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Recuperação do rio Carioca inspira criação do programa Cidades, Salvem seus Rios

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02jul

Cerca de 570 professores se engajaram na ação, que impactou mais de 130.000 estudantes do Ensino Fundamental e Médio

MultiRio/Flavia Perez – 2020

O movimento de recuperação do rio Carioca envolveu escolas, jornalistas, formadores de opinião, comunidades, ambientalistas, artistas, cientistas, arquitetos, urbanistas e a sociedade como um todo, e se constituiu em um movimento da sociedade civil organizada: o “Carioca, o rio do Rio”.  Mas tudo começou com a tese da Educação com e através de causas. A motivação para a revitalização dos 5,6 quilômetros de extensão desse curso d`água partiu de uma inquietação da organização social planetapontocom e inspirou o desenvolvimento do programa Cidades, Salvem seus Rios, que, para aplicação nas escolas de Educação Infantil e Ensino Fundamental I e II da Rede Municipal de Ensino do Rio de Janeiro, recebeu o nome: Esse Rio é Meu.

Para entender a trajetória que permitiu a revitalização de grande parte do rio Carioca, é preciso voltar no tempo para conhecer um pouco da história desse curso d`água que passou a dar nome aos nascidos na cidade do Rio de Janeiro. A partir das descobertas históricas, culturais e ambientais que as investigações foram trazendo, o Carioca foi se transformando em sujeito, com passado, personalidade e identidade. Cerca de 570 professores se engajaram nessa ação e 137.900 estudantes de Ensino Fundamental e Médio foram impactados.

O Carioca nasce na Fonte do Beijo, nas Miríades, acima do trecho conhecido como Paineiras, no coração do Parque Nacional da Tijuca, e se acumula em um reservatório conhecido como Mãe D’Água para depois seguir seu curso pela favela dos Guararapes, Cosme Velho, Laranjeiras, Catete e Flamengo até chegar ao litoral, desaguando na Baía de Guanabara.

Desde os tempos da colônia, o Rio Carioca foi importante para o desenvolvimento da cidade, mas muito antes disso ele já era fonte de água potável para a população indígena que vivia por aqui nos séculos passados. Em 1642, para abastecer a cidade que crescia desde o Morro do Castelo, iniciou-se a captação de suas águas, trazidas por meio de calhas de madeira até o atual Largo da Carioca, que além de fonte era ponto de encontro da população. Com a mesma finalidade, os Arcos da Lapa foram construídos em 1750.

A partir de 1905, após obras de urbanização do prefeito Pereira Passos, o Carioca passou a correr por canais subterrâneos na maior parte de seu curso. Com o passar dos anos, o rio Carioca deixou de ser um patrimônio hídrico visível e integrado à paisagem para tornar-se uma referência só reconhecível em alguns trechos onde corre a céu aberto e, assim, foi sumindo dos olhos e das lembranças da população. O tratamento da água, necessário devido aos esgotos clandestinos jogados ao longo de seu curso, deveria resolver pelo menos as consequências, o que não aconteceu.

Diante desse cenário, entrou em ação a partir de 2014 um movimento de conscientização formado por alunos e professores de 27 escolas públicas e privadas situadas na bacia do Rio Carioca. Estimulados pela equipe do planetapontocom, que usando a metodologia de educar com e através de causas aplicou todo o seu conhecimento pedagógico na criação de ações educativas, os estudantes foram incentivados a embarcar em um processo investigativo que os levou a fazer estudos e caminhadas de redescoberta, partindo de uma causa comum: salvar o rio Carioca.

As características do bioma e de sua geomorfologia foram incluídas nos conteúdos curriculares gerando interdisciplinaridade. Um ano depois, o movimento ultrapassou os muros das escolas e passou a se articular com a sociedade a fim de unir esforços para revitalizar o Rio Carioca e conservar esse patrimônio ambiental, histórico e cultural. Estudantes, associações de moradores do Rio de Janeiro e entidades de classe decidiram aderir ao movimento, criando então a força de ação “Carioca, o rio do Rio”.

Parcerias e tombamento do Rio Carioca

A partir de uma reivindicação encaminhada aos órgãos públicos competentes contendo denúncias e a cobrança de soluções para problemas e crimes ambientais, a causa “Carioca, o rio do Rio” ganhou visibilidade na mídia e nas redes sociais, conquistando e a atenção de novos parceiros e organizações afins. Um requerimento solicitando o Tombamento do Rio Carioca foi encaminhado, em 2017, ao Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC), iniciativa que transformou o Rio Carioca no primeiro curso d’água tombado no Brasil.

Porém, antes de alcançar o tombamento do Rio Carioca, que garantiu de forma mais efetiva a sua conservação e preservação, inúmeras ações foram conduzidas. Assim que a causa “Carioca, o rio do Rio” permeou os diferentes públicos, os representantes do movimento constituiram uma comissão sociotécnica, que definiu os eixos temáticos a serem trabalhados e um plano de ação com divisão de tarefas. Logo em seguida, a comissão apresentou ao Parque Nacional da Tijuca e à Secretaria de Estado do Ambiente (SEA) uma Análise do Termo de Referência para o Projeto de Restauro do Reservatório da Mãe d´Água. Também foi realizado um estudo com dados sobre o impacto da degradação do Rio Carioca para a Baía de Guanabara, com proposta de ações de recuperação e saneamento de sua bacia.

Com informações e dados levantados pela comissão, os representantes do movimento participaram de congressos, seminários, reuniões, caminhadas e eventos com integrantes de movimentos culturais, educativos e ambientais, conquistando novos adeptos. Entre eles, SOS Mata Atlântica, WWF, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICM Bio), Sociedade dos Engenheiros e Arquitetos do Estado do Rio de Janeiro (SEAERJ), Consulado da Holanda, Guardiões do Rio, ONGs, entre outras organizações. 

Um documento, chamado Carta do Rio, foi consolidado, solicitando a proteção dos mananciais, prevenção de riscos, despoluição, educação e conteúdos interdisciplinares, recuperação do patrimônio histórico e cultural, replantio das margens, renaturalização e reclassificação do rio, gestão e monitoramento. Além disso, a comissão sociotécnica entregou um mapa de riscos de deslizamentos à Fundação Instituto de Geotécnica (GEO-RIO).

Para conter o avanço da degradação, também foi pleiteada a eliminação de captações irregulares do Parque Nacional da Tijuca, Complexo das Paineiras e Cristo Redentor e a substituição do fornecimento de água e esgoto do rio Carioca pela Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae). Os líderes do movimento solicitaram, ainda, a implementação de um programa de monitoramento da qualidade das águas e a classificação do trecho do rio Carioca que atravessa o Parque Nacional da Tijuca em uma classe especial, de acordo com a Resolução Conama 357/2005.

A condução de todas essas ações resultou na restauração de parte visível do Rio Carioca, em um período de um ano e seis meses, e em soluções que possibilitaram o saneamento, o tratamento do esgoto e o fortalecimento das atividades de reciclagem dos resíduos sólidos. A revitalização do reservatório da Mãe D’Água, que guarda preciosidades que datam de 1744, também se tornou realidade. E hoje, as águas do rio Carioca são potáveis e balneáveis na maior parte de seu trajeto a céu aberto, desde suas nascentes até os Guararapes, no Cosme Velho. 

O passo seguinte foi a transformação desse projeto sistematizado em política pública. À frente da causa “Carioca, o rio do Rio”, a organização social planetapontocom, que busca desenvolver soluções inovadoras para a educação pública brasileira, alcançou um avanço significativo por meio da lei, publicada em 2019, que dispõe sobre a criação do projeto Esse Rio é Meu no âmbito das escolas da Rede Municipal de Ensino do Rio de Janeiro. O projeto, que integra o programa Cidades, Salvem seus Rios, desenvolvido pelo planetapontocom, será implantado no ano de 2020 em 30 escolas municipais, primeiramente, seguindo em uma segunda fase para toda a rede.

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