Memórias da literatura

Um mosaico original e dinâmico – formado por fragmentos da memória oral de editores, escritores, críticos e ilustradores – está ao alcance de todos no projeto digital Memórias da Literatura Infantil e Juvenil, do Museu da Pessoa. Um mundo de histórias de gente grande, que foi criança, mas não deixou de lado o universo infantil.

”Aqui, a Ruth, a Ângela, o Ziraldo, a Tatiana, a Ana Maria e outros tantos aparecem não como escritores, ilustradores, editores ou promotores de cultura que são, mas como pessoas do mundo que narram, como a gente toda narra, um pouco do que viveram de sua infância e descoberta, de suas alegrias e dores de viver e fazer. Aparecem-nos neste espaço como pessoas quaisquer, em suas singularidades, oferecendo ao leitor a palavra que diz suas vidas, suas memórias antigas e recentes, seus fazeres e sonhares”, destaca a proposta do projeto.

Vídeos, textos, imagens, unidos pela tecnologia e pela arquitetura da hipermídia, trazem curiosidades da vida dos que fizeram e fazem a literatura infanto-juvenil. Trata-se de uma enciclopédia virtual e aberta à participação dos interessados, que podem interagir nos fóruns do site e por meio dos comentários.

Acesse aqui

Os professores que visitarem o projeto também têm a oportunidade, inclusive, de acessar o livro Memórias da Literatura Infantil e Juvenil – edição do educador. A publicação tem o objetivo de apresentar e discutir caminhos para a prática educativa, visando inserir e utilizar as histórias de vida como parte do trabalho com a literatura e a formação de leitores. A obra busca fazer um diálogo entre os conteúdos do site e a sala de aula.

Também é imperdível a Linha do Tempo, criada a partir dos relatos dos entrevistados. Uma riqueza de dados e fatos históricos, como a publicação, em 1857, do primeiro livro de literatura infantil. Traduzido do francês por Mateus José da Rocha, seu título era O tesouro dos meninos. Ou o fechamento da editora Giroflê, especializada em literatura infantil, em 1964, nos tempos da ditadura militar.

 

Pra que serve a literatura?

“Cada página literária vai preenchendo dentro do pequeno leitor/ouvinte uma arca de ideias, paisagens, ardis, singelezas, bondades, encantamentos, sustos, indignações, ternuras ? os ingredientes da aventura humana na Terra”,
Maria Betânia Ferreira – educadora.

“Os livros ajudam as crianças a reconhecer, dentro de si mesmas, monstros, príncipes e fadas que neles habitam. E as auxilia a inspirar-se na coragem de Pedrinho, na inteligência de Ulisses, ou a compreender que momentos de desânimo acometem até um herói como Aquiles”
Paulo Bloise  – psiquiatra.

“Com a leitura pode-se ir a épocas nas quais não se pode mais viver. Com a leitura pode-se ir a lugares distantes e inatingíveis. Com a leitura entra-se em contato com pessoas que nunca serão conhecidas pessoalmente. E isso desde a mais tenra infância”
Yves de La Taille – professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo

“A literatura areja as palavras, faz animar a língua, criando novos sentidos. Com o sopro literário as palavras vão a outros lugares e cada leitor fica um pouco diferente, um pouco mais esperto, um pouquinho mais gente”
Lucila Pastorello – fonoaudióloga.

“No processo, vamos entendendo que fazemos parte de uma grande família, que inclui gente que nem conhecemos, mas que celebra em conjunto a festa da palavra, capaz de criar beleza e sentido com os sons que saem da boca humana, mas podem ficar guardados em livros, passados adiante para cada um de nós”
Ana Maria Machado – escritora.

Estes e outros profissionais tentam responder à pergunta – Pra que serve a literatura? – no livro que leva o mesmo título. Trata-se de uma iniciativa do Instituto EcoFuturo que possui uma biblioteca virtual com textos e documentos que dão dicas de como as pessoas podem promover a leitura, seja em casa, na escola ou na própria rua. Há também orientações para pais e responsáveis que desejam incluir a literatura no universo infantil de seus filhos. No livro os autores Ana Maria Machado, Betty Mindlin, Elizabeth D’Angelo Serra, Lucila Pastorello, Luiz Percival Leme Britto, Maria Betânia Ferreira, Nilma Lacerda, Paulo Bloise e Yves de La Taille falam sobre a importância da leitura e para que ela efetivamente serve.  Há uma versão em áudiolivro descritivo que foi elaborado para o acesso de pessoas com deficiência visual ou baixa visão.

Leia, ouça, experimente.

O livro em PDF

O áudiolivro

Indicações de livros

Muito provavelmente você já teve dúvidas na hora de comprar um livro para um bebê, criança ou jovem? Volta e meia a revistapontocom recebe vários pedidos de orientação neste sentido. Para os interessados, aqui vai uma dica valiosa: o Instituto Ecofuturo publicou o livro Leitura para crianças, jovens e adultos, organizado pela bibliotecária e especialista da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), Gláucia Mollo. A obra conta com sugestões de leitura para cada fase da vida, do nascimento à vida adulta.

Leia aqui

A publicação está dividida em sete áreas:

– Livros para manuseio de bebês pequenos (berço)
Esses livros são indicados para que os bebês pequenos possam manipulá-los sozinhos, ainda que não o façam de forma tradicional. Não oferecem risco para os bebês, pois são confeccionados em tecido ou plástico, materiais atóxicos e que podem ser limpos com facilidade para maior higiene. Possuem ilustrações grandes, coloridas ou em preto e branco, e que estão presentes no cotidiano do bebê.

– Livros para manuseio de bebês maiores
Livros indicados para bebês que já possuem maior coordenação motora e que sozinhos ou com a ajuda de um cuidador conseguem utilizá-lo de forma próxima à tradicional (página por página, da esquerda para direita, montar as peças de forma correta, descobrir os sons, reconhecer as texturas etc). São confeccionados de papel cartonado com os cantos arredondados, de materiais atóxicos com ilustrações grandes, coloridas ou em preto e branco.

– Livro brinquedo
Livros indicados para crianças que já possuem autonomia para folheá-los, se divertir, brincar e não se assustar com as histórias, pois em alguns livros as ilustrações são enormes, em alto-relevo que se soltam das páginas e surpreendem o leitor. São livros que agradam crianças de todas as idades, promovendo interação e divertimento.

– Livro de imagem
Livros indicados para crianças alfabetizadas ou não. São livros com ilustrações criativas, originais, coloridas ou em preto e branco.

– Livros com pequenas histórias
Esses livros são indicados para crianças que estão se alfabetizando, pois são escritos com poucas e pequenas frases que dão autonomia de leitura ao leitor iniciante. Os textos são escritos em linguagem simples e que faz parte do universo da criança, e há o predomínio das ilustrações que ampliam o texto.

– Livros para crianças
São livros de diferentes gêneros literários, que possuem um texto de qualidade e que são escritos de forma original, para os leitores com alguma experiência. Possuem ilustrações que complementam e ampliam o texto. Sua temática interessa às crianças.

– Livros para jovens
São livros de diferentes gêneros literários, escritos de forma original, com ou sem ilustrações. Porém, seus textos são mais densos que os infantis e sua temática é pertinente ao público jovem que possui experiência de leitura.

Escrever para as crianças

Por Bartolomeu Campos de Queirós
Escritor, ganhador dos Prêmios Jabuti, Academia Brasileira de Letras, Nestlé de Literatura e Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Falecido em 2012.

Ao fantasiar, experimento a liberdade. Não há preconceitos,  limites ou paredes nesse ato fundador do humano de buscar (em vão) decifrar o absoluto. Fantasiar é o exercício de indagar sobre o meu tamanho, para concluir, sempre, que minha inquietação diante da finitude não resiste horizontes. Há sempre um depois do depois. E só no trabalho criador encontro lugar para fazer da fantasia matéria primordial de meu ofício.

Mas a fantasia não convive com o individual. Por ser filha da dúvida, ela me abre para o diálogo, o encontro, a coesão. Daí a necessidade de lhe dar corpo para que ela se faça uma experiência coletiva. Não se é livre sozinho. Não se fantasia por vaidade, mas pela posse da fragilidade, por saber que com vários olhares se vê com melhor nitidez. Escrevo para o outro sem me afastar de mim.

A arte, bem como a literatura, nasce da liberdade de fantasiar e  não suporta prisões. Tentar engaiolar o fruto da liberdade é lhe cortar as asas, impedir seus vôos, que alcançam maiores distâncias quando impulsionados por muitos sopros. Conhecemos a necessidade da liberdade mas desconhecemos seu extensão. Por ser assim, compreendo, como tantos outros, que o homem possui o tamanho de sua fantasia. O sujeito alcança onde sua fantasia toca.

Ao fazer uma relação entre fantasia e liberdade quero compreender que tanto não se esgota a fantasia como é impossível impedir a experiência da liberdade quando diante da arte, tanto como criador como fruidor. E mais, por compreender a literatura como arte, sei que ela abre portas, mas a paisagem mora no coração do leitor. E, construída a partir da liberdade, a literatura liberta o leitor. Leitor e escritor se somam e escrevem uma terceira obra que jamais será editada. O texto literário revela, mas não invade a intimidade do leitor.

Daí, saber que meu texto surge diante do incômodo de perceber que meu olhar não esgota os objetos. Eles são além de mim. O olhar apenas acaricia a superfície. Escrever passa a ser um convite para que o leitor ajude a trazer para mais perto o mistério do mundo. Minha escrita surge do não saber.

Não tenho a pretensão de escrever “para” as crianças. Esse “para” me soa como se eu fosse um ser acabado, concluído. E eu sei que me faço e me refaço a cada momento sem arranhar o nirvana. Acredito que na infância somos mais densos, mais inteiros, mais completos. Convivemos com a fantasia, a liberdade, a espontaneidade, a inventividade sem saber os seus nomes. São elementos inerentes e necessários à vida, instrumentos de sobrevivência, ferramentas para operar o cotidiano. Crescer é diluir, ao longo da existência, essa fortuna que nos é creditada no nascimento.

Mas para mim não é tarefa simples escrever às crianças, como também não é simples ser professores ou pais. Nossa infância está tão distante de nós, e a palavra “não” já está bastante incorporado em nossa fala, de maneira quase definitiva. E o convívio com os mais jovens só se faz possível quando somos capazes de reinventar a infância perdida. Coisa possível a aqueles que preservam a liberdade.

Como me é impossível ser novamente criança, construo um texto com minhas lembranças de quando estive lá. Preservo na memória meus espantos, meus sustos, minhas tristezas, meus encantamentos diante de um mundo inteiro ainda por conhecer. Não quero um texto nostálgico por entender que não se volta na história, mas não nego a importância do conhecimento da tradição. Não se cresce sem deixar rastro. Procuro construir uma escritura que possa conversar com o mundo da criança, preservando seu universo, e não para lhe roubar a infância que irremediavelmente já perdi.

Sim, pretendo elaborar um texto claro, em ordem direta, com as palavras simples, o que não enfraquece uma escrita. Não quero, no entanto, negar aos jovens leitores as minhas dúvidas, minhas inquietações, meus desassossegos. Para tanto, me amparo nas metáforas: digo “isso” que também pode ser entendido como “aquilo”. Quero um texto capaz de abrigar a singularidade de cada leitor. Isto,suponho, só é possível quando descobrimos que  adulto não é sinônimo de verdade.

Mas diferente de outras linguagens da arte, para que tenhamos entrada na literatura é pré-requisito ser alfabetizado. O convívio da criança com a fantasia e a liberdade vai depender do processo de alfabetização que elegemos. Se compreendemos que alfabetizado é aquele que sabe apenas juntar e separar letras, a literatura se torna dispensável. Mas se alfabetizado é aquele que faz também uma leitura do social, do cultural, do político, a literatura se estabelece como o caminho essencial.

Assim, no meu ato de escrever penso também no objeto livro. Se faço um texto com o que há de melhor em mim gosto de vê-lo apresentado de maneira sedutora. Para tanto, o ilustrador se faz indispensável. Mesmo compreendendo que literatura é feita de palavras e que ler é apropriar-se das palavras, e que as coisas são nomeadas pela palavra, cabe ao ilustrador ser o meu primeiro leitor, capaz de expressar sua leitura por meio de linguagem plástica realizada a partir da sua liberdade e fantasia, para que o livro tenha outros entendimentos e outras admirações.

Mas tenho como crença que é o meu conceito de criança — e cada criança merece um conceito — é que vai dar norte à minha produção. Não penso a infância sem associá-la ao futuro. Presenteamos a criança com o mundo que construímos. Eu me nego a atribuir aos mais jovens o trabalho de “remendar” uma história feita de injustiças, violências, guerras, fomes. Que elas sejam construtoras de um tempo em que a soberania dos homens sobreponha a outros valores.

Por assim pensar, desprezo uma educação repetidora, que ignora a força da fantasia infantil, que nega espaço para que a liberdade alimente o sonho, que desconhece a precariedade do real e esquece que “a vida só é possível reinventada”. Recuso uma escola e uma sociedade que rejeita “educar” em detrimento do “adestrar”. Imagino uma escola em que a literatura não sirva apenas para abrilhantar o currículo, mas desejo um currículo feito de afeto, liberdade e fantasia, como convém à literatura e fundamental para que encontremos mais e mais a nossa própria humanidade.

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Artigo publicado na edição de nº 46 da Revista Nós da Escola, publicação da MultiRio

Livro infantil: o lugar da imagem

Por Marcus Tavares

Escritor, ilustrador, designer gráfico e professor. São muitas as atribuições de Guto Lins. Professor do Departamento de Artes e Design da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio), ele vem assinando vários projetos gráficos para livros infantis. Começou ilustrando, depois tomou gosto e resolveu também se aventurar a escrevê-los. Hoje, no processo de produção de uma obra literária infantil, ele é capaz acumular qualquer um dos papéis. Seja escritor, ilustrador ou designer, ele cria e recria.

Há dois anos, lançou um livro específico para os universitários que estudam o assunto: “Livro infantil?: projeto gráfico, metodologia, subjetividade” (Editora Rosari). A obra mostra a importância da imagem na literatura infanto-juvenil e apresenta um panorama de sua produção pela ótica do design. “Tento dar um panorama do livro infantil e juvenil como produto de design, mostrando a sua estrutura e dando dicas básicas para a tarefa de projetá-lo graficamente”, explica.

Em seu escritório em Botafogo, no Rio, Guto concedeu uma entrevista ao site do RIO MÍDIA (Centro Internacional de Referência em Mídias para Crianças e Adolescentes) sobre o conteúdo do livro. Ele fala sobre o mercado editorial e o lugar da obra infanto-juvenil.

Acompanhe a entrevista.

Qual a importância e o lugar da imagem no livro infantil?
Guto Lins –
O livro infantil é permeado por imagem, seja ela uma ilustração, desenho, grafismo ou a própria forma de você colocar o texto, uma letra maior ou menor. A imagem faz parte da história e ajuda a contar essa mesma história. A linguagem visual é anterior à linguagem falada e escrita. A imagem, portanto, não é uma mera figuração. Ela não está lá para o livro ficar bonitinho. É também uma linguagem. Por meio dela, por meio da interpretação do ilustrador, a criança tem a oportunidade conhecer outras visões da história. O texto escrito conta uma história recheada de imagens nas linhas e nas entrelinhas. A imagem complementa e enriquece esta história, a ponto de cada parte de uma imagem poder gerar diversas histórias. O texto e a imagem juntos dão ao leitor o poder de criar na sua cabeça a única história que realmente interessa. A história dele.  Além disso, a carga escrita de um livro infantil é pequena se comparada com a que se veicula em outros títulos. Desta forma, a imagem também tem a função de dar corpo ao livro, de dar mais consistência física à obra, possibilitando uma melhor formatação e venda do produto final.

A imagem sempre teve esta importância?
Guto Lins
– Não. Esta importância veio sendo construída ao longo das últimas décadas com a evolução gráfica do setor. Se pegarmos os livros antigos, vamos observar que muitos deles traziam 10 ou 15 ilustrações numa obra com cerca de 200 páginas. Hoje, totalmente inconcebível. O lugar de destaque que a imagem ocupa atualmente nas publicações infanto-juvenis é fruto de uma série de questões. Primeiro, não podemos nos esquecer que vivemos hoje numa sociedade que possui um outro tempo e ritmo, uma outra linguagem estética. Quando eu era criança, a TV era preto e branco. Hoje, as crianças têm à disposição canais coloridos e exclusivos, 24 horas por dia. A ilustração extremamente literal ou puramente ornamental e decorativa não representa mais a diversidade, a pluralidade e a riqueza de informações visuais a que as crianças de hoje têm acesso. Além disso, a evolução, sem dúvida nenhuma, do parque gráfico e o surgimento do computador também contribuíram para essas mudanças. Uma imagem colorida impressa em um livro dos anos 50 ou 60 era muito cara e, às vezes, inviável. A globalização também é um outro ponto. Ela permitiu um maior intercâmbio de títulos, recursos e serviços e a uma maior profissionalização do setor. O ilustrador amador que ilustrava os livros como hobby, ou nas horas vagas, deu lugar a um profissional com formação acadêmica, criterioso e encarregado de dar qualidade estética, funcional e lúdica ao produto.

Neste sentido, qual é o profissional encarregado pela definição do projeto gráfico de um livro infantil?
Guto Lins
– No Brasil, o projeto gráfico de livros infanto-juvenis, na maioria das vezes, é executado pelo próprio ilustrador. Atualmente, as grandes editoras brasileiras contam com um setor próprio de designer gráfico, que planeja toda a concepção da obra, convidando então um ilustrador profissional para participar da elaboração do projeto. Até a alguns anos atrás, o projeto gráfico dos livros era colocado em segundo plano. O ilustrador brasileiro era contratado apenas para executar as ilustrações e a sua participação na produção do livro era mínima e até evitada tanto pelas editoras quanto pelos próprios artistas. Isso hoje não acontece. O projeto gráfico precisa ser dinâmico, estruturado e conversado bastante com o ilustrador. O bate-papo é fundamental em todo o processo, caso contrário você engessa o ilustrador e inviabiliza o próprio projeto.

Podemos afirmar então que o livro infantil, nos últimos tempos, se industrializou? E neste sentido, qual é o seu desempenho no mercado?
Guto Lins
– Embora ele tenha toda a nobreza, não só por estar ligado à literatura, mas porque também está ligado à criança e à escola, o livro é um produto industrial como o sabão em pó. E como tal tem que vender. O fato é que o mercado editorial brasileiro vive um cotidiano complicado. Como se lê pouco, as editoras produzem pouco. O preço então encarece. Sendo caro, o leitor não compra e acaba, portanto, lendo muito pouco. Entramos num círculo vicioso. A tiragem de um livro infantil no Brasil fica em torno de três a cinco mil exemplares. Mesmo assim, a publicação, às vezes, fica nas prateleiras das livrarias mais de dois anos por conta de todo esse processo que falei. Do valor cobrado por um livro, 10% é do autor, mesmo que ele divida os direitos autorais com o ilustrador. Na verdade, varia de 8 a 12%, mas em média pagam 10%. A editora também embolsa uma taxa entre 10 e 15%. A maior fatia do bolo fica com a distribuição. Cerca de 50 a 55% do preço do livro são destinados para os distribuidores. Existe uma brincadeira no mercado que diz que quem ganha mais dinheiro com os livros é o dono da Kombi. Num país como o nosso, de dimensões continentais, a logística é a chave e o grande negócio. Os 20% restantes são destinados para o pagamento do custo de produção do livro. Para estimular a venda, as editoras têm como foco as escolas e não o varejo. Muitos livros que você pensa em comprar não estão nas livrarias. É muito mais interessante para as editoras vender os seus livros nas escolas do que espalhar pelas livrarias do país. Não compensa. Neste sentido, somente as grandes redes de livrarias recebem parte da produção das editoras. Todo o resto é voltado para as escolas.

Isso é bom ou ruim?
Guto Lins
– É a realidade. O problema é que, ao trabalhar desta forma, a maioria das editoras editam livros que agradam aos professores e às escolas. Acaba-se didatizando a literatura. Quando ela foca a venda na escola, que tipo de escola ela tem em mente: a da Zona Sul do Rio de Janeiro ou a escola rural do Pará? O risco de didatizar e de nivelar por baixo é muito grande. Pelo que tenho visto, o Brasil, por exemplo, é o único lugar do mundo em que o livro vem com uma bula. Ele é acompanhado por uma cartilha de instruções que traz dicas para o professor trabalhar o livro em sala de aula. Aqui no Brasil também pouco se vê o livro infantil sem texto. Num livro sem texto quem constrói a interpretação é o leitor. Em uma sala de aula, um livro sem texto vai produzir diferentes interpretações. Como o professor vai trabalhar com todas estas interpretações num tempo de aula? Dá muito trabalho e muitas vezes os professores não estão preparados e nem tem tempo para isso. O que é uma pena. O professor trabalha muito e ganha pouco. É quase um sacerdócio.

O mercado de literatura infanto-juvenil é promissor?
Guto Lins
– Sem dúvida nenhuma. É um mercado que tem uma demanda muito reprimida. São milhões de leitores potenciais. A tendência é crescer sim, mas como qualquer mercado precisa de investimentos. As editoras sabem que se não fizerem novos leitores, a médio e a longo prazo, elas não terão compradores, consumidores. Não adiantará fazer o melhor livro do mundo pois não haverá comprador. Não tem escapatória. As editoras têm que criar leitores para conseguir vender livros, para conseguir abaixar os custos, para conseguir competir no mercado, caso contrário elas vão quebrar.

Receita: livro

Os primeiros anos da vida de uma criança são fundamentais para seu desenvolvimento. É nesse período que a formação de conexões cerebrais é mais propícia. Além disso, há cada vez mais evidências de que a arquitetura do cérebro é construída a partir das experiências vivenciadas. Por isso, os médicos afirmam que é muito importante oferecer cuidado, afeto e estímulos o mais cedo possível à criança, até mesmo durante a gestação, para que ela possa desenvolver de forma plena habilidades como pensar, falar e aprender. Neste sentido, um dos principais estímulos que pais e cuidadores podem oferecer à criança – da gestação até aos 6 anos – é a leitura. Prática que se tornou uma recomendação médica dentro e fora do país.

Com o objetivo de mobilizar médicos pediatras a estimularem a leitura parental, a Sociedade Brasileira de Pediatria, em parceria com a Fundação Itaú Social e a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, lançou a campanha Receite um livrocujo foco é alcançar crianças de zero a seis anos como forma de promover o desenvolvimento infantil integral. Como parte da campanha serão distribuídas aos pediatras a publicação Receite um livro: fortalecendo o desenvolvimento e o vínculo, que traz conteúdo atualizado e baseado em evidências científicas sobre os impactos da leitura no desenvolvimento infantil, bem como orientações de como incluir o estímulo à leitura na prática clínica. Os pediatras também receberão por um ano newsletters bimestrais “Receite um livro”, com exemplos de profissionais e/ou instituições que já realizam o estímulo à leitura em sua rotina, dicas de acesso à livros, conteúdo científico, entre outras informações relevantes sobre o tema.

Clique aqui e confira o livro

Livros infantis discutem a mídia

Por Marcus Tavares

Comemora-se, no dia 18 de abril, o Dia Nacional do Livro Infantil. Para celebrar a data, nada melhor do que presentear a criança com uma boa obra. Bons títulos não faltam. As livrarias estão cheias de criatividade e conteúdo. Que tal os títulos que despertam a atenção de meninos e meninas para a influência da mídia?

Pouca gente sabe, mas alguns livros infantis vêm cumprindo esta tarefa de forma divertida. É o caso, por exemplo, da obra “Tudo Por um Pop Star”, de Thalita Rebouças, que narra a história de três adolescentes que fazem de tudo para se aproximarem de seus ídolos. Ou do “Tempo em que a Televisão Mandava no Carlinhos”, de autoria de Ruth Rocha, que questiona o poder da publicidade no dia-a-dia das crianças.

Muitas vezes escondidas nas estantes, as obras trazem uma linguagem acessível, ilustrações caprichadas e conteúdo atualizado, com humor e imaginação. E o que é melhor: o enredo serve de ponto de partida para uma conversa entre pais e filhos, professores e alunos ou entre as próprias crianças. De forma divertida, o título “Eles parecem crianças!”, de Liliana Lacocca e Michele Lacocca, aborda o comportamento de alguns pais que não querem que seus filhos assistam à televisão. Embora consigam fazer com que as crianças desenvolvam outras atividades, os pais descobrem que são eles que estão viciados na TV.

Outra obra muito interessante é ‘Liga-desliga’, de autoria de Camila Franco e Marcelo Pires. De forma inteligente, o livro questiona a relação de dependência da criança com a televisão. Na história, são as televisões que dependem das crianças. Elas são viciadas na garotada, querem estar o tempo todo com ela e sofrem quando são deixadas de lado.

Se comparada com o número de obras que é lançado todos os anos no mercado brasileiro, uma média de dois mil livros, o único senão da lista de títulos infantis com esta abordagem é que ela ainda é pequena. Mercado é o que não falta, avisam os especialistas.

Confira algumas dicas de títulos:

– O Menino sem Imaginação
Autor – Carlos Eduardo Novaes
Editora – Ática
Sinopse: Uma pane no sistema de telecomunicações deixa o Brasil sem televisão por tempo indeterminado. A confusão é geral e o país fica de pernas para o ar. Tavinho é um garoto viciado em televisão. Assiste à três aparelhos de uma só vez. Aliás, na família de Tavinho, todos são completamente dependentes. Portanto, reaprender a viver sem a televisão não será nada fácil. Ainda mais para Tavinho que de tanto assistir à TV ficou sem imaginação.

–  Eles Parecem Crianças
Autores – Liliana Lacocca e Michele Lacocca
Editora – Melhoramentos
Sinopse: O livro aborda o comportamento de alguns pais que não querem que seus filhos assistam à televisão. Embora consigam fazer com que seus filhos desenvolvam outras atividades, os pais descobrem que são eles que estão viciados na TV.

– Rádio Muda
Autor – Renato Tapajós
Editora – Ática
Sinopse: Rafael era um expert na prancha de skate. Mas quando conhece Marina e a galera da Rádio Muda, descobre que pode fazer muito mais. Com os amigos, ele passa a ajudar os moradores do Parque Oriente a se defenderem da violência imposta pelos traficantes e a criar uma rádio comunitária, que se tornará instrumento de luta da comunidade.

– Lá Vai o Rui…
Autora – Sonia Rosa
Editora – Difusão Cultural do Livro
Sinopse: Menino descobre que, depois de desligar a televisão, há uma série de atividades legais e prazerosas.

– No Tempo em que a Televisão Mandava no Carlinhos
Autora – Ruth Rocha
Editora – FTD
Sinopse: Carlinhos tinha mania de comer tudo o que aparecia na televisão: achocolatado da Miúcha, sorvete do Bubu, biscoito do Xuxu… Ele acabou engordando, parecendo uma bola. Quando viu um anúncio de uma tal de Gororoba Dois Mil para emagrecer, encomendou rapidinho. Emagreceu. Mas depois caiu de cama e deu um susto na família. Depois da aventura, nunca mais. Carlinhos resolveu mudar de vida.

–  O Livro que Ninguém Vai Ler
Autora – Sylvia Orthof
Editora – Ediouro
Sinopse: Uma adolescente sonha ser escritora. Com o auxílio do computador, começa a escrever sua obra-prima. No entanto, um acidente faz com que a máquina assuma controle sobre a criação da menina. Aos poucos, o projeto gráfico e as ilustrações feitas no computador começam a dialogar com o texto em perfeita sintonia.

– Zap! Zap!
Autor – Ziraldo
Editora – Melhoramentos
Sinopse: O mestre Ziraldo escreveu este livro para as crianças. Trata-se de uma aventura do menino maluquinho bebê. Ao lado do seu pai, o menino assiste à televisão.

– Tudo Por um Pop Star
Autora – Thalita Rebouças
Editora – Rocco
Sinopse: O livro aborda os seguintes temas: amizade, fama e as loucuras que os fãs fazem por seus ídolos. A obra conta a história de Manu, Gabi e Ritinha, três amigas que moram em Resende, no Estado do Rio de Janeiro. São três tietes loucas por um astro de rock e sua banda. Ao descobrirem que o grupo vem ao Brasil para um show no Maracanã, elas fazem de tudo para ver os garotos bem de perto. Mas nada do que planejam dá certo.

– Os Internautas
Autor – Reinaldo Orth
Editora – Vozes
Sinopse: O número de jovens que passam horas em frente ao computador é o enredo do livro que pretende refletir sobre o tema. Por meio de uma história bem humorada e ilustrada, a obra conta o dia-a-dia dos viciados na tela do computador.

– Oto e o Controle Remoto
Autor – Cláudio Martins
Editora – Ática
Sinopse: Oto adora assistir à TV. Mas naquela tarde seu time estava perdendo o jogo do campeonato, que estava sendo transmitido pela tevê. Ele decide entrar em ação. Com uma manobra rápida, toma o controle remoto e se transforma no grande herói da partida.

– Truques coloridos
Autora – Branca Maria de Paula
Editora – Comport
Sinopse: Bastava querer e ele depressa aparecia. As crianças cruzavam as pernas no sofá e ficavam fascinadas. Distraia as pessoas e animava quem estava pra baixo também. Fazia gente chorar. Parecia um mágico. Quem será?

– Liga-desliga
Autores – Camila Franco e Marcelo Pires
Editora – Companhia das Letrinhas
Sinopse: “Era uma vez uma televisão que não saía da frente de um menino.” Assim começa Liga-desliga, um livro que inverte uma relação perfeitamente comum hoje em dia. Os autores, todos publicitários, sabem que a TV ocupa no mundo infantil tanto ou mais espaço do que a escola, a bola ou a boneca.

– É meu! Cala a boca! Quem manda aqui sou eu!
Autor – Luciana Savaget
Editora – Larousse do Brasil
Sinopse: A obra discute falta de tempo dos pais e solidão dos filhos, que trocam o afeto por brinquedos. A história de Frederico ajuda o pequeno leitor a identificar o egoísmo, e mostra como encontrar a alegria e a amizade quando se quer dividir as emoções.

–  Um Garoto Consumista na Roça
Autor – Júlio Emílio Braz
Editora – Scipione
Sinopse: No livro, temas como choque cultural e conseqüências do consumismo excessivo são expostos através do personagem principal com linguagem bem-humorada.

– Ludi, na TV
Autora – Luciana Sandroni
Editora – Salamandra
Sinopse – Verão chuvoso no Rio de Janeiro, Ludi passa o dia assistindo à TV. Uma “falha” no aparelho faz com que ela seja “seqüestrada” pelo televisor. Um pequeno acidente, que serve de motivação para ela fazer das suas, mexendo e remexendo na programação de todos os canais, interferindo em novelas, entrevistas, comerciais e desenhos. Que outra coisa se poderia esperar dessa irrequieta personagem, senão virar pelo avesso o mundo organizado e perfeito mostrado na TV?

Internet e a difusão da leitura

Seguramente, todo professor e pesquisador na área já se perguntou: qual é o impacto da internet e das novas tecnologias na difusão da leitura? O Jornal da Unicamp ouviu alguns especialistas no assunto. As respostas são inspiradoras, pertinentes e instigantes para quem está dentro da sala de aula.

Confira:

Affonso Romano de Sant’Anna
Poeta, ensaísta, cronista e professor

Não dá para fazer profecias. Todo dia tem um artefato novo, um programa novo. O fato é que as pessoas estão sendo obrigadas a ler e a escrever mais e mais. A língua vai se modificar? Vai, é claro. Sempre se modificou. Nossa percepção, nossa velocidade de percepção vai se alterar? Vai. Vamos ficar melhores? Não sei, gostaria. E este é o grande desafio. As melhorias tecnológicas não têm correspondido a uma melhoria ética e estética. Veja a indigência da arte hoje em dia, sobretudo as artes plásticas. E a ética, onde foi parar com a superposição do particular e do público, do centro e da periferia? Não se trata de voltar a modelos cêntricos anteriores, mas de fazer correções no rumo das coisas. E nisto os artistas, os escritores têm imensa responsabilidade. O imaginário ajuda a organizar a realidade. A realidade é apenas a parte mais visível da ficção. Quem sabe ler e interpretar não fica à deriva diante do caos.


Antonio Augusto Gomes Batista

Universidade Federal de Minas Gerais e da Universidade Nacional de La Plata

Evidentemente as novas tecnologias ampliam o acesso a textos e modificam nosso modo de nos relacionarmos com o conhecimento e com a informação (assim como de nos relacionarmos com os outros; basta pensar no MSN, no e-mail, no twiter e nos sites de relacionamento). Como, porém, eu trabalho com sociologia, me interessam mais de perto os efeitos sociais das novas tecnologias de produção, transmissão e preservação do conhecimento e da informação. A introdução de uma dessas novas tecnologias, historicamente, gera quase sempre o mesmo efeito, que em sociologia se chama “estatutário”: produz uma divisão (e uma desigual distribuição de poder) entre aqueles que dominam e aqueles que não dominam essas tecnologias. Para ir na contramão de certa fascinação com o mundo digital: acabo de ler um excelente trabalho, de Maria José Francisco de Souza, sobre a difusão da escrita (em seus suportes tradicionais), numa comunidade de meio rural do Norte de Minas. Ela estudou o modo como, nessa comunidade de quilombolas muito marcada pela oralidade, a escrita exerceu um efeito de expropriação e de rearranjo na atribuição de poder e status, analisando as memórias de benzedeiras e rezadeiras. Com a difusão e a intensificação do uso de uma tecnologia – a escrita – nas práticas religiosas da igreja católica, essas mulheres perderam de modo muito repentino seu lugar social e tiveram de inventar, não sem uma forte carga de sofrimento, algum modo de incorporar a escrita em suas vidas e reencontrar um lugar num universo social e cultural que se alterou radicalmente.


Ignácio de Loyola Brandão

Escritor

Por enquanto, acho que ainda nenhum. Leitor de internet é leitor de internet. Um leitor particular que deverá ser estudado. O leitor de livro em papel é um. O leitor em vídeo é outro. É muito cedo ainda para avaliar impactos e comportamentos. Um novo meio está a nossa disposição. Como utilizá-lo, de que maneira, o que fazer com ele, como levá-lo a agir sobre as cabeças? Nada sabemos. Fala-se, fala-se, mas tudo às apalpadelas, todos no escuro, ou na penumbra. Mas os profetas do apocalipse preveem o fim do livro. Ah, os catastrofistas! Eles são um perigo, já tentaram acabar até com o mundo.


Milton José de Almeida

Laboratório de Estudos Audiovisuais Olho, da Unicamp

Meus argumentos são frágeis para opinar a respeito do impacto da internet e das novas tecnologias na difusão da leitura; não tenho um acompanhamento mais aprofundado de análises que abordem essa questão. Do que vejo no entorno, posso dizer que a internet, como um veículo de altíssima velocidade e quase sem barreiras físicas, abriu um espaço quase infinito quanto ao oferecimento de material de leitura. Enquanto suportes tecnológicos, seja a internet, ou a TV, ou os digitais, de fato, em muito se diferenciam do suporte livro de papel, suportes que, em sua diversidade, geram outros modos de leitura. Abordar o impacto de tais tecnologias na leitura, ou a rede de tensões que aí se estabelece, requer considerar aspectos inerentes à diversidade do suporte, à relação leitor-suporte-texto-autor, às motivações e objetivos que pautam a leitura, às mudanças que se relacionam quando um texto se desprega de seu autor e, no trajeto de ser dado à leitura, passa por intermediações da edição, por exemplo. Nesse aspecto, há a considerar-se também o impacto da tecnologia texto-livro e leitura.


Maria Rosa Rodrigues Martins de Camargo

Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho

Não sei a que tipo de leitura a pergunta se refere: de livros, romances, poesias? A internet não difunde a leitura, ela obriga a leitura, nela tudo é lido. Não há uma tela na internet em que você não tenha que ler alguma coisa! Agora, se a pergunta se refere à qualidade dessa leitura, a internet é igual ao mundo, suas ruas, suas cidades, suas pessoas, e com a mesma sensação de insegurança…Tem coisas boas misturadas com ruins, coisas ruins misturadas com boas, ameaças e ternuras, como saber? Tudo depende do ponto de vista de quem olha, e do juízo de valor cultural e político com que se olha.


Peter Burke

Universidade de Cambridge

Novamente, tenho que recorrer às minhas impressões e falar com base em minha limitada experiência pessoal. Tanto quanto posso observar, os e-books não são importantes, podendo, não obstante, virem a sê-lo no futuro. Por outro lado, os jornais on-line estão superando em popularidade aqueles que têm o papel como suporte. Pensando em termos de futuro, podemos observar crianças (no meu caso, dois netos que moram perto de nós e nos visitam quase todos os dias) que cresceram com a internet. Marco, especialmente, aos 9 anos, usa a internet todos os dias. Ele é particularmente fascinado pelo Google Earth. Mas, procurando ser mais abrangente, parece-me ser extremamente significativo que crianças como Marco estão sendo incentivadas em suas escolas, ao menos aqui na Inglaterra, a realizar pesquisas na internet como parte de seus deveres (com tarefas tais como “pesquise vespa e escreva cinco aspectos a seu respeito” – este é um exemplo real da semana passada). As crianças estão, portanto, desde muito cedo, praticando uma forma específica de leitura – e há vários nomes para isso em inglês – que minha geração aprendeu consideravelmente mais tarde, aos 16 anos, no mínimo, ou ao ingressar na universidade, aos 18. Não vejo a internet como uma ameaça à leitura, porém pode sê-la para um determinado estilo de leitura: do começo ao fim do texto, “de capa à contracapa”; como bem pode ser um incentivo positivo a uma leitura feita de modo diferente.

A literatura em perigo?

Por Christine Castilho Fontelles
Cientista social pela PUC-SP, possui MBA em Marketing pela FIA/FEA-USP, consultora de educação do Instituto Ecofuturo, conselheira da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e do Movimento por um Brasil Literário.

Artigo originalmente publicado pelo Promenino Fundação Telefônica

Recentemente, assisti a uma saborosa palestra do escritor Cristovão Tezza, cujo tema era “A literatura à deriva”. Perguntado sobre como promover ampliação da leitura literária nas escolas – assunto que tem sido o fundamento do meu trabalho há mais de 15 anos -, ele falou sobre a polêmica envolvendo seu romance “Aventuras provisórias”, indicado para as escolas de Santa Catarina, que foi considerado inadequado por uma auxiliar pedagógica por conter linguagem chula, discurso ao qual se somou o de alguns pais de alunos – fenômeno fácil de reconhecer nos dias atuais, quando qualquer indício de oposição ao o que se quer é seguido por uma feroz caça às bruxas, que vai de impropérios disparados pelas redes sociais a agressões às vias de fato. O episódio o motivou a escrever em sua coluna na Gazeta do Povo, de Curitiba, um texto intitulado “Não me adotem”, publicado em 2009.

Segundo Tezza, há um certo antagonismo entre o conservadorismo propagado nas escolas e o caráter libertário da literatura. Literatura é vida real e texto de escola tem os contornos do socialmente correto – termo que uma querida amiga, Silvia Castrillón, prefere substituir por “moralmente hipócrita”. Ora, banir das escolas a reflexão e o debate sobre temas que são eminentemente humanos é retirar delas sua função de formar seres humanos integrais, aptos a viver em ambientes e situações que requererão dele conhecimentos, abertura e habilidades para um mundo cada vez mais multi e intercultural.

Eu não li o livro, mas assusta a forma como o fato veiculou: um fragmento da obra foi retirado do contexto da narrativa e linchado na praça pública das mídias, como se fosse, palavras do autor, um haikai.

Como se diz há muito tempo, não se julga um livro pela capa, embora ela possa, a capa, ser fator de escolha do livro, coisa que frequentador de livrarias e de antenadas bibliotecas conhece bem. E isso não é estratégia de país tido como pouco afeito à leitura – bibliotecas recém-abertas estão sendo fechadas Brasil adentro, como é o caso das bibliotecas públicas no Rio de Janeiro, uma delas, a de Manguinhos, uma biblioteca Parque, inspirada no modelo da Colômbia, não por falta de leitor, mas por decisão da gestão pública sobre onde ela acha que é importante alocar recursos públicos. Recentemente estive num evento literário no Chile e conheci uma biblioteca em Copenhague que descarta anualmente 30% do seu acervo físico porque passa a ser encontrado em meio digital e, assim, conseguem ter espaço para expor os livros com as capas de frente, usando a estratégia para atrair leitores.

Para que serve, então, a literatura? Vejamos como é tratada nas escolas. As escolas levam seus alunos a exposições de arte e não aplicam questionário, ensinam música e, em vez de transformar o aprendido em prova, promovem uma bela apresentação, sugerem filmes como outra linguagem para compreender fatos históricos e trocar ideias, levam ao teatro para oferecer acesso à cultura e em todos os casos como experiência estética. Mas a literatura, não!, à leitura literária são levados para fazer prova de entendimento de texto, de conferência para provar que leram, quando não seus fragmentos de literatura são usados para o ensino de gramática. Dá para gostar? Dá para se envolver? Dá para querer mais? Está condenada a não “servir” para nada.

Se não é para proporcionar experiência ética e estética, que passa inevitavelmente pela escola. Se não é para nos humanizar na medida em que, como ensina Alberto Manguel, viabiliza nossas experiências no tempo e no espaço – uma vez que não podemos nos deslocar (ainda!) de volta ao passado ou visitar o futuro e nem estar pessoalmente em todos os lugares para provar das culturas e das geografias que banham este planeta! Que é, ou deveria ser, também missão realizada na escola.

Em “A literatura em perigo”, Tzvetan Todorov fala sobre a importância de romper as amarras burocráticas do ensino de literatura para que seja possível incursionar pelo que ela tem a dizer sobre o humano, para muito além das convenções sociais que sempre buscam silenciar tensões e distensões, colocando a sociedade no trilho do positivismo: ordem e progresso. Como se não falar do que aflige, encanta, amedronta, transcende, assombra, fosse garantia de uma vida plácida e sem conflitos.

Ainda outro dia tentaram banir das escolas brasileiras o livro de Monteiro Lobato, acusado de propagar o racismo, alegando que os professores não tinham condições de lidar em sala de aula com resquícios literais e literários de uma sociedade de passado escravocrata e presente acintosamente preconceituoso e racista. Assim condena-se um grande escritor e se assume a pouca intimidade e o despreparo de professores com o uso do texto literário como condenação e resultado de geração espontânea, no lugar de oferecer as condições necessárias para garantir uma formação leitora de qualidade para todos. E quem tem em mãos “Caçadas de Pedrinho”, edição atual, certamente encontra numa das primeiras páginas uma mensagem onde se diz que não se recomenda a caça de animais silvestres da fauna brasileira e aquela é apenas uma história de ficção!

Para que serve a literatura? Para nada, dizia o poeta e querido amigo Bartolomeu Campos de Queirós, querendo dizer para tudo, para tudo que pode nos humanizar. Ele, um raro ser, que era poesia em movimento, capaz de nos apresentar a dor e a ausência em finas fatias de tomate servidas nas páginas do desconcertante “Vermelho Amargo”.

“O papel de um escritor não é dizer aquilo que todos somos capazes de dizer, mas sim aquilo que não somos capazes de dizer”, dizia a escritora Anaïs Nin. Pilhar esta experiência que a literatura, e só ela proporciona, é praticamente pilhar de crianças e jovens desde muito cedo percepção e consciência de que somos seres de narrativas, que escrevemos para dizer quem somos e nos conectar, de uma forma íntima, com a teia da vida. Para muito além dos limites de realidade traçados pela superficialidade ou banalidade dos textos que trafegam em larguíssima escala pelas mídias e redes sociais. Então, sim, nunca lemos tanto. Mas é preciso ler melhor, para melhor atendermos às demandas da vida e fazer deste lugar o melhor lugar do mundo para se viver, para todos!

E, para quem acha que a literatura é um luxo imaterial, fica a pergunta: como a matéria pode ter criado algo tão imaterial quanto a consciência? E para que serve mesmo a consciência?

TV Cultura: novas séries

Nesta semana, a TV Cultura estreia duas séries voltadas para o público infantil:  Tordesilhas e Godofredo, que passam a integrar a nova grade de programação a partir do domingo, dia 2, às 16h45, e segunda, dia 3, às 17h45.

Composta por 26 episódios de 11 minutos cada, a animação nacional Tordesilhas é voltada para crianças de 8 a 12 anos. A série transporta os pequenos ao Brasil no século 16 para contar as histórias das bandeiras de forma divertida e inusitada.A trama acompanha um grupo formado por cinco atrapalhados bandeirantes que se aventuram para expandir as fronteiras do território nacional em busca de tesouros e riquezas.

Já a série infantil Godofredo, criada e dirigida pela escritora brasileira Eva Furnari, divide-se em episódios de cinco minutos e traz à tela um universo de humor e fantasia. Godofredo é um ogro verde e desajeitado, que vive numa floresta repleta de árvores, frutos e flores exuberantes. Ingênuo e muito curioso, ele vive xeretando tudo o que está em sua volta.  A produção executiva é de Arnaldo Galvão. O piloto da série realizado em 2009 ganhou o Prix Jeunesse 2009 realizado pela comKids e habilitou a série a receber investimento da Ancine e Finep através do Fundo Setorial do Audiovisual.

Sem ideias preconcebidas, a criatura vê tudo de um ponto de vista original e acaba sempre provocando muita ação na floresta. Seu único contato com a civilização é um pequeno caminhão que, por vezes, atravessa a floresta, ocasionalmente largando itens em seu caminho e despertando sua curiosidade.

 

Estreia nacional em abril

Original e poético, o longa A Família Dionti, de Alan Minas, estreia em todo o país no dia 13 de abril. Narra a fantástica história de um pai e seus dois filhos, Kelton, de 13 anos, e Serino, de 15, que vivem em um sítio no interior de Minas Gerais. A mãe não mora mais com eles, pois derreteu de amor, evaporou e partiu. Enquanto todos os dias sonha com a volta da mulher a cada chuva  que cai, o pai cuida dos filhos com olhar atento, preocupado com a possibilidade de que tenham herdado o dom da mãe. Mas Serino é seco e chora grãos de areia. Já Kelton, ao se apaixonar pela primeira vez por uma garota de circo, literalmente se liquefaz de amor.A Família Dionti retrata de forma especial o tema universal da descoberta do amor, sem deixar de lado as cores regionais do interior do Brasil contemporâneo.

Por meio de metáforas nada óbvias e grande liberdade criativa, Alan Minas construiu uma história poética, capaz de seduzir adultos, jovens e crianças. “A gente tem o hábito de associar a ingenuidade à pureza. E quando a gente perde a ingenuidade perde, em geral, também a pureza. A gente precisa manter este olhar puro sobre as coisas. Mas é tão difícil. Somos massacrados por informações, temos de saber de tudo”, comenta o diretor Alan Minas. “Não precisamos ser pessimistas, cínicos, niilistas. É importante que aos poucos as coisas se descortinem, mas que não se perca a pureza. A gente derrete sim, vira outra coisa, se transforma a todo o tempo. Toma um caixote a cada semana, vai mudando, refazendo opiniões”, completa o diretor, que tem no currículo outros trabalhos inventivos, como o documentário A Morte Inventada (2010) e os curtas A Encomenda (2002), Homens ao Mar (2006), entre outros.

“É um filme que tem um grande potencial junto a seu espectador, que é o que aprecia o cinema feito com cuidado artístico, com poesia, com carinho. Gosto muito do resultado final do filme e acredito em sua carreira tanto em festivais quanto com seu público. Bons filmes podem não ser sempre mega sucessos de multidões, mas sempre encontram seus espectadores. E A Família Dionti vai encontrar o seu público”, finaliza o produtor Roni Rodrigues.

FNLIJ prorroga prazos

O 22º Concurso FNLIJ Os Melhores Programas de Incentivo à Leitura junto a Crianças e Jovens de todo o Brasil, o 16º Concurso FNLIJ Leia Comigo!, o 14º Concurso FNLIJ/Inbrapi Tamoios de Textos de Escritores Indígenas e o 14º Concurso FNLIJ — Leitura de Escritores Indígenas tiveram o prazo de inscrição prorrogado.  A data-limite, que era até o final de março, será agora 30 de abril de 2017. A coordenação da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) resolveu dar mais tempo aos interessados e assim alcançar o maior número de pessoas de todas as regiões do país. Eis, abaixo, os editais na íntegra.

14º Concurso FNLIJ/INBRAPI Tamoios

14º Concurso FNLIJ Curumim

16º Concurso FNLIJ Leia Comigo

22º Concurso FNLIJ Os Melhores Programas de Incentivo a Leitura

#pascoadiferente

Por Mariana Sá
Mãe de dois, publicitária e mestre em políticas públicas. É cofundadora do Milc e membro da Rebrinc. 
Texto publicado originalmente no site do Milc.

Até uma criança que some dois mais dois consegue entender que este negócio de brinquedo em ovo é surreal. E esta é justamente a abordagem que vem chegando para mim: como meus amigos sabem que estou nesta cruzada contra os ovos licenciados, já ouvi várias histórias de crianças que foram convencidas pelos pais que na páscoa não cabe mais tanto herói, tanta princesa e tanto bicho humanizado. Basta juntar lé com cré e explicar que as crianças aceitam e concordam que ovo com personagem não vale quanto custa!

Os diálogos são mais ou menos assim:
– Mamãe/Papai, nesta páscoa quero o ovo do/a <personagem tal>!
– Filhote, você quer o chocolate ou o brinquedo que vem no ovo?
– Quero os dois, mamãe/papai! Olha só: no ovo do/a <personagem tal> vem <brinquedo tal> que é muito legal… Você sabe que adoro <personagem tal>!
– Sim, filho <personagem tal> é muito legal mesmo! Pensa bem, filhote, o ovo do/a <personagem tal> vem com 150 ou 170 gramas de chocolate, mais ou menos a mesma quantidade de uma barra… E você lembra que não é aqueeeeele chocolate que você mais gosta?… Lembra que no ano passado (a) você saiu distribuindo o chocolate (b) o chocolate ficou na geladeira até o São João (c) acabamos usando aquele chocolate em uma receita porque (d) o chocolate foi pro lixo?
…É neste momento que entra a motivação real…
– Verdade, mamãe/papai… – diz a criança e neste momento, você percebe uma pontinha de tristeza – Mas e o <brinquedo tal> do <personagem tal>? Eu queria… Achei legal…
– Lembra que o brinquedo do ano passado (a) está perdido (b) está esquecido (c) nunca foi seu brinquedo favorito (d) você nunca usou (e) você deu ao coleguinha (f) você nem ligou no dia seguinte…
…E a tristeza da criança vai crescendo junto com a constatação de que realmente o ovo do personagem tal não é uma boa ideia.

E o adulto racional e político olha para os preços dos ovos licenciados e percebe que não é apenas uma questão de ter dinheiro (ou saldo no cartão!) e poder pagar por aquele mimo que fará o filho feliz, mas uma questão decidir se vai validar com o fruto do seu trabalho uma prática imoral. Cada centavo gasto num ovo (ou qualquer alimento!) com personagem é um “aceito” que damos a uma prática que nem deveria existir no mundo. O adulto olha para os preços e percebe que o brinquedo que vem dentro não tem o valor suficiente!

Nem comparamos os ovos com as barras – a indústria já explicou que o processo de fabricação e transporte do ovo custam mais caro e entendemos – mas ovos com ovos… Ovos com personagens e ovos sem personagens: comparamos ovos dos mesmos fabricantes e descobrimos que, na média a diferença de preço é de 60% (alguns chegam a 70%).

A criança, menos racional que o adulto, ainda está triste, decepcionada, porque ela acreditava que – de fato – ganhar aquele ovo seria algo especial… E o adulto precisa achar uma maneira adele perceber que ganhar aquele ovo não é tão importante mesmo quando “todo mundo” diz que é. E começa a pensar em alternativas inda mais especiais que transformem aquela tristeza em alegria de verdade, em aprendizado e numa lição que seja útil para todos.

Já ouvi gente que respondeu:
– Que tal a gente comprar barras do seu chocolate favorito e fazer um ovo: a mamãe vai escolher as surpresas para colocar dentro de cada um?
– Que tal a gente comprar barras do seu chocolate favorito e fazer vários ovinhos: a mamãe vai fazer a caça aos ovos mais divertida do mundo!
– Que tal a gente comprar barras do seu chocolate favorito e fazer vários ovinhos e dar de presente para todos os seus amiguinhos?
– Que tal a gente encomendar ovos de chocolate naquela amiga que faz doces deliciosos?
– Que tal a gente pedir a vovó para fazer aquele bolo com cobertura que você adora?
– Que tal a gente pegar este dinheiro do ovo e escolher um livro/brinquedo que você realmente curta?
– Que tal a gente pegar este dinheiro do ovo, comprar um lanche bem gostoso e chamar seus amiguinhos para um piquenique na praça?
– Que tal a gente pegar este dinheiro do ovo e comprar um super ovo sem personagem para comermos juntos depois do almoço de páscoa?
– Que tal a gente pegar este dinheiro do ovo e fazer um passeio só nós dois?
– Que tal a gente pegar este dinheiro do ovo e gastar naquele café que a gente adora?

E por aí vai…

 

Alfabetização

O Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária  lançou na segunda-feira, dia 13, uma campanha de financiamento coletivo para a produção de materiais voltados à alfabetização de crianças. O objetivo é arrecadar recursos para a produção de uma publicação virtual interativa e de materiais de apoio para professores para tratar de questões que muitas vezes se tornam desafios para as crianças durante essa fase da educação básica.

A proposta surgiu a partir da vivência dos profissionais da organização junto a redes de ensino por quase 30 anos. Anna Helena Altenfelder, superintendente do Cenpec, explica que um dos passos para alfabetização é o entendimento das relações entre os sons da fala e as letras da escrita, “o que nem sempre é óbvio, pois a convenção do nosso sistema ortográfico carrega uma série de relações que nem sempre são diretas”.

Por conta de todas as distinções entre a língua falada e sua representação na escrita, é perfeitamente comum que crianças tenham muitas dúvidas durante o processo de alfabetização. Sanar estes desvios ortográficos requer um trabalho sistemático, mas materiais para tratar dessas questões específicas ainda são raros, o que dificulta o cotidiano dos professores.

Dados da última Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA), divulgados em 2015 pelo Ministério da Educação, mostram que 35% das crianças de 8 anos de idade do país não tiveram a aprendizagem esperada para esta faixa etária. Isso significa que um terço dos estudantes em fase de alfabetização ou não consegue escrever, ou escreve com trocas ou omissões de letras e outros desvios ortográficos.

É aí que entra a proposta da Coleção Cenpec: Alfabetização, composta por volumes para que o professor possa superar os obstáculos mais comuns no processo de alfabetização. “Queremos colaborar para que todas as crianças estejam plenamente alfabetizadas até os 8 anos de idade e sejam capazes de ler e escrever, conforme previsto no Plano Nacional de Educação”, afirma Altenfelder.

Nesta etapa, a campanha do Cenpec busca arrecadar R$ 24 mil (8mil dólares) pela plataforma internacional de financiamento coletivo GlobalGiving para custear o primeiro volume da coleção, A Vaca Sabida. Nele, serão abordadas questões das consoantes chamadas de homorgânicas.

“Embora ler e escrever ultrapasse a aprendizagem das relações entre sons da fala e letras da escrita, aprender esta relação é um passo importante. Ao mesmo tempo, o domínio da leitura e da escrita e de seus usos sociais é cada vez mais fundamental para o pleno exercício da cidadania”, diz Altenfelder.

A Coleção Cenpec: Alfabetização será distribuída para uma rede de 100 mil professores com o qual a organização trabalha em seus projetos, além de ser disponibilizada virtualmente, com potencial para beneficiar os 385 mil professores alfabetizadores do país e seus mais de 9 milhões de alunos. Para saber mais sobre a publicação e como colaborar com a campanha, acesse http://bit.ly/CampanhaCenpecBR.

Infância na era digital

Com o objetivo de promover um intercâmbio de experiências na produção de conhecimento sobre crianças e adolescentes on-line, além de tratar de políticas públicas que abordam essa temática, o seminário ‘Crianças e adolescentes na era digital: perspectivas para as políticas públicas’ conta com a presença de importantes pesquisadores nacionais e internacionais. Participará do encontro a professora Sonia Livingstone, do Departamento de Mídia e Comunicação da London School of Economics and Political Science. Renomada por pesquisas que investigam a interface entre mídia e infância, Sonia liderou projetos internacionais sobre crianças e adolescentes on-line, como o EU Kids Online e Global Kids Online.

O encontro acontecerá no dia 4 de abril, a partir das 9h30, na sede do NIC.br, em São Paulo.
Haverá transmissão ao vivo pelo canal do NIC.br no YouTube.

A proposta do encontro é reunir gestores públicos, pesquisadores e representantes da sociedade civil em um intercâmbio de experiências. “Esta será uma grande oportunidade para debater questões cruciais no contexto das políticas públicas: como garantir o acesso universal às tecnologias digitais e, ao mesmo tempo, promover a participação e proteção das crianças no ambiente on-line. Além disso, discutiremos as inovações metodológicas em pesquisas que monitoram os impactos dos dispositivos digitais na vida das crianças e seu papel de alimentar políticas públicas”, esclarece Alexandre Barbosa, gerente do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) e um dos debatedores do evento.

Mais informações no site

O seminário também conta com a participação de atores multissetoriais – do Governo Federal, sociedade civil ao setor privado – em um debate sobre políticas de promoção de acesso e de uso seguro da Internet por crianças e adolescentes com base em evidências e em experiências internacionais mais recentes de produção de conhecimento. Entre os presentes,  Regina de Assis, secretária da Secretaria de Articulação com os Sistemas de Ensino/SASE – Ministério da Educação;  Viviane Rozolen, da Equipe de Trust & Safety – Google Brasil; e  Mario Volpi, do Fundo das Nações Unidas para a Infância – Unicef.

‘Crianças e adolescentes na era digital: perspectivas para as políticas públicas’ é uma iniciativa do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR – NIC.br, do Comitê Gestor da Internet no Brasil – CGI.br, do Fundo das Nações Unidas para a Infância – Unicef e da SaferNet Brasil, com apoio do Instituto Alana.

 

 

Gênero na produção infantil

Por Cielo Salviolo
Consultora de conteúdos do Unicef
Texto publicado originalmente em LatinLab e ComKids.

Os conteúdos audiovisuais feitos para o público infantil podem colaborar de uma maneira significativa na obtenção de uma sociedade mais justa, na qual as meninas e os meninos tenham as mesmas oportunidades para crescer, desenvolver-se e construir os seus projetos de vida. Os meios de comunicação de massa recolhem e recriam estereótipos construídos e que são socialmente vigentes. Nesse sentido, coexistem com as imagens, prejuízos e crenças que são transmitidas culturalmente. A mídia pode reforçá-las ou questioná-las e contradizê-las, ela podem favorecer a superação dos estereótipos de papeis e de gênero, contribuindo, assim, para combater a discriminação.

Enquanto os estereótipos são crenças, juízos de valor sobre as características de grupos de pessoas (as loiras, burras; os homens, fortes), os papeis de gênero são os comportamentos, atitudes, obrigações e privilégios que uma sociedade atribui a cada sexo e que espera deles. Há ideias que são usualmente atreladas. Falamos sobre os estereótipos e os papeis sociais porque os primeiros contribuem para manter os papeis de gênero, ao modelar as ideias sobre as atitudes, obrigações, comportamentos e privilégios dos homens e das mulheres, assim como ao criar expectativas sobre o que significa ser mulher ou homem.

Em nossa sociedade, circulam ainda com força os estereótipos de gênero, que são associados fortemente ao feminino e ao masculino de uma maneira diferenciada. Mulheres que desfrutam das tarefas domésticas, meninas que brincam com bonecas, que vestem rosa, homens que realizam trabalhos de força, rapazes que jogam futebol etc.

As meninas, em geral, aparecem associadas a padrões convencionais de beleza. São magras, loiras, altas, algumas vezes têm corpos hipersexualizados (cinturas finíssimas, que não correspondem aos corpos das meninas, e pernas extremamente grandes). Estudos da Fundação Prix Jeunesse advertem também que os personagens femininos muito poucas vezes aparecem como líderes e, em linhas gerais, são sempre secundários com relação aos masculinos. As suas motivações estão, sobretudo, associadas a interesses românticos. São dependentes dos homens, mais tímidas e sensíveis, algumas vezes, submissas e, em geral, “funcionam” dentro das tramas como complemento dos homens: estão lá para apoiá-los, para animá-los. Claro que há exceções e exemplos de qualidade na televisão infantil também, mas esses são exceções. Essas tendências são muito fortes na televisão infantil de todos os países do mundo.

Por outro lado, a televisão pode produzir materiais e discursos que questionam esses estereótipos, através da apresentação de situações que tendem a localizar esses sujeitos em papeis que não sejam associados aos tradicionais papeis de gênero e buscando mostrar situações de igualdade, nas quais a diferença é um valor ligado ao respeito da individualidade de cada pessoa.

Nós que produzimos televisão para crianças podemos levar em conta os critérios de qualidade para representar as meninas e as adolescentes ampliando os seus interesses, as suas expectativas, as suas imagens, suas histórias, seus desejos e formas de ver o mundo, distanciadas dos estereótipos.

Por exemplo:
– Prestar atenção ao número de meninas e meninos. Balancear os protagonistas, tanto principais como secundários, para que sejam, meninos e meninas, representados de maneira igualitária. Equilibrar as lideranças.
– Não reforçar estereótipos e traços de personalidade a partir do gênero. Por exemplo, não associar tipos de jogos tradicionalmente direcionados a meninas ou a meninos de uma única maneira (jogos de aventura ou jogos de bonecas).
– Em todas as situações de interação, apresentar sempre grupos heterogêneos, nos quais haja igualdade de representação por gênero.
– Apresentar personagens que valorizam e apreciam as diferenças entre meninos e meninas sem oferecer às mesmas um juízo de valor.
– Valorizar, dentro do grupo, as diferenças que podem ser de ambos os gêneros (por exemplo, o mais divertido, ou a mais divertida). Elas não devem ser associadas ao gênero, mas a esses outros traços da personalidade.
– Evitar usar paletas de cores que reforcem os estereótipos de gênero: o rosa, o fúcsia, o lilás para as meninas e os azuis e celestes para os meninos.
– Ampliar a faixa de representações das meninas desde o físico e desde o universo de interesses e motivações. Porque as meninas têm que esperar ser salvas? Porque os meninos sempre tem que ser valentes?
– Considerar o que significa ser menino ou menina em diferentes contextos culturais e ter em conta o impacto que alguns temas têm sobre as mulheres e/ou sobre os homens.

Até quando?

Por Flávio Braga Mota
Professor da estudante Maria Eduarda, de 13 anos, vítima de bala perdida, no Rio de Janeiro

A noite de ontem foi de muito choro, tristeza e revolta. A tragédia que vitimou nossa aluna, Maria Eduarda, de apenas 13 anos, é um retrato fiel da realidade violenta e brutalizada na qual estamos inseridos: uma jovem de 13 anos foi morta por três tiros no pátio da escola que estudava, na comunidade da Pedreira, Zona Norte do Rio de Janeiro.

Perceberam a brutalidade, a gravidade do acontecimento? Uma menina, cheia de sonhos, amada por todos nós, teve sua vida ceifada na escola que frequentava, que fica numa das inúmeras zonas de guerra existentes na nossa cidade. Mas mesmo assim, parece que é preciso desenhar para algumas pessoas, que ousam minimizar a morte de Duda, atribuindo a sua morte a um “efeito colateral” de uma guerra há muito perdida, a guerra contra as drogas. Duda foi mais uma vítima, assim como outros inocentes. Assim como inúmeros policiais. Assim como muitos bandidos. Em comum, a procedência de todas essas vítimas, que sabemos de cor e salteado, mas que muitos preferem tirar o foco disso. Preferem discutir se as balas partiram de armas da polícia ou dos traficantes; preferem dar importância ao engarrafamento caótico que um protesto pela morte da Maria Eduarda gerou na Avenida Brasil; preferem parabenizar os policiais que executaram dois bandidos na frente de uma escola.

O dia 30 de março ficará marcado para sempre na minha memória. Na manhã desse dia, dei aula para a turma de Maria Eduarda. Em algum momento da aula, fiz um discurso que num primeiro momento achei duro, mas que se fazia necessário. Falei que pessoas como nós nascemos, (sobre)vivemos e morremos com um alvo em nossas costas, mas que não necessariamente seríamos “abatidos” à bala, mas também pelo preconceito, pelo descaso, pela desconfiança. Mas que tínhamos que fazer algo para que isso mude. Talvez a associação com “alvo” e “ser abatido” tenha sido um presságio. Duda foi abatida como se tivesse, de fato, um alvo em seu corpo. É impossível que as três balas que a atingiram sejam perdidas. Tinham endereço, nome, sobrenome, faixa etária, cor, classe social. Não foi só Maria Eduarda que morreu com esses três tiros. Cada tiro desses tirou um pouco da vida de cada aluno, de cada pai, de cada família, de cada professor e de cada funcionário da Daniel Piza. A dor de cada um de nós se mistura com a revolta e a raiva. Não tem como saber ao certo onde cada sentimento começa e termina. É o tipo de situação que não desejo para ninguém, mas, sinceramente, por todo o esforço que fazemos diariamente na Daniel Piza, muitas vezes além de nossa capacidade, não mereceríamos tamanho revés. Não sabemos como voltar à normalidade, se é que ela voltará.

Diante de tudo isso, algo me marcou e foi motivo para eu derramar ainda mais lágrimas: um dos meus colegas de trabalho da Daniel Piza, Junior, professor de História como eu, compartilhou um depoimento emocionado sobre o que aconteceu ontem que tanto eu como outros amigos compartilhamos nas redes sociais. E no final do texto, ele diz: “Mas nada se comparou a dor sentida ao ler a mensagem que recebi do professor que mudou o colégio com sua nova forma de organizar a Educação Física, dando esperança a dezenas de alunos-atletas, que até então eram apenas ‘péssimos alunos’ ou ‘projeto de marginais’: ‘Obrigado, Júnior. Mas a minha pergunta é: do que adiantou eu ajudar ela a sonhar?’ “. Um sonho interrompido. Que hoje dá manchetes, gera discussão, mas que amanhã será esquecido diante de um novo ato de barbárie. Até quando?

Mulheres: pouco espaço

EBC Notícias

A Agência Nacional do Cinema (Ancine) reconheceu a baixa participação de mulheres no audiovisual e estuda ações para equilibrar a concessão de financiamento público. Segundo levantamento inédito da própria Ancine, das 2.583 obras audiovisuais registradas ano passado na agência apenas 17% foram dirigidas e 21% roteirizadas por mulheres, embora mais da metade da população brasileira seja feminina.

A pesquisa foi feita apenas em obras comerciais do chamado conteúdo de espaço qualificado, que exclui produções jornalísticas, esportivas e publicidade, por exemplo. Assim como no cinema ou na TV, predomina o olhar masculino, afirmou a agência.

“[Os dados] nos levam a entender que a construção das narrativas, que vêm dos roteiristas e dos diretores, por mais que os produtores participem, é dos homens. O olhar que vai construir o imaginário de nossa sociedade e novas gerações, é masculino”, acrescentou a diretora da Ancine, Debora Ivanov, durante a apresentação do estudo, no Seminário Internacional Mulheres no Audiovisual.

Índices

O evento foi realizado na quinta-feira (30), no Rio de Janeiro, e contou com a apresentação de experiências do Canadá e da Suécia para promover a paridade.

De acordo com o levantamento, as mulheres têm uma presença maior entre os produtores (41%) e diretores de arte (58%). Entre os diretores de fotografia, chegam apenas a 8%.

Em vez de mostrar uma evolução natural da presença feminina no audiovisual, a Ancine surpreendeu ao revelar queda. Em 2015, mulheres dirigiram e roteirizaram 19% e 23% das obras de espaço qualificado, números que diminuíram para 17% e 21% em 2016. Nos últimos oito anos, conforme o balanço, os índices flutuaram. Mulheres dirigiram 10% dos filmes em 2014, sem nunca ultrapassar 24% de todas as produções, recorde observado em 2012.

Paridade

A agência também constatou que, quanto mais cara a produção, menor o número de mulheres. “Observamos mais mulheres quando é um curta ou média-metragem, porque são mais baratos. Nossa presença é maior no documentário que na ficção, o que corrobora a visão de que em obras de custo menor temos mais oportunidades”, lembrou Debora.

Para mudar o cenário, a diretora informou que a agência adotou a paridade de gênero nas comissões de avaliação dos filmes que concorrem ao Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), com a presença de pelo menos uma pessoa negra. Outro passo para facilitar o acompanhamento é a obrigatoriedade de autores autodeclararem o gênero ao registrarem as obras. O monitoramento da identidade étnico-racial não foi confirmado dessa vez.

Mulheres negras

O levantamento da Ancine não soou como novidade no setor. Pelo menos desde 2014 pesquisas revelam a ausência de mulheres e de negros no cinema nacional.

Dados atualizados do Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa (Gemaa), vinculado ao Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj),  que acompanha o tema, mostram que mulheres negras não dirigiram ou roteirizaram um filme sequer entre os de maior bilheteria no período de 1995 a 2016. O percentual de homens negros nas duas categorias não passou de 2% na direção e 3% no roteiro, enquanto homens brancos dirigiram 85% e roteirizaram 75% das principais produções nacionais.

Realizadoras negras reforçaram no seminário a necessidade de se criar medidas específicas para garantir pluralidade de falas e olhares.

“A gente tem urgência de transformação e as políticas públicas não caminham nessa velocidade. Estamos incomodadas. A gente não pode ser 24% da população (mulheres negras) e não estar representada”, disse a diretora do Fórum Itinerante do Cinema Negro e doutora em História, Janaína Oliveira.

“Existem dados [sobre mulheres negras no audiovisual], precisamos desses dados. Precisamos avançar. Se formos esperar  o formulário da Ancine incluir raça, terão se passado 15 anos”, criticou.

Coletivo

Segundo Janaína, apesar disso, mulheres e mulheres negras estão produzindo, especialmente curtas e webséries. Ela destacou a participação da realizadora negra Yasmin Thayná no festival de cinema de Rotterdam, um dos mais importantes do mundo, ao lado do ganhador do Oscar, Jerry Benkins, e que quase não repercutiu no Brasil.

O Coletivo Vermelha, criado em 2014, após divulgações das primeiras pesquisas sobre ausência de mulheres no audiovisual, avaliou que as disparidades são reflexo da sociedade e propuseram uma lista de ações para enfrentá-las

“Por que a classe cinematográfica aceita a regionalização e tem tanta resistência à paridade de gênero?”, questionou Caru Alves de Souza. “As narrativas e imagens ajudam a construir identidades, formar valores e comportamentos. Existe uma responsabilidade de quem cria, financia, repercute e de quem escolhe“, completou Manoela Ziggiatit. Elas leram um manifesto durante o seminário.

Outra realizadora de cinema e TV, Renata Martins, aproveitou o evento, ao lado da diretora de Bicho de Sete Cabeças, Laís Bodanzky, para apelar aos colegas do setor e cobrar diversidade nos sets. “Chamo as mulheres brancas, especialmente. Dos homens brancos, não espero muito. Esse convite é para a gente pensar nossa equipe, nossa sala de criação, com quem estamos fazendo nossas trocas [profissionais].” Renata é pós-graduada em linguagens e artes pela Universidade de São Paulo e idealizadora da websérie de sucesso Empoderadas.

Elenco

Apresentada pela cientista política Marcia Rangel Candido, a pesquisa do Gemaa,  com os filmes de maior bilheteria e que dominam o mercado, também avaliou a participação de mulheres nos elencos. O resultado é que a cada 37 homens brancos, uma mulher negra aparece, mas não em posição de prestígio.  “A representação de mulheres negras quando estão protaganizando,  é estereotipada, hiperssexualizada”, afirmou a cientista.

A Ancine respondeu que está atenta “à interseccionalidade” e vem fazendo avanços. “Conseguimos incluir no planejamento para os próximos 4 anos o compromisso de se dedicar a questões de gênero e raça em todas ações de fomento”, disse Debora Ivanov.

O Ministério da Cultura, por meio da Secretaria do Audiovisual, também pretende lançar, em abril,  a 2ª edição do edital Carmem Santos, que dará bônus a propostas de curtas-metragens apresentadas por mulheres. Devem ser distribuídos R$ 60 mil para 15 projetos.