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02abr

Por Flávio Braga Mota
Professor da estudante Maria Eduarda, de 13 anos, vítima de bala perdida, no Rio de Janeiro

A noite de ontem foi de muito choro, tristeza e revolta. A tragédia que vitimou nossa aluna, Maria Eduarda, de apenas 13 anos, é um retrato fiel da realidade violenta e brutalizada na qual estamos inseridos: uma jovem de 13 anos foi morta por três tiros no pátio da escola que estudava, na comunidade da Pedreira, Zona Norte do Rio de Janeiro.

Perceberam a brutalidade, a gravidade do acontecimento? Uma menina, cheia de sonhos, amada por todos nós, teve sua vida ceifada na escola que frequentava, que fica numa das inúmeras zonas de guerra existentes na nossa cidade. Mas mesmo assim, parece que é preciso desenhar para algumas pessoas, que ousam minimizar a morte de Duda, atribuindo a sua morte a um “efeito colateral” de uma guerra há muito perdida, a guerra contra as drogas. Duda foi mais uma vítima, assim como outros inocentes. Assim como inúmeros policiais. Assim como muitos bandidos. Em comum, a procedência de todas essas vítimas, que sabemos de cor e salteado, mas que muitos preferem tirar o foco disso. Preferem discutir se as balas partiram de armas da polícia ou dos traficantes; preferem dar importância ao engarrafamento caótico que um protesto pela morte da Maria Eduarda gerou na Avenida Brasil; preferem parabenizar os policiais que executaram dois bandidos na frente de uma escola.

O dia 30 de março ficará marcado para sempre na minha memória. Na manhã desse dia, dei aula para a turma de Maria Eduarda. Em algum momento da aula, fiz um discurso que num primeiro momento achei duro, mas que se fazia necessário. Falei que pessoas como nós nascemos, (sobre)vivemos e morremos com um alvo em nossas costas, mas que não necessariamente seríamos “abatidos” à bala, mas também pelo preconceito, pelo descaso, pela desconfiança. Mas que tínhamos que fazer algo para que isso mude. Talvez a associação com “alvo” e “ser abatido” tenha sido um presságio. Duda foi abatida como se tivesse, de fato, um alvo em seu corpo. É impossível que as três balas que a atingiram sejam perdidas. Tinham endereço, nome, sobrenome, faixa etária, cor, classe social. Não foi só Maria Eduarda que morreu com esses três tiros. Cada tiro desses tirou um pouco da vida de cada aluno, de cada pai, de cada família, de cada professor e de cada funcionário da Daniel Piza. A dor de cada um de nós se mistura com a revolta e a raiva. Não tem como saber ao certo onde cada sentimento começa e termina. É o tipo de situação que não desejo para ninguém, mas, sinceramente, por todo o esforço que fazemos diariamente na Daniel Piza, muitas vezes além de nossa capacidade, não mereceríamos tamanho revés. Não sabemos como voltar à normalidade, se é que ela voltará.

Diante de tudo isso, algo me marcou e foi motivo para eu derramar ainda mais lágrimas: um dos meus colegas de trabalho da Daniel Piza, Junior, professor de História como eu, compartilhou um depoimento emocionado sobre o que aconteceu ontem que tanto eu como outros amigos compartilhamos nas redes sociais. E no final do texto, ele diz: “Mas nada se comparou a dor sentida ao ler a mensagem que recebi do professor que mudou o colégio com sua nova forma de organizar a Educação Física, dando esperança a dezenas de alunos-atletas, que até então eram apenas ‘péssimos alunos’ ou ‘projeto de marginais’: ‘Obrigado, Júnior. Mas a minha pergunta é: do que adiantou eu ajudar ela a sonhar?’ “. Um sonho interrompido. Que hoje dá manchetes, gera discussão, mas que amanhã será esquecido diante de um novo ato de barbárie. Até quando?

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