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Cinema e Educação – parte 2

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22fev

Por Raquel Pacheco
Dra. em Ciências da Comunicação. Autora do livro “Jovens, Media e Estereótipos. Diário de Campo Numa Escola Dita Problemática” (Livros Horizontes, 2009). Coordena o projeto e o blog de cinema e educação Media e Literacia. Participa do projeto Dream Teens – FMH.  Membro do Interdisciplinary Centre of Social Sciences (CICS-NOVA).

Na pedagogia, temos que ter cuidado para não nos guiarmos por aquilo que se acredita que já funciona, numa perspetiva de repetir o que já parece aceito. É isso o que nos diz o cineasta, crítico e professor de cinema Alain Bergala. Desbravar novos horizontes pode não ser tarefa fácil, mas se feito com verdade e amor, certamente poderá trazer benefícios incalculáveis.

O risco de partilhar suas próprias paixões e convicções, definitivamente, não faz parte da profissão de professor, destaca Bergala (2008), nem do talento necessário a um bom professor. Entretanto, “quando aceita o risco voluntário, por convicção e por amor pessoal a uma arte, de se tornar passador, o adulto também muda de estatuto simbólico, abandonando por um momento seu papel de professor, tal como definido e delimitado pela instituição, para retomar a palavra e o contato com os alunos a partir de um outro lugar dentro de si, menos protegido, aquele que envolve seus gostos pessoais e sua relação mais íntima com esta ou aquela obra de arte.  O eu que poderia ser nefasto ao papel de professor se torna praticamente indispensável a uma boa iniciação” (Bergala, 2008).

Neste sentido, Bergala acredita que o aluno necessita da experiência do fazer e do contacto com o artista, o profissional de cinema, que é entendido como um estranho, o outro dentro do contexto escolar, este passa a ser o elemento positivamente perturbador. O autor afirma que, para que e a criança e o adolescente tenha uma percepção maior sobre o cinema, é necessário mais do que apenas estar em sala de aula a analisar filmes. Quem nisso acredita, tem “uma ideia bem angelical da relação de força entre a intervenção pedagógica e o poder de fogo ideológico da mídia e de todo nosso ambiente de imagens e sons”.

A Neurociência há muito já descobriu que existem diferentes zonas e níveis de prazer no cérebro humano. Bergala reforça esta ideia quando afirma que todos sentimos uma espécie de prazer quando, depois de um dia exaustivo, nos prostramos diante da televisão para assistirmos a qualquer programa que não nos obrigue a pensar, que nos faça esquecer um pouco quem somos ou o que fazemos. Mas esse tipo de prazer é um prazer passageiro, raso, segundo o neurocientista João Ascenso (2012); é um prazer que não requer nenhum tipo de esforço do cérebro, por isso não é construtivo, ao mesmo tempo que não causa danos, caso não estejamos limitados apenas a utilizar esta respectiva zona de prazer do cérebro. “Mas isso não muda a consciência de que existem prazeres de natureza diferentes, cuja economia, intensidade e impacto não se situam no mesmo plano” (Bergala).

Existe um prazer que deve ser construído no cérebro, de preferência quando ainda se é criança, mas deve ser estimulado e trabalhado por toda a vida. Este não é necessariamente um prazer imediato e sem esforço, e neste tipo de aquisição e/ou construção a escola pode e deve ter um papel importante. A construção de formas mais duradouras e elevadas de prazer devem ser estimuladas e desenvolvidas em crianças, adolescentes e adultos, mesmo que para isso seja necessário um trabalho mais profundo e elaborado.

Em nossa sociedade materialista de consumo encontramos à venda muitos e diferentes tipos de prazeres. A maior parte da mídia, enquanto disseminadores e mantenedores deste sistema, criam e reforçam a todo o momento a necessidade humana de buscar a felicidade, enquanto vendem uma felicidade hedonista, efémera, externa, vazia e muito material. “Tudo que a sociedade civil propõe à maioria das crianças são mercadorias culturais rapidamente consumidas, rapidamente perecíveis e socialmente obrigatórias”, nota Bergala.

O prazer e a felicidade de que nos falam Bergala e Ascenso são adquiridos através de um trabalho constante e de esforço que envolve o cérebro e também o coração, o amor, que torna-se o meio (e o fim) para se atingir zonas cerebrais mais profundas, que são aquelas que produzem mudanças.

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