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Jovens da periferia

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21ago

Na infância, Thayná não podia usar a cor vermelha, considerada uma provocação à facção do tráfico que dominava o morro onde morava. Quando o tráfico deixou de dominar sua comunidade, Flavia descobriu que podia fotografar o céu. Bianca e Jaqueline recebiam olhares tortos nas ruas por seus cabelos coloridos, piercings e tatuagens. Lucas admira a mãe por assumir que retirou um seio devido a um câncer de mama. Bianca Helena acompanhava a mãe em seu trabalho como catadora de um lixão. Helen assumiu o cabelo como sinal de orgulho de sua cor. Experiências pessoais diversas, resultaram em algo em comum: trabalhos artísticos que estarão expostos na mostra Co.Mo.Ver, uma seleção de obras produzidas por jovens ao longo dos 12 anos de existência da Oi Kabum! Escola de Arte e Tecnologia, que atua nas cidades do Rio de Janeiro, Recife, Salvador e Belo Horizonte. A exposição celebrativa abre no dia 31 de agosto, na Oi Kabum, de Ipanema, no Rio. Os interessados terão até o dia 4 de outubro para conferir o trabalho.

Além de esteticamente original — por ser fruto de uma formação que estimula a experimentação multimídia — o conjunto de trabalhos propicia uma reflexão sobre como vivem, o que pensam, o que sentem e como se expressam os jovens da periferia. Os projetos revelam forte conteúdo social, mas sem recorrer a palavras de ordem ou formatos panfletários. Ao privilegiar questões de identidade e de autoafirmação de cada jovem — subjetiva, familiar, social — os projetos alcançam sentidos universais.

Consumismo, meio ambiente e homofobia, por exemplo. Temas sérios, com sentido histórico e político, sujeitos a toda sorte de discurso pronto e engajado, estão presentes nas obras dos jovens da Oi Kabum!, mas de forma sutil, como desdobramento de suas vivências pessoais e de sua relação com a arte.

No curta-metragem O Plano do Ano (foto acima), as mudanças climáticas estão subjacentes ao olhar de duas crianças da favela metidas a cientistas e imbuídas da missão de salvar o mundo. Na série de aquarelas Meninos Veados (BH), o rótulo preconceituoso é desconstruído com leveza e humor, em forma de “galhos” sobre as cabeças. Em Então é Natal, jovens cariocas fizeram paródias de músicas natalinas ridicularizando a onda consumista dessa época do ano, “cantadas” por caixas de presentes cujos rostos são animados pela técnica de projeção mapeada.

Para jovens vindos da rede pública de ensino e de famílias de baixa renda (perfil de todos os formados pela Oi Kabum!), o que significa tomar contato com tecnologias de ponta e passar a circular por áreas e relações antes vedadas devido à desigualdade social? Eles constroem olhares híbridos, que misturam improviso, informalidade e gambiarra, por um lado, com técnicas, ferramentas e formatos digitais, por outro.

As fotografias de Sal de prata (Recife) foram feitas em câmera pinhole (caixa de madeira) e serão exibidas em projeção mapeada na fachada do prédio do Oi Futuro Ipanema. Outras animações usam recortes, massinha e técnicas manuais de pinturas sobre frames de vídeo, por exemplo.

Quanto à circulação democrática pelas ruas e pelas artes da cidade, os projetos retratam como eles se apropriam do espaço urbano, desconstruindo conceitos consagrados pela grande mídia, que reproduz a cultura da elite. Dentro de mim mora um lugar: o título deste trabalho fotográfico desenvolvido em Salvador resume essa dicotomia entre vivência subjetiva e relações urbanas.

Os pontos de vista dos jovens da Oi Kabum!, só eles têm. São variados, pois resultam de centenas de indivíduos num período de 12 anos e em quatro cidades diferentes. Mas também tem muito em comum, e muito de incomum. Para saber o quê, só mesmo visitando a mostra Co.Mo.Ver.

Vai ver se eu tô na esquina!
Uma novidade que faz parte da mostra é o projeto A esquina. Trata-se de um ponto de encontro de jovens, artistas, produtores culturais, pensadores de diferentes camadas sociais do Rio de janeiro, onde tudo pode acontecer: cursos, oficinas, palestras e eventos — um ambiente democrático de intercâmbio e transcriação cultural. Quem chega à esquina pagando propicia vagas gratuitas para se encontrar com quem não pode pagar. Todos os recursos arrecadados revertem para um fundo que financia as atividades gratuitas promovidas pela Oi Kabum! Rio.

Confira aqui a programação do esquina

E outras coisas
A mostra também promoverá eventos paralelos: sessões de vídeos adultos e infantis; sessão do cineclube Pingado, um projeto de jovens da Oi Kabum! Rio; lançamento do livro Arquivo Oi Kabum! 12 Anos: Juventudes, Experiências e Aprendizados em Arte e Tecnologia; e debate sobre arte jovem da periferia e metodologias inovadoras de educação.

E como ver a mostra?

Como ver uma exposição que tem como autores dezenas de jovens de quatro cidades ao longo de 12 anos? As infinitas respostas possíveis a esta pergunta concentram-se em uma palavra de múltiplos sentidos: como ver, co-mover, comover. Move-se o conjunto de criações artísticas: desmembram-se e se reordenam segundo as escolhas e combinações de cada curadoria local, no Rio, em Recife, em Salvador, em Belo Horizonte. Co-move a expressão colaborativa e compartilhada de jovens em seus movimentos corporais, relacionais e sociais, fruto do aprendizado em arte e tecnologia desenvolvido nas escolas Oi Kabum!. No contexto da criação experimental e do aprender pelo fazer, pode-se questionar padrões estéticos e comportamentais, pode-se considerar o desejo de expressão sem formas únicas ou pré-determinadas, pode-se brincar em variadas situações. No terreno da metamorfose própria da juventude, a espelhar mudanças pessoais e sociais situadas no agora, no passado ou no porvir, Co-Mover ocupa simultaneamente diferentes espaços e tempos. Onde, quando, como, por quê? As respostas estão no olhar do espectador, co-autor e co-movente desses deslocamentos da arte e tecnologia entre jovens do meio urbano brasileiro de 2003 a 2015. Então é com você: como vê?

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