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De meninas a mulheres

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13set

De meninas a mulheres num click
Por Lais Fontenelle
Mestre em Psicologia Clínica. Autora do blog infanciadeclarice.wordpress.com

Acabo de ver o recente edital da revista Vogue Kids de Setembro de 2014 e fico estarrecida com as imagens veiculadas por essa mídia – que fala diretamente com o público infantil ditando as últimas tendências de moda para crianças. As imagens rompem com o limiar, já bastante tênue nos dias de hoje, entre meninas e mulheres. O ensaio fotográfico da revista traz outras fotos de meninas entre 7 e 9 anos em poses mais do que sensuais, tirando a camiseta, fazendo caras e bocas em frente às câmeras e para vender o quê? Roupas?!

Qual menina nunca experimentou o salto alto da mãe ou se borrou com o batom vermelho da irmã da mais velha? Vocês dirão… Brincar de faz de conta com roupas do universo adulto e experimentar trejeitos maduros é importante para o desenvolvimento e faz parte do exercício de comportamentos futuros através da brincadeira, mas o que vemos nessas fotos está longe de ser brincadeira – até porque a intenção das fotos nada mais é do que chamar atenção das crianças para compra dos produtos- o que por si só já ataca a vulnerabilidade infantil no que tange os apelos de consumo posto que a maioria das crianças ainda não têm a capacidade crítica formada e a abstração de pensamento necessária para lidar com esses apelos sedutores como nós adultos. Sem falar das consequências emocionais que imagens como essas provocam no imaginário feminino infantil já que as pequenas moças crescem sendo doutrinadas e acreditando que uma roupa sensual ou uma pose erótica serão peças fundamentais para a expressão de sua identidade e aceitação social e expressão de sua identidade.

foto 11  foto 10Num país como o nosso que apontou dados extremos como 1.820 pontos de exploração sexual infantil nas rodovias federais, 241 rotas de tráfico de crianças e adolescentes para fins de exploração sexual, 13.472 denúncias de pornografia infantil na internet apenas no primeiro semestre de 2010 e 3.600 denúncias telefônicas de abuso e exploração sexual infanto-juvenil no mesmo período é muito complicado convidar nossas meninas a uma erotização precoce. Sem esquecer, claro, os dados recentes da pesquisa da WCF- World Childhood Foudation – que mostram que 65% das meninas exploradas sexualmente declararam usar o dinheiro da exploração sexual para comprar celular, tênis ou roupas que demonstra que a violência sexual infantil é, sem dúvida, uma questão delicada no país e que já não se restringe mais a bolsões de pobreza se manifestando de diversas formas, pois a vulnerabilidade econômica não é mais o grande fator a despertar esse tipo de violência dividindo a cena com apelos de consumo principalmente de moda e itens de indumentária.

Diante desses dados acima citados acho que não nos restam dúvidas de que essas imagens são uma violação dos direitos de nossas crianças e principalmente do direito que têm de ter infância – uma fase essencial de desenvolvimento físico e cognitivo. Meninas não devem sofrer o convite a se tornarem mulheres antes do tempo porque não estão preparadas para os olhares adultos que receberão de outros e o mercado tem o dever e a responsabilidade compartilhada de um olhar mais sensível, ético e cuidadoso para nossas crianças- prioridade absoluta em nosso país como prevê nossa Constituição Federal.

Não é de hoje, portanto que fatos como esse chamam atenção da sociedade civil e de profissionais que trabalham na luta pelos direitos das crianças. Em 2008 o Projeto Criança e Consumo do Instituto Alana denunciou a marca de roupas infantis Lilica Ripilica da empresa Marisol pela veiculação de outdoor na cidade de Londrina com uma foto nitidamente de erotização precoce.

Mas, depois de muitas idas e vindas uma nova representação foi endereçada ao Ministério Público do Estado de Santa Catarina (onde se localiza a sede da empresa) que após analisar o caso celebrou em 2.3.2009 um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com a Marisol S.A., no qual a empresa ficou comprometida a não mais veicular publicidade com imagens de crianças tais quais na denúncia apresentada e também a pagar uma multa compensatória ao Fundo de Reconstituição de Bens Lesados do Estado de Santa Catarina no valor de RS 20.000,00 o que demonstra que se denunciarmos ou fizermos a pressão necessária os abusos começam a ser coibidos. Podemos começar a mudar essa realidade ou pelo menos incomodar o mercado tanto quanto nos incomodam essas imagens. Façamos nossa parte! E um bom início é denunciar. Conheça o Projeto Prioridade Absoluta do instituto Alanawww.prioridadeabsoluta.org.br

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