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Mídia na escola e a leitura do mundo

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18dez



Por Graça Caldas e Vera Regina Toledo Camargo
Do site ComCiência

A leitura da palavra é necessariamente precedida de uma leitura do mundo. A aprendizagem da leitura e da escrita equivale a uma “releitura” do mundo. (Paulo Freire) . Todo o conhecimento é uma resposta a uma pergunta (Gaston Bachelard).

Discutir leitura e leitores é um desafio permanente dos educadores, mas também dos comunicadores. Numa sociedade imagética, tecnológica, em que os estímulos da mídia e do mundo audiovisual dominam o cotidiano da escola e da sociedade, mais do que nunca é essencial a atuação conjunta de comunicadores e educadores para uma leitura crítica do mundo. As mídias sociais possibilitam e ampliam o acesso à informação. Mas o simples acesso, sem apropriação, cognição, não gera sentido, aprendizado e reflexão.

Pesquisas recentes mostram que as pessoas leem cada vez menos e, quando leem, pouco entendem (Retrato da Leitura, 2011). A mesma pesquisa constata que até mesmo nas leituras obrigatórias da escola houve uma redução. De quem é a responsabilidade? Professores, pais, alunos? Como despertar o interesse pela leitura e motivar a sociedade em geral para o universo do conhecimento?

Questões dessa natureza fazem parte de múltiplas pesquisas e projetos governamentais. Entretanto, as respostas variam entre encontrar motivações para o ato de ler, criar hábitos e transformar a leitura, o aprendizado em um ato político, cidadão. Nesse sentido, o uso da mídia na escola pode contribuir efetivamente para a re-leitura do mundo.

O uso da mídia na escola, no entanto, embora crescente, nem sempre é acompanhado da leitura crítica da palavra. Não são poucos os projetos de mídia na escola implementados pela Associação Nacional dos Jornais (ANJ), Associação Nacional de Revistas (Aner) ou pela Associação Nacional de Rádio e TV (Abert). Pesquisas acadêmicas sobre essas práticas demonstram que não raras vezes os caminhos trilhados são equivocados. Mais do que formação de leitores críticos e analíticos, esses projetos parecem estar mais preocupados com formação de novos leitores, novos consumidos desses veículos.

Qual seria, então, o desafio? O uso da mídia na escola transformou-se em panaceia para tentar resolver os problemas da escola. Mas que práticas pedagógicas são adotadas? Como a mídia é usada na necessária interface com os conteúdos programáticos? Estariam os professores preparados para usar a mídia de forma crítica, analítica, como um ponto de partida para fomentar debates, reflexões? Por outro lado, estariam os jornalistas e os pesquisadores da área de comunicação preparados para atuar nas escolas junto com os educadores? Como explica Freire (1979, 1989) o ato da leitura é, sobretudo, um ato político.

Entendemos que os educadores e os comunicadores devem trabalhar em conjunto. Só assim, unindo os conhecimentos específicos, será possível uma atuação competente para que o uso da mídia na escola possa, de fato, ser utilizada como ferramenta/ instrumento complementar ao aprendizado, possibilitando a inadiável contextualização dos conteúdos curriculares com o mundo real, para que adquiriam significado.

A dicotomia entre teoria e prática é outro fantasma presente no mundo acadêmico, em que professores e alunos procuram estabelecer as conexões para dar sentido ao processo de aprendizado. A educomunicação pode colaborar, e muito, para o processo de aquisição de novos conhecimentos favorecendo a apropriação de conteúdos.

Cultura de mixagem e da convergência de mídia

O desafio atual é re-pensar o processo educativo e cultural da escola e os conhecimentos advindos da interface com a mídia, seja ela a tradicional ou as novas mídias. Nesta intersecção, estamos assistindo a ascensão de um novo modo de ser e de pensar de uma geração que, após anos de influência direta da televisão e da utilização de diferentes aparelhos eletrônicos de comunicação, apresenta nova possibilidade de aprendizado.

A escola não pode mais colocar-se na condição de transmissor de conhecimento. Os pífios resultados desse processo continuam sendo registrados por pesquisas nacionais e internacionais (Pisa, Prova Brasil, Enem). O aluno, por sua vez, tem dado fartas demonstrações de que não é um receptor passivo. Educadores e educandos vivem uma nova realidade e precisam atuar juntos, de forma colaborativa, para que o conhecimento seja de fato vivenciado, apropriado.

O momento exige movimento, transformação de práticas pedagógicas. E a escola não pode ficar alheia a essa nova cultura, tão presente na vida das pessoas. Trata-se de uma nova cultura de aprendizado. Babin & Kouloumdjian (1989) anunciam o nascimento dessa nova cultura e a intitulam mixagem. É quando a imagem invade o texto do livro. É a interpenetração de várias linguagens: a escrita, o audiovisual e o som. Não são excludentes, mas denotam pluralidade e fusão. O conhecimento é cada vez mais inter, multi, transdisciplinar, exigindo posturas polivalentes e abertas.

As novas tecnologias e os recursos múltiplos dos meios de comunicação estão disponíveis. Os alunos desafiam, o tempo todo, o conhecimento enciclopédico dos professores em tempo de mediação, de articulação, de contextualização. É urgente pensar sobre o emprego de tecnologias, de aparelhos eletrônicos, de múltiplas mídias no cotidiano das salas de aula, modelando progressivamente um outro comportamento intelectual. Isto, naturalmente, sem abrir mão do livro didático, da literatura, da poesia, da realidade, cuja riqueza e dinâmica se entrelaçam com os conteúdos pedagógicos para darem sentido à escola, à vida.

O cenário é de convergências de mídias, que abriga vários suportes midiáticos e permite a re-construção do conhecimento, com novas informações a partir de observações e ações, possibilitando a transformação dos educadores e dos educandos. Neste sentido, o receptor que até pouco tempo tinha um papel passivo, hoje pode, ao receber ou buscar uma informação, influenciar, modificar e ser também agente produtor de mensagens. Essas ações alteram e alteraram nossa forma de agir, de pensar e de nos relacionarmos com a comunidade e com o próprio meio, reestruturando as relações interpessoais com a sociedade (Camargo, 2011).

Dentro dessa realidade, pode-se observar que os mais jovens se integram melhor ao audiovisual e às novas tecnologias, enquanto muitos indivíduos ainda mantêm certa resistência e incapacidade de aproximá-las do universo cotidiano. A partir deste contexto acreditamos na importância de novas aprendizagens e vivências. Para aqueles educados no sistema mais tradicional, essa nova cultura é um elemento estranho; porém, para os jovens que nasceram dentro dela, é tão natural como o ato de respirar. Os mediadores desses processos são os educomunicadores. Resta aos “antigos” adaptar-se à nova realidade ou sucumbir a ela.

Educomunicação como prática pedagógica

Um projeto utilizando essa metodologia de prática pedagógica e pesquisa foi realizado em duas escolas municipais de Hortolândia como parte do projeto Tecnologias e Mídias Interativas na Escola (Time). Possibilitamos aos estudantes a construção de seus suportes de comunicação e de divulgação a partir das suas escolhas dos conteúdos, ligados ao currículo da escola, e o desenvolvimento de atividades que conduziram a uma reflexão sobre os impactos da tecnologia da informação e da comunicação. Houve adesão das professoras e os objetivos do projeto foram alcançados. Essa experiência foi transcrita para um livro eletrônico.

A educomunicação (Barbero, 1987; Kaplun, 1998 e Soares, 200,2007, 2011), é uma vertente no universo de ensino-aprendizagem que envolve um novo perfil profissional, conhecedor, de um lado, tanto da área da comunicação quanto da educação e, por outro, imerso nas transformações políticas que podem ser propiciadas pela escola e pelos efeitos da comunicação . Na educacomunicação o uso da mídia na escola pode se dar de duas formas. A primeira delas pela leitura crítica da mídia e a segunda pelo uso das ferramentas da comunicação no processo de aprendizado. Um é complemento do outro.

Para a leitura crítica da mídia e do mundo é necessário um leitor atento, um leitor que não se limite à leitura de um veículo, mas de vários, para que possa comparar os conteúdos, as abordagens e as linguagens para só então fazer sua própria leitura de cenário de forma ampla, contextualizada e não fragmentada, ideologizada. Aprender sobre o mundo editado pela mídia, ler além das aparências e compreender a polifonia presente nos enunciados da narrativa jornalística não é tarefa fácil, mas desejável para a leitura crítica da mídia (Caldas, 2006, p.122).

No uso das ferramentas da mídia (rádio, tv, jornal, revista, mural, mídias sociais), o aluno pode partir da leitura das mídias do universo em que vive para re-elaborar suas próprias leituras a partir da construção viva desse universo. Ao relatar uma história de seu bairro, de sua comunidade, de seus habitantes, passará a ter voz e conhecer novas possibilidades de diálogo. Dessa forma, ganha voz e transforma-se em um sujeito de sua própria história.

Nas ações educativas, o uso de recursos diversos da informação, principalmente dos meios de comunicação de massa, deve acima de tudo favorecer no alunado o desenvolvimento do espírito crítico, criando um diálogo produtivo e politicamente emancipado, e ainda ampliar sua capacidade de expressão. As áreas de intervenção no campo da educomunicação são as pesquisas e as práticas. As pesquisas são feitas por meio de investigações que problematizam a educação e a comunicação; e as práticas são realizadas por meio da educação para a comunicação, do planejamento e da gestão da comunicação.

Camargo (2011) evidencia isso ao afirmar que uma das áreas mais instigantes que se desenvolvem hoje no campo das ciências da comunicação é aquela que pressupõe colaboração estreita e efetiva entre duas disciplinas: a comunicação e a educação. Numa época em que as fronteiras disciplinares e as barreiras departamentais são destituídas com o objetivo de promover a convergência no campo teórico, a troca de experiências no campo universitário e a colaboração no campo da prática profissional, essas duas disciplinas convergem para o desenvolvimento da fecunda intersecção.

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Graça Caldas é jornalista, doutora em ciências da comunicação pela ECA/USP e tem pós-doutorado em política científica (DPCT/IG/Unicamp). É pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, professora no Mestrado em Divulgação Científica e Cultural (Labjor/Unicamp) e líder do grupo de pesquisa do CNPq “Comunicação, Educação, Ciência e Sociedade”. 

Vera Regina Toledo Camargo é doutora em comunicação com pós-doutorado em multimeios. É pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, professora no Mestrado em Divulgação Científica e Cultural (Labjor-Unicamp) e líder do grupo de pesquisa do CNPq “Comunicação, Educação, Ciência e Sociedade” .

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Referências

– Babin, Pierre; Kouloumdjian, Marie France. Os novos modos de compreender: A geração do audiovisual e do computador. Edições Paulinas: São Paulo, 1989.
– Barbero, Martin, J. (1987). “De los medios a las mediaciones”. Comunicación, cultura y hegemonia. México: Editoral Gustavo Gili, 1991.
– Caldas, Graça. “Mídia, escola e leitura crítica do mundo”. Revista Educação e Sociedade, 2006, v.27. p. 117, 130.
– Caldas, Graça; Camargo, Vera Regina Toledo. “Comunicadores e educadores”. Jornal Correio Popular. Editora de Opinião, 28 de agosto de 2013.
– Camargo, Vera Regina Toledo. “A construção da cultura midiática no universo educacional: linguagens e diálogos”. In: Tecnologias e mídias interativas na escola: projeto Time. Abreu, João Vilhete (org). Campinas, SP: Curt Nimuendajú, 2011.
– Freire, Paulo. A importância do ato de ler em três artigos que se completam. 23 a edição, SP: Autores Associados, 1989.
– Freire, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.
– Kaplún, Mário. Una pedagogia de la comunicación. Madri: Editorial de la Torre, 1998.
– Soares, Ismar de Oliveira. Educomunicação: o conceito, o profissional, a aplicação: contribuições para a reforma do ensino médio. São Paulo: Paulinas, 2011.
– ________________________. “A mediação tecnológica nos espaços educativos: uma perspectiva educomunicativa”. Comunicação & Educação, São Paulo, Ano XII, n.1, jan/abr 2007.
– ________________________. “ Educomunicação: um campo de mediações”. Comunicação & Educação, São Paulo, (19): 12 a 24, set./dez. 2000.

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