Valorizar o professor

Mensagem da Unesco pelo Dia do Professor

A cada ano, no Dia Mundial dos Professores, nós celebramos as contribuições ilimitadas realizadas por professores em todo o mundo. Dia após dia, ano após ano, essas mulheres e esses homens dedicados a orientar e acompanhar estudantes pelo mundo da aprendizagem, ajudando-os a descobrir e a realizar seu potencial. Ao fazê-lo, os professores não apenas ajudam a construir o futuro individual de milhões de crianças – eles também ajudam a construir um mundo melhor para todos.

A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável realiza essa importante conexão entre educação e desenvolvimento. Ao adotar o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4, os líderes mundiais se comprometem a “assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos”. Esse objetivo não poderá ser alcançado se não aumentarmos a oferta de professores qualificados e se não os empoderarmos para serem agentes da mudança educacional na vida dos estudantes que eles ensinam.

A situação é urgente. Para se alcançar a educação primária universal até 2030, precisamos de mais 24,4 milhões de professores. Esse número é ainda maior para a educação secundária, área em que são necessários 44,4 milhões de professores.

Como podemos formar esses novos professores e atraí-los para a profissão essencial do ensino quando, em todo o mundo, muitos professores têm formação deficiente, são mal pagos e subvalorizados?

Muitos professores ainda trabalham com formas inadequadas de contrato e de pagamento. Com frequência, eles vivem em condições difíceis e não têm formação inicial adequada, desenvolvimento profissional continuado, nem apoio consistente. Às vezes, eles são vítimas de discriminação e até mesmo de ataques violentos.

A docência poderia ser atrativa, uma das profissões mais escolhidas – se os professores fossem valorizados de forma compatível ao imenso valor que eles oferecem às nossas crianças, e se o seu status profissional como educadores refletisse o enorme impacto que a sua profissão tem no nosso futuro compartilhado.

Isso significa proporcionar a eles formação e desenvolvimento continuados, para apoiá-los em seu papel fundamental de educar todas as crianças, em todos os contextos – incluindo as comunidades mais pobres e mais remotas, bem como nas comunidades que passam por situações de crise. Isso significa compensá-los de maneira adequada e fornecer a eles as ferramentas de que precisam para desempenhar suas atividades indispensáveis. Isso significa colocar em prática políticas que salvaguardem e reforcem o status dos professores – começando por se dar aos professores um lugar na mesa e um papel ativo na tomada de decisões que afetam o seu trabalho. Por fim, isso significa melhorar a eficiência e a eficácia dos sistemas educacionais, em todos os níveis.

Há 50 anos deste dia, esses princípios foram estabelecidos na Recomendação UNESCO/OIT de 1966, relativa à Situação dos Professores, um marco de referência que resultou no primeiro instrumento normativo internacional destinado à profissão docente. Desde aquele dia, temos realizado grandes progressos na elevação do status dos professores – mas ainda existe muito mais trabalho a ser feito.

Nós dedicamos o Dia Mundial dos Professores de 2016 à celebração desse marco, reafirmando o nosso compromisso quanto aos padrões e às aspirações que ele representa – e, da mesma forma, redobrando os nossos esforços para alcançá-los. Os professores de todo o mundo – e as crianças de todo o mundo – não merecem menos do que isso.

Diz aí: qual foi o seu mestre?

Diz aí é uma plataforma de comunicação entre a Globo Universidade e as juventudes brasileiras. Regularmente, o site do projeto traz pequenos vídeos com as reflexões dos estudantes. Neste, abaixo, em comemoração ao Dia dos Professores, os jovens falaram sobre os mestres que marcaram suas vidas. Assista e se inspire. Faca um vídeo também e envie para nós. Vamos publicar aqui na revistapontocom.

Opinião: Dia do professor

Por Daniel Cara
UOL Educação

O dia 15 de outubro de 2016, Dia do Professor, começa com gosto amargo, considerando a tramitação do programa “Escola Sem Partido” (PL 7.180/2014), da medida provisória do Ensino Médio (MP 746) e da PEC das Desigualdades (PEC 241/2016 ou PEC do Teto) no Congresso Nacional.

O projeto de lei do programa “Escola sem Partido” constrange a liberdade de cátedra, propõe uma educação medíocre e permite o estabelecimento de tribunais pedagógicos nas escolas brasileiras, pautados pelo clima de perseguição. Sob o slogan moralista “meus filhos, minhas regras” quer impor aos estudantes o teto de perspectivas dos pais, enquanto o que os alunos querem é aprender para conquistar o mundo. É um projeto infeliz e perigoso, sob diversos aspectos.

A medida provisória do Ensino Médio elimina disciplinas centrais para a formação do estudante, como artes, educação física, filosofia e sociologia, além de desorganizar as redes de ensino, ampliar e carimbar as desigualdades entre alunos de diferentes classes sociais, desconstruir a educação profissional de qualidade, estimular a privatização da educação e concentrar recursos no ensino médio, prejudicando o ensino fundamental e a educação infantil.

Por último, a PEC 241/2016 – entre muitos outros efeitos danosos – inviabiliza, por 20 anos, a transferência de recursos do governo federal para a educação básica. Sem esse dinheiro, é impossível a justa equiparação da média salarial entre os docentes e os demais profissionais com a mesma escolaridade.

Além disso, a PEC das Desigualdades não permite a melhoria das condições de trabalho do magistério, o que aconteceria por meio da efetiva implementação do Plano Nacional de Educação (PNE) 2014-2024 e, consequentemente, do Custo Aluno-Qualidade Inicial (CAQi). O CAQi é o mecanismo capaz de garantir escolas públicas com professores melhor remunerados, com política de carreira, formação continuada, número adequado de alunos por turma, bibliotecas, laboratórios de ciências, laboratórios de informática, Internet banda larga, quadra poliesportiva completa, alimentação escolar nutritiva e bom transporte escolar. Não há como dizer que isso não é justo.

O projeto de lei do programa “Escola sem Partido”, a MP do Ensino Médio e a PEC 241/2016 são projetos que recrudescem a pior tradição educacional brasileira: tratar os professores como culpados pelas mazelas educacionais. Poucos brasileiros têm a consciência de que os docentes são profissionais que, como quaisquer outros, necessitam ter condições de trabalho adequadas e serem remunerados de forma justa.

Para não enfrentar esse fato, já há alguns anos, a moda no debate público é dizer que é preciso atrair os melhores alunos das melhores universidades para o magistério. É um discurso fácil, pautado por uma meia verdade. É óbvio que qualquer área deseja atrair jovens talentos. Porém, quando gestores públicos e formadores de opinião repetem esse mantra, querem dizer, na verdade, que é preciso trocar os profissionais da educação que atuam nas escolas públicas por outros. Consideram que eles não servem. Quando muito, dizem que o problema dos educadores se resolve com formação continuada. Não é por ai.

Todo profissional, em qualquer área, precisa aprender continuamente – não apenas o professor. Ademais, quantos brasileiros formados nas melhores universidades aceitariam um salário inicial de cerca de R$ 2 mil por uma jornada de 40 horas, enfrentando condições de trabalho ruins e sem uma política de carreira capaz de permitir a construção de um projeto de vida? Não é a toa que as redes públicas, semana a semana, perdem bons profissionais concursados, muitos deles jovens promissores com boa formação.

O Brasil é país paradoxal. A maior parte dos gestores públicos e dos formadores de opinião que se dedicam à educação básica sequer pisou em uma escola pública. Se muito, entre esses, um ou outro conhece algum clássico obrigatório da pedagogia. E como se isso fosse pouco, os parlamentares atuais propõem projetos de lei absurdos como o “Escola sem Partido” e o Poder Executivo, liderado por Michel Temer (PMDB-SP), tem a coragem de propor textos legislativos terríveis, como a MP do Ensino Médio e a PEC 241/2016.

Diante desse cenário, embora o gosto amargo na boca em pleno Dia do Professor, os docentes têm um alento, o mais importante de todos. Ao olhar adiante verão os jovens que ocupam escolas. Eles pedem uma nova prática pedagógica, a valorização docente e uma educação emancipadora. Mais do que isso, levantam a voz e organizam bons argumentos contra o “Escola sem Partido”, a MP do Ensino Médio e a PEC 241/2016, todas medidas que impossibilitam os direitos educacionais.

Os jovens querem algo básico: uma educação que os faça crescer, que os faça ser plenos. E mesmo enfrentando um aparato repressivo intolerante e muito bem estruturado em cada Estado do país, perseveram – quase sempre de mãos dadas com seus professores, como está ocorrendo nesse momento no Paraná, para citar apenas um bom exemplo.

Os estudantes são a prova de que o trabalho pedagógico compensa, mesmo diante das péssimas condições para a realização do processo de ensino-aprendizagem. Mais do que isso, os alunos manifestam vibrante disposição para mudar o rumo das coisas e para que os professores sejam respeitados como profissionais.

E assim… ao tomar conhecimento de cada atividade pedagógica em uma escola ocupada, a cada estudante que exige uma nova educação, o amargor da boca vai se diluindo e começa a surgir um sorriso de satisfação, ainda tímido, um pouco cansado, talvez, mas ele cresce, vai ganhando todo o rosto…

E é nesse momento de leveza, com a consciência de que o dever está sendo cumprido – apesar dos pesares! – que eu quero desejar um Feliz Dia da Professora e um feliz Dia do Professor a cada uma e a cada um dos dois milhões de docentes brasileiros.

Parabéns por tirarem leite de pedra, a cada dia!

Parabéns pela generosidade e pelo compromisso profissional de cada um de vocês!

E – mais do que tudo – parabéns por manterem viva a chama da esperança nessa nação, embora ela jamais tenha retribuído e lhes respeitado como deveria: verdadeiramente considerando vocês profissionais imprescindíveis para o desenvolvimento justo e sustentável de nosso país.

Parafraseando Mario Quintana, “a todos aqueles que atravancam nosso caminho, eles passarão, nós passarinhos”.

Hora do código: preparado?

De que forma a tecnologia pode auxiliar o ensino na sala de aula? De 7 a 11 de novembro, será realizado o evento a Hora do Código. Trata-se de um movimento global, realizado pela Code.org, que busca aproximar a programação de alunos, professores e pais. E isso acontece por meio de eventos organizados por qualquer pessoa – mesmo aquelas que não tem experiência com códigos – em qualquer lugar do mundo.

No Brasil, neste ano, o Programaê!, que é um dos principais apoiadores desse movimento, quer mobilizar escolas de todo o país para experimentarem o poder transformador da tecnologia. Por isso, vai realizar a primeira edição do Hora do Código nas Escolas.

Nas redes sociais, os professores estão sendo convidados a participar. Leia a chamada: “Já teve uma ideia incrível para um aplicativo e não soube como criá-lo? Ou, quem sabe, pensou em um game que todos adorariam jogar? E se a gente te dissesse que com a #HoradoCódigo – iniciativa global que quer desmistificar a programação e provar que ela não é nenhum bicho de sete cabeças –, você aprende como realizar tudo isso e ainda se diverte com os personagens de Frozen, Star Wars e muito mais? Demais, não é? A ideia é simples: queremos que você programe por pelo menos uma hora durante uma semana – realizando nossas atividades sozinho ou em grupo, de qualquer lugar do mundo! Acredite: para participar, não precisa ter experiência nenhuma com os códigos!”.

Veja o passo a passo para participar, publicado pela Revista Nova Escola:

Passo 1: Participe do Curso de Formação para Professores
O Programaê!, a Fundação Telefônica e a Fundação Lemann desenvolveram um curso online de formação especialmente voltado para professores que querem realizar a Hora do Código nas suas escolas. Além de conhecer os objetivos do movimento, o material esclarece as principais dúvidas sobre a organização do evento. Para acessar o material, clique aqui.

Passo 2: Cadastre-se na plataforma
No momento do cadastro, escolha o perfil “professor”. Assim, você terá acessado a um ambiente exclusivo para criar suas turmas, gerenciar os alunos, definir quais conteúdos serão disponibilizados para cada grupo e acompanhar a evolução dos estudantes. Faça o cadastro aqui.

Passo 3: Crie os grupos
Acesse o site com seu usuário e senha, clique em “Contas e Progresso do Aluno”, depois em “Nova Turma” e, por fim, preencha os seguintes campos:
– “Seção”: crie um nome para a turma;
– “Tipo de Login”: escolha uma forma de autenticação para os alunos se cadastrarem;
– “Grau”: informe a idade dos estudantes; e
– “Curso”: selecione uma das opções para ser desenvolvida com o grupo

Passo 4: Inscreva os alunos e gere os cartões de acesso
Ainda é preciso cadastrar os alunos. Para isso, siga o roteiro abaixo:
Na tela de “Contas e Progreso do Aluno”, clique em “Gerenciar Alunos”;
Clique em “Adicionar Aluno” para cadastrar um por um, ou “Adicionar Vários Alunos”, para inclui-los todos de uma única vez.

Semana de ciência e tecnologia

 

Um convite para as escolas: nos dias 18, 19 e 20 de outubro a Universidade Federal do Rio de Janeiro vai realizar a edição 2016 da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia. O evento acontece na Cidade Universitária. Quem participar vai poder aprender interagindo em oficinas e atividades culturais. Tudo gratuito e de livre acesso. Estudantes e profissionais da educação básica são público preferencial do evento. Não é preciso inscrição prévia. Basta organizar sua escola ou grupo e participar.

Clique aqui e confira a programação completa do evento.

Para dar suporte à participação de instituições públicas de ensino, a UFRJ vai viabilizar transporte para escolas a partir de alguns pontos da zona norte e da Baixada. Clique aqui para solicitar transporte para sua escola. Este ano a SNCT acontece integrada à 7a Semana de Integração Acadêmica da UFRJ. Conheça as conferências, mesas de debate e outras atividades da SIAC.

 

Arte e percepção de mundo

Em tempos de discussão da reforma do Ensino Médio, interessante ler o artigo abaixo, escrito por Camille Paglia, sobre o impacto do ensino da arte (ou da falta dele) na percepção do mundo. Texto publicado pelo site Fronteiras do Pensamento.
“A arte é o casamento do ideal e do real. Fazer arte é um ramo da artesania. Artistas são artesãos, mais próximos dos carpinteiros e dos soldadores do que dos intelectuais e dos acadêmicos, com sua retórica inflacionada e autorreferencial. A arte usa os sentidos e a eles fala. Funda-se no mundo físico tangível.” – Camille Paglia, Imagens cintilantes

A escritora norte-americana Camille Paglia é conhecida por desafiar as ideias em voga nos mais diversos campos. Professora de Humanidades e Estudos Midiáticos da University of the Arts da Filadélfia, é autora de obras que misturam cultura pop, história da arte, sexualidade e os diferentes meios que tornam o homem um espectador: seja na frente da televisão, de um Pollock ou de sua própria vida.

Em sua mais recente obra, Imagens cintilantes – uma viagem através da arte desde o Egito a ‘Star Wars’ (Apicuri, 2014), Camille retorna ao local que a consagrou, a crítica à arte contemporânea. No livro, a autora analisa 29 obras que considera fundamentais na história da arte e afirma, com certa decepção, que os jovens deixaram ofícios como a pintura e a escultura para emprestar sua lealdade à tecnologia e ao design industrial.

Paglia resumiu o panorama que motivou a criação de Imagens cintilantes:

“O olho sofre com anúncios piscando na rede. Para se defender, o cérebro fecha avenidas inteiras de observação e intuição. A experiência digital é chamada interativa, mas o que eu vejo como professora é uma crescente passividade dos jovens, bombardeados com os estímulos caóticos de seus aparelhos digitais. Pior: eles se tornam tão dependentes da comunicação textual e do correio eletrônico, que estão perdendo a linguagem do corpo.”

De acordo com ela, esta degeneração gradativa da percepção/expressão tem um grande inimigo: o mercado – das galerias às instituições de ensino. Segundo a norte-americana, este mercado não é apenas um objeto a ser combatido, mas sim um profundo problema de visão sobre a vida, que parte, também, do espectador. Ensinado a enxergar o mundo apenas de forma política e ideológica, o homem contemporâneo teria perdido a esfera do sensível, do invisível, do metafísico. Este contexto de constante estímulo atinge a sociedade como um todo, como Camille argumenta logo na introdução da obra:

“A vida moderna é um mar de imagens. Nossos olhos são inundados por figuras reluzentes e blocos de texto explodindo sobre nós por todos os lados. O cérebro, superestimulado, deve se adaptar rapidamente para conseguir processar esse rodopiante bombardeio de dados desconexos. A cultura no mundo desenvolvido é hoje definida, em ampla medida, pela onipresente mídia de massa e pelos aparelhos eletrônicos servilmente monitorados por seus proprietários. A intensa expansão da comunicação global instantânea pode ter concedido espaço a um grande número de vozes individuais, mas, paradoxalmente, esta mesma individualidade se vê na ameaça de sucumbir.

Como sobreviver nesta era da vertigem? Precisamos reaprender a ver. Em meio à tamanha e neurótica poluição visual, é essencial encontrar o foco, a base da estabilidade, da identidade e da direção na vida. As crianças, sobretudo, merecem ser salvas deste turbilhão de imagens tremeluzentes que as vicia em distrações sedutoras e fazem a realidade social, com seus deveres e preocupações éticas, parecer estúpida e fútil. A única maneira de ensinar o foco é oferecer aos olhos oportunidades de percepção estável – e o melhor caminho para isso é a contemplação da arte.”

Ainda em seu texto introdutório, Camille critica as instituições de ensino por falharem completamente no ensino da visão que nos tiraria desta vertigem. Se precisamos reaprender a ver, as faculdades de arte, para ela, poderiam ser consideradas mais um empecilho do que uma parceira nesta tarefa. Leia, abaixo, o que ela tem dizer sobre isso a partir de excerto do livro Imagens cintilantes:

“É de uma obviedade alarmante que as escolas públicas norte-americanas têm feito um mau serviço na educação artística dos estudantes. Da pré-escola em diante, a arte é tratatda como uma prática terapêutica – projetos com cartolina do tipo “faça você mesmo” e pinturas com os dedos para liberar a criatividade oculta das crianças. Mas o que de fato faz falta é um quadro histórico de conhecimentos objetivos acerca da arte. As esporádicas excursões ao museu, mesmo que haja um por perto, são inadequadas. Os cursos de história da arte deveriam ser integrados ao currículo do ensino primário, fundamental e médio – uma introdução básica à grande arte e a seus estilos e símbolos. O movimento multiculturalista que se seguiu à década de 1960 ofereceu uma tremenda oportunidade para expandir o nosso conhecimento do mundo da arte, mas suas abordagens têm com demasiada frequência sacrificado a erudição e a cronologia em favor de um partidarismo sentimental e de queixumes rotineiros.

Era de se esperar que as faculdades que oferecem cursos de artes liberais dessem ênfase à educação artística, mas não é esse o caso. O atual currículo, de estilo self-service, torna os cursos de história da arte disponíveis, mas não obrigatórios. Com raras exceções, as universidades abandonaram toda noção de um núcleo de aprendizado. Os departamentos de humanidades oferecem uma mixórdia de cursos feitos sob medida para os interesses de pesquisa dos professores. Tem havido um gradual eclipse, nos Estados Unidos, do curso de história geral da arte, que cobria magistralmente, em dois semestres, da arte das cavernas ao modernismo. Apesar de sua popularidade entre os estudantes, que se recordam deles como pontos culminantes em suas vivências universitárias, os cursos gerais são cada vez mais vistos como excessivamente pesados, superficiais ou eurocêntricos – e não há mais vontade institucional de estendê-los para a arte mundial.

Jovens professores, criados em meio ao pós-estruturalismo, com sua suspeita mecânica da cultura, consideram-se especialistas, e não generalistas, e não foram treinados para pensar sobre trajetórias tão vastas. O resultado final é que muitos alunos de humanidades se formam com pouco senso da cronologia ou da deslumbrante procissão de estilos que constituía a arte ocidental.

A questão mais importante acerca da arte é: o que permanece e por quê?

As definições de beleza e os padrões de gosto mudam constantemente, mas padrões persistentes subsistem. Defendo uma visão cíclica da cultura: os estilos crescem, chegam ao ápice e decaem para tornarem a florescer, num renascer periódico. A linha de influência artística pode ser vista claramente na cultura ocidental, com várias interrupções e recuperações, desde o Egito antigo até hoje – uma saga de 5 mil anos que não é (como diria o jargão acadêmico) uma “narrativa” arbitrária e imperialista. Grande número de objetos teimosamente concretos – não apenas “textos” vacilantes e subjetivos – sobrevivem desde a antiguidade e as sociedades que moldaram.

A civilização é definida pelo direito e pela arte. As leis governam o nosso comportamento exterior, ao passo que a arte exprime nossa alma. Às vezes, a arte glorifica o direito, como no Egito; às vezes, desafia a lei, como no Romantismo.

O problema com abordagens marxistas que hoje permeiam o mundo acadêmico (via pós-estruturalismo e Escola de Frankfurt) é que o marxismo nada enxerga além da sociedade. O marxismo carece de metafísica – isto é, de uma investigação da relação do homem com o universo, inclusive a natureza. O marxismo também carece de psicologia: crê que os seres humanos são motivados apenas por necessidades e desejos materiais. O marxismo não consegue dar conta das infinitas refrações da consciência, das aspirações e das conquistas humanas.

Por não perceber a dimensão espiritual da vida, ele reduz reflexivamente a arte à ideologia, como se o objeto artístico não tivesse outro propósito ou significado além do econômico ou do político.

Hoje, ensinam aos estudantes a olhar a arte com ceticismo, por seus equívocos, suas parcialidades, suas omissões e ocultos jogos de poder. Admirar e honrar a arte, exceto quando transmite mensagens politicamente corretas, é considerado ingênuo e reacionário. Um único erudito marxista, Arnold Hauser, em seu épico estudo de 1951, A história social da arte, teve bom êxito na aplicação da análise marxista, sem perder a magia e o mistério da arte. E Hauser (uma das influências iniciais do meu trabalho) trabalhava com base na grande tradição da filologia alemã, animada por uma ética erudita que hoje se perdeu.

A arte é o casamento do ideal e do real. Fazer arte é um ramo da artesania. Artistas são artesãos, mais próximos dos carpinteiros e dos soldadores do que dos intelectuais e dos acadêmicos, com sua retórica inflacionada e autorreferencial. A arte usa os sentidos e a eles fala. Funda-se no mundo físico tangível.

O pós-estruturalismo, com suas origens linguísticas francesas, tem a obsessão pelas palavras e, com isso, é incompetente para interpretar qualquer forma de arte além da literatura. O comentário sobre arte deve abordá-la e descrevê-la em seus próprios termos. Deve-se manter um delicado equilíbrio entre os mundos visível e invisível. Aqueles que subordinam a arte a uma agenda política contemporânea são tão culpados de propaganda e rigidez literal como qualquer pregador vitoriano ou burocrata stalinista.

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Camille Paglia (foto: TomCabral/ SantoLima)

Um computador por aluno

Um Computador por Aluno (UCA) é o nome do projeto desenvolvido pelo Ministério da Educação (MEC) desde 2007. O objetivo é incorporar laptops educacionais nas escolas, podendo ser levados para casa para uso dos estudantes e suas famílias. A fim de analisar os processos desencadeados na fase piloto do Projeto UCA, em 2010, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) lançou edital nacional e aprovou o financiamento de 27 projetos de pesquisa para avaliá-lo. Dentre esses projetos, está a pesquisa interinstitucional “Gestão e práticas pedagógicas no âmbito do Programa UCA: desafios e estratégias à consolidação de uma política pública para a educação básica”, desenvolvida entre UDESC, UFBA e UFSC. As reflexões e os resultados obtidos foram publicados no livro Projeto UCA – entusiasmos e desencantos de uma política pública, organizado pelas professoras Elisa Maria Quartiero, Maria Helena Bonilla e Monica Fantini.

A publicação está online. Acesse aqui.

O livro está organizado em seis capítulos. No capítulo I – O Projeto UCA na Bahia e em Santa Catarina –, Elisa Maria Quartiero e Joseilda Sampaio de Souza apresentam o Projeto Um Computador por Aluno e as especificidades dos diferentes contextos em que o mesmo foi implementado, na Bahia e em Santa Catarina.

Os dois capítulos seguintes discutem as dinâmicas em torno da gestão do Projeto, tanto em nível macro, da política federal, quanto em nível micro, das relações vivenciadas nas 21 escolas participantes da pesquisa nos dois estados brasileiros. Em nível macro, no capítulo II, Nelson De Luca Pretto e Lívia Andrade Coelho, com o texto As interfaces da implementação do Projeto UCA na Bahia e em Santa Catarina, analisam as interações e colaborações efetivadas entre as instituições participantes desta fase do Projeto UCA na Bahia e em Santa Catarina, no que tange à efetividade das relações institucionais estabelecidas, com o objetivo de fortalecer a implementação e gestão do Projeto. Em nível micro, Elisa Maria Quartiero, no capítulo III, com o texto A gestão das tecnologias móveis: processos desencadeados nas escolas do Projeto UCA, analisa os processos desencadeados por professores e gestores para a organização e desenvolvimento do Projeto UCA em suas respectivas escolas, na Bahia e em Santa Catarina.

As práticas desenvolvidas com os laptops do Projeto UCA nas quatro escolas participantes do estudo de caso, e em suas comunidades, foram analisadas nos três capítulos seguintes do livro. Maria Helena Silveira Bonilla e Monica Fantin, no capítulo IV, com o texto Olhares sobre a prática pedagógica com o Projeto UCA, discutem as práticas pedagógicas desenvolvidas com os laptops nas escolas, evidenciando a tensão expressa entre as práticas existentes e a emergência de práticas inovadoras, transversalizadas pelas percepções e representações que os professores têm do Projeto e dos laptops. Maria Helena Silveira Bonilla e Joseilda Sampaio de Souza, no capítulo V, com o texto Projeto UCA: dimensão social das práticas, analisam as dinâmicas vividas por alunos, pais e professores com os laptops no âmbito social, buscando compreender como diferentes usos sociais se articulam e potencializam as práticas pedagógicas nas escolas.

E, no capítulo VI, Monica Fantin, com o texto Estudantes e laptop na escola:práticas e diálogos possíveis, discute as relações de crianças e jovens com o artefato na escola, suas percepções e práticas desenvolvidas e as possíveis atividades de aprendizagem nos diferentes cenários investigados.

Hqs e o mundo real

A relação entre os quadrinhos e a representação da realidade está agora reunida e discutida no livro Enquadrando o Real – ensaios sobre quadrinhos, que acaba de ser lançado pela Editora Criativo. A obra nasceu de um projeto da Jornada Temática de Histórias em Quadrinhos, um evento bienal promovido pelo Observatório de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP, em conjunto com o Grupo de Pesquisa sobre Quadrinhos (Grupesq) (Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo).

A publicação traz uma série de artigos gerados como frutos da produção acadêmica que têm como assunto comum e de destaque a representação da realidade em forma de HQs. O livro é dividido em três partes: ensaios sobre quadrinhos biográficos, históricos e jornalísticos.

Para além da constatação de que há graus de representação da realidade nos quadrinhos, interessa observar como e de que maneira os quadrinhos efetivamente retratam situações reais — o quanto há de ficcional nas HQs que pretendem representar a realidade.

Em cada eixo temático (biografia, história, jornalismo), pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento fazem análises de que forma a realidade é expressa e refletida por meio da produção de quadrinhos; a visão plural sobre a questão surge no apanhado dos artigos que exigiram pesquisa, confronto de dados e conclusões que revelam o grau de fidelidade dos quadrinhos aos fatos. A organização é assinada pelos professores Waldomiro Vergueiro, Paulo Ramos e Nobu Chinen.

Mercado audiovisual no Brasil

Com informações da Tela Viva News

A indústria de cinema e televisão no Brasil vai muito bem, obrigado. Pelo menos é o que aponta a pesquisa O Impacto Econômico do Setor Audiovisual Brasileiro, lançada no dia 7 de outubro, no RioMarket 2016, durante a realização do Festival de Cinema do Rio. O estudo mostra que o setor injeta diretamente, e em valores atualizados, R$ 23 bilhões por ano na economia brasileira. O montante equivale a 0,38% do Produto Interno Bruto do Brasil.

Em 2014, a área foi responsável pela criação de 168,8 mil empregos diretos e 327,4 mil indiretos. Em 2012, o setor gerava 110 mil e 119 mil vagas, respectivamente. E mais, para cada emprego criado no setor de audiovisual 1,94 empregos são gerados em outros setores da economia, colocando o audiovisual como um setor altamente demandável por outros da economia (4oº lugar entre os 33o setores de serviço da Matriz Insumo-Produto (MIP) do IBGE.)

A pesquisa foi realizada a partir de dados do IBGE e da própria indústria — que, além da produção de conteúdo, engloba a distribuição e exibição em diversos meios, como salas de cinema e festivais; TV aberta e paga, vídeo sob demanda e a venda e locação em mídia física etc. Segundo o estudo, a arrecadação direta de tributos foi de R$ 2,7 bilhões corrigidos em julho de 2016. Em 2014, o audiovisual gerou uma massa salarial de R$ 7,2 bilhões (alta de 58% em relação a 2007).

A radiografia foi elaborada pela Consultoria Tendências por encomenda da Motion Picture Association na América Latina (MPA-AL) e apoio do Sindicato da Indústria do Audiovisual (Sicav).

Consumo

Entre 2013 e 2015, verificou-se elevação do número de ingressos de cinema vendidos no país (de 149,5 milhões para 173 milhões de ingressos no período). No mesmo intervalo, o número de salas de exibição aumentou 12,2%, passando de 2.679 salas para 3.005 salas.

O percentual de salas capazes de reproduzir conteúdo digital apresentou significativa elevação, passando de 31,1% do total de salas em 2012, para 95,7% do total de salas no primeiro trimestre de 2016.

Apesar dessa evolução, o acesso ao cinema no Brasil continua limitado. Em 2015, 93,2 milhões de pessoas não possuíam acesso ao cinema no município de residência – número que representa cerca de 46% da população brasileira. Destaca-se que, apesar do percentual ainda elevado, houve uma melhora nos últimos anos, sendo que em 2012, a população sem acesso a salas de exibição nos municípios de residência correspondia a mais da metade do total (51,6%).

VoD e pirataria

O estudo também abordou o impacto do vídeo on-demand (VoD) no mercado audiovisual. O Brasil é o 8º mercado de VoD do mundo (faturando quase 500% a mais de cinco anos para cá), com receitas estimadas em US$ 352,3 milhões em 2016. É ainda o maior mercado latino-americano de VoD, praticamente duas vezes maior do que o do México e quase três vezes o mercado argentino em termos de receitas (estimadas em US$ 188,4 milhões e US$ 124,8 milhões em 2016, respectivamente).

Se o VoD é uma das soluções para coibir a pirataria, o consumo ilegal de conteúdo audiovisual ainda é enorme. O estudo aponta que existem mais de 400 websites de pirataria audiovisual voltados para o mercado brasileiro, entre os quais 57 recebem mais de um milhão de visitas mensais, oferecendo mais de 13 mil títulos nacionais e estrangeiros. Entre dezembro de 2015 e maio de 2016, estes sites receberam 1,7 bilhão de visitas.

A Tendência menciona pesquisa da Ipsos e Oxford Economics (2011), que mensurou os impactos para a economia brasileira, estimando que as perdas no PIB sejam de R$ 3,5 bilhões. Do ponto de vista do trabalhador, a pirataria resulta na perda de 92 mil empregos formais.