Menos sono

Crianças que passam horas brincando com smartphones e tablets dormem menos do que os que não interagem com tecnologia. É o que afirma o estudo publicado na Scientific Reports, site da revista científica Nature. O levantamento diz que para cada hora que crianças pequenas  – entre seis meses e três anos – passam usando aparelhos eletrônicos, elas têm 15 minutos a menos de sono.

O estudo foi conduzido pela Birkbeck, que faz parte da Universidade de Londres, com 715 pais de crianças com até três anos de idade. Perguntou-se a frequência com a qual os bebês brincavam com smartphones e tablets e também detalhes do padrão de sono das crianças. Concluiu-se que 75% das crianças usavam aparelhos do tipo diariamente. Essa porcentagem era de 51% entre crianças de seis e 11 meses e de 97% entre crianças de 25 e 36 meses de idade.

Tim Smith, um dos pesquisadores que participou do estudo, afirma que o tempo de sono perdido não é muito quando se dorme um total de 10, 12 horas por dia. “Mas cada minuto importa no desenvolvimento infantil por causa dos benefícios do sono”, afirma. As conclusões do estudo não são definitivas, mas Smith diz que a pesquisa indica que telas de toque podem estar associadas a problemas do sono.

Mas afinal, crianças devem, ou não brincar com aparelhos eletrônicos interativos? “É muito complicado responder isso agora. A ciência ainda está imatura, estamos realmente atrasados em relação à tecnologia e é muito cedo para fazer afirmações definitivas”, diz Smith.

Para ele, no momento, a melhor aposta é seguir as mesmas regras usadas para estabelecer o tempo que as crianças passam em frente à televisão. Isso significa que os pais devem impor limites para o uso de aparelhos com telas de toque, assegurando que o conteúdo seja adequado à idade e evitando que o uso seja feito antes da hora de dormir.

Também é preciso estimular que as crianças façam atividades físicas, na avaliação do especialista. “Como é o primeiro estudo a investigar as associações entre o sono e o uso de telas de toque na infância, trata-se de uma pesquisa oportuna”, afirma Anna Joyce, pesquisadora de desenvolvimento cognitivo da Universidade de Coventry, na Inglaterra.

“Com base nesses achados e no que sabemos por meio de outros estudos, talvez valha a pena limitar o uso de telas de toque ou o uso de outros aparelhos eletrônicos nas horas anteriores ao momento que a criança vai para a cama dormir”, completa Joyce. Para a pesquisadora, “até que se saiba como as telas de toque afetam o sono, esses aparelhos não deveriam ser banidos por completo”.

O professor Kevin McConway, da Open University, prefere encarar os resultados dessa pesquisa com desconfiança. “Eu não perderia o sono por conta desses resultados se eu ainda tivesse bebês. As crianças dessa pesquisa usavam telas de toque por 25 minutos por dia e por isso dormiriam seis minutos a menos”, avalia.

Participe do voto popular

A Comissão Julgadora do Prêmio Nacional de Biodiversidade selecionou os 17 trabalhos finalistas para a segunda edição do evento, que tem o objetivo de reconhecer as atividades e projetos do setor público, privado, organizações sociais e profissionais que se destacam por buscarem a melhoria do estado de conservação das espécies da biodiversidade brasileira. Os trabalhos concorrem às seguintes categorias: sociedade civil, empresas, academia, órgãos públicos, imprensa e Ministério do Meio Ambiente. A exemplo da primeira edição, todas as iniciativas finalistas também concorrerão ao prêmio especial “Júri Popular”. O vencedor será eleito por meio de votação eletrônica, que começa no dia 2 de maio, no site do Prêmio. Acesse o site aqui.

Segundo o diretor do Departamento de Conservação e Manejo de Espécies do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Ugo Vercillo, o prêmio também tem como finalidade chamar a atenção da sociedade brasileira para os projetos, programas e iniciativas que tem levado à melhoria do estado da conservação das espécies. “Existe um baixo conhecimento da sociedade brasileira quanto à diversidade de espécies existentes no Brasil e sua importância para o nosso dia a dia, e, até mesmo, do risco que elas estão correndo. O prêmio nos dá a chance de mostrar tudo isso para sociedade e, mais do que isso, temos a chance de aproximá-la do tema e até estimular novas iniciativas”, destacou o diretor.

Vercillo ressalta que “chamar a atenção da sociedade para biodiversidade é um tema de discussão global, não é uma meta somente do ministério”. De acordo com ele, os países membros da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) concordam que uma das principais ações para reduzir a perda de biodiversidade é o aumento do conhecimento da sociedade sobre a importância da biodiversidade. “A Meta 1 de Aichi é exatamente aumentar esse conhecimento. E o prêmio vem contribuindo para esse processo”, informou.

A cerimônia de entrega do prêmio ocorrerá em Brasília, no dia 22 de maio, data em que se comemora o Dia Internacional da Biodiversidade. Na ocasião, serão divulgados os vencedores de cada categoria: sociedade civil, empresas, academia, órgãos públicos, imprensa e Ministério do Meio Ambiente.

Todos os 17 finalistas receberão um certificado e uma viagem a Brasília para participar da solenidade. Os vencedores receberão o troféu do II Prêmio Nacional de Biodiversidade, feito pelo artista plástico Darlan Rosa, em reconhecimento às ações em prol da biodiversidade.

Jovens, drogas e web


Por Geraldo Mendes de Campos e Edilaine Moraes
Geraldo é psicólogo clínico, especialista em dependência química. Diretor técnico de CAPSad, professor e gestor em políticas públicas no segmento de Álcool, Tabaco e Outras Drogas. Edilaine  é psicóloga clínica,  pós-doutora em psiquiatria e psicologia médica pela Unifesp. Coordenadora de cursos de pós-graduação a distância (EaD).
Artigo originalmente publicado na revista ComCiência


Talvez o tema “drogas” venha sendo um dos mais polêmicos das últimas décadas, o que pode estar relacionado à discussão sobre a legitimidade institucional de interferência nas escolhas das pessoas, ou às diferentes visões que se possa ter sobre o direito de cada indivíduo conduzir a sua vida do jeito que quiser.

Nessa área, as polêmicas e discordâncias vão se avolumando a cada nova ação que se proponha implantar. Isso ocorre, possivelmente, pelo fato de as duas grandes perspectivas que direcionam tais estratégias serem vistas como antagônicas.

De um lado, a perspectiva proibicionista busca erradicar todo e qualquer uso de substâncias psicoativas, ao passo que a perspectiva da redução de riscos defende o direito das escolhas individuais, sem interferência institucional.

Partindo de pressupostos tão divergentes, é compreensível que qualquer ação, de uma ou outra perspectiva, gere discussões ideológicas. Um dos pontos de maior discordância entre esses dois modelos se concentra nas propostas de ações de prevenção ao uso de substâncias.

Falar sobre adolescentes e drogas já se torna algo um tanto polêmico, visto as mais variadas linhas de pensamento que se debruçam sobre um e outro aspecto. Juntando-se esses dois aspectos, as discussões giram em torno do que poderia levar o adolescente ao uso, quais estariam mais propensos ao uso abusivo e dependência, qual modelo de tratamento seria recomendado para cada caso, quais estratégias preventivas seriam mais eficazes, quais poderiam provocar reação contrária etc .

Então, aquilo que foi planejado para ser uma ação preventiva pode, ao contrário, despertar curiosidade e estimular o uso? Nesse aspecto em particular, gostaríamos de trazer à reflexão a proposta de um canal do YouTube chamado Drugslab, lançado no final de 2016 que, segundo seus criadores, tem por meta “informar e reduzir os danos gerados pelas drogas”.

Para isso, consideramos necessária uma rápida passagem por questões importantes que caracterizam a adolescência, público alvo da maioria das ações em prevenção. Essa fase da vida é um importante momento de transição, caracterizado por diversas transformações, tanto hormonais quanto psicológicas. A busca pelo distanciamento de tudo o que possa estar relacionado à vida infantil acarreta a necessidade de constituição de uma nova identidade, de novas crenças, novas preferências, novas experiências. A afirmação dessa nova identidade necessariamente passa pela aceitação em um novo grupo de iguais e reconhecimento de si como membro dessa “tribo”.

Isso tudo acontece em uma etapa do desenvolvimento neurológico em que algumas estruturas cerebrais ainda se encontram em amadurecimento. Justamente aquelas responsáveis pela percepção temporal, planejamento, controle de impulsos e raciocínio, o que faz do adolescente um ser imediatista, com grande valorização do presente, em detrimento das possíveis consequências futuras.

Ele pouco utiliza o pensamento crítico, age impulsivamente, não reconhece os riscos aos quais está exposto e testa limites sem grande discernimento, justamente por não ter tais estruturas cerebrais completamente desenvolvidas.

Nas últimas décadas do século XX, a oferta em ambientes escolares de palestras e depoimentos de dependentes químicos em recuperação era uma estratégia de prevenção largamente utilizada e considerada suficiente, por si só. A ideia por trás dessa estratégia proibicionista, era que os adolescentes não usariam drogas se temessem as consequências desse uso.

Tempos depois, passou-se a questionar a eficácia dessa intervenção. Embora inovadora no que se referia a levar informações sobre as drogas para dentro de um ambiente de grande influência em suas formações (o ambiente escolar), o que se observava, diferente do previsto, era que quem já fazia uso continuava a fazê-lo, pois não se reconhecia no testemunho prestado, ao passo que alguns dos que ainda não haviam experimentado, de certa forma, sentiam-se atraídos, curiosos e desejosos pelos efeitos descritos pelo palestrante.

Voltamos, então, ao canal Drugslab e sua proposta de “informar e reduzir os danos gerados pelas drogas”, utilizando linguagem e mídia extremamente atraentes aos jovens: Uma das diferenças existentes entre a atual geração de adolescentes e as anteriores é a facilidade que os de hoje têm em obter as mais variadas informações, devido à velocidade com que se propagam. Excetuando-se raras exceções, os adolescentes “de hoje” já se acostumaram a buscar na mídia eletrônica toda e qualquer informação que sua curiosidade desejar. Claro que isso apresenta um aspecto altamente positivo, no que se refere à instrução e busca pelo conhecimento. No entanto, todo e qualquer tipo de informação está acessível a um click, o que pode se tornar um risco, uma vez que caberá ao próprio adolescente – com aquelas características citadas acima – avaliar determinado conteúdo como sendo bom ou ruim para si.

O Drugslab é um canal do YouTube, criado por uma emissora pública da Holanda, em que jovens apresentadores se propõem a experimentar diferentes drogas, ao vivo, em frente às câmeras, e relatar os efeitos observados, tanto aqueles considerados negativos quanto os positivos. Em pouco mais de 7 meses no ar já atingiu quase 13 milhões de visualizações e 390 mil inscritos [números atualizados em 5 de abril de 2017].

A proposta do canal é apresentar, a cada semana, uma substância diferente, trazendo informações sobre formas de administração, consumo seguro, efeitos, possíveis danos, possibilidade de aplicação medicinal quando houver etc. Três apresentadores se revezam em duplas, a cada novo episódio. Enquanto um deles consome a droga e relata os efeitos percebidos, o outro o observa, tece comentários, controla alguns sinais vitais e apresenta algumas informações baseadas em evidências.

Alinhados à perspectiva da redução de riscos, o canal utiliza mídias e linguagens acessíveis e de interesse para jovens e adolescentes, a fim de divulgar informações e prestar esclarecimentos, como uma forma de evitar acidentes durante e após o consumo e assim reduzir os danos causados pelo consumo de substâncias.

A informação é prestada de jovens para jovens, provocando um impacto e aceitação maiores, visto a identificação com os apresentadores: não se trata de um “estranho ao grupo” falando o que aconteceu consigo, mas “um igual” mostrando o que acontece, “na real”, ao vivo.

Não há intenção de amedrontar os jovens quanto aos efeitos de determinada droga, mas fornecer informações imparciais e científicas para que eles possam tomar suas próprias decisões, de forma racional e bem fundamentada. Mas, como vimos acima, é possível esperar dos adolescentes decisões racionais e fundamentadas?

Uma das críticas que se faz ao Drugslab é a mesma que se fazia às antigas palestras de dependentes químicos nas escolas: alguns jovens, ao obterem informações que possam desmistificar os males causados por determinadas drogas, podem se sentir menos temerosos, mais curiosos e atraídos para a experimentação.

Além disso, outras estratégias preventivas adotadas pelo canal, embora adaptadas à Era Digital, são bastante semelhantes às adotadas pelas antigas palestras nas escolas: a) também procuram levar aos jovens informações sobre o uso de substâncias e suas consequências, prestadas por quem já as usou (no caso atual, isso acontece no momento do uso, sob efeito da substância) ; e b) também utilizam um ambiente de grande influência na formação dos jovens (neste caso, a internet e a comunicação virtual).

Nesse aspecto, outra questão precisa ser ponderada: a influência da mídia nas decisões das pessoas, principalmente de jovens e adolescentes. Mídias eletrônicas propagam seus conteúdos de forma imediata e isso deve ser visto como um grande avanço no compartilhamento e democratização do conhecimento. Aquilo que é divulgado, rapidamente ecoará em grupos alvo.

Por outro lado, qualquer tipo de conteúdo, uma vez na rede, irá chegar a milhares de mentes ávidas por novas informações. Se, de certa forma, os adolescentes encontrarão “canais” com o propósito de esclarecer e informar, também encontrarão “na rede” tantos outros com claro propósito de incentivar práticas perigosas e autodestrutivas. A internet passou a ser a principal mentora das atuais gerações, entre 7 e 70 anos. Dos mais velhos, podemos esperar crítica e discernimento. Mas, e dos mais novos?

É certo que cada jovem pode responder de forma diferente aos estímulos que recebe ao longo da vida. Na questão das drogas isso também ocorre. Vários outros fatores interferem em suas escolhas: aspectos psicológicos individuais, o modelo parental, a rede de fatores de proteção existente ao redor, os fatores de risco e as vulnerabilidades as quais está exposto (entre outros).

Propostas como a do canal Drugslab trazem o claro propósito de esclarecimento imparcial. Mas será que todo esse esclarecimento, assim como as antigas palestras em escolas, não poderá reduzir temores e despertar interesse pelo uso? Prevenção ou estímulo? Cabe a reflexão!

Publicidade, jovem e álcool

Quanto mais cedo os jovens são expostos à publicidade de bebidas alcoólicas, mais chances eles têm de começar a beber precocemente ou de ingerirem uma maior quantidade de álcool, caso já bebam. A conclusão é de estudos reunidos pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS) em publicação divulgada nesta semana. Documento propõe regulações no marketing de produtos nocivos à saúde.

Acesse a publicação (texto em inglês)  clicando aqui.

Estimativas compiladas pelo organismo regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam uma alta incidência do consumo episódico e excessivo de bebidas alcoólicas entre indivíduos de 15 a 19 anos nas Américas — 29,3% entre os homens e 7,1% entre as mulheres. A região tem, em média, índices de ingestão de álcool maior do que as outras partes do mundo.

Os jovens são cinco vezes mais propensos a beber marcas de álcool que anunciam na televisão nacional e tem 36% mais probabilidade de comprar produtos anunciados em revistas nacionais. O álcool é considerado pela OPAS o principal fator de risco de morte e incapacidade entre pessoas de 15 a 49 anos vivendo nas Américas. O consumo abusivo da substância é também um dos quatro fatores de risco mais comuns — e evitáveis — para as principais doenças não transmissíveis.

Atualmente, quase 40% dos países das Américas não têm restrições ao marketing de bebidas alcoólicas e nenhum deles conta com uma proibição total de comercialização. Sete países relataram ter códigos de autorregulação, apesar das evidências de que essas medidas não são eficazes em reduzir a exposição dos consumidores menores de idade à propaganda sobre álcool.

A publicação da OPAS observa que interdições abrangentes ao marketing de produtos alcoólicos é provavelmente a única maneira de eliminar as possibilidades de que os meios de comunicação influenciem os que mais precisam de proteção — como adolescentes e outros grupos vulneráveis. Para ajudar Estados-membros, a agência da ONU apresenta no documento elementos que podem ser usados pelos governos para fortalecer marcos legais e regulatórios sobre publicidade.

A OPAS lembra ainda que a publicidade sobre bebidas alcoólicas é bastante difundida nas Américas, usando algumas das técnicas mais modernas de publicidade, para além dos usos tradicionais de mídias impressas e eletrônicas. Estratégias incluem o patrocínio de equipes e eventos esportivos, descontos especiais, presença nas redes sociais e vendas ou fornecimento para instituições de ensino e de saúde.

Fonte: ONU Brasil

Festival comKids-Prix Jeunesse

O Festival comKids – Prix Jeunesse Iberoamericano 2017 já tem data marcada.  Em sua oitava edição, o evento será realizado de 14 a 19 de agosto. As atividades vão acontecer no Sesc Consolação e no Goethe-Institut São Paulo. O encontro reúne amostra representativa da produção audiovisual infantojuvenil recente da América Latina, Península Ibérica e conta também com a participação de representantes dos demais países de língua portuguesa. As inscrições estão disponíveis  no portal comKids .

Os interessados em inscrever conteúdos para participar das categorias do Festival têm até o dia 8 de maio. O regulamento traz todos os detalhes. Há seis categorias. São elas:

– Até 6 anos (ficção e não ficção)
– De 7 a 11 anos – ficção
– De 7 a 11 anos – não ficção
– De 12 a 15 anos – ficção
– De 12 a 15 anos não ficçã
– Conteúdos curtos (conteúdos com duração entre 20 segundos e 3 minutos e 59 segundos, ficção e não ficção)

Acesse aqui o formulário de inscrição

‘Não trabalho para dar tudo’

Por Silvia Adrião
Pedagoga, especialista em Construtivismo/Educação e Mestre em Sociologia da Educação.
Artigo originalmente publicado no site da Rebrinc

Não, eu não trabalho para dar tudo o que você quer. Não seria justo com você. Não seria bom para você. Dar a você o poder de conseguir “tudo” o que quiser (falando de bens materiais) seria uma forma de deixá-lo sempre insatisfeito com o que tem. Uma forma de esvaziá-lo de valores fundamentais. Seria uma forma de enganar você sobre as dificuldades da vida. Seria injusto porque lhe tiraria o direito de sentir aquela realização prazerosa quando conquistamos algumas coisas que foram demoradas para conquistar. Seria injusto porque o transformaria em um indivíduo cheio de coisas e vazio de experiências e de sensações que enriquecem verdadeiramente a vida. Não seria positivo para você conseguir tudo assim, tão facilmente, pois lhe tiraria o poder transformador que só as adversidades e a capacidade de criar e se adaptar com o que temos trazem. Eu não quero isso para você.

Acima de tudo, trabalhar para poder dar tudo o que uma criança quer é em si uma grande inversão de valores. Porque, se chegarmos bem perto, se nos permitirmos escutar o que a criança realmente quer, saberíamos que não estamos falando de coisas. Criança, na sua essência, não quer telefone, vídeo game ou bonecas caras. Criança quer companhia, quer natureza. Criança quer encontrar com outras crianças. Crianças querem a chuva e o bolinho de chuva. Querem o vento, folhas, gravetos e muita lama. Querem um mergulho no mar, cavoucar a na areia e comer pipoca. Criança quer histórias de medo, lamber a massa do bolo e brincar de pega-pega. Quer colo e cafuné.

Se eu pudesse, trabalharia menos, aí sim poderia lhe dar exatamente tudo o que você quer. Mas esta é uma outra reflexão que fica para um outro dia.

Sem notícias falsas

Por Ana Cláudia Vargas
Jornalista

Lembra quando seus antepassados da era anterior à internet/redes sociais compravam jornais nas bancas, diziam que gostavam do cheiro do papel impresso e liam com prazer evidente as notícias ali estampadas? Lembra quando as pessoas diziam “eu li no jornal X” como se isso recobrisse a notícia com um selo de credibilidade ou algo parecido?

Pois hoje isso parece algo longínquo demais, hoje o que torna uma notícia válida é sua capacidade de ser compartilhada o maior número possível de vezes. Hoje é preciso somente que uma “notícia” renda muitos cliques, acessos e compartilhamentos e só.

Se é verdade ou mentira o que a tal “notícia” agrega, se sua elaboração foi feita de forma cuidadosa (este aspecto antes primordial) isto parece ter perdido toda a importância.

E é bom que você saiba: tem muita gente lucrando com sites que publicam “notícias”, quer dizer, mentiras, como se fossem “verdades”. Talvez você pense, com certa razão: mas que problema há nisso se a imprensa dita séria publica tantas notícias que se revelam ou se revelaram inverdades? Sim, mas tais notícias se foram produzidas por veículos de imprensa que prezam a informação apurada com rigor, poderão ser questionadas por quem quer que seja, e nesse processo, ficarão evidentes aspectos que ainda fazem o jornalismo valer a pena. Em outras palavras: quando uma notícia pode ser questionada, quando o jornalista que a produziu pode defendê-la e tem argumentos para tal, é sinal de que apurou, pesquisou e agiu de forma profissional.

Outra coisa é o fato de que jornais sérios ou veículos de comunicação sérios não agem de forma leviana. Não, eu não nasci ontem e sei muito bem que jornais ditos sérios também podem agir de forma leviana e/ou manipuladora, mas ainda assim, espera-se (esperamos) que, até certo ponto, o que está noticiado ali, nas folhas, estadões e diários da vida, tenha sido escrito por gente que se preocupa com a informação que entrega ao leitor.

Um próspero mercado

Mas o discurso acima, que pode parecer dramático demais ou piegas e antiquado, não interessa em nada aos donos dos tais sites que prosperam inventando mentiras, boatos, inverdades e outras “notícias” que muitos de nós já compartilhamos.

Sim, você e eu já devemos ter (em algum momento das recentes e acaloradas discussões politicas, por exemplo) compartilhado matérias dos tais sites* e saiba que este nosso compartilhamento contribuiu para que os donos deles enriquecessem mais um pouquinho.

Recentemente o jornal Folha de S.Paulo fez uma matéria muito necessária sobre estes sites e a mim pareceu terrível (embora nada mais pareça mais tão terrível assim) constatar o quanto é natural e simples e aceitável e normal, este lucrativo mercado de notícias falsas. O quanto o que interessa é somente (e tão somente e unicamente e exclusivamente) que este processo seja lucrativo e só.

Ora, é claro que ninguém abre negócios para vê-los falidos, mas entenda: neste caso, não existe nenhuma preocupação com a construção da notícia, qualquer “coisa” pode se tornar digna de cliques se no centro dela tiver algo digno de cliques e este algo pode ser uma pessoa famosa, um acontecimento que tenha apelo popular (uma morte, um espetáculo, muitas mortes espetaculares, uma subcelebridade ou uma celebridade etc.).

Comida estragada  notícia deturpada

Tudo isto pode parecer bem confuso porque afinal, os jornais “de verdade” também podem produzir boatos ou divulgar informações inverídicas, como mencionei acima, certo? Então, talvez seja melhor pensarmos assim: você come qualquer porcaria em qualquer lugar? Ou: você acha normal saber que tem gente que revira lixo em busca de comida? Eu nunca acharei isto normal como também não acho normal que exista tanta informação falsa circulando na internet como se fosse verdadeira. Mas o que uma coisa tem a ver com outra? É que para mim as notícias que se inventam ao sabor do número de cliques são exatamente como o lixo que nós geramos (e que antes foi comida fresca e saborosa, ou seja, de verdade) e que, horrivelmente, será vasculhado por pessoas que são como nós, humanamente falando, mas reviram o lixo porque não têm dinheiro para comprar comida que preste.

Ouso pensar até que talvez a internet tenha virado apenas isto para quem a vê como uma fábrica de cliques: uma forma de se lucrar com esta grandiosa máquina que produz informação de forma instantânea e veloz. Só que ao final do processo de fabricação de informações, todo o “lixo” existente ali, ou seja, todos os restos das notícias verdadeiras e apuradas que circularam intensamente, já foi compilado (reciclado?) por estes “inventores” de notícias que garimpam uma frase aqui, outra ali e vão montado suas notícias falsas como se construíssem zumbis ou coisas que me lembram “frankensteins”: na verdade, as tais “notícias” não passam de montagens de palavras ditas em outros contextos ou sequer faladas em contexto algum. Mas isso, como já se sabe, não importa, e sim que as invenções saídas destas imaginações assustadoramente férteis angariem mais e mais cliques!

A morte do jornalismo?

E o que se segue depois é que as tais invenções criadas, as tais aberrações espalhafatosas (como aquela que circulou há pouco e dizia que dona Marisa Letícia estaria bem viva, lá na Itália) chamam a atenção de pessoas ingenuamente curiosas (como somos todos nós em certos momentos) e elas clicam, compartilham e daí a “notícia” se espalha de forma absurdamente rápida!

Diante disso, não custa nada ficarmos mais atentos antes de clicarmos e compartilharmos o que temos lido aqui e ali na web. Perceba agora a analogia, rasa admito, entre a “comida” (notícia apurada e fresca) e o lixo (notícia fabricada/reciclada/inventada): enquanto veículos sérios realmente produzem notícias e serão capazes de responder por elas, se questionados, como já dito antes, os tais sites que vivem de regurgitar o que sobrou das notícias velhas, requentadas ou estragadas deliberadamente ganham dinheiro com o que iria para o lixo, mas o problema é que vendem este lixo como se fosse algo novo, fresco e digno de se “saborear”.

Sei o quanto minha “tese” pode parecer louca ou ridícula mas pare para pensar e não perca seu valioso e cada vez mais escasso tempo compartilhando lixos noticiosos. Lembre-se que, apesar dos pesares (da manipulação midiática, sobretudo, que muito contribuiu para esse cenário, que esvaziou o jornalismo do sentido e do valor que ele deveria preservar), o bom jornalismo é um dos pilares da democracia. Países com democracias sólidas e respeitáveis se importam tanto com a educação quanto com o trabalho de uma imprensa verdadeiramente comprometida com valores que hoje nos fazem tanta falta (a nós, brasileiros, e ao mundo todo, enfim).

Para terminar: o Brasil oferece um cenário bastante atraente para que os tais sites fabricantes de notícias falsas prosperem, pois nossa suposta democracia está se fragmentando a olhos vistos, como sabemos. Nem bem floresceu e já decaiu…

No meio disso tudo, desse verdadeiro caos oficializado, somente uma imprensa atenta pode, ao menos, tentar iluminar os cantos obscuros que vão se revelando entre as sombras dessa fase tenebrosa que vamos (lentamente) atravessando.

Agora imagine que no meio dessa vagarosa e caótica travessia surgissem pessoas que agissem de forma leviana, chantagista, abertamente manipuladora e que ainda (!!) se gabassem de agir dessa forma e que se aproveitassem da situação para lucrar. Pois penso que estes são como aqueles comerciantes que aumentam o preço da água, de forma abusiva, em época de racionamento.

Lembre-se: notícia bem apurada também é item de primeira necessidade, agora, lixo – de qualquer natureza, seja “orgânico” ou noticioso – deve ir para o lixo e ponto.

*Estes são, segundo a Folha, alguns dos sites que “fabricam” notícias: Pensa Brasil; Brasil Verde e Amarelo; Jornal do País; Diário do Brasil; Folha Digital; Juntos pelo Brasil; Jornal do País; Você precisa saber, entre outros.