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Na era digital, educação midiática combina com todas as disciplinas

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31out

Especialistas explicam por que as competências necessárias para um bom uso das mídias digitais são fundamentais em qualquer área do conhecimento e como favorecem o exercício da cidadania. Baixe novo ebook gratuitamente

Por Vir/Maria Victória Oliveira – 20/10/2020
Foto Capa – Instituto Palavra Aberta

Mensagens de texto quase 24 horas sem parar, memes, posts nos perfis de redes sociais, publicidade e muito mais. Hoje isso cabe na palma da mão e segue um fluxo rápido, afinal é só apertar encaminhar ou compartilhar. Em um mundo no qual uma quantidade infinita de conteúdo é produzida por segundo – a chamada Era da Informação –, a educação midiática apoia e encoraja a leitura crítica, a escrita com responsabilidade e a participação ativa na sociedade.

Para Mariana Ochs, coordenadora do programa EducaMídia, essas são habilidades fundamentais para um exercício pleno da cidadania. “Em um mundo onde todos produzem conteúdo, esse não passa mais por um filtro que fala se a informação foi checada e se é de qualidade. Portanto, podemos consumir algo enviesado ou mal intencionado. Enquanto produtores, também temos uma responsabilidade quanto à qualidade daquele conteúdo e consequentemente a manutenção de um ambiente saudável”, afirma.

Cada vez mais, a educação midiática se torna fundamental para a alfabetização. “A definição de alfabetização precisa ser atualizada a cada vez que muda o contexto tecnológico ou social de produção e circulação de informação na sociedade. Ser alfabetizado, hoje em dia, passa por ter as habilidades necessárias para saber encontrar a informação que você precisa, decodificar textos em vários formatos e linguagens, ler criticamente e entender sua natureza, de onde vem, quem publicou, com qual intenção, e saber se é confiável ou não. Tudo isso faz parte das habilidades necessárias para construir conhecimento.”

Esse debate é tema central do livro Guia da Educação Midiática (https://educamidia.org.br/guia), publicação organizada por Mariana Ochs, Daniela Machado e Ana Claudia Ferrari. Destinado a gestores e educadores, o material apresenta o contexto e definição da educação midiática, além de verbetes, conceitos e exemplos práticos de atividades.

Mariana explica que o livro foi pensado de forma a orientar educadores a trabalhar a construção das habilidades com os alunos como uma camada junto dos objetivos curriculares de qualquer disciplina. O Guia tem um conjunto de 15 sugestões de atividades e planos de aula de vários componentes curriculares. “Essa foi uma tentativa de demonstrar como, ao planejar uma aula, o educador pode pensar no objetivo curricular e também no objetivo midiático a ser trabalhado, seja ele discussão sobre fontes, confiabilidade, o papel das hashtags na sociedade, discurso de ódio, diversidade e representação na mídia e muitos outros”.

Leia mais:

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A educação midiática de forma transdisciplinar na escola

Na BNCC (Base Nacional Comum Curricular), documento que define os objetivos de aprendizagem ao longo da educação básica, as práticas de linguagem estão organizadas por campos de atuação de modo a favorecer o trabalho com a educação midiática: o campo jornalístico-midiático, práticas de estudo e pesquisa, atuação na vida pública e artístico-literário.

Por mais que os nomes dos campos pareçam restringir o trabalho ao professor de língua portuguesa, é importante pensar a educação midiática como um conjunto de ferramentas capaz de alcançar diferentes áreas conhecimento, de forma a conectá-la a trabalhos e projetos desenvolvidos em cada disciplina, e não como um componente à parte. “É um movimento de, dentro da proposta da disciplina, seja ela qual for, ensinar o aluno como trabalhar, ler e perceber o midiático naquele tema ou contexto. Não é algo separado, mas sim sobre a forma como o professor dá a aula usando as mídias disponíveis e todas as estratégias de educação midiática”, diz Carla Arena, cofundadora do Amplifica, que apoia a formação de professores em educação midiática.

No contexto educacional, professores precisam pensar em atividades que possibilitem que os alunos desenvolvam essas habilidades e, nesse sentido, o docente atua não como um detentor de conhecimento, mas como um orientador da aprendizagem do estudante. Portanto, antes de os alunos colocarem em prática essas habilidades, é preciso que o professor compreenda o conceito e as estratégias para trabalhar a educação midiática.

“O professor precisa de modelos para ter por onde começar. Além disso, nas nossas formações, sempre criamos comunidades de aprendizagem para que busquem e troquem informações e novas formas de fazer, sempre focado em como podem ajudar o aluno”, explica Carla. Além disso, a especialista pontua que, da mesma forma como o conceito de educação midiática deve ser aplicado em várias disciplinas, é importante que todos os professores tenham a oportunidade de participar de formações para se familiarizar com essa nova forma de ensinar.

Educação midiática com distanciamento social

Mesmo que professores e alunos estejam fisicamente distantes, impossibilitando a supervisão de pesquisas, por exemplo, é possível praticar a educação midiática fazendo uso amplo e criativo das ferramentas digitais disponíveis. Nesse processo, Carla reforça a importância de os alunos tornarem sua pesquisa o mais visível possível, de forma que o professor consiga acompanhar o processo de aprendizagem de forma online.

“Se estão trabalhando essa parte de investigação e pesquisa, o aluno pode usar o editor de textos e formulários, vídeos, representações visuais, textos, sínteses ou qualquer ferramenta para sistematizar o conhecimento que está pesquisando. A partir do momento que faz esse registro, o professor pode ir acompanhando. Ao mesmo tempo que fica mais visível para o aluno, fica também para o docente.”

Mariana, por sua vez, frisa que a pandemia e o ensino remoto acentuaram ainda mais a necessidade de a educação para o século 21 ir além da entrega de conteúdo. “Todo esse trabalho de construção da fluência digital nas escolas teve que ser muito acelerado e precisamos estar atentos, porque podemos cristalizar uma coisa muito errada, que é transpor para o online as aulas meramente expositivas, ou podemos aproveitar para construir um tipo de educação que dá mais autonomia para que alunos possam investigar, explorar e criar aprendizagem baseada em investigação, problemas e projetos.”

Ela conta que um dos especialistas ouvidos para a elaboração do conteúdo do Guia do EducaMídia afirma que, atualmente, não é apenas uma vantagem ter um letramento digital e midiático – mais do que isso, é uma desvantagem debilitante não ter. “Hoje em dia, a inclusão não está só no acesso à tecnologia, mas também na qualidade da experiência que você tem ao acessar a informação no ambiente digital. A construção dessas habilidades é a diferença entre você ter ou não ter uma experiência fortalecedora e construtiva no ambiente digital, que representa sua inclusão e a possibilidade do exercício da cidadania plena”, ressalta Mariana.

Na prática

Em um exemplo prático, a educação midiática permite um trabalho transdisciplinar envolvendo geografia e interpretação de dados e contextos. “Podemos trabalhar a questão das queimadas da Amazônia, por exemplo, fazendo investigação de gráficos divulgados por veículos noticiosos, uma vez que são elementos das narrativas. Dependendo de como são criados em seus eixos e como apresentam as informações, os gráficos podem passar mensagens diferentes”, afirma Mariana.

Ela cita também o caso da professora Gislene Lacerda, que depois de um curso do EducaMídia, se sentiu inspirada a unir o trabalho sobre peste negra, coronavírus e fake news (notícias falsas). “Quando fala-se vírus chinês, é possível interpretar a escolha de palavras e entender como isso está relacionado a xenofobia. A educação midiática também pode ser trabalhada quando você trata de conceitos relacionados a astronomia, física, gravidade e planetas. É possível introduzir a questão do terraplanismo e falar sobre teorias da conspiração ou sobre falsa equivalência, quando teorias que não têm a mesma representatividade dentro da comunidade científica recebem tratamento equivalente na mídia, por exemplo.”

Carlos Lima, coordenador do núcleo de Educomunicação da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, explica que a rede oferece formação continuada ao longo de todas as etapas de ensino, de forma a possibilitar que os educadores consigam visualizar o poder de produção dos estudantes. “Nas formações, não chegamos falando que vamos ensinar sobre educomunicação, porque quase ninguém sabe do que se trata. Nós partimos do princípio que os professores já desenvolvem alguma relação com as mídias, seja no trabalho ou para consumo pessoal. Partindo do que eles já sabem, vamos apresentando essa nova cultura, que é o uso da comunicação, das linguagens midiáticas e de suas tecnologias no fazer pedagógico. Assim, começamos a abrir as possibilidades para esse professor poder trabalhar a educomunicação”.

Devido a sua atuação na SME, Carlos tem contato com inúmeros projetos relacionados a educação midiática. Um deles é o telejornal Espaço Criança. “Algumas famílias de crianças não estavam deixando os filhos tomarem vacina pois viram alguma notícia no Facebook sobre o perigo das vacinas. Conversando com as professoras, as crianças chegaram a conclusão sobre a importância de desenvolver uma campanha, liderada pelos alunos, na qual iriam produzir vídeos conversando com agentes de saúde no posto médico. As próprias crianças deram uma definição de fake news, falando que é como se fosse uma notícia que diz que o Saci Pererê tem duas pernas”, exemplifica Carlos.

O coordenador também cita a experiência de estudantes da Escola Municipal Henrique Souza Filho, no bairro de Jardim Marilu (SP), que criaram um canal no YouTube no âmbito do projeto HENFILMES – Oficina de Cinema. Além de tratar temas de interesse das crianças e jovens, os vídeos também endereçam notícias da escola e assuntos da atualidade.

Além de crianças e jovens, o trabalho de educação midiática também é desenvolvido na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Nesse caso, Carlos cita a experiência do Centro de Integração de Educação de Jovens e Adultos (Cieja) Perus (SP). “O projeto envolve, inclusive, estudantes estrangeiros, pois a região conta com famílias haitianas. A proposta trabalha a questão da pluralidade  inclusão dessas pessoas, produzindo mídia comunitária com um blog, rádio e um projeto de leitura crítica da mídia e combate a desinformação e fake news.”

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