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Carona inteligente

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03nov

Por Danilo Mekari
Do Portal Aprendiz

Parado em uma esquina do bairro de Higienópolis, na região central de São Paulo, um grupo de crianças aponta a entrada de um prédio: “A Luísa tá vindo!”. Após alguns instantes, Luísa chega de mochila nas costas, vestindo um colete de pedestre verde-limão onde se lê “Carona a Pé – caminhando juntos até a escola”. Acompanhados por dois adultos, um grupo de cerca de dez crianças anda tranquilamente pelas ruas do bairro – buscando seus colegas de porta em porta – até chegar ao Colégio Equipe, para a aula no período vespertino.

conheça mais sobre o projeto

A inciativa surgiu em junho de 2015, a partir de uma ideia de Carolina Padilha, professora do Equipe. Moradora do bairro, Carol costumava encontrar alguns de seus alunos indo para a escola a pé – acompanhados pela mãe, irmão ou babá. Afinal, por que essas crianças não poderiam caminhar juntas até a escola?

“Não é fácil para nenhum pai criar um filho nessa cidade enorme”, afirma Carol. “Então é melhor a gente se juntar em um movimento que crie parceria entre os pais e afinidade entre as crianças.” Inspirada em projetos que já acontecem ao redor do mundo, a iniciativa promove uma mobilidade urbana mais ativa, caminhante e direcionada aos pedestres. Cerca de 30% dos alunos de Ensino Fundamental I do Colégio Equipe participam do Carona a Pé.

O Colégio Equipe vê a ação como uma mobilização comunitária e não participa diretamente de sua execução, mas dá apoio ao projeto. No blog da escola há um texto sobre a iniciativa que afirman que “a educação das nossas crianças acontece não apenas do lado de dentro dos muros da escola, mas em todos os espaços”.

Hoje, o Carona a Pé promove oito rotas diárias para as turmas da manhã e da tarde chegarem ao colégio, reunindo 25 adultos (a maioria mães e pais dos próprios alunos) e cerca de 82 crianças, que tem entre 4 a 12 anos. O número equivale a 30% do total de estudantes do Ensino Fundamental I do Colégio Equipe.

“O Carona”, como chama Carol, “nasceu de uma maneira orgânica, pois essa necessidade surgiu espontaneamente dentro da própria comunidade. Decidimos não esperar por mudanças na cidade para botar as crianças na rua, mas o contrário: fazê-las vivenciar o espaço público, que aos poucos vai sendo transformado com a sua presença. Já reivindicamos por novas faixas de pedestres e mudanças no tempo do semáforo, por exemplo.”

A professora define a ação como uma atitude ousada. “Estamos criando vínculo não apenas com a cidade, mas principalmente com as pessoas que vivem nela. Isso cria um ambiente de segurança para a criança circular pelo espaço público – pois se relaciona com o jornaleiro da banca, o homem da banca de frutas.”

Reprodução

A partir de um ponto de encontro inicial, o grupo percorre um itinerário que passa pela casa de colega e por outros pontos de encontros – combinados estrategicamente para aqueles que moram longe da escola poderem fazer o final do trajeto a pé. Alguns combinados são feitos com as crianças: andar perto dos prédios, de mão dada com pelo menos um amigo, sem ultrapassar o adulto que está à frente e sem atravessar a rua sozinho. Durante o caminho, as crianças apontam para vasos pendurados em postes, brincam com cachorros e dão bom dia ao jornaleiro. Não restam dúvidas de que a sua relação com o espaço urbano se desenvolve positivamente em uma ação como essa.

Pais e mães responsáveis por acompanhar o grupo utilizam o Whatsapp para se comunicar e avisar sobre atrasos e desistências, além de combinar um rodízio de adultos que conduzem a ação. Mãe de Luísa, Renata Morettin acompanha as rotas desde agosto de 2015. Ela conta que já levava a filha a pé para a escola, mas o projeto estimula um outro olhar da pequena perante à cidade. “As crianças passam a se apropriar da rua e a conviver melhor entre si. Além disso, chegam na escola de um jeito mais tranquilo e saudável, o que contribui para a sua aprendizagem”, aponta.

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