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Plágio: o que fazer?

2 comentários
25out

Por Joaquim Luís Coimbra
Professor na Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto, Portugal

A generalização das práticas de plágio é, entre outros aspectos, um sinal positivo dos tempos que correm. Entendamo-nos: mais jovens e mais diversos, quanto a muitas das suas características pessoais e sociais, acedem, hoje em dia, ao ensino superior, o que configura um fenómeno de massificação, ainda que não de democratização.

A Universidade perdeu uma parte de elitismo que, no passado, foi a sua marca distintiva. Os modos de socialização para a vida académica também se diversificaram, as proveniências sócio-económicas e culturais dos alunos alargaram-se: jovens com níveis bem distintos de capital social encontram-se na Universidade. A contrapartida de tal diversidade é que trouxeram para o contexto académico novos comportamentos, atitudes, necessidades e até problemas, que não eram habituais no passado.

Obviamente, os níveis de preparação para a aprendizagem de nível universitário são, hoje, também menos uniformes. A combinação deste complexo panorama com a facilidade de acesso a suportes tecnológicos de memória (não será o mero “decorar” ou “marrar” uma antiga e não reconhecida modalidade de plágio?), de disponibilidade constante e imediata, são parte da mistura quase explosiva que explica o aumento inédito de fenómeno de plágio.

Não caiamos, no entanto, na fácil e tentadora tendência de entender tal problema a partir dos estudantes e da sua atávica inclinação, quase natural, para a preguiça, o facilitismo e a aversão ao trabalho.

O plágio, como sinal, fornece uma excelente oportunidade para reflectir sobre o que a Universidade faz da juventude que a frequenta. Sem procurar identificar os antecedentes susceptíveis de explicar o problema em toda a sua abrangência e profundidade, a verdade é que a Universidade se encontra num processo de hiperespecialização que se exprime numa desinstitucionalização.

“A Universidade é uma indústria”

Em suma, e assumindo a hiperbolização admissível numa crónica, a Universidade é uma indústria. A expressão que marcou a viragem profunda no modo como as opções políticas começaram a transformar por dentro a universidade, no início da década de 80, “university-for-industry”, sugere ou requer uma actualização “industry-for-industry”.

A sua funcionalização, proletarização e instrumentalização têm vindo a pô-la de joelhos perante o mercado, a participar no jogo mercantil, a esvaziá-la da sua substância e, até, surpreendentemente, a alheá-la da sua relação com o trabalho e com a responsabilidade que aí deveria assumir (não confundir com a retórica da empregabilidade nem com a leviandade do empreendedorismo incondicional).

O que tem vindo, progressivamente, a ficar de fora? A capacidade de, pela via do conhecimento, questionar o mundo em que se vive, a possibilidade de imaginar transformações nele, a prática reflexiva rigorosa, abstracta e complexificante, a participação e contribuição no e para o saber, cultura e artes: enfim, as condições no seio das quais se desenvolvem pessoas e cidadãos autónomos.

Ao contrário, a mensagem implícita mais eficaz que, hoje em dia, a Universidade tende a transmitir está nos antípodas da autonomia: a confusão de meios com fins. Tudo é assimilável a “caixas de ferramentas” de que importa conhecer como funcionam, mesmo desconhecendo os fins, imediatos, mediatos ou últimos (culturais, políticos, económicos, tecnológicos, científicos) do seu uso. A funcionalização, tecnicização e “ferramentalização” da Universidade vão-na transformando numa enorme caixa de ferramentas que dispensa, além do mais, o trabalho de cada um pensar por si próprio.

O que fazem, neste contexto, os estudantes que plagiam? Limitam-se a recorrer, diligente e eficazmente, a uma “caixa de ferramentas” adaptada aos seus objectivos imediatistas e compatível com a incultura que tacitamente lhes é transmitida, em nome de um produtivismo desprovido de sentido e de uma competitividade que não se ousa questionar. Que desafio está, então, posto à Universidade?

2 thoughts on “Plágio: o que fazer?

  1. Realmente a questão do plágio tem rendido muitos processos judiciais e nós professores, temos cada vez mais, que ser multi-conhecedores(praticante da leitura constante para estarmos nos apropriando das diversas literaturas globais) .
    Utilizando a prática do “ctrl” C, “ctrl” V nos deparamos com laudas completas, sem que o educando tenha a mínima preocupação de por ali suas considerações finais !
    O ato da reflexão está muito distante na grande parcela destes educandos e as vezes outros profissionais; a midiaeducativa já é uma realidade sem sombras de dúvidas, no entanto, estes devem entender que elas estão aí para facilitar a apropriação do conhecimento e não tomá-lo como produção própria .
    Assim como a Cláudia postou, “as escolas e Universidades preparam o sujeito para “ser mais um” na roda viva da competitividade, onde o individualismo exacerbado se sobrepõe a questões relativas à humanidade”.
    Acredito que para a questão do “ctrl” C e “ctrl” V nas escolas e universidades ainda demorará muito para um debate bem vido debate nacional e reflexivo !

  2. Penso que o maior desafio da Universidade seja resgatar a sua “função” sócioeducativa, investindo num processo de aprendizagem que fomente as investigações, as criações, as produções proprias, as pesquisas relevantes, cujos resultados possam servir de ponto de partida para soluções de problemas que afligem a sociedade, formar cidadãos diferenciados com grande cadebal acadêmico-cultural e uma visão humanista ampliada.
    Creio que Paulo Freire, um dos maiores educadores brasileiros, em suas considerações é bastante enfático sobre a importância da educação que leve o indivíduo a “ser mais”. Entenda-se esse ser mais, como ser melhor, autônomo, consciente, trasnformador, cidadão atuante que, apropriando-se do conhecimento, será capaz de utilizá-lo em benefício próprio e da coletividade, questionando o instituído, refletindo e participando das mudanças necessárias.
    Hoje as Universidades preparam o sujeito para “ser mais um” na roda viva da competitividade, onde o individualismo exacerbado se sobrepõe a questões relativas à humanidade.

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