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A hora das crianças no cinema de Alan Minas

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13maio

Por Patrícia Alves Dias
Produtora e criadora de conteúdos audiovisuais para e com crianças.
Mestranda em Educação pela UERJ

Quando Ju escapou pra dentro, longa metragem dirigido e escrito por Alan Minas, que está em fase de captação de recurso, é mais do que um roteiro de filme para crianças. É um convite à reflexão a cerca da infância e seu lugar na cultura contemporânea. Esse pequeno artigo nasceu ao longo de uma das fases de desenvolvimento do projeto do filme e é apoiado nos diálogos que realizamos com o diretor e as crianças que participaram da etapa de revisão de roteiro.

O longa conta a história de Ju, uma menina de sete anos que, às vésperas de seu aniversário, testemunha a crise conjugal e econômica de seus pais, dentro de um apartamento pequeno, de um bairro de classe média de uma cidade cosmopolita. Da janela de sua casa, com grades de segurança, ela vê, em primeiro plano, uma parede de concreto, um rebatedor causticante do sol da cidade grande – um grande sertão sem planta e aves livres. Mas é nesse mesmo cenário que a personagem Ju se reconhece como sujeito de sua própria história e ousa co-roteirizar, com o próprio Alan Minas, o enredo do filme, criando personagens e diálogos, façanha e atividade que as crianças do lado de fora do filme também não cansam de fazer.

O texto nos convida, com poesia e um humor próprio do universo infantil, a observar atentamente e a se relacionar com a criança e com o seu mundo para dentro e além das telas do cinema. Falar sobre e para a criança, seus quereres e (des)quereres, sonhos e cotidianos – uma escolha política e poética do diretor – tem sido uma marca, teima boa, de Alan Minas, desde A língua das coisas, vencedor do edital de curtas para crianças, da Secretaria do Audiovisual, do Ministério da Cultura e antiga TVE, atual TV Brasil. O autor vem corajosamente convidando o público adulto a revisitar e ou descobrir a experiência da infância contemporânea como “um pequeno mundo próprio inserido num mundo maior”, como proclama Walter Benjamin[1] em parte de sua obra, numa perspectiva de inserção cultural, política e propositiva às relações dialógicas frente à criança e ao outro.

Na contramão da maior parte dos conteúdos pensados e produzidos para o público infantil, Minas arrisca ser o porta-voz de muitas das questões existenciais da infância e propõe um olhar “despedagogizante” da arte do cinema para crianças, derrubando as barreiras e muros que separam o que seria ou não apropriado para meninos e meninas. O diretor aprende com as crianças e nos faz testemunhar as descobertas das crianças com suas perdas, fantasias e assombros frente à violência, ao desconhecido e ao medo.

Assim como em seus outros projetos, Quando Ju escapou pra dentro traz consigo uma crítica latente à cultura contemporânea e às relações sociais e políticas nelas refletidas, a partir dos acontecimentos  e sentimentos dos seus personagens infantis. Na história, Ju e seus companheiros – os personagens imaginários – como o caranguejo de pano Macarrão e os sapatos dos pais, bem como o amigo invisível Menino de Asas -, pensam, questionam, inventam, reinventam e procuram soluções para o fim dos conflitos e das dores da criança.

Como afirma Jobim Souza [2], “o sensorial, frequentemente empobrecido na experiência dos adultos, torna-se, para a criança, uma realidade que anula a diferença entre objetos inanimados e seres vivos. Contrapondo-se ao mundo dos adultos, a criança vai em busca de outros aliados”.

O diretor escava os pequenos tesouros escondidos de Ju, segredos enterrados dos adultos que um dia já foram crianças. Ele dá voz e escuta o que Ju sente sobre a realidade que vive. Alan nos convida a olhar para infância e para seu “pequeno mundo próprio, inserido num mundo maior” (BENJAMIN apud PEREIRA, 2012) [3], um pequeno mundo cheio de sabedoria e renovadas chances, sempre e mais uma vez.

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O título deste artigo é uma referência ao programa de rádio  “A Hora das Crianças”, realizado para crianças e narrado por Walter Benjamin, transmitido em emissoras de Berlim e Frankfurt, entre 1927 e 1933.

Referências:

[1] BENJAMIN, Walter. Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação.  São Paulo: Editora 34, 2002.
[2] JOBIM E SOUZA, Solange. Infância e Linguagem: Bakhtin, Vygotsky e Benjamin. São Paulo: Papirus Editora: 1994.
[3] PEREIRA, Rita Maria Ribes.Um pequeno mundo próprio inserido num mundo maior in Infância em pesquisa. Rio de Janeiro: Nau Editora, 2012.

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