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15jul

Por Lais Fontenelle
Psicóloga do Instituto Alana
Texto originalmente publicado no site Criança e Consumo

No fim do mês passado um grande debate, envolvendo questões ligadas à educação financeira e consumo consciente, veio à tona quando, a Visa lançou, em parceria com a Mauricio de Sousa Produções e a Brasil Pré-Pagos, um cartão mesada no formato pré-pago com o diferencial dos personagens da Turma da Mônica estampados. Os cartões em si não foram novidade já que outros no mesmo formato eram de conhecimento geral. Existe até um cartão do Angry Birds que um dos benefícios de uso é o ganho de pontos no jogo virtual do mesmo personagem – o que parece ser uma jogada de marketing, pois a criança usa o cartão para adquirir pontos ou moedas no jogo e assim se fideliza a marca. Todos os cartões são recarregáveis e podem, inclusive, ser usados na função crédito, internacionalmente, ou para realizar saques – não precisando ser vinculados a uma conta ou agência bancária.

O lançamento virou pauta na agenda e dividiu opiniões nas redes sociais. O público estava cindido entre aqueles que acharam um total absurdo a existência de um cartão mesada (com personagens licenciados de apelo ao consumo infantil) e outros que não acharam nada de demais, além de uma nova ferramenta capaz de auxiliar na educação financeira de crianças e jovens na sociedade de consumo – na qual estamos todos inseridos.

Já os especialistas demonstraram acreditar, na sua maioria, ser essa uma tendência atual, sem volta, para se trabalhar a educação financeira, pois o uso de moedas ou cédulas está escasso. Porém, alertaram para questões importantes como: limite, a abstração de pensamento necessária para usar o cartão, o problema de segurança já que os cartões podem realizar saques em caixas. Além de se questionarem, também, do porquê dos personagens infantis estampados se o foco do produto não são as crianças e sim os jovens. Seria mais uma jogada de publicidade 360 graus – que deseja cooptar crianças, desde muito pequenas, ao universo de consumo adulto sem estarem preparadas para tanto?

A empresa Visa afirmou ter dois propósitos com a iniciativa sendo o primeiro substituir a tradicional mesada concedida em notas ou moedas pelos cartões – sendo este o foco do seu negócio. Já o segundo era atingir um público mais jovem, de 11 a 15 anos, que provavelmente ainda não utilizava pagamentos eletrônicos como meio principal. “Queremos aproveitar um momento em que os jovens brasileiros buscam alternativas para entender como fazer uma boa gestão do dinheiro e calcular melhor o orçamento que os pais dão a eles” disse a empresa à imprensa. Mas, será que os jovens e principalmente as crianças (de 11 anos ou menos) estão prontas para usar um cartão que requer pensamento abstrato para lidar com dinheiro sendo que, muitas vezes, nem nós adultos estamos?

A educação financeira e para o consumo consciente é, sem dúvida, um enorme desafio para aqueles que têm o compromisso político de formar cidadãos mais conscientes em relação a suas escolhas para o consumo. Mas, como fazer e quais são as atividades e ações mais adequadas para determinadas faixas etárias e a forma como abordar o assunto, com as famílias, tem sido uma das grandes questões da contemporaneidade. Atualmente o dinheiro faz parte do dia a dia de nossas crianças, desde que são bem pequenas, a começar pela observação dos hábitos de seus pais no cotidiano que, dentro de uma sociedade de consumo, compram itens para sua sobrevivência ou bem estar corriqueiramente e, muitas vezes, sem a devida reflexão.

Somado a isso temos um contexto sócio econômico em nosso país, hoje, onde se cresceu a taxa média anual de consumo em 3,5% na última década, permitindo que milhões de brasileiros participem ativamente de um mercado de consumo – antes inacessível para a maioria, porém sem estar preparados para essa atividade. Esse fator impulsionou a reflexão sobre a importância da educação financeira da população, a se começar desde a infância, o que gerou inclusive a Estratégia Nacional de Educação Financeira – ENEF -instituída pelo Decreto nº 7.397, de 22 de dezembro de 2010. Fora tudo isso, muitas ainda são as dicas e orientações apresentadas, todos os dias, nas mídias sobre empoderamento financeiro de famílias e, principalmente, dos jovens. E mesmo assim observamos que o nível de endividamento e inadimplência só vem aumentando. E por que será?

Educar não é uma tarefa fácil, nem para pais ou educadores mais experientes. E a contemporaneidade nos coloca novos e árduos desafios, principalmente no que diz respeito à educação financeira e para o consumo consciente. Podemos afirmar que hoje a formação de nossas crianças não está somente nas mãos da escola ou da família, pois é compartilhada com as diferentes mídias com as quais as crianças têm se relacionado diariamente e que são atravessadas por mensagens incansáveis e persuasivas de apelo ao consumo, através da publicidade que fala diretamente com os pequenos.

Portanto, a educação financeira deveria ir além do ensino de técnicas de como bem administrar seu dinheiro, de como poupar, gastar ou de um manual de regras pré estabelecidos. A realização de um trabalho que aponte na direção da discussão do “Eu quero X Eu preciso” e que discuta o “Ser x Ter” é extremamente válido porque assim, de alguma maneira conseguiremos promover que as crianças e jovens comecem a entender que as escolhas que fazem tem impactos individuais e no coletivo (envolvendo questões ambientais e até sociais). Fazer um trabalho de leitura crítica da publicidade – para que os jovens comecem a questionar os apelos e valores veiculados por esse discurso persuasivo – também pode ser bem importante.

Somado a isso devemos ter em mente que o exercício para autonomia/ cidadania – como bem colocado no Referencial Curricular Nacional da Educação – deveria ser um processo que se inicia, desde a mais tenra Infância, quando se oferecem possibilidades e oportunidades de escolha e autogoverno às crianças em situações mais simples de seu cotidiano. A capacidade de realizar escolhas, que passa pela educação financeira e para o consumo consciente, deveria ir se ampliando conforme o desenvolvimento de recursos individuais e subjetivos e mediante a prática de tomada de pequenas decisões.

Uma boa ideia é convidar as crianças a fazer as compras de supermercado envolvendo- as desde a checagem do que falta no armário, a elaboração da lista até a colocação no carrinho. Dessa forma a criança e o jovem conseguem, concretamente, entender e colocar em prática um planejamento financeiro. Outro ponto importante é encorajar as crianças, desde cedo, a ter metas de curto prazo para que comecem a conseguir adiar desejos em nome do consumo futuro e assim exercitar a resiliência. A conhecida ideia de construção do porquinho/cofrinho como planejamento futuro pode ser bem interessante nesse caso.

A realização e participação em feiras de troca de brinquedo, também, é muito importante porque oferece a possibilidade da criança experimentar outra forma de consumo onde ela terá que realizar pequenas escolhas, negociar e entender o valor subjetivo atribuído aos objetos. E ali ela pode desconstruir a lógica atual de consumo sem reflexão, além de vivenciar que trocar pode ser mais divertido que comprar.

Não podemos esquecer em toda essa discussão que as referências e modelos de comportamento são de extrema importância para o desenvolvimento da autonomia da criança. E muito importante que os pais ou adultos cuidadores sejam claros em seus combinados sobre dinheiro e consumo e que não ofereçam duplos comandos. Isso não quer dizer que o destino dos filhos seja, fatalmente, repetir o mesmo padrão de consumo dos pais. Esse não é um processo que se dá de maneira tão mecânica. Mas, é preciso admitir que a maneira como apresentamos o mundo para os pequenos – nossas atitudes e valores – tem uma influência enorme no comportamento futuro deles. Ou seja, antes de mais nada, é preciso não perder de vista que o exemplo dos pais constitui a principal influência em relação ao modo como os filhos lidam com o dinheiro.

O que eu queremos dizer com tudo isso? Que o simples fato da criança ou jovem ganhar um cartão mesada não vai contribuir para que ele se empodere financeiramente e que comece a ter noções mais claras de como lidar com dinheiro. A praticidade, suposta segurança e monitoramento dos gastos prometidos com a utilização dos cartões-mesada não vai necessariamente introduzir na criança noções de crédito ou sobre qual a melhor forma de poupar, planejar e aprender a se controlar. Muito pelo contrário. O uso de um cartão magnético, onde o dinheiro não pode ser concretamente manuseado pelo usuário, requer uma abstração de pensamento que a criança, ou até mesmo o jovem, ainda não tem. E é ai que está o problema. Por isso a mediação do adulto na relação que as crianças estabelecem com o dinheiro a se começar pela mesada é sempre o mais eficaz , além de se passar valores mais humanos e menos materialistas nesses tempos de consumismo desenfreado. Fica aqui uma reflexão para pensarmos antes de aceitarmos a tendência dos cartões mesada como forma de educação e empoderamento financeiros de crianças e jovens hoje.

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