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Ler é a maior diversão

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Publicado em Destaques, Entrevistas
26set

Por Luanna Tavares

O último final de semana foi marcado por poesias em Brasília. O Uniduniler Todas as Letras, que visa estimular a leitura e tem como público alvo os bebês, os pais, cuidadores e idosos, promoveu o IV Festival Itinerante de Leitura (FIL).  O evento foi composto por três frentes: leitura partilhada com mulheres e crianças vítimas de violência, leitura sensorial com os cegos do projeto “Deficientes Visuais na Trilha” e ainda uma oficina de leitura e memória com idosos. Além da escritora e jornalista Alessandra Roscoe, idealizadora do FIL, (finalista do Prêmio Jabuti 2013), outros dois autores participaram do projeto: João Carrascoza (Prêmio Jabuti de Literatura em 2015) e Luciano Pontes.

Pensando em dar continuidade às outras etapas do Festival, Alessandra acaba de lançar uma campanha de financiamento coletivo. Através do site benfeitoria.com/unidunilerIVFestival, os interessados podem contribuir. Se a segunda meta da campanha for atingida, haverá outra etapa com mais três eventos, com o escritor Alexandre Castro Gomes e a ilustradora Cris Alhadeff, ambos do Rio de Janeiro. E por fim, se a terceira meta for alcançada haverá ainda a revoada poética, com pipas ilustradas e o Concerto Literário com autores, ilustradores e mediadores de leitura, em um show com histórias, cantigas e performances de leitura e ilustração.

A revistapontocom conversou com a coordenadora do evento, Alessandra Roscoe, para saber um pouco mais sobre o Festival e as próximas etapas. Confira a entrevista!

revistapontocom – Qual é o objetivo do Uniduniler?
Alessandra Roscoe – Espalhar o bom de ler, partilhar leituras e afetos e mostrar que, seja com que público for, um livro aberto pode fazer maravilhas!

revistapontocom – Como funciona esse festival itinerante?
Alessandra Roscoe – Desde 2013 com escritores, ilustradores, mediadores de leitura, músicos e contadores de histórias, a caravana poética do Uniduniler Todas as Letras percorre creches, escolas, asilos, hospitais e casas abrigo, levando ações de incentivo à leitura literária e com públicos nem sempre acostumados aos livros.

revistapontocom – De onde surgiu a sua paixão pela literatura e a ideia de criar o Uniduniler?
Alessandra Roscoe – Desde 1997, quando grávida da minha primeira filha, comecei a criar grupos específicos de leitura para o ventre. Eu nem imaginava ser escritora naquela época, era leitora ávida e já sonhava em dividir leituras. Quando nasceram os bebês daquele grupo, veio a vontade de experimentar a palavra lida também com os bebês, a busca pelas leituras sensoriais e as pesquisas sobre a leitura na primeira infância. Em 2007, já com alguns livros publicados, fui convidada para um momento de leituras e histórias no Hospital Universitário de Brasília e achei que iria me encontrar com um grupo de crianças em tratamento, mas para minha surpresa fui recebida por idosos em tratamento de Alzheimer e seus acompanhantes. Em 2009, já respaldada por anos de pesquisas e trabalhos focados na leitura com bebês, criei na creche onde minha caçula estudava o Uniduniler, um clube de bebês leitores com encontros permanentes de troca de livros e leituras partilhadas. Tínhamos um acervo próprio carregado numa dessas pequenas malas de mão, que toda terça-feira na hora da saída da creche, eu abria no chão mesmo, para que pais e bebês de 0 a 3 anos pudessem explorar juntos ali mesmo, sentados no chão e escolher um título para ler em casa. A cada terça todos devolviam o que tinham levado e pegavam outro livro. O clubinho durou quase quatro anos e se cotizava para renovar o acervo e realizar ações com escritores e ilustradores convidados, piqueniques literários e todo tipo de evento, tendo sempre os livros como ponto de partida. Em 2012, resolvi, respaldada pelas experiências das oficinas de leitura com bebês e também com idosos, escrever um projeto para concorrer em editais de cultura e poder realizar um Festival de incentivo ao prazer de ler em qualquer idade. Assim nasceu o Uniduniler Todas as Letras – Festival Itinerante de Leitura. Na maioria dos eventos literários os leitores vão ao encontro dos escritores e dos livros, mas o FIL sempre se voltou para aqueles que quase nunca têm acesso aos livros e quis inverter um pouco essa lógica do “quem quer tem que correr atrás”. A proposta é fazer com que os escritores e ilustradores estejam nos locais onde nem sempre há livros e leituras. O objetivo principal é partilhar histórias e leituras e mostrar o quanto uma voz afetiva, uma leitura dedicada ao outro, um livro aberto, podem estimular potencialidades e mudar realidades. No festival, as leituras acontecem de maneiras inusitadas, como por exemplo, nas pipas ilustradas, para incentivar nas crianças o prazer de ler e de descobrir nas leituras também muitas formas de brincar.

revistapontocom – Por que escolheu trabalhar com fases tão extremas: bebês e idosos?
Alessandra Roscoe – Exatamente porque estão sempre meio afastados do público que os grandes e tradicionais eventos literários buscam. A primeira infância ainda é muito negligenciada no Brasil em termos de cidadania e direitos culturais e a população idosa também é sempre muito esquecida. A ideia do FIL é chegar com livros, leituras e afetos onde os livros sequer estão presentes. Nos asilos, abrigos e hospitais, os eventos de formação e preparatórios do Festival mostram que mesmo com um acervo pequeno, desde que de qualidade, é possível estimular momentos de bem estar e até melhoras na saúde geral dos internos. Entendi que mais do que leitora e escritora, meu caminho é o da mediação. Como dizia o escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós, com quem tive a alegria de conviver, “Do bonito, a gente não dá conta sozinho. Sempre que nos vemos diante de algo incrivelmente maravilhoso, pensamos: puxa, porque fulano não está aqui para ver isso comigo?”. A beleza que os livros trouxeram em minha vida, não cabe só em mim, nas páginas que escrevo. Escrevo para dar conta do tanto de dor, espanto e maravilha que carrego comigo, mas isso não basta. Preciso mais que ler e escrever, dividir esse amor aos livros e a tudo o que eles podem nos permitir! O Festival Itinerante de Leitura é essa beleza dividida!

revistapontocom – O Uniduniler também estimula a leitura entre bebês especiais. Como é essa experiência?
Alessandra Roscoe – A cada edição do FIL, fomos agregando experiências. Como já havia feito a leitura sensorial com bebês no primeiro Festival, quando estávamos pensando na programação do segundo perguntaram-me se eu não poderia realizar com bebês cegos, autistas e com outras necessidades especiais. Disse que nunca tinha feito, mas decidi tentar. E foi incrivelmente maravilhoso perceber o quanto livros e afetos podem ser mesmo a antítese das impossibilidades. Na última edição, perguntaram-me se eu não podia fazer as leituras sensoriais que eu já fazia com bebês especiais, com deficientes visuais adultos. Fiquei imaginando o que poderia fazer com eles, já que meu material sensorial era todo pensado para os bebês e, certamente, não faria sentido para os adultos. Resolvi aprimorar as formas de ler sensorialmente e buscar respaldo também nas associações do trabalho de leitura e memória realizado com os idosos e outra vez foi um sucesso. Este ano, o Festival perdeu o patrocínio institucional e estamos com uma campanha de financiamento coletivo (https://benfeitoria.com/unidunilerIVFestival ), para tentar realizar mais ações. Se todas as metas forem atingidas na campanha, conseguiremos outra inovação: um trabalho com bebês de mães encarceradas no sistema prisional.

revistapontocom – E com os idosos… 
Alessandra Roscoe – O que me levou a começar o trabalho mais constante de leitura e memória com idosos foi uma situação que eu vivenciei no dia em que fui ao HUB achando que iria encontrar um grupo de crianças. Levei malas de histórias, violão e até um arco-íris gigante que usava para contar a história de um dos meus livros, O Jardim Encantado. Quando me deparei com o grupo de idosos (e nem sabia que eles estavam ali num projeto do próprio hospital que no contra turno das consultas incentivava a arte como parte do tratamento do Alzheimer), não vi sentido em contar aquela história, como costumava contar e cantar para as crianças. Por sorte, estava com meu último texto escrito à mão mesmo, numa folha de caderno e era um texto sobre o tempo, a falta que o tempo faz e o cofre precioso das nossas memórias. Como não tinha o livro publicado (o que só aconteceu anos depois), levei o conto, que se chamava Caixinha de guardar o tempo, dentro de uma caixa. Fiz a leitura em voz alta para eles. Disse que se pudesse ter uma caixa para guardar o tempo, a primeira coisa que colocaria nela, seria o jardim da casa dos meus avós em Minas e contei (aí sim, exatamente como sempre contava para as crianças) a história do meu segundo livro publicado e fiz a leitura do Jardim Encantado. Quando terminei de ler, resolvi passar de mão em mão, a Caixinha que guardava o conto, perguntando a cada um o que gostariam de guardar ali pra sempre. Muitos guardaram momentos da própria infância, experiências como a primeira vez diante do mar, o nascimento dos filhos… Até que um senhor guardou na Caixinha, o cheiro do café da avó em dia de chuva e deu detalhes de como era a casa da avó, da convivência com irmãos e primos e das histórias que dividiam nos dias de chuva saboreando café em xícaras coloridas. A senhora que estava ao lado dele na roda, abriu a caixa e chorou dentro dela, copiosamente sem dizer uma palavra. Depois fiquei sabendo que era a esposa dele. Ele, já num estágio muito adiantado da doença, não falava há seis anos e não mais reconhecia familiares, mas depois de ouvir as leituras e histórias ali, voltou a falar e disse que se eu voltasse na semana seguinte, levaria a xícara de ágata azul que guardava desde a infância como uma relíquia. Claro que voltei na outra semana e em várias outras!

revistapontocom – Nesta quarta edição do Festival há alguma novidade?
Alessandra Roscoe – A principal delas é a forma de realizá-lo. Quando saiu o resultado do edital do Fundo de Apoio que garantiu a realização das três primeiras edições e o FIL não havia sido contemplado, bateu uma tristeza enorme e até um certo desânimo. Eu sabia que não podia deixar de realizar a IV edição e deixar Brasília sem o Festival Itinerante de Leitura. Apesar da crise e muito incentivada pelo Orlando Neto, que além de parceiro na vida, é também parceiro na realização e na construção do Festival, fez e refez várias contas e disse que faríamos com recursos próprios, nem que fosse uma única etapa, o IV FIL. Arregaçamos as mangas e decidimos fazer. A equipe do Festival, amigos e apoiadores das primeiras edições se juntaram a nós para fazer acontecer este sonho e decidimos colocar no ar uma campanha de financiamento coletivo. A campanha fica no ar até dia 9 de outubro. Dependendo de quanto arrecadar, realizaremos outras etapas ao longo de 2017 e também no primeiro semestre de 2018.

revistapontocom – O festival só acontece em Brasília?
Alessandra Roscoe – Ainda não me arrisco a caminhar por outros estados e países, até porque não temos uma logística que nos permita mobilizar públicos em outras cidades. A equipe do Festival é super reduzida: eu que coordeno e faço a curadoria, Orlando Neto que faz a produção, a Direção artística e musical dos eventos, Adriana Franzin, que cuida da fotografia e da Assessoria de Imprensa, Ronaldo Rosa, que filma e edita os vídeos do FIL, Daniela Gonçalves que é a designer e Tiana Oliveira, que faz a Assistência de Produção. Todos os outros que integraram o Festival participaram como convidados dentro da programação oficial. Com seis pessoas cuidando de tudo e apoiadores maravilhosos realizamos em três edições 60 eventos de incentivo à leitura, alguns grandiosos como a revoada poética na semana da criança em 2016, em que levamos para a esplanada do Ministérios, no coração político do país, mais de centenas de crianças da Ceilândia para empinar versos e ilustrações e “ler pipas ilustradas”.

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