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06maio

Por Marcus Tavares

A tia faz o bolo. Os docinhos ficam por conta da avó. Os homens da casa se responsabilizam pelas bebidas, enquanto a dona da casa, pelos salgadinhos. Ah, sim, e as bolas? Bem, é só chamar a garotada e tudo fica pronto para a hora da festa. Som ligado, comida e bebida. Pronto: agora é só deixar a criançada se reunir e brincar à vontade.

Aniversário assim é coisa do passado, de álbum de família. Hoje, na maioria das grandes cidades brasileiras, festa infantil é sinônimo de espetáculo, com uma programação variada e extensa e que está ao alcance dos diferentes gostos e bolsos. Da decoração aos doces, não é preciso se preocupar com nada. Há uma infinidade de empresas especializadas e prontas para oferecer a festa idealizada pelas crianças – e pelos pais também!

À disposição da garotada um mundo de diversões, atividades e brinquedos (dos mais simples aos eletrônicos). Um mundo de sonho, no qual os personagens, muitas vezes, dos desenhos animados ganham vida – ao vivo e a cores – para admiração, alegria e, às vezes, espanto, das crianças. Foi-se o tempo que os personagens se contentavam em aparecer apenas nos copos, pratos, guardanapos, chapéus ou no grande painel da mesa do bolo.

As festas se transformaram numa mega produção. Dependendo do que é acertado com os animadores, por exemplo, são quatro ou cinco horas de entretenimento ininterrupto. Na pauta do dia: teatrinho, karaokê, mágico, palhaço, book eletrônico, tatuagem, cabeleireiro infantil, balé, quizz, gincana, danças e oficinas de criação… Isso sem esquecer, é claro, dos flashes e das câmeras das filmadoras, dos celulares, dos Ipods atentos a cada reação das crianças. Tudo perfeitamente registrado e documentado em áudio e imagem, compartilhado com familiares e amigos.

Trata-se de um mercado em franca expansão até mesmo em tempos de crises. Pelo menos é o que revela recente pesquisa da Universidade de São Paulo (USP). O levantamento mostra que o mercado infantil, incluindo festas, movimentou R$ 50 bilhões em 2013 no país, com crescimento de 14% ao ano, o dobro que o mercado “adulto”.

De olho no público e no mercado, desde março deste ano, o canal GNT apresenta o programa Fazendo a festa. Em cada episódio, uma ‘liga’ de profissionais – de decoração, bolo e doces, buffet e animação – apresenta ideias de como “decorar a mesa, fazer as lembrancinhas, preparar comidinhas e bebidas caprichadas, além de elaborar brincadeiras divertidas”. No site do programa, a apresentadora Fernanda Rodrigues avisa: “Queremos recuperar aquelas festas de ‘antigamente’, de quando toda a família era envolvida nos preparativos: desde o bolo, passando pela decoração, até a animação. A ideia é que as pessoas possam fazer as coisas em casa, utilizando suas louças e objetos pessoais, para dar um toque mais pessoal à festa”.

Você acredita? Nem eu.

O programa, nas entrelinhas, reforça o quanto as festas infantis estão muito longe das comemorações das gerações anteriores. Em uma entrevista que fiz certa vez sobre o tema, a psicóloga e psicanalista Maria Elisabeth Capistrano do Amaral afirmou que, nestas festas de hoje, não há espaço para trocas entre as crianças. “São festas narcisistas ou como dizem, atualmente, festas de celebridades, nas quais a rainha ou o rei é o aniversariante e os convidados, a plateia”.

Para a psicóloga, tudo o que é pronto não tem criação, não tem portanto sujeito. “As crianças são objetos. Isso torna esses momentos efêmeros e momentâneos. “Acredito que a celebração da vida pode e deve ser mais criativa”, destacou.

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