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A literatura em perigo?

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Publicado em Artigos, Destaques
17abr

Por Christine Castilho Fontelles
Cientista social pela PUC-SP, possui MBA em Marketing pela FIA/FEA-USP, consultora de educação do Instituto Ecofuturo, conselheira da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e do Movimento por um Brasil Literário.

Artigo originalmente publicado pelo Promenino Fundação Telefônica

Recentemente, assisti a uma saborosa palestra do escritor Cristovão Tezza, cujo tema era “A literatura à deriva”. Perguntado sobre como promover ampliação da leitura literária nas escolas – assunto que tem sido o fundamento do meu trabalho há mais de 15 anos -, ele falou sobre a polêmica envolvendo seu romance “Aventuras provisórias”, indicado para as escolas de Santa Catarina, que foi considerado inadequado por uma auxiliar pedagógica por conter linguagem chula, discurso ao qual se somou o de alguns pais de alunos – fenômeno fácil de reconhecer nos dias atuais, quando qualquer indício de oposição ao o que se quer é seguido por uma feroz caça às bruxas, que vai de impropérios disparados pelas redes sociais a agressões às vias de fato. O episódio o motivou a escrever em sua coluna na Gazeta do Povo, de Curitiba, um texto intitulado “Não me adotem”, publicado em 2009.

Segundo Tezza, há um certo antagonismo entre o conservadorismo propagado nas escolas e o caráter libertário da literatura. Literatura é vida real e texto de escola tem os contornos do socialmente correto – termo que uma querida amiga, Silvia Castrillón, prefere substituir por “moralmente hipócrita”. Ora, banir das escolas a reflexão e o debate sobre temas que são eminentemente humanos é retirar delas sua função de formar seres humanos integrais, aptos a viver em ambientes e situações que requererão dele conhecimentos, abertura e habilidades para um mundo cada vez mais multi e intercultural.

Eu não li o livro, mas assusta a forma como o fato veiculou: um fragmento da obra foi retirado do contexto da narrativa e linchado na praça pública das mídias, como se fosse, palavras do autor, um haikai.

Como se diz há muito tempo, não se julga um livro pela capa, embora ela possa, a capa, ser fator de escolha do livro, coisa que frequentador de livrarias e de antenadas bibliotecas conhece bem. E isso não é estratégia de país tido como pouco afeito à leitura – bibliotecas recém-abertas estão sendo fechadas Brasil adentro, como é o caso das bibliotecas públicas no Rio de Janeiro, uma delas, a de Manguinhos, uma biblioteca Parque, inspirada no modelo da Colômbia, não por falta de leitor, mas por decisão da gestão pública sobre onde ela acha que é importante alocar recursos públicos. Recentemente estive num evento literário no Chile e conheci uma biblioteca em Copenhague que descarta anualmente 30% do seu acervo físico porque passa a ser encontrado em meio digital e, assim, conseguem ter espaço para expor os livros com as capas de frente, usando a estratégia para atrair leitores.

Para que serve, então, a literatura? Vejamos como é tratada nas escolas. As escolas levam seus alunos a exposições de arte e não aplicam questionário, ensinam música e, em vez de transformar o aprendido em prova, promovem uma bela apresentação, sugerem filmes como outra linguagem para compreender fatos históricos e trocar ideias, levam ao teatro para oferecer acesso à cultura e em todos os casos como experiência estética. Mas a literatura, não!, à leitura literária são levados para fazer prova de entendimento de texto, de conferência para provar que leram, quando não seus fragmentos de literatura são usados para o ensino de gramática. Dá para gostar? Dá para se envolver? Dá para querer mais? Está condenada a não “servir” para nada.

Se não é para proporcionar experiência ética e estética, que passa inevitavelmente pela escola. Se não é para nos humanizar na medida em que, como ensina Alberto Manguel, viabiliza nossas experiências no tempo e no espaço – uma vez que não podemos nos deslocar (ainda!) de volta ao passado ou visitar o futuro e nem estar pessoalmente em todos os lugares para provar das culturas e das geografias que banham este planeta! Que é, ou deveria ser, também missão realizada na escola.

Em “A literatura em perigo”, Tzvetan Todorov fala sobre a importância de romper as amarras burocráticas do ensino de literatura para que seja possível incursionar pelo que ela tem a dizer sobre o humano, para muito além das convenções sociais que sempre buscam silenciar tensões e distensões, colocando a sociedade no trilho do positivismo: ordem e progresso. Como se não falar do que aflige, encanta, amedronta, transcende, assombra, fosse garantia de uma vida plácida e sem conflitos.

Ainda outro dia tentaram banir das escolas brasileiras o livro de Monteiro Lobato, acusado de propagar o racismo, alegando que os professores não tinham condições de lidar em sala de aula com resquícios literais e literários de uma sociedade de passado escravocrata e presente acintosamente preconceituoso e racista. Assim condena-se um grande escritor e se assume a pouca intimidade e o despreparo de professores com o uso do texto literário como condenação e resultado de geração espontânea, no lugar de oferecer as condições necessárias para garantir uma formação leitora de qualidade para todos. E quem tem em mãos “Caçadas de Pedrinho”, edição atual, certamente encontra numa das primeiras páginas uma mensagem onde se diz que não se recomenda a caça de animais silvestres da fauna brasileira e aquela é apenas uma história de ficção!

Para que serve a literatura? Para nada, dizia o poeta e querido amigo Bartolomeu Campos de Queirós, querendo dizer para tudo, para tudo que pode nos humanizar. Ele, um raro ser, que era poesia em movimento, capaz de nos apresentar a dor e a ausência em finas fatias de tomate servidas nas páginas do desconcertante “Vermelho Amargo”.

“O papel de um escritor não é dizer aquilo que todos somos capazes de dizer, mas sim aquilo que não somos capazes de dizer”, dizia a escritora Anaïs Nin. Pilhar esta experiência que a literatura, e só ela proporciona, é praticamente pilhar de crianças e jovens desde muito cedo percepção e consciência de que somos seres de narrativas, que escrevemos para dizer quem somos e nos conectar, de uma forma íntima, com a teia da vida. Para muito além dos limites de realidade traçados pela superficialidade ou banalidade dos textos que trafegam em larguíssima escala pelas mídias e redes sociais. Então, sim, nunca lemos tanto. Mas é preciso ler melhor, para melhor atendermos às demandas da vida e fazer deste lugar o melhor lugar do mundo para se viver, para todos!

E, para quem acha que a literatura é um luxo imaterial, fica a pergunta: como a matéria pode ter criado algo tão imaterial quanto a consciência? E para que serve mesmo a consciência?

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