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Volta às aulas

10 comentários
22fev

Por Flavia Lopes Lobão
Professora da Escola Sá Pereira e doutorando em Educação pela UFF

Para ensinar sempre é necessário o amor e o saber, porque quem não ama não quer, e quem não sabe, não pode. (Padre Antonio Vieira).

Essa experiência de volta às aulas, para mim, se repete há muitos anos e parece sempre inaugural no que diz respeito à realização de um sonho de escola, sua poetização e (re) encantamento. É nisso que penso/sinto em primeiro lugar: como alimentar este sonho? Novos vínculos de afeto com o grupo que nos espera estarão por ser construídos, assim como novos desafios com relação à pesquisa, ao conhecimento; isso quando se sabe que quase nada está pronto/dado, ou seja, que há um espaço grande para decisão coletiva do que será estudado, do que será posto na centralidade como desafio para grupo.

Parece claro que o reencontro precisa ser cativante! Certamente há uma complexidade aí que escapa aos limites deste texto, mas não é possível deixar de considerar que esse sonho é tecido tendo em vista uma série de condições objetivas e subjetivas, que vai dos aspectos mais miúdos, do cotidiano, aos macros.

Sendo assim, a cada ano, o momento volta às aulas parece atravessado por uma enormidade de desafios, mas que reforçam tal necessidade de (re) encantamento da escola: fazer sentido para as crianças/jovens sendo capaz, ao mesmo tempo, de produzir novos desafios intelectuais, estéticos, afetivos etc.

Ao considerar a complexidade de nossa realidade, a situação da Educação no Brasil, penso que não há como reiniciar um ano letivo sem pensar a questão do formação do leitor – da palavra e do mundo – na verdade, o “nó cego” que atravessa toda a formação escolar e acadêmica, com implicações na vida cidadã.

Um dia desses, lendo Ruy Duarte de Carvalho, encontrei-me com a seguinte ideia que sacoleja, especialmente, quem lida diariamente com o compromisso de educar:

quem é analfabeto nada lê, de fato, e também de fato pouco ou nada leem aqueles que se beneficiam de aprendizagens modernas mas evitam, recusam mesmo, porque antes do mais lhes intimida, toda a escrita que não lhes proponha uma sopa de letras liquidificada pelas tecnologias da midiatização…

Fico pensando nesse inusitado analfabetismo um pouco mais sutil. Vivemos num tempo em que parece não ter fim a quantidade de informação disponível, talvez nunca as pessoas tenham lido tanto, mas, paradoxalmente, parece que nunca leram tão pouco. Falo dessa experiência de leitura que arrebata e transforma. Essa leitura que interpela a vida parece já não ter mais espaço quando o desejo é estar, simplesmente, bem informado – sobre uma infinidade de coisas pulverizadas. De fato, pouco ou nada se lê quando não somos capazes de afirmar/reinventar um lugar de leitor diferente daquilo que já está previamente demarcado, visado. Qual tem sido a contribuição da escola para uma leitura atenta e bem cuidada, do mundo, de uma circunstância, ou ainda do outro? E, como iniciar um ano letivo, encontrar os estudantes, sem nos lembrar que estamos implicados nesta realidade?

Fico sempre na esperança de que algo seja realmente inaugurado nas escolas, e quem sabe deixaremos de falar em criar o hábito de leitura e passaremos a, pacientemente, cativar a leitura. Estaremos diante do desafio de transformação de práticas engessadas, e a primeira de todas as exigências para compreensão dos mecanismos e do funcionamento da linguagem é proporcionar a experiência de narrar e de ser ouvinte de narrativas. O professor será ensinante, mas também aprendiz, porque as compreensões serão sempre muitas e variadas, lançando os sujeitos envolvidos em novos processos de experimentação e de aprendizagem. Certamente que atuar nessa perspectiva exige uma compreensão de que a criança e o jovem também educam, não apenas são educados. Reencontrar com nossos estudantes exige esta disponibilidade: uma atitude amorosa de reconhecimento/respeito pela alteridade.

Infelizmente, a realidade ainda aponta para a escola do “Psiu, falem baixinho! A Rainha pode ouvir!” Assim, menino e menina perspicazes vão se entregando, entrando no jogo que a escola faz, cansados por suas inúmeras tentativas de serem vistos, ouvidos, tocados, amados. Logo entendem que precisam crescer rapidamente para serem reconhecidos como igual. Mesmo que isto signifique sacrificar sua felicidade real. Entretanto, aprenderam mais lições importantes: barganhar para receber atenção, cuidados, amor e crescer é ser alguém na vida. Se não se domesticarem poderão ser castigados ou abandonados, ficarem invisíveis, incompreendidos…e, quem sabe, até, transformarem-se em ninguém.

10 thoughts on “Volta às aulas

  1. Oi Flavia
    Teu pensamento tão pertinente, me leva à uma antiga questão q vivencio sempre quando em contato com as crianças em atendimento psicanalítico no consultório… Grande parte das escolas não têm como prioridade receber e perceber as crianças como únicas e ao mesmo tempo pertencendo à um grupo. Elas precisam da atenção individual primeiro, pois, como sabemos, cada uma vive num contexto familiar, social e tem seus próprios sentimentos e vivências. As escolas realmente preferem (porque é muito mais fácil), um grupo de robozinhos q haja conforme os padrões q lhe são oferecidos?… Impostos?… Espero ainda ver uma mudança q não seja apenas pontual em pouquíssimas escolas, sobretudo nas q recebem para “educar” crianças pequenas.
    Um beijo,
    Beth

  2. Belíssima reflexão com abordagem muito lúcida. Nestes tempos de excesso de informação temos mesmo vivenciado algum retrocesso no que se refere ao leitor. Como você e Valéria dizem, leitor em várias instâncias. Cada vez mais o BOM professor precisa dar tratos à bola para conseguir manter o foco, o desejo e, principalmente o encantamento de meninos e meninas pela leitura e seus desdobramentos. Mais uma vez, está de parabéns pela sua prática, sua constância na luta e pelo seu encantamento irrepreensíveis! Um enorme beijo.

  3. Belíssima reflexão com abordagem muito lúcida. Nestes tempos de excesso de informação temos mesmo vivenciado algum retrocesso no que se refere ao leitor. Como você e Valéria dizem, leitor em várias instâncias. Cada vez mais o BOM professor precisa dar tratos à bola para conseguir manter o foco, o desejo e, principalmente o encantamento de meninos e meninas pela leitura e seus desdobramentos. Mais uma vez, está de parabéns pela sua prática, sua constância na luta e pelo seu encantamento irrepreenssíveis! Um enorme beijo.

  4. Flávia, aprendi um bocado lendo seu texto. E a mensagem carregada na parte final deveria estar entranhada nos corações de professores, diretores, da escola enfim. Tarefa árdua, mas necessária.

    Alexandre Brandão

  5. Belo texto, Flavia! Suas reflexões são sempre pertinentes e, principalmente, de grande sensibilidade.
    Beijo,
    tania

  6. Acho interessante como você conduziu o artigo de uma textura tão poética para uma tão política. Porque, para mim, não há questão mais política na Educação Brasileira do que, efetivamente, a formação do leitor-cidadão-leitor-trabalhador-leitor-liderança-leitor-consumidor… enfim… em quase tudo, nessa nossa forma de ser, humana.

    E eu juro que queria saber, ter de maneira clara no meu entendimento, o que efetivamente aconteceu/acontece pra que a gente (eu, você e muitos outros que conheço, que educam há muitos anos) tenha uma percepção de que nunca se teve tanto acesso a informação da leitura (e da imagem!!!) e que isso, entretanto, não resolveu a questão da “formação do leitor” na nossa sociedade.

  7. Ótimo texto Flavia! Gostei especialmente da parte em que você fala o exercício inaugural de cada início de ano escolar. Nada é igual, logo, nosso olhar e sentidos para contemplar a sensibilidade de um novo grupo devem ser constantemente deslocados. Muito bom! Parabéns! Bjo grande, Naza

  8. É verdade que consome, Rute! Mas está justo aí a beleza, a única possibilidade do conhecimento se tornar uma grande aventura na escola.
    Abraço,
    Flavia

  9. Que lindo:
    “… há um espaço grande para decisão coletiva do que será estudado…”
    Em meu plano de curso coloquei esta meta, mas como é difícil concretizá-la. E olha que na educação pública estadual temos uma “autonomia” imensa. Mas administrar uma gama variada de interesses ainda me consome…

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