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Lutas na tevê: segundo round. O debate continua

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01maio

Por Maria Inês de C. Delorme 
Professora Dra. Adjunta do Departamento de Estudos da Infância, da UERJ. Também é professora regente de sala de leitura da rede municipal de Educação da Prefeitura do Rio de Janeiro.

Talvez pese como um demérito, mas não posso deixar de começar dizendo que vejo as lutas de MMA pela televisão, sempre que posso. E assisto a esse tipo de programação desde criança, ainda na década de 60, junto com minhas duas irmãs, acompanhadas do  nosso pai e do avô materno. Vibrávamos com Eder Jofre, com o Cassius Clay (Muhammad Ali) e com o George Foreman, mas não só. Com interesse semelhante torcíamos para o Ted Boy Marino ou para o implacável Verdugo, personagens criados para disputar o ringue do Telecatch Montilla que alegrava as noites de sábado, às 20h. Segundo informações do site Memória Globo, o programa esteve no ar de março de 1967 a setembro de 1969 e foi “um dos programas responsáveis por alavancar a audiência da TV Globo na década de 1960.” Nesse viés, o imaginário infantil fervilhava quando a dupla de supostos rivais encenava uma luta com requintes de crueldade, aproveitando-se da distração de um juiz que, eventualmente, também entrava na luta e que, nesses casos, sempre apanhava dos lutadores para alegria do público majoritariamente infantil. Sim, o Telecatch Montilla “era a versão brasileira das lutas-livres e foi um dos programas responsáveis por alavancar a audiência da TV Globo na década de 1960”, segundo a mesma fonte. Durante a encenação desses atores-lutadores, havia um “vilão que batia covardemente no mocinho, e o público, com raiva, gritava e jogava sapatos e guarda-chuvas no ringue. Na luta encenada, valia tudo: mordida, dedos nos olhos, tijoladas na cabeça, limões espremidos nos olhos, supercílios cortados com gilete e até bater no juiz. Quando tudo parecia perdido, o bonzinho recuperava as forças, aplicava uma série de tesouras voadoras no malvado e vencia a luta”, ainda segundo a mesma fonte.

clique aqui e leia a matéria publicada, na semana passada, pela revistapontocom

Dessa forma, ainda que não devamos ser reconhecidas como modelos, eu e minhas irmãs não nos tornamos violentas, nem menos femininas por isso. Naquele tempo, íamos também acompanhadas por nosso pai, tanto ao Maracanã assistir aos jogos do America Futebol Clube, quanto ao Clube Municipal, também na Tijuca, para assistir a campeonatos de judô.

Essas informações sobre as diversões da nossa infância e sobre a programação televisiva se fazem presentes aqui apenas para alimentar a discussão já instalada sobre riscos e possíveis danos de as crianças assistirem às lutas de MMA, em pleno terceiro milênio, nas tevês de suas casas. De fato, acho que as crianças podem e devem ocupar de forma mais lúdica e mais alegre o seu tempo, com o apoio dos adultos responsáveis, para que não fiquem diante da TV vendo lutas. Até mesmo porque, hoje, já não há o Teatrinho Trol, da TV TUPI que, de 1956 a 1966, encantava a nossa vida e coloria a infância da criançada. O Teatrinho Trol, ou Vesperal Trol, estabelecia-se como um contraponto feliz, de muito boa qualidade, fazendo frente a outros programas da época como os de esportes e de lutas. Nele, eram encenadas peças de teatro adaptadas para a TV, carregadas de magia e de fantasia comandadas por bruxas e fadas em florestas encantadas. Para continuar, no entanto, torna-se necessário dizer porque trago o teatro infantil aqui para refletir sobre as lutas de MMA, veiculadas pela televisão. Parece-me que da década de 60, quando a TV chegou ao Brasil, até os dias de hoje, tenha se instalado uma diferença grande em relação à audiência. Hoje existe um distanciamento entre crianças e seus responsáveis quando o assunto é programação televisiva, talvez por um volume muito maior de oferta de programas e, também, ainda, por ser comum hoje haver mais de um televisor mesmo em casas de famílias de baixa renda.

Na década de 60, com um único televisor presente, na maioria das famílias que dele dispunham, parecia ser bem mais fácil reunir a família à sua volta. Assim, diante do Teatrinho TROL e do Telecatch Montilla era muito mais comum ver  crianças e adultos juntos, diante da TV, e encantados por uma mesma programação. As lutas de boxe e de Telecatch eram veiculadas aos sábados às 20h, o Teatrinho Trol aos domingos, às 14h, e era com os adultos mais próximos com quem  nós, as crianças, confabulávamos sobre os nossos medos, sobre os personagens amados e odiados, sem reservas. E, não há dúvida de que quando as crianças têm adultos com quem conversar sobre a vida, sobre seus encantamentos e também sobre as suas vertigens, que os ganhos dessa interação dialógica sejam imensos. Assim, embora as crianças da época acompanhassem lutas e contos de fadas, não se configuraram numa geração agressiva, não desenvolveram poderes mágicos nem ficaram viciadas em rum, devido à propaganda do patrocinador. Assim, hoje, mais do que de MMA, estamos falando de crianças e de seus programas prediletos. Será que assistir às lutas de MMA pela TV é mesmo algo que gostam e pelo que se interessam espontaneamente? Sim?  Não? Por quê?

Levanto aqui três pontos para, a partir deles, encaminhar um fechamento do texto, não propriamente da discussão. O primeiro deles remete ao fato de que, a meu ver, só seja possível  misturar coisas que conhecemos. Será que nós, adultos, estaríamos aqui preocupados com a audiência infantil caso fossem veiculados torneios de Jiu-jitsu, Judô, Muay Thai, Krav Maga, lutas Greco-Romanas e de outras tantas, de modo isolado? Em que o MMA se diferencia desses outros? Eu não sei  responder.

Um segundo ponto se refere a uma dúvida quanto aos dias e horários próprios para a veiculação desses programas. Nas discussões relativas à veiculação, é importante também considerar o fato de as lutas de MMA deverem, ou não, serem veiculadas em canal aberto, com fins comerciais, já que os mesmos são concessões do Estado. Até o momento, os horários em que as lutas de MMA têm aparecido na TV não são os mais adequados à audiência infantil – sempre depois de 23h e em canal fechado, a cabo. Ou eu estou equivocada?

Como terceiro ponto, gostaria de polemizar sobre os duros processos percorridos por um atleta para que chegue a poder disputar  alguma dessas lutas marcais, isoladas ou combinadas, no caso o MMA. Eventualmente, o senso comum supõe que exista algum “conflito implícito que deva ser resolvido com uma briga entre duas pessoas”. Briga não é luta. E luta não é uma alternativa digna para a solução de nenhum conflito. Nessas lutas, nada há para além de uma disputa técnica em que pesam a força física, sim, mas equiparada por categorias de pesos, além de muita disciplina, preparo técnico etc. Não acho que se deva fazer apologia desse tipo de programa de TV, nem do aprendizado dessas lutas, mas demonizar o MMA  como gerador absoluto de violência real entre as crianças, não me parece o melhor caminho.

A valorização da força física, de corpos exageradamente modelados, da exposição de músculos desenhados em pessoas que permanecem por um número excessivo de horas, por dia, em academias, também não nos parece saudável, além de esses ambientes serem reconhecidamente inadequados para crianças. Da mesma forma, a existência de espaços (academias?) que aceitam crianças ainda muito pequenas para treinar para MMA. Eles existem? Na Inglaterra, parece que sim – não me parece adequado para elas. Por que não matriculá-las em aulas de iniciação desportiva para que sejam fortes, saudáveis, equilibradas emocionalmente e disciplinadas, benefício comum a boas práticas desportivas? Mas, se os adultos decidem apostar nos seus filhos como “meninos bons de briga”, algo se distancia muito dos preceitos que sustentam as lutas marciais em geral, e também o MMA.

Algo é certo. Se os adultos com quem as crianças convivem escolherem educá-las pra que sejam absolutas e vencedoras, fortes e famosas pela força física, sem ressalvas, estarão produzindo desde cedo problemas difíceis de serem administrados, por elas e por eles. Pais que investem na criação de filhos-famosos-heróis, desde crianças, seja por meio do MMA, do futebol, seja cantando no programa do Silvio Santos, desfilando como misses (Miss Sunshine), entre outras práticas, investem num tipo de “morte da infância”, no que ela tem de melhor e apostam numa vida futura que dificilmente atenderá ao que esses mesmos adultos planejaram e produziram para elas, gerando no mínimo frustração, excesso de competitividade e infelicidade. Nesses casos, o problema não está no MMA mas numa vida onde se violentam desejos, onde deveres são desconsiderados e as vozes das crianças são negligenciadas, levando-as a cumprir expectativas de adultos na maioria das vezes, frustrados e incapazes de ouvi-las.

Não são as crianças, certamente, que devem decidir ver ou não as lutas de MMA, mas os adultos responsáveis por elas. Mas, de todo modo, seria valioso saber o que elas dizem sobre o que gostam ou não de ver na televisão. Posso garantir que elas têm muito o que dizer, embora nem sempre exista interesse do mundo adulto por ouvi-las. Que tal conversar com elas também sobre isso?

3 thoughts on “Lutas na tevê: segundo round. O debate continua

  1. Achei bem interessante. Realmente, se uma criança assiste a esses programas com a mediação de um adulto interessado em o que ela está compreendendo, não vejo mal nenhum. Até porque, também acho que alguns desenhos “feitos para crianças” ,qu…e demonstram um jeito Beverlly Hills de se viver como se o mundo fosse só glamour, também merecem tal mediação. Estes também podem produzir um resultado pouco interessante na criança.

  2. Muito boa a análise. Gostei bastante. As pessoas, em geral, tão boazinhas, tendem a ver a “agressividade” fora delas; quase sempre no “outro”. A economia pulsional tão cara a psicanálise pode encontrar mecanismos de descargas nessas manifestações de identificação projetiva. E foi muito bom sinalizar os limites do campo de construção entre o lúdico ( a luta) e o não lúdico ( a briga ).

  3. Beta Lima Gostei Ines. E isso ai. “E proibibo proibir”. Vamos parar com isso de dizer o que pode e o que nao pode. Vamos educar o povo e deixar ele fazer suas escolhas. A familia tem que ter direito a decidir o que seus filhos vao ver. O negocio e conversar com as criancas e adolescentes.

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