Precisamos ver tudo?

Por Patrick Rosa
Estudante de Jornalismo
Observatório da Imprensa

É fato que a internet e as novas tecnologias proporcionaram ao jornalismo um novo horizonte, com a pluralidade de vozes e um aumento em nível exponencial da diversidade de fontes que deram mais agilidade à divulgação das notícias e propiciaram ao leitor mais elementos para que ele próprio reconstrua um fato noticiado.

A quantidade de informação divulgada na rede todos os dias é avassaladora e seria necessário mais de uma encarnação para que um reles mortal se inteirasse de tudo que é publicado no ambiente online em 24 horas. O leitor pode ter acesso à mesma notícia em diversas plataformas: fotos, vídeos, áudios, enfim, tudo que permita ao leitor chegar o mais próximo possível do fato. Mas nesse contexto, cabe a pergunta: precisamos ver tudo?

Não é de hoje que o chocante e o escatológico chamam a atenção do público, e também não é novidade que os grandes grupos de comunicação explorem a audiência proporcionada pela utilização desses recursos. A violência, o crime, a guerra sempre foram um prato cheio para os grandes veículos de informação. Essa perspectiva de proporcionar ao público maior possibilidade de reproduzir a informação, “colocando o leitor cada vez mais próximo da notícia”, tem sido lugar-comum no grande jornalismo. Como certa vez destacou Dov Shinar, professor e doutor em Comunicação pela Universidade Hebraica de Jerusalém: “O alto valor da notícia é algo promovido por certos mecanismos na comunicação constituída por componentes como o heroísmo, o drama, a ação visual.”

Lembro todas essas questões para falar de um fenômeno nem tão recente no ambiente online: o Liveleak (http://www.liveleak.com/), site colaborativo britânico que divulga vídeos de toda parte do mundo. Criado em 2004, o site ganhou notoriedade em 2007, quando divulgou o vídeo completo da execução de Saddam Hussein. Os vídeos, enviados por voluntários de toda parte do mundo, têm em comum o fundo político e a violência explícita. Podem ser encontradas no endereço algumas centenas de vídeos que retratam execuções brutais, assassinatos em geral e todo tipo de tragédia. O site não divulga apenas vídeos, mas também fotos de decapitações e mutilações, como o acidente com um tigre que decepou o braço direito do menino Vrajamani num zoológico do interior do Paraná no mês passado.

O fotógrafo que chegou atrasado

Recentemente, a página voltou a ganhar visibilidade com a divulgação do vídeo em que o jornalista James Foley é decapitado por membros do grupo terrorista Estado Islâmico. Com o lema “Redefinnig the media”, algo como “redefinindo os meios de comunicação”, o site possui também textos, mas o que chama a atenção são os vídeos de assassinatos, que contam algumas milhares de exibições.

O que vale ressaltar aí é o conteúdo informativo. Sem filtros, todo esse material não passa de objeto para a curiosidade dos internautas. E será que o leitor precisa mesmo desses detalhes para a informação ser completa? Será que é preciso que o público assista às execuções e veja com seus próprios olhos para dar credibilidade à informação? Ao mesmo tempo, será que assistir à barbárie nua e crua nos deixará melhor informados?

Francamente não sei. Mas esses dias, vendo um manual antigo de fotografia da Arfoc, deparei com uma situação em que o fotógrafo contava uma situação em que ele havia chegado atrasado a uma cena de acidente, no qual uma mulher havia sido jogada para fora de um carro contra um poste. Na ausência de corpos para fotografar, o “fotojornalista” conta que jogou vinho no poste e colocou os pertences de alguns transeuntes próximos à cena para simular que fossem da vítima. Tudo, para dar maior “realismo” à cena, para deixar o leitor mais dentro o possível da notícia, mais “informado”. Era um manual de 1968, o que mostra que essa necessidade não é um fato recente no jornalismo.