpo para controlar movimentos, foi a peça fundamental para a pesquisa Otimização do par Codificador-Decodificador para Interfaces Cérebro-Máquina, desenvolvida em coautoria pelo professor do Departamento de Estatística da Universidade de Brasília (UnB) Donald Pianto. O docente realizou o estudo em parceria com os colegas John P Cunningham, Josh Merel e Liam Paninski, da Universidade de Columbia, em Nova Iorque.

Divulgada em junho na revista eletrônica PLOS Computational Biology,publicação oficial da International Society for Computational Biology(Sociedade Internacional de Biologia Computacional, em tradução livre para o português), a pesquisa pretende, entre outros objetivos, melhorar a adaptação de pessoas impossibilitadas de mexer o corpo, ou parte dele, utilizando máquinas conectadas ao cérebro.

No experimento, o professor da UnB e os três colegas desenvolveram um sistema que capta os sinais e as atividades neurais de uma pessoa e os modelam por meio do sensor – semelhante ao dos videogames, que funciona com um conjunto de câmeras capazes de ler a imagem e a profundidade do corpo – e de programas de simulação.

“Montamos um problema matemático que considera o cérebro como codificador de intenções do usuário e a máquina como decodificador. Estudamos e aprimoramos os dois ao mesmo tempo, de maneira personalizada e individualizada, e fixamos a máquina no valor do decodificador ideal. Para verificar o modelo, mapeamos a posição do corpo da pessoa para uma atividade neural e vimos que, no início, ela não consegue usar a máquina direito, mas vai aprendendo rapidamente. No final, esse sistema passa a ter o melhor desempenho entre os estudados”, explica Pianto.

Segundo o professor, em cinco minutos, já é possível mapear as estatísticas das atividades neurais de um indivíduo para resolver a questão de otimização da máquina que será utilizada para dar o melhor desempenho para a pessoa. “O tempo para definir essas coisas depende do número de neurônios que estão sendo estudados em cada caso”, afirma Pianto.

A interface cérebro-computador (ICC, ou BCI, em inglês), também chamada de interface cérebro-máquina, é um caminho comunicativo direto entre o cérebro e um dispositivo externo, frequentemente utilizada para auxiliar, aumentar ou reparar a cognição humana.

Na prática, essas interfaces são sistemas – que consistem de equipamento utilizado para adquirir sinais provenientes do cérebro do usuário, algoritmos para decodificar os sinais, e alguns elementos no mundo que o indivíduo será capaz de controlar – desenvolvidos para permitir que o usuário controle um dispositivo em seu ambiente através de sua atividade neural. Por exemplo, com a interface cérebro-máquina, uma pessoa seria capaz de controlar um cursor numa tela de computador apenas com a atividade cerebral.

Fonte – UnB

Dia do Amigo

Por Angela Maria Parreiras Ramos
Mestre em Educação. Professora da rede municipal do Rio
Escola Municipal Conselheiro Mayrink

O que é a amizade? Uma vez, uma professora disse-me que os meus alunos era uma turma e não um aglomerado de crianças. Durante um bom tempo fiquei pensando no que ela havia dito e percebo que essa é, sim, uma característica das turmas em que atuo. Cada vez mais procuro fazer com que as crianças entendam que quanto mais unidas e amigas forem, melhor será o tempo que vamos passar juntos. Nada de clube do “Bolinha” e nem da “Luluzinha”, como os antigos personagens de uma história em quadrinhos. De fato, precisamos ser “uma turma”. E esse é um exercício diário. Qualquer problema, conversamos e validamos a amizade, sentimento de valor imensurável.

Aproveitando o dia de hoje, dia 20 de julho, “Dia do Amigo”, propus para a turma do 4º ano da Escola Municipal Conselheiro Mayrink, onde leciono, que fizéssemos um sorteio para mandar uma mensagem de amizade/um cartão para um colega da turma. Por que um sorteio? Expliquei a eles que não achava justo que alguns mais populares ‘da turma’ recebessem várias mensagens e outros não recebessem nenhuma. Pensei, por exemplo, nos alunos novos que ainda não tiveram a oportunidade de demonstrar o quão amigos podem ser. A turma disse achar justo e combinamos que caso alguém quisesse fazer mais de uma cartão, para poder entregar a algum(a) amigo(a) em especial, poderia fazê-lo.

Fizemos o sorteio e decidiram que seria surpresa. Ao ajudá-los na correção dos cartões, surpreendi-me com algumas mensagens. Algumas diziam que ainda não conheciam bem o colega, mas que a pessoa parecia ser um amigo legal. Outras elogiavam o sorriso e a amizade. Outras agradeciam a ajuda e o carinho. E várias anunciavam entender o valor da amizade, o quanto o outro era importante e que queriam que a amizade fosse para sempre. Em seguida, cada estudante fez um desenho. Quando todos acabaram, fizemos a entrega do cartão com um abraço.

Ao final, falei que deveriam guardar o cartão bem guardado, pois um dia, num tempo futuro, poderiam reler e lembrar-se das amizades desse tempo de escola. Aproveitei e cantei um trecho da música “Canção da América” de Milton Nascimento e Fernando Brant: “Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração”. Então um menino falou: “Ah, professora, assim eu não aguento. Meus olhos já estão ardendo.” E quando vi, alguns alunos estavam com os olhos cheios d’água. Sensíveis? Sim! E muito! Ainda bem, afinal, a sensibilidade parece andar escassa no mundo. Amigo insensível, não dá!

Referência: lançamento em BH

A animação brasileira vai bem, obrigado. Na verdade, muito bem. Que o digam os longas animados nacionais. Sucesso de crítica e de público no exterior. Um exemplo? O Menino e o Mundo, de Alê Abreu. O longa já participou de mais de 150 festivais internacionais. Na bagagem, 37 prêmios. Exibido em cerca de 80 países, é o terceiro filme brasileiro mais vendido para o estrangeiro. Os dados foram apresentados pelo próprio diretor da obra no Festival Internacional de Animação – Anima Mundi, no Rio de Janeiro.

Na carona do crescimento da animação brasileira, será lançado no dia 25 deste mês, na Livraria Ouvidor, e Belo Horizonte, o livro Maltida Animação, uma coletânea de textos, entrevistas e bastidores da animação. Segundo Sávio Leite, organizador do título, a intenção da publicação foi mapear no Brasil o que de mais significativo se produziu em termos de cinema de animação com a preocupação de abranger todo o território nacional e lançar luz para vários realizadores brasileiros.

“A animação brasileira vive uma boa fase com a produção de longas metragens premiados em importantes festivais internacionais como O menino e o mundo,de Alê Abreu,e ‘Uma história de Amor e Fúria’,de Luiz Bolognesi. Para o livro, convidamos pesquisadores de todo o Brasil paa refletir sobre o cinema de animação. Da produção alternativa do paulista Roberto Miller até a criação de uma escola em Goiânia, passano pelas produções feitas com e para crianças em um rico painel de experiências e realizações bem como as produções de conteúdo de dispositivos móveis e inserções de artistas plásticos na área de animação,como o caso do recifense Paulo Bruscky”.

Na primeira parte da obra, Leonardo Ribeiro, cineasta de animação mineiro com Mestrado em Design pela PUC-Rio, apresenta o texto “Bambi no ponto de ônibus”, no qual analisa a animação independente, experimental e marginal como meio de expressão e linguagem. Roberto Maia comenta sua aproximação afetiva como filho de Roberto Miller, um dos nomes mais conceituados na animação brasileira e dono de uma potente obra experimental premiada em Cannes.

O cearense Diego Akel analisa a produção experimental em animação a partir dos dispositivos móveis, numa experiência pessoal e autoral. O realizador Caó Cruz Alves trata sobre a produção baiana, seus principais realizadores, a importância dos festivais de cinema local como divulgadores dessa produção e dos editais específicos como incentivador, tanto em curtas como em longas-metragens autorais e criação de séries animadas.

Cristiane Quaresma e Marcos Buccini, pesquisadores ligados à Universidade Federal de Pernambuco, analisam a produção de animação e Super-8 no Recife da década de 1970, onde um dos mais importantes artistas plásticos brasileiros, Paulo Bruscky, fez duas incursões no cinema de animação.

Márcio Jr., criador da Monstro Discos, do Goiânia Noise e da Trash – Mostra Goiânia de Filmes Independentes – e ainda Mestre em Comunicação pela UnB, fala da criação da Escola Goiânia de Desenho Animado e da MMarte Produções, cujas realizações andam movimentando o cinema de animação independente e revelando nomes como Wesley Rodrigues.

Patrícia Alves Dias, Mestre em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), formada em Cinema de Animação pela National Film Board do Canadá e fundadora dos Estúdios da Empresa Municipal de Multimeios da Prefeitura do Rio (MultiRio), volta seu olhar para várias iniciativas e pessoas cujo trabalho tem foco em animação feita com crianças, tanto no Brasil quanto no exterior.

Quiá Rodrigues debruça-se sobre o trabalho fronteiriço de Sávio Leite e Clécius Rodrigues, bem como dos parceiros que permitem a essa obra vir à luz.

A segunda parte do livro é composta por entrevistas com Marcelo Marão, Eduardo Perdido, Clécius Rodrigues, Otto Guerra, Arnaldo Galvão, César Cabral, Wilson Lazaretti, Mauricio Squarisi, Pedro Stilpersen Stil e Allan Sieber, nomes que também foram citados nos textos da primeira parte, criando uma conexão na eleição dos entrevistados. Na terceira parte, há fotos dessa produção.

“Creio que o nosso esforço, apesar do recorte estreito escolhido, venha a contribuir para o enriquecimento de nossa cultura, o reconhecimento de uma arte e de artistas que, mesmo premiados internacionalmente, ainda são invisíveis para a grande maioria da população”, destaca Sávio.

Kbela em agosto

Com informações dos sites Observatório das Favelas e Vice

A estreia está programada para agosto próximo. Vem aí Kbeka, filme de Yasmin Thayná, estudante de comunicação de 22 anos. Gravado em dois dias num castelo de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, o filme conta a história do cotidiano das mulheres negras, dos processos embranquecedores em que elas são colocadas durante a vida. “O cabelo crespo é um cabelo político porque ele é rejeitado o tempo todo”, conta a diretora. Feito a partir de um financiamento coletivo que arrecadou módicos 5 mil reais, o curta-metragem conta com mulheres negras na frente e atrás das câmeras para levar ao cinema conteúdo crítico e político, além de representatividade. O filme surge do conto Mc K-bela, feito pela própria Yasmin, retratando suas dores durante a infância e adolescência – períodos nos quais o processo de aceitação e entendimento da negritude é latente.

Quando começou

Em 2013 o conto Mc K-bela foi adaptado para o teatro pelo diretor Anderson Barnabé e estrelado pela atriz Veruska Delfino no Home Theatre – Festival Internacional de Cenas em Casa. No mesmo ano o projeto do filme foi iniciado, quando jovens da Revista Cranta lançaram no Facebook uma chamada para atrizes e não atrizes negras que vivem/viveram histórias de transição capilar. Em dois dias de divulgação da chamada foram mais de 100 emails recebidos. Depois da seleção das atrizes, o grupo filmou a primeira versão do KBELA na antiga fábrica da Bhering, na Zona Portuária do Rio. Filme pronto para edição, Yasmin foi assaltada com todo o material já filmado que estava em seu computador que foi levado dentro da sua mochila.

A partir daí, re-filmar o KBELA virou mais do que um objetivo, se tornou um ato de resistência. Diversas mudanças aconteceram nesse meio tempo e o filme foi ganhando dimensões cada vez maiores, alcançando mais e mais pessoas que abraçaram a proposta. “O projeto amadureceu de uma maneira muito forte. Era outro filme, a gente não tinha direção de arte, figurino, maquiagem. Era uma galera a fim de fazer um vídeo que falasse das questões da mulher negra. De lá para cá, amadureci o roteiro e a minha proposta de direção. Foi fundamental ter realizado diversos ensaios antes de gravar pra valer. E a cada encontro o KBELA ia ficando maior, e fica maior a cada dia que passa, e ele ainda nem estreou. Espero que ele tenha um tamanho infinito e quem fará isso são as pessoas que se identificaram e usarem o trabalho para desconstruir os conceitos que nos oprimem”, explica Yasmin Thayná.

Produção estudantil

Por Bianca Souza
Do Jornal Conexão Colégio Pedro II

Não é de hoje que alunos do Colégio Pedro II se destacam por seu senso crítico e posicionamento frente aos mais diversos temas que estão ou deveriam estar em debate na sociedade. E foi nos jornais estudantis, que circularam pelas diversas unidades do Colégio, que essa atitude ganhou expressão. Exemplo disso foi o jornal O Brado, da década de 1940, dirigido e produzido por alunos como Wilson Choeri e Aloysio Jorge. Em pleno Estado Novo, quando a imprensa nacional era censurada pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), O Brado foi o único periódico que ousou criticar o ingresso do presidente Getúlio Vargas na Academia Brasileira de Letras.

Conheça o jornal, na versão online

Muitos outros jornais estudantis fizeram história e alguns de seus exemplares são preservados pelo Núcleo de Documentação do CPII e podem ser conferidos no Campus Centro. Atualmente, quem está resgatando e mantendo viva essa tradição é a equipe que produz o jornal O Imperador, do Campus Tijuca II, que completou em maio um ano de circulação.

Criado em 2014, o jornal é resultado de um projeto do Núcleo de Design Gráfico, coordenado pelo professor André Queiroz. Através do jornal os alunos podem explorar produção textual, diagramação, ilustração, fotografia e desenho. A proposta é aliar os conhecimentos técnicos adquiridos com o estímulo ao senso crítico. Apesar do cenário de crise dos veículos impressos, André acredita na força desta plataforma e pretende estimulá-la entre os alunos. “A mídia impressa tem perdido espaço para versões digitais, porém acredito que o contato físico com a matéria é importante. Sentir o cheiro do papel e da tinta, além da sua textura, provoca uma experiência diferente à leitura”, defende.

Hoje, a equipe do jornal é composta por oito alunos que desempenham tarefas distintas: produção textual, diagramação, fotografia e ilustração. “A partir da análise de referências e do estudo do design de ‘grids’, desenvolvemos um padrão para o nosso jornal. A pauta é montada em reunião com toda a equipe.

Discutimos assuntos atuais que ocorrem dentro e fora da escola, daí definimos um tema central que guia as matérias principais e a ilustração da capa”, explica André Queiroz. Fernanda Scovino, 17 anos, integra a equipe da diagramação responsável pela revisão textual, edição e, geralmente, busca de imagens, e conta um pouco sobre o processo de produção do jornal. “Organizamos a disposição desses elementos nas páginas do jornal, tentando torná-las visualmente homogêneas e agradáveis”, explica.

A cada novo número, a equipe ganha o reforço de colaboradores (alunos ou servidores), que participam enviando textos para o jornal. Matheus Andrade, 17 anos, faz parte da equipe desde a criação de o Imperador. O interesse veio da vontade de cursar jornalismo e do gosto por escrever. Matheus descartou o jornalismo, mas continua escrevendo sobre temas atuais. “Gosto de usar o humor, que é uma arma muito boa para uma crítica social ou para retratar uma situação. E com isso a leitura fica mais leve também”, conta.

Textos sobre transexualidade, pena de morte, terrorismo e até o valor surreal do transporte público no Rio de Janeiro rechearam as páginas da 5ª edição do jornal, que tem periodicidade trimestral. E em todas elas, é possível perceber a voz de cada aluno por trás das palavras impressas. “É um compromisso nosso expor ideias para o debate em sociedade. Penso que jornalismo com opinião é uma grande proposta”, defende Matheus.

A dedicação dos alunos que produzem O Imperador se reflete na popularidade do jornal no Campus. “Do ano passado para cá, tanto o conhecimento quanto o gosto pelo jornal foram mais difundidos pelos alunos, principalmente os mais jovens das primeiras séries do Fundamental II, o que fez com que adaptássemos alguns detalhes do jornal para adequá-lo ao gosto do público.

Dentro do ambiente escolar, o nosso objetivo é levar informação diferenciada sobre alguns temas importantes, que muitas vezes não são discutidos na sala de aula ou em família”, analisa Fernanda. Para Matheus, a cada nova edição lançada a identificação dos alunos cresce e faz com o que o jornal ganhe ainda mais força. “A resposta é imediata e muito boa! Todos que o leem gostam”, afirma.

Do papel para a web

Em maio, O Imperador ganhou sua versão online. No site, é possível conferir as edições anteriores e textos dos alunos. “O layout do site foi desenvolvido pelos alunos do Núcleo de Design Gráfico. A proposta é fazer com que mais pessoas tenham acesso aos conteúdos que produzimos e aumentar a produção, já que a internet permite e exige uma maior atualização e velocidade da informação”, explica André. O evento de lançamento do site contou com depoimentos da equipe, show de stand up comedy do aluno Matheus Andrade e da banda Faixa 13. Vida longa a O imperador!

Exploração sexual infantil

O Ministério Público Federal lançou a campanha “Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes – Marcas para a vida toda”, iniciando a ação pelo Mato Grosso do Sul. O objetivo é enfrentar as altas ocorrências do problema no estado e também contribuir para uma mobilização nacional. Segundo o MPF, no Brasil os casos de violência sexual contra crianças e adolescentes estão subnotificados, pois não há órgão que concentre todos os números dessa violência. Sem informações, segundo avaliação dos procuradores, o desenvolvimento de políticas públicas adequadas torna-se inefetivo. Apenas pequena parte dos casos de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes se torna conhecida das autoridades, seja pela vergonha ou medo em relatar a violência, seja pela proximidade das vítimas com os abusadores.

Clique aqui e baixe a cartilha da campanha

Em Mato Grosso do Sul, alguns números chamam atenção. Em 2014, foram registrados 980 casos envolvendo estupro de menores de 18 anos; destes, um terço foram notificados em Campo Grande e mais de 80% envolveram menores de 14 anos. Em 46 casos, as crianças tinham menos de quatro anos de idade e em três deles, não chegaram a completar 1 ano.

Dos casos de abuso sexual, 81% ocorreram em ambiente doméstico – o que reforça a constatação de que, em geral, o abusador é próprio pai, padrasto ou familiar que convive com a vítima. Tal fator inibe a atuação das autoridades e torna a criança prisioneira de um ambiente de abusos e explorações sexuais reiteradas.

Com a internet, o contexto de abuso e exploração sexual infantil ganhou novas dimensões. O acesso generalizado a computadores e smartphones ampliou o armazenamento e compartilhamento, via internet, de material envolvendo pornografia infanto-juvenil. Estima-se que os recursos movimentados nesse mercado ilícito se comparem ao do tráfico de drogas. Em 2004, a Operação Darknet foi deflagrada pela Policia Federal em conjunto com o Ministério Público Federal. Na época, 90 usuários foram identificados em posse de material pornográfico infanto-juvenil e pelo menos 6 crianças estavam em situação de abuso ou iminente estupro.

A campanha

Para combater o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes, o MPF inicia a campanha em Mato Grosso do Sul. A cartilha virtual objetiva alertar toda a sociedade, especialmente pais e cuidadores, sobre cuidados simples que podem ser adotados para evitar abusos, bem como sinais físicos e comportamentais que podem indicar que uma criança ou adolescente sofreu ou está sofrendo abusos. Segundo o MPF, a participação de toda a sociedade, da imprensa e dos órgãos de proteção da infância e adolescência é fundamental para a redução dos casos de violência, que marcam crianças e adolescentes por toda a vida.

Animação só para as crianças?

Por Juan Sanguino
Publicado no jornal El País.

O impacto da Pixar na cultura popular coletiva se alterna entre o entretenimento de massa e um conceito revolucionário de “para todos os públicos”. Suas aventuras não só funcionam para todas as idades, mas ainda desenvolvem suas narrativas em dois níveis paralelos, com duas leituras alternativas: uma mesma cena apela às crianças e aos adultos, despertando sentimentos distintos e deixando uma marca diferente em cada um. Como afirma seu fundador, John Lasseter, “a animação é o único gênero que realmente cativa toda a família”.

Ah, um momento antes de continuar: o que realmente é a Pixar e quais são suas conquistas? Estamos diante de uma empresa de animação por computador, co-fundada por Steve Jobs (o cérebro da Apple) em 1986, cujos filmes são distribuídos pela Disney (que a incorporou em 2006). Seu Toy Story (1995) foi o primeiro longa-metragem integralmente gerado por computador. Seus filmes ganharam sete Oscars de melhor filme de animação e arrecadaram uma média de 600 milhões de euros (cerca de 2 bilhões de reais). Seu último lançamento estreou mundialmente neste ano com críticas esplêndidas, e já em cartaz no Brasil: Divertida Mente (Inside Out).

Em algumas ocasiões, a Pixar multiplicou essa complexidade narrativa correndo riscos, com momentos abertamente adultos que as crianças são incapazes de perceber, como se fossem ultrassons que seu cérebro deliberadamente ignora porque não são dirigidos a elas. Sua empresa-mãe, a Disney, foi pioneira, introduzindo cenas cruéis de perda (a morte da mãe de Bambi ou a de Mufasa (O Rei Leão), astutamente eclipsada pela aparição imediata de Timão e Puma), mas eram sentimentos identificáveis pelas crianças, tanto que gerações inteiras continuamos traumatizadas por elas. Essas são as cenas com que a Pixar agarrou pelos ombros os adultos da sala e propôs emoções só processáveis com a experiência da maturidade, tão imperceptíveis pelas crianças que nem sequer perceberam.

‘Ratatouille’ (2007): 30 segundos que revelam um caso de bullying

Um vilão desumanizado e sociopata é um recurso útil e universal no cinema de animação, mas bastaram 30 segundos para a Pixar transformar Anton Ego (implacável crítico gastronômico especializado em naufragar restaurantes) numa vítima da sociedade. Ego experimenta o ratatouille (prato de legumes cozinhados separadamente e aromatizados com ervas) de Alfredo Linguini, aspirante a chef ajudado por um rato, e imediatamente suas sensações o transportam, com um fluxo de consciência modernista, para as tardes em que chegava a sua casa, quando pequeno, atemorizado pelos maus-tratos de seus colegas de escola. O ratatouille que a mãe cozinhava para ele representava o amor mais incondicional, a segurança do lar e a felicidade de saber que, por algumas horas, seu inferno tinha terminado.

Podemos nos atrever a presumir que essa mãe era o único fator a manter Anton Ego vinculado ao mundo e que, depois de sua morte, simplesmente deixou de crer ou interessar-se pelos outros seres humanos e se transformou em um ser amargurado e cruel. Trinta segundos desoladores são imperceptíveis para crianças que ainda não entendem totalmente que o bullying é um conceito e, sobretudo, que, mesmo que não acreditem, pode ser superado. “It gets better” (as coisas melhorarão), afirmavam os funcionários da Pixar numa campanha emotiva e ninguém poderia tê-lo expressado melhor do que eles nessa cena.

‘Up: Altas Aventuras’ (2009): Nascimento, vida e morte de um casamento 

Um jogo de expectativas cruel nos leva a crer que as duas crianças solitárias e sonhadoras do início de Up seriam os protagonistas do filme. Como estávamos equivocados! Ellie morre aos 10 minutos do filme. Um uso avassalador da elipse repassa a emotiva vida em comum de Ellie e Carl, que são um casal e passam juntos pelas frustrações e pelo cotidiano que só alguém que tenha tido relações sentimentais pode entender. É um prólogo impenetrável para as crianças, que não serão convidadas a entrar no filme até que a casa saia voando. Sem dúvida se esquecerão desses tremendos 10 minutos iniciais, mas seus pais não poderão tirá-los da cabeça.

‘Toy Story 3’ (2010): assumir a inevitabilidade da morte

Todo o filme Toy Story 3 é uma manobra diversionista (por meio de piadas e tropeções) para olhar nos olhos da geração que criou Toy Story e dizer: “Amadurecer é encontrar seu lugar no mundo, e não, não é fácil para ninguém”. Conta a história de brinquedos privados de sua única função (fazer as crianças felizes) e que portanto se questionam por que estão no mundo, numa parábola angustiante do “penso, logo existo” que alcança um clímax excepcional na cena da fundição.

Os brinquedos estão presos em escombros que vão atirá-los inevitavelmente ao fogo. Seu instinto de sobrevivência os impele a lutar contra isso, até que, coletivamente, se dão conta de que não há esperança. Acabou. Dão-se as mãos, tentam não parecer aterrorizados e esperam seu destino concluindo, como na série Lost, que “se não aprendemos a viver juntos, vamos morrer sozinhos”. Ao fim e ao cabo, já passaram pelo maior medo de qualquer indivíduo: deixar de ter identidade. Enquanto assistem à cena, os pais estremecem na poltrona. As crianças, no entanto, não entram em profundidades e se divertem.

‘Os Incríveis’ (2004): O adultério

Um ex-super-herói frustrado com sua existência banal já é um protagonista difícil de entender para uma criança, cuja vida é emocionante pelo simples fato de existir. Quando se propõe a voltar à luta contra o crime, Bob recobra a ilusão e a vida dupla. Sua mulher, Helen, teme ter perdido o marido, crê que ele a trai com outra e até entende que Bob necessite escapar da vida cinzenta que construíram juntos.

Abalada, Helen se conforma e se despede de seu marido, lembrando a ele que o ama muito. É a cena de uma mulher que aceitou sua derrota e que, com dois filhos hiperativos e uma filha invisível, nem sequer tem forças para se revoltar com a situação. O adultério é aceito pelos maiores e as crianças ainda não o entendem.

‘Procurando Nemo’(2003): O peixe com transtorno de personalidade

Um dos pressupostos preferidos da Pixar é a construção de comunidades obrigadas a trabalhar juntas, que vai além dos amigos improváveis herdados da Disney. O aquário em que Nemo mergulha está cheio de peixes extravagantes que obviamente não estão bem da cabeça, como que vivendo presos no consultório de um dentista. Deb é um peixe colorido e eufórico que acredita que seu reflexo no espelho é sua irmã gêmea, Flo, na qual não confia absolutamente, mas sem a qual não consegue viver.

O roteiro joga com a inexistência de memória nos peixes, ainda que os demais personagens (com exceção de Dory) a tenham e, diferentemente de Deb/Flo, nenhum se comporta como se tivesse síndrome de Asperger e fosse incapaz de elaborar associações mentais com seu entorno. A dupla personalidade do peixe serve para situações cômicas mesmo que implique o desespero de Deb quando o plâncton do aquário não a deixa encontrar a irmã. Eis aqui um caso de transtorno de múltipla personalidade. “O que é isso, mãe?”. “Vai aprende quando for maior, meu querido”, ouve-se nas poltronas.

‘Wall-e’ (2008): A descoberta do amor

As crianças percebem o amor como um sentimento coletivo que engloba a amizade, a família e os casais. As crianças assumem que Wall-e e Eva se tornam amigos, mas nós, adultos, reconhecemos a mão trêmula do robô que leva uma eternidade (na qual houve tempo de empacotar em caixas todo o planeta Terra) na solidão, tendo como único vínculo afetivo um vídeo VHS de Barbra Streisand em Hello Dolly. Está muito sozinho, realmente.

Quando Eva transforma suas extremidades em mãos para pegar um objeto, Wall-e sente um desejo poderoso de tomar sua mão, como fazem no filme. Viu Eva sob uma nova luz, e sente uma conexão com ela tão inexplicável quanto incontrolável. Podemos chamar isso de amor…

‘Vida de Inseto’(1998): O sádico gafanhoto colonialista

Para seu segundo filme, a Pixar apostou numa reinvenção perversa da lenda A Cigarra e a Formiga, em que uma colônia de formigas vive intimidada por gafanhotos que as obrigam a garantir sua comida se quiserem continuar vivas. O tom cômico não deve nos distrair da esmagadora leitura política do relato: perpetuação das classes sociais, exploração dos trabalhadores e, sobretudo, o medo da classe dominante diante da certeza de que a classe operária se dará conta de que é mais numerosa e mais forte, e a revolução será inevitável.

Esse medo dos oligarcas fica patente na perturbadora cena em que o gafanhoto vilão Hopper assassina três sequazes para mostrar às outras formigas que devem viver ameaçadas para serem produtivas e, de passagem, ainda adverte os capangas para não se amotinarem.

Depois de desenvolver conceitos universais tão ambiciosos quanto genuinamente originais (brinquedos com sentimentos, monstros com sentimentos, robôs com sentimentos), a Pixar dá agora um gigantesco salto com Divertida Mente, que já é considerado uma de suas obras-primas: sentimentos com sentimentos. O filme acontece na cabeça de uma criança, e promete novas cenas de forte dimensão adulta como esta, um exemplo ilustrativo do subconsciente e da psicanálise.

TV cede lugar ao tablet

Estudo realizado no primeiro semestre deste ano nos Estados Unidos pelo instituto Miner & Co. Studio identificou que os aparelhos de televisão não são mais os preferidos entre o público infantil que já possue acesso à tablets e smartphones. Segundo a pesquisa, cerca de 57% dos pais entrevistados afirmam que seus filhos preferem assistir a vídeos e jogar em dispositivos móveis em vez de acompanhar desenhos ou algo de seu gosto na TV.

Os ‘novos’ aparelhos móveis são tão importantes para as crianças que mais da metade dos 800 pais entrevistados contaram que retiram o aparelho após alguma ação indevida. Ou seja, proíbem o uso caso a criança não se comporte. Alguns, colocam os meninos e meninas de castigo vendo televisão.

Para demonstrar a dependência eletrônica dos pequenos usuários, o instituto pediu para que as crianças escolhessem entre passar alguns minutos a mais no aparelho ou ganhar sobremesa, e quase 41% dos entrevistados afirmaram que escolheriam o eletrônico em vez do doce. O levantamento aponta uma ampliação da responsabilidade e oferta dos conteúdos reunidos, distribuídos e exibidos pelas redes de TV a cabo e satélite, serviços de streaming e criadores independentes de conteúdo.

Cineclube da hora

Saiu a nova edição do Prisma – revista eletrônica produzida pelo Instituto Desiderata. Desta vez, a publicação traz reflexões de professores de escolas municipais do Rio de Janeiro, que atuam no segundo segmento do Ensino Fundamental. Professores de escolas da Zona Norte da cidade relatam suas experiências de educação com adolescentes usando diversas linguagens das mídias e das artes. É o caso, por exemplo, da educadora Sonia Maria da Silva Maciel,  professora regente de História da Escola Municipal Aníbal Freire e articuladora do Projeto Cineclube nas Escolas, da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro.

No texto Cineclube da hora, ela conta o processo de criação do cineclube.

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Cineclube da hora
Por Sonia Maciel

Finalmente, conseguimos dar a partida para o trabalho cineclubista na escola! Some-se a isso a generosidade dos alunos do oitavo ano que, desde o primeiro momento, estiveram presentes. De uma aula inaugural abrindo o ano letivo de 2011 até começarem as sessões, levou tempo! E que tempo! Tempo de encontrar colegas de outras escolas que já desenvolviam o projeto; tempo de buscar aproximação daqueles mais experientes na área; tempo de procurar os cursos pertinentes ao cineclubismo; tempo de ver que o tempo poderia nos levar para essa magia das imagens em movimento.

O cinema tornou-se tão relevante que passamos, de comum acordo com alunos interessados, direção da escola e coordenação pedagógica, a fazer encontros semanais, às sextas- feiras, no contraturno. De início, eram cerca de nove alunos, até que um grupo fixo de seis começou a se configurar como aquele disposto a tocar o barco. Eram nossos monitores por excelência e por vontade própria. O acervo de filmes que chegou à escola foi saudado por todos, ansiosos que estávamos para dar a largada em uma ação com outros alunos.

Para a escolha do filme a ser exibido, o grupo de monitores se posicionou no sentido de analisar pelas sinopses o que poderíamos apresentar, não sem antes verificarmos também a duração do filme. Depois, a exibição preparatória que antecedia àquela planejada para outros alunos. “O contador de histórias”, direção de Luiz Villaça, foi o escolhido para a primeira sessão experimental, ao lado de dois curtas, feitos pelos alunos do Núcleo de Arte Grécia, “O pequeno cordel do sapato voador”, selecionado para um festival em Portugal, e “Um lugar chamado Quitungo”, apresentando a história do lugar, um antigo quilombo, ambos do DVD “Alma suburbana”, com direção de Luiz Claudio Lima, Joana D’Arc, Leonardo Oliveira e Hugo Labanca, distribuído pela Secretaria Municipal de Educação (SME) para as escolas municipais em 2011.

O filme apresenta a trajetória de um menino de Minas Gerais, ex-interno da antiga Febem (Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor, atual Fundação Casa) que se descobre na vida a partir do encontro com uma pesquisadora francesa em visita ao Brasil. Roberto Carlos Ramos, o jovem retratado no filme, é hoje um contador de histórias celebrado mundialmente.

Passados vários encontros, quando nos perguntávamos que nome teria o cineclube, um dos monitores insistia em chamá-lo de Cineclube Histórias, porque sempre que nos reuníamos para escolher os filmes, tínhamos uma nova história a ser contada.

A escolha do nome do cineclube foi tratada de início como uma possibilidade de ser discutida pelos alunos monitores ou entre os alunos da escola. Depois, definimos que deveria ser decidido pelo grupo que está à frente do projeto, e ficamos de pesquisar possíveis nomes.

Minhas experiências cineclubistas anteriores, com passagem pela Associação de Cineclubes do Rio de Janeiro (Ascine-RJ), trouxeram à baila nomes de diferentes cineclubes como Beco do Rato; Sua Escola no Cineclube, Mate com Angu, Subúrbio em Transe, Cineclube sem Tela, Rabiola, Tela Brasillis, Cineclube Brasil, entre tantos outros, chamando a atenção do grupo sobre a escolha do nome, que deveria levar em conta a criatividade.

Mais sessões foram programadas, incluindo a iniciativa de convidar alunos do contraturno, não sem antes comunicar aos responsáveis da atividade extraclasse. Assim, fizemos sessões com alguns dos filmes do projeto, sabendo que uma vez o filme estreado no cineclube, imediatamente seria disponibilizado para uso de outros professores.

Fato marcante foi a exibição de dois filmes feitos pelos alunos da Escola Municipal (E.M.) Almirante Tamandaré, no Vidigal: “A dor da perda” e “Nada é para sempre”. O grupo presente no dia da sessão não era grande, no entanto, soube muito bem deslanchar um debate muito interessante sobre as temáticas abordadas: gravidez na adolescência e amizade interrompida. Na hora da avaliação, quando os alunos recebem fotogramas impressos para darem suas opiniões por escrito, vimos muitos desenhos representando diferentes planos de um dos filmes. Juntos, esses fotogramas passaram a fazer parte de um mural apresentando o projeto Cineclube nas Escolas, na porta da sala de vídeo.

Ainda que não tenhamos todas as condições técnicas adequadas, acreditamos que esse projeto traz um diferencial para nosso trabalho. Quando nos deparamos com a nova condição de lidar com o conhecimento, que passa pela discussão entre professores e alunos de critérios para exibição, replanejamento, respeito a opiniões diferentes, percebemos uma possibilidade de transformação do nosso cotidiano escolar. Como nos disse um dos alunos monitores: “A sexta feira de manhã é meu melhor dia da semana na escola!” Vocês, Gabriel A. Marinho, Gabriella A. V. Brito, Marcelle M. Paiva, Luiza A. Oliveira, Migue Pache, Elizabeth da S. de Oliveira, já fazem parte desse filme.

Em meio às discussões sobre o nome e o logotipo, “Cineclube da Hora” foi o escolhido pelo grupo para batizar nosso trabalho com cinema na escola.

A hora é essa!

O Cineclube da Hora da E.M. Aníbal Freire saladeleituraanibalfreire.blogspot.com é parte integrante do Projeto Cineclube nas Escolas da SME. Assista ao curta “Em busca do amor”, feito pelos alunos da escola

Acesse a publicação

Os interessados no tema cinema e educação não podem deixar de ler a publicação “Cinema e Educação: a Lei 13.006”, lançada na 10ª edição do Festival de Cinema de Ouro Preto. Com organização de Adriana Fresquet, o livro propõe reflexões, perspectivas e propostas sobre o tema e conta com a contribuição de pesquisadores e professores de universidades de todo o país.

Leitura urgente e necessária para todos os que trabalham com o cinema na escola!

Baixe aqui a publicação

Porta fechada

Por Marcus Tavares
Editor da revistapontocom
Texto originalmente publicado no Jornal O DIA

A atual crise brasileira é visível e vem impactando diversos setores. Um dos mais caros à sociedade é o emprego. Nesta semana, o IBGE anunciou que a taxa de desemprego subiu nos últimos três meses (março/abril/maio), chegando à casa dos 8% — a maior da série histórica, que começou a ser contabilizada desde 2012. Na semana em que foi realizado o levantamento, havia 8,2 milhões de brasileiros — de 14 anos ou mais — desocupados e à procura de trabalho.

Desse total, sabe-se que, em tempos de recessão econômica, são os jovens os mais prejudicados. Em abril, a taxa geral de desemprego em seis regiões metropolitanas do país — São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Recife, Salvador e Porto Alegre — foi de 6,4% em abril. Entre os jovens, esse percentual foi duas vezes e meia maior: ultrapassou os 16%.

Como aponta relatório da ONU, em tempos de recessão econômica, são os jovens os últimos a entrar e os primeiros a sair; os últimos a serem contratados e os primeiros a serem despedidos. E isso tende a acontecer, em especial, em dois momentos cruciais na vida da juventude: na transição do Ensino Médio e do Ensino Superior para o mercado de trabalho.

Não é à toa que instituições públicas e particulares de ensino vêm promovendo eventos, feiras e atividades para aproximar os estudantes do mercado de trabalho, ouvindo as demandas e as expectativas do empresariado. Boa estratégia no sentido de propiciar, ainda no banco da escola e ou da universidade, uma ponte, tão necessária. Mas que muitas vezes não faz eco — afinal, faltam vagas no país todo.

Como consequência, temos jovens se virando na economia informal. Os que podem procuram mais e mais qualificação na esperança de se diferenciar no mercado. E há aqueles que se empenham no ramo do empreendedorismo, não por uma virtude, mas por falta de escolha, numa tentativa de liderar o seu próprio caminho. Assim caminha a juventude brasileira, em meio a tantos problemas e dificuldades. Um quadro triste e sem perspectivas positivas a curto prazo.

Bom negócio para quem?

Por Lais Fontenelle
Psicóloga do Instituto Alana
Texto originalmente publicado no site Criança e Consumo

No fim do mês passado um grande debate, envolvendo questões ligadas à educação financeira e consumo consciente, veio à tona quando, a Visa lançou, em parceria com a Mauricio de Sousa Produções e a Brasil Pré-Pagos, um cartão mesada no formato pré-pago com o diferencial dos personagens da Turma da Mônica estampados. Os cartões em si não foram novidade já que outros no mesmo formato eram de conhecimento geral. Existe até um cartão do Angry Birds que um dos benefícios de uso é o ganho de pontos no jogo virtual do mesmo personagem – o que parece ser uma jogada de marketing, pois a criança usa o cartão para adquirir pontos ou moedas no jogo e assim se fideliza a marca. Todos os cartões são recarregáveis e podem, inclusive, ser usados na função crédito, internacionalmente, ou para realizar saques – não precisando ser vinculados a uma conta ou agência bancária.

O lançamento virou pauta na agenda e dividiu opiniões nas redes sociais. O público estava cindido entre aqueles que acharam um total absurdo a existência de um cartão mesada (com personagens licenciados de apelo ao consumo infantil) e outros que não acharam nada de demais, além de uma nova ferramenta capaz de auxiliar na educação financeira de crianças e jovens na sociedade de consumo – na qual estamos todos inseridos.

Já os especialistas demonstraram acreditar, na sua maioria, ser essa uma tendência atual, sem volta, para se trabalhar a educação financeira, pois o uso de moedas ou cédulas está escasso. Porém, alertaram para questões importantes como: limite, a abstração de pensamento necessária para usar o cartão, o problema de segurança já que os cartões podem realizar saques em caixas. Além de se questionarem, também, do porquê dos personagens infantis estampados se o foco do produto não são as crianças e sim os jovens. Seria mais uma jogada de publicidade 360 graus – que deseja cooptar crianças, desde muito pequenas, ao universo de consumo adulto sem estarem preparadas para tanto?

A empresa Visa afirmou ter dois propósitos com a iniciativa sendo o primeiro substituir a tradicional mesada concedida em notas ou moedas pelos cartões – sendo este o foco do seu negócio. Já o segundo era atingir um público mais jovem, de 11 a 15 anos, que provavelmente ainda não utilizava pagamentos eletrônicos como meio principal. “Queremos aproveitar um momento em que os jovens brasileiros buscam alternativas para entender como fazer uma boa gestão do dinheiro e calcular melhor o orçamento que os pais dão a eles” disse a empresa à imprensa. Mas, será que os jovens e principalmente as crianças (de 11 anos ou menos) estão prontas para usar um cartão que requer pensamento abstrato para lidar com dinheiro sendo que, muitas vezes, nem nós adultos estamos?

A educação financeira e para o consumo consciente é, sem dúvida, um enorme desafio para aqueles que têm o compromisso político de formar cidadãos mais conscientes em relação a suas escolhas para o consumo. Mas, como fazer e quais são as atividades e ações mais adequadas para determinadas faixas etárias e a forma como abordar o assunto, com as famílias, tem sido uma das grandes questões da contemporaneidade. Atualmente o dinheiro faz parte do dia a dia de nossas crianças, desde que são bem pequenas, a começar pela observação dos hábitos de seus pais no cotidiano que, dentro de uma sociedade de consumo, compram itens para sua sobrevivência ou bem estar corriqueiramente e, muitas vezes, sem a devida reflexão.

Somado a isso temos um contexto sócio econômico em nosso país, hoje, onde se cresceu a taxa média anual de consumo em 3,5% na última década, permitindo que milhões de brasileiros participem ativamente de um mercado de consumo – antes inacessível para a maioria, porém sem estar preparados para essa atividade. Esse fator impulsionou a reflexão sobre a importância da educação financeira da população, a se começar desde a infância, o que gerou inclusive a Estratégia Nacional de Educação Financeira – ENEF -instituída pelo Decreto nº 7.397, de 22 de dezembro de 2010. Fora tudo isso, muitas ainda são as dicas e orientações apresentadas, todos os dias, nas mídias sobre empoderamento financeiro de famílias e, principalmente, dos jovens. E mesmo assim observamos que o nível de endividamento e inadimplência só vem aumentando. E por que será?

Educar não é uma tarefa fácil, nem para pais ou educadores mais experientes. E a contemporaneidade nos coloca novos e árduos desafios, principalmente no que diz respeito à educação financeira e para o consumo consciente. Podemos afirmar que hoje a formação de nossas crianças não está somente nas mãos da escola ou da família, pois é compartilhada com as diferentes mídias com as quais as crianças têm se relacionado diariamente e que são atravessadas por mensagens incansáveis e persuasivas de apelo ao consumo, através da publicidade que fala diretamente com os pequenos.

Portanto, a educação financeira deveria ir além do ensino de técnicas de como bem administrar seu dinheiro, de como poupar, gastar ou de um manual de regras pré estabelecidos. A realização de um trabalho que aponte na direção da discussão do “Eu quero X Eu preciso” e que discuta o “Ser x Ter” é extremamente válido porque assim, de alguma maneira conseguiremos promover que as crianças e jovens comecem a entender que as escolhas que fazem tem impactos individuais e no coletivo (envolvendo questões ambientais e até sociais). Fazer um trabalho de leitura crítica da publicidade – para que os jovens comecem a questionar os apelos e valores veiculados por esse discurso persuasivo – também pode ser bem importante.

Somado a isso devemos ter em mente que o exercício para autonomia/ cidadania – como bem colocado no Referencial Curricular Nacional da Educação – deveria ser um processo que se inicia, desde a mais tenra Infância, quando se oferecem possibilidades e oportunidades de escolha e autogoverno às crianças em situações mais simples de seu cotidiano. A capacidade de realizar escolhas, que passa pela educação financeira e para o consumo consciente, deveria ir se ampliando conforme o desenvolvimento de recursos individuais e subjetivos e mediante a prática de tomada de pequenas decisões.

Uma boa ideia é convidar as crianças a fazer as compras de supermercado envolvendo- as desde a checagem do que falta no armário, a elaboração da lista até a colocação no carrinho. Dessa forma a criança e o jovem conseguem, concretamente, entender e colocar em prática um planejamento financeiro. Outro ponto importante é encorajar as crianças, desde cedo, a ter metas de curto prazo para que comecem a conseguir adiar desejos em nome do consumo futuro e assim exercitar a resiliência. A conhecida ideia de construção do porquinho/cofrinho como planejamento futuro pode ser bem interessante nesse caso.

A realização e participação em feiras de troca de brinquedo, também, é muito importante porque oferece a possibilidade da criança experimentar outra forma de consumo onde ela terá que realizar pequenas escolhas, negociar e entender o valor subjetivo atribuído aos objetos. E ali ela pode desconstruir a lógica atual de consumo sem reflexão, além de vivenciar que trocar pode ser mais divertido que comprar.

Não podemos esquecer em toda essa discussão que as referências e modelos de comportamento são de extrema importância para o desenvolvimento da autonomia da criança. E muito importante que os pais ou adultos cuidadores sejam claros em seus combinados sobre dinheiro e consumo e que não ofereçam duplos comandos. Isso não quer dizer que o destino dos filhos seja, fatalmente, repetir o mesmo padrão de consumo dos pais. Esse não é um processo que se dá de maneira tão mecânica. Mas, é preciso admitir que a maneira como apresentamos o mundo para os pequenos – nossas atitudes e valores – tem uma influência enorme no comportamento futuro deles. Ou seja, antes de mais nada, é preciso não perder de vista que o exemplo dos pais constitui a principal influência em relação ao modo como os filhos lidam com o dinheiro.

O que eu queremos dizer com tudo isso? Que o simples fato da criança ou jovem ganhar um cartão mesada não vai contribuir para que ele se empodere financeiramente e que comece a ter noções mais claras de como lidar com dinheiro. A praticidade, suposta segurança e monitoramento dos gastos prometidos com a utilização dos cartões-mesada não vai necessariamente introduzir na criança noções de crédito ou sobre qual a melhor forma de poupar, planejar e aprender a se controlar. Muito pelo contrário. O uso de um cartão magnético, onde o dinheiro não pode ser concretamente manuseado pelo usuário, requer uma abstração de pensamento que a criança, ou até mesmo o jovem, ainda não tem. E é ai que está o problema. Por isso a mediação do adulto na relação que as crianças estabelecem com o dinheiro a se começar pela mesada é sempre o mais eficaz , além de se passar valores mais humanos e menos materialistas nesses tempos de consumismo desenfreado. Fica aqui uma reflexão para pensarmos antes de aceitarmos a tendência dos cartões mesada como forma de educação e empoderamento financeiros de crianças e jovens hoje.

Um dia de marinheiro

Por Artur Melo, 12 anos
Estudante do 7º ano do Ensino Fundamental, da Escola Sá Pereira

Diário de Bordo
Marinheiro Artur Lobão

Expedição do Grande Navegador Cristóvão Colombo – 1492
Destino: Índias

mapa 11Primeiro dia da Expedição
Muito difícil o primeiro dia fora de casa, longe da família. Já estou com saudade dela. Mas vou tentar esquecer isso e pensar na viagem. Acho que vai ser muito importante. Se nós conseguirmos, seremos os primeiros a descobrir uma nova rota para as Índias. Já não ficaremos preocupados com os mercadores italianos de Veneza e suas taxas. Isso será tudo para o nosso reino. Agora preciso ajudar os outros marujos a esfregar o convés, isso vai ajudar a passar o tempo e à noite vou jogar um pouco de cartas, apostar uns trocados. Não resisti, ainda esfregando o convés, olhei para todos os lados e já não avistei a Espanha, chorei.

 

 

 

mapa 2Segundo dia de expedição
Estamos no segundo dia e pensar que ainda falta tanto… já vem dando aquela fome, sorte que ganhei uns trocados jogando baralho e vou conseguir algo no mercado negro! Aqui fazem isso: quem tem alguns trocados consegue sobreviver com mais facilidade. Que bom um pouco mais de comida. Dá pra matar a fome até amanhã. Os marujos estão planejando um motim! Acham que a ideia de Colombo nos levará à morte, não acreditam mesmo que a Terra seja redonda. Eu acredito e queria ter tido eu mesmo essa ideia genial. Preciso convencê-los a não tomar o navio antes que seja tarde demais. Tomar o navio pode ser ainda mais perigoso, podemos ficar totalmente perdidos nesse gigante que é o mar, apavorante!

 

 

 

mapa 3Terceiro dia da expedição
Estamos no terceiro dia e parece que faz tempo que estamos aqui. Ninguém está fazendo o mercado negro agora. Estou morrendo de fome. Será que há algo no porão para comer? A única coisa que avisto é um rato morto! Será que vai ter que ser isso mesmo?!! Que nojo! Eca!

Já faz um tempinho que devorei o rato, estou passando mal, começando a delirar, vejo monstros imensos, estão devorando o navio, já não consigo escrever….

Acordei! Estava deitado um pouco sujo de vômito, os marujos devem ter me posto aqui… vou ver como estão as coisas…

 

 

mapa 4Quarto dia de expedição
Ainda estamos no quarto dia da expedição e parece que estamos aqui há uma eternidade. Estava tudo correndo bem hoje, até que… PIRATAS!! Fomos atacados por piratas. Que confusão! Saí correndo para preparar o canhão, precisamos destruir o navio deles! BANG!! Tudo aconteceu mais ou menos assim: Bang, bang, acertei o mastro da navio pirata, e os marujos comemoram. Eles estão recuando desesperados!! Uns foram engolidos pelo mar agitado. Viva! Seguiremos rumo às Índias, com menos desespero…e, agora, tenho mais prestígio por ter livrado a nossa pele dos piratas. À noite, percebi que um dos marujos fazia mercado negro e consegui comprar o suficiente para mais alguns dias. Tive uma enorme surpresa. Quando fui negociar essa compra, achei um mapa do tesouro, caído no chão, deve ter caído do bolso de um dos piratas que invadiram a embarcação. Guardei-o cuidadosamente, porque se eu sair vivo daqui, encontrar a tal ilha, do tesouro, será a minha próxima aventura. Será que esse mapa me trouxe sorte, é um sinal?

 

mapa 5Quinto dia da expedição
Um grito muito alto me acordou: “TERRA À VISTA!!!!” Foi uma comemoração sem fim, dos marujos, do capitão, de todo mundo. Acho que não preciso mais me preocupar em fazer a tripulação desistir do motim, de repente esse grito pode ser uma dica de que já mudaram de ideia. Não vejo a hora de avistar às Índias e depois, de volta, o Porto de Palos, na Espanha, para rever a minha família. Por ora, vou parando de escrever, preciso ajudar os meus companheiros a abastecer a caravela. Estamos nas Ilhas Canárias. Além da alegria de ter encontrado essas Ilhas, bem na hora em que começa a faltar tudo, inclusive água, mas eu também queria ter uma outra, a mais bonita alegria depois de ter abastecido o navio: de noite, tranquilo, sem fome e sem sede, dormir e sonhar com a minha querida terra e com a minha família amada.

Coca-cola e a adoção

Por Maria Inês de C. Delorme
Pós-doutorado na área de Infância.
Professora da rede publica municipal do RJ e da Faculdade de Educação da UERJ.

Apoiar a adoção é um dever de amor, mesmo no caso de famílias sem experiências de adoção. Talvez esse seja um dos temas que tangencie uma unanimidade, não mais apenas envolvendo adoção de crianças, mas também de animais. Claro, entre crianças e os outros animais há processos de adoção bastante diferentes, com níveis de compromissos também diferentes e em todos os casos, temperados de complexidades.

Sabe-se que adotar uma criança exige uma disponibilidade interna que precisa reunir amor, compromissos e responsabilidades por parte dos adultos. E, não é pouco comum que eles se perguntem, durante o processo de adoção, se amarão os filhos adotivos como já amam os biológicos, quando é o caso, ou se amarão como se o fossem. As pessoas que têm filhos, biológicos e não biológicos, sabem que o amor é construído no cotidiano, na relação diária entre mães, pais, filhos, irmãos, tios, amigos, vizinhos, avós.

Mas, eventualmente pode passar pela cabeça de alguns adultos, nesse processo de adoção, se as crianças a serem adotadas irão amá-los como pais e mães “verdadeiros”. Será que ele, ou ela, vai gostar de mim? Vai nos identificar como pai e mãe? E para essa dúvida, vale a mesma reflexão. Também as crianças aprenderão a amar seus pais e irmãos a partir da vivencia cotidiana de afetos, cuidados e compromissos que irão se estabelecer, em que o amor vai se construindo no passo, se fortalecendo no percurso. Pais, irmãos e filhos se adotam mutuamente, como precisa acontecer também com os filhos biológicos que afetivamente, desde que são gerados, depois que nascem e ao longo da vida deverão ter sido adotados amorosamente pela família. Ter o mesmo sangue e as marcas genéticas dos envolvidos não garante essa adoção amorosa, integral e definitiva.

As crianças pensam e sempre têm o que dizer sobre o mundo delas, sobre o dos adultos, sobre episódios que mobilizam as pessoas dos seus e de outros tempos. Elas também podem falar sobre adoção, como vejo acontecer. Quando assisto a propaganda da Coca-Cola que está no ar, onde há uma criança negra, um pai e uma mãe brancos, tentando conversar sobre adoção, fico assustada. Não pelas diferentes etnias, mas pelo uso dessas diferenças étnicas, nessa publicidade, como um recurso para remeter o telespectador à ideia de um filho não biológico. Não acho a melhor forma de abordagem, mas não me parece o mais grave.

Assustador é o discurso da linda menina negra, com uma fala totalmente adulta, forjada por adultos para expressar e esclarecer o que os pais não conseguem dizer. Independente do teor do que é dito pela criança, o texto é adulto, dito pela criança que deve tê-lo decorado para aparecer na televisão e talvez, também, para ganhar um cachê.
O uso de crianças em propagandas televisivas muitas vezes é desrespeitoso e maquiado. Nenhuma criança daquela idade, daquele tamanho saberia formular uma frase daquela forma e isso enfraquece, a meu ver, a compreensão maior da adoção, o respeito às crianças e, também, o produto que discretamente veiculam. A Coca-Cola já não faz bem às crianças, agora nem aos adultos, nem à adoção.

Pacto pelo Rio Carioca

É neste sábado, dia 18. O Movimento rio do Rio convida os interessados em participar do I Encontro rio do Rio que terá a finalidade de debater, em diversas mesas temáticas, as ações que darão estrutura e objetividade ao trabalho de recuperação do Rio Carioca – o  primeiro rio urbano do Brasil a ser restaurado e que servirá como parâmetro para outras iniciativas na área. O evento será realizado na sede do Centro Cultural da Sociedade dos Engenheiros e Arquitetos do Estado do Rio de Janeiro situado à Rua do Russel nº01 – Glória, Rio de Janeiro – RJ.

Saiba mais sobre o movimento.
Leia a entrevista com Silvana Gontigo, presidente do planetapontocom

O Movimento rio do Rio tem obtido o apoio de importantes entidades brasileiras e internacionais, bem como o engajamento entusiasmado da imprensa, tanto das organizações como dos profissionais, a participação de expressivas lideranças comunitárias, o trabalho voluntário de grande número de profissionais especializados em saneamento e saúde, urbanismo, meio ambiente, recursos hídricos, políticas ambientais e direito ambiental.

Os interessados devem confirmar presença pelo email: christiana@planetapontocom.org.br 

Veja a programação abaixo.

Programação:

9:00h – Abertura – Apresentação do Movimento O rio do Rio

Painéis de Apresentação e Rodada de Negociações

10:00h – Eixo Programático I – Proteção dos Mananciais
Moderador: Monica Schlee

10:40h – Eixo Programático II – Prevenção de Riscos
Moderador: Antonio Carlos Guedes

11:20h – Eixo Programático III – Despoluição
Moderador: Alexandre Pessoa

12:00h – Eixo Programático IV – Educação
Moderador: Silvana Gontijo

12:40h – Almoço

13:40h – Eixo Programático V – Recuperação do Patrimônio Histórico e Cultural
Moderadora: Monica Schlee

14:20h – Eixo Programático VI – Replantio das Margens e Renaturalização do rio
Moderadora: Laís Sonkin

15:00h – Eixo Programático VII – Gestão
Moderadora: Maria Lobo

15:40h – Rodada Final
Elaboração do Pacto do Rio Carioca