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A crise e a educação

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Publicado em Destaques, Matérias
07nov

A Universidade de Brasília recebeu, nesta segunda-feira, dia 6, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos e a ex-ministra da igualdade racial Nilma Lino Gomes, para a conferência Crise Global e consequências para Educação e Universidades Públicas: a defesa da Universidade e da Educação como justiça social. O encontro foi aberto ao público. Em entrevista à Secretaria de Comunicação da UNB, Boaventura de Sousa Santos disse ser “um dever contribuir para a defesa da universidade pública”. “Em especial a UnB, de que sou doutor honoris causa”, destacou.

Confira abaixo a entrevista que o professor concedeu.

Secom – O título do encontro pressupõe que atravessamos uma crise global. Como você enxerga este momento?
Boaventura de Sousa Santos – As crises são endêmicas ao capitalismo. O importante é caracterizar a crise atual. Ela assume diferentes manifestações nas diversas regiões do mundo. De maneira geral, podemos dizer que ela se assenta no domínio sem precedentes do capital financeiro, a cujos interesses o Estado vem sendo reconfigurado para servir mais fielmente. Para isso, é necessário esvaziar o potencial de inclusão social contido na democracia. Observamos que a violência deste movimento é tanto maior quanto mais desarmados estiverem os partidos e os movimentos sociais que têm potencial para organizar uma resistência eficaz. Este desarme tende a ser temporário, mas, enquanto durar, causará muito sofrimento humano e uma crise ecológica sem precedentes.

Secom – Como a América Latina, e o Brasil, em específico, se inserem neste contexto?
Boaventura de Sousa Santos – Os diferentes países latino-americanos têm histórias distintas, com o fundo comum do colonialismo europeu. As democracias no continente têm sido, em geral, pouco estáveis, com períodos frequentes de ditadura ou de estado de emergência mais ou menos prolongados. São sociedades com profundas desigualdades sociais, com um grande domínio das oligarquias e, mais recentemente, de burguesias totalmente dependentes dos centros capitalistas do norte global, sobretudo dos Estados Unidos.

Secom – Que ações ou omissões ao longo da história recente resultaram neste caminho?
Boaventura de Sousa Santos – Na primeira década do milênio, um conjunto de circunstâncias permitiu a emergência de governos populares em alguns países, como por exemplo no Brasil. Em geral, esses governos resultaram de graves crises nacionais, combinadas com fortes mobilizações populares. Isso permitiu que a democracia representativa liberal se legitimasse junto das classes populares, mediante a pressão que sobre ela foi exercida – quer por mecanismos de participação popular (democracia participativa), quer por via de alguma redistribuição social. Mas as forças progressistas apenas conquistaram o controle do governo, não do poder social excludente e antidemocrático, que continuou a pressionar o governo como sempre fizera. Assim, não mudaram o modelo de desenvolvimento econômico, extrativista. Pelo contrário, aprofundaram os seus efeitos sociais negativos para a natureza, os camponeses, os povos indígenas e quilombolas. Também não levaram a cabo uma reforma política nem uma reforma tributária, tampouco uma reforma da mídia.

Secom – Que sinais decretaram o comprometimento deste modelo de governo?
Boaventura de Sousa Santos – Esse modelo revelou-se insustentável não só porque a procura internacional das commodities não se manteve ao mesmo ritmo, mas também porque o imperialismo americano, alarmado com a autonomia relativa destes governos (nacionalistas, pró-BRICS ou pró-ALBA), voltou a olhar com mais atenção para o continente depois dos desastres sofridos no Oriente Médio. Foi assim que começou uma nova época e um novo estilo de interferência imperial, centrada no aproveitamento das debilidades destas democracias, desfigurando-as por dentro, a ponto de não serem necessárias as ditaduras militares, que agora estão fora de moda.

Secom – E qual seria este novo estilo de interferência em curso?
Boaventura de Sousa Santos – Ele possui dois pilares. O primeiro diz respeito a golpes institucionais, que se concretizam em uma zona cinzenta entre legalidade e ilegalidade, levando as instituições a agirem à beira do caos, sejam elas o poder judicial ou o parlamento – isso provoca um estresse institucional com poucos precedentes. Em segundo lugar está a promoção de frentes de extrema-direita e pró-fascistas, mas de fachada democrática. Esses grupos usam a rua e as redes sociais para liquidar líderes políticos progressistas e as causas sociais, sejam elas sindicais, feministas, antirracistas, ou outras causas e lutas que, até há pouco, pareciam conquistas irreversíveis porque eram tidas como civilizacionais.

Secom – E quais são os principais obstáculos postos à resistência popular a essa situação?
Boaventura de Sousa Santos – Tudo isso ocorre sem que seja visível a resistência organizada. Os golpes institucionais começaram em Honduras (2009), a que se seguiram os golpes do Paraguai (2012) e do Brasil (2016). Estes golpes, de forte intervenção externa, aproveitaram bem todas as debilidades dos governos, tais como: corrupção, lideranças personalistas, ilusão de poder enriquecer tanto pobres como ricos no mesmo processo de dependência internacional – baseado numa exploração de recursos naturais com gravíssimas consequências sociais e ecológicas –, integração social pelo consumo e não pela cidadania, entre outros. Por sua vez, a virulência ideológica das forças de extrema-direita tem um respaldo interno e internacional que utiliza todos os meios, sobretudo a grande mídia e as religiões orientadas para a teologia da prosperidade.

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