MatrixWorks, o que é?

Método inovador que usa neurociência para gerar maior participação nas relações humanas ganha e-book em português         

Foto/Arthur Lima.

Gerar novas culturas de criatividade, nutrição e inovação nas relações de trabalho. Esse é o principal objetivo do campo de conhecimento conhecido como MatrixWorks,  concebido pela pensadora norte-americana Mukara Meredith. A partir da neurociência, da cultura de paz do budismo e da psicologia social – em especial o método sistêmico – em MatrixWorks o foco está na criação de grupos capazes de atuar como um sistema vivo harmônico, constituído por interações empáticas e vínculos solidários e fraternos entre os indivíduos. Essas seriam então as condições para ambientes mais criativos e produtivos nas empresas e na educação.

A metodologia, publicada no livro “MatrixWorks – Um Guia Positivo para o Domínio da Facilitação e da Inteligência dos Grupos”, escrita por Mukara Meredith, com participação de Lisa Rome, acaba de ganhar uma versão nacional em formato de e-book com supervisão editorial da jornalista e escritora Silvana Gontijo, presidente da organização social Planetapontocom, e tradução de Pedro Sette Câmara.

“Para implementar um trabalho orientado pelo método, é preciso enxergar os grupos como organismos vivos, com suas particularidades, falhas e competências, criando condições favoráveis para que funcionem de maneira fluida e horizontal”, explica Silvana, ressaltando que no MatrixWorks as quatro dimensões do humano são consideradas: o corpo físico, o corpo emocional, o corpo racional e o corpo espiritual. “A qualidade de nossas vidas depende de nossa capacidade de trabalharmos juntos e de pensarmos na sustentabilidade de nosso planeta”.

Experiências práticas serviram de laboratório para Mukara, que despertou para a importância de observar comportamentos e atitudes dos diferentes atores que podem interessar a um negócio. Para Mukara, “nenhum de nós é tão inteligente quanto a soma de todas as inteligências de um grupo.” Assim, a partir do desenvolvimento de ações em um contexto social, a autora deu os primeiros passos para a formulação desse novo modelo de liderança, que ensina o cultivo coletivo de valores, de habilidades, e de capacidades para criar e produzir de forma matricial e em rede. Esses fundamentos são a base para a formação e treinamento de líderes democráticos, motivadores e agregadores.

Segundo Silvana Gontijo, responsável pela supervisão editorial da versão do e-book em português “a criatividade coletiva depende de vínculos afetivos sólidos. Então, se você não confia, ou não é capaz de atuar em um grupo zelando por sua harmonia dificilmente será capaz de contribuir para um processo criativo solidário e potente”, explica, ressaltando que esta é uma nova maneira de enxergar a mudança do paradigma competitivo, egresso da Revolução Industrial, para o trabalho colaborativo entendendo que cada integrante do grupo é único e portanto extremamente valioso para a riqueza do todo.

Como e quando a metodologia passou a ser incorporada pelas empresas
O processo de desenvolvimento do método teve seu ponto de partida há 20 anos, quando Mukara foi convidada a trabalhar na Mattel Brinquedos, onde atuou por cinco anos no Departamento de Brinquedos de Meninas. A oportunidade de estar numa grande empresa, absorvendo aprendizados internos, era incrível, mas ela enxergou além. Simultaneamente, começou a trabalhar com grupos de estudantes na Naropa University, em Boulder, no Colorado (EUA), e também passou a integrar redes de mães, juntamente com sociólogos e psicoterapeutas. 

Há 16 anos, Mukara trabalha o método MatrixWorks junto a grupos em escolas, ONGs e empresas americanas e internacionais. Segundo ela, um processo que duraria 24 meses, por exemplo, passa a ser realizado em um período entre 8 e 10 semanas. “Isso vem sendo possível pela natureza da aproximação, a qualidade da interação e porque eles simplesmente amam e confiam uns nos outros. Eles trabalham juntos, não competem entre si”, explica.

MatrixWorks pelo mundo
Hoje, o método está implantado em países como Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Inglaterra, Hong Kong, China, Japão, Colômbia. No Brasil, empresas dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba já trabalham de forma matricial, a partir dos treinamentos realizados por Mukara e seus professores assistentes, e reconhecem a importância de MatrixWorks para aumentar a produtividade em suas rotinas corporativas.

Nos Estados Unidos e no Brasil, com o avanço do aprendizado das competências socioemocionais, o método MatrixWorks é visto como uma tecnologia social, sendo muito útil para dar suporte ao processo de desenvolvimento da inter e transdisciplinaridade, nas escolas. Como trabalhar de forma colaborativa? Professores e gestores foram formados para desenvolver a docência levando em consideração seu conhecimento, isoladamente.

Como romper com esse paradigma e adequar a agenda escolar para planejar e colocar em prática metodologias interdisciplinares? Foi pensando nisso que os pedagogos do Planetapontocom, formados em MatrixWorks, desenvolveram experiências inovadoras e cujo resultado vem sendo sistematizado para disseminação em programas próprios voltados para a melhoria da educação pública brasileira. Para isso investiu-se no desenvolvimento das competências, que abrangem habilidades como pensamento crítico, empatia e autoconhecimento, entre outras.

“A metodologia inovadora Educação com e por meio de causas teve sua gênese nos grupos de trabalho que passaram pela formação em MatrixWorks e todo o desenho do programa Cidades, salvem seus rios! tem como um dos pilares esse novo campo de conhecimento,” afirma Silvana Gontijo. 

Empresas e instituições parceiras:

  • Proctor & Gamble – Creative Clay Street Project;
  • Proctor & Gamble – Health Care, Hair Care, Beauty Care, Household Care, Fabric Care, Human Resources;
  • Mattel Toys – Platypus Project;
  • General Electric;
  • General Mills;
  • Apple;
  • Hershey Corporation;
  • GAP/Old Navy – Growth and Greatness Initiative;
  • Rolf Institute of Structural Integration;
  • Naropa University;
  • KGNU Radio Station;
  • Betner Teacher/Mentor Program;
  • Escuela Americana in El Salvador;
  • Microsoft;
  • Intel;
  • Andrade Gutierrez;
  • Munidivisa;
  • Oi;
  • Oi Futuro;
  • NAVES Rio e Recife;
  • Planetapontocom;
  • Revistapontocom;
  • Secretaria Esdatual de Educação do Rio de Janeiro;
  • Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco.

SERVIÇO:
E-book: MatrixWorks – Um guia positivo para o domínio da facilitação e da inteligência dos grupos (2017). Edição brasileira: Planetapontocom (2019);
Autores:
Mukara Meredith, com Lisa Rome.
Tradução: Pedro Sette-Câmara;
Supervisão Editorial:
Silvana Gontijo.

Festival comKids seleciona 14 produções para etapa final da competição

Gerar visibilidade para produções infantojuvenis de conteúdos digitais, interativos e audiovisuais. Esse é o objetivo do Festival comKids interativo 2020, competição ibero-americana que abre espaço para a promoção e valorização de apps, games, sites, e-books, entre outros.

As produções selecionadas serão apresentadas entre os dias 11 e 14 de agosto pelo canal do comKids no YouTube e o público poderá participar de forma on-line votando nas criações preferidas. O evento conta ainda com uma programação intensa com mesas, masterclass e workshops para desenvolvedores de games e apps, educadores, designers e outros profissionais ligados à produção digital infantojuvenil.

O Festival comKids Interativo 2020 é uma realização Midiativa – Centro Brasileiro de Mídia para Crianças e Adolescentes, Goethe-Institut e Spcine, Empresa do Cinema e Audiovisual de São Paulo. O evento conta, ainda, com a parceria da Singular Mídia e Conteúdo.

Para conhecer os destaques da programação, conversamos com Daniel Leite, coordenador do festival este ano. Leia a entrevista!

Qual o principal objetivo do Festival comKids Interativo? 
O Festival comKids Interativo é um espaço para celebrar a cultura digital e o audiovisual para crianças e adolescentes, afinados com o conceito de qualidade na produção. Quando falamos nisso, estamos nos referindo a obras que estimulam a reflexão, que encantam, que representam a diversidade das infâncias brasileiras e latino-americanas em geral, entre outros aspectos, promovendo também um intercâmbio com produtores da Espanha e de Portugal. Este ano, teremos a competição de obras interativas, que reúne apps, games, livros digitais e projetos multiplataforma (transmídia, projetos 360, crossmedia, entre outros). Inscrições para votantes estão abertas via portal comKids, a avaliação culmina no dia 14 de agosto, com bate-papo virtual com produtores no YouTube.

Promoveremos igualmente o eixo de formação e atualização do evento, convidando profissionais de diversas áreas ligadas à produção cultural, educativa, tecnológica e digital para crianças e adolescentes, educadores, pais e cuidadores (entre outros) por meio de conversas, workshops, debates, Masterclass etc. Esses eixos “adultos” do Festival acontecem de 11 a 15 de agosto totalmente on-line, via nosso canal YouTube (www.youtube.com/comkids). Toda a programação pode ser consultada neste link: https://comkids.com.br/programacao-festival-comkids-interativo-2020/ .

Por fim, temos prevista a realização da mostra audiovisual, cujo público final são as crianças e famílias, e que estará disponível no YouTube, YouTube Kids e em nossa estante na Spcine Play a partir de 13 de agosto, ficando lá por 20 dias aproximadamente. Trata-se de 12 filmes ibero-americanos selecionados por faixa etária, muitos deles premiados nas edições anteriores do comKids, que ficarão disponíveis para o grande público por esse período. Após os 20 dias, a mostra segue disponível com seus títulos por mais tempo para todos os interessados no Spcine Play. Em breve, divulgaremos esses títulos e mais informações a respeito da mostra audiovisual infantojuvenil no portal comKids.

Quantas obras foram inscritas no Festival comKids Interativo 2020?
Em 2020, devido à pandemia, que afetou bastante nossa convocatória, tivemos 49 produções inscritas, de cinco países latino-americanos (Argentina, Brasil, Colômbia, México e Uruguai). A categoria Multiplataforma foi a mais procurada, com 18 inscrições. Todas as produções inscritas serão divulgadas com detalhes no catálogo virtual comKids 2020. 

Quais critérios foram usados para seleção das obras?
A pré-seleção foi realizada por 16 jurados especialistas na área. Mais informações aqui: https://comkids.com.br/obras-na-competicao-no-festival-comkids-interativo-2020/

Abaixo, os critérios utilizados:

– Ideia: originalidade temática, de abordagem, de formato e de conceito.

– Conteúdo: proposta e organização conceitual e editorial, coerência temática e narrativa (esta última, quando houver).

– Design de Interação: grau de interatividade da obra. Articulação da jogabilidade com a ideia, o conteúdo e o conceito da proposta. Composição dos elementos sonoros, visuais, lúdicos, assim como os aspectos de fruição e interação.

– Público-alvo: adequação à faixa etária e ao público ao qual a obra se dedica.

Com relação aos conteúdos enviados, o que chamou mais atenção dos jurados? 
Cada categoria apresentou aspectos diferentes que se destacaram. Em “Games”, por exemplo, temos a produção de obras que exploram o legado cultural e antropológico brasileiro. A exploração de histórias não contadas, de vozes que eram silenciadas e que hoje vêm à tona, com todo o seu interesse. Em “Apps” a qualidade técnica e interacional das obras foi bastante levada em conta, assim como seus aspectos pedagógicos, narrativos e a adequação à faixa etária, com obras consagradas para os diferentes dispositivos, já em meio ao público nacional. Já os “Livros digitais” trouxeram obras que expressaram qualidade artísticas e literárias, ritmo, narração, assim como temas sensíveis. Em “Multiplataforma”, temos a importância de obras que sabem abordar suas audiências de forma inteligente e estratégica, veiculando evidentemente conteúdo de qualidade, que os desafia a explorar o mundo e a aprender.

De que forma crianças e jovens podem usar a tecnologia para construir conhecimento, além do entretenimento?
A tecnologia pode ser um meio muito eficaz para que as crianças encontrem, cada vez mais, formas de encurtar distâncias, de fortalecer amizades, ou mesmo de obter acesso a bons conteúdos e histórias inspiradoras. Com certeza, um grande desafio é encontrar apps e “URLs” adequados e seguros, onde elas podem exercer plenamente suas autonomias, aprender, buscar conhecimento, experimentar, se relacionar com os outros e com o mundo, além de se divertir, por que não? Existem profissionais que estão dedicando esforços constantes para a melhoria da qualidade das produções para crianças e adolescentes em nossa região e nosso evento busca dar visibilidade aos seus trabalhos. Além disso, cada dia mais vemos os potenciais intrínsecos dos jogos e da ludicidade como formas de estímulos essenciais para a aprendizagem.   

Serviço:

Evento: Festival comKids interativo 2020
Data: de 11 e 14 de agosto de 2020
Programação:
https://comkids.com.br/programacao-festival-comkids-interativo-2020/
Inscrições para votantes: abertas via portal comKids
Mais informações: www.comkids.com.br

Vamos conversar? Leia entrevista com a engenheira florestal Laís Sonkin

Com Flavia Perez.

Um novo relatório publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) destaca a importância dos ecossistemas para proteger espécies do planeta. Produzido pela Food and Agriculture Organization of the United Nations (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agracultura), o documento The State oh the World`s Forests 2020 (O Estado das Florestas do Mundo em 2020) apresenta uma visão urgente e necessária sobre a relação entre florestas, biodiversidade e pessoas.

Para a engenheira florestal Laís Sonkin, a biodiversidade no Brasil pode ser considerada como o maior ativo nacional, porém é preciso cuidar desse patrimônio. “Será que nosso país tem adotado políticas públicas eficazes para a preservação das florestas e da biodiversidade? A realidade tornou-se mais perceptível quando grandes grupos de investidores passaram a alegar, nos últimos anos, que não compensa investir no Brasil, caso o país não consiga cuidar desse ativo”, explica.

Para entender melhor o relatório, com o olhar direcionado às florestas brasileiras, a Revistapontocom entrevistou a engenheira florestal Laís Sonkin, que há mais de 20 anos atua como consultora ambiental e florestal.

O que mais chamou a sua atenção neste relatório e qual sua análise sobre a pesquisa no que tange às florestas brasileiras?
O relatório consiste em um estudo acerca dos impactos da nossa vida na Terra destacando o estado dos ecossistemas. Desde os anos 70, o Brasil vem adotando políticas equivocadas, seja recebendo dinheiro de curto prazo ou permitindo que pessoas vivam em extrema pobreza.

É preciso que os governantes conheçam melhor a contribuição da floresta para o uso do valor que pode ser obtido com a biodiversidade, visto que é o que temos de mais valioso, embora ainda não conheçamos nem a metade de todo esse potencial. Em nossas florestas existem medicamentos, o guaraná, o cupuaçu, a castanha-do-pará, que possibilita a produção de cremes para bebês a produtos de beleza, entre outros tantos exemplos de riquezas naturais que existem nas florestas brasileiras.

Segundo o estudo, desde os anos 1990 estima-se que 420 milhões de hectares foram perdidos para o desmatamento, sem gerar nenhum centavo para o bem-estar social. Os dados apontam que o ser humano está desertificando o solo contribuindo, dessa forma, para o aquecimento do planeta. Ao invés de desmatar as florestas, é possível mantê-las e extrair delas recursos dos produtos que podem ser gerados pela biodiversidade e com o turismo ambiental. O valor em qualidade de vida e saúde que existe para um indivíduo em pescar um peixe ou andar pela floresta é imensurável.

O que é preciso para reverter esse cenário de degradação?
Precisamos de ações que permitam reverter a perda da floresta para beneficiar as próximas gerações. O Brasil ainda conserva 12% da sua área de floresta preservada. Não é só de árvores que é feita uma floresta. Uma espécie tem valor imensurável também para todos os animas e espécies que ela abriga, além da fertilização natural do solo. É hora de questionarmos o que vamos deixar para as gerações futuras.

A nossa biodiversidade não pode virar tábua, pois assim não restará nada para as próximas gerações. O meio ambiente é formado pela água e pela diversidade. O consumo da biodiversidade para recreação e turismo também tem pleno potencial de crescimento para trazer muitos recursos para o país, embora seja ainda pouco aproveitado.

A plantação e a colheita acelerada causam a desertificação. Quando se desmata o solo é preciso fertilizar para cultivar. A biodiversidade é o conjunto das árvores e de tudo que cada uma delas tem dentro. Antes só era considerado o valor da madeira, o pau deitado. Hoje já existe conhecimento científico suficiente para entendermos que o maior valor está nas folhas, nas raízes e no solo.

Por que grandes empresas vêm ao Brasil para plantar?
Porque em países da Europa, por exemplo, as leis protegem a fertilidade do solo. Por isso não se pode desertificar. É preciso devolver o solo em condições de plantio, o que torna o custo da produção muito maior. Por isso, grandes empresas vêm para o Brasil plantar porque as leis aqui são menos rígidas.  

Os lucros obtidos com a produção e exportação da soja, por exemplo, são de curto prazo. A maior parte do investimento nacional hoje é de curto prazo. As ações realizadas no Parque Ecológico Chico Mendes, por exemplo, é que representam investimentos de longo prazo. É preciso haver consciência para esse cenário. A degradação no Brasil é baseada no lucro de curto prazo.

A floresta é que produz a água. Por isso no passado, a Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, foi reflorestada pois com a devastação da floresta, que foi ocupada por fazendas, pastos e lavouras de café, a água passou a ficar escassa.

Não é preciso mais desmatar terras no Brasil. Podemos utilizar as áreas já desmatadas e impactadas para produzir tudo que o país precisa. Precisamos nos questionar: o que o Brasil ganha com a conversão da floresta em soja? Não há mitigação tampouco compensação. Estamos indo na contramão.

Existe relação entre o desmatamento das florestas e a pandemia do novo coronavírus, causador da Covid-19?
Sim. Essa relação se estabelece na medida em que a pandemia se espalhou devido ao consumo de animais silvestres, segundo os estudos realizados até o momento. A forma como frangos e vacas são criados e abatidos é, em muitos casos, absurda.

Observa-se que em todo o mundo o desmatamento foi justificado para trazer bem-estar, mas não foi isso que aconteceu, pois sem a floresta as pessoas ficam sem água, sem a possibilidade de coleta que é transformada em fonte de renda por muitas populações, além do aumento excessivo do calor. Não é possível afirmar que foi o desflorestamento que causou a pandemia do novo corovavírus, causador da Covid-19, mas sim o animal silvestre.

Quando começou a se formar a ideia de consciência ambiental?
A consciência ambiental começou a se formar após a segunda guerra mundial, quando houve um forte desenvolvimento ocorrido de forma acelerada, mesmo com a fome atingindo grande parte da população. Todas as grandes empresas surgiram depois da segunda guerra, com uma promessa de que não haveria mais fome aos habitantes.

Depois disso, surgiu a produção de alimentos em larga escala, crescimento acompanhado pelo uso de agrotóxicos para que fosse possível manter esse nível de produtividade com o menor índice de perdas possível.

Rachel Carlson, bióloga marinha e pesquisadora, lançou seu histórico livro “Primavera Silenciosa”, em setembro de 1962, chamando a atenção na época para o fato de que os pesticidas estavam matando os passarinhos. Antes disso, qualquer indústria química de inseticidas e outros derivados sintéticos podia lançar no meio ambiente o que bem entendessem, sem testes cientificamente projetados.

Outro marco importante para uma maior conscientização sobre o meio ambiente foi a Conferência de Estocolmo, realizada em 1972, quando os países começaram a manifestar preocupação com a devastação do planeta.

Laís Sonkin é engenheira florestal, formada pela UFRRJ em 1981. Atuou no tempo em que se fazia o Projeto Rondon no Campus Avançado em Macapá; trabalhou como extensionista, na Amazônia, em projeto de identificação de madeiras; no inventário florestal nacional do IBDF; e conheceu a artista botânica inglesa Margaret Mee, em Oriximina.

Depois, já com filhas, trabalhou como técnica ambiental em projetos de reflorestamento e recuperação de áreas degradadas, diagnóstico ambiental, laudos de vistoria e perícia judicial. Acredita na força do voluntariado e, por isso, sempre dedicou parte do tempo a causas em prol do meio ambiente, participando de ações e movimentos, como o Fórum Brasileiro de Meio Ambiente e Movimentos Sociais (FBOMS), com o qual está engajada há 30 anos.

Educação midiática transforma estudantes em protagonistas de suas realidades

Alunos recebem aulas de educação para os meios e refletem a pandemia em canais criados e administrados por eles nas redes sociais

Flavia Perez.

A definição do conceito de midiaeducação vem sendo construída ao longo dos últimos anos por educadores, comunicadores e pesquisadores. Nas escolas brasileiras, a educação para os meios é aplicada atualmente tanto como uma disciplina extracurricular ou eletiva, quanto na concepção metodológica de educação inovadora, que transforma o estudo compartimentado nas matérias do currículo escolar em conhecimento trans e interdisciplinar. Mas por que educar com e sobre os meios?

Construída desde os anos 1970 em diversos países, a proposta de educação midiática consiste em um trabalho educativo sobre os meios, com os meios e pelos meios, no qual são estudados e analisados conteúdos presentes nos diferentes meios de comunicação e suas linguagens. A definição abre espaço para um entendimento de que o ser humano é em si, meio e mensagem e, portanto, suas habilidades para comunicar — a oralidade, a comunicação não verbal, a escrita e leitura e as expressões artísticas — são objeto de atenção fundamental, em midiaeducação.

No contexto da pandemia de Covid-19, mesmo com as aulas presenciais interrompidas, estudantes de escolas do Rio e de São Paulo refletem sobre o momento atual em canais criados por eles nas redes sociais, enquanto aprendem e vivenciam na prática a produção de conteúdos de mídia.    

Em São Paulo, na Escola Nossa Senhora das Graças (Gracinha), alunos do ensino médio participam de forma remota e opcional das atividades de educação midiática usando ferramentas de videoconferência. Um dos resultados foi a criação do perfil “Diário de Quarentena” (@diario.dequarentena) na rede social Instagram.

Estudantes de ensino médio criam perfil @diario.dequarentena na rede social Instagram para refletir a pandemia

No perfil, vinte estudantes publicam imagens embasadas na teoria de ‘gestalt’, campo de conhecimento relacionado à educação, design, entre outras áreas. Com a possibilidade de experimentar a produção de conteúdo na prática, os estudantes entendem melhor o funcionamento da mídia e se transformam em protagonistas de suas realidades.

Já na Escola Lourenço Castanho, também na capital paulista, a educação para os meios envolve todos as etapas educacionais, da educação infantil ao ensino médio, abrangendo desde a formação de professores ao trabalho realizado junto aos estudantes e com os pais. Mesmo durante o período de isolamento social, os conteúdos continuam sendo trabalhados por meio do ensino remoto, sendo facultativa a participação.

Atualmente, existe na BNCC uma oportunidade de educação sobre a mídia no Ensino Fundamental II, que contempla o campo do jornalismo midiático. Segundo o jornalista e escritor Alexandre Le Voci Sayad, que tem uma trajetória de 20 anos de estudos e vivências práticas com a educação para os meios e coordena projetos de midiaeducação nessas duas escolas, a educação midiática vem ganhando relevância no debate público devido ao avanço das tecnologias digitais e por questões conjunturais, como a Covid-19.

“Há duas décadas começamos a realizar esses experimentos, desenhando o avanço da educação para os meios que podemos perceber hoje no ambiente escolar. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) trouxe oportunidades para a educação midiática, fator que vem contribuindo para empoderar educadores e gestores escolares a aplicá-la. Mesmo assim, o desafio de colocar o tema como um conjunto de habilidades imprescindíveis às crianças e jovens de hoje continua vivo, apesar de diferentes circunstâncias, entre elas as fake news, que apontam a necessidade de educar para os meios”, explica Sayad.  

Projetos que ajudam os estudantes a entender o funcionamento da mídia, motivando-os a produzir conteúdo, começam a surgir também na rede pública de ensino. Na Escola Municipal Finlândia, no Rio de Janeiro, o ensino de educação midiática começou a ser introduzido depois que o grupo de teatro da escola foi selecionado para participar do maior Festival de Teatro Estudantil do país em Minas Gerais.

Para dar visibilidade a esse e a outros projetos, o professor de Ciências Edson Dionísio decidiu criar as redes sociais da escola. Contudo, ao perceber a participação ativa dos alunos, Edson viu a oportunidade de envolvê-los na produção de conteúdo e deu a eles autonomia para administrar as mídias sociais. Assim nasceu o Time F, com perfis no Facebook e no YouTube.

Estudantes da Escola Municipal Finlândia com o professor de Ciências Edson Dionísio, em dezembro de 2019

Mesmo durante a pandemia, com atividades realizadas remotamente e em caráter facultativo, os estudantes criaram um conteúdo audiovisual para divulgar a ferramenta de videoconferência usada pela Secretaria Municipal de Educação para realização das aulas remotas. O vídeo, que tinha como objetivo facilitar o uso da plataforma, obteve alcance expressivo entre os seguidores do perfil da escola.

Outra ação relevante foi o lançamento da série “Fato ou Boato”, apresentada por uma aluna do 9º ano que integra o projeto. Nela, os estudantes buscam desmistificar notícias e mitos que, embora equivocados, são muito difundidos. Ao todo, foram produzidos 28 vídeos, que tinham como objetivo estimular os alunos a pesquisar e checar informações antes de passar uma notícia adiante.

“Quando o trabalho de um aluno é divulgado pela escola em suas redes sociais, o conteúdo ganha a visibilidade do grupo, o que gera um impacto muito positivo no processo de aprendizagem e na maneira como o aluno começa a pensar as atividades, além de inspirar a aplicação por outras escolas”, detalha o professor Edson.

Ainda que muitos estudantes estejam conseguindo ter acesso à educação durante a pandemia, 258 milhões de crianças e jovens foram excluídas da educação, uma vez que a pandemia da Covid-19 ampliou ainda mais o impacto das desigualdades sociais. Os dados constam no Relatório de Monitoramento Global da Educação de 2020, lançado em junho pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). De acordo com o documento, 9 em cada 10 estudantes estão fora da escola por causa da pandemia de Covid-19.

No Brasil, as aulas presenciais foram suspensas em todo o país. O ensino remoto emergencial implantado por algumas escolas não alcança todas as crianças e jovens brasileiros da mesma maneira, devido a limitações tecnológicas e de acesso. Dados do relatório da Unesco apontam que menos de 10% dos países têm leis que ajudam a garantir a inclusão plena na educação.

Bibliografia:

  • Idade Mídia (Ed. Aleph) – Alexandre Le Voci Sayad;
  • Por Dentro dos Meios (Ed. Planetapontocom) – Silvana Gontijo, Mariana Pinho, Eduardo Monteiro e Marinete D`Angelo;
  • Crianças, Mídias e Diálogos (Ed. Rovelle) – Guaracira Gouvea;
  • Ensinar e Aprender no Século 21 (Editora Senac) – Marcia Stein;
  • Televisão, Publicidade e Infância (Ed. Annablume) – Inês Vitorino;
  • Praticante Pensante de Cotidianos (Ed. Autêntica) – Nilda Alves;
  • O Jornal na Sala de Aula (Ed. Contexto) – Maria Alice Faria;
  • Liga, Roda, Clica. Estudos em Mídia, Cultura e Infância (Ed. Papírus) – Monica Fantin;
  • A Televisão pelo Olhar das Crianças – Rosália Duarte (Ed. Cortez);
  • Protagonismo Juvenil – Antônio Carlos Gomes da Costa (Ed. FTD).

Vidas vividas importam

Mariana Amado Costa

Clichê

Hoje, 2 de julho, é dia do aniversário de minha avó, Zélia Gattai, uma especialista em se reinventar. Ela teria vivido esse novo normal com galhardia, criando mil atividades e interagindo à distância com grande desenvoltura. Seria uma experiência a mais para quem passou por muitas tempestades perfeitas com graça, força e uma pitada de drama, para não negar o sangue italiano.

Pronto, consegui matar no primeiro parágrafo os três maiores clichês da crise atual, o que me propus a fazer na tentativa de exorcizá-los. “Tempestade perfeita” teria certo glamour, se não fosse proferido por dez entre dez comentaristas da Globo News, todos os dias.

Revisei um texto que falava quatro vezes em “fazer do limão uma limonada”. Por mim, não teria sobrado nenhuma, mas como o autor gostava muito, sugeri que cortasse apenas três. O problema das frases feitas (e que tais) é que depois de um tempo as palavras se esvaziam de significado, ficando apenas a cacofonia ou, talvez para alguns, o conforto da repetição.

Heloísa Ramos, viúva do Graciliano, já bem doente no hospital, ouviu o afago de uma enfermeira, algo do gênero “Bom dia! Como a senhora está bonita hoje!”, ao que respondeu “Obrigada, meu bem, que beleza de lugar comum!”. O espírito de sempre, altivo e irônico, da querida Ló.

Velhice não é indignidade.

La nonna

Vencida a questão dos clichês, posso falar a sério da falta que me faz essa nonnina, que era como eu a chamava, e ela respondia “gioia, stella, tesoro!”, porque tínhamos a língua italiana em comum, um dos nossos infinitos laços.

Quando o Covid 19 tomou a Itália, que passou a ser o epicentro mundial da doença — a pandemia estava, então, sendo controlada na China —, falava-se ainda que os casos graves e as mortes se limitavam aos idosos e àqueles com comorbidades. Foi a primeira grande angústia que esse coronavírus me causou: o medo da perda da geração dos meus avós.

Brincamos em casa, meio a sério — imagino que como tantos brasileiros diante da ameaça crescente de termos um Estado autoritário no país —, sobre a possibilidade de um exílio voluntário. Pensei, então, que poderia me candidatar a uma vaga de nonna.

Etnia

Certa vez, assisti a um evento na Procuradoria Geral da República sobre a PEC 215, uma Proposta de Emenda à Constituição que atentava, sobretudo, contra os direitos territoriais indígenas (e dos quilombolas, alcançando também unidades de conservação: a sanha destrutiva da Bancada do Boi do Congresso Nacional é insaciável).

O auditório estava lotado de índios, dos mais diferentes povos. Quem entrava assinava uma lista de presença, com nome, contato e etnia. Coloquei, sem titubear, Pataxó, pensando em meu avô, que se orgulhava dessa nossa ascendência pelo lado de sua mãe. A intenção não foi uma apropriação cultural (essa invenção que, por vezes, acaba discriminando ao contrário), mas uma vontade de comungar de um mesmo sentimento que nos reunia ali.

Curiosamente, entre Gaviões, Yanomamis e Caiapós, lia-se, aqui e ali, na folha, “etnia: funcionário público”. Achei cômica, mas também triste, essa maneira como alguns servidores se identificavam — ou, quem sabe, se diferenciavam, sem conceber nenhuma identificação com aquelas pessoas. Pareceu-me um vazio existencial.

Ancestralidade

A noção de ancestralidade é muito preciosa para os indígenas. Não somos ninguém, nem nada, sem nossos ancestrais. O direito que têm às suas terras vai muito além de uma herança material, não é apenas o lugar de sua morada, do qual tiram seu sustento. O território é parte deles e de sua identidade, porque lá estão enterrados seus ancestrais. E lá, seus ancestrais ainda vivem.

No Candomblé, é a ancestralidade que identifica os filhos de santo com seus Orixás. Oxóssi, o caçador, o rei da mata, é meu ancestral, como o é de meu avô.  E vovô  é Oxóssi, assim como eu sou. Talvez por isso me sentisse e me desse tão bem com vó Zélia.

Memória atávica

No livro O clã do urso da caverna (The clan of the cave bear), a autora, Jean M. Auel, tendo feito uma pesquisa científica extensa sobre o tema, muito louvada pelos especialistas, conta a estória de uma menina Cro-Magnon (Homo sapiens, como nós) criada por um grupo de Neanderthais.

O ritual mais importante e secreto do clã Neanderthal é o transe induzido por uma beberagem, que proporciona a regressão paulatina na história evolutiva, até o estágio de uma única célula. Dessa maneira, na fantasia de Auel, experimentavam uma plenitude existencial, terrível e maravilhosa, e assim aprendiam, de forma atávica, sobre a vida.

Os Cro-Magnons talvez pudessem ter a mesma experiência, já que Ayla, a protagonista, precisando preparar a bebida, cuja receita aprendeu com sua mãe de criação, a curandeira do clã, acaba tomando um pouco e realizando, assustada, a viagem. Quem sabe também somos capazes de encontrar essa memória de mundo dentro de nós e só nos falta descobrir como?

Generosidade

Ela me viu nascer e nosso amor é para sempre. Quando chegamos em casa, depois do longo e exaustivo velório de vovô — meu marido e eu ficamos com ela aquela noite —, sentou-se na poltrona que era a dele. Perguntei se podia lhe massagear os pés, disse que sim. Esse gesto de se deixar ser cuidada, sem orgulho nem pudor, foi para mim de uma generosidade tocante, por compartilhar a intimidade daquela imensa dor.

Passado e presente

Queria não ter ouvido, tantas vezes, nos últimos meses, que “só morrem os velhos”. Vovó me faz tanta falta! Mas, por outro lado, é uma presença constante, porque sou como a terra em que estão enterrados seus ossos, ela vive em mim.

Sem ela, sem quem se lembre, é como se nunca tivesse existido a cidade de São Paulo em que uma mulher ia de porta em porta, em plena Alameda Santos, vendendo da ordenha de sua cabra o leite matinal. A nonna era uma memorialista que sempre viveu o presente. Não havia nenhuma melancolia saudosista no que contava. O que havia era o orgulho e a alegria por sua vida vivida.

Mariana Amado Costa é comunicadora, jornalista e trabalha com políticas públicas para o meio ambiente. Gosta de pessoas, plantas, bichos, música e livros.

Conte uma história!

Livros narram biodiversidade para o universo infantil

Com Leo Cunha

O mês de julho marca o Dia de Proteção às Florestas, que tem o dia 17 de julho como marco. Por isso, os livros selecionados nesse período abordam o meio ambiente como aspecto central entre as ideias apresentadas.

Publicado em 2018, Manu e Mila, de André Neves (Ed. Brinque Book), narra a delicada aventura dos amigos Manu e Mila em busca da alegria. No caminho, percebem que ela pode estar no jardim, nas coisas mínimas, como o voo de uma joaninha ou o zumbido de um besouro.

Já o livro Planeta Bicho, de Luiz Roberto Guedes e Mateus Rios, (Ed. Formato), lançado em 2011, pode ser considerado um almanaque poético com versos musicais e divertidas metáforas sobre os bichos da terra, da água e do mar: a onça, o ornitorrinco, o jacaré, o hipopótamo, o vagalume, o beija-flor e muito mais.

Leo Cunha é escritor, tradutor e professor universitário. Tem vários prêmios em mais de 60 obras publicadas, como “Um dia, um rio” (Ed. Pulo do Gato), “O sabiá e a girafa” (Ed. FTD) e “Piolho na Rapunzel” (Ed. Projeto).

A invisibilidade do magistério brasileiro no delicado processo de retorno às aulas presenciais durante a pandemia

Marcia Friggi/Facebook – julho de 2020

Seguidamente ouvimos debates acerca do retorno às aulas, no Brasil, durante a pandemia. Sobre o assunto, falam os infectologistas, falam os médicos, falam as mães, falam secretários da educação, falam os prefeitos, vereadores. Ministro da educação não fala porque não temos, ou temos? Falam os alunos, falam os repórteres, falam os programas de TV, só os professores não falam. Pior, sequer são mencionados nesse processo como se não fizessem parte dele.

Hoje, cruzei pela televisão no horário do programa “Encontro”, sentei para ver a simulação de um ambiente de sala de aula em que uma tinta foi usada para representar o novo coronavírus, detalhe, nessa simulação só havia duas pessoas na sala. Em pouco tempo mesas e vários objetos ficaram tomados pela tinta fluorescente que representava o vírus. Em seguida uma especialista foi entrevistada, não prestei atenção no seu nome ou especialidade. Ela falou sobre esse processo de volta às aulas presenciais. Mencionou a importância do retorno escalonado para que as salas não fiquem lotadas. Minimizou o perigo desse regresso ao dizer que as crianças, na maioria, não são infectadas e, quando são, apresentam apenas sintomas leves. Citou também a importância da escola para as crianças, mas não falou dos professores, nunca, uma única vez.

Por puro vício de linguista que adora Análise do Discurso, fiquei contando nos dedos as vezes em que ela pronunciava a palavra “crianças”, perdi a conta, foram muitas, ao mesmo tempo em que esperava ansiosamente a inclusão da palavra “professores”, não houve. A eterna invisibilidade do magistério brasileiro gritava no discurso dessa senhora e me embrulhou o estômago.

Estava ali, naquela fala, vergonhosamente escancarado o desrespeito pelos professores e a visão que a nossa sociedade possui da “escola”. Quando uma categoria tão fundamental nesse processo, sequer é mencionada, é porque não existe para esse sujeito do discurso. Excluídos os professores desse processo, a escola é reduzida a espaço de socialização, depósito de crianças para que os pais trabalhem, tulha para que os adolescentes não fiquem ociosos. A escola passa a ser tudo, menos espaço para a construção do conhecimento.

A omissão da palavra “professores” quando se referem a esse retorno é também um desrespeito pelas nossas vidas, como se a nossa vida, a nossa saúde não fosse importante. Penso no quadro docente da minha escola e, através dele, traço um parâmetro. Poucos não estão no grupo de risco. A maioria possui comorbidades.  Entre os jovens e saudáveis, estão as grávidas. Isso sem considerar a carga de trabalho desses profissionais, muitos trabalham em mais de uma escola. Em escolas de cidades diferentes e precisam de transporte público.

Fico pensando no nosso esforço, na nossa luta para manter a qualidade do ensino neste ano letivo atípico. Fomos pegos de surpresa, como todos. A maioria de nós nunca estudou para dar aulas à distância. Aprendemos na marra, no susto. Nossa casa se transformou em estúdio. Nosso celular em instrumento de trabalho e voz para dez turmas, cerca de quatrocentos alunos e mais seus pais (no meu caso). Em tempos de aulas presenciais, meu celular estava sempre no silencioso para não perturbar, agora também porque muitos alunos e pais não respeitam dia nem horário. Trabalhamos em duas plataformas e quatro frentes: classroom, whatsapp, diário on-line e material impresso.

Todo dia chega uma nova exigência, a mais nova é postar o plano de aula na íntegra, também no diário online. Quando falam em retorno, falam em retorno escalonado para os alunos. E o retorno dos professores também será escalonado? Ou teremos de assumir tudo, aulas presenciais e à distância? É sobre isso que nossos sindicatos precisam ficar atentos. Não há como dar conta de aulas presenciais e à distância ao mesmo tempo, se for assim, os que não morrerem de Covid19, vão morrer de exaustão.

Ainda tem as lives, quase todo dia, para que os professores escutem, escutem, escutem. Quando nos será concedido o lugar de fala nisso tudo? O magistério é silenciado na educação brasileira desde o Brasil colônia, todas as decisões vêm de cima, de especialistas que já não estão no chão da sala de aula há tempos. Mais que ouvir, necessitamos também falar e, acima de tudo, precisamos ser ouvidos!

Marcia Friggi é professora da rede estadual de ensino em Santa Catarina.

Professora paraense se torna embaixadora da educação

Redação/Diário Online – 30/06/2020

A professora paraense Lilia Melo, que ministra aulas na Escola Estadual Brigadeiro Fontenelle, no bairro da Terra Firme, se tornou embaixadora da Teach the Future (TTF), uma vertente dos Estados Unidos que atua em diversas áreas no Brasil. A ideia é debater sobre o futurismo na educação, mas, principalmente, incluir a comunidade periférica.

“O contexto da pandemia intensificou o processo do envolvimento da cultura digital em comunidades periféricas. Então, quando a gente pensa em futurismo, a gente tem que pensar para além do consumo dos aparatos tecnológicos e também da conexão, dos contextos e condições de conexão”, explica.

Segundo Lília, o primeiro passo é entender como os jovens da periferia de escolas públicas estão se relacionando, entendendo e se percebendo dentro do processo, para trazer o debate para um futuro desejável. “Quando a gente fala de aulas remotas, quando a gente fala sobre a questão dos sistemas, plataformas e o uso das metodologias ativas dentro dessas plataformas, a gente precisa entender primeiramente como é que os jovens das periferias das escolas públicas estão”, completa.

Lilia Melo é professora da rede pública no bairro de Terra Firme (Belém/PA) e já venceu o prêmio nacional “Professores do Brasil”. Foto: Wagner Santana

Servidora efetiva da rede estadual de ensino, Lilia Melo venceu o prêmio nacional “Professores do Brasil”, do Ministério da Educação (MEC), que leva o mesmo critério de reconhecer o trabalho de professores de escolas públicas que dirigem projetos sociais em sala de aula.

O Teach the Future é uma rede global, com o propósito de disseminar os Estudos do Futuro/Futurismo nas escolas, através de ferramentas e metodologias tecnológicas e tem o apoio da Unesco.

“Quando a gente para pra pensar sobre a nossa identidade sociocultural e sobre o sentido da nossa ancestralidade, a gente percebe que nossa tecnologia é social e ela vai para além desses usos. Então, quando a gente pensa na comunidade periférica, a gente entende que pela ausência de políticas públicas já há uma articulação coletiva para a solução dessas carências”, ressalta a professora.


Revistapontocom entrevista a historiadora e antropóloga Lilian Schwarcz

Uma das principais expoentes na reflexão sobre o racismo estrutural e o autoritarismo no Brasil, Lilia Schwarcz aborda visão sobre racismo no contexto educacional

Com Flavia Perez.

Autora de diversos livros que abordam a cultura e a identidade nacional, com uma obra que inclui prêmios literários e reconhecimento nacional e internacional, a historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz vem sendo uma das principais expoentes na reflexão sobre o racismo estrutural e o autoritarismo no Brasil.

Um dos pontos defendidos pela autora é o desenvolvimento de propostas e políticas públicas que propiciem ações antirracistas e inclusivas para uma realidade mais justa e igualitária. Em junho, um artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo sobre o tema Racismo é um impedimento ao desenvolvimento econômico brasileiro, tendo como autores Lilia Schwarcz e o empresário e economista Arnaldo Quintella, ganhou grande repercussão na mídia e nas discussões acerca do racismo no país.

A historiadora e antropóloga também é autora do livro Sobre o Autoritarismo Brasileiro (Ed. Companhia das Letras – 2019), no qual examina algumas das raízes do autoritarismo brasileiro, bastante antigas e arraigadas, embora frequentemente mascaradas pela mitologia nacional.

Para trazermos sua visão sobre racismo estrutural no contexto educacional, entrevistamos a historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz. Leia, abaixo, a entrevista na íntegra.


Lilia Schwarcz fala sobre artigo recém-publicado no jornal O Estado de São Paulo e do livro “Sobre o autoritarismo Brasileiro”. Foto: Renato Parada

Considerando o artigo publicado pelo jornal O Estado de São Paulo sobre o tema Racismo é um impedimento ao desenvolvimento econômico brasileiro – assinado por você juntamente com o empresário Antonio Quintella, 20/06/2020 – como você percebe o autoritarismo e o racismo no ambiente educacional?

O racismo no Brasil é estrutural, é institucional. Então é possível vê-lo de muitas maneiras. Como ele é estrutural, o que a gente percebe é que ele cria um feixe de relações. O racismo é estrutural nesse sentido. No ambiente educacional, nós vemos que os dados são extremamente perversos com relação aos estudantes negros, que acabam repetindo muito mais e sendo retidos, ficando em classes com alunos que não têm a mesma idade e, por isso, acabam se desinteressando e saindo da escola, criando um grande círculo vicioso da desigualdade social. Também é possível dizer que há racismo no ambiente educacional uma vez que parte dos professores, coordenadores e diretores de escolas são brancos, e não negros. Isso é o racismo institucional, ou seja, o fato de que em geral pessoas brancas detêm as estruturas de privilégio e poder.

Recentemente, um caso de racismo ocorrido em uma escola particular, na cidade Rio de Janeiro, foi destaque na mídia. De que forma escolas públicas e privadas podem contribuir para reduzir o racismo tanto entre os estudantes quanto na relação com professores e gestores escolares?

Acho que nós vivemos em um momento no qual não basta mais dizer, como chama atenção a professora e filósofa norte-americana Angela Davis, que nós não somos racistas. É preciso praticar atos antirracistas. Só há uma maneira de erradicar o racismo, que é realizar um combate irrestrito à sua manifestação. De que maneira? Criando ambientes mais inclusivos para os estudantes e, ao mesmo tempo, abrindo espaços e locais para professores, gestores e educadores negros. Eu defendo isso não só por uma questão de cota, de ressarcimento, mas defendo isso porque me parece que conviver com a diferença, conviver com as diferentes experiências, só nos fará melhores, mais criativos e, sobretudo, mais atentos às diferentes realidades brasileiras.

Ver em Companhia das Letras

Quais fatores motivaram você a escrever o livro “Sobre o autoritarismo brasileiro”?

O livro foi considerado uma primeira reação à eleição de um líder retrógrado, de extrema direita, como Jair Bolsonaro. E logo no começo do livro eu explico que ele é pautado em dois elementos: o primeiro é demonstrar como o nosso presente está cheio de passado; de fantasmas do passado. O segundo é que, para aqueles que reagiram com grande surpresa em relação ao resultado das eleições finais de 2018, o que o livro mostrava é que nós sempre fomos racistas. Neste cenário, o livro analisa estruturas do passado para pensar em temas do presente, como escravidão e racismo, mandonismos, patrimonialismos, violência, corrupção e, por fim, intolerância.

Enquanto autora, quais os principais obstáculos que encontrou para criar a obra?

Como era um livro geral sobre o Brasil, existiam muitos temas que eu fui estudar, dentre eles a questão da educação e da desigualdade. Enfim, todo livro abre uma série de desafios. Neste caso, esse livro lida com questões que não são exatamente a minha especialidade, sobretudo a questão da educação e a questão da contravenção e da corrupção no Brasil. Contudo, a cada livro escrito, o escritor sempre acredita ao concluir a obra que saiu um pouco melhor, porque abriu a cabeça para outros temas, outras perspectivas, que o tornam assim um intérprete desse nosso país tão difícil de entender.

Como historiadora, antropóloga e professora, de que forma na sua opinião o ensino da história e das ciências humanas em escolas, faculdades e universidades pode propiciar a construção de narrativas inclusivas e antirracistas?

Eu como historiadora, antropóloga e professora tenho lutado muito para que nós de alguma maneira possamos questionar primeiro a naturalização do racismo no Brasil, que é um fenômeno tão perverso. Eu tenho dito que nós somos acostumados a ver, porque essa é uma faculdade biológica, mas não a enxergar porque enxergar é de uma maneira uma escolha cultural. E a sociedade brasileira prefere se enxergar como branca e prefere não ver outras cores, prefere não sair da sua cor. Eu como historiadora e antropóloga tenho, portanto, lutado contra esse tipo de definição, de história universal e perguntado: história universal para quem?

A nossa história é basicamente europeia, se refere à colonização europeia, tem heróis brancos em geral e, em sua maior parte, homens. É preciso, portanto, produzirmos uma história mais atenta às diferentes formações brasileiras, à nossa formação enquanto europeus, mas também como africanos; afinal estamos em um país que tem quase 56% da sua população, segundo o IBGE, composta por pretos e pardos, a segunda maior população de origem africana, depois da Nigéria, e mesmo assim temos uma história profundamente europeia.

Também precisamos de uma história mais indígena, uma história que diga respeito a essas nações que estavam no Brasil, que ainda estão, e que têm uma influência ímpar na nossa linguagem, na nossa cultura, na nossa formação. Também precisamos de uma história mais feminina, uma história das mulheres, que fizeram esse país, e também uma história das populações LGBTQI+, que são agentes sociais de suma importância na nossa contemporaneidade. Ou seja, como historiadora, eu pretendo uma história mais múltipla. Como antropóloga, tenho batalhado para combater as nossas invisibilidades, que são invisibilidades sociais e culturais.

Artigo publicado pelo jornal O Estado de São Paulo, em 20/06/2020:

Lilia Moritz Schwarcz é historiadora e antrópologa, professora da USP e em Princeton, curadora adjunta para histórias do MASP e autora de vários livros, sendo o mais recente “Sobre o autoritarismo brasileiro” (2019).

Anuário Brasileiro da Educação Básica 2020

Todos Pela Educação e Editora Moderna lançam publicação com dados fundamentais para monitorar o ensino brasileiro

O fechamento das escolas e a interrupção das aulas presenciais logo no começo do ano letivo de 2020 impuseram novos desafios à Educação mundial. No caso do Brasil, em um cenário de avanços lentos, ainda que progressivos na maior parte dos casos, e de extrema desigualdade, os prejuízos que serão deixados pela pandemia de Covid-19 ainda estão sendo avaliados. Planejar a retomada das atividades presenciais, por exemplo, é uma das urgências que se apresentam neste momento, e é imperativo que as soluções sejam construídas com o apoio das melhores informações disponíveis, em um trabalho contínuo para dirimir o enorme vão que separa os alunos de nível socioeconômico mais alto e mais baixo.

Em parceria com a Editora Moderna, o Todos Pela Educação lança a nona edição do Anuário Brasileiro da Educação Básica 2020. A publicação, já tradicional no monitoramento do ensino brasileiro, traz mais de 200 gráficos e tabelas com dados e informações que permitem uma leitura mais ampla e profunda do que vem ocorrendo com a Educação brasileira nos últimos anos (clique aqui para baixar a publicação completa).

Neste ano de eleições municipais, a edição conta com uma novidade: o especial Educação nos Municípios. São análises e indicadores que dialogam com as responsabilidades prioritárias dos governos municipais, no que diz respeito ao Ensino Público, a partir do tamanho de suas populações. O Anuário também traz o já tradicional resumo dos dados educacionais de cada estado e do Distrito Federal, dessa vez de forma mais detalhada.

De acordo com o material, os dados mostram que alunos que têm aulas totalmente a distância aprendem menos do que aqueles com a vivência presencial nas escolas, descontada a influência de outros fatores que afetam o desempenho acadêmico. A crise econômica que se instaura também ameaça o financiamento da Educação. No âmbito estadual, estima-se a carência de R$ 30 bilhões para evitar o possível colapso financeiro das redes públicas de Educação.

Estes e outros desafios são apresentados no Anuário acompanhados das análises estatísticas inéditas que são subsídios para novas avaliações, estudos, reportagens e tomada de decisão. “O Anuário mostra que houve muitos avanços ao longo das últimas décadas na Educação Básica, como o aumento do atendimento escolar dos 4 a 17 anos, mas também explicita os desafios que serão aprofundados pela paralisação prolongada das aulas presenciais, como o provável aumento da desigualdade na aprendizagem e a queda na conclusão do Ensino Médio na idade correta. Se antes a necessidade de mudanças estruturantes no ensino era imprescindível, a crise da Covid-19 amplia a urgência de uma aliança intersetorial para amenizar os impactos da pandemia e fortalecer a Educação como pilar de reconstrução do País”, explica Priscila Cruz, presidente-executiva do Todos Pela Educação.

Para contribuir com o enfrentamento das consequências negativas da pandemia, a reunião e análise qualificada de dados educacionais é fundamental, aponta Luciano Monteiro, diretor de Relações Institucionais da Moderna. “O Anuário é uma das publicações mais completas em termos de radiografia da Educação Básica. Neste ano, especialmente, no contexto de pandemia e das eleições municipais, o trabalho robusto de análises inéditas trazidas pelo material e a série histórica que temos disponibilizado nos últimos nove anos são de grande valor para a formulação e acompanhamento de políticas nacionais que priorizem a Educação”, afirma.

Confira abaixo quatro destaques fundamentais para repensar avanços e desafios no ensino, especialmente frente à pandemia do novo coronavírus.

Desigualdade na conclusão do Ensino Médio

A renda familiar de um jovem impacta severamente nas suas chances de concluir a Educação Básica. De acordo com o Anuário, enquanto 87,9% dos jovens de 19 anos pertencentes aos domicílios mais ricos haviam completado o Ensino Médio em 2019, essa proporção foi de apenas 51,2% entre os mais pobres. A disparidade entre os níveis socioeconômicos (NSE) também ocorre na aprendizagem: 7 em cada 10 estudantes de NSE alto da 3ª série do Ensino Médio aprenderam o adequado em Língua Portuguesa em 2017; enquanto entre os alunos do NSE baixo essa proporção foi de 2 em cada 10. Esses e outros dados apresentados no Anuário escancaram as enormes iniquidades educacionais existentes no País, fato que precisa receber máxima atenção do poder público na resposta aos novos desafios advindos com a pandemia.

Financiamento da Educação

Além das eleições municipais e do enfrentamento da crise financeira, 2020 é também um ano fundamental para o financiamento da Educação Básica. Em dezembro deste ano, a vigência do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica), principal mecanismo de financiamento da Educação Básica, chegará ao fim.

Tendo isso em vista, o Anuário 2020 traz dados sobre a importância dessa política para as redes de ensino do País: para 86% dos municípios brasileiros, os recursos do Fundo representam mais da metade da disponibilidade fiscal para investimento em Educação. Em outras palavras, caso um novo Fundeb não seja votado e aprovado pelo Congresso Nacional ainda este ano, 9 em cada 10 cidades brasileiras perderão parte relevante de seu orçamento destinado para o ensino. Justamente em um momento em que estudos fiscais projetam um aumento no gastos da área para minimizar os danos decorrentes da pandemia.

Essa situação requer especial atenção no que diz respeito ao financiamento nas regiões mais vulneráveis do Brasil onde o Fundo corresponde à grande maioria (75% ou mais) dos recursos vinculados à manutenção e desenvolvimento do ensino. Na região Nordeste, 76% dos municípios estão nessa situação e, no Norte, 54%, segundo dados de 2015.

Professor

Centrais na garantia de um ensino de qualidade, os professores ainda enfrentam desafios relacionado à formação adequada às disciplinas que lecionam. Além da reinvenção imposta pelo ensino remoto na crise da Covid-19, falta também preparo para lidar com os diversos desafios da sala de aula. Dados do Censo Escolar de 2019 mostram que apenas 56.8% das turmas dos Anos Finais do Ensino Fundamental dispunham de professores com formação compatível com as disciplinas que lecionavam. Enquanto em Língua Portuguesa, 3 em cada 10 turmas não dispõem de professores com formação compatível; em Matemática, a proporção era de 42,2%. São dados como esses que reforçam a relevância de ampliar programas de formação continuada para os docentes, políticas essenciais para uma resposta adequada à crise da Covid-19 e para a melhoria da qualidade do ensino no Brasil.

Ensino em Tempo Integral

A despeito dos desafios educacionais, o Anuário também mostra importantes avanços na Educação nos últimos anos, como no Ensino em Tempo Integral. Importante para dar respostas aos desafios da desigualdade, aprendizagem e formação integral, especialmente de alunos em situação de vulnerabilidade, a modalidade conta com 5 milhões (14,2%) de matrículas na rede pública, com avanço, sobretudo, no Ensino Médio. Nessa etapa, o crescimento em todo o Brasil foi de 8 pontos percentuais nos últimos nove anos – saindo de 2,8% das matrículas em tempo integral, em 2011, para 11,7%, em 2019. Entre os estados, Pernambuco é destaque, contabilizando 52,1% das matrículas dessa modalidade no Ensino Médio na rede pública; o Pará, por outro lado, tem proporção ínfima na mesma modalidade e etapa: 2,6%.


Cidades, salvem seus rios!

Professores e gestores de escolas da rede municipal do Rio de Janeiro recebem formação on-line para etapa inicial do projeto piloto Esse Rio É Meu

Despertar a curiosidade dos estudantes pela história dos rios que atravessam as regiões em que vivem, e, a partir daí, produzir uma transformação cultural. Esse é o principal objetivo do Esse Rio é Meu, realizado por meio de uma parceria entre a equipe da organização social Planetapontocom, desenvolvedora do programa Cidades, salvem seus rios!, com a Secretaria Municipal de Educação (SME), que aderiu à iniciativa. No Rio de janeiro, o projeto recebeu como nome um título que se conecta à história da cidade – Esse Rio É Meu – e tornou-se política pública a partir do sancionamento da lei nº 6.535, publicada em 22 de abril de 2019, que dispõe sobre a criação do projeto Esse Rio É Meu no âmbito das escolas da rede municipal de ensino.

Professores, coordenadores pedagógicos e diretores de 23 escolas da rede municipal do Rio de Janeiro começaram a receber, em maio, formação on-line para implantação da etapa inicial do projeto. O objetivo dos encontros virtuais, que já reuniram mais de 200 professores e gestores da rede do município do Rio, é apresentar a estrutura metodológica do programa, que será aplicado de forma trans e interdisciplinar em todas as escolas da rede, contemplando as etapas de Educação Infantil e Ensino Fundamental I e II.  


A educadora Silvana Gontijo, idealizadora do projeto Esse Rio é Meu, apresenta a metodologia do programa a professores e gestores escolares durante o lançamento da iniciativa, na sede da Prefeitura do Rio, em dezembro de 2019

“O projeto Esse Rio é Meu é a versão carioca do nosso programa Cidades, Salvem seus Rios, concebido a partir da metodologia inovadora Educação com e através de Causas, que ultrapassa o conceito de educação ambiental, uma vez que incorpora a causa de recuperação e preservação dos rios ao currículo e à Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O trabalho é feito de forma trans e interdisciplinar nas escolas municipais”, revela Silvana Gontijo, idealizadora do programa e presidente do Planetapontocom, que tem como missão desenvolver soluções inovadoras para a educação pública brasileira. 

O ciclo de formação dos professores teve como ponto de partida um encontro realizado na sede da Prefeitura do Rio, em dezembro do ano passado, que oficializou o lançamento do projeto. Após a suspensão das aulas presenciais em escolas públicas e privadas de todo o Brasil, devido à pandemia do novo coronavírus, as reuniões vêm sendo realizado em formato de webinar.

Durante a formação, os docentes recebem informações acerca do conceito e da estrutura metodológica do programa preparando-os para aplicá-lo em sala de aula com os alunos. Em cada etapa do treinamento, professores e gestores estão sendo estimulados a usar o rio mais próximo da escola como fator de articulação entre os conteúdos curriculares das disciplinas de História, Língua Portuguesa, Geografia, Ciências, Artes e Matemática.

A partir de sua metodologia trans e interdisplinar, as escolas repensam suas práticas com o intuito de conduzir cada indivíduo a se perceber como protetor do meio ambiente e disseminador de boas práticas para a preservação da natureza. O programa foi sistematizado a partir da experiência da organização Planetapontocom com o movimento Carioca, o rio do Rio, que possibilitou a restauração da parte visível do Rio Carioca e o seu tombamento pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), o primeiro curso d’água urbano tombado no país.

Conheça a trajetória do movimento que permitiu a recuperação da Caixa da Mãe D`Água e do Reservatório do Carioca, construídos em 1744, e consequentemente o  tombamento do Rio Carioca como patrimônio cultural (leia a matéria).

Lei municipal regulamenta projeto Esse Rio é Meu

Instituída em 22/04/2019, a Lei nº 6.535 regulamentou a criação do Projeto Esse Rio é Meu no âmbito das escolas da Rede Municipal de Ensino do Rio de Janeiro. O decreto prevê a conscientização acerca do uso sustentável e da preservação dos corpos hídricos da Cidade.

Para que o projeto ganhe escala e seja implementado em toda as escolas municipais do Rio, a lei prevê que a Secretaria Municipal de Educação poderá realizar parcerias com outros órgãos da Administração Pública Municipal, Estadual e Federal e instituições da sociedade civil para o cumprimento das diretrizes contidas no projeto.

Conheça mais sobre o projeto carioca acessando a plataforma Esse Rio É Meu http://multirio.rio.rj.gov.br/esserioemeu/

Recuperação do rio Carioca inspira criação do programa Cidades, Salvem seus Rios

Cerca de 570 professores se engajaram na ação, que impactou mais de 130.000 estudantes do Ensino Fundamental e Médio

MultiRio/Flavia Perez – 2020

O movimento de recuperação do rio Carioca envolveu escolas, jornalistas, formadores de opinião, comunidades, ambientalistas, artistas, cientistas, arquitetos, urbanistas e a sociedade como um todo, e se constituiu em um movimento da sociedade civil organizada: o “Carioca, o rio do Rio”.  Mas tudo começou com a tese da Educação com e através de causas. A motivação para a revitalização dos 5,6 quilômetros de extensão desse curso d`água partiu de uma inquietação da organização social planetapontocom e inspirou o desenvolvimento do programa Cidades, Salvem seus Rios, que, para aplicação nas escolas de Educação Infantil e Ensino Fundamental I e II da Rede Municipal de Ensino do Rio de Janeiro, recebeu o nome: Esse Rio é Meu.

Para entender a trajetória que permitiu a revitalização de grande parte do rio Carioca, é preciso voltar no tempo para conhecer um pouco da história desse curso d`água que passou a dar nome aos nascidos na cidade do Rio de Janeiro. A partir das descobertas históricas, culturais e ambientais que as investigações foram trazendo, o Carioca foi se transformando em sujeito, com passado, personalidade e identidade. Cerca de 570 professores se engajaram nessa ação e 137.900 estudantes de Ensino Fundamental e Médio foram impactados.

O Carioca nasce na Fonte do Beijo, nas Miríades, acima do trecho conhecido como Paineiras, no coração do Parque Nacional da Tijuca, e se acumula em um reservatório conhecido como Mãe D’Água para depois seguir seu curso pela favela dos Guararapes, Cosme Velho, Laranjeiras, Catete e Flamengo até chegar ao litoral, desaguando na Baía de Guanabara.

Desde os tempos da colônia, o Rio Carioca foi importante para o desenvolvimento da cidade, mas muito antes disso ele já era fonte de água potável para a população indígena que vivia por aqui nos séculos passados. Em 1642, para abastecer a cidade que crescia desde o Morro do Castelo, iniciou-se a captação de suas águas, trazidas por meio de calhas de madeira até o atual Largo da Carioca, que além de fonte era ponto de encontro da população. Com a mesma finalidade, os Arcos da Lapa foram construídos em 1750.

A partir de 1905, após obras de urbanização do prefeito Pereira Passos, o Carioca passou a correr por canais subterrâneos na maior parte de seu curso. Com o passar dos anos, o rio Carioca deixou de ser um patrimônio hídrico visível e integrado à paisagem para tornar-se uma referência só reconhecível em alguns trechos onde corre a céu aberto e, assim, foi sumindo dos olhos e das lembranças da população. O tratamento da água, necessário devido aos esgotos clandestinos jogados ao longo de seu curso, deveria resolver pelo menos as consequências, o que não aconteceu.

Diante desse cenário, entrou em ação a partir de 2014 um movimento de conscientização formado por alunos e professores de 27 escolas públicas e privadas situadas na bacia do Rio Carioca. Estimulados pela equipe do planetapontocom, que usando a metodologia de educar com e através de causas aplicou todo o seu conhecimento pedagógico na criação de ações educativas, os estudantes foram incentivados a embarcar em um processo investigativo que os levou a fazer estudos e caminhadas de redescoberta, partindo de uma causa comum: salvar o rio Carioca.

As características do bioma e de sua geomorfologia foram incluídas nos conteúdos curriculares gerando interdisciplinaridade. Um ano depois, o movimento ultrapassou os muros das escolas e passou a se articular com a sociedade a fim de unir esforços para revitalizar o Rio Carioca e conservar esse patrimônio ambiental, histórico e cultural. Estudantes, associações de moradores do Rio de Janeiro e entidades de classe decidiram aderir ao movimento, criando então a força de ação “Carioca, o rio do Rio”.

Parcerias e tombamento do Rio Carioca

A partir de uma reivindicação encaminhada aos órgãos públicos competentes contendo denúncias e a cobrança de soluções para problemas e crimes ambientais, a causa “Carioca, o rio do Rio” ganhou visibilidade na mídia e nas redes sociais, conquistando e a atenção de novos parceiros e organizações afins. Um requerimento solicitando o Tombamento do Rio Carioca foi encaminhado, em 2017, ao Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC), iniciativa que transformou o Rio Carioca no primeiro curso d’água tombado no Brasil.

Porém, antes de alcançar o tombamento do Rio Carioca, que garantiu de forma mais efetiva a sua conservação e preservação, inúmeras ações foram conduzidas. Assim que a causa “Carioca, o rio do Rio” permeou os diferentes públicos, os representantes do movimento constituiram uma comissão sociotécnica, que definiu os eixos temáticos a serem trabalhados e um plano de ação com divisão de tarefas. Logo em seguida, a comissão apresentou ao Parque Nacional da Tijuca e à Secretaria de Estado do Ambiente (SEA) uma Análise do Termo de Referência para o Projeto de Restauro do Reservatório da Mãe d´Água. Também foi realizado um estudo com dados sobre o impacto da degradação do Rio Carioca para a Baía de Guanabara, com proposta de ações de recuperação e saneamento de sua bacia.

Com informações e dados levantados pela comissão, os representantes do movimento participaram de congressos, seminários, reuniões, caminhadas e eventos com integrantes de movimentos culturais, educativos e ambientais, conquistando novos adeptos. Entre eles, SOS Mata Atlântica, WWF, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICM Bio), Sociedade dos Engenheiros e Arquitetos do Estado do Rio de Janeiro (SEAERJ), Consulado da Holanda, Guardiões do Rio, ONGs, entre outras organizações. 

Um documento, chamado Carta do Rio, foi consolidado, solicitando a proteção dos mananciais, prevenção de riscos, despoluição, educação e conteúdos interdisciplinares, recuperação do patrimônio histórico e cultural, replantio das margens, renaturalização e reclassificação do rio, gestão e monitoramento. Além disso, a comissão sociotécnica entregou um mapa de riscos de deslizamentos à Fundação Instituto de Geotécnica (GEO-RIO).

Para conter o avanço da degradação, também foi pleiteada a eliminação de captações irregulares do Parque Nacional da Tijuca, Complexo das Paineiras e Cristo Redentor e a substituição do fornecimento de água e esgoto do rio Carioca pela Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae). Os líderes do movimento solicitaram, ainda, a implementação de um programa de monitoramento da qualidade das águas e a classificação do trecho do rio Carioca que atravessa o Parque Nacional da Tijuca em uma classe especial, de acordo com a Resolução Conama 357/2005.

A condução de todas essas ações resultou na restauração de parte visível do Rio Carioca, em um período de um ano e seis meses, e em soluções que possibilitaram o saneamento, o tratamento do esgoto e o fortalecimento das atividades de reciclagem dos resíduos sólidos. A revitalização do reservatório da Mãe D’Água, que guarda preciosidades que datam de 1744, também se tornou realidade. E hoje, as águas do rio Carioca são potáveis e balneáveis na maior parte de seu trajeto a céu aberto, desde suas nascentes até os Guararapes, no Cosme Velho. 

O passo seguinte foi a transformação desse projeto sistematizado em política pública. À frente da causa “Carioca, o rio do Rio”, a organização social planetapontocom, que busca desenvolver soluções inovadoras para a educação pública brasileira, alcançou um avanço significativo por meio da lei, publicada em 2019, que dispõe sobre a criação do projeto Esse Rio é Meu no âmbito das escolas da Rede Municipal de Ensino do Rio de Janeiro. O projeto, que integra o programa Cidades, Salvem seus Rios, desenvolvido pelo planetapontocom, será implantado no ano de 2020 em 30 escolas municipais, primeiramente, seguindo em uma segunda fase para toda a rede.

Deixa que eu conto: projeto para crianças da Educação Infantil

Conexão Escolas/Marcus Tavares – 02/06/2020

Quer uma boa dica para a criançada? Conheça o projeto Deixa que Eu Conto, do Unicef. Deixa que eu conto é o nome do programa que o Unicef criou para crianças e suas famílias, em tempos de coronavírus. Por meio de podcasts diários, publicados no Spotify, no YouTube e no site da instituição, o programa traz contação de histórias, músicas e brincadeiras.  Trinta e seis episódios já estão no ar!

Confira um dos episódios abaixo:

Deixa que Eu Conto é voltado a meninas e meninos em idade de frequentar a pré-escola e em processo de alfabetização (anos iniciais do Ensino Fundamental). Os episódios são apresentados pelas contadoras de história Carol Levy e Kiara Terra, e outros realizadores, e trazem histórias, brincadeiras e atividades. Todos os conteúdos são gratuitos e podem ser baixados por rádios de todo o Brasil. Cada programa está dividido em quadros (contação de histórias, músicas e brincadeiras, entre outros), podendo ser editados pela emissora de acordo com o que melhor se encaixar no tempo disponível e na programação. O importante é fazer com que os conteúdos cheguem a todas as crianças, em cada município brasileiro.

Vamos conversar?

Revistapontocom entrevista o professor e pesquisador José Paulo Azevedo

Diante do cenário da pandemia do novo coronavírus, causador da Covid-19, é fundamental refletirmos sobre a relação entre biodiversidade, meio ambiente e a saúde humana. Para entender melhor como essas esferas estão interligadas e ficar por dentro de ações e pesquisas em andamento, entrevistamos o professor José Paulo Azevedo, professor do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ).

Entre os temas abordados, Azevedo destaca uma iniciativa da Coppe/UFRJ que busca viabilizar a produção do ventilador pulmonar VExCo, desenvolvido por pesquisadores do instituto, com apoio de outras instituições nacionais de pesquisa. O objetivo é dar suporte ao tratamento de pacientes diagnosticados com a Covid-19.

Como ressalta o professor, ciência e saúde também estão relacionadas à biodiversidade e ao meio ambiente. Neste contexto, a conferência EauMega 2020, que acontecerá na sede da Unesco em Paris, entre os dias 1 e 4 de dezembro, terá como foco das discussões Água, Megacidades e Mudanças Globais, apontando soluções para adaptação às mudanças climáticas, bem como à promoção do desenvolvimento sustentável.

Após avaliar pesquisas científicas da Coope, já submetidas à EauMega 2020, José Paulo Azevedo ajudará a identificar redes e canais de juventude para escolha de candidatos da região metropolitana do Rio de Janeiro ao Comitê Diretor de Juventude que fará parte da conferência.

José Paulo Azevedo, ao lado da esposa, numa área de preservação de mananciais e ecoturismo, em Bonito (MS)

Como a biodiversidade e a água estão relacionadas à saúde?

Biodiversidade está associada à água e, sem água, não há vida. A água consumida por nós e pelas indústrias vem dos rios. Se não tivermos rios, se não tivermos a natureza com florestas, crises hídricas acontecem, causando danos à saúde da população.

Precisamos nos reconectar com a biodiversidade, pois ela traz benefícios ao ecossistema e à população, uma vez que é fundamental para manter esse ciclo de vida, pois existem espécies que dependem de outras para se manterem e, quando se elimina uma espécie, surge um desequilíbrio natural no meio ambiente, que causa impacto em outras espécies e no ecossistema como um todo.

A maior parte da população hoje é urbana, mas é a natureza que nos proporciona uma série de serviços. É preciso que as pessoas se conscientizem e percebam que a biodiversidade se conecta à vida delas. Água, biodiversidade e floresta se inter-relacionam.  

Outro ponto fundamental quando falamos da relação entre biodiversidade, água e saúde é a questão da segurança hídrica, que representa o conceito de água suficiente para abastecer a população, não tendo interrupções no abastecimento.

De que forma a falta de saneamento impacta a biodiversidade, a água e, consequentemente, a saúde humana?

A crise sanitária causada pela pandemia do novo coronavírus demonstra factualmente como o saneamento é fundamental para a saúde, visto que a principal medida de prevenção é a lavagem das mãos, entre tantos outros fatores relacionados ao impacto do saneamento à saúde humana.

Além de atuar para preservar e recuperar nascentes, possibilitando a preservação do meio ambiente e o acesso mais igualitário da população aos recursos hídricos, é fundamental investir em saneamento e tratamento de esgoto e, ao mesmo tempo, em uma gestão mais eficiente do controle de perda de água tratada, fatores intrínsecos à segurança hídrica.

Paralelamente, é preciso conciliar atividade econômica, social e meio ambiente. A degradação ambiental e a falta de saneamento limitam o desenvolvimento social e econômico. Essa mudança de postura já começa a aparecer em alguns projetos da iniciativa pública e privada, mas a atenção ao equilíbrio entre natureza e economia precisa ser estrutural para que seja possível preservar a biodiversidade e a vida humana.

Sobre a conferência EauMega 2020, que acontecerá em Paris, neste ano, quais temas estarão no centro das discussões e por quê?

As cidades estão cada vez mais vulneráveis a eventos extremos ligados à água, como furacões, inundações e deslizamento de encostas. Para enfrentar estes incidentes cada vez mais frequentes, o relatório recente da OCDE e UN-Habitat Global state of National Urban Policy destaca a importância de políticas urbanas de adaptação às mudanças climáticas e promoção do desenvolvimento sustentável.

Neste contexto, a conferência EauMega 2020, que acontecerá na sede da Unesco em Paris, entre os dias 1 e 4 de dezembro, terá como foco das discussões Água, Megacidades e Mudanças Globais. A escolha do tema é uma resposta à necessidade de considerar os desafios das megacidades sob uma perspectiva da água e vice-versa, já que sua interdependência é muito forte e a necessidade de gestão profundamente interligada.

A 2ª Conferência Internacional – EauMega 2020, que reunirá cientistas, gestores de serviços urbanos, representantes políticos, e sociedade civil para dialogarem durante 4 dias sobre a gestão da água em Megacidades, acontecerá cinco anos após a realização da 1ª Conferência das Nações Unidas – EauMega 2015, quando o centro do debate se estabeleceu acerca das Mudanças Climáticas com o objetivo de chamar atenção para os desafios consideráveis que as megacidades enfrentam.

No Brasil, quais os principais desafios impostos às megacidades?

No Brasil, duas regiões metropolitanas são classificadas como megacidades pelas Nações Unidas, por serem centros urbanos com população superior a 10 milhões de pessoas: Rio de Janeiro e São Paulo. Acontecimentos como a crise da geosmina, no Rio de Janeiro, e a pandemia da Covid-19, no mundo, geram reflexos na saúde e na vida da população e chamam a atenção para a necessidade de incorporação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável nas políticas públicas.

Pela própria dimensão das megacidades, os desafios impostos pela gestão das águas são de particular importância e levantam novas questões específicas. Essa abordagem exige colaboração estreita entre cientistas que promovem avanços no conhecimento, operadores (tanto no setor público quanto no privado), que inovam tecnicamente e sociopoliticamente, e dos políticos locais, que podem apoiar novos modelos de governança da água mais justos, em constante interação com a sociedade, como previsto pelo Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH), conjunto de órgãos e colegiados que concebe e implementa a Política Nacional das Águas.

Os principais desafios relacionados a este tema mudaram muito pouco desde a primeira conferência, apesar do aumento constante no número de megacidades, do aumento de comunicações científicas alertando sobre os efeitos negativos das mudanças climáticas e do crescimento da população nestas megacidades.

Como foi desenvolvido o VExCo, ventilador de exceção para Covid-19?

O VExCo, Ventilador de Exceção para Covid-19, foi desenvolvido por pesquisadores do Laboratório de Engenharia Pulmonar e Cardiovascular da Coppe/UFRJ, com a colaboração voluntária de pesquisadores de outros programas da Coppe, da UFRJ e de várias outras instituições do país a fim de viabilizar a empreitada em tempo recorde. Diversas empresas também têm se prontificado a ajudar no desenvolvimento, na distribuição e no financiamento dos equipamentos.

A iniciativa visa atender, em caráter excepcional, a necessidade de ventilação de pacientes acometidos pela Covid-19 em locais e situações nas quais não haja um ventilador comercial padrão disponível. O protótipo foi desenhado com o intuito de viabilizar sua reprodução em massa, de forma simples, rápida e barata, e com recursos disponíveis no mercado nacional.

A fase de testes in vitro do ventilador de exceção foi concluída com sucesso. Os resultados foram submetidos à aprovação da Anvisa e um protocolo será submetido para a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa a fim de testar o equipamento em pacientes no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da UFRJ. Os ventiladores não serão comercializados e, sim, distribuídos para as UTIs por meio de um grande estudo de aplicação clínica e, posteriormente, doados ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Para produzir o “Ventilador de Exceção para Covid-19 – UFRJ” (VExCo), a Coppe/UFRJ deu início a uma campanha de doações realizada pela Fundação Coppetec. Os recursos doados serão utilizados na compra das peças necessárias para a produção dos ventiladores. Cada ventilador custará, aproximadamente, R$ 5 mil.

As doações deverão ser efetuadas, por depósito bancário, em nome da Fundação Coppetec. Para saber mais sobre o projeto e como doar recursos, acesse o link http://www.coppetec.coppe.ufrj.br/site/respiradores-ufrj/

10 anos de Observatório da Imprensa

Por Flavia Perez.

Livro recém-lançado remonta aos principais acontecimentos históricos da última década pelo olhar de um crítico midiático

A segunda década do século XXI foi bastante movimentada no Brasil e no mundo. É neste cenário que, de acordo com o professor Francisco Fernandes Ladeira, mestre em Geografia pela UFSJ, foi escrito o livro 10 anos de Observatório da Imprensa: a segunda década do século XXI sob o ponto de vista de um crítico midiático (ffernandesladeira@yahoo.com.br), recém-lançado pela editora CRV.

A obra é um amplo panorama das crises do processo de Globalização, radicalizações ideológicas em todo o planeta, ameaças de conflitos nucleares entre Estados Unidos e Coreia do Norte, além do ressurgimento da Rússia como importante ator geopolítico. No cenário nacional, o título contempla uma crítica da atuação midiática acerca de temas polêmicos, como a Copa do Mundo e a Olimpíada no Brasil, incluindo o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

O livro destaca ainda a consolidação da internet como principal meio de comunicação utilizado pela população global e a relação desse avanço tecnológico com o cenário político no Brasil e no mundo. Este decênio histórico, compreendido entre os anos 2011 e 2020, é retratado no livro por meio da seleção de cinquenta e um artigos escritos pelo professor e mestre em Geografia e publicados pelo Observatório da Imprensa, onde atua como articulista.

Para saber mais sobre a obra e entender a relação que Francisco Ladeira estabelece entre o ensino da Geografia e a mídia, leia entrevista com o autor:


Francisco Fernandes Ladeira fala sobre educação midiática e destaca o processo de criação do livro. Foto: Camila da Silva Ladeira

Como professor, como você percebe a relação entre o ensino da Geografia e a mídia?

Percebo como uma relação bem próxima, mas que, ao mesmo tempo, é negligenciada ou mal compreendida por muitos docentes. Trabalhei com essa temática em minha pesquisa de mestrado. Conteúdos inerentes à Geografia Escolar, como geopolítica, meio ambiente, problemas urbanos e fenômenos climáticos, também estão constantemente presentes nas produções midiáticas, com diferentes formas e com diversas acepções.

No entanto, é preciso entender que as linguagens da ciência geográfica e dos meios de comunicação de massa têm suas peculiaridades e se destinam a públicos distintos. Como todo campo científico, a Geografia aborda as questões que se propõe a conhecer a partir de análises mais aprofundadas e reflexivas; enquanto a mídia tende a apresentar visões superficiais sobre os fatos. É algo próprio do formato das narrativas midiáticas. Por exemplo, não há como um telejornal enfatizar toda a complexidade de um acontecimento geopolítico em reportagens que possuem, em média, dois minutos de duração.

Diante dessa realidade, parcela considerável dos educadores opta, simplesmente, por não trabalhar com artefatos midiáticos em sala de aula e não debate com seus alunos as questões presentes nos noticiários, limitando-se assim a tecer críticas evasivas sobre os discursos midiáticos (a partir de chavões como “mídia aliena”, “mídia massa de manobra” e “mídia manipula”, porém sem explicar como ocorrem essas manipulações).

Por outro lado, o professor que incorpora à sua prática pedagógica textos de jornais e revistas ou programas de televisão sem promover suas ressignificações, ou transfere para estes recursos paradidáticos a tarefa de ensinar, transforma suas aulas em mais uma correia de transmissão para os discursos midiáticos, que, conforme bem sabemos, geralmente são tendenciosos e atendem a determinados interesses econômicos e ideológicos.

Portanto, o ideal não é simplesmente negar a mídia (como se isso fosse impedir o contato dos alunos com os diferentes meios de comunicação), tampouco incorporar materiais midiáticos à prática pedagógica como se estivessem prontos e acabados. Agindo dessa maneira, o docente pode levar o aluno a acreditar que o conteúdo vinculado pelos meios de comunicação, por si só, possui legitimidade como portador do conhecimento.

Quais fatores o motivaram a desenvolver um olhar crítico sobre os meios de comunicação?

Levando em conta que a mídia pode representar um poderoso concorrente discursivo para a ciência geográfica, é fundamental que eu, como professor, desenvolva um olhar crítico sobre os meios de comunicação de massa. Já como cidadão, considero que é preciso ficar bastante atento às armadilhas ideológicas presentes nos noticiários. Caso contrário, corremos o risco de perceber a realidade não como realmente é, em toda a sua complexidade, mas a partir das representações midiáticas que buscam explicações simplórias para os principais temas da atualidade.

Apesar de não haver um determinismo manipulador das massas através da mídia, os grandes grupos de comunicação do país possuem poderosos instrumentos de sensibilização e persuasão que podem nos induzir a aderir a uma determinada linha de pensamento. Lembrando as palavras do ativista negro estadunidense Malcolm X, “se você não cuidar, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo”.

O livro “10 anos de Observatório da Imprensa – A segunda década do século XXI sob o ponto de vista de um crítico midiático” marca dez anos de artigos produzidos para o Observatório da Imprensa. Como começou essa parceria e quais os principais desafios que encontrou ao longo da última década para desenvolver uma visão crítica acerca da atuação midiática? 

A parceria começou em 2011, quando encaminhei para o Observatório da Imprensa um artigo sobre as diferentes posturas de jogadores de futebol em relação à mídia. Na época, eu não imaginava que escreveria tantos textos para o site, mas as coisas foram fluindo. Cinquenta e um desses artigos estão reunidos no livro.

O principal desafio para desenvolver uma visão crítica acerca da atuação midiática foi, certamente, o fato de eu não ser formado em Jornalismo ou alguma área afim. Busquei contornar essa questão a partir de leituras de teóricos da comunicação como McLuhan, Charaudeau, Thompson e Castells. Entre os anos de 2016 e 2018 – devido aos acirramentos ideológicos envolvendo os períodos pré e pós-impeachment de Dilma Rousseff – os editores do Observatório da Imprensa da época optaram por seguir uma linha analítica de evitar textos considerados “mais polêmicos”. Considerei essa atitude controversa, afinal de contas não há como manter uma postura “menos polêmica” num momento em que a democracia brasileira estava sendo fortemente atacada.

Nesse mesmo período, o site passou por uma situação financeira difícil, ocasionando a diminuição do número de atualizações da página. Felizmente, essas questões foram superadas. No tocante aos desafios de escrita, cada época oferece temáticas diferentes. Nos cinco primeiros anos da década, escrevi bastante sobre a atuação partidária da grande mídia, principalmente os ataques ao PT. Ultimamente, a polarização tem sido presença constante em minhas produções.

Neste ano, evidentemente, a pauta é a pandemia do coronavírus. Vivemos tempos efervescentes. A cada dia temos notícias que mudam complemente os cenários sanitário, político e econômico.

A midiaeducação, que consiste na educação para os meios de comunicação, pode fortalecer a integração do estudante ao meio no qual está inserido propiciando o processo de aprendizagem? De que forma isso acontece na prática?

Preliminarmente, é preciso fazer uma constatação: nós, professores de Geografia, de maneira geral, não somos formados para compreender as relações entre discursos midiáticos e ensino. Isso significa que, durante a graduação, o futuro docente não tem contato com metodologias pedagógicas que apresentem sugestões sobre como trabalhar conteúdos geográficos apoiados em materiais midiáticos. O resultado: docentes despreparados para trabalhar didaticamente com os meios de comunicação.

Um grande grupo de comunicação não faz um documentário sobre um determinado conflito no Oriente Médio, por exemplo, pensando que este será utilizado em aulas de Geografia, mas com o intuito de alcançar um público mais amplo. Somente a partir da devida mediação do professor as produções midiáticas podem se constituir em suportes didáticos para o processo de ensino-aprendizagem em Geografia. Considero que a midiaeducação, atrelada aos conhecimentos pedagógicos, é um auspicioso instrumento para suprir essa lacuna representada pela ausência de reflexões entre os professores sobre o funcionamento do maquinário midiático.

Desse modo, a escola poderá promover a chamada “alfabetização midiática”, ou seja, ensinar a ler a mensagem midiática e compreender sua linguagem. Com um espaço de contraponto crítico ao discurso midiático, estudantes e professores poderão compreender satisfatoriamente a mídia, o processo de seleção de pautas e o contexto de construção da notícia. Em outros termos, dominar os mecanismos que regem a linguagem dos meios de comunicação de massa significa não incorrer no risco de ser por eles dominados. No entanto, infelizmente, ao longo de minha carreira profissional, tenho percebido que os diálogos entre midiaeducação e disciplinas propedêuticas ainda são bastante incipientes.

Diante da disseminação das fake news, a midiaeducação ganha uma relevância ainda maior para o ambiente educacional. Neste cenário, como a visão crítica sobre a mídia e suas relações de poder pode contribuir para evitar a desinformação e a propagação de notícias falsas?

Como sabemos, a mídia não é neutra. Os principais grupos de comunicação atendem a poderosos interesses econômicos e ideológicos. No sistema capitalista, notícias são mercadorias como quaisquer outros bens de consumo. Ter essas questões em mente é fundamental para passarmos de uma “consciência ingênua” para uma “consciência crítica” que permite reconhecer, além das intenções explícitas, as possíveis intenções implícitas que são vinculadas nos diferentes tipos de veículos midiáticos, inclusive nessa (aparentemente) “terra de ninguém” que é a internet.

Nesse sentido, professores e alunos são convocados à reflexão sobre os riscos e possibilidades do espaço virtual sob o ponto de vista pedagógico. Quando eu me formei em Geografia, há quase quinze anos, não imaginava que, em plena segunda década do século 21, professores de Geografia teriam que perder tempo explicando questões óbvias como o formato da Terra ser geoide e que os movimentos de rotação e translação existem. Além do terraplanismo, amplamente difundido nas redes sociais, temos vários youtubers com opiniões rasas e inverídicas sobre a geopolítica global.

Considero ser fundamental que o professor leve essas discussões para a sala de aula e esteja atento aos conteúdos que viralizam na internet, pois o ensino de Geografia tem muito a contribuir na formação do pensamento crítico, na desconstrução de fake news e na contextualização das informações disponíveis no espaço virtual, dando a elas sentido histórico e espacial.

Nos últimos dias, vejo que muitos indivíduos têm defendido propostas para criminalizar quem divulgar fake news. Trata-se de uma questão complexa que pode representar um primeiro passo para introduzir a prática da censura na internet.

Educar as pessoas para a mídia, isto é, ensinar o domínio da linguagem midiática, a meu ver, é o caminho mais indicado para lidar com a desinformação em larga escala. Receptores críticos que checam informações, comparam diferentes tipos de fontes e não têm receio de rever posicionamentos, dificilmente serão alvos vulneráveis às fake news.

Em um cenário pós-moderno, no qual crianças e jovens estão cada vez mais conectados a novas tecnologias, de que maneira o ensino da mídia como ferramenta pedagógica pode contribuir para o desenvolvimento das habilidades cognitivas e socioemocionais, alinhadas com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC)?

Historicamente, a escola apresenta consideráveis dificuldades em dialogar com o meio circundante. Parece ser uma instituição descolada da realidade. Não por acaso, muitos alunos consideram que estudar é algo chato e enfadonho. Um conhecido truísmo pedagógico aponta que as escolas “estão” no século XIX, os professores no século XX e os alunos no século XXI.

Apesar do constante contato de crianças e jovens com o espaço virtual, ainda persiste um vazio significativo entre o potencial das novas tecnologias e a prática escolar. Como apontou o professor Pedro Demo em um de seus artigos, a maioria dos estudantes brasileiros tem contato com computadores, celulares e tablets, porém não consegue usá-los de modo inteligente, crítico e criativo; enquanto, por outro lado, muitos professores continuam desconectados e, não raro, mostram-se resistentes em incorporar as novas tecnologias em sua prática didática.

Nesse sentido, a proibição de dispositivos como smartphones e tablets no ambiente escolar favorece que os alunos concebam as novas tecnologias da informação e comunicação apenas como fonte de entretenimento, e não percebam os aparatos digitais como potenciais ferramentas para o processo de construção do conhecimento.

A partir do conceito de neuroplasticidade, pesquisadores como a estadunidense Maryanne Wolf apontam que hábitos dos estudantes contemporâneos são responsáveis pelo desenvolvimento de novas caraterísticas cognitivas. A prática de ler cada vez mais em tela, em vez de papel, faz com que nossos estudantes desenvolvam leituras dispersas e superficiais (devido ao grande número de fatores distracionais oferecidos pelos dispositivos digitais), o que, consequentemente, pode estar dilapidando determinadas capacidades de entender argumentos complexos e realizar análises críticas sobre os conteúdos lidos.

Por outro lado, conforme mencionei anteriormente, as novas tecnologias oferecem consideráveis possiblidades como ferramentas pedagógicas. Com a devida intermediação docente, programas como Google Earth possibilitam que os alunos “viajem” para qualquer lugar do planeta. Também as criações de grupos no Facebook ou no WhatsApp permitem que os conteúdos estudados extrapolem os limites da sala de aula.

Ao contrário de outras épocas, em que os professores orientavam seus alunos sobre “onde encontrar” informações; atualmente os docentes devem orientar os estudantes em relação a “como gerenciar” o grande número de informações presentes nos meios de comunicação, principalmente na internet. Lembrando que, até a informação ser de fato transformada em conhecimento, há um longo caminho hermenêutico a percorrer.

Entretanto, é importante frisar que a incorporação de tecnologias na educação deve levar em consideração, sobretudo, o fator humano. É imprescindível que docentes e discentes reflitam sobre os impactos das novas tecnologias não só na educação, mas na sociedade de maneira geral. O uso de diferentes tipos de aparelhos eletrônicos é inócuo caso o docente não possua a formação, preparação e conhecimento adequado para trabalhá-los em sala de aula. Não adianta introduzir novas tecnologias nas instituições escolares se as práticas pedagógicas continuarem obsoletas.

Francisco Fernandes Ladeira é mestre em Geografia pela UFSJ e coordena a área de Geografia da Vicenza Edições Acadêmicas. Autor do livro “10 anos de Observatório da Imprensa: a segunda década do século XXI sob o ponto de vista de um crítico midiático, lançado pela editora CRV”.

O holocausto enrustido ou Em busca do genocida interior

Mariana Amado Costa.

A culpa é paralisante, nos deixa amarrados, pelo pé, ao pé da cama. A responsabilidade, por outro lado, é fundamental para que se possa seguir adiante, evoluir como sociedade. No ponto de inflexão da história em que estamos, tanto pela pandemia quanto pelo extremismo político que tem levado o Brasil e alguns outros países ao limite de suas instituições, as questões e discussões colocam ambas, culpa e responsabilidade, vibrando no ar.

Sem titubear, escolhemos no dicionário as palavras mais pesadas para descrever o horror dessa política para a qual a economia importa mais do que a vida, e algumas vidas importam mais do que outras. Fascista, monstro, genocida… o que pode ser pior do que genocida? Gosto de ‘facínora’, por causa do filme do John Ford (com James Stewart, Lee Marvin e John Wayne!) The man who shot Liberty Valance, traduzido por aqui como O homem que matou o facínora. ‘Sifilítico’ também é legal, na infância tinha certeza de que era uma corruptela para ‘filho da puta’, meio como os italianos dizem ‘orco zio’, para não dizer ‘porco Dio’, que seria blasfêmia (ou seja, Deus, para eles, não se ofende com o pensamento, apenas com a enunciação).

Mais do que a qualificação ou culpabilização, no entanto, acho importante o exercício de identificação com quem sustenta essa política mórbida. Entenda-se, em momento algum acho que os crimes não devam ter julgamento e punição, devem sim, e severos, ainda mais o assassinato, a tortura e os crimes de ódio, que são hediondos e, a meu ver, não devem ser — não deveriam ter sido! — anistiados.

Porém, para que a revolta não seja apenas catártica, para que possa ser verdadeiramente transformadora, é importante reconhecer nosso papel na manutenção ou superação desse sistema baseado numa política econômica que tem a desigualdade como principal engrenagem de seu mecanismo.

Isso requer análises aprofundadas, individuais e coletivas, que compreendam o mal que há em nós, na nossa cultura, nos nossos valores. Não porque sejamos maus (ou ‘do mal’, expressão execrável, talhada para a exclusão), mas porque os preconceitos, a dominação, a exploração se sustentam por existirem dentro de nós, mesmo quando os refutamos racionalmente.

Um sentimento de culpa atávico tem me acompanhado ao longo da vida, mesmo tendo melhorado muito com o passar dos anos. Quando menina, acreditava ser culpada pela infelicidade daqueles que amava. Hoje, a coisa mudou para um nível bem mais leve. Ainda assim, uma pergunta do tipo “sabe o que aconteceu com aquele documento que deixei aqui?” acende a sensação de que posso ter perdido, jogado fora ou feito qualquer outra bobagem, mesmo que nenhum fato ou memória indique isso, pois devo ser eu a culpada.

A responsabilidade não fica para trás, e foi, tantas vezes, deturpada e extrapolada. Tinha necessidade de sempre saber as regras dos grupos sociais, dos lugares, das situações, para não fazer nada de errado. Não sei se era medo das consequências, da culpa (que, em si, era uma punição), ou de ter que enfrentar um auto-julgamento nada complacente. Mas lembro do pânico de fazer mal a alguém, e o muito que fiz, ainda que por pensamento.

Certa vez, estava no fundo de um ônibus cheio, voltando da faculdade, no Rio, quando senti um cheiro horrível. As pessoas em volta começaram a andar para a parte da frente, empurrando-se e comprimindo-se, e na parte de trás abriu-se um espaço, que logo foi ocupado por um maltrapilho, o responsável por aquela debandada, que ficou bem perto de mim.

Era a mistura da sujeira acumulada havia tempos com a sujeira recente, fedor muito intenso, como nunca senti, nem antes nem depois, vindo de alguém. O impulso de fazer como os outros era forte, mas resolvi continuar do seu lado. Pareceu-me um gesto necessário de solidariedade por tanta exclusão. Mesmo que não fosse percebido pelo homem, eu saberia que fiquei ao lado dele. Acho que ali encontrei um significado mais são do que é responsabilidade.

O filme O grande ditador, que tem Adolph Hitler como personagem-título, está completando oitenta anos e mantém-se inspirador. Tornando sósias o genocida amnésico e o barbeiro judeu, Carlitos reúne no mesmo corpo o espírito mais desumano e aquele mais amoroso e apaixonado.

Seu autor, Charles Chaplin, é um dos artistas que mais admiro, desde pequena. Além do conjunto completo de aptidões, que cobrem todos os métiers do cinema, da obra imensamente importante, do enredo, da estética, da música, da atuação, do humor maravilhosos, há algo muito profundo na opção por sua visão (e apresentação) de mundo. Nela, o que mais importa, senhor a que servem todos os recursos que compõem seus filmes, são os sentimentos. E sentimentos sempre superlativos, complexos, compassivos, apaixonados, desesperados, vitais.

Nem o Carlitos, com sua criatividade ilimitada, imaginou que o ditador pudesse achar que a Terra é plana.

Esta visão de mundo — os sentimentos como a verdadeira essência do homem —, mesmo parecendo impossível, anacrônica, não menos permanece como norte a seguir, mais do que uma utopia, como a única alternativa, a única beleza que se possa desejar para a humanidade. É o humanismo em estado puro — aí está —, e tão puro que comove, dói, na sua aparente impossibilidade.

Desmonta-se a figura do Führer, ao mesmo tempo tão poderoso e tão patético, cuja megalomania, que pretende tomar para si a autoridade sobre os valores do mundo, esconde no fundo um enorme complexo de inferioridade.

Encontrar o genocida interior — o mal e a raiva que habitam em nós —, de forma a superá-lo, por incapacitante, estéril, segregacionista e castrador, e transformá-lo em amor e compaixão — a arte mostra que é possível! — é como podemos passar da culpa à responsabilidade e conduzir a civilização por um rumo sonhado, pensado e construído coletivamente. Pedir que o outro, em quem se projeta nossa raiva, se ajoelhe conosco por alguns minutos em respeito à vida me parece, como gesto inaugural de um longo caminho, um símbolo auspicioso.

SÃO JOÃO RAIZ

Quarentena News/Renato Cabral Ramos – 25/06/2020

No final de junho de 1988, eu e meu colega Walter Sérgio de Faria, o Waltão, percorríamos a região da Serra da Moeda, ao sul de Belo Horizonte, avaliando áreas para a exploração de rochas ornamentais. Havia me graduado em Geologia na Uerj há pouco mais de três meses e adquiria experiência profissional da melhor forma possível: no campo.

Pernoitamos dois dias na pequena cidade de Moeda, antigo arraial de mineração de ouro do século XVIII onde, nas redondezas, existiu até 1731 uma fundição clandestina para a fabricação de moedas de ouro, chamada de Casa de Moeda Falsa do Paraopeba. Daí o nome Serra da Moeda…

Almoçávamos na casa de uma senhora, perto da antiga estação ferroviária de Moeda, construída em 1919, e que atualmente abriga a biblioteca pública municipal. Comida caseira, feita no fogão à lenha na banha de porco, “fitless”, deliciosa. A proprietária era uma mulher idosa, bem para lá dos 80 anos, preta e com um sotaque diferente. No primeiro almoço, estranhei que o feijão servido era preto, visto que nas Minas Gerais o normal é o feijão marrom. Perguntei-a de onde vinha e ela me disse, com um jeito mineiro de muitas décadas, que era carioca-da-gema e havia se instalado por lá nos anos 1920, recém-casada com o chefe da estação de trem.

Minha conterrânea havia mantido por 70 anos seu gosto pelo pretinho, naquele mundo de feijão marrom! Chegávamos para almoçar pouco antes do meio-dia e, mecanicamente, ela colocava sobre a mesa uma garrafa de pinga local, branquinha e sem rótulo, para abrir o apetite. Em um dos almoços, como a comida demorou, eu e Waltão enxugamos uma garrafa. Com o apetite (e a consciência) mais do que aberto, devoramos nossa lauta refeição e, pela tarde, percorremos de carro, completamente bêbados, as quebradas rurais moedenses. Deve ter sido divertido; não me lembro de muita coisa…

No dia seguinte, 24 de junho de 1988, passando por um dos pequenos povoados daquele município, paramos para beber algo (não alcoólico!) e vimos que se preparava no largo gramado, em frente à antiga capela colonial, um arraial de São João. Curiosos, nos entrosamos com as pessoas que arrumavam as barraquinhas e, sob o interesse geral naqueles jovens “doutores” forasteiros, fomos convidados para participar da festa mais a noite.

Seguimos o trabalho pela tarde, percorrendo as estradas de terra atrás dos locais de rochas ornamentais que nos haviam sido indicados, mas só pensávamos no arraial. Com a tarde caindo, fomos para Moeda tomar um banho e colocar a melhor roupa possível naquelas circunstâncias de trabalho de campo, e partimos para o arraial, que já concentrava gente naquele início de noite. Tudo coloridamente embandeirado; estandarte de São João no pau pintado; capela aberta e enfeitada; luz feérica sobre e dentro das barraquinhas de quitutes e bebidas; música junina na caixa de som ligada à vitrola e, mais tarde, ao vivo quando começou a quadrilha e o casamento com o padre de verdade; uma linda queima de fogos noite adentro. Àquela altura, fazia muito frio naquelas altitudes e o quentão descia macio, aquecendo da cabeça aos pés. Tarde da noite, éramos quase parentes daquela gente boa, já tendo mais que vencido qualquer desconfiança mineira. Retornamos de madrugada para a sede municipal, um frio de rachar, novamente bêbados e muito felizes.

Nunca mais tive uma noite de São João nesse nível. Comparáveis apenas às festas juninas de infância, nos anos 1970, em Nogueira, e às quermesses da adolescência em Pedro do Rio, nos anos 1980. Minha mãe, Margarida, ainda manteve por muitos anos a tradição junina em grandes festas na nossa casa semi-rural, também em Petrópolis. Mas o arraial em Moeda nunca me saiu da cabeça.

A tradição junina, parte imprescindível da identidade cultural brasileira, vem agonizando no Sudeste do país, especialmente no Estado do Rio de Janeiro, em parte fruto do crescimento avassalador do neopentecostalismo evangélico entre a população, que passa a rejeitar formas de expressão não-alinhadas às suas crenças e aquilo que, segundo seus pastores, “não é de Deus”. Da mesma forma que se dá com os festejos de “Cosme e Damião”, a Folia de Reis e outras festividades tradicionais, os arraiais juninos vêm minguando no rastro da devastação de toda uma cultura popular, cujos sintomas se expressaram, por exemplo, na retumbante votação obtida por Bolsonaro em grande parte do país, à exceção do Nordeste, onde persiste e resiste uma população com forte identidade cultural, ciosa de sua música, de suas festas, de sua cultura.

A partir do golpe de 1964, a ditadura empresarial-militar conseguiu amortecer por largos anos o Carnaval de Rua em nossa cidade, preocupada com as aglomerações incontroláveis e a liberdade que emana das ruas. Essa manifestação cultural, no entanto, reapareceu com toda a força a partir do final dos anos 1980 e se espalhou como rastilho de pólvora. As festas juninas no Rio de Janeiro, desde os anos 1930, sempre estiveram associadas ao espírito carnavalesco, fenômeno expresso pelas imortais marchinhas juninas de Lamartine Babo e Assis Valente, cantadas por Carmen Miranda e Mário Reis, tais como “Acorda São João”, “Isto é lá com Santo Antônio” e “Chegou a hora da fogueira”.

Quem sabe dessa fonte não vem a reação e o resgate do nosso São João?

Viva São João Xangô Menino! Viva a Cltura Popular!

Renato Rodriguez Cabral Ramos é geólogo, professor do Museu Nacional da UFRJ, presidente da Associação Profissional dos Geólogos do RJ e colaborador do Quarentena News (http://facebook.com/quarentenanews1).

Conte uma história!

Dicas de livros – por Leo Cunha

Ler é um hábito fundamental que, quando incorporado, passa a fazer parte da rotina e torna-se realidade em nosso cotidiano. Por isso, neste período em que as aulas presenciais estão suspensas devido às medidas de isolamento social causadas pela pandemia do novo coronavírus, pais e familiares podem incentivar crianças e jovens a lerem, buscando livros em casa ou sugerindo títulos, propiciando assim a introdução da leitura no dia a dia.

Entre as sugestões, Leila, de Tino Freitas e Thais Beltrame, publicado pela Editora Abacatte, 2019 (http://www.abacatteeditorial.com.br/leitor-em-processo/leila) , é indicado para crianças com faixa etária a partir de 8 anos. Ambientado no fundo do mar, o livro conta a história da jovem baleia Leila, que é assediada pelo Barão, um polvo sedutor e inconveniente. Na obra, é possível entender como é preciso que cada um encontre a sua voz e se posicione.

Na sequência, Um caramelo amarelo camarada, de Dilan Camargo e Miguel Tanco, lançado pela Ed. Edelbra, em 2013 (https://loja.edelbra.com.br/um-caramelo-amarelo-camarada), é mais uma sugestão de leitura para crianças a partir dos 7 anos. Um dos grandes poetas para a infância, o gaúcho Dilan traz versos divertidos, cheios de surpresas e jogos de palavra, sobre bichos e temas do cotidiano infantil.

Para sabermos mais sobre literatura livro infantojuvenil, a revistapontocom entrevistou o escritor Leo Cunha. Leia, a seguir:


Leo Cunha fala sobre o mercado literário e próximas publicações. Foto: Fernando Rabelo

O que motivou você a se tornar um escritor no Brasil?
Minha mãe era professora universitária, na área de literatura, na UFMG. No final dos anos 70, ela abriu uma livraria, que, em seguida, tornou-se também uma editora de livros infantis. Ali, convivi com muitos escritores, ilustradores, editores e, claro, leitores. Continuei fascinado pela literatura para crianças e jovens, que é um universo riquíssimo, repleto de boas narrativas, grandes personagens, e muita poesia.

Seus livros são voltados para qual faixa etária?
Eu já publiquei mais de 60 livros, para todas as faixas etárias. Desde os pequeninos, com pouco texto e muita ilustração, até obras voltadas para adolescentes e alguma coisa para adultos. Parto do princípio, porém, de que a boa literatura para jovens também pode encantar os adultos.

No contexto do mercado literário nacional, quais os principais desafios de um escritor, atualmente, para publicar suas obras no país?
A situação para autores iniciantes é mais difícil, atualmente, pois o mercado está passando por um momento complicado e as editoras se arriscam menos com autores estreantes e desconhecidos. Claro que, se surge um grande talento e um texto bastante original, ele encontra seu espaço. É o que ocorreu, recentemente, com a Júlia Medeiros, e seu livro “A avó amarela”, que recebeu todos os prêmios possíveis na literatura infantil brasileira.

Sugiro que os estreantes pesquisem bastante, conheçam as editoras e seus catálogos, e veja quais delas publicam livros com estilo ou proposta semelhante ao que ele deseja publicar.

Na sua opinião, o que pais e familiares podem fazer para incentivar o interesse de crianças e jovens pela leitura?
Há muito o que fazer. Ter livros em casa, se for possível. Se não for possível, frequentar bibliotecas, livrarias, feiras literárias. Dar o exemplo da leitura, para os filhos (ou as crianças próximas). Ler para a criança e/ou com a criança. Conversar sobre histórias, personagens, poemas etc.

Em 2013, você e o ilustrador Salmo Dansa receberam o Prêmio Literário Biblioteca Nacional com o livro “Haicais para filhos e pais”. Como foi para você escrever esse livro e obter esse reconhecimento?
Eu já tive a felicidade de receber os principais prêmios da literatura Infantil e juvenil, e cada um deles foi uma grande satisfação e um estímulo. No caso do livro “Haicais para filhos e pais”, a alegria foi especial por se tratar de um livro bem distante dos padrões da Literatura Infantil, tanto em termos do texto quanto do projeto gráfico. Tenho muito orgulho deste livro e torço para que ele se torne mais conhecido pelos leitores.

Sei, porém, que receber um prêmio literário depende de muitos fatores, inclusive a sorte e a oportunidade. Já fui jurado de diversos concursos e sei muito bem que, na reta final, existem sempre 4, 5, ou até mais obras merecedoras do prêmio, e a decisão vai passar por detalhes e por uma tentativa de consenso entre os membros do júri.

Quais os próximos projetos?
Tenho alguns livros no prelo, para serem lançados este ano ou em 2021. Entre eles: Infinitos (infantil, com o ilustrador Alexandre Rampazo); Virando a página (infanto-juvenil, escrito em dupla com Tino Freitas, e ilustrado pelo Caco Galhardo e Leonardo Yorka); O corte e a chama (com imagens do artista Paulo Rea); Tromba D’água (infantil, com o ilustrador Flavio Fargas); A grande convenção dos sapos (infantil, com o ilustrador Ivan Zigg); O Rei Sadim (em parceria com João Bosco Bonfim e o ilustrador Laerte Silvino); O tamanho da encrenca (juvenil, em parceria com Luiz Antonio Aguiar); O jogo do Como Pode? (livro de poesia, escrito em trio, com Luiz Raul Machado e Marta Lagarta). E estou trabalhando em novos textos, enquanto isso, para publicar, quem sabe, nos próximos anos.

Leo Cunha é escritor, tradutor e professor universitário. Tem vários prêmios em mais de 60 obras publicadas, como “Um dia, um rio” (Ed. Pulo do Gato), “O sabiá e a girafa” (Ed. FTD) e “Piolho na Rapunzel” (Ed. Projeto).

Serviço:

Editora FTD: ftd.com.br

Editora Positivo: loja.editorapositivo.com.br

Editora Pulo do Gato: editorapulodogato.lojaintegrada.com.br