Escola municipal carioca integra educação ambiental ao currículo e à BNCC

Flavia Perez.
Foto Capa: Google Maps

Situada no bairro de Pedra de Guaratiba, na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, a Escola Municipal Doutor Sócrates passou a integrar neste ano projetos que se conectam por meio da interdisciplinaridade, metodologia que utiliza a interação entre diferentes áreas como pilar para construção do conhecimento.  

Recentemente implantado na escola, o projeto Esse Rio é Meu, resultado de uma parceria entre a equipe da OSCIP Planetapontocom com a Secretaria Municipal de Educação (SME), tem como objetivo despertar a curiosidade dos estudantes pelos rios que atravessam as regiões produzindo, a partir daí, uma transformação cultural nos indivíduos e nas comunidades. Na prática, a iniciativa integra educação ambiental ao currículo e à BNCC (Base Nacional Comum Curricular).

Segundo Michelli Fujimoto, professora de história e geografia, a adesão da escola ao projeto Esse Rio é Meu representa um cenário muito positivo em relação ao processo de aprendizagem através da interdisciplinaridade.

“O apoio das diversas ciências, baseadas na BNCC, gera uma maior compreensão da temática estudada, uma vez que um mesmo assunto é abordado por amplas perspectivas. Ter uma visão ampla do assunto torna o processo de aprendizagem mais desafiador, capaz de deixar os alunos mais críticos e reflexivos. A construção desse sistema integrado e colaborativo entre as disciplinares  escolares vai além das suas fronteiras”, aponta.

Professores, coordenadores pedagógicos e diretores de, inicialmente, 23 escolas da rede municipal do Rio de Janeiro começaram a receber, em maio, formação on-line para implantação da etapa inicial do projeto, entre eles a Escola Municipal Doutor Sócrates.

A partir daí, professores e gestores da escola deram início à etapa de diagnóstico do projeto envolvendo os alunos com conteúdo e atividades sobre o rio mais próximo à escola: o Piraquê, que nasce na Serra do Lameirão, no Parque Estadual da Pedra Branca (PEPB) e percorre cerca de 23 km até desaguar na Baía de Sepetiba. Ao atravessar o território de Guaratiba é chamado de Rio Piraquê, nome cuja origem vem do dialeto Tupinambá e significa “onde entra o peixe”.

Para Luís Gustavo Rangel, diretor da Escola Municipal Doutor Sócrates, “a escola que não levar a discussão sobre meios de sustentabilidade, preservação do meio ambiente e, junto com isso, inserir esses temas no seu projeto político-pedagógico (PPP) estará perdendo a oportunidade de formar cidadãos mais conscientes do seu papel na sociedade”, destaca.

O conhecimento proposto vai além de ensinar onde o rio nasce, seu caminho e em que lugar deságua, uma vez que a história de cada rio está diretamente relacionada à construção e ao crescimento de cada região por onde percorre. O programa buscará dentro de sua metodologia motivar os estudantes para o aprendizado, estimulando o sentimento de pertencimento e a importância do trabalho em equipe.

“O projeto Esse Rio é Meu é a versão carioca do nosso programa Cidades, Salvem seus Rios, concebido a partir da metodologia inovadora Educação com e através de Causas, que ultrapassa o conceito de educação ambiental, uma vez que incorpora a causa de recuperação e preservação dos rios ao currículo e à Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O trabalho é feito de forma trans e interdisciplinar nas escolas municipais”, revela Silvana Gontijo, idealizadora do programa e presidente do Planetapontocom, organização que tem como missão desenvolver soluções inovadoras para a educação pública brasileira. 

O programa Cidades, Salvem seus Rios foi sistematizado a partir da experiência da organização Planetapontocom com o movimento Carioca, o rio do Rio (http://revistapontocom.org.br/destaques/recuperacao-do-rio-carioca-inspira-criacao-do-programa-cidades-salvem-seus-rios), que possibilitou a restauração da parte visível do Rio Carioca e, consequentemente, em 2019, o seu tombamento pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), o primeiro curso d’água urbano tombado no Brasil.

Interdisciplinaridade
A aplicação do projeto Esse Rio é Meu na Escola Municipal Doutor Sócrates vem sendo implementada em sintonia com o Semeando, projeto focado no plantio de árvores, cultivo de horta e na gestão de resíduos em sintonia com as ações da Reserva Biológica de Guaratiba. Uma das missões da reserva é propagar o conhecimento e difundir questões ligadas à educação ambiental.

De acordo com a professora de geografia Norma Sueli Santana, a interdisciplinaridade na educação pode ser a chave importante para mudar a atual realidade do processo ensino-aprendizagem, considerando que esse tipo de abordagem permite que conteúdos ganhem mais sentido quando o aluno percebe o quanto os aprendizados estão conectados e fazem parte de um todo e de sua realidade.

“A interdisciplinaridade pode ser entendida como ‘uma integração recíproca das várias disciplinas escolares’. É a construção do saber a partir da junção de várias áreas do conhecimento, a fim de proporcionar uma associação entre as várias áreas dentro de um mesmo conteúdo ou assunto”, explica, acrescentando que o projeto Esse Rio é Meu faz esta conexão através dos conteúdos curriculares e da preservação do meio ambiente, tornando as ações a serem desenvolvidas mais contextualizadas e possíveis de serem realizadas.

A partir de uma situação-problema ou de um tema a ser trabalhado, o estudante é estimulado a explorar diversas formas de solução, através das diferentes disciplinas escolares.

Formação on-line durante a pandemia
O ciclo de formação dos professores teve como ponto de partida um encontro realizado na sede da Prefeitura do Rio, em dezembro de 2019, que oficializou o lançamento do projeto. Após a suspensão das aulas presenciais em escolas públicas e privadas de todo o Brasil, em março deste ano, devido à pandemia de Covid-19, as reuniões vêm sendo realizadas em formato de webinar.

Os objetivosdosencontros virtuais, que reúnem mais de 200 professores e gestores da rede do município do Rio, são  apresentar a estrutura metodológica do programa, elaborar  diagnóstico de contexto, planejar as ações que cada escola desenvolverá de acordo com cada turma a partir dos problemas identificados no diagnóstico do seu rio, implementar as ações escolhidas e registrar para disseminar. O Programa abrange os segmentos de Educação Infantil, Ensino Fundamental 1 e Ensino Fundamental 2.

Durante a formação, os docentes recebem informações acerca do conceito e da estrutura metodológica do programa e são preparados para aplicá-lo em sala de aula com os alunos. Em cada etapa do treinamento, professores e gestores estão sendo estimulados a usar o rio mais próximo da escola como fator de articulação entre os conteúdos curriculares e a BNCC.

Lei municipal regulamenta projeto Esse Rio é Meu
Instituída em 22/04/2019, a Lei nº 6.535 regulamentou a criação do Projeto Esse Rio é Meu no âmbito das escolas da Rede Municipal de Ensino do Rio de Janeiro. O decreto prevê a conscientização acerca do uso sustentável e da preservação dos corpos hídricos da Cidade.

Para que o projeto ganhe escala e seja implementado em toda as escolas municipais do Rio, a lei prevê que a Secretaria Municipal de Educação poderá realizar parcerias com outros órgãos da Administração Pública Municipal, Estadual e Federal e instituições da sociedade civil para o cumprimento das diretrizes contidas no projeto.

Conheça mais sobre o projeto carioca acessando a plataforma Esse Rio É Meu http://multirio.rio.rj.gov.br/esserioemeu/

Escolas participantes no Rio de Janeiro:

1 E. M. Alberto José Sampaio

2 E. M. Anita Malfatti

3 E. M. Astrojildo Pereira

4 E. M. Camilo Castelo Branco

5 E. M. Claudio Besserman Vianna

6 E. M. Cuba

7 E. M. Medalhista Olímpica Mayra Aguiar da Silva

8 Escola Municipal Ceará

9 E. M. Doutor Sócrates

10 E. M. Érico Veríssimo

11 E. M. Guararapes Cândido

12 E. M. José de Alencar

13 E. M. Laudimia Trotta

14 E. M. Pereira Passos

15 CIEP Operário Vicente Mariano

16 E. M. Silvio Romero

17 Escola Municipal Rondon

18 Escola Municipal Paulo Maranhão

19 Escola Municipal Miguel Ramalho Novo

20 Escola Municipal Prof. Afonso Henrique Saldanha

21 Escola Municipal Carlos Maul

22 Escola Municipal Gabriel Soares de Souza

23 Escola Municipal Tasso da Silveira

Livro “O Corte e a Chama” narra queimadas e o desmatamento

Escrito por Leo Cunha com ilustrações de Paulo Rea, livro foi lançado em setembro pela Editora Pulo do Gato

“O Corte e a chama”, de Leo Cunha e Paulo Rea, publicado pela Editora Pulo do Gato, é um livro em que um tema contemporâneo e da maior complexidade é explorado poeticamente com a contundência de uma tocha ardente ou uma lâmina de serra. Não há como sair indiferente após a leitura.

Dois poemas narrativos exploram um mesmo tema por dois pontos de partida que convergem na mesma consequência: a destruição da flora, fauna e dos povos da floresta por meio das queimadas e do desmatamento.

“A floresta em cinza

Conta cinzas e cicatrizes.

Ninguém ouve?”

O texto verbal é estruturado em duas narrativas poéticas simetricamente, espelhadas em ritmo seco, vocabulário justo, sem floreado, jogos de linguagem que não fazem rir, mas geram agonia, desalento.

Duas capas, dois títulos, dois autores. Cada poema narrativo começa de um lado do livro e segue até o meio, onde a poesia deixa a palavra e se transforma em imagem: a terra abatida e devastada fala por si. Não há final feliz ou esperança. O leitor vira então o livro de cabeça para baixo e inicia a outra narrativa até chegar à mesma imagem central: a terra queimada e sem vida. Não há por onde escapar. Engole-se a seco. O nó da madeira vai para a garganta.

Os poemas de cada página podem ser lidos em sequência, como estão apresentados, mas um leitor ousado talvez queira organizá-los em outra ordem, pois cada um possui sua unidade de sentido. Experimente. Leo Cunha segue por um caminho, mas permite que o leitor ande pelo que desejar, desde que deixe a passividade do passeio e chegue à indignação. 

É comum que os leitores procurem atribuir relações literais entre imagem e texto. Há uma expectativa quase instintiva de ver representado o que se lê. Neste livro, porém, as imagens são livres como os próprios animais que procuram desesperadamente um caminho para a fuga.

Paulo Rea, usando a técnica da marchetaria, faz com que o leitor quase sinta o peso da madeira, o cheiro, a textura, o gosto. As ilustrações não foram criadas com a intenção de ilustrar o fogo ou o desmate das matas referencialmente, mas sim com o propósito de evocar, de sugerir uma espécie de retrato sinestésico das emoções da floresta, e de seu seres.  A ideia é que a ilustração caminhe apenas junto ao texto, num diálogo, como uma coreografia em que a música orienta o ritmo dos dançarinos, mas não controla seus movimentos.

Se o fogo e o desmate condenam à morte, o livro usa da própria madeira para propor a urgência da reflexão e da ação. No caso deste livro, o questionamento se inicia a partir do momento em que o leitor é introduzido à leitura das madeiras, seus tons, seus veios, seus nós e formatos e começa a relacionar as imagens ao texto verbal. É preciso contar com a coautoria do leitor nas interpretações das imagens. Só assim o texto ganha voz e sentido.

Se para um leitor a onça pode representar o fogo predador, o homem que destrói sem piedade, para outro ela é a vítima que padecerá como a quem caça.  Se para este leitor os macacos são vítimas indefesas de qualquer predador que os ameace, para aquele são a representação da floresta em pânico, ou dos próprios homens encurralados e sem futuro.

Em “O corte e a chama”, ou, “A chama e o Corte”, o desfecho é o mesmo, todos perdem.  Um livro é o que um poeta, um artista da marchetaria e uma editora podem fazer para chamar a atenção para a estúpida ação contra a natureza e a própria humanidade.

Livro “O corte e a chama”
Autores: Leo Cunha e Paulo Rea
Editora Pulo do Gato
40 páginas
ISBN  9786587704005
https://editorapulodogato.lojaintegrada.com.br/pre-venda-o-corte-e-a-chama-  

“Construí o texto na forma de um poema duplo (de um lado “O corte”, do outro, “A chama”). Cada metade do poema apresenta uma força destruidora: o desmatamento e a queimada, que vão avançando e “sufocando” a floresta, até se encontrarem na páginas centrais, onde surge o momento da virada, tanto física (o leitor vira o livro para continuar a leitura) quanto simbólica (a sugestão de que um novo caminho é necessário).”

Leo Cunha.

“Através das minhas ilustrações em marchetaria procuro aproximar o leitor das florestas, destacando a beleza das árvores que existem nelas e mostrando que se usarmos madeiras de forma sustentável estaremos ajudando a preservá-las.

Agora, com o texto do Leo Cunha, estas imagens também servirão para alertar sobre o perigo que as florestas correm, ameaçadas pelo corte e pela chama.”

Paulo Rea.

Como a midiaeducação ganhou espaço nos últimos anos no ambiente acadêmico?

Conheça os principais marcos dessa área do conhecimento

Flavia Perez.

O surgimento do conceito de educação midiática ou midiaeducação é marcado por diversas linhas de abordagem relacionadas ao estudo e à educação para, pelos e com os meios. A primeira concepção, apresentada na França em 1973 pelo Conselho Internacional de Cinema e Televisão (CICT), órgão ligado a UNESCO, abordava o estudo e aprendizagem dos meios de comunicação como disciplina autônoma no âmbito da teoria e prática pedagógica e reconhecia a escola como um lugar específico da mídia-educação.

Alguns anos depois, em 1979, esse mesmo conselho ampliava o campo de intervenção das mídias como processos culturais e sociais e, consequentemente, seu conceito. Essa nova visão permitiu então aos educadores e pesquisadores lançar um olhar sobre a mídia-educação como prática social e cultural, além de disciplina curricular. Outro marco da educação para os meios foi a declaração aprovada durante o Simpósio Internacional sobre Educação para os Media da Unesco, organizado na cidade de Grunwald, na Alemanha, em 1982.

Durante o encontro foram discutidos o papel desempenhado pelos meios de comunicação na sociedade, bem como sua influência especialmente junto a crianças e jovens, o direito de expressão e formas de assegurá-lo. Na época, os pesquisadores partiram do princípio de que toda pessoa humana tem direito à liberdade de expressão e que a garantia desse direito implica liberdade de acesso à informação de todos os tipos. Desde então, a Unesco vem abordando junto às escolas a necessidade de promover a análise crítica dos meios, contemplando nos projetos pedagógicos a educação midiática. O objetivo é propiciar o desenvolvimento de habilidades e competências para que o indivíduo possa analisar e exercer a cidadania.

No Brasil, professores e jornalistas vêm se destacando no estudo dessa área de conhecimento. O modelo das escolas NAVE (Núcleo Avançado em Educação), que nasceu das orientações do professor mineiro Antônio Carlos Gomes da Costa e das metodologias desenvolvidas pela organização social Planetapontocom, fundada pela jornalista e educadora Silvana Gontijo, tornou-se referência na aplicação dessa metodologia, tanto no país quanto no âmbito internacional.

De acordo com Silvana, durante anos a educação esteve dissociada do campo da comunicação, mas, se somos seres de comunicação e linguagem, se educar é comunicar, logo a escola é um ambiente de comunicação.

“Precisamos qualificar essa comunicação para alcançar os diversos objetivos educativos, e os estudantes precisam estar inseridos nesse processo para que possam desenvolver cada vez mais suas competências e habilidades para analisar e criticar as informações que recebem. Ouvir, participar, compartilhar, integrar e produzir conteúdos também são habilidades a serem trabalhadas com os estudantes em cada etapa do aprendizado”, aponta.

Desenvolvido numa parceria público-privada entre as Secretarias de Estado de Educação do Rio de Janeiro e Pernambuco com a Oi Futuro, o programa das escolas NAVE já formou mais de 2,8 mil jovens. Desde 2006, os alunos estudam conteúdos de economia digital e criativa, com foco na produção de games, aplicativos e produtos audiovisuais. Dentro dessas escolas, está sendo desenvolvida uma filosofia de educação interdimensional, que implica no desenvolvimento de ações educativas para além do cognitivo, abrangendo as dimensões relacionadas à corporeidade, à inteligência emocional e à busca de significado e sentido para a existência humana.

Leia também: http://revistapontocom.org.br/nao-categorizada/educacao-midiatica-transforma-estudantes-em-protagonistas-de-suas-realidades

Bibliografia:

  • Idade Mídia (Ed. Aleph) – Alexandre Le Voci Sayad;
  • Por Dentro dos Meios (Ed. Planetapontocom) – Silvana Gontijo, Mariana Pinho, Eduardo Monteiro e Marinete D`Angelo;
  • Crianças, Mídias e Diálogos (Ed. Rovelle) – Guaracira Gouvea;
  • Ensinar e Aprender no Século 21 (Editora Senac) – Marcia Stein;
  • Televisão, Publicidade e Infância (Ed. Annablume) – Inês Vitorino;
  • Praticante Pensante de Cotidianos (Ed. Autêntica) – Nilda Alves;
  • O Jornal na Sala de Aula (Ed. Contexto) – Maria Alice Faria;
  • Liga, Roda, Clica. Estudos em Mídia, Cultura e Infância (Ed. Papírus) – Monica Fantin;
  • A Televisão pelo Olhar das Crianças – Rosália Duarte (Ed. Cortez);
  • Protagonismo Juvenil – Antônio Carlos Gomes da Costa (Ed. FTD).

Funk e Bolero

Por Mariana Amado Costa

Outro dia, numa conversa casual — almoçando com amigas do trabalho, quando isso ainda era possível —, ouvi críticas ao que seria uma hipersexualização da dança, no funk. Fiquei surpresa com o tom de repulsa dos comentários. Será que me iludi, durante toda a vida, e a dança não é sexo? Nem a música, nem a arte? Não digo que sejam exclusivamente sexo, mas o são completamente.

Do mesmo modo que sou uma pessoa, mas também sou um corpo, sou sentimentos e pensamentos, um animal mamífero e onívoro (não podendo descartar peremptoriamente nem mesmo o canibalismo: se um dia me vir nos Andes, sobrevivente de um desastre aéreo, como garantir que não comerei o passageiro ao lado, que morreu congelado?). Desse jeito: não sou apenas um corpo, mas meu corpo não é apenas parte de mim, sou eu inteiramente. O mesmo vale para os sentimentos e pensamentos.

Veio em mente, enquanto ouvia aquelas manifestações de desgosto sobre o funk, a imagem de Jorge Donn dançando o Bolero de Ravel no filme Les uns, les autres, do Claude Lelouche. Uma das cenas mais belas e intensas que tive o prazer de ver. O prazer e a dor, essa dupla inseparável (talvez por isso a forma romântica de se referir ao orgasmo como petite mort).

O Bolero é puro êxtase, crescendo em exaltação, sem nunca chegar a um anti-clímax. Emoção quase insuportável, como quando vejo quaresmeiras em flor numa mata, e vem o ímpeto de me misturar e desfazer naquela cor violeta. Jorge Donn dançando o Bolero é o que há de mais andrógino, mais belo, doce e violento, é tudo e é o contrário também. É tão sexual, despudoradamente sexual, quanto uma bunda empinada rebolando dentro de um micro short.

Uma de minhas irmãs me disse, pouco depois do massacre em Paraisópolis: deveríamos estar lá, protegendo aquelas pessoas com os nossos corpos. Sim, é preciso proteger suas vidas, sua dança, seu prazer e sua dor, com nossos corpos e também com nossos pensamentos e sentimentos, em nosso cotidiano, em nosso trabalho, no que dizemos às outras pessoas, como faço agora. Queria que minha irmã contasse essa estória com suas gravuras.

O que tomam por vulgar e grosseiro, vejo como provocativo, irônico e sensual, fruto de uma necessidade imperativa. Como não estamos lá (nem mesmo nós, que nos importamos), sabem que lhes resta pouco tempo. O gozo e a morte, tão urgentes, tão presentes.

Máquinas inteligentes despontam como tecnologia do futuro

Avanços tecnológicos permitiram automação inédita até agora

Agência Brasil – 01/09/2020/Jonas Valente/Edição: Liliane Farias

Foto Capa: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Ao ter uma resposta em um mecanismo de busca, receber uma notícia em uma rede social, encontrar recomendações de vídeos em plataformas audiovisuais, interagir com sistemas de atendimento ao cliente ou até mesmo ter um pedido de empréstimo avaliado, em muitos casos nos deparamos com sistemas inteligentes. Este adjetivo está associado a uma tecnologia já estudada há décadas, mas que vem ganhando visibilidade e importância nos últimos anos: a inteligência artificial (IA).

Segundo especialistas ouvidos pela Agência Brasil, a IA estaria relacionada a dotar máquinas ou sistemas informatizados da capacidade de realizar atividades semelhantes às operadas por humanos. De acordo com o Plano Coordenado sobre IA da União Europeia, o conceito “se refere a sistemas que operam comportamento inteligente ao analisar o ambiente e tomando ação, com algum grau de autonomia, para atingir objetivos específicos”.

“O conceito está mudando, mas gosto de defini-lo como o estudo de como fazer computadores realizarem tarefas que atualmente os humanos fazem melhor. Ela resolve problemas delimitados”, caracteriza a professora titular do Departamento de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e consultora do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações (MCTI) para o tema, Rosa Vicari.

“A inteligência artificial é um processo de automatizar processos feitos por humanos, que passa por fazer um código para replicar o que alguém está fazendo sem modelo matemático ou usando modelo. Eu leio texto jurídico e está escrito horas-extras e tenho que marcar na planilha que isso foi pedido, uso IA e automatizo processo que era feito por alguém”, exemplifica o cientista de dados da empresa Semantix Alexandre Lopes.

Mais do que automatização, a condição de avaliar grandes montantes de informações de forma complexa permite também a otimização de processos e tarefas, a previsão de comportamentos e a tomada de decisão. “A IA consegue tanto transformar dados quantitativos quanto imagens em informações para tomar decisões autônomas”, observa o especialista em política e indústria da Confederação Nacional da Indústria (CNI) Vinícius Fornari.

Mas a explicação do termo não é pacífica, uma vez que o próprio conceito de inteligência também é passível de abordagens diferentes. “Definir o que é comportamento inteligente é um problema, é um conceito que muda com o tempo. Algo que parece inteligente pode não parecer a partir do momento que um programa de computador faz aquilo. É um conceito intrinsecamente vago”, comenta o coordenador do Centro de Pesquisa em Inteligência Artificial da Universidade de São Paulo (USP) e professor titular da Escola Politécnica da instituição, Fábio Cozman.

A professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Jonice Oliveira ressalta que a despeito da capacidade de operação de tarefas complexas, os sistemas de inteligência artificial dependem de decisões humanas. Eles analisam dados históricos valorados pelos seus desenvolvedores. “Se eu crio um sistema que categoriza preços de supermercado como caro ou barato, o ser humano tem de rotular esses valores enquanto tal. Maçã a R$ 5 é caro e banana a R$ 0,10 é barato”, exemplifica.

Se o campo não é novo, ele ganhou muita força nos últimos cinco anos. Na avaliação de especialistas em vendas em inteligência artificial da IBM Roberto Celestino, isso se deve ao fato de o momento atual ter um poder computacional maior, a geração de muitos (“muitos” o quê?) por um mundo de cada vez mais dispositivos conectados. “Temos capacidade técnica para poder construir sistemas, o que antes ficava só na comunidade científica e hoje está no meio corporativo. Temos volume de dados gigantesco e precisamos analisar isso para gerar esse valor”, comenta.

Dentro do campo existem tecnologias como o aprendizado de máquina (machine learning), na qual o sistema pode ser “treinado” na repetição de análise de dados para operar procedimentos mais complexos, como apreender o contexto de imagens ou de textos. Outro tipo de tecnologia mais sofisticada são as redes de aprendizado profundo (deep learning), que permitam tarefas ainda mais complexas, como traduções de um texto de um idioma para outro.

Evolução recente
Essa evolução recente é expressada no ganho de capacidade de diversas aplicações. Segundo o AI Index, principal relatório internacional sobre o tema elaborado pela Universidade de Stanford, desde 2012 o desenvolvimento da tecnologia acompanhava a dinâmica da Lei de Moore, segundo a qual uma tecnologia dobra a cada dois anos. A partir desse ano, a velocidade aumentou progressivamente, com a duplicação da capacidade de operação a cada 3,4 meses. Um dos marcos da evolução foi a superação de humanos em jogos. No caso do xadrez, isso ocorreu em 2004. No videogame Atari, em 2013 para os jogos Enduro e James Bond. Em 2017, a IA do Google venceu o chinês Ke Jie no jogo de tabuleiro mais complexo do mundo, o Go.

Segundo o AI Index, entre 2017 e 2018, o tempo para treinar um sistema de classificação de imagens (ImageNet) em uma infraestrutura na nuvem caiu de 3h para 88 segundos. No mesmo sistema, a taxa de erro caiu de 0.25 em 2011 para 0.02 em 2017. O sistema de geração de imagens Cifar-10 aumentou o índice de desempenho em três vezes entre 2017 e 2019, amplificando a fidelidade da reprodução de imagens produzidas artificialmente.

O Banco de Dados de Evolução do Entendimento de Linguagem (Glue, na sigla em inglês) avalia o desempenho de sistemas de IA na compreensão de textos. No início de 2019, os resultados do estado da arte ultrapassaram a compreensão humana, tendo alcançado uma nota de 88.5, mais de dez pontos acima de janeiro do ano anterior (76.9).

A Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, possui um banco de resposta de questões elaboradas por trabalhadores a partir de artigos da plataforma Wikipedia, incluindo “pegadinhas”. Em um ano, as respostas processadas por sistemas de inteligência artificial foram da nota 62 para 90, alcançando o nível de desempenho humano.

Em suas previsões para a área de tecnologia em 2020, a consultoria internacional Deloitte destaca a transformação da IA dos softwares para os dispositivos. Enquanto programas, uma das limitações do uso de IA é a necessidade da conectividade para sua operação. Ao embarcar essa solução em hardwares, ela pode ter sua adoção multiplicada.

Um dos principais produtos são os assistentes virtuais e caixas de som inteligentes (como Amazon Alexa ou Google Nest). Mas segundo a Deloitte, a evolução virá na fabricação de chips (microprocessadores necessários ao funcionamento desses aparelhos), que poderão ganhar escala nos equipamentos eletrônicos. A estimativa da consultoria é que em 2020, 750 milhões de chips de IA serão vendidos, superando o obstáculo da necessidade de conexão a um servidor na nuvem.

“Esses chips estarão em um número crescente de dispositivos para consumidores, como smartphones, tablets, alto-falantes inteligentes e ‘vestíveis’ [como relógios e óculos]. Eles estarão também em mercados voltados a empresas, como robôs, câmeras, sensores e outros aparelhos de Internet das Coisas”, projeta a Deloitte em seu documento de previsões para 2020 na área de tecnologia.

Usos
A IA vem sendo considerada uma tecnologia “habilitadora”, ou “tecnologia de propósito geral”. Isso porque ao permitir tarefas gerais como monitoramento, análise, otimização de processos e tomada de decisões ela pode ser empregada nos mais diferentes setores. As empresas líderes do mundo, como IBM, Microsoft, Google e Amazon, fornecem soluções para setores mais diversos, de saúde à logística, passando por marketing, rotinas produtivas, contratação de pessoas e administração de serviços públicos.

O professor Fábio Cozman entende que a IA pode contribuir ao substituir tarefas repetitivas desempenhadas por humanos. Outra possibilidade é a maior capacidade de análise de grandes quantidades de informações. “Na medicina, os sistemas podem avaliar imagens médicas e determinar pontos de atenção que médico precisa avaliar com cuidado. Na indústria, você pode imaginar programas que tomem decisão sobre logística ou sobre formas de produzir dispositivo”, exemplifica.

As empresas de ponta são as de tecnologia e que fornecem aplicativos. É o caso de diversos aplicativos utilizados no cotidiano por milhões de cidadãos, seja para acessar informação ou para se movimentar na cidade. “A capacidade do aprendizado da máquina permite calcular rota em aplicativos de trânsito, usando gamas de dados de geolocalização sobre o trânsito naquela região para poder prover ao usuário a melhor rota, além de recomendar lojas de uma determinada região que estão oferecendo promoções”, comenta João Thiago Poço, da Microsoft.

A IA pode ser acoplada a dispositivos para torná-los “inteligentes”. É o caso de eletrodomésticos, como geladeiras e televisões. Assistentes virtuais, como Amazon Alexa e Google Nest, utilizam processamento inteligente não somente para auxiliar usuários, mas para coordenar os equipamentos conectados em uma residência e facilitar os comandos e operações dos moradores em relação a eles.

A sofisticação destes sistemas vem permitindo o avanço dos chamados carros autônomos. A Waymo, subsidiária da Google para produção desses veículos, disponibilizou no início de 2019 um serviço de transporte privado com esses veículos, somente disponível nos Estados Unidos ainda. Na maior feira de tecnologia do mundo (CES), realizada nos Estados Unidos em janeiro deste ano, as empresas Uber e Hyundai anunciaram a intenção de construir nos próximos anos um táxi voador autônomo.

Na área de educação, sistemas de IA são empregados para monitorar e buscar melhorar a aprendizagem de alunos. A máquina pode simular raciocínio do aluno e oferecer conteúdos e tarefas específicos. Se o estudante erra, o sistema aprende e identifica onde está o problema. “Nos países nórdicos [Noruega, Suécia], cada aluno para um mesmo conteúdo tem um livro de acordo com seu estilo de aprendizagem, se é visual, auditivo, definições formais, ou textos. E também de acordo com o grau que o aluno pode acompanhar e responder por aquele tópico”, relata a professora Rosa Vicari.

Mercado
Segundo a consultoria Tractica, o mercado de Inteligência Artificial saiu de US$ 10 bilhões e deve atingir US$ 126 bilhões em 2025. Os segmentos com maior potencial de receitas devem ser o de aprendizado de máquina e processamento de linguagem natural.

De acordo com o AI Index, o investimento em startups que lidam com IA saiu de US$ 1,3 bilhão em 2010 para US$ 40,4 bilhões em 2018. A taxa anual média de crescimento foi de 48%. O número de empresas financiadas saiu de um mil em 2014 para mais de três mil em 2018.

No recorte por temas, os carros autônomos receberam mais recursos (10%), seguidos por medicamentos, tratamento do câncer e terapias (6,1%), reconhecimento facial (6%), conteúdo em vídeo (4,5%) e detecção de fraudes em finanças (3,9%). Os segmentos com maior crescimento no aporte de recursos nos últimos cinco anos foram a robótica e automação, gestão de cadeias produtivas, automação industrial, semicondutores e reconhecimento facial.

O investimento não ocorre apenas por fundos ou entes financeiros voltados a essa finalidade (como Venture Capitals). Governos também vêm investindo pesadamente nessas tecnologias, seja para pesquisa, seja para soluções nas mais variadas áreas, especialmente em segurança e inteligência. Os gastos do governo dos Estados Unidos com contrato nesse setor saíram de US$ 250 milhões em 2015 para quase US$ 1 bilhão em 2019, a maioria concentrada no Departamento de Defesa.

Potencial
O diretor executivo do Alphabet [conglomerado controlador do Google, YouTube e Android, entre outros serviços tecnológicos líderes mundiais], Sundar Pichai, está entre os que ressaltam os grandes potenciais da tecnologia. “IA é uma das coisas mais profundas nas quais trabalhamos como humanidade, mais do que o fogo ou a eletricidade. IA nos permite fazer algumas coisas que os humanos fazem com vieses”, afirmou, em palestra no Fórum Econômico Mundial deste ano, realizado em janeiro em Davos, Suíça. Contudo, ele lembrou que essas soluções podem ter tanto impactos nobres quanto prejudiciais à sociedade. “Há aspectos positivos mas também consequências negativas. O reconhecimento facial, por exemplo, pode ser usado para encontrar pessoas desaparecidas, mas também para vigilância em massa”, ponderou. Essa preocupação está crescendo entre governos, sociedade civil e cidadãos, questionando os limites dessa tecnologia e o papel dos grandes atores privados responsáveis pela sua disseminação.

Educação Midiática é resposta à vida digital e desinformação

Direcional Escolas – 09/09/2020

Por Alexandre Le Voci Sayad e Maria Cristina Poli

A realidade é implacável e inegável, como definiu, por linhas tortas, o filósofo norte-americano Charles Sanders Pierce. Nesse sentido, o cenário pandêmico mergulhou as escolas forçadamente na tecnologia, estivessem professores, pais e alunos prontos para isso, ou não.

Os resultados no Brasil são desiguais: segundo pesquisa recente da OCDE, estudantes de regiões distintas abriram até 10 pontos de diferença entre aprender bem ou mal durante o ensino remoto. Os fatores de sucesso foram a capacitação dos professores, participação da família e acesso à tecnologia.

Em outra frente, segundo dados do PISA, os jovens têm cada vez mais consumido notícias pelas redes sociais, de maneira incidental. Em outras palavras, é na desordem, imprecisão e fragmentação dessas mensagens que os estudantes estão enxergando o mundo que os cerca.

Essa combinação de intensa vida online e leitura de mundo mediada pela tecnologia, e regida pela desinformação, afirma a necessidade, dentro e fora da escola, de uma educação voltada às mídias e suas implicações.

A chamada “educação midiática” não é nova, tampouco surgiu por conta dos meios digitais. A educação formal reagiu ao desenvolvimento da comunicação desde a origem do rádio, na década de 1920. Que aparelho era aquele que, assim como a escola, conversava com pais e estudantes dessa vez dentro do ambiente da casa? As práticas educativas que enxergam a comunicação ora como aliada, ora como inimiga, se originam nessa época. O francês Celestin Freinet, pode exemplo, criou a primeira rede de jornais escolares para educar para as mídias e abrir espaço de expressão aos alunos.

Desde então, outras terminologias e vertentes surgiram no mundo. O que chamamos de “educação midiática” hoje é um termo guarda-chuva que abarca os princípios de muitas delas. Trata-se do conjunto de habilidades necessárias para se ler, analisar, produzir comunicação e também exercer a cidadania em tempos ultraconectados. A UNESCO (Órgão das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura) vem resguardado o assunto com o cuidado de uma nova alfabetização necessária, a definindo inclusive como “alfabetização midiática”.

Estão abrigadas sob esse conceito, a fluência e ética digitais, a leitura crítica dos meios e a livre expressão dos estudantes – fatores determinantes para uma educação que se propõe voltada para nosso tempo. A educação midiática tornou-se portanto uma emergência também como política pública. A BNCC (Base Nacional Comum Curricular) abre espaço em diversas etapas de ensino para práticas com mídia; mais explicitamente nas últimas séries do Ensino Fundamental há o campo chamado “jornalístico-midiático”. Países líderes no desenvolvimento de tecnologia, como a Coréia do Sul, passaram recentemente a colocar o tema como prioridade da agenda educacional.

Por outro lado, a desinformação e habilidades digitais estão longe de serem questões relevantes apenas para crianças e jovens. Aprender é uma tarefa para toda a vida, e no que tange a tecnologia, a obsolescência do que aprendemos é quase semanal. Assim, a própria UNESCO posiciona o exercício da educação midiática como uma função também dos veículos de comunicação.

Alexandre Le Voci Sayad é jornalista e educador, diretor da ZeitGeist. Apresentador do programa Idade Mídia, do canal Futura, também é colunista de A Gazeta do Povo e autor do livro “Idade Mídia – A Comunicação Reinventada na Escola”, entre outros. Atualmente serve como chairman da aliança mundial da UNESCO para educação midiática (GAPMIL). É membro do conselho consultivo do Educamídia e do conselho científico da revista acadêmica Comunicar (Universidad de Huelva, Espanha).

Maria Cristina Poli é jornalista com mais de 35 anos de experiência nas principais redes de televisão (TV Cultura, Globo e Band). Repórter especial e âncora de telejornais. Comandou o Vitrine, o primeiro programa especializado nos meios de comunicação, na TV Cultura.

Pantanal: área queimada equivale a três DFs

Somente este mês, a quantidade de focos ultrapassa o acumulado de vários anos inteiros, como 2018, que teve 1.691 incêndios; 2017, com 5.773; e 2016, com 5.184

Foto Capa: Mayke Toscano/Secom-MT
Correio Braziliense/28.09.2020 – Alessandra Azevedo

Com 6.796 focos de incêndio entre 1º de setembro e ontem, o Pantanal vive o pior mês da série histórica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que monitora queimadas no bioma desde 1998. No mesmo período, em 2019, havia 2.727 focos registrados; em 2018, 783. Antes, o pior mês havia sido agosto de 2005, com 5.993. No total, o Inpe detectou 16,9 mil incêndios entre janeiro e setembro deste ano, maior número já registrado no período.

Somente este mês, a quantidade de focos ultrapassa o acumulado de vários anos inteiros, como 2018, que teve 1.691 incêndios; 2017, com 5.773; e 2016, com 5.184. Ao longo de 2020, o fogo no Pantanal queimou uma área de 18,6 mil km² — o equivalente a mais de três vezes o tamanho do Distrito Federal. O espaço destruído em apenas oito meses chega perto dos 20,8 mil km² devastados pelo fogo ao longo dos 12 meses de 2019, maior registrado em um ano.

Algum nível de queimada é esperado nesta época, por ser a mais seca do ano. Mas 2020 já começou ruim no bioma, com poucas chuvas, na fase mais úmida, e muito mais focos de incêndio do que a média em anos anteriores, mesmo no primeiro semestre. Soma-se a pior seca na região nos últimos 60 anos — de acordo com dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) — à indução de queimadas por seres humanos.

A Delegacia de Meio Ambiente (Dema) do Mato Grosso apura, desde o início do mês, quem são os possíveis responsáveis por vários focos de incêndio no Pantanal. De acordo com o governo do estado, cinco perícias feitas pelo Centro Integrado Multiagências de Coordenação Operacional (Ciman-MT) apontaram a ação humana como causa da origem das queimadas na região.

A chegada das chuvas cria expectativa de melhora na segunda metade de outubro. Por enquanto, contudo, o Pantanal continua passando por “condições de seca severa a excepcional”, principalmente na região norte do bioma, segundo o Cemaden. De julho a setembro, mais de 80% das áreas agroprodutivas dos municípios de Cáceres, Poconé e Barão de Melgaço foram afetadas pela seca.

Baía de Guanabara, semimorta, não causa indignação

Foto Capa: Marcelo Fonseca

O Estado de São Paulo/24.08.2020 – João Lara Mesquita

A baía de Guanabara tem uma área de aproximadamente 400 km2 e contém cerca de 3 bilhões de m3 de água. Dos 55 rios que nela deságuam, 50 tornaram-se esgotos a céu aberto. Nove milhões de pessoas vivem no seu entorno (estima-se que um terço resida em favelas, e outro terço em áreas com condições precárias de urbanização e saneamento). E a situação, que já era ruim piorou em 2019.

De acordo com matéria do G1, e baseado em dados do Instituto Estadual do Ambiente (Inea),“as amostras do espelho d’água com qualidade péssima ou ruim subiram 75%, até o fim de 2019. Rios e canais também apresentam índices piores. O monitoramento do espelho d’água da baía é feito através da análise de 15 parâmetros físico-químicos e biológicos. Mas as ações de controle foram interrompidas em março por causa da pandemia do novo coronavírus.”

“De acordo com os dados de 2019, do total das amostras de rios e canais, 81% eram das piores categorias (43% péssima e 38% ruim). Não houve aumento das estações com amostras boas, entre 2016 e 2019: seguiram em 3,6%.”

De acordo com o boletim consolidado de 2016, das 55 estações de amostragem da região hidrográfica, 73% foram classificadas como péssimas (32%) ou ruins (41%).”

“No boletim de 2016-2017, a baía tinha 38% das amostras de estações classificadas como péssimas ou ruins. O percentual passou para 66,6% em 2019, uma alta de 75%.”

“De acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), foram tratados 31,3% do esgoto gerado no estado do Rio de Janeiro em 2018, taxa menor do que os 36,5% de 2010.”

Pobre Brasil.

Não se iluda, nem fique indignado ‘apenas’ com as baixarias do exterior
Recente imagem do mar de Santo Domingo, República Dominicana, causou comoção nas redes sociais. Foram replicadas, comentadas e discutidas. As pessoas ficaram chocadas. Mas não se iluda. Provocamos a mesma catástrofe em nosso icônico cartão  postal, a baía de Guanabara, seja por ação, ou por omissão da opinião pública.

E nem por isso a degradação provoca comoção nos brasileiros. Saiba como a baía de Guanabara se tornou esta macabra sucursal de um lixão, e nos ajude a compreender por que não ficamos horrorizados com esta situação.

Duas refinarias, três portos, e estaleiros…
Existem duas refinarias dentro da baía de Guanabara: a Duque de Caxias, da Petrobrás, inaugurada em 1961; e outra privada, Manguinhos, que era do Grupo Peixoto de Castro. Posteriormente, o controle foi adquirido pelo Grupo Andrade Magro.

E ainda três portos e diversos estaleiros.  No seu entorno há milhares de oficinas clandestinas. O esgoto doméstico é jogado in natura. Uma frota de automóveis poluentes circula em seu redor. E mais: assoreamento dos rios, ocupação desordenada das bacias hidrográficas e 16 municípios em volta.

Ocupação desordenada
Este é o motivo da poluição: a ocupação desordenada, e o pouco caso de sucessivos governos que nunca investiram em saneamento básico, e coleta e tratamento de lixo. A Baía de Guanabara é um exemplo emblemático de como nossa geração foi capaz de destruir uma linda formação da natureza.

Baía de Guanabara: 15 mil litros de esgotos não tratados por segundo
O resultado do descaso é que todos os dias 15 mil litros de esgotos não tratados são despejados por segundo  nas águas do ‘cartão postal’ do Brasil. Os dados são de Eliane Canedo de Freitas Pinheiro, autora do livro “Baía de Guanabara“.

A ironia da história é que os Tamoios, seus primeiros habitantes, a batizaram de ‘Guanabara’ porque significa “seio de onde brota o mar”. Pior que isso, se é que é possível, de acordo com denúncia do Movimento Baía Viva, “um bilhão de litros de chorume são despejados todo ano.

A degradação do entorno
Além do desmatamento, todos os rios que deságuam na baía tiveram seus cursos ratificados. Isso contribuiu para maior correnteza e consequente aumento dos sedimentos. A maioria ficou totalmente assoreado. Estas obras começaram no século 19, passaram pelo seguinte, e seguem até hoje. Inutilmente.

Navios limpam seus porões dentro da Baía de Guanabara

Em 2006 quando o Mar Sem Fim produzia sua primeira série de documentários  estivemos em Copacabana, no posto seis, onde fica uma das últimas colônias de pescadores artesanais. Na época entrevistamos seu presidente, Ricardo Mantovani.

Ele denunciou, entre outros absurdos, que navios limpam seus porões e contêineres dentro da baía, piorando ainda mais a situação, e fazendo com que ninguém queira comprar o pescado que fica “impregnado com o cheiro do óleo diesel”. O descaso das autoridades cariocas é tão grande que até um crime como este, limpar porões dentro da baía, acontece sem que se tomem providências.

Próximo à ilha do Fundão um cemitério de navios dentro da baía de Guanabara
Naquela visita, a bordo do veleiro Mar Sem Fim, navegamos para a Ilha do Fundão. No fundo dela outra cena sinistra: uma espécie de cemitério de navios. São imensos cascos, alguns ainda com o convés de pé, antigos, abandonados, adernando enferrujados à espera da morte.

Como é caro desmontá-los,  eles ficam ali, aguardando não sei qual desastre para se desintegrarem de vez, provocando mais um problema ecológico na maltratada Baía de Guanabara.

Estudo para despoluição da Baía de Guanabara
Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG) teve ajuda internacional. Ele foi assinado em julho de 1991. Previa a cooperação técnica entre os governos brasileiro e japonês.

Além do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), houve investimento do Japan Bank for Internacional Cooperation (JBIC). Estivemos no Instituto Baía de Guanabara, à época coordenado por Dora Hess de Negreiros, para entender o porquê do fracasso desta ação.

Dora saiu da Feema durante o segundo Governo Brizola e, desde então atuava na ONG procurando produzir e divulgar informações. Além de participar em fóruns oficiais, como o Conselho Gestor da Baía de Guanabara, vinculado ao Governo do Estado (Desde o início do Governo de Rosinha Mateus, em 2003, não foi feita nenhuma reunião). Dora Hees de Negreiros faleceu, em 2016, sem ver realizado seu sonho de limpar recuperar e preservar a Baía de Guanabara.

Ela nos informou que depois de lançado o movimento, foi iniciado um estudo para o qual vieram técnicos do Japão que haviam participado da limpeza da baía de Tókio.

Projeto de despoluição tinha objetivo de tratar 60% do esgoto. Hoje mal chega a 25%
O projeto, conhecido como “Programa de Despoluição da Baía de Guanabara”, tinha o objetivo de tratar cerca de 60% do esgoto lançado. Índice que mal chega hoje aos 25%. Passados tantos anos, sequer a primeira etapa foi concluída. Dora, triste pela situação de abandono, declarou:

As obras começam e param. Não há continuidade por parte dos sucessivos governos. Dos 16 municípios, vários não têm nem mesmo água encanada. Sem água encanada não há tratamento de esgotos domésticos

12 mil toneladas de lixo
Os números são cavalares. Vão parar na baía resíduos de 12 mil toneladas de lixo dos aterros sanitários próximos. Estima-se que estes 16 municípios produzam algo como 450 toneladas de esgoto que também têm destino certo, a mesma baía.

E ainda há derramamento de óleo, através da poluição difusa produzida pela frota de automóveis do Rio. Além de acidentes ocasionais na refinaria Duque de Caxias, ou com navios e barcos (o último derramamento, por parte da Petrobrás aconteceu no ano de 2000, quando cerca de um milhão e duzentos mil litros de óleo vazaram).

Novo derramamento de óleo em 2018
Em 2018 novos derrames. Em dezembro deste ano, milhares de litros vazaram de um duto da Transpetro, em Magé, região Metropolitana do Rio. As investigações apontam para acidente decorrente de uma tentativa de furto de combustível a aproximadamente três quilômetros da foz do Rio Estrela. Fechando a lista, temos ainda algumas toneladas de metais pesados, fruto dos efluentes industriais. Um massacre ambiental.

Nem as Olimpíadas do Rio conseguiram sucesso na despoluição da Baía de Guanabara
Quando o Rio foi escolhido como sede das Olimpíadas de 2016, houve um sopro de esperança. Esperava-se que os governos municipais das várias cidades do entorno, e o governo estadual, tocassem finalmente as obras. Ledo engano.

Desde o primeiro evento teste, em 2014, a situação já mostrava que não seria fácil. De um lado o Comitê Rio assegurava que os 320 velejadores de 34 países encontrariam condições adequadas para a disputa; do outro,  biólogos duvidavam. Mário Moscatelli, biólogo que há mais de duas décadas luta contra a degradação da Baía alertava que o Brasil passaria muita vergonha:

 Das sete usinas de tratamento prometidas pelo governo do estado, só uma está funcionando.

No período, o Comitê Rio garantiu “condições adequadas” para todos os velejadores que estivessem classificados para a disputa por medalhas. Como providência, o Comitê preparou míseros três ‘ecoboats’ – embarcações adaptadas para recolher lixo nas águas – e prometia que o número saltaria para 24 embarcações. Puro blá-blá-blá.

Compromisso de despoluir 80% da baía quando o Rio foi escolhido sede das Olimpíadas
Moscatelli advertia que a solução era meramente paliativa e não resolveria o problema mesmo para o evento-teste. Nem mesmo a pressão internacional funcionou. Em Maio de 2014 o News Yor Times: “não caia na água do Rio”.

Um ano depois o então secretário estadual do Meio Ambiente do Rio de Janeiro, André Corrêa, afirmou que desistia da meta de sanear 80% da Baía de Guanabara até os Jogos Olímpicos de 2016. O compromisso foi assumido pelo governo Sergio Cabral (PMDB) durante a campanha para a escolha do Rio como cidade sede da competição. Hoje, como se sabe, o homem está na cadeia…

R$ 10 bilhões para universalizar o saneamento básico
Pelos cálculos da secretaria do Ambiente, seriam necessários R$ 10 bilhões somente para universalizar o saneamento básico dos municípios no entorno da Baía de Guanabara. E assim a situação persiste até hoje.

(Foto de abertura: BBC)

Fontes:
https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/08/14/quatro-anos-depois-dos-jogos-rio-2016-qualidade-da-agua-da-baia-de-guanabara-esta-pior-aponta-inea.ghtml?fbclid=IwAR1HwxVRlUDTM6OUltFfbzHX-DzK3Mj0nwNk3ECVmLH2NllO3bdq-agq8vQ.

Muito além das lives: o que artistas estão fazendo para atrair a atenção do público na pandemia

Músicos aproveitam as redes sociais para divulgar trabalhos enquanto exploram o conceito de espetáculo

Zero Hora/27.09.2020

Sete meses sem palco. Quando tudo começou, a cadeia do entretenimento sabia que seria uma das mais afetadas. E, dentro de seus setores, os músicos pressentiam que a vida não seria fácil nem depois que uma reabertura decretasse a retomada dos espaços de show. Afinal, quanto tempo levará até que as plateias se sintam confiantes para dividir um mesmo lugar de novo? Surgiram o movimento das lives, as redes de solidariedade e até uma lei, a Aldir Blanc, para o salvamento pontual dos artistas mais vulneráveis desde as suspensões de seus trabalhos.

Mas, então, os palcos não reabriram, o efeito das lives se esgotou e o modelo drive-in não se acomodou aos shows como tem feito com filmes e espetáculos teatrais infantis. E para onde vão os músicos? Segundo as experiências dos mais ousados, para o próximo passo, uma das saídas é usar as redes para divulgar trabalhos que voltam a lidar com o conceito de espetáculo, expandindo as possibilidades das lives passivas do estágio inicial.

Espetáculo adaptado
A cantora Tchella traz em seu DNA uma capacidade de reinvenção que o novo mundo pede cada vez mais. Ela fez circo, teatro de rua, teatro infantil, cinema e performance até lançar, em 2018, o álbum autoral Transmutante. Seus shows produzidos em casa com uma mistura de linguagens já ajudaram a trazer 100 mil audições no Spotify.

— Estou conseguindo transformar a rede em um palco online. O show é o encontro das presenças, do público com o artista, e o problema é quando o artista não estuda suas apresentações como uma linguagem específica. Eu e meu marido estamos estudando — afirma.

Tchella acredita que, em alguns casos, o espaço das lives é mais maleável do que o de grandes áreas físicas.

— A espacialidade é bem menor para compor a fotografia. Estou conseguindo fazer coisas mais interessantes no vídeo do que fazia no palco, onde a logística de cenário e do uso de efeitos é muito mais cara — explica.

Há também reações específicas proporcionadas por uma live, como a que houve em um de seus shows em que ela canta de cabeça pra baixo.

— Algumas crianças cantaram comigo de ponta-cabeça também, algo que jamais fariam em um teatro.

Foco na direção
A cantora e compositora No Stopa conta que tem feito encontros e ensaios com sua Banda Mirim em aplicativos de videoconferência.

— Somos um coletivo de 12 artistas e estamos trabalhando dessa forma, semanalmente, desde o início da pandemia. Pesquisando para a próxima peça, montando cenas e oficinas virtuais para o público e para educadores. Esse material ficará disponível nas nossas redes sociais e será distribuído em escolas públicas e equipamentos culturais que acolherem esse formato — diz.

Drive-ins em Porto Alegre: confira a programação para este final de semana

Ela tem dois singles lançados durante o período de confinamento – um deles gravado totalmente pelo microfone do celular, na sala de casa, “sem direito a edição de voz e outros truques de estúdio”. Sobre manter o conceito de espetáculo, No diz acreditar no “olhar de fora”:

— É essencial ter alguém que cuide da direção artística e cênica, que veja o cenário, encontre a melhor iluminação, figurino, modo de interagir com a câmera. Mesmo com os recursos limitados pela câmera do celular, dá para chegar a um resultado bacana. Tem artista usando cromaqui, inserindo vídeos pré-gravados e descobrindo uma gama de possibilidades. Penso que é um universo que se abre e seguirá mesmo quando os shows voltarem.

Enquanto a vacina não vem, a artista diz que monetiza seu trabalho com o que aparece:

— Shows em teatros vazios com transmissão ao vivo, show com público dentro dos carros, live em estúdio para equipamentos culturais, show virtual em plataformas como o Sympla — enumera.

Contudo, sente que o tempo ainda não é do vislumbre.

—  Parece um sonho. Estou tentando criar memórias leves para levar desses dias — pontua.

Manter o público perto
O produtor e cantor Fee Rocha, que lançou há uma semana o clipe e a canção Era de Esperar, diz que o caminho é “explorar tudo para manter o público perto mesmo de longe”.

— O sentido de tudo sempre será passar a mensagem e o sentimento. Em tempos de lives, que não temos a aproximação com o público, penso que nós artistas temos de nos esforçar ainda mais para termos a atenção do público em casa. É um desafio, acho que mentalizar o público junto e fazer de tudo isso algo natural é um bom caminho — afirma.

O impacto da pandemia na saúde mental das crianças e adolescentes

Os transtornos que surgem na infância e adolescência são altamente relevantes para a sociedade

Revista Educação/22 de setembro de 2020.
Jornal da USP (Universidade de São Paulo)

Por Guilherme V.Polanczyk*

Crianças e adolescentes não são o foco de maior preocupação no contexto da pandemia que vivemos. Embora sejam igualmente infectados, apresentam manifestações clínicas mais brandas do que adultos e idosos. Entretanto, o impacto da pandemia sobre a sua saúde mental deverá ser da mesma magnitude, talvez maior. A expectativa é que as consequências do isolamento social, da ameaça contra a vida e das perdas econômicas sobre a saúde mental da população – inclusive de crianças e adolescentes – representem uma “segunda onda” da pandemia, com enormes custos sociais.

Leia também: https://revistaeducacao.com.br/2020/09/17/psicologo-professores/

Mas por que devemos nos preocupar com a saúde mental de crianças e adolescentes hoje, em meio ao perigo real do vírus e a tantos prejuízos sobre a economia global ainda não definidos? Os transtornos que surgem na infância e adolescência são altamente relevantes para a sociedade porque afetam indivíduos normalmente saudáveis em plena fase produtiva e de desenvolvimento, com prejuízos cumulativos até a idade adulta.

Levam muitas vezes à incapacidade e mesmo à morte, figurando dessa forma entre as principais causas de carga de doença na população. O surgimento de transtornos mentais, que ocorre mais frequentemente naquelas crianças mais vulneráveis, propaga e perpetua as desigualdades sociais já existentes. Ao antecipar as consequências da pandemia sobre a saúde mental de crianças, e entendendo como os transtornos mentais se instalam, podemos preveni-los.

O olhar da família
O estresse emocional é um dos mais importantes fatores de risco preveníveis para os transtornos mentais. Os transtornos que surgem a partir do estresse podem ocorrer já na infância ou mesmo anos após a ocorrência da situação estressora.

A atual pandemia e todo o contexto que a acompanha chegam aos cérebros das crianças por meio de informações, por meio de emoções de seus pais e outros adultos significativos, pelas mudanças da rotina e do ambiente ao longo do tempo. O cérebro de cada criança é diferente e reconhecerá os dados recebidos de formas particulares. Surgirão pensamentos e emoções como sinais de estresse, que serão transmitidos de forma direta (expressando medo, insegurança) ou indireta (irritação, insônia).

Os pais, que são protagonistas no desenvolvimento dos seus filhos, poderão reconhecer os sinais de estresse, processá-los e retransmitir às crianças respostas que geram acolhimento, segurança e aprendizado, estabelecendo um ciclo positivo. Entretanto, os pais podem não reconhecer os sinais de estresse de seus filhos, ou podem reconhecer mas não responder, ou ainda podem transmitir respostas que geram mais medo, insegurança e desamparo, estabelecendo um ciclo negativo.

*Trecho de artigo de Guilherme V.Polanczyk, professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. O artigo completo foi publicado no Jornal da USP.