Ativistas ambientais

Por Luanna Tavares

A Atiaia, a onça-pintada brasileira, que vive no Parque Nacional de Foz do Iguaçu, no Paraná, acaba de virar estrela. Ela e mais cinco animais selvagens (elefante, rinoceronte, lêmure, pangolim e urso-cinzento) fazem parte da versão piloto do aplicativo Safari Central. A plataforma traz em realidade aumentada os seis bichos em informações reais. Neste sentido, os animais podem ser inseridos nas fotos dos usuários em qualquer lugar e tamanho.  O aplicativo também disponibiliza a posição geográfica, tamanho e hábitos dos animais. É possível ver ainda o animal em seu habitat natural, rugindo, caminhando e etc.

Considerado o “Pokémon Go” da natureza, a plataforma, gratuita e disponível para Android e iOS, foi desenvolvida pela startup queniana Internet of Elephants, com o apoio do WWF-Brasil e do Instituto Pró-Carnívoros. A versão completa será lançada em agosto de 2018 apenas com animais em extinçãoAo transportar virtualmente animais selvagens para cidades, os desenvolvedores querem integrá-los ao cotidiano.

A plataforma está oferecendo uma promoção, em que o responsável pela melhor fotografia tirada com o app, será premiado com um Safari de sete dias no Quênia para duas pessoas. A ideia é transformar os usuários em ativistas ambientais.

Conheça a plataforma: www.safaricentralgame.com

A revistapontocom conversou com Anna Carolina Lobo, coordenadora do programa Mata Atlântica e Marinho do WWF-Brasil, para entender mais sobre a importância do aplicativo.

Acompanhe:

revistapontocom – Qual é a importância de um aplicativo como este para o meio ambiente e a vida selvagem?
Anna Carolina – Hoje as pessoas estão cada vez mais desconectadas da natureza. Estamos vivendo um transtorno de déficit de natureza coletivo, como bem coloca o jornalista Richard Louv em seu livro A Última Criança na Natureza. Assim, aplicativos como o Safari Central surgem como uma possibilidade de conectar as pessoas ao meio ambiente de uma forma inovadora. Já que elas estão 100% conectadas, estamos trazendo questões ambientais importantes para um contexto que elas entendem: a internet.

revistapontocom – Neste sentido, um jogo acaba contribuindo mais facilmente para a conscientização das pessoas?
Anna Carolina – Com certeza! De forma lúdica e acessível, fica muito mais fácil trazer o tema da conservação de espécies para mais próximo das pessoas, além dessa conexão com a natureza que tanto falta. Além de brincar no app, as pessoas poderão ler informações sobre cada animal e fazer mini doações para a causa da instituição que mais gostar, ajudando a conservar as espécies e o meio ambiente ao redor delas.

revistapontocom – Das seis espécies encontradas no jogo virtual, uma é brasileira. O que motivou a escolha da onça-pintada Atiaia?
Anna Carolina – A onça-pintada é uma das espécies mais ameaçadas da Mata Atlântica. Em todo o bioma só existem hoje cerca de 200 indivíduos, menos de 1% da população original. Assim, a ideia é dar mais visibilidade para o animal e ajudar a aproximar as pessoas dele. A Atiaia é uma das onças que vive nas florestas do Parque Nacional do Iguaçu (PR), onde é monitorada pelos cientistas do Instituto Pró-Carnívoros com o apoio do WWF-Brasil, do parque e do ICMBio por meio de câmeras escondidas na mata. As imagens captadas pelas famosas câmeras trap servem para que os cientistas avaliem informações sobre cada animal. É assim que descobriram que a Atiaia, por exemplo, acaba de ganhar um novo filhote.

Quer educar seus filhos?

Por Jean Sigel
Especialista em Marketing, Comunicação e Inovação, e co-fundador da Escola de Criatividade
Artigo publicado originalmente no blog Educação e Mídia – Gazeta do Povo

Talvez haja uma saída para o Brasil. Vamos reinventá-lo investindo em nossos filhos. Chegamos ao limite e talvez só uma nova geração poderá transformar essa nação. Testemunhamos novamente o país se perder em si mesmo, não apenas pela corrupção, falta de liderança e projeto de país, mas essencialmente pela sua falta de educação. Sim, somos mal educados. Nenhuma nação desenvolvida chegou lá sem investir seriamente na educação de seus filhos. E apesar de me considerar um eterno otimista, sou também inquieto. Precisamos criar urgentemente um movimento pela educação no Brasil. Que comece na escola, em casa, nas comunidades, nas empresas e nas ruas. Pelas minhas filhas e todos os filhos do país.

Tenho dado palestras e participado de debates em universidades e escolas por todo canto, e muito me preocupa não apenas o sucateamento da educação no Brasil, mas principalmente o baixíssimo nível de qualificação de muitos egressos universitários, que batem a porta das empresas verdinhos como mexerica no pé e com pouca visão de mundo, inovação e negócios. E mais ainda, me preocupa saber que em um universo de apenas 10% aproximadamente da população brasileira que tem acesso ao ensino superior (histórico abismo) segundo a OCDE, aqueles poucos que se destacam e se qualificam estão apostando nos concursos públicos para conquistar estabilidade e bons salários ao invés de empreenderem ou trabalharem na iniciativa privada, que é o grande motor da nossa economia. A mesma que paradoxalmente é tão espremida e demonizada pelo governo e por parte da sociedade. Quer dizer que mesmo com baixa qualificação, péssima estrutura e pouco investimento na educação, estamos ainda perdendo nossos maiores talentos justamente para o governo? Jovens bem preparados, inteligentes e alguns antes idealistas que poderiam abrir novos pequenos negócios, empregar pessoas, gerar riquezas, estão simplesmente trocando tudo isso para tentar concurso público, e cumprir tabela em nome da tranquilidade e estabilidade? É isso mesmo? Pois isso me amedronta e entristece.

Precisamos não só recriar a educação brasileira, mas também reinventar o espírito do jovem brasileiro. Necessitamos de mais empreendedores. De idealistas e realizadores de tudo, e não apenas mais um especialista ou futuro burocrata do setor público. Se dependemos de um novo projeto de país, diante da mais grave crise de nossa história, para recriá-lo do zero precisamos dos jovens com qualificação e oportunidades. São eles que poderão transformar o país, quebrar padrões, destruir velhas convicções para se tornarem a mudança dos próximos 20, 30, 40 ou 50 anos. Não sou eu, nem meu pai, nem os políticos atuais e talvez nem a geração X que gerarão impacto e transformarão nossa realidade futura. Podemos todos contribuir, claro, mas é da tal geração Y para baixo que estou falando. Das minhas filhas hoje com 11 e 8 e dos seus filhos. É importante reconhecer quando o velho deve dar lugar ao novo. Toda economia desenvolvida, se fez pela educação e qualificação de sua população jovem no longo prazo. Não há atalhos. Mas como podemos esperar um país desenvolvido com o estado atual da educação brasileira? Como podemos querer um país competitivo, que depende muito das micro e pequenas empresas para crescer quando assistimos aos jovens trocarem o sonho de empreender pela segurança do carimbo? Como podemos enxergar o país do futuro – dos jovens – testemunhando tanta gente boa tão pessimista com o que vêem e onde muitos optam, com razão, por ir embora?

Nenhuma nação se sustenta, com baixa qualidade na educação de seu povo. Diante disso, proponho que os jovens e a educação sejam a essência, o novo embrião para a reinvenção do Brasil. Só eles serão capazes de mudar, de inventar, de criar e de sustentar um novo projeto de futuro para os próximos 50 ou 100 anos. Para minhas filhas, netos, bisnetos. E temos uma grande vantagem, afinal somos ainda um país de muitos jovens. Jovens que poderão ser os pais desse novo Brasil que precisa urgentemente renascer. Não simplesmente mudar, mas renascer. Mas ainda sim penso que não basta termos jovens qualificados e melhorarmos a educação básica. Precisamos ir além. Formar jovens líderes, empreendedores, idealistas, questionadores, mobilizadores e ativistas do bem. Se tivemos a Rio +10, Rio + 20 e tantas outras para tratarmos do importante tema meio ambiente para nossa sobrevivência, precisamos ter a educação como protagonismo – educação + 10, +20, +30 no país, em um projeto integrado com o mundo. Clamo por um grande movimento que repense e reinvente a educação, nos quatro cantos do país, onde crianças e jovens são a fonte. Uma educação que polinize conhecimentos, valorize o pensamento crítico, o debate, a colaboração e a inventividade humana. Que os estimule ao exercício da cidadania, a sabedoria da convivência com o outro, a filosofia, a inteligência social, a tecnologia, as artes, a conhecerem o papel de cada um na sociedade e na política. Sim, a política. Digo a boa política, da política verdadeira feita pelas pessoas no dia a dia, exercendo cidadania, cobrando, protestando, mas também fazendo sua parte para a sociedade e o todo. É isso que acredito e sonho. Em uma nação com educação de qualidade, que valoriza o professor, mas também o conhecimento.  Com mais criadores e menos repetidores. Um time de realizadores que possam transformar realidades pela educação inovadora. Que saiba aproveitar e colocar para fora tudo que temos de melhor em nosso país: nosso gigantesco potencial criativo. E é isso que deveriam pais, avós e professores ensinar as crianças, a serem futuros cidadãos políticos, críticos, realizadores e transformadores de realidades para seu bairro, sua cidade e seu país.

É preciso ir a fundo nos problemas da educação brasileira que não se resumem a disciplina, conteúdo ou estrutura. Há muito mais a ser repensado e reinventado. Precisamos trazer soluções em um grande fórum, uma ágora popular, onde a pauta seria: como estará a educação e qualificação do povo brasileiro daqui a 50 anos? O que queremos ser quando crescer? Jovens criativos e protagonistas ou repetidores do mesmo? Educação é responsabilidade de todos. A começar pela mais importante delas, a família, pois a base acontece dentro de casa, sem terceirizações. Escolas, universidades, entidades, empresários, influenciadores e a sociedade podem e devem se mobilizar para colocar a pauta do novo rumo da educação do país. Debater, investir, encontrar soluções, melhores práticas, projetos reais. Sonho grande? Talvez sim, mas possível. Do jeito que está, se não tratarmos de recriar o Brasil, pela sua essência, a educação de sua gente jovem, tudo continuará da mesma forma que sempre foi. Me engana que eu gosto, eu finjo que está tudo bem aqui, você finge que está tudo bem ali, e vamos que vamos que amanhã é outro dia e domingo tem praia e futebol. Há um grande movimento em curso. Muita gente boa e qualificada querendo se envolver com educação, pois é parte de todos nós. Uma revolução mundial transformando jovens que são os pilares dos países do futuro. Eu sei, estive lá, vi e senti. E nós vamos ficar fora dela, perder o bonde, e apenas ouvir dizer que lá fora é assim e assado? Ou vamos fazer parte dessa revolução criativa da educação? Um novo Brasil, renascido, recriado, com olhos para o futuro. Acho que dá, lá na frente, sem dúvida, mas um dia o lá na frente chega pra todos. Basta começar agora, ou melhor, recomeçar.

Livros didáticos

Professores, diretores e coordenadores das redes públicas de ensino de todo o país tem até o dia 4 de setembro para escolherem os livros didáticos que serão usados pelos estudantes do Ensino Médio para o triênio 2018-2020. A novidade é que a partir de 2019, o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) vai ter ciclos de quatro anos e não mais de três, como acontece hoje. Além disso, outra mudança começa em 2019: todos os livros do 1º ao 5º anos vão passar a ser dos alunos, não precisando se devolvidos ao final do ano letivo. E pela primeira vez, professores da Educação Infantil e da área de Educação Física passarão a compor o PNLD.

Como deve ser feito o registro da escolha? Pelo diretor da escola no Sistema do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE), onde a instituição deverá selecionar duas opções de coleções de cada componente curricular, de editoras diferentes. Se a primeira opção não for possível, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) vai adquirir as obras da segunda escolha.

Para auxiliar na escolha, o (FNDE) disponibilizou, em seu portal eletrônico, o Guia de Livros Didáticos 2018, que contém resenhas e informações. Com o guia em mãos, os docentes podem conhecer melhor as obras disponíveis e selecionar as mais adequadas ao processo pedagógico de cada escola. Nesta edição, serão selecionadas coleções didáticas que englobam todos os componentes curriculares do ensino médio: língua portuguesa, matemática, língua estrangeira moderna (inglês e espanhol), física, química, biologia, filosofia, geografia, história, arte e sociologia.

Para mais informação, acesse o site do FNDE.

Premiado no ComKids

Por Luanna Tavares

“Aquitã, o indiozinho” foi o grande vencedor da categoria Conteúdos Curtos do Festival Comkids Prix Jeunesse Iberoamericano 2017, realizado na semana passada em São Paulo.  A animação, que faz parte da série Que Medo!, dirigida por Francisco Tadeu, conta a história de um jovem indiozinho que parece não temer os perigos da floresta, mas que, à noite, precisa enfrentar o medo do escuro.

Produzida pela Empresa Municipal de Multimeios (MultiRio), a  produção também conta com uma versão impressa e com recurso interativo da realidade aumentada para “dar vida” ao personagem. O livro, que integra a coleção Que Medo!, pode ser baixado gratuitamente no Portal MultiRio (www.multirio.rj.gov.br), basta clicar em Publicações, selecionar Livros e escolher a história. Para ter acesso ao conteúdo interativo, é necessário baixar o aplicativo Aquitã, o indiozinho no Google Play  e posicionar a câmera do smartphone em direção às páginas do livro que possuem um ícone específico no rodapé.

Para conhecer mais sobre o curta, a revistapontocom entrevistou Francisco Tadeu, conhecido como Frata Soares.

Acompanhe:

revistapontocom – Quanto tempo demorou para que o filme ficasse pronto?
Frata Soares – O filme levou cerca de 10 meses para ficar pronto. Não pudemos nos dedicar exclusivamente a ele, pois surgiam novas demandas que tínhamos que atender. Somos 4 pessoas ao todo na equipe.

revistapontocom – Qual a mensagem que você queria passar com a história?
Frata Soares – Auxiliar a criança na compreensão e na capacidade de entender aspectos da vida. Tudo tem a sua finalidade, cabe a nós aprendermos isso.

revistapontocom – Como é fazer filmes para o público infantil?
Frata Soares – É um processo complexo e ao mesmo tempo muito prazeroso. Requer o desenvolvimento de um olhar atencioso e acima de tudo responsável com aquilo que é passado para a criança, nunca desprezando o seu saber e a sua inteligência. Nós aqui da MultiRio, modéstia a parte, somos pioneiros nesse conceito de mídia educativa e ao longo de mais de 23 anos produzimos um acervo inestimável de produtos em várias mídias sempre com essa visão de qualidade e compromisso com as nossas crianças, alunos, professores enfim, de toda sociedade em geral.

revistapontocom – Aquitã morria de medo do escuro e você, quando pequeno, também era assim?
Frata Soares – Sim. Morei numa casa que ficava no final de uma vila que por sua vez, dava para um matagal. À noite, quando minha mãe esquecia de fechar a porta era um pesadelo…

Um toque de mestre

Por Luanna Tavares

Não tem quem faça Davi gostar do professor de Geografia. Exigente e disciplinador, Gonçalves é o terror da turma. Prova, lição de casa, leitura complementar… e as notas vão de mal a pior. Para completar o pacote: uma excursão para cidades históricas na companhia do professor durão. Nesta viagem, Davi conhece os segredos de Gonçalves e descobre o quão importante e proveitosa pode ser a relação entre aluno e professor, para ambos. Esta é a sinopse do livro Toque de mestre, de Telma Guimarães, que conta a história tendo como pano de fundo a ditadura militar.

Autora de muitos livros infanto-juvenis, inclusive em outros idiomas, Telma começou sua carreira quando lia muitas histórias para os filhos e, aos poucos, passou a inventá-las. Para não esquecer o que criava, anotava tudo. Depois de um tempo, enviou os textos para algumas editoras. Ouviu muitos “nãos” durante os quatro primeiro anos, mas não desistiu. Até que certa vez, um editor gostou e publicou um dos textos, o que deu início as suas obras.

E com o intuito de registrar e homenagear a relação aluno/educador e relatar a experiência do aperfeiçoamento da prática pedagógica, Telma concedeu uma entrevista à revistapontocom falando um pouco mais sobre o novo livro.

Acompanhe:

revistapontocom – “Um toque de mestre” retrata a relação do aluno com o professor. O que levou você a escrever sobre esse tema?
Telma Guimarães – Fui professora durante muitos anos. Meu pai também foi professor. Nossa relação com os nossos alunos sempre foi alegre e respeitosa. Quando meu filho mais velho começou a cursar o Ensino Fundamental 2, percebi que as disciplinas de História e Geografia tinham ficado bem diferentes da minha época! Fiquei tão encantada com a nova aprendizagem que estudava com ele, lia seus livros. E quando um dia ele chegou com um trabalho para fazer sobre “a fome” e uma certa indignação sobre a quantidade de textos para ler, decidi que era hora de escrever sobre alunos e professores. Não sabia bem que tipo de texto, sobre o que escrever. Mas tinha dois personagens: um adolescente e seu professor de Geografia.

revistapontocom – Hoje, infelizmente, sabemos que essa relação não é tão amistosa. Há relatos de agressões entre estudantes e professores, até mesmo física.
Telma Guimarães – É com muita tristeza que leio sobre essas notícias hoje em dia. Na minha época como professora também ocorria, mas um pouco menos. Muitas vezes eu chamava a atenção do aluno, conversava, enfim… E não passava muito tempo até que o pai vinha conversar. Às vezes elogiava a atitude e dizia que o filho precisava de limites. De outras vezes, o pai dizia que não conseguia impor limites em casa. E que o Professor tinha de dar educação ao aluno. Não, não temos. Precisamos ensinar, trocar informações, ampliar o conhecimento. Educação é ensinada em casa, com “por favor”, “obrigado”, jogar o papel no lixo, respeitar os mais velhos, os colegas, os professores. Coisas tão simples e tão difíceis de encontrar hoje em dia. Por isso, escrevo. E escrevo sobre os alunos, sobre os professores, para que lendo, a gente possa discutir e analisar o comportamento, olhar para o outro, construir um mundo melhor e mais justo.

revistapontocom – O livro fala ainda da ditadura militar no Brasil. Qual foi o objetivo de trazer este tema na história de Davi?
Telma Guimarães – Meus professores de História, da época de cursinho, foram presos políticos. O professor de Geografia do meu filho também. Meu pai, também advogado, combateu a ditadura bravamente, escondendo amigos procurados pelos militares, soltando outros presos. Lemos livros sobre a ditadura, assistimos a filmes, trocamos artigos durante muitos anos. Achei então que poderia costurar tudo isso com uma viagem que fiz para as cidades históricas, onde a Inconfidência Mineira tomou lugar. Um pouco de ficção, mas muito de coisas que realmente aconteceram.

revistapontocom – Em quanto tempo “Um toque de mestre” ficou pronto?
Telma Guimarães – Esse texto foi escrito há muito tempo. No ano retrasado, eu o desengavetei. Pensei em outras situações, o atualizei. Esse distanciamento foi bom. Você consegue fazer acertos na história, deixando tudo mais redondo.

revistapontocom – Autora de mais de 170 livros, de onde vem tanta inspiração?
Telma Guimarães – São quase duzentos livros publicados. Não sei se faço trinta anos de carreira agora, no final de agosto, ou em agosto do ano que vem. Até agora não tive tempo para checar as datas… Sou assim. Trabalho muito. Leio muito. Presto atenção ao que há em volta. Ouço o outro. Gosto de falar, mas sou boa ouvinte. Então me cerco de “casos”. E vou à livraria de uma a duas vezes por semana. E compro livros… Muitos. Novos, usados, e-pubs. Em português e em inglês, já que escrevo também na língua inglesa. Assinamos revistas e três jornais. Não saio de casa sem ler um a um. Então isso já ajuda bastante a povoar a mente com histórias.

revistapontocom – E a próxima obra? Já tem ideia do que será a história?
Telma Guimarães – Estou fazendo a tradução/adaptação de um clássico da literatura norte-americana. Interrompi o trabalho por dois dias para escrever uma história infanto-juvenil, com um novo tema sugerido por meu editor. Achei que não fosse conseguir. Mas deu certo. E fiquei feliz com o resultado! É um dom, eu creio, esse o de criar, escrever. Mas é preciso alimentar esse dom diariamente. Livros: um alimento diário. Recomendo!

Visibilidade

A 19ª edição do tradicional Festival do Rio, que acontece entre os dias 5 e 15 de outubro, apresenta, mais uma vez, o programa Mostra Geração/Vídeo Fórum 2017, espaço destinado à exibição e divulgação de produções audiovisuais de crianças e jovens do país e do exterior. Trata-se de um espaço pioneiro que propicia que crianças e jovens possam se expressar, debater seus temas de interesse e compartilhar os bastidores do processo de suas produções.

Para Felicia Krumholz, uma das curadoras e coordenadoras da Mostra Geração, o festival a cada ano recebe mais e mais inscrições. Observa-se também um amadurecimento dos filmes quanto a linguagem e técnica adotadas. “A cada ano vemos que passos largos estão sendo dados. Tanto por parte dos argumentos dos trabalhos quanto ao emprego de diferentes linguagens e técnicas. A garotada capta informações, quando bem passadas, de forma muito rápida e trabalha criativamente, quando tem permissão, com resultados muito interessantes”, destaca.

Saiba mais sobre a Mostra Geração

Confira a entrevista concedida pela curadora e coordenadora à revistapontocom.

revistapontocom – Chegamos à 19ª edição. O que se pode dizer sobre as produções das crianças e dos jovens?
Felicia Krumholz – Observamos o aumento crescente de escolas e instituições (ONGs) realizando trabalho de cinema com os jovens, seja apresentando e discutindo filmes, seja produzindo suas próprias obras. A cada ano, também vemos que passos largos estão sendo dados na produção das histórias. Tanto por parte dos argumentos que são apresentados quanto a linguagem e técnicas adotadas. A garotada capta informações, quando bem passadas, de forma muito rápida e trabalha criativamente, quando tem a permissão, com resultados muito interessantes.
Partimos sempre do que foi inicialmente proposto, geralmente isso vem descrito na ficha de inscrição do trabalho. Por exemplo: Há uns três ou quatro anos o tema apresentado para a execução dos trabalhos numa certa instituição foi Luz/sombras. Acabamos percebendo o quanto esse assunto gerou debate pelo resultado da produção. Neste sentido, podemos dizer que o nosso objetivo vem sendo alcançado. Queremos mostrar e discutir o que está sendo feito pelas crianças, adolescentes e jovens. Temos conseguido reunir material de qualidade. É óbvio que a cada momento queremos mais e melhor, mas, acredito, que estamos no caminho.

revistapontocom – Qual o critério usado para a seleção dos filmes do Vídeo Fórum?
Felicia Krumholz – O critério é o de acolher todas as instituições que se inscrevem. Não temos intenção de premiar ninguém, afinal de contas, cada produção foi feita com os recursos que cada um dispunha. Como cada escola ou projeto social pode inscrever até cinco trabalhos, geralmente escolhemos o que consideramos mais expressivo/criativo ou ainda aquele que poderá gerar um debate mais acalorado.

revistapontocom – Você tem alguma produção favorita?
Felicia Krumholz – Não. Mas certamente temos mais prazer em exibir trabalhos que fujam das abordagens mais fáceis sobre os temas que escolheram. Esses, na verdade, são os que ficam na lembrança da plateia e os que rendem melhores discussões.

Curta na Uerj

No mundo globalizado, as fronteiras geográficas se diluem e as informações trafegam quase à velocidade da luz. Como ser e sentir-se único nas sociedades hiperconectadas em diferentes redes? O 6º Festival Curta na Uerj está com inscrições abertas e convida ao debate sobre as múltiplas identidades na vida contemporânea: identidade de gênero, cultural, nacional, étnica, religiosa, etária, entre tantas outras. Os concorrentes são desafiados a abordar como os indivíduos constroem seu pertencimento a comunidades e criam novas formas de se relacionar com o mundo. Os vídeos e animações poderão conter várias questões acerca do tema “Identidades”, tais como diversidade, interação com diferentes grupos, trocas culturais e tolerância às diferenças. Os trabalhos devem ter a duração máxima de 10 minutos e ser enviados até o dia 11 de setembro.

O Festival Curta na Uerj contempla duas categorias: autores de 12 a 17 anos devem se inscrever na categoria “Teen” e aqueles a partir de 18 anos competem na categoria “Adulto”. Os três melhores vídeos de cada categoria levam câmeras digitais, smartphones e tablets. Haverá ainda votação popular pelo site do concurso para eleger os trabalhos que receberão menção honrosa.

O 6º Festival Curta na Uerj é uma iniciativa do Centro de Tecnologia Educacional (CTE) / Sub-reitoria de Extensão e Cultura e tem como objetivo incentivar a produção em vídeo e animação, bem como ampliar o espaço para a divulgação do audiovisual.

Congresso internacional

Qual é o papel que a mídia pode e deve desempenhar na vida das crianças em todo o mundo? A resposta para essa pergunta poderá ser encontrada durante o Children’s Global Media Summit 2017, em Manchester, na Inglaterra. O evento internacional pretende reunir em um mesmo espaço as pessoas mais influentes de todos os meios e setores digitais infantis. O Encontro de Mídia Global de Crianças acontece, a cada três anos, em um país diferente

Inovação, liberdade, empoderamento, entretenimento e educação serão os cinco temas abordados entre os dias 4 e 7 de dezembro durante as sessões da cúpula. Essas, por sinal, vão ajudar a moldar o futuro das mídias infantis para a próxima década, reunindo masterclasses, debates e workshops com alguns dos maiores nomes em mídia, política e indústrias digitais, incluindo CEO’s, líderes de pensamento, inovadores globais e visionários criativos.

Saiba mais sobre o evento

Pela primeira vez, em quase vinte anos, o conteúdo do evento será supervisionado pela BBC que trabalha com um grupo de parceiros de transmissão, instituições acadêmicas e departamentos governamentais com o objetivo de criar programas ricos e únicos de conteúdo para uma audiência mundial jovem.

“Nada importa mais do que moldar um mundo digital melhor, mais seguro e mais criativo para crianças. É por isso que estou realmente ansioso para a Cimeira – e todos nós nos juntarmos para fazer a diferença as gerações vindouras”, disse Tony Hall, Diretor Geral da BBC, ao site animationmagazine. Hall fará o discurso inaugural da Cúpula.

Hoje, o público infantil é a primeira geração a crescer em um mundo totalmente digital. Todos os dias ele se depara com novos conteúdos, opiniões e ideias. Os produtores de conteúdo audiovisuais e de web e as políticas públicas devem garantir que as crianças possam sempre acompanhar esses avanços tecnológicos, ajudando a definir o futuro da mídia para públicos jovens.

Mulheres na ciência

Você sabia que a falta de cuidados parentais na primeira infância pode impactar na formação do cérebro de uma criança, com consequências que podem durar a vida toda? Já imaginou que, se uma pessoa com câncer não responde ao tratamento quimioterápico, o problema pode ser na produção de determinada proteína em suas células? Esses são exemplos dos temas pesquisados pelas vencedoras da 12ª edição do “Para Mulheres na Ciência”, programa desenvolvido no Brasil pela L’Oréal Brasil em parceria com a UNESCO no Brasil e a Academia Brasileira de Ciências (ABC), cujo objetivo é promover a participação das mulheres no ambiente científico e fomentar novas pesquisas. Entre as sete premiadas deste ano estão cientistas do Pará, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Curitiba.

Seus trabalhos têm o potencial de encontrar soluções para problemas econômicos, ecológicos e de saúde. A mineira Fernanda Tonelli, da Universidade Federal de Minas Gerais, por exemplo, propõe usar peixes como fábricas de hormônios humanos – uma estratégia que, se implementada no Brasil, pode gerar uma economia de mais de R$ 125 milhões por ano aos cofres públicos. Já a gaúcha Marilia Nunes, que hoje vive no Pará e atua na Universidade Federal Rural da Amazônia, procura estratégias para evitar a extinção, no estado, do pirarucu, um peixe que pode chegar a 200 quilos e sofre com a pesca predatória. Rafaela Ferreira, da Universidade Federal de Minas Gerais, cria moléculas sintéticas na busca de tratamentos mais eficazes contra zika e Doença de Chagas, duas enfermidades com grande importância epidemiológica no país.

Há 12 anos, o Prêmio ajuda no prosseguimento de pesquisas e contribui para que a ciência brasileira ganhe destaque. Jenaina Ribeiro Soares, física da Universidade Federal de Lavras, reforça que os recursos conseguidos vieram em ótima hora. “Eles vão nos tirar de um sufoco, a situação de ter equipamentos parados por falta de reagentes. Além disso, vamos poder comprar material para instrumentação científica barateada. Tudo isso vai permitir desenvolver projetos de ponta e inéditos no país.” A matemática Diana Nóbrega, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, concorda, afirmando que o aporte financeiro do prêmio também vai ajudar a atrair mais alunos e a melhorar a infraestrutura para pesquisa na Uerj, com a perspectiva de construir um minilaboratório.

O coro é reforçado por todas as vencedoras. Mas as cientistas veem, também, uma outra contribuição fundamental do prêmio: “Sinto-me pessoalmente reconhecida ao ser premiada: alguém leu meu trabalho e acreditou nele. Mas acho que o reconhecimento dado pelo prêmio vai além: é o reconhecimento à participação feminina na ciência – uma ciência que, desde sempre, tem muito mais rostos masculinos, não porque as mulheres não fazem ciência, mas sim porque não são apoiadas e reconhecidas”, comemora Pâmela Carpes, da Universidade Federal do Pampa, campus Uruguaiana.

A proporção de mulheres no laboratório de Gabriela Nestal, pesquisadora do Instituto Nacional do Câncer – Inca (Rio de Janeiro) reflete um aumento da participação feminina na ciência no Brasil na última década. Segundo dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), desde 2010 o número total de pesquisadoras mulheres se iguala ao de homens, ainda que haja diferenças na presença entre áreas de conhecimento. Apesar do prognóstico positivo, os cargos científicos de liderança ainda são ocupados por cientistas homens, como destaca Gabriela: “Na minha instituição, as chefias são masculinas. A gente vê claramente um problema de progressão de carreira”. Ela vê no “Para Mulheres na Ciência” um reconhecimento raro em relação à sua carreira e uma realização pessoal e acredita que o Prêmio representa uma oportunidade de divulgar a pesquisa e valorizar o estímulo financeiro, essencial em tempos de crise.

Ao todo, 400 pesquisadoras se inscreveram nesta edição do “Para Mulheres na Ciência”, que premia quatro categorias: Ciências da Vida, Química, Matemática e Física. Cada uma das vencedoras receberá uma bolsa-auxílio no valor de R$ 50 mil, como uma forma de incentivo ao prosseguimento a seus estudos.

Educação no mundo de hoje

Por Luanna Tavares

O escritor e educador americano Mark Prensky foi o principal palestrante do evento “Educação 360º Tecnologia”, realizado, na semana passada, no Museu do Amanhã, no Centro do Rio. O autor do conceito “nativos digitais” falou para uma plateia atenta de professores e estudantes que lotou o auditório do espaço. Propondo um novo modelo para a escola do século 21, Prensky defendeu o empoderamento de crianças e jovens no mundo de hoje.

“Precisamos reimaginar a educação, mas, antes, pensar nas crianças que estão nascendo, que estão chegando. Daqui há alguns anos, elas serão os nossos estudantes”, anunciou.

Diante desta nova geração, a Educação tem de ser vista de forma mais ampla. Não apenas como áreas de conhecimento, englobando Matemática, Língua Portuguesa e ou Ciências. Na avaliação de Prensky, a Educação de hoje deve contemplar novos objetivo, currículo, ensino e tecnologia.

Para Prensky, o ritmo acelerado imposto pela tecnologia, algo nunca experimentado pelo ser humano, vem impactando a criação e o desenvolvimento das crianças. “Neste contexto, elas têm, hoje, uma maior capacidade. São empoderadas e muito mais poderosas do que antigamente”, destacou.

Neste sentido, a educação deve ter um objetivo mais amplo, muito além de medir conhecimentos e aprendizagem. Precisa instigar os estudantes a construírem um mundo melhor. Para isso, a problematização do mundo real tem de fazer parte do dia a dia da escola como forma de provocar a reflexão das crianças e jovens.

Em linhas gerais, o currículo deve passar por uma profunda transformação. Não faz mais sentido os alunos estudarem todas as disciplinas com a mesma intensidade. “É preciso trabalhar as habilidades e criar novas maneiras de ensino-aprendizagem. E, em paralelo, os professores precisam ajudar os estudantes a realizarem seus sonhos”, afirmou.

Todos devem estar comprometidos neste processo, inclusive os pais e ou responsáveis pelas crianças e jovens. Segundo o palestrante, os pais também devem ver o mundo com outras perspectivas: “Sou otimista sobre o futuro. Todas as crianças têm sonhos e devemos ouvi-las cada vez mais: a escola, os professores e os pais. Uma nova educação”, finalizou.

Escola no cinema

A mostra Escola: Cidade Aberta termina nesta quarta-feira, dia 16, na Caixa Belas Artes, em São Paulo. O nome remete diretamente ao clássico “Roma, Cidade Aberta” (Roma, Città Aperta, 1945), de Roberto Rossellini. Nele, comunistas e católicos italianos se unem para combater os alemães e as tropas fascistas que haviam ocupado a capital do país. O filme foi considerado um dos maiores da história do cinema pela crítica mundial.

O objetivo da mostra é fomentar reflexões em torno do sistema educacional demarcado, nos últimos tempos, por processos de contestação. Leonardo Amaral, curador da mostra, explica que “a escola representada pelos filmes escolhidos é um lugar propício para o confronto de ações, instituição em que as relações de dominação e resistência são impulsionadas por diferentes instâncias de poder e luta”.

Foi exibido um conjunto de longas, médias e curtas de vários países e épocas que traz a instituição escolar como foco central de representação. No último dia da mostra, em cartaz desde o dia 3 de agosto, o público poderá conferir “Nº27”, de Marcelo Lordello (Brasil, 2008); “Crianças” (Children), de Terence Davies (Reino Unido, 1976); e “Entre os Muros da Escola” (Entre lês murs), de Laurent Cantet (França, 2008).

O curta de Lordello retrata as desventuras de Luís, o número 27 da chamada. Típico adolescente tímido e com espinhas no rosto, Luís passa mal no meio de uma prova. Ele se tranca no banheiro e clama pelo coordenador da escola. O curta foi exibido em alguns festivais de cinema do país e ganhou vários prêmios.

Em “Crianças”, Robert Tucker é um jovem gay de família católica em Liverpool. Fica em várias salas de espera, onde se lembra de eventos de sua infância. Ele é intimidado na escola e tem um pai violento que morre enquanto ainda é jovem. O curta faz parte de uma trilogia de Terence Davies. “Madona e Menino” e “Morte e Transfiguração”, completam a obra do autor.

Já o “Entre os Muros da Escola” retrata a difícil tarefa que um professor de língua francesa, em uma escola na periferia de Paris, tem de lidar com alunos rebeldes. François Marin e outros professores se juntam para achar uma solução. A escola enfrenta violência e tensões étnicas entre os jovens.

Celular na sala de aula

Pela primeira vez, a utilização de celulares por alunos em atividades escolares foi investigada pela pesquisa TIC Educação 2016, divulgada no dia 3 de agosto, pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), por meio do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br). O uso desse tipo de dispositivo em atividades escolares foi citado por 52% dos alunos de escolas com turmas de 5º ano, 9º ano, do Ensino Fundamental, e/ou 2º ano, do Ensino Médio, localizadas em áreas urbanas. Esse percentual atingiu 74% entre os estudantes do Ensino Médio.

Por outro lado, 91% dos professores utilizaram a Internet pelo telefone celular para uso pessoal (no primeiro ano do levantamento, em 2011, esse número era de apenas 15%). Além disso, 49% dos professores usuários de Internet declararam utilizar o celular em atividades com os alunos, um crescimento de 10 pontos percentuais em relação ao ano anterior (39%).

Apesar do avanço no uso do celular enquanto ferramenta pedagógica, apenas 31% dos estudantes afirmaram utilizar a Internet pelo telefone celular na escola, sendo 30% entre os alunos de escolas públicas e 36% nas instituições privadas. As restrições ao acesso de estudantes à rede WiFi da escola estão entre os aspectos que explicam a baixa utilização do equipamento no ambiente escolar: enquanto 92% das escolas possuíam rede WiFi, 61% dos diretores afirmaram que o uso dessa conexão não é permitido aos alunos.

Segundo a pesquisa, 40% dos docentes de escolas públicas usuários de Internet afirmam utilizar o computador em sala de aula para atividades com os alunos, sendo que somente 26% dizem que se conectam a Internet quando realizam essas atividades. Em escolas particulares, esses percentuais são de 58% e 54%, respectivamente. “Apesar dos avanços registrados na conexão à Internet que chega às escolas, ainda existem muitos espaços educativos em que não há acesso ou esse acesso é limitado. É fundamental, portanto, a ampliação do uso da Internet nos espaços pedagógicos mais utilizados por professores e alunos, como as salas de aula, bibliotecas e salas de estudo”, ressalta Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br.

Percepção dos professores

A pesquisa TIC Educação 2016 também traz indicadores sobre a percepção de professores, coordenadores pedagógicos e diretores sobre o uso das tecnologias nas práticas pedagógicas. “Essas percepções contribuem para subsidiar ações ainda necessárias para o aprimoramento deste uso no processo de ensino e aprendizagem”, explica Barbosa.

Para 94% dos professores, o uso das TIC permitiu acesso a materiais didáticos mais diversificados ou de melhor qualidade. Além disso, grande parte dos docentes concordaram que a adoção de novos métodos de ensino (85%) e o cumprimento de tarefas administrativas com maior facilidade (82%) é um resultado do uso das TIC.

Segundo diretores (36%) e coordenadores pedagógicos (35%) de escolas particulares, o desenvolvimento de novas práticas de ensino baseadas no uso de computador e Internet é a ação prioritária para a integração das TIC na escola. Nas escolas públicas, o desenvolvimento de novas práticas pedagógicas também é relevante, mas aparecem com maior destaque as ações na área da infraestrutura. Para 32% dos diretores e 22% dos coordenadores pedagógicos o aumento do número de computadores por aluno deve ser a ação prioritária.

Em sua 7ª edição consecutiva, a pesquisa TIC Educação 2016 foi realizada entre os meses de agosto e dezembro de 2016 e contemplou 1.106 escolas públicas e privadas, com turmas do 5º ou 9º ano do Ensino Fundamental e/ou 2º ano do Ensino Médio localizadas em áreas urbanas. A pesquisa entrevistou 935 diretores, 922 coordenadores pedagógicos, 1.854 professores de Língua Portuguesa e Matemática ou multidisciplinares e 11.069 alunos de 5º e 9° ano do Ensino Fundamental e 2° ano do Ensino Médio. Realizado anualmente desde 2010, o levantamento tem como objetivo investigar o acesso, o uso e a apropriação das tecnologias de informação e comunicação nas escolas públicas e privadas brasileiras de Ensino Fundamental e Médio, localizadas em áreas urbanas.

Áreas úmidas e sua importância

Em tempos de sustentabilidade, cada dia se aprende mais e mais. Por exemplo, você sabe o que significa a área úmida ou zonas úmidas e a importância que elas têm para nosso ecossistema? Elas são áreas de pântano, charco, turfa ou água, natural ou artificial, permanente ou temporária, com água estagnada ou corrente, doce, salobra ou salgada, incluindo áreas de água marítima com menos de seis metros de profundidade na maré baixa. Elas podem estar secas durante uma parte do ano, mas o período em que se encontram inundadas é suficiente para manter o ecossistema vivo. Ao todo, são classificados 42 diferentes tipos de zonas úmidas. E, em linhas gerais, elas fornecem serviços ecológicos fundamentais para as espécies de fauna e flora e para o bem-estar de populações humanas. Além de regular o regime hídrico de vastas regiões, essas áreas funcionam como fonte de biodiversidade em todos os níveis. Ao mesmo tempo, atendem necessidades de água e alimentação para uma ampla variedade de espécies e para comunidades humanas, rurais e urbanas.

A definição do conceito de área úmida surgiu na Convenção de Ramsar. O tratado intergovernamental celebrado no Irã, em 1971, marcou o início das ações nacionais e internacionais para a conservação e o uso sustentável das zonas úmidas e de seus recursos naturais. Atualmente, 150 países são signatários do tratado, incluindo o Brasil.

É por esta razão que foi criado o Prêmio Ramsar para Conservação das Áreas Úmidas. As iniciativas brasileiras podem ser inscritas até o dia 30 de setembro. Os vencedores serão anunciados na 13ª Reunião das Partes da Convenção de Ramsar, que ocorrerá, em outubro de 2018, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

São três categorias e o ganhador de cada uma delas receberá o Prêmio Especial Evian, no valor de US$ 10 mil.
As categorias são: uso racional das áreas úmidas – reconhecendo uma contribuição de longo prazo sobre o uso sustentável das áreas úmidas; inovação em áreas úmidas – reconhecendo técnicas de inovação que contribuíram para o uso racional das áreas úmidas; e jovens e as áreas úmidas – reconhecendo o trabalho de um jovem ou de um grupo de jovens com idade entre 18 e 30 anos que contribuíram para o uso racional das áreas úmidas.

A proposta deve ser enviada para o e-mail award@ramsar.org após o preenchimento dos formulários, que podem ser encontrados no site www.ramsar.org/activities/2018-awards.

 

Assim vivemos – 8ª edição

Por Luanna Tavares

A história da menina Ngu Wah Hlaing, de Myanmar, país que fica no sul da Ásia, é comovente. Ela foi abandonada por sua mãe quando era bebê por causa de sua deficiência. Por sorte, uma monja e seu filho, transgênero, a adotaram. Mas, hoje, com 11 anos, Hlaing, ainda não sabe ler nem escrever. Ela não é aceita pelas escolas devido à deficiência que apresenta. A história de Hlaing virou documentário e, agora, faz parte da 8ª edição do Festival Internacional de Filmes sobre Deficiências, o Assim Vivemos. A mostra composta por 32 documentários de 20 países está em cartaz no Rio de Janeiro, de 16 a 28 de agosto, no Centro Cultural do Banco do Brasil.

Todos os filmes, que são inéditos, trazem histórias protagonizadas por pessoas com diversas deficiências, como síndrome de Down, autismo, paralisia cerebral, atrofia muscular espinhal, deficiência física, visual, auditiva e intelectual. “Dois Mundos”, da Polônia, “Onde está você/Eu estou aqui”, da Ucrânia, “Ordem do Woody!” e “Vida e Atrofia”, dos Estados Unidos, são alguns dos filmes que retratam jovens em algum tipo de limitação. Também consta da programação, quatro debates: A visão e os sentidos da arte; Corpo e movimento; Tecnologia assistiva de ponta e Amor e relacionamento.

Realizado a cada dois anos, desde 2003, o “Assim Vivemos” é o primeiro festival de cinema no Brasil a oferecer acessibilidade para pessoas com deficiência visual (audiodescrição em todas as sessões e catálogos em Braile) e para pessoas com deficiência auditiva (legendas Closed Caption nos filmes e interpretação em LIBRAS nos debates).

Confira a entrevista concedida pela curadora do Festival, Lara Pozzobon, à revistapontocom:

revistapontocom – Qual é o objetivo do Festival ao longo de todos estes anos?
Lara Pozzobon – O festival é antes de tudo um evento transformador. A intenção é trazer filmes que mostrem as pessoas com deficiência em variados lugares do mundo, inseridas nas diferentes sociedades e encontrando formas de diminuir o preconceito e ampliar a inclusão e a acessibilidade. O Assim Vivemos tornou-se a maior celebração da inclusão e da acessibilidade no Brasil, pois tudo isso está presente tanto na tela quanto no público do festival. Desde a primeira edição, o festival oferece Audiodescrição em todas as sessões para o público com deficiência visual, além de catálogos em Braille, legendas LSE em todos os filmes, inclusive nos brasileiros, e ainda interpretação em LIBRAS nos debates.

revistapontocom – O que a 8ª edição traz de novidade?
Lara Pozzobon – A 8º edição do festival tem um perfil mais maduro, com a maioria dos filmes retratando pessoas adultas. Entendemos que já há uma maturidade na discussão do tema em todo o mundo. Os filmes colaboram com um entendimento mais amplo e plural do ser humano, tanto do ponto de vista físico, emocional quanto existencial, já que alguns filmes se aprofundam em questões mais complexas dos indivíduos retratados.

revistapontocom – Como funciona a seleção dos documentários?
Lara Pozzobon – Eu e Gustavo Acioli assistimos a todos os filmes inscritos e escolhemos aqueles que enfocam a pessoa com deficiência como protagonista e que abordam de modo adequado as questões das pessoas com deficiência. Os filmes variam em estilo e gênero. Temos comédias, dramas e documentários mais informativos, mas sempre filmes com formato de cinema.

revistapontocom – Quais são os filmes que falam de crianças com deficiência?
Lara Pozzobon – Este ano, temos muitos jovens retratados e apenas dois filmes com crianças: “Uma menina em 10 X 10”, de Myanmar, e “Vida e atrofia”, dos Estados Unidos. Os jovens retratados são muitos e bem variados. Temos adolescentes com Síndrome de Down nos excelentes filmes “Amor aos 20” e “Luis Luis”, da Espanha, “Sobre Arif”, da Turquia e “Onde está você/Eu estou aqui”, da Ucrânia, um menino com paralisia cerebral em “Virando Super-humano”, da Austrália, um rapaz com deficiência física em “Filho do Homem”, da Rússia e uma jovem com deficiência intelectual no curta brasileiro “Luíza”. Temos ainda uma jovem suíça em “Bucéfalo” e um rapaz em “O olho do Minotauro”, da Bulgária.

revistapontocom – A mostra também é competitiva?
Lara Pozzobon – Sim, desde a primeira edição, premiamos há o mais votado do público nas três cidades e mais cinco destaques dados pelo Júri, que este ano é composto por Sara Bentes, cantora, compositora, bailarina e atriz com deficiência visual; Teresa Taquechel, bailarina e coreógrafa do Grupo Pulsar; e Wilson Marx, poeta e consultor sobre o tema do autismo.

Pais-helicóptero

Por Marcia Sirota
Psiquiatra, palestrante e coach

Artigo originalmente publicado no site HuffPost Canada e traduzido do inglês.

‘Pais-helicóptero’ são os pais que estão sempre girando em torno dos filhos. Praticamente os embrulham em plástico-bolha, criando uma corte de jovens adultos que têm dificuldade de ter um desempenho satisfatório no trabalho e em suas vidas.

‘Pais-helicóptero’ pensam que estão fazendo o melhor, mas, na verdade, estão prejudicando as chances de sucesso dos filhos. Em particular, estão arruinando as chances de que os filhos consigam um emprego e consigam mantê-lo.

‘Pais-helicóptero’ não querem que seus filhos se machuquem. Querem suavizar cada golpe e amortecer cada queda. O problema é que essas crianças superprotegidas nunca aprendem como lidar com a perda, com o fracasso ou com o desapontamento — aspectos inevitáveis da vida de todos.

A superproteção torna quase impossível que esses jovens desenvolvam a tolerância em relação à frustração. Sem esse importante atributo psicológico, os jovens entram na força de trabalho em grande desvantagem.

‘Pais-helicóptero’ fazem coisas demais pelos filhos, portanto, essas crianças crescem sem uma ética de trabalho saudável e sem habilidades básicas. Sem essa ética de trabalho e habilidades necessárias, o jovem não será capaz de realizar muitas das tarefas exigidas pelo local de trabalho.

‘Pais-helicóptero’ superprotegem seus filhos e os privam de qualquer consequência significativa por suas ações. Com isso, eles perdem a oportunidade de aprender lições de vida valiosas a partir dos erros que cometem; as lições de vida que iriam contribuir para sua inteligência emocional.

‘Pais-helicóptero’ protegem suas crianças de qualquer conflito que possam ter com seus colegas. Quando essas crianças crescem, não sabem como resolver dificuldades entre eles e um colega ou supervisor.

As pessoas resolvem problemas tentando coisas, cometendo erros, aprendendo e tentando novamente. Esse processo cria confiança, competência e autoestima. ‘Pais-helicóptero’ impedem que seus filhos desenvolvam todos esses importantes atributos que são necessários para uma carreira de sucesso.

‘Pais-helicóptero’ pensam que seus filhos devem vencer qualquer coisa. Todo mundo que participe de um evento esportivo deve ganhar um troféu. Todos devem conseguir uma nota de aprovação, mesmo que sua tarefa esteja atrasada ou malfeita.

Em um local de trabalho funcional, há apenas um vencedor de uma competição, e apenas um trabalho de alta qualidade é recompensado. Se as crianças crescem pensando que independentemente do que façam irão vencer, não perceberão que, na verdade, têm de trabalhar duro para conseguir ter sucesso.

Esses jovens mimados ficarão arrasados quando continuarem perdendo competições, se saindo mal em entrevistas ou sendo demitidos de seus empregos. Não entenderão quanto esforço é realmente necessário para ser um vencedor no mundo do trabalho.

Esses jovens carecem de competência e ação por nunca terem tido de resolver um problema ou completar um projeto sozinhos. Esperam que outros façam essas coisas para eles, assim como seus pais sempre fizeram. Em essência, não podem pensar ou agir por si mesmos.

A criação-helicóptero inculca uma série de atitudes negativas nas crianças. Elas crescem com grandes expectativas de sucesso, independentemente de quanto tempo ou energia investem, e sentem que merecem tratamento preferencial — sendo que nenhum dos dois comportamentos cai bem com seus colegas ou chefes.

Em uma entrevista de emprego, os futuros empregadores podem ser dissuadidos pela atitude excessivamente egocêntrica de um jovem ou alarmados por sua falta de habilidades básicas.

A aura de ignorância e incompetência de um jovem, combinada com expectativas de recompensas imediatas e substanciais sem relação com o desempenho, pode ser o beijo da morte em qualquer entrevista para um bom emprego.

Quando os pais decidem acompanhar seu filho de 20 e poucos anos em uma entrevista de emprego, isso mina qualquer confiança que um empregador possa ter nesse funcionário em potencial. “Por que”, os empregadores podem se perguntar, “alguém procurando emprego precisaria trazer a mamãe ou o papai na entrevista, a menos que esse jovem seja mais uma criança do que um adulto?”.

Mesmo de pequenas maneiras, os ‘pais-helicóptero’ paralisam seus filhos. A criança adulta de ‘pais-helicóptero’ vai fazer sua pausa para o café e então sair da copa sem ter limpado sua sujeira ou lavado sua xícara. Podemos imaginar como isso causará ressentimento entre seus colegas.

Esses jovens esperam que “alguém” limpe sua coisas, da mesma forma que sua sujeira foi sempre limpada quando eram crianças. Não percebem que já não há ninguém os seguindo, limpando sua sujeira, seja física, interpessoal ou profissional.

Barb Nefer, em um artigo publicado no site WebPsychology, diz que a geração do “milênio está sendo fortemente atingida pela depressão no trabalho. Um em cada cinco trabalhadores [20%] já sofreu de depressão no trabalho, comparado a 16% da Geração X [nascidos entre 1960 e final dos anos 70] e dos ‘baby boomers’ [nascidos entre 1943 e 1960]”.

Nefer destaca que, de acordo com um “‘white paper’ da Bensinger, DuPont & Associates, os ‘millennials’ têm desempenho inferior no trabalho e índices mais altos de absenteísmo, bem como mais conflitos e incidentes de advertência por escrito”, fatores que “podem afetar o desempenho no trabalho”.

De acordo com um artigo de Brooke Donatone publicado pelo Washington Post, uma nota de 2013 na revista “Journal of Child and Family Studies revelou que universitários que tiveram criação-helicóptero relataram níveis mais altos de depressão”.

O artigo do Washington Post também destaca que uma “criação intrusiva interfere no desenvolvimento da autonomia e da competência. Por isso, a criação-helicóptero leva a uma maior dependência e menor habilidade de completar tarefas sem supervisão dos pais”.

Os artigos acima deixam claro que a ‘criação-helicóptero’ está contribuindo para um crescente índice de depressão entre jovens bem como para uma incapacidade de ter um desempenho otimizado no local de trabalho.

Se você é um pai ou uma mãe que quer que seus filhos sejam bem-sucedidos na carreira quando adultos, precisa estar ciente de quaisquer tendências relacionadas à criação-helicóptero em você ou em seu parceiro.

Amar seus filhos significa guiá-los, protegê-los e apoiá-los. Não significa sufocá-los, superprotegê-los ou fazer tanto por eles que nunca aprendam a pensar por si mesmos, a lidar com desafios ou com o desapontamento e fracasso.

A coisa mais amorosa que você pode fazer como pai ou mãe é dar um passo atrás e deixar seu filho cair, se preocupar e resolver as coisas sozinho. Às vezes, a melhor forma de “estar presente” na vida de seu filho é não estar. É assim que você os capacita a desenvolver confiança, competência, autoestima e inteligência emocional.

Hoje os jovens precisam de pais que os ajudem a se tornar adultos úteis. Isso significa girar menos em torno deles e embrulhá-los menos em plástico-bolha e empoderá-los mais para que façam coisas por si mesmos, resolvam coisas por si mesmos e aprendam a lidar com as dificuldades, tudo por si mesmos.

Selo Unicef

As inscrições para a o Selo Unicef – Edição 2017-2020 foram prorrogadas e continuam abertas. Podem se inscrever 2.278 municípios do Semiárido e da Amazônia Legal Brasileira até o dia 31 de agosto. A iniciativa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) estimula que os municípios implementem políticas públicas para a garantia dos direitos das crianças e dos adolescentes. Os documentos para a inscrição podem ser acessados em http://www.selounicef.org.br

Nos próximos quatros anos, os municípios inscritos deverão investir em ações para melhorar a oferta e a qualidade de serviços de saúde, educação, assistência social e participação, visando produzir impactos reais e positivos na vida de crianças e adolescentes. O Selo Unicef é uma certificação internacional com objetivo de mobilizar a sociedade, poder público e parceiros em reconhecimento aos avanços registrados pela infância e adolescência.

“O Unicef capacita os gestores municipais e define os indicadores que ajudarão a monitorar os resultados das ações. Mas esses resultados só aparecem em consequência de um trabalho intersetorial no município”, diz o representante do Unicef no Brasil, Gary Stahl.

Quem pode se inscrever
Podem aderir ao Selo os municípios localizados em nove Estados do Semiárido (Alagoas, Bahia, Ceará, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe) e nos nove Estados que compõem a Amazônia (Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins).

Sucesso no YouTube

Com mais de 25 milhões de visualizações no Youtube, o filme de quatro minutos chamado “In a Heartbeat” (Em uma batida de coração) já viralizou na Internet. O curta-metragem conta a história de um menino e seu primeiro amor. Sem falas, a história mostra o jovem que tem medo de ser rejeitado pelo garoto dos seus sonhos, até que seu coração escapa do peito para agir por conta própria. A preocupação dos criadores, Esteban Bravo e Beth David, estudantes de animação digital da Ringling College of Art and Design, nos EUA, era mostrar os desafios de um jovem homossexual. “O tema LGBT é o foco, mas, em última análise, é uma história sobre uma paixão. É algo que quase todo mundo experimentou e pode entender”, disse David em entrevista à “NBC News.

Para os diretores, curta-metragem é tão adequado para o público infantil quanto um romance entre um garoto e uma garota. Segundo eles, contar a história de In a Heartbeat foi um desafio e uma busca de equilibrar emoções que são completamente universais para todos e experiências LGBTQ. “Nós tentamos contar esta história de um lugar genuíno e que fosse tão emocionalmente honesto”, acrescentou David.

O projeto do curta In a Heartbeat começou por meio de uma campanha de financiamento coletivo. Eles lançaram um trailer de 24 segundos e pediram ajuda de custos para produzir o filme. A campanha tinha o objetivo de arrecadar U$ 3 mil. Mas a arrecadação foi além: U$ 14 mil.

Vencedor do Anima Mundi

Realizado em stop motion, o curta francês “Negative Space (Espaço Negativo)” foi o vencedor do Grande Prêmio Anima Mundi da edição deste ano. Dirigido por Ru Kuwahata e Max Porter, o filme é uma adaptação do poema homônimo de Ron Koertge. Mostra a vida de um jovem e o relacionamento com seu pai que vive constantemente viajando.

“Um colega nosso postou o poema de Ron no Facebook e nos tocou o humor e a honestidade do texto. O poema traz apenas 150 palavras. Por ser tão mínimo, sentimos que havia espaço suficiente para trazer algo para a história com animação. Ainda assim, foi um ato de equilíbrio difícil de honrar: a simplicidade do texto e trazer algo para ele”, disse Ru em entrevista à revista digital Skwigly.

Nos segundos iniciais, o curta dá uma verdadeira aula de como organizar uma mala perfeita. A maior interação do protagonista com seu pai acontecia em volta de uma muda de roupas e de uma mala vazia, diferentemente da relação de outros meninos que jogam futebol, brincam de carro ou soltam pipa. Seu pai lhe incumbiu a tarefa de arrumar as malas dele sempre que fosse viajar a trabalho. Com uma simples mensagem no celular posteriormente: “perfeita”, o jovem ficava muito feliz.

Entretanto, o dia mais triste do filho foi o velório de seu pai. Onde destacam-se o uso das cores e a frieza do protagonista diante da morte daquele que foi a figura mais importante em seus anos de formação. O final gélido deixa um sentimento melancólico e um espaço vazio feito propositalmente pelos diretores.

O curta-metragem, que utilizou fantoches como uma das técnicas, foi eleito pelo júri profissional e pelos diretores do festival Aída Queiroz, Cesar Coelho, Lea Zagury e Marcos Magalhães, e também venceu o prêmio de Melhor Técnica de Animação. Esse ano o Anima Mundi celebrou o centenário da animação brasileira, reuniu 182 produções entre curtas e longas-metragens.

#paternidaderesponsável

Muitos de nós quando pequenos sonhávamos fazer a diferença no mundo. Idealizávamos profissões como bombeiro, policial, astronauta ou jogador de futebol para ganhar a Copa do Mundo e fazer a felicidade do nosso país. Eu, por exemplo, quis ser Lixeiro. Achava bárbaro poder subir e descer do caminhão em movimento, além de poder ajudar a manter a cidade limpa, uma questão que sempre me incomodou desde criança. Uma profissão até hoje que valorizo muito. Há também aqueles que viam a oportunidade de salvar o mundo se adquirissem superpoderes, como Superman, batman, Homem de Ferro, Flash, Homem-Aranha, entre outros.

Crescemos e, no mundo real, pouco daqueles sonhos e idealismos permaneceram vivos. A maioria de nós sobrevive entre o trabalho e a casa, o supermercado e a padaria, e, quem sabe, uma caminhada no parque de vez em quando. Até nos tornamos pais! A paternidade é um dos caminhos para se revelar o que temos de mais profundo em nossa construção individual. Como pais vislumbramos a chance de preencher aquele anseio que, desde a infância, incita-nos a ser grandes. A paternidade não acontece somente na geração de uma nova vida, mas em toda formação desse outro ser humano. A cada fase da criança, há uma nova oportunidade de o pai se reinventar enquanto “cuidador” e se melhorar como ser humano.

A importância da figura paterna

A paternidade e o envolvimento nas tarefas domésticas e de cuidado, independente de gênero, importam sim! É o que revela o crescente conjunto de estudos produzidos no mundo inteiro sobre o tema ao longo das últimas duas décadas. Existem evidências claras sobre o impacto positivo do envolvimento do pai no cuidado, especialmente para a saúde materno-infantil, desenvolvimento cognitivo da criança, empoderamento da mulher, além de apresentar consequências positivas para a saúde e bem-estar dos próprios pais.

A ONG ProMundo lançou em 2016 o primeiro relatório Situação da Paternidade no Brasil , que também pretende realçar a limitação desses dados e estimular a sua produção por agências do governo, instituições acadêmicas, pesquisadores independentes, ONGs e demais interessados.

Diz a Constituição Federal do Brasil, no Capítulo VII, artigo 266, parágrafo 7º: “Fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, o planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas.”

A construção do conceito de “paternidade responsável” exige uma desconstrução do modelo anterior (pai responsável = pai provedor) para uma visão moderna que ressalta o fenômeno na sua integralidade. A discussão em torno da promoção da paternidade e do cuidado também se relaciona diretamente com a luta pela superação das desigualdades entre homens e mulheres.

Desconstruindo um modelo

Estudos realizados por redes como Rede Nacional Primeira Infância e de Organizações como Instituto Papai, apontam que o investimento em políticas de valorização da paternidade e do papel do homem como cuidador tem o potencial de desconstruir um modelo dominante de masculinidade – patriarcal e machista – que reforça a desigualdade de gênero, abrindo caminho para a construção de outros modelos não violentos, baseados no afeto e no cuidado.

Na psicanálise, a função paterna, é um conjunto de funções/ações que podem ser exercidas por qualquer pessoa que assuma esse papel/figura perante a criança, independentemente do gênero e da sua ligação sanguínea. Por esse motivo, a plataforma de formação paterna 4daddy levanta as bandeiras da paternidade ativa baseada numa criação afetiva, social e cidadã, e visa reposicionar a figura paterna nessa nova dinâmica.

Uma causa

Queremos aqui formalizar o nosso manifesto: #paternidaderesponsável – Um ato, um direito, uma escolha! Um ato, pois queremos chamar a sociedade civil para “exercerem” a função paterna baseada numa criação afetiva, social e cidadã de nossas crianças e adolescentes. Trata-se de atitude/ato social e político de conscientização. Um direito, por que ser e ter um “pai” é um direito. Seja homem ou mulher, toda criança tem o direito de ter a figura paterna presente em sua vida. E todo cuidador(a) adulto tem o direito de exercer essa função assistido(a) pelo Estado.

Uma escolha, já que as funções paternas podem ser exercidas por qualquer adulto que tenha sob sua responsabilidade uma criança e/ou um adolescente. Independente do gênero ou orientação sexual, grau de parentesco biológico ou afetivo desse adulto. Ser pai, cumprindo suas obrigações legais, não é necessariamente exercer essa paternidade de forma afetiva e social. Ser cuidador, seja mãe ou pai, afetivo ou biológico, é uma escolha!

Apoie essa ideia, compartilhando esse manifesto! Convidamos a todos e todas, Estado, organizações privadas e públicas a se juntarem conosco para continuarmos construindo essa nova ideia. Estamos abertos para conversas e debates sobre o tema, e todos os assuntos a ele correlatos.

Ficção científica do Japão

Por Janete da Silva Oliveira
Doutora pela PUC-RJ na área de literatura, cultura e contemporaneidade. É professora assistente do setor de japonês do Instituto de Letras da UERJ.

Artigo originalmente publicado no Jornal da Unicamp

Talvez seja um paradoxo do imaginário ocidental: o Japão ter uma produção significativa que não é identificada imediatamente como ficção científica.

A tradição literária da ficção científica data do século XIX, do Bakumatsu (últimos anos do período Edo), segundo o pesquisador de ficção científica Yasuo Nagayama (2009), e acredita-se que teve início com a chegada do almirante Perry e o contato com os artefatos industriais do ocidente. Segundo Nagayama, a partir de 1959, quando começou a ser publicada a revista SF Magazine, traçou-se um novo limite para classificar a ficção científica japonesa. Antes, esse limite era fixado no final da guerra (1945), e tudo que podia ser classificado no gênero, antes dessa data, era comumente chamado de “SF clássica”.

Autores como Unno Juza, ?shita Uda, entre outros representantes dessa época, permaneceram ativos mesmo depois da guerra, e seus sucessores imediatos, Tezuka Ossamu, Kayama Shigeru, entre outros, apesar de terem recebido influências da ficção científica estrangeira, já tinham sido fortemente influenciados pela chamada ficção científica clássica japonesa, de antes da guerra.

Por esse motivo, podem também ser enquadrados no conceito de ficção científica clássica, pois mesmo sendo escrita em um período no qual o gênero ainda não estivesse definido, a ficção clássica está presente nas obras desses novos autores (Tezuka, Kayama) e trazem em si a força que recorda os autores mais antigos, de um tempo em que ficção científica ainda era um “conceito inexistente”.

Nesse período de ficção científica clássica podemos incluir até mesmo Taketori monogatari (1987, do diretor Kon Ishikawa), que recentemente teve uma versão em animação feita pelo diretor do Studio Ghibli, Isao Takahata, chamado O conto da princesa Kaguya (2013). Ambos derivam de O conto do cortador de bambu, um relato que data do século X e já trazia elementos do que hoje chamamos de ficção científica, uma vez que a princesa é uma alienígena, vem da lua.

No entanto, só no ano de 1988 a atenção do ocidente foi conquistada por uma animação japonesa de ficção científica, Akira, que completa trinta anos de lançamento em 2018. O mangá original (1982 a 1990), mais complexo, já havia completado trinta e cinco anos em 2017. Mas, mesmo hoje, se perguntarmos a um público com algum conhecimento sobre a produção audiovisual japonesa o que seria a “ficção científica japonesa”, provavelmente obteríamos como resposta Akira ou Ghost in the shell (1995). Contudo, a produção japonesa dentro do gênero possui vários outros filmes e séries com repercussão no ocidente, mas cujo imaginário, como falamos anteriormente, não evoca imediatamente o conceito.

Apesar da influência forte da animação, há filmes significativos live-action e os tokusatsus (efeitos especiais). A ficção científica nunca esmoreceu no Japão, principalmente graças à animação, à tradição de transposição recorrente de mangás para a tela grande e ao sucesso de grandes franquias de tokusatsu, como (apontaremos adiante).

Uma das principais características da ficção científica japonesa quando se fala em animação ou cinema é a distopia. Vamos apontar algumas produções e suas peculiaridades de enredo.

Gojira (1954, do diretor Ichir? Honda) aborda testes nucleares feitos pelos americanos que revivem um réptil de 50 metros que lança raios radioativos. Chamados de kaiju eiga (filmes de monstros), surgiram como forma de protesto contra as explosões nucleares, segundo Novielli (2007). O monstro era uma mistura de gorila e baleia (kujira, em japonês), por isso Gojira. Em 2016 teve uma nova versão (Shin Gojira/Godzilla resurgence), lançada pelo famoso diretor Hideaki Anno (Neon genesis evangelion) e um dos mais prestigiados supervisores de efeitos especiais Shinji Higuchi (Shingeki no kyojin/Attack on titan).

Gojira e Ultraman ainda mantêm uma carreira de sucesso no Japão pois, através da metáfora de monstros, representam o imaginário dos perigos reais que circundam o arquipélago japonês (China, Coreia do Norte) e o pesadelo nuclear.

Outro filme (na verdade, trilogia), já na linha da distopia, seria Nij?seki sh?nen/20th century boy (do diretor Yukihiko Tsutsumi). A primeira parte é de 2008 e as duas seguintes são de 2009 (janeiro e agosto), baseadas no mangá homônimo de bastante sucesso dentro e fora do Japão. O enredo gira em torno de amigos que, na década de 1960, escrevem um livro sobre uma gangue que dominaria o mundo e registram essa história em um caderno, o “livro da profecia”. Anos depois, o que foi previsto começa a acontecer, e eles se unem para descobrir quem está usando o livro.

Com uma temática alienígena, temos Kiseij? (2014, do diretor Takashi Yamazaki), uma história de um adolescente com um parasita alienígena no corpo, que é a solução para acabar com a invasão alien responsável por assassinatos pelo mundo. Baseado também em um mangá.

Já Casshern (2004, do diretor Kazuaki Kiriya) é também uma distopia e baseada em mangá, passada no final do século XXI. O mundo encontra-se devastado e à beira de extinção por conta das guerras química, biológica e nuclear. Um cientista faz uma descoberta que pode ser tanto a salvação como a destruição do que resta da raça humana.

E, recentemente, também destacamos a adaptação para o cinema, não muito bem recebida pela crítica, do mangá Terra formars (2016, do diretor Takashi Miike), que descreve a tentativa de colonização de Marte por conta da superpopulação da Terra, mas cria uma super-raça de insetos que pode destruir a raça humana.

Há também o que podemos chamar de um “lado B” da ficção científica japonesa, exemplificado por Tokyo gore police/T?ky? zankoku keisatsu (2008, do diretor Yoshihiro Nishimura). Esse é um filme co-escrito por japoneses e americanos, situado em um futuro no qual o Japão está caótico e um cientista louco cria um vírus que transforma as pessoas em mutantes monstruosos. A polícia japonesa foi privatizada e cria-se um esquadrão especial ? quase militar ? para exterminar os mutantes, utilizando-se de métodos pouco convencionais como sadismo, muita violência e execuções em plena rua.

No terreno da animação, a produção é farta, começando pelos já citados Akira e Ghost in the shell. Acrescentaríamos ainda Metropolis (2001, do diretor Rintaro), baseado no mangá homônimo de Ossamu Tezuka, Tetsuwan atomo (Astro boy) e Cyborg 009, também criações de Tezuka que abordavam as aventuras de máquinas tentando se adaptar ao mundo. Alia-se aí a própria história pessoal de Tezuka, que sofreu bullying quando criança, somada ao fascínio pela ficção científica ocidental.

Podemos destacar também Toki o kakeru sh?jo/A garota que conquistou o tempo (2006, do diretor Mamoru Hosoda), baseado em famoso escritor de ficção científica do Japão, Tsutsui Yasutaka, também autor de Paprika (2006, dirigido por Satoshi Kon), Summer wars (2009, do diretor Mamoru Hosoda), Cowboy bebop (2001, de Shinichiro Watanabe, Hiroyuki Okiura e Yoshiyuki Takei). Sem contar a criação (inacabada) de Hideaki Anno, o complexo Neon genesis evangelion (1995) que trouxe a distopia na ficção científica para um novo patamar com sua trama religio-político-psicológica envolta pela tecnologia.

Outras produções audiovisuais que mereceriam destaque seriam os doramas (nosso equivalente das novelas) e os tokusatsus. No primeiro caso, assim como os filmes, há muita inspiração em livros e games. Podemos citar Mirai Nikki (inspirado no mangá homônimo exibido na primavera de 2012/Japão – 11 episódios) contando a história de um garoto desajustado que ganha de um deus o poder de prever o futuro no seu diário; Zettai Kareshi (inspirado no mangá homônimo de Y? Watase- a mesma autora de Fushigi Y?gi – exibido na primavera de 2008/Japão – 11 episódios) que conta a história de uma jovem que ganha um protótipo de um namorado andróide ideal; e Andou roido (Ando lloyd) ~A.I. knows love? (criação original para a TV – exibido no outono de 2013/Japão – 10 episódios) no qual um cientista morre e deixa um andróide para proteger a esposa; e a série médica JIN (2009 a 2011- 22 episódios em duas temporadas) no qual um médico é transportado para a era Edo. Um dos poucos que não envolve diretamente romance dos protagonistas.

No caso do tokusatsu, uma abreviação de duas palavras, tokushu satsuei (efeitos especiais), daí surgiram as séries chamadas de super sentai (super esquadrões) como Changeman e Flashman. No Japão até hoje são franquias de grande sucesso e apresentam um filme anualmente com o crossover da equipe que termina com a sucessora.

O mesmo acontece com a “família Kamen Rider” (Kamen Rider Den-O, Kuuga, Black, Kabuto, entre outros, através das décadas) que têm, desde Black Kamen Rider, uma relação com as motocicletas e as máscaras (em muitos casos, similar a inseto) e os “metal hero”, como Metalder, Spielvan, Jaspion, Sharivan, Jiban, Gaban, Shaider e Jiraya, por exemplo.

E existem ainda os outros heróis como Cybercops, Machine man e Patrine, que não se encaixam nas categorias acima. Utopias construídas em cima de alguma distopia iniciada por algum vilão extra-terrestre ou não, ou vindo de outro tempo, apresentam ensinamentos de valores da sociedade japonesa, como trabalho em equipe, proteção do meio ambiente, entre outros.

Toda ficção é metáfora. Ficção científica é metáfora. O que a diferencia de outras formas de ficção parece ser seu uso de novas metáforas, tiradas de certos grandes dominantes da nossa vida contemporânea ? ciência, todas as ciências e tecnologia, e a perspectiva relativista e histórica entre elas. A viagem espacial é uma entre essas metáforas; então é uma sociedade alternativa, uma biologia alternativa; o futuro é outro. O futuro, em ficção é uma metáfora. (Le Guin, 1979, p. 159, tradução nossa).

Como Le Guin diz, qualquer ficção é uma metáfora, o futuro é uma ficção (pois ainda não o é) e, portanto, é uma metáfora. A questão é: uma metáfora de quê? Ou a serviço de quê? No caso da ficção japonesa, olhando quantitativa e qualitativamente, muito tem a ver com uma utopia-distópica. Segundo Takahashi Taketomo no livro O pensamento utópico no Japão (tradução nossa), a palavra carrega uma ambiguidade e uma contradição, pois coloca que a palavra utopia pode ser derivada tanto do grego ou (não) + topos (lugar) ou do conceito platônico de “eutopia” (lugar ideal). Logo, poderia ser um lugar que, por ser ideal/bom, não estaria em lugar nenhum.

Essa reflexão é útil porque, na contemporaneidade, as utopias deram lugar às distopias, mais de acordo com o mal-estar e vazio dessa “pós-modernidade” atual. O recente anime da Netflix, Blame, parece querer recuperar o “espírito cyberpunk” quando coloca um lobo solitário, Killy, para lutar contra a extinção da raça humana em um mundo controlado por máquinas. Uma outra indicação de que seria um momento de repensar a retroalimentação de influências e do Japão como um inspirador de um talvez “renascimento” do cyberpunk, seria o remake americano do cultuado Ghost in the shell. Sub-gênero da ficção científica que parece também retomar fôlego com a sequência de Blade runner (Blader runner 2049) com lançamento previsto para outubro de 2017.

Depois desses exemplos – poucos, pois a produção japonesa é muito vasta –, podemos tentar traçar um certo “perfil” nas produções audiovisuais japonesas de ficção científica para incentivar e sugerir discussões. Apresentamos quatro segmentos dessas produções: cinema live, animação (cinema e séries), doramas (novelas) e tokusatsus. A tecnologia, a ciência, desempenham papéis diferentes no desenvolvimento dos enredos e das tendências e, contrariamente ao ocidente, muito raramente apresentam um final “redondo”, feliz ou até mesmo sequer um “fim”.

O cinema segue a tendência distópica de apresentar, via metáfora de ciência, críticas e protestos (como nos primórdios dos Kaiju eiga) com relação à sociedade atual. Os animes exploram muito mais as possibilidades tecnológicas, como em Psycho-pass, Ghost in the shell ou Blame, ou ainda um mundo físico totalmente modificado, como em Berserk, mas com ênfase na distopia – o site anime planet tem como filtro para busca de animes a categoria “distopia”, e aparecem mais de trinta com esse filtro, entre os demais destaques.

No gênero doramas, a ênfase é positiva, assertiva de como a tecnologia pode ajudar, principalmente em relacionamentos humanos do homem/mulher com a máquina, relativizando o conceito de humano em termos afetivos. A máquina não ameaça, mas tem uma imagem de companheirismo e até de amor, como em Zettai kareshi e Ando roido, e também aparece dessa forma em séries como Chobits e Saber marionette, como se a máquina, em si, não carregasse o bem ou mal, mas fosse corrompida pelas grandes corporações, como metáfora do próprio Japão.

E, por fim, no gênero tokusatsu, temos uma visão assertiva da tecnologia como uma ferramenta para combater o mal, seja ele tecnológico ou não, pois ao contrário dos super-heróis ocidentais, os heróis do tokusatsu precisam de algum gadget (cinto, telefone etc) que acione o seu poder, ou esses foram recebidos de alguma divindade (Garo, Patrine etc), resgatando uma tradição do kojiki (registro dos contos antigos – livro de história/mitologia mais antigo do Japão), no qual os deuses Sukunahiko no Mikoto e Oomunaji no Mikoto trazem do outro mundo (Tokoyo) técnicas agrícolas e ajudam o Japão primitivo a prosperar.

Ou seja, a relação do Japão com o “estrangeiro” vem de longa data, e atualiza-se no pós-guerra com a tragédia da bomba atômica, desastre que transformou o país na primeira nação pós-apocalipse nuclear, e esse fato foi e é determinante na relação com a tecnologia. Por esse motivo, como Nagayama destaca no início deste texto, a ficção científica antes e depois da guerra tem significativas diferenças.

A narrativa do pós-guerra, com Ossamu Tezuka como impulsionador desse imaginário tecnológico no terreno da animação, adquire ares sombrios. Não exatamente com a tecnologia, pois podemos ver que a “máquina”, em si, não é um fator de medo, como na narrativa ocidental (Eu, robô, Matrix, entre outros). Pelo contrário, com uma tradição xintoísta que reverencia o inanimado, o metal da máquina, por si só, não representa ameaça, mas sim “a corporação”.

Tanto que no mangá de Ghost in the shell, logo no início, diz-se que o Japão não é um país, mas uma corporação. Pode-se tentar entender isso pelo viés do coletivismo da sociedade japonesa, mas também por um viés do pós-guerra no qual os EUA exerceram grande coerção na condução da política, sociedade e economia. Talvez por isso, tenhamos tantas utopias (porque em última instância a “máquina” não é ameaça) distópicas (as corporações, a sociedade e o governo representam a ameaça) tão presentes na produção audiovisual japonesa.

Esperamos ter despertado interesse pela ficção científica japonesa em todas as suas vertentes e suscitado questões para pesquisa e reflexão.