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Crianças ‘soldados’ em Uganda

3 comentários
11mar

Por Carlos Castilho
Jornalista

Até às 22h de sábado (10/3), 68 milhões de pessoas assistiram ao vídeo Kony 2012  pouco mais de cinco dias depois de ter sido colocado na Internet. Mas o que impressiona não é apenas a curiosidade em massa por um filme de meia hora que pretende usar os meios de comunicação para transformar um criminoso em celebridade mundial como estratégia para lograr a sua captura.

O vídeo é a principal peça de uma campanha  lançada pela organização Crianças Invisíveis (Invisible Children), criada pelo cineasta norte-americano Jason Russell com o objetivo de prender Joseph Kony, o chefe de um grupo armado que age  no interior de Uganda. Koni é acusado de usar crianças e adolescentes como soldados encarregados de espalhar o terror nas regiões rurais daquele país da África Central, conhecido por ter sido governado pelo excêntrico marechal Idi Amin.

A espantosa velocidade com que o vídeo se espalhou pela internet provocou outro fenômeno não menos impactante materializado nas discussões que  gerou em blogs, twitter, redes sociais e veículos da imprensa.  Em circunstâncias como esta, a variedade de participantes leva inevitavelmente a uma diversidade de dados, fatos e percepções, o que aumenta a complexidade dos temas da agenda noticiosa mundial e complica o trabalho da imprensa.

O vídeo Koni 2012 se baseia numa simplificação da realidade ugandesa (os bons contra os maus) para chegar a uma proposta também simplista:  os maus deve ser eliminados.  Mas a questão é mais complexa porque envolve uma longa lista de estereótipos construídos pela imprensa mundial sobre a realidade africana, interesses eleitorais norte-americanos, campanhas de captação de dinheiro, uso de uma sofisticada estratégia de advocacy (marketing de causas) e o impacto emocional causado pelo uso de crianças tanto para matar como para recolher donativos.

Jason Russel  explora uma situação dramática, comovente e revoltante num vídeo entulhado de clichês que vão desde opiniões de seu próprio filho de três anos para justificar um esforço mundial para capturar Koni, até instruções sobre como colocar o bandoleiro africano na mídia internacional, usando braceletes, doações, kits publicitários etc, passando por inevitáveis depoimentos de estrelas de Hollywood e de políticos norte-americanos em campanha eleitoral. Há pouquíssimas imagens das crianças/soldados de Koni, o que pode ser compreensível dado o fato de que o “exercito” atua em regiões muito remotas da selva ugandesa.

A dificuldade em entender todas as dimensões do problema colocou a imprensa, especialmente a europeia, diante de um dilema: simplesmente passar adiante os dados brutos deixando ao leitor a tarefa de contextualizá-los, ou assumir que tem responsabilidade em tomar partido da busca de explicações, rompendo com a tradicional preocupação com a neutralidade e isenção.

O desafio dos jornais, como também do resto da mídia, vem do fato de que no episodio Koni 2012 o marketing se tornou tão evidente que o fato jornalístico perdeu parte de seu impacto noticioso.  Isto também é um fato novo em se tratando de eventos de natureza tão dramática envolvendo crianças, sequestros e massacres.  A própria mídia começou a questionar a autenticidade informativa do fenômeno e da sua propagação viral pela internet.

O jornal  inglês The Guardian foi o que levou mais longe essa preocupação ao admitir publicamente que não tinha condições de oferecer ao seus  público uma analise completa do caso e convocou os  leitores para que eles aportassem novos dados, fatos e informações para ampliar o material disponível sobre a denúncia formulada pela organização Crianças Invisíveis criada por Russel e a campanha internacional que ele deflagrou com a publicação do vídeo no site YouTube.

Não é a primeira vez que o jornal convoca seu público para tentar esclarecer uma questão complexa. Ele já fez isto no caso dos documentos com denúncias contra parlamentares britânicos e no do vazamento de e-mails divulgados pelo site Wikileaks.  O reconhecimento da impotência de um jornal em investigar sozinho uma situação complexa marca uma importante mudança na tradicional autossuficiência jornalística e assinala, principalmente, a incorporação dos leitores como parceiros na contextualização de noticias.

Não é de hoje que a imprensa conhece ou finge ignorar a estratégia de organizações internacionais que, em situação de penúria financeira, “descobrem” alguma tragédia ou conflito tribal africano e chamam uma equipe de televisão que filma cenas dramáticas para ser exibidas em horário nobre na Europa e Estados Unidos. No dia seguinte os donativos começam a chover na conta das organizações ao mesmo tempo em que as imagens são exportadas para o resto do mundo.

Este tipo de advocacy promovido por ONGs da Europa e Estados Unidos não é ilegal e nem imoral. Em alguns casos é até louvável, mas a insistência com que passou a ser usado precisa ser questionada pela imprensa para que ela não certifique com sua credibilidade ações que podem levar os leitores à apoiar iniciativas equivocadas ou inconsistentes.

ENTENDA O CASO

Joseph Kony, número um na lista de criminosos de guerra mais procurados do mundo, acaba de tornar-se famoso, para seu azar. Na última sexta feira, seu rosto já tinha sido visto por mais de 70 milhões de pessoas em todo mundo, que assistiram ao documentário de 30 minutos chamado Kony 2012, postado no YouTube pela organização Invisible Children Inc na segunda-feira, dia 5 de março. O objetivo da ONG não era homenagear Kony, líder do grupo rebelde Lord’s Resistance Army, de Uganda, tristemente conhecido por sequestrar garotos de suas famílias e, pelo medo, transformá-los em guerrilheiros, matando e mutilando suas famílias e seus vizinhos. O anonimato facilitava a fuga de Kony pela África, por isso a Invisible Children se propôs a torná-lo uma celebridade divulgando seu rosto e fazendo com que cada pessoa no mundo possa identifica-lo e prende-lo ainda em 2012. Segundo a empresa de métricas online Visible Measures Corp, o vídeo de Kony superou os 70 milhões de views na manhã de sexta-feira, dia 9, tornando-se o viral mais rápido da história. Na segunda-feira anterior, a ONG lançou oficialmente a campanha Kony 2012 nas mídias sociais, criando páginas no YouTube, Facebook e Twitter e pedindo a celebridades que ajudassem a divulgar a campanha. Já existem mais de 500 mil comentários para a campanha e o twitter @invisible já tem mais de 370 mil seguidores. A página do Facebook passa dos 2 milhões de seguidores. Para ter uma ideia do impacto, a Visible Measures compara Kony 2012 ao fenômeno Susan Boyle, considerada a campeã até agora. No caso da cantora anônima, cujo vídeo hoje tem mais de 480 milhões de views, foram necessários seis dias para atingir os 70 milhões de views. Kony atingiu a marca com um dia a menos.

3 thoughts on “Crianças ‘soldados’ em Uganda

  1. I think all fashion blggeors should share the video! thanks for being one of them! This is what make the difference of all other fashion blggeors! BIG KISS FROM SPAIN! 😉

  2. Parabéns a Pontocom por ter colocado uma matéria questionadora sobre o assunto.
    É o que se espera de uma revista que trabalha com educação e mídias:
    Reflexão sobre as fontes, questionamento sobre a realidade do contexto, isso para que o leitor seja ajudado a pensar sobre o que está por trás dos eventos, e ele, por sí, vá a procura das verdades e mentiras para não se tornar um leitor passivo, à mercê dos holofotes muitas vezes desviados por interesses mais profundos.

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